quarta-feira, 14 de dezembro de 2011

Pardais, abutres e pavões

Ia começar este post por dizer que o Sporting é um clube mais inteligente que os outros, mas não vou, porque estaria errado. A palavra não é inteligente, é racional.


Quando digo isto não quero dizer que muito mais racional, ou até que essa racionalidade o distinga muito de Benfica e Porto. O Sporting é, como o Benfica e o Porto, um clube de massas, e as massas – não é segredo, nem à esquerda nem à direita, de extremo a extremo, pois ambos as manipularam, historicamente, sem escrúpulos – são estúpidas. Qualquer pessoa, por mais inteligente que seja, quando adere à lógica da massa, fica mais perto de tomar decisões estúpidas. É a natureza agregadora e degenerescente da massa. A massa é essencial para as revoluções mas não consegue governar.

A diferença é curta, mas é real, e quando as semelhanças são muito grandes a mais pequena diferença torna-se mais visível, e tem efeitos igualmente visíveis. A diferença entre a massa do Sporting e a massa do Benfica, por exemplo, é que enquanto a massa do Benfica elegeu um Vale e Azevedo (e não estou com isto a dizer que Vale e Azevedo foi o pior presidente que o Benfica teve nos últimos trinta anos) a massa do Sporting quase elegeu um Vale e Azevedo. Aquela diferença de algumas dezenas de votos entre Godinho Lopes e Bruno Carvalho serve bem para materializar a distância entre o poder da massa e o poder da racionalidade no Sporting (e, novamente, não estou a dizer que a escolha racional tenha sido a melhor para o Sporting, naquele momento, só estou a dizer que foi a escolha racional.)



O mito da diferença entre cultos e carroceiros que os sportinguistas gostam de invocar para estabelecer a sua diferença para os benfiquistas (apesar de, quando em dizem isso, eu costumar responder que, sim, que o Sporting é de facto diferente do Benfica, porque é mais pequeno) não só não é um mito como tem um fundo material de verdade. O Sporting foi fundado por gente educada numa altura em que havia 90 por cento de analfabetos em Portugal. É, originalmente, um clube de elites, e as elites, que têm mais acesso à educação (e, logo, são mais racionais), como diz um douto pensador nacional, «não morrem: casam entre si».
Obviamente, os filhos das elites, antes de voltarem a casar entre si, não têm problemas em ir para boas escolas, e assim sucessivamente, e em chegar às direcções do Sporting, e as políticas racionalistas que conduzem atraem, por sua vez, mais adeptos de disposição racionalista, e assim se forma uma cultura.


Isto não é imutável, repare-se. Aliás, considerando que Godinho Lopes só ganhou as eleições graças aos boletins de 20 votos dos velhotes, nada nos diz que se estas eleições se repetissem daqui a 15 anos, por exemplo, quando muitos deles tivessem morrido e os Juve Leos já tivessem filhos para votar e eles próprios já pudessem votar 20 vezes, as massas não tivessem uma vitória esmagadora sobre os racionais.


Esta conversa toda vem a propósito da actual equipa do Sporting.

A equipa do Sporting é um fenómeno, que merece uma visão muito mais criteriosa que o Choramingos Paciência, em conferência de imprensa, a balbuciar a sua felicidade por ver «tanta gente, do Chile, da Holanda, do Brasil, de Portugal, tão feliz por estar junta, e por trabalhar junta, com alegria, e é bonito, e foi bonito, e está a ser bonito», e tudo o mais que possa ser utilizado num argumento de telenovela mexicana falada em português de Leça da Palmeira e de beiça humedecida pela comoção.

É um fenómeno fruto da racionalidade pura, que dificilmente seria possível, na minha opinião, no Benfica, ou mesmo no Porto. O rasgão com um passado muito recente (de apenas dois meses antes) foi de tal forma violento que não se pode justificar apenas com a miserabilidade desse passado. Requereu, mais do que ousadia, uma espécie de racionalidade colectiva que fez com que praticamente todos os sportinguistas, meia-dúzia de dias depois de Luís Duque tomar posse como presidente de facto do Sporting, com Carlos Freitas como vice-presidente, facilmente aceitassem a política de terra queimada.

A forma fácil como, do pé para a mão, sem contestação, sem ondas, Duque enterrou os dez anos de propaganda «pela Academia» em que o Sporting estava formatado e criou um novo paradigma «pelo resultado» não teria passado, no Benfica, por exemplo, sem que dezenas de notáveis, ex-jogadores, bandos imensos de papagaios e todas as «forças vivas» do clube tivessem botado discurso e opinião, arrastando o processo deliberatório ao longo de semanas, meses, anos, sobretudo se os resultados tivessem sido tão maus como os que foram os do Sporting no princípio do campeonato. Chama-se a esta costela benfiquista democracia, é certo. Se se acredita na democracia ou não, é com cada um. (Eu, pessoalmente acredito – não acredito é na democracia do curto prazo, do sol na eira e da chuva no nabal…).


A base racional da equipa do Sporting é a famosa «linguagem do futebol», que, como todos sabem, é universal – ainda que a sua universalidade seja facilmente esquecida quando os resultados são maus e se apela ao patriotismo como solução para o que geralmente não passa de mera falta de profissionalismo.

A «linguagem do futebol» é uma linguagem química, e todo o projecto do futebol do Sporting para os próximos anos – que serão, julgo eu, decisivos para manterem o Sporting como um dos três grandes e não como terceiro maior – por mais racional que fosse na escolha criteriosa dos jogadores, assentava nessa química: a forma como um grupo de vinte jogadores que nunca tinham jogado juntos se entendesse em conjunto, de culturas futebolísticas por vezes mesmo diametralmente opostas, e fosse capazes de formar, regularmente, um onze não só funcional como capaz de potenciar os talentos individuais e de os tornar maiores do que o que valem individualmente.


Como tantas vezes aconteceu ao longo de uma história que é, geralmente, sádica (e relativamente trágica, dentro da sua grandeza), o Sporting foi feliz na primeira fase da construção dessa felicidade. A equipa do Sporting não engana. De facto, tem um grupo de jogadores quimicamente brilhante e de grandes possibilidades. É uma grande equipa, em potência, a que o Sporting criou, e sobre a qual pode construir. Não tenho muitas dúvidas em declarar, com quase um ano de antecedência, que o Sporting está em condições de ser o meu principal candidato ao título do ano que vem. Mas…


Mas o primeiro milho é dos pardais. Há sempre coisas que podem correr mal. Além do que pode suceder a qualquer equipa de futebol – lesões em momentos decisivos, jogos fulcrais que acabem decididos para o lado errado, a fragilidade política que se possa repercutir em termos de arbitragens, etc – no caso do Sporting há dois factores que têm de ser, forçosamente, considerados.


O primeiro é o Benfica.
O Benfica é, ao mesmo tempo, a grande força e a grande tragédia na vida do Sporting. Sem o Benfica o Sporting nunca se teria tornado tão grande como é – mas enquanto existir Benfica ninguém acredita (nem os próprios sportinguistas, no fundo) que o Sporting possa, algum dia, vir a ser o clube de Portugal, ou sequer o maior clube de Lisboa. Não é conversa de benfiquista – é conversa de historiador (que não sou, entenda-se). Há, desde há noventa anos, uma mão invisível que, a cada momento, parece manobrar o destino dos dois clubes (às vezes até pela própria empatia entre os clubes, como quando o Benfica jogava no Campo Grande por cordialidade sportinguista) de maneira a não permitir que o Sporting se torne maior que o Benfica. (Já melhor, é sempre subjectivo.)


O segundo é o próprio sucesso.
Diz-se que os ignorantes são burros e acreditam (eu sei que sou ignorante, que não sou assim tão burro mas que acredito…) e que os inteligentes – os racionais – acabam por dar em cínicos.
O lado lunar do Sporting é precisamente esse cinismo que é um traço da racionalidade. A clivagem entre elites e massas, no Sporting, é suficientemente clivada para provocar implosões, mesmo quando – sobretudo quando – os resultados são positivos. Quando as coisas correm mal, o clube fica entregue (ou quase), para o bem ou para o mal, às Juve Leos, que se for preciso até apresenta jogadores em jantares. Quando correm bem – sobretudo se correm bem –, quando há carninha para comer e penas para mostrar, aparecem os pavões, que pensam, realmente, que o clube e o seu sucesso é, antes de mais, deles.


Esta equipa-maravilha que o Sporting está a construir (e não estou a ser irónico) não terá problemas enquanto não tiver o brilho dos campeões – mas ficará à mercê dos abutres que agora estão pousados nas catacumbas do estádio assim que elevar o clube à altura do lugar que, no fundo, é o seu.


Cinismo?

Talvez…

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