quarta-feira, 19 de junho de 2013

Até sempre

Ainda me custa a crer que uma paginazita que criei na Internet, há cerca de dois anos, para desabafar sobre futebol, e escrita nos intervalos da minha vida real, tenha ultrapassado as cem mil visitas de pessoas que não me conheciam. Agradeço-vos a atenção, pedindo perdão pelos excessos, e gabo-vos a paciência.

De qualquer forma, hoje é dia de informar que, por razões profissionais, vou suspender a minha actividade na blogosfera por tempo indeterminado. O tipo de intervenção que vou mantendo aqui (e que iria manter, porque acho que o blogue serve para isto, e não para uma espécie de actividade acrítica, politicamente correcta e estéril) seria incompatível com os projectos pessoais que estou neste momento a começar.

Se alguém estiver disposto a isso, e tiver feitio para tal, que deixe ligado um aviso de actividade, no caso de, um dia, ela ser retomada. Mas não posso garantir que isso aconteça, pelo menos nos próximos meses/anos.

É verdade que, quando comecei a escrever no blog, a minha intenção era esmiuçar toda a coisa da bola, mas, inevitavelmente, acabei por esmiuçar sobretudo o Benfica, por motivos passionais - como se costuma dizer daqueles crimes de amor.
Devo dizer que isso seria inevitável.
De facto, os últimos dois anos, com todas as suas vicissitudes, apenas serviram para me assegurar de uma ideia que tenho desde há muitos anos - desde ainda antes do clube ter caído no fundo do poço: a de que o Benfica joga sozinho.

O Benfica, em Portugal, joga consigo próprio. A ideia de que o seu sucesso ou insucesso depende dos outros é uma falácia, que os próprios adversários acabam por desmascarar, ano após ano. Esta época foi um excelente exemplo disso.
A atenção dada às derrotas do Benfica, por portistas e sportinguistas, supera esmagadoramente a atenção dada aos sucessos e insucessos dos seus próprios clubes.

No dia em que o Benfica conseguir mobilizar todos os seus recursos culturais, materiais e humanos, não só continuará a ser o maior como tornará a ser o melhor de Portugal, independentemente do que os seus rivais internos conseguirem fazer – ou seja, regressará ao ponto em que estava no momento em que se tornou maior que o país e foi obrigado a consumir-se a si próprio para continuar a viver.
Desta vez, contudo, não encontrará as mesmas condicionantes do tempo anterior. Desta vez, quando tiver de encontrar alguém a quem superar, não encontrará apenas sombras dentro de fronteiras fechadas, mordendo-lhe os calcanhares, mas gigantes, lá fora, num mundo em que as fronteiras deixaram de existir.

Algo me diz que, da próxima vez que voltarmos a falar, não estaremos à procura de uma forma de ganhar ao Porto, mas ao Barcelona.

Até esse dia, um abraço sentido a todos.

Hugo

terça-feira, 4 de junho de 2013

Jesus (2) – A Falsa Escolha de Vieira

Não tenho dúvidas de que Pinto da Costa está a fazer todos os possíveis para convencer Jesus a dar o dito por não dito e a levá-lo para o Porto.
Digo «está a tentar» e não «tentou» porque, enquanto o Vieira e o Jesus não se sentarem na sala de imprensa a assinar contrato o Jesus ainda não é o treinador do Benfica para a próxima época. Só por isso é que o Porto ainda não tem treinador. Só por isso é que se está a prolongar a ópera bufa do Vítor Pereira (a quem, de certeza, já arranjaram trabalho), fazendo de conta que a renovação está em cima da mesa.

 Pinto da Costa vai levar a tentativa até ao minuto anterior do anúncio da renovação de Jesus porque o que lhe interessa, verdadeiramente, não é contratar Jesus, mas sim derrubar Vieira, que teve o mérito (dê-se-lho) de se constituir como seu único verdadeiro adversário, em 30 anos, além de João Rocha, embora este numa altura em que Pinto da Costa ainda era apenas um projecto daquilo em que se tornaria.

A escolha de Vieira entre renovar ou não renovar com Jorge Jesus é falsa porque não há escolha. O fim do mandato de Vieira como presidente do Benfica será determinado pelo momento da saída de Jesus, e esse vínculo não está a ser assumido agora.

Há dois anos, no final da segunda época, Vieira fez o que um bom presidente faz: contra o usual coro dos insatisfeitos, que fazem todas as suas aparentemente elaboradas reflexões, na verdade, a partir dos resultados

(reconheço sempre a qualidade e a validade de um comentário pelo distanciamento que apresenta em relação aos resultados. Um mau comentador, como o Rui santos, é aquele que é capaz de mudar radicalmente a sua análise de uma semana para a outra quando os resultados mudam)

manteve o treinador. Isso, só por si, já foi uma evolução na história do Benfica dos últimos 30 anos.

 O ano passado, sim, foi decisivo.

Jesus tinha mercado, o Porto já não constituía uma ameaça – uma vez que Pinto da Costa não conseguiria despedir Vítor Pereira nessa altura, tendo contrato, para o trocar pelo treinador a quem ele tinha ganho, por mais voltas que desse, sem passar por fraco –, Jesus tinha acabado de revelar todas as suas fragilidades como gestor do plantel, havia uma larga maioria de adeptos que já não o queriam, o ciclo normal para o futebol português estava claramente esgotado e, sobretudo (de um ponto de vista de uma boa direcção desportiva o factor mais importante de todos) a equipa deixara de evoluir.

Foi nesse momento, mesmo que não o tenha percebido bem, que Vieira abriu a porta à grandeza – que pode ou não acontecer, sejamos claros, e aqui sim, os resultados terão de falar, porque não há grandes clubes sem resultados no final dos projectos – vinculando o seu legado desportivo como presidente do Benfica ao desempenho do treinador que assumiu.

Diga-se, em abono da verdade, que Jesus foi o primeiro treinador que Vieira escolheu desde o dia em que entrou no Benfica a última pessoa que também tinha escolhido: José Veiga. Depois disto, este e Rui Costa não foram capazes de manter ou alcançar o sucesso. Aonimpôr a contratação de Jesus ao Braga, Vieira começou a atar-se. O ano passado acabou de dar o nó.

O erro de Vieira, no ano passado, não foi ter tomado a decisão. Apesar de eu ter sido contra ela – não por causa dos resultados mas porque, na minha opinião (como acho que ficou provado), a equipa estagnaria em termos de evolução, o que a levaria, muito provavelmente, a não alcançar resultados – a decisão de manter Jesus era aceitável, e até a mais óbvia, ainda que não fácil.

O erro de Vieira, ou por não ter compreendido plenamente a situação (afinal, havia décadas que um treinador não começava uma quarta época no Benfica, muito menos sem ganhar nada de jeito há duas épocas) ou por medo e um excesso de tacticismo que lhe terá retirado audácia, não foi ter mantido o treinador, mas, logo aí, não ter assumido o seu vínculo a ele, e não lhe ter renovado o contrato por mais três anos. Porque, na prática, ao mantê-lo o que estava era a fazer isso mesmo, só que sem contrato. Com a desvantagem de que, dessa forma, teria matado a ameaça de Pinto da Costa à nascença.

Não foi preciso chegar à semana antes da final da Liga Europa e à afirmação de que «Jesus é o treinador do meu projecto» para se saber que isso é verdade, e que Vieira, na verdade, não tem escolha, nem sequer tem margem negocial. Quando eu lia que ele queria cortar o ordenado ao Jesus, pensava: «Só não o vais ter de aumentar se ele não quiser.» O Jesus é um animal de jogo, tem os bluffs todos, tem tomates, e manipulou o Vieira direitinho, até ao ponto d éter a faca e o queijo na mão, mesmo sendo o elo mais fraco (um bocado como o Portas com o Passos Coelho…).

O fim de Jesus vai determinar o fim de Vieira, quer ganhe quer perca.

Se ganhar, vai até ao fim, que será determinado por Vieira (e temos de começar a pensar nesta coisa da manutenção ou não do estado de emergência que justifica a permanência de Vieira, porque, independentemente do valor do homem, a verdadeira força do Benfica é a democracia …).

Se perder, sai, e Vieira, mesmo ficando, não dura mais de uma época depois disso.

Por um lado, porque o fracasso desportivo e pessoal será demasiado pesado.

Por outro porque, apesar da fragilidade da estrutura económica dos clubes grandes em Portugal (passivos monstruosos, sobredependência de receitas extraordinárias), a percepção que passa para os benfiquistas é de que o problema financeiro que levou à eleição de Vieira está resolvido.

O clube tem um volume de receitas ao nível dos vinte melhores da Europa, enveredou pela inovação, como é exemplo a Benfica TV e a transmissão dos jogos, e subiu de divisão ao nível da venda de jogadores. Perante a fragilidade do Sporting, a subida ao pote 1 da Champions (que se vai manter, até porque, em relação ao Porto, por exemplo, este terá de voltar a ganhar a Liga Europa na próxima época para não ser ultrapassado), e a manutenção de três lugares de acesso à Champions para os próximos quatro/cinco anos, será quase impossível o clube voltar a cair. E isso, mesmo que isto seja cruel, será verdade quer Vieira continue quer não – algo que os futuros candidatos (que aparecerão em caso de fracasso desportivo, ninguém o duvide, e não serão andorinhas do Norte) facilmente demonstrarão.

Aliás, interpreto a pressão por parte dos notáveis do Benfica para o despedimento de Jesus como início da fase estratégica pré-eleitoral, tendo eles a exacta percepção de que a porta por onde Jesus sairá será a mesma por onde Vieira vai sair.

Esta é a natureza competitiva da democracia, é assim que os mais aptos têm a sua oportunidade e não é por isso que os clubes ficam mais fracos. Alongo prazo, aliás, esse factor democrático é a sua verdadeira força, independentemente das fases degenerativas. Olhem para o Barcelona, para o Real Madrid, para o Manchester United.

Eu,pessoalmente, não tenho medo do pós-Vieira. Acredito no Benfica real, no Benfica do povo, da opinião, da união, do colectivo. Esse Benfica do regime que os portistas querem inventar não existe a não ser na cabeça deles, e os benfiquistas não devem ter medo desse fantasma. A saída, em breve, de Vieira, demonstrará a diferença entre um clube que vive realmente na vontade das pessoas que o compõem e os clubes que só se realizam como manifestações pessoais.

Afinal, é muito mais fácil de colar regimes a clubes que ganham durante cem anos do que aceitar a evidência de que, em cem anos, só se ganha com um presidente.

Da mesma maneira que é fácil falar em regimes e difícil de aceitar que Pinto da Costa está quase há tanto tempo no Porto como Salazar esteve no Conselho de Ministros.

(Próximo post: Jesus (3) – Ponto de Horizonte)

sábado, 1 de junho de 2013

Jesus (1) – o Melhor Ano


Antes de mais nada, um acto de contrição: sinceras desculpas por alguns excessos no último post. É da azia. Peço que entendam. Não tem sido fácil.
Posto isto…

Ponto 1

Jorge Jesus fez este ano a sua melhor época no Benfica. Melhor do que a primeira. O título ganho na primeira época foi resultado de uma combinação de qualidade e oportunidade, com maior pendor para a segunda.

Em 2009 Jesus entrou no Benfica nas melhores condições possíveis para um treinador com as suas características:

– Expectativas muito baixas, considerando os resultados nas temporadas anteriores, que situavam o Benfica no terceiro lugar do ranking nacional, a ameaçar descida para o quarto perante a subida do Braga, e a competir na Liga Europa, o que permitiu evitar alguma derrotas comprometedoras na decisiva primeira metade da época, em que a equipa estava em fase de construção anímica;

– Um plantel com um valor muito acima dos resultados recentes, mal explorado e habituado a um nível de exigência próprio de uma equipa do meio da tabela. A um grupo de jogadores que rendiam metade do que valiam, ou mesmo emprestados (David Luiz, Cardozo, Di Maria, Fábio Coentrão, Aimar) foram somados jogadores como Javi Garcia, Saviola ou Ramires (o melhor médio que passou pelo Benfica nos últimos quatro anos). O ponto forte de Jesus é precisamente o melhoramento do desempenho individual dos jogadores;

– Um Porto acomodado ao tricampeonato e demasiado seguro da sua superioridade, que o levou a menosprezar o campeonato e a chegar ao Natal já em terceiro lugar.

O sucesso da primeira época, em termos de resultados, deveu-se, mais do que a uma qualidade de jogo que, na verdade, nunca existiu realmente, à dinâmica de vitória criada a partir da conjugação destes três factores, sustentada no factor surpresa. Pela primeira vez em muitos anos o Benfica apareceu a jogar como uma equipa grande, a apostar no ataque, com um estilo rápido, para o qual os adversários (Porto incluído) não estavam preparados, o que lhe permitiu fazer uma boa primeira metade do campeonato e ganhar a vantagem necessária para ser campeão. Os jogadores passaram de render 50 por cento do que podiam para render 80 por cento (e só não renderam nem rendem mais porque, daí para cima, só lá vão com a ajuda do colectivo).
Tirando isso, o Benfica campeão, que foi eliminado da Taça de Portugal em casa pelo Guimarães e que não passou dos quartos-de-final na Liga Europa, ganhando uma Taça da Liga a um Porto por essa altura moralmente destruído, era uma equipa que defendia relativamente mal, sem um jogo colectivo definido, incapaz de jogar em mais de uma velocidade e de se proteger, com grandes dificuldades para aguentar os jogos de alta pressão – ganhou ao Porto por 1-0, na Luz, com um golo em fora-de-jogo e cheíssimo de sorte, ao Braga, também por 1-0, com um golo a poucos minutos do fim, e perdeu nas Antas e em Braga. Jogando a Champions e com um Porto normal, nessa época, o Benfica, que chegou às últimas três jornadas já sem gasolina no tanque, não teria sido campeão.

A segunda época foi a do deslumbramento, natural para um clube que ganhou sem saber muito bem como depois de muito tempo de frustração; para um presidente que julgou que aquele título mudava a maré histórica; para um treinador habituado a treinar equipas do meio da tabela que, no primeiro ano num grande, se convence de que tinha tido sempre razão e que era fácil ser campeão (muito alimentado pelas bacoradas e pela falta de sentido crítico quer dos adeptos quer dos vendedores de jornais); para um grupo de jogadores que nunca tinha tido verdadeiro sucesso desportivo e que também se deixou convencer de que jogava muito melhor do que realmente jogava.

A super-época do Porto não esteve directamente relacionada com o lado negro da força que a Luz revelou nesse ano. Ajudou a desmoralizar (sobretudo com aqueles 5-0), mas não foi por causa disso que o Benfica falhou. Quando levou 5 nas Antas, à 9.ª jornada, já o campeonato estava perdido havia muito. Não era preciso o Porto do Villas-Boas: o Porto de Jesualdo teria ganho facilmente aquele campeonato.

A época da verdade do Jesus, no Benfica, foi a terceira. O nível de pressão era o normal, o Porto partia também a um nível normal, a equipa estava estruturada, o tipo de jogo estava definido, competiu-se na Champions, o Jesus e o Vieira tiveram tempo e espaço para planificarem tudo o que havia a planificar, desde que soubessem.

E o que é facto é que tudo o que é frágil e tudo o que é forte na liderança técnica de Jesus ficou claro como água durante a época passada. Já nem é preciso, julgo eu, bater mais no ceguinho. O Jesus implementa um estilo ofensivo, rápido e pouco pensado no ataque, pouco colectivo, em que os jogadores estão bastante conscientes das suas funções individuais e geralmente indiferentes à necessidade do jogo em conjunto, que não é capaz de gerar soluções de equipa de forma sólida, sobretudo contra as melhores equipas. Isso deixa demasiada pressão no único mecanismo defensivo que, actualmente, o Benfica executa bem: o fora-de-jogo. Todos os outros processos defensivos (incluindo a posse de bola defensiva) são abaixo da média para uma boa equipa europeia.

O tipo de jogo do Benfica de Jesus está formatado para ganhar 95 por cento dos jogos contra equipas de nível médio e baixo, permite-lhe competir (embora com pouca segurança) contra equipas de nível médio-alto, e dá-lhe muito poucas hipóteses de ganhar jogos de alta pressão. Por exemplo, se retirarmos da equação os jogos para a Taça da Liga, em 11 jogos contra o Porto o Jesus ganhou um, em que o Saviola marca o golo numa posição de fora-de-jogo muito mais clara que a do Maicon no ano passado.

Este ano a prestação de Jesus foi claramente melhor que no ano passado. Fez melhor no campeonato, nas taças europeias e na Taça de Portugal, partindo de uma situação de pressão muito maior, dada a forma como perdeu o campeonato no ano passado, e perdendo o seu meio-campo no início da época. Fez o que sabe fazer melhor (trabalhar individualmente jogadores, o que lhe permitiu inventar Matic, Enzo, Melgarejo e André Almeida). Teve a ajuda das lesões e dos castigos na gestão do plantel, mas, com muita sorte à mistura, soube levar um barco curto até duas praias – campeonato e Liga Europa – praticamente sem soluções para além dos 12/13 homens de campo que iam jogando.

Em resumo, há três razões para alguns (muitos? poucos?) benfiquistas que antes gostavam do Jesus acharem agora que ele não deve renovar com o Benfica, e duas delas não fazem sentido:

1.ª – Porque os resultados foram maus.
Não faz sentido. No ano em que foi campeão, o Benfica fez 76 pontos. Este ano fez 77. Foi o melhor campeonato do Jesus no Benfica, a melhor prestação europeia do Jesus no Benfica e a primeira presença na final da Taça de Portugal. Perdeu a Taça da Liga. Irrelevante. Não vejo sentido em basear a decisão em renovar ou não renovar contrato com o Jesus na relação contexto/prestação/resultado precisamente quando o Jesus tem o seu melhor desempenho.

2.ª – Porque estão frustrados.
Tão simples como isto. Não faz sentido nenhum. Basear uma decisão destas num estado de alma foi o que levou o Benfica ao deserto durante vinte anos. Nesses vinte anos houve decisões baseadas sobre estados de alma que estavam certas e outras que estavam erradas, mas o que matou a grandeza do Benfica não foram as decisões em si, foi a lógica. É um princípio tão errado, mas tão errado, que quase que vale a pena tomar a decisão que vai contra o estado de alma só para estabelecer o princípio de que o estado de alma, como factor de decisão, deve ser contrariado. Não chego a tanto, mas mandar o Jesus embora só porque estamos zangados com ele é demasiado estúpido para ser verdade. Parece que, por aí, e pelo que se lê, já ganhámos qualquer coisa em ter um presidente que sabe esperar e parar para não decidir em cima de emoções. Parece…

3.ª – Porque já perceberam que o Jesus não tem estofo nem qualidade para ser o treinador de que o Benfica precisa.
Esta é a única razão que pode fazer sentido, mas não é inequívoca. Eu apontei esta razão antes do final da época passada, quando se falava da possibilidade de ele sair. Houve quem concordasse e quem discordasse. Apontei as minhas razões e vou falar delas outra vez no terceiro e último post que dedicarei a este tema.

No entanto, adianto duas ideias:

– em primeiro lugar, que não há nenhuma boa razão para que quem defendia que o Jesus devia continuar, no fim da época passada, defenda agora que ele deve sair. Esta época foi uma réplica da última, mas para melhor em todos os sentidos excepto no tipo e qualidade de jogo, que são iguais;

- em segundo lugar, que na altura eu defendi o seguinte: esta é a altura de ou trocar de treinador, por uma boa razão (para acrescentar à equipa soluções que ele, claramente, já não conseguia, nem vai conseguir, agora, dar); ou de assumir o treinador, com todas as suas qualidades e os seus defeitos, como inerente ao projecto e, nesse caso, não apenas não o despedir como, logo nessa altura, somar-lhe mais quatro ou cinco anos ao contrato.

Acrescento, já agora, que, se o Vieira tivesse feito isso no ano passado, e renovado o contrato até 2016 ou 17, não digo que este ano a questão da continuidade do Jesus não tivesse existido (porque existe sempre num clube como o Benfica, em que os resultados podem mudar tudo em dois minutos), mas os resultados poderiam ter sido diferentes, uma vez que a distracção permanente sobre «o futuro de Jesus» e a pressão acrescida quase que desapareceriam.

(Próximo post: Jesus (2) – A Falsa Escolha de Vieira)

quarta-feira, 29 de maio de 2013

Os que desistem


Um clube vencedor não depende dos resultados. Porque todos os clubes perdem, e isso significaria que, quando perdesse, esse clube seria, apenas, um clube perdedor.

Um clube realmente vencedor ganha nas vitórias e ganha com as derrotas.

Quando um jogador (o Rodrigo) diz que tem de se aprender com os erros depois de perder um campeonato, uma Liga Europa e uma Taça de Portugal de forma perfeitamente cruel, e nunca vista, esse jogador tem dentro de si a doutrina dos verdadeiros campeões. É um gigante em potência. É dessa massa que se fazem os clubes vencedores.

Num clube vencedor não há demissões. Nem de cargos nem de responsabilidades. Demissão é apenas uma palavra cara para desistência. Um eufemismo, inventado por pessoas fracas e orgulhosas, que não têm nem a força suficiente para lutar nem a humildade suficiente para assumir que desistiram, e que assim arranjam uma palavra para disfarçar ambas as fraquezas.

Num clube vencedor os elos mais fracos não são cortados e deitados fora – são fortalecidos, com trabalho e inteligência. Num clube vencedor, quando há um problema, não se faz de conta que não há problema – enfrenta-se o problema e trabalha-se para encontrar uma solução.

Coragem para assumir as deficiências, humildade para aprender, inteligência para encontrar um caminho. Estas é que são as condições para o sucesso. Não é «ganhar», como dizem os grunhos, armados em pragmáticos. Ganhar é sempre uma consequência, nunca uma causa. Ganhar nunca é um princípio. Ganhar não é o princípio de nada, é sempre um fim, um resultado. Resulta de alguma coisa, e essa coisa não é apenas uma forma de ganhar, mas uma forma de viver.

Um clube vencedor não compra campeões: encontra a matéria-prima e faz campeões.

De um clube vencedor as pessoas só devem sair em três situações: ou quando se revela que não têm a inteligência, a humildade e a coragem que está na massa dos vencedores; ou quando atingiram o seu limite de aprendizagem; ou quando têm a oportunidade de ingressar num clube que lhes dê melhores condições para exprimir o seu carácter de vencedor.

Se não for assim, é um erro. É uma demissão.

Num clube vencedor não há negações. Não se faz de conta nem se vira a cara. Assume-se.

Um clube vencedor não acredita na sorte, e muito menos perde tempo a discutir maldições ou bruxos de algibeira.

Um clube vencedor não crucifica um guarda-redes nem faz dele bode expiatório de uma época porque deu um mau pontapé na bola.

Um clube vencedor tem de ir muito mais fundo do que isso.

Vamos pegar neste exemplo do Artur, porque é uma excelente oportunidade para os crédulos benfiquistas meterem a mão na consciência e aprenderem alguma coisa com a derrota.

Depois do Benfica-Porto da primeira volta o treinador do Porto aareceu na conferência de imprensa a dizer que o Benfica tinha jogado em pontapé para a frente. Caíu-lhe em cima o Carmo e a Trindade. Os crédulos benfiquistas, ofendidíssimos, e liderados pelo seu treinador orgulhoso e ignorante, chamaram-lhe tudo, com um único objetivo: o de negar a evidência.

A evidência é que o treinador tinha toda a razão. Na segunda parte desse jogo, que foram os 45 minutos realmente decisivos do campeonato, este Benfica, construído durante três anos para conseguir responder naquele momento em que tinha de ir buscar o título, passou o tempo a atrasar a bola para o guarda-redes, que tinha de a chutar para a frente – e isto, repare-se, já depois de, na primeira parte, o Artur ter oferecido a bola ao Jackson para marcar o golo, o que prova que, se o Benfica voltou a insistir naquele tipo de jogada durante o resto do jogo, não foi porque quis, mas porque NÃO CONSEGUIA FAZER MELHOR.

Nesses 45 minutos decisivos ficou claramente demonstrado qual era a melhor equipa, quem jogava à campeão e quem iria ganhar o campeonato (e com todo o mérito) se nada mudasse. Quando o  jogo acabou, falou-se da fífia do Artur, negou-se todas as evidências, eliminou-se, à partida, o assumir dos erros que permitiria corrigi-los e evoluir, e o que é que aconteceu? Tudo continuou na mesma.

Eu disse isto. Houve quem me chamasse «exigente» para não me chamar estúpido.

Algumas semanas depois, no rescaldo de uma vitória «moralizadora» sobre o Moreirense, voltei a apontar o defeito. O Benfica não jogava à campeão. Depois de dar a volta ao jogo, a ganhar 2-1, começou a fazer aquilo a que o Jesus chama de «gestão do resultado»: trocar a bola entre os defesas, a meio-campo, e, ao mínimo entrave por parte do adversário, a atrasar a bola para o guarda-redes, que a chutava para a frente e a dava, basicamente, ao Moreirense, que, com espaço para avançar, até parecia uma equipa de futebol. E assim se institui uma cultura de facilitismo e desresponsabilização numa equipa que, supostamente, só é construída para responder a momentos de pressão - ou seja, a ambientes em que nunca se deve esperar facilidades e em que não épossível fugir à responsabilidade.

A coisa seguiu o seu processo natural. Teve o seu auge no jogo com o Sporting. Os mesmos pecados, a mesma incapacidade de construir jogo a partir da defesa sem ser em segundas bolas (uma incapacidade que existiu sempre no Benfica de Jesus e que ele nunca conseguiu e provavelmente nunca conseguirá corrigir, porque não admite que ela existe), bola para o Artur, pontapé para a frente, confusão, bola para os outros, o jogo entregue. O Gaitán inventa um golo. O árbitro defende outro. O resultado é bom. Conclusão, segundo o Berardo e todos os grunhos? «Tudo está bem quando acaba bem.»

É claro que a coisa nunca acaba.

Vêm as eliminatórias da Liga Europa. «Gestão do resultado», bola para os outros, dez bolas nos postes. Mas o resultado sai bem. «Grande equipa, campeões, grande treinador».

Sobe a pressão.

Chega o Estoril. O Benfica, incapaz de ter a bola, cansado e vulgarizado. O Estoril, uma equipa banal, parecia o verdadeiro campeão. «Se aquela bola do Maxi tivesse entrado…» Foi azar. Certo…

Vem o Porto. Vem o Kelvin. Vem a maldição, a bruxa, o azar. Azar? Azar, quando se começa a ganhar 1-0 o jogo do título no campo de um adversário que tinha de vencer?

Nas Antas, houve de tudo menos azar. Houve, sobretudo, novamente, uma equipa que não sabe ter a bola. Houve a «gestão do resultado», que acabou com o resultado do costume.

Azar, por sofrer um golo aos 92 minutos? Meus caros, perdoem-me a crueldade, mas se há momentos em que a sorte e o azar menos influência têm num resultado é quer nos penáltis quer a partir dos 85 minutos de jogo. Aí o que há é capacidade de resposta à pressão, quer mental quer funcional.

Não foi azar, foi aselhice. Uma equipa que jogasse como campeã  não teria sofrido aquele golo, pela simples razão de que aquele remate nunca teria existido. Aos 92 minutos do jogo do título, com um campeonato no bolso, não há golos, nem há remates, nem sequer há perigo. Há equipas que sabem o que têm de fazer para ganhar, e equipas que não sabem.

Mas ficámo-nos pelo azar, claro. Afinal, o povo sofre, é preciso mimá-lo.

Seria quase desumano aceitar que se tinha perdido o campeonato por demérito. Não, isso não. Seria um exercício de humildade e sensatez praticamente impossível.

Como tal, vem o Chelsea e vem outro golo ao minuto 92. Foi o quê, então? Foi o Guttmann, pois claro. Foi azar. Foi o destino. Foi o guarda-redes que não saíu, o defesa que não marcou, o outro que não saltou, foi tudo aquilo que era fácil de explicar às crianças que choram e aos idiotas que acreditam.

Permitam-me, então, caros crédulos, dizer-vos que o que foi foram os cornos dos vossos ricos paizinhos.

O que foi foi um canto que nunca devia ter existido, porque aos 90 minutos uma equipa vencedora não dá cantos, não dá hipóteses, e sobretudo não dá a bola.

Não interessa. Morremos na praia, é verdade, mas, como referiu o grande líder, houve quem tivesse morrido a subir para o barco. Porreiro, pá. Somos grandes, porque há alguém pior do que nós. É sempre uma bitola aceitável quando o cérebro não passa de um apêndice do aparelho digestitivo

Excelente.

«Pelo menos ganhamos a Taça.»

Vem a Taça. Regressa a «grande equipa», incapaz de controlar um jogo perante uma formação de ex-juniores dispensados das equipas a sério. Vem o golo, caído do céu aos trambolhões. Tudo bem, tudo seguro. Vem o minuto 80, um pepino do Artur, um golo em fora-de-jogo e depois, como o futebol não é cruel nem nada, um ressalto e a Taça vai com os porcos.

A culpa há-de ser de alguém. Do Artur, do Cardozo, do árbitro, do Jesus – vá-se lá saber porquê uma vez que a «gestão do resultado» no momento em que o Artur entrega a bola ao tipo do Guimarães é a mesma «gestão do resultado» que, durante quatro anos, o Jesus tem ensinado a equipa a fazer, e ainda uma semana antes batiam-lhe palmas.

Eu, pessoalmente, não sei se o Artur joga mal com os pés. Eu acho que o Artur joga tão mal com os pés como qualquer guarda-redes, e que por isso é que é guarda-redes e não avançado. Mas há uma coisa que eu sei: ponham qualquer jogador – qualquer jogador, mesmo o Messi – a fazer vinte pontapés para a frente, e desses vinte há sempre um ou dois que saem pepinos. Se for um guarda-redes, mais.
O que me preocupa, a mim, como observador que não percebe nada de futebol, não é se o Artur joga bem ou mal com os pés, nem se o fiscal-de-linha errou de propósito ou sem querer.

A mim, o que me interessa é o que leva o pior pontapeador de uma equipa como a do Benfica, que deve jogar para ganhar tudo e está em vantagem durante 80 por cento do tempo, a ser obrigado a fazer vinte pontapés para a frente durante um jogo, sabendo-se, pela estatística, que noventa por cento dessas bolas vão acabar na posse do adversário.

Os crédulos nem sequer pensam nisto. Não querem pensar. Preferem partir do princípio que a vitima (o Artur) é, na verdade, o culpado. E é por isso que o Benfica é um clube perdedor.

O Benfica não é campeão porque não conseguiu os resultados?

Errado.

O Benfica não é campeão porque não joga como um campeão, não pensa como um campeão e não vive como um campeão.

E, como tal, é apenas justo que não seja campeão.

O verdadeiro pecado do Benfica não é o Artur não saber chutar, nem o Jesus não saber treinar. O verdadeiro pecado do Benfica é os benfiquistas aceitarem como normal o vazio de pensamento, a ausência de sensatez e de humildade, porque ao fazê-lo estão a entregar o seu clube ao sabor dos resultados, e a deixá-lo no meio da rua.

Ao fazê-lo estão a demitir-se.

Um clube vencedor não se faz de quem desiste.

domingo, 26 de maio de 2013

Nós, pecadores


E agora, que tudo acabou, é altura de falar.

Durante muito tempo, desde que me lembro de ver um jogo de futebol com alguma capacidade crítica, pensei que o Benfica me fazia ser pessimista. Quando o Benfica jogava, eu via uma coisa e, depois, lia os jornais, falava com outros benfiquistas, e ouvia tudo ao contrário.

Onde eu via falta de colectivismo os outros viam «grande virtuosismo» individual. Onde eu via jogadas esporádicas os outros viam «golos de antologia». Onde os outros viam «grandes equipas» eu via campeonatos ganhos pela porta do cavalo, por equipas medíocres em condições excepcionais.

Isto aconteceu tantas vezes que eu comecei a pensar que, por causa dos nervos, ou por qualquer complexo psicológico, o jogo que via não era o jogo real mas o que eu queria ver como pessimista inato.

Com o tempo, acabei por perceber duas coisas: que eu tinha quase sempre razão; e que ter razão, como benfiquista, é um lugar solitário.

Sim, é verdade que de vez em quando atiro ao lado. Às vezes um pouco ao lado – como quando previ que o Benfica ia ser campeão no ano passado, quando quase toda a gente dava o campeonato como entregue, à partida, a um Porto que tinha acabado de fazer a melhor época na história do clube – outras vezes muito ao lado – como quando, no princípio desta época, disse que o Sporting ia ser campeão (!!!!!).

A este propósito, num aparte, devo dizer que assistimos, este ano, a uma das épocas mais assombrosas, senão a mais assombrosa, de que há memória, considerando o ponto de partida e o ponto de chegada do Sporting, ambos extraordinários (o treinador no início do ano era um Sá Pinto talhado no destino para um sucesso inevitável, o presidente era o Godinho Lopes, os dirigentes os supercompetentes Duque e Freitas, o investimento o maior na história do clube, e fizeram a pior temporada em mais de cem anos); o conjunto de resultados do Benfica, a forma como começou, como decorreu e como acabou; e até o notável campeonato do Porto, que acaba outra vez sem perder um jogo, sendo que, mesmo assim, a três jornadas do fim dava o campeonato como perdido.

Sim, atiro algumas ao lado, mas nas coisas importantes, nomeadamente sobre o Benfica, e no longo prazo, as coisas vão bater sempre àquilo que eu previ. Não é cepticismo: é realismo e sensatez.

Quando o Benfica ganhou o campeonato de 1994 percebi que aquilo não significava nada. Não significou.

Quando o Benfica abandonou Artur Jorge em mar alto, no ano seguinte, e Manuel Damásio deitou tudo por terra para agradar aos fundamentalistas das ilusões, percebi que era um erro histórico. Foi. Histórico.

Era o momento em que o Benfica podia ter mudado, em que tinha a pessoa certa, o contexto certo, em que tudo estava onde devia estar para começar a inverter um caminho de sete anos de erros. Tudo morreu num assomo de populismo e sobrevivência política.

Para verem como a propaganda se enraíza, ainda hoje faz escola a tese do «erro histórico» que terá sido «desfazer uma equipa campeã» e contratar Artur Jorge. Um perfeito disparate. Artur Jorge tentou, contra tudo e contra todos, mesmo contra os seus dirigentes, instituir no Benfica uma cultura de colectivo, de equipa, de superação; criar de raiz uma forma de actuar que tinha tudo a ver com o que fez o Benfica grande desde sempre (um Benfica que ele conhecia, porque tinha jogado nele). A equipa campeã era, na verdade, uma equipa medíocre, com jogadores cheios de vícios, sem espírito de grupo, sem qualidade colectiva, vivendo de soluções casuísticas, levada ao colo pela sorte desde o primeiro dia do campeonato e acabando por conquistá-lo graças ao maior milagre nos anais do futebol português (o 6-3 de Alvalade), e, em grande parte, à automutilação precoce do futuro pentacampeão Porto, que nesse ano chegou a andar em sétimo com o Tomislav Ivic a treinador.

Despedir Artur Jorge, acabar com o seu projeto, a favor da manutenção do poder por via da satisfação da opinião pública benfiquista, esse sim, foi um dos maiores erros na história do clube

Quando, com Damásio, começaram a chover jogadores às centenas e treinadores às mão-cheias para satisfazer, a cada início de época, as ilusões dos adeptos, cada vez mais disponíveis para ignorarem o passado de esforço e trabalho do seu clube a favor de promessas de banha da cobra e vitórias fáceis, vendidas por biltres cada vez mais peganhentos. Até uma capela se construiu no Estádio da Luz.

Quando, com mais uma vitória construída pelo acaso ou por árbitros corruptos, eu via o povo embandeirar em arco enquanto pensava que aquilo era apenas palha para alimentar o fogo daquele inferno de onde, com as labaredas cada vez mais altas, se tornava cada vez mais impossível algum dia vir a fugir.

Em todos esses momentos a verdade era, para mim, evidente, e em todos eles eu, impotente, ouvia os meus compatriotas benfiquistas a alegremente deixarem-se enganar. Invariavelmente, eles iam chegando ao sítio onde eu, por antecipação, já há muito sofria.

Nunca dei um pontapé numa bola dentro de um campo de futebol, nunca tirei nenhum curso, de futebol e só sei sobre bola o que fui aprendendo como observador, mas falo, hoje, com toda a legitimidade de quem anunciou o que ia acontecer mesmo quando todos andavam entretidos a construir castelos de areia.

Eu disse o que ia acontecer não depois de derrotas mas depois de vitórias, e de vitórias importantes. Na maior parte das vezes, falei sozinho.

Por isso, meus caros, hoje falo eu.

 

Há muita coisa que se pode chamar ao grande universo de benfiquistas que está disposto a embarcar em qualquer barco para fugir à verdade. Fazem-no tanto por fraqueza de espírito como por paixão; fazem-no porque são humanos, e ao homem, seja vermelho, azul ou verde, quando a realidade não serve o primeiro instinto é negá-la. É uma espécie de reflexo de autopreservação.

Pode-se dar muitos nomes a estas pessoas, a maior parte com uma carga negativa muito forte. Como não devemos dividir-nos nas derrotas, eu vou apenas chamá-los de crédulos.

Tenho a certeza absoluta que vão pensar mal de mim por isto que vou dizer, e se calhar até insultar-me, mas paciência. Como disse Gramsci, há muito tempo, «dizer a verdade é o acto mais revolucionário», e o Benfica precisa da verdade.

A primeira verdade é esta: se se quiser formar uma cultura de vitória, a opinião dos crédulos não pode valer o mesmo que a opinião dos outros, dos que não se limitam a acreditar com muita força.

Graças a vocês, crédulos que me estejam a ler (e vocês sabem se o são) o Benfica é o maior, porque vocês fazem o número e todos os exércitos são, antes de tudo, número.

Mas também é por causa de vocês que o Benfica não é o melhor.

Porque vocês são fáceis de manipular por quem ambiciona o poder, e quando essas pessoas percebem como vocês são fáceis de manipular com mentiras e meias-verdades escondem a verdade. Ao esconderem a verdade, quando o que há não presta, o que essas pessoas fazem, indirectamente, é manterem aquilo que não presta e perpetuar o fracasso.

Posso enumerar muitos dirigentes que o fizeram. Posso começar por Gaspar Ramos e seguir com Jorge de Brito, Manuel Damásio, João Vale e Azevedo, Manuel Vilarinho, José Veiga, Luis Filipe Vieira, só para enumerar os principais.

O último grande dirigente do Benfica chamou-se Fernando Martins e perdeu, tragicamente, a eleições de 1987, porque disse a verdade – porque não vendeu banha da cobra, porque disse que o Benfica não podia viver acima do que podia. Nesse desastroso momento em que João Santos, o testa-de-ferro de Jorge de Brito e Gaspar Ramos, ganhou as eleições com promessas de «um Benfica para a Europa», contaminado pela campanha europeia do Porto dessa época, os políticos do Benfica perceberam que os benfiquistas já não queriam realidades mas sim quimeras. E assim se passaram 26 anos, na sua esmagadora maioria miseráveis.

Eu não culpo os políticos. Os políticos são e serão políticos, e todos os políticos jogam com aquilo a que Gaetano Mosca, um sociólogo italiano, chamou de «fórmula política». A fórmula política é o conjunto de crenças e valores que estão na moda, ou que vai, num futuro breve, mobilizar as pessoas. Interpretando a fórmula política, os políticos ascendentes, através da promessa de bem as representarem, capturam as massas, e ao capturarem as massas sobem ao poder. Enquanto dominarem a fórmula, controlam as expectativas das pessoas, e mantêm-se como elite governante.

Eu não culpo os políticos. Culpo-nos a nós.

Somos nós que, em espaços como este e como centenas destes, na Internet, no trabalho, na escola, no café, determinamos a fórmula política. Não nos enganemos: nós, a arraia-miúda, seremos sempre dominados, porque o grande número não se consegue, nunca, organizar, ao contrário daqueles que pretendem constituir-se como elites. Mas a questão não é o sermos ou não governados: a questão é o preço que estabelecemos para nos deixarmos governar.

Não é a mesma coisa ser governado à deriva e ser governado a caminho de um Novo Mundo.

Somos nós que devemos estabelecer o nível de exigência, marcar a bitola da governação. Se o fizermos, em pouco tempo aparece o governo que nos levará onde queremos. Os políticos têm essa faculdade. Há sempre algum que acaba por dar com o cheiro do poder.

 

Talvez estivessem à espera, hoje, de me ouvir falar sobre o Jesus, sobre o Cardozo, sobre o Vieira, sobre o Porto, sobre o bruxo de Fafe, sobre o minuto 92, sobre a sorte e o azar, sobre essas coisas todas.

Não.

Tudo isso é secundário.

Este momento é demasiado importante, na história do Benfica, para passar com a espuma das manchetes da Bola de amanhã. Não é um momento igual aos outros. É o momento mais importante na história do Benfica dos últimos 26 anos, que isso fique bem claro para todos.

Hoje, o meu dever, como benfiquista, é começar pelo princípio, e pôr as cartas em cima da mesa. Começar pela verdade mais importante. Pelo pecado original.

O pecado original é a estupidez assumida como natural pelos próprios benfiquistas.

Os benfiquistas não são estúpidos. Apenas assumiram como verdadeira a ideia de que não se espera deles que pensem. Aceitaram esse estereótipo. Mas o estereótipo é falso. O benfiquista é exactamente o contrário. O benfiquista tem o futebol na massa do sangue. É inteligente, pertence à cultura futebolística mais próspera de Portugal, tem o passado mais preenchido, pertencem-lhe os maiores triunfos e os maiores desaires, é um clube da maior glória e do maior drama. O Benfica transformou o futebol e transformou este país porque ousou fazer o que ninguém mais teve a audácia de ousar. O Benfica não é apenas o maior clube português, é também a nação futebolística mais rica de Portugal, e uma das mais ricas do mundo. Eu sei, porque conheço a história dos maiores clubes do mundo, e as que se equiparam à do Benfica contam-se pelos dedos de uma mão. Perto da história do Benfica, a história do Port, por exemplo, é irrelevante. É algo inerente, que existe apenas à sombra de.

O pecado do Benfica, e a raiz dos seus fracassos actuais, é este. O de aceitar o rótulo de clube acéfalo, indigente e parasitário que andam a tentar colocar-lhe há trinta anos.

 E se não colocarmos essa mistificação, hoje, em cima da mesa, para a semana já ninguém se lembra, porque vem o Markovic, o Djuricic, o Alain Delon, o Donizete, o Jeremias, e já ninguém quer saber de mais nada a não ser da próxima quimera, que acabará como todas as quimeras anteriores se se partir do princípio que, para resultar, basta não pensar.

Eu vou falar dessas coisas todas. Vou falar do Jesus, claro. E calhar, quando o fizer, já ele é treinador do Porto. Não há problema. O que eu penso do Jesus já foi escrito neste blog muitas vezes e não muda quando ele passar a ser treinador do Porto.

(Sim, é evidente que o Jesus sempre percebeu que teria poucas condições para continuar no Benfica se não ganhasse nada, daí não se ter comprometido até agora.

Sim, também é evidente que a única razão que Pinto da Costa teve para continuar a fazer de conta que está a negociar com o Vítor Pereira, quando, na verdade, ambos sabem que ele vai sair, foi esperar pela final da Taça, que, em caso de derrota do Benfica, lhe poria Jesus nos braços e lhe daria o maior troféu na sua história como presidente do Porto, para pendurar na parede.

Sim, é claro que Vieira foi manipulado por Jesus, que foi o último a pestanejar, forçou o presidente a comprometer-se publicamente, nunca disse que sim nem que não, e agora o tem preso pelos tomates.

E sim, reafirmo o que já aqui disse: Jesus no Porto é capaz de ser a melhor coisa que pode acontecer ao Benfica nos próximos anos.

To be continued.)

Vou falar de tudo isso, mas o que eu quero que vocês percebam, e daí ter escrito tudo o que ficou dito atrás, é que quando eu falar dessas coisas não devem partir do princípio de que todas as opiniões são igualmente válidas. A minha opinião vale mais. É melhor. Que isso fique claro.

Seria politicamente correcto dizer que a minha opinião é só mais uma e vale o que vale, mas não é verdade. A minha opinião vale mais do que 95 por cento das opiniões que vocês vão ouvir nas próximas semanas por essa ciberesfera fora.

Chamem-me presunçoso, arrogante, cagão, vaidoso, exibicionista, narcisista, estúpido, deficiente, complexado, ignorante, parvo, chamem-me o que vocês quiserem, mas façam um favor a todos nós, benfiquistas, e ao clube que amamos: não cometam o erro de desvalorizar a minha opinião só por orgulho.

Para isso já temos o Jesus, e vejam a bela merda que está a dar.

Antes de me ir embora, e para não vos deixar a insultar-me no vazio, quero deixar-vos a minha habitual nota de optimismo.

De todos os males que têm atingido o Benfica neste 26 anos houve um que foi o mais perverso de todos, porque é o mais contra-intituitivo de todos e o que mais nos leva à negação da realidade, por mexer com a nossa paixão mais profunda. Este ano esse mal esteve quase a repetir-se, mas a uma escala inédita.

 Qual? Este, tão simples quanto traiçoeiro: o de ganhar sem ser o melhor.

Este é o melhor momento para dizer isto, porque perdemos tudo. Eu próprio jamais o conseguiria dizer se tivesse sido campeão. Seria pedir-me demasiado. Não sou de ferro. Eu lembro-me daquele 6-3 em Alvalade, o meu dia mais feliz como benfiquista. Lembro-me bem e há uma coisa que sei: se essa vitória, a maior na história do Benfica, não tivesse acontecido, e se o Sporting tivesse ganho o título que merecia, se o Benfica não tivesse sido campeão, a década seguinte, a pior da história do clube, teria sido completamente diferente. E, mesmo assim, para verem como o conflito interior é enorme nestas coisas, não sei se não valeu a pena. Não sei se não valeu a pena entregar dez ou vinte anos na história do clube por aquele dia em que tudo aconteceu ao contrário e em que nos sentimos tocados por um deus qualquer.

Da mesma forma, se não tivéssemos ganho os campeonatos mal amanhados em  1988 e 1990, os anos 90 não teriam sido o que foram.

Se não tivéssemos ganho o campeonato do Trapattoni jamais teríamos passado pelo que passámos nos anos seguintes.

E arrisco a dizer que, sem o título do Jesus no primeiro ano, neste momento já seríamos não só campeões como, pelo menos, do mesmo nível do Porto, e jamais teríamos passado por estes três anos de frustrações e, nalguns casos, de humilhações.

O Benfica deve ganhar quando for o melhor. E se demorar dois, três, quatro ou cinco anos, que demore. O desafio é precisamente esse. Trabalhar para ser o melhor no meio das adversidades, mesmo das maiores, como é a de se perder três títulos em quinze dias. Se conseguir resistir à frustração, se conseguir continuar a fazer pelo melhor, o Benfica voltará a ser o nosso orgulho. Senão, deve continuar a perder. E vai continuar a perder.

Mas, se conseguir passar pela tempestade e chegar ao Novo Mundo, com mérito, e não por sorte, o seu sucesso será permanente. Será isso mesmo, um Novo Mundo, um novo continente, e não apenas uma pequena ilha onde se vai dar por acaso e que pouco significa. Nessas ilhotas, nesses campeonatos, nessas Taças da Liga, nessas finais, não há nada senão alguma água fresca, que serve para matar a sede mas que se esgota depressa, que cria ilusões mas não realidades.

E só para verem como acho isto importante, não é do Jesus que vou falar no próximo post, mas desta instituição do mérito que é a pedra basilar ao projecto do Benfica.

Vou fazê-lo com a convicção de quem, há vinte anos, perante a instituição crescente do facilitismo, já pensava assim. De quem sabe, hoje, que já na altura tinha razão, e que hoje continua a ter.

sábado, 11 de maio de 2013

«Detox»

Não estranhem a ausência. Na passada 2.ª feira, à noite, após uma facada nas costas e um momento de introspecção, decidi começar um período de desintoxicação.

Voltarei a escrever neste blog depois da final da Taça de Portugal, ou seja, depois de acabar a época.
Agora, do que eu preciso é de observar, não é de falar sobre treinadores, árbitros, mafiosos ou doentes (eu incluído, daí o tratamento necessário).
O período de 15 dias que começou antes do jogo com o Estoril e que acaba no jogo com o Moreirense é o mais definidor do futuro do Benfica desde há muitos anos. Vai marcar, pelo menos, a próxima década. Por isso, é altura de ver, pensar e aprender, para tentar aproveitá-lo.

Além disso, eu também preciso de me acalmar. Dei por mim a falar de árbitros todos os dias, e encarei isso como um sintoma.

E não é que eu já não tenha aqui dito, há tempo suficiente, o que penso que vai acontecer nos próximos cinco dias, e porquê. Por isso, se alguém tiver dúvidas, é ir ao arquivo.

Até já.

P. S.  - Mas não se preocupem, esta desintoxicação é como aquelas das gajas alcoólicas de Hollywood: só vão para a clínica para limpar o organismo e depois poderem voltar a beber que nem uns cachos, com força revigorada.

segunda-feira, 6 de maio de 2013

E Deus, dará?


O futebol  é pressão. Quem não consegue lidar com a pressão só ganha alguns jogos, nunca ganha nada de importante sem ser por acidente ou por favor.

Já aqui escrevi muitas vezes (as vezes suficientes, diga-se) que a classe é fazer o que é preciso ser feito no momento em que é preciso ser feito. O facto de eu escrever essas coisas quando o Benfica ganha leva os inquisitores do benfiquismo (que também os há) a responderem: «Bom, então quando se ganha tem-se classe, e quando se perde não se tem classe!»

Por isso, neste momento, eu vou repetir aquilo que já disse 50 vezes. Só para parecer um gajo muito pretensioso.

Há duas coisas que as grandes equipas, com classe, têm de saber fazer para serem grandes equipas.

A primeira é saber como cada jogo tem de ser jogado. Ou seja, jogar cada jogo de acordo com as suas características e aquilo que o envolve (o adversário, o cansaço, o resultado necessário, etc). O que implica, muitas vezes, ter a personalidade suficiente para ir contra o senso comum.

A segunda é executar essa estratégia, de forma colectiva. O que implica saber executar os gestos e os movimentos adequados sob pressão.

O Benfica não é uma grande equipa porque não tem classe.

Não tem classe porque joga todos os jogos da mesma maneira, e porque não sabe executar o que tem de executar nos momentos em que é necessário.

É uma equipa que joga ao deus-dará.

É-o há quatro anos e continuará a sê-lo durante mais quarenta, se for caso disso.

Se Deus der o campeonato, dá. Se Deus não der, não dá.

É o pressuposto da fé.