Mostrar mensagens com a etiqueta Hulk. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Hulk. Mostrar todas as mensagens

quinta-feira, 12 de abril de 2012

2012/13 racional

Em relação ao chefe da Guarda Pretoriana Lacoste, e ficando ansiosamente à espera de mais desenvolvimentos para poder continuar a rir-me a bandeira despregadas, quero só, para já, remeter para o conceito de sportinguite já aqui enunciado anteriormente, e acrescentar que, em caso de sportinguite aguda, a «processo de auto-mortificação em que todas as partes, numa sequência lógica, encadeiam precipitações até criarem um problema administrativamente insolúvel», se deve juntar «e em que, no processo, os envolvidos conseguem dobrar-se e trincar os próprios tomates em público.»



Em frente.

Hoje e amanhã, um exercício de contraditório.



Racionalmente, a época de 2012/13 do Benfica é linear. Por isso é melhor estabelecermos já essa linearidade porque , daqui até Agosto, haverá múltiplas distorções que tornarão esta recta racional, se tudo correr bem, numa elipse, e se tudo correr mal num U, mandando tudo lá para trás outra vez – sendo este tudo três anos de crescimento gradual.



Esta é, então, a lógica a que, teoricamente, obedecerá a planificação da próxima época benfiquista:



1º segmento

Desportivamente, é a temporada de conclusão de um projecto. O treinador está no último ano de contrato e acumulou a experiência necessária para estar mais bem colocado do que nos três anos anteriores para atingir os objectivos desportivos.

A equipa tem subido gradualmente de capacidade – a única anomalia foi ter sido campeã no primeiro ano, tendo subido de terceiro (ou quarto?) para primeiro, saltando um degrau, algo que foi normalizado no ano seguinte e neste que agora acaba, com uma subida da capacidade competitiva reflectida na distância pontual para o primeiro.

Há um núcleo de jogadores que cumpriu todo o ciclo como coluna vertebral da equipa (Luisão, Maxi, Javi, Aimar, Cardozo) e que atinge, sem excepção um momento de maturidade competitiva ou definitiva ou muito perto do limite possível enquanto jogadores do campeonato português. Neste momento, os principais jogadores do Benfica já viveram o suficiente para saberem praticamente tudo o que há para saber no que respeita ao que é preciso para serem campeões.

O último ano do treinador coincidiria com o último ano, também, de alguns destes jogadores, que representam o modelo futebolístico que implantou desde o primeiro dia. É fácil, e mesmo natural, ver Javi, Aimar e Cardozo, por exemplo, a encerrarem este ciclo e a sairem no fim da próxima época.

Não faria sentido romper, neste momento pré-conclusivo, com a continuidade, a começar pela cabeça: o treinador é a pedra basilar do plano quadrianual (já dizia Estaline…), como tal deve ficar.



2.º segmento

A equipa que este ano ficou à beira do título – não é, de todo, desajustado dizer que ficou a um resultado do título – foi uma equipa com 9 jogadores novos no clube: Artur, Garay, Emerson, Matic, Witsel, Nolito, Bruno César, Rodrigo e Nélson Oliveira, a que se pode juntar um décimo, Yannick, com alguma boa vontade.

Destes 9 jogadores, há 8 com margem de progressão evidente se se juntar a maturidade de um ano de competição alta ao seu próprio processo individual de crescimento. Incluo Artur porque um guarda-redes só o é mesmo a partir dos 30 anos e não incluo Emerson, porque não tem potencial para mais do que o que já dá. Destes 8, há 4 que representarão, provavelmente, uma subida de qualidade do onze inicial (Artur, Garay, Witsel e Rodrigo), dois que, potencialmente, podem explodir (Matic e Nélson Oliveira) e dois que acrescentarão profundidade, de facto, ao plantel, ainda que não tenham, potencialmente, a categoria para jogar, de caras, no onze inicial de um Benfica de alto nível (Nolito e Bruno César).

A margem de progressão do plantel como está é grande, e há poucos pontos fracos. Em termos de onze inicial, o Benfica pode dar-se ao luxo de adquirir apenas um defesa-esquerdo e um extremo, além dos substitutos para o(s) jogador(es) que sair(em). Se tivesse apostar apostaria em Gaitán – uma aposta tão segura que já nem é aposta – o que não será muito prejudicial para a equipa e Javi García – o que será, na minha opinião, um erro, mas provavelmente um erro inevitável, porque será o jogador com mais mercado. Mais facilmente venderia Rodrigo, Nélson Oliveira ou Cardozo para poder ficar com Javi mais um ano, mas enfim, não se tem o que se quer, tem-se o que se pode.

O Benfica tem quatro aquisições por fazer. Se acertar em três é suficiente para melhorar a equipa. Quanto ao banco, precisa de mais um jogador. Um Rúben Amorim qualquer. Chega.

Em termos de construção de plantel, está numa situação privilegiada.

(Acrescento que não conto com Enzo Pérez porque vi um jogo do Estudiantes há uns dias e, se vier, vai ser um a menos. Sim, bastou-me um jogo. Sou mesmo um génio… Espero enganar-me.)

Há dois jogadores de saída que abrirão não só lugar no plantel como espaço salarial (Saviola e Capdevilla), o que nos leva ao terceiro segmento.



3.º segmento

É o primeiro ano com novo contrato televisivo, ou sem ele. Não se acredita que o Benfica possa prescindir de receitas televisivas no meio da pior crise económica do século, mesmo que venha a não assinar com a Sport TV (num aparte, como é que o presidente do Benfica tem condições reais de assinar contrato com a Olivedesportos, ponta-de-lança financeira do sistema, neste momento? Vejo as coisas complicadíssimas nesse aspecto.). Ainda assim, é difícil ao Benfica não aumentar as suas actuais receitas anuais com direitos televisivos mesmo que venha a negociar jogo a jogo com os operadores nacionais durante um ano ou dois. Pode não ganhar tanto como com uma venda em pacote a longo prazo, mas ganha mais do que o que ganha actualmente de certeza.

Isso deverá significar a possibilidade de investir na equipa, ainda que não se possa saber muito bem quanto é que custa o dinheiro ao Benfica, neste momento. Podemos supor que custa muito caro, dada a falta de investimento em Janeiro, quando as condições para chegar ao título eram as mais propícias e quando, com mais um titular, muito possivelmente, se teria ganho o campeonato.

Esse refreamento em Janeiro dá toda a ideia de ter sido estratégico, para se esperar pelo Verão e reforçar a equipa com maiores garantias de sucesso e com mais dinheiro para gastar. Veremos, no Verão, se se confirma, ou se o investimento está mesmo impossível.

Por outro lado, na concorrência, houve uma aposta forte em Janeiro, quer na não-saída de jogadores quer na entrada de elementos sem-retorno financeiro garantido (Lucho e Manko), já depois de ter havido um investimento brutal no Verão de 2011.

Ao que tudo indica, o Porto empenhou-se (literalmente) para renovar o título este ano e «para o próximo, logo se vê». É um sinal, não diria de desespero, mas de ansiedade, de fuga para a frente. As fugas para a frente não acabam bem. O que nos leva ao quarto segmento.



4.º segmento

A concorrência estará mais fraca, pelo menos durante uma parte da temporada. O Porto tem duas épocas para pagar – a que acaba e a que aí vem – e recursos limitados para a pagar. Na melhor das hipóteses saem Hulk, Álvaro Pereira e Rolando. Na pior, juntam-se-lhe Moutinho, James ou Fernando, se Guarín não for comprado pelo Inter (o que ninguém pode dar como certo). Os outros, se saírem, não dão dinheiro a sério porque não têm mercado.

A capacidade de competir do Porto não vai diminuir, a ética de trabalho é forte, e provavelmente até veremos o Porto a jogar mais colectivamente do que este ano, mas a qualidade imediata, sim, decairá. O Porto vai ter de encontrar três titulares, pelo menos para manter um nível aproximado (o que não é garantido que chegue se o Benfica realmente subir) ou quatro para melhorar a equipa. Mesmo que já os tenha (Mangala, Sandro, Danilo, serão titulares) o nível, pelo menos durante os primeiros meses, não será o mesmo, e a compulsão para ir buscar mais jogadores será inevitável. Ainda que encontre boas opções (o que é crível, porque o Porto trabalha bem no mercado) o processo de adaptação à equipa é sempre mais moroso. Até o Hulk levou algumas semanas a entrar na equipa. Além disso, o Porto não compra jogadores experientes (Lucho e Manko foram uma clara excepção), por razões económicas e porque, se não vêm já formatados para o estilo de jogo da equipa, são mais difíceis de educar.

Não se está a contabilizar o novo treinador (ou o actual, o que seria pior) e a necessidade imperial de apostar forte na Liga dos Campeões para repor receitas.

Quer queira quer não, o Porto, que adiou o final de ciclo para este ano apesar de, pela lógica económica, ele dever ter acontecido no Verão passado, terá um ano de transição, seja qual for o treinador, apenas porque uma parte importante da espinha dorsal da equipa será nova. Será um ano de clara passagem de testemunho, em que jogadores como James, Moutinho ou Danilo serão chamados a assumir a liderança da equipa em termos de rendimento.

O Sporting estará numa fase, ainda, de concorrência apenas parcial. Em termos de resposta à pressão, o Sporting falhou claramente este ano, e seria preciso um milagre igualmente parcial para subir dois degraus num único ano perante duas equipas já rotinadas na competição pelo título. Se o Benfica esteve a um resultado do título, o Sporting esteve a uma volta inteira. Vai chatear, mas não vai ganhar. Ou, pelo menos, não seria racional contar com isso, e este é um exercício de racionalidade.



Racionalmente, perante este cenário, só haveria uma coisa a fazer pelo Benfica: manter a direcção firme, não mudar nada de substancial, meter uma abaixo e carregar no pedal.



Aliás, é tudo tão certinho que até dá para desconfiar.



Amanhã veremos a 2012/13 intuitiva.

sexta-feira, 6 de abril de 2012

A tripa

Este sábado há esbórnia na Catedral Oficial dos Blogues Com Menos de 300 visitantes por dia (COBCOM): comentários, relambório e esventramento em directo do Braga-Porto. Vamos dissecar, chafurdar, esmiuçar e de preferência não lamentar tudo – tirando algumas coisas que nos passem ao lado… - o que aconteça no jogo entre o grande clube do Porto e o seu apêndice minhoto. Das bolas de naftalina atiradas para dentro do campo ao speaker afónico por uma noite.

Com este trailer espero, pelo menos, 301 visitantes, para subir à categoria de Capelinha Oficial dos Blogues Com Menos de 5000 visitantes por dia (COBCOM).

Entretanto, há meia-dúzia de coisas que não me saem da cabeça. Ou seja, três.



1 – Lista dos três jogadores que mais falta fazem ao Porto, de acordo com os resultados no campeonato, por ordem de importância: (1) Fernando; (2) Hulk; (3) Lucho González.

Os cibercomentadores que têm passado o dia a valorizar a importância da ausência do Fernando no jogo de Braga têm toda a razão. Devo advertir que não faço a mínima ideia do que os cibercomentadores têm passado o dia a fazer, porque tenho coisas melhores para fazer com o meu tempo, mas se não passaram o dia a falar do Fernando deviam ter passado.

O mais bizarro é que, provavelmente, os portistas mais… (bom, em frente), se tivessem ficado sem o Hulk, andavam desvairados de desespero, e não ligariam muito ao Fernando, mas eu, se fosse portista e tivesse de escolher, trocava o Hulk pelo Fernando num instantinho. Não é que o Polvo (que epíteto tão adequado, céus!) seja nem um terço do jogador que o outro é, mas é o que já aqui disse muitas vezes: não é a qualidade do jogador, é a função. Não quer dizer que o Hulk não fizesse falta (aliás, está em segundo na lista oficial emitida por mim próprio aqui em cima), mas um golo marca-se de muitas maneiras, agora fazer o que o Fernando faz, no Porto, só ele é que faz.



2 – Este fim-de-semana é à campeão. Não há muitas equipas verdadeiramente campeãs no desporto. Campeãs a sério. Nenhuma destas que ganhará o campeonato deste ano o é. Um Benfica à campeão jamais teria perdido aquele jogo em Guimarães. Um Porto à campeão nunca teria empatado aquele jogo em Paços de Ferreira. Um Braga à campeão teria ganho o jogo da Luz. Mas, mesmo assim, este fim-de-semana, é a melhor oportunidade que aparecerá este ano para qualquer uma delas se aproximar desse nível.

Uma equipa campeã, na minha definição, é uma equipa que não aceita a derrota, sob nenhuma circunstância, incluindo a das famosas arbitragens eu tanto enche a barriga do Zé Povo. Uma equipa campeã consegue até colocar-se acima desse jogo – joga um jogo diferente. É muito raro. Quando acontece, assistimos à consagração do desporto. É uma coisa importante. Podemos passar anos e anos à espera que aconteça. Não é coisa que se coadune com calimerices do género «e tal, e estava fora-de-jogo, e o gajo não quis marcar», ou «e não deu o vermelho», e choraminguices dessa categoria, tipo «eles falam, falam, falam mas eu não os vejo a fazer nada…». É coisa para se chegar ao fim e dizer: «Tu ganhas-me é o c….!»

É uma coisa com outra classe, portanto.



3 – Quanto mais se aproxima o jogo mais se me vai crescendo, cá dentro da tripa, uma sensação de que os jovens adeptos do Benfica – esse pessoal com menos de 21 anos, que só começou a conseguir perceber o que era isto da bola há coisa de 13/14 anos – podem estar à beira de assistir, na próxima segunda-feira, ao primeiro momento realmente à Benfica das suas vidas, e a um dos dez maiores momentos na história do clube.

A coisa está-se a compor de uma maneira que, tal como está neste momento, só acontece de dez em dez anos ou mais. Aparecer o cenário é sempre a parte mais difícil, pela grande conjugação de factores que implica. E o cenário está quase, quase, montado.

Eu já disse que ando a ver se desenguiço este campeonato desde que lixei o jogo com o Porto?

sábado, 31 de março de 2012

Gaitán-Robben, Cardozo-Aguero, Aimar-Özil...

Em nenhum momento em que tem a bola nos pés nenhum jogador do Benfica tem uma ideia de como a jogada deve acabar. Ou melhor, têm uma ideia: sabem onde está a baliza. Tudo o resto é fruto do acaso. Os jogadores do Benfica são muito melhores do que o que parecem.

O Gaitán tem muito mais futebol dentro dele do que aquilo. O Rodrigo também. O Witsel também. Não têm é treinadores para isso. Os jogadores do ataque do Benfica só têm uma dimensão: a sua. A dimensão colectiva que possam ter dentro deles, com o tempo, com Jorge Jesus, pura e simplesmente desaparece. Porque o que o Jesus pede aos seus jogadores de ataque é precisamente isso: que sejam imprevisíveis, que usem a liberdade para criar soluções. O Rodrigo, ao fim de seis meses, é um jogador muito mais individualista do que era no princípio.

O resultado disto, na prática, é que facilmente o ataque do Benfica se torna também unidimensional: jogador com bola olha para a bola, olha para a frente e começa a correr. Há escassas hipóteses do colectivo do Benfica resolver um jogo, no ataque, porque, quando o jogador procura a solução colectiva, ou ainda não está lá ou já passou. Porque o outro jogador, obviamente, está na sua própria dimensão do jogo, que raramente coincide com a dos outros.

Tudo o que não seja óbvio, simples ou sorte não está ao alcance de uma equipa assim.



Este é o estilo de ataque do Jorge Jesus. Mas é curioso que só é assim desde que chegou ao Benfica. Antes disso, mesmo no Braga, quer o ataque quer a defesa eram mecanizados ao pormenor. Não havia liberdade para ninguém. Fazia o que os americanos chamam de micro-management, controlava todos os movimentos de todos os jogadores até ao pormenor. Nunca cheguei a perceber se o Jesus mudou o chip só porque estava no Benfica, se foi por perceber que, contra as defesas muito cerradas que o Benfica tem de enfrentar, só poderia resultar assim, se foi por sentir que finalmente tinha matéria humana para jogar «à Barcelona» (ao Barcelona do tempo dele, não do actual, entenda-se). Mas a verdade é que mudou mesmo.



Este estilo de jogo não é necessariamente errado. Quando é executado por grandes jogadores, como é que se defende um ataque imprevisível, rápido e tecnicista? É praticamente impossível. Aí sim, entramos no plano teórico do «basta marcar mais um que eles», porque as probabilidades são as de ganhar quase sempre por 3-2, 4-2, 3-1…

É o que acontece com esta equipa do Benfica em 70 por cento dos jogos, com as equipas com menos categoria, de baixa rotação e com menos capacidade de aguentar a pressão. Com as outras, não, por uma razão simples: os jogadores do Benfica não são suficientemente bons e não se conhecem suficientemente bem para arranjarem soluções em conjunto.

O Barcelona de Cruyff que ganhou cinco campeonatos seguidos e a Taça dos Campeões, e onde o Jesus foi fazer estágio, tinha-os. Stoichkov e Romário, por exemplo. Mesmo assim, note-se, sempre no fio da navalha. Dois ou três desses campeonatos foram ganhos graças a falhanços dos concorrentes directos (o Real e o Corunha uma, com um penálti falhado no último minuto do último jogo do campeonato, a jogar no Riazor) e na segunda final da Taça dos Campeões, que marcou o fim da era-Cruyff, com o Milão, levou 4-0! (Repare-se, contudo, que a disciplina táctica dessa equipa do Barcelona não é comparável com a deste Benfica. Era muitíssimo superior, assim como a capacidade de passar a bola.)

Este tipo de futebol de alto risco é um futebol que rebenta com os nervos, mas que apaixona, é ousado, corajoso e é à equipa grande. O tipo de futebol do Porto, por exemplo, sempre foi ao contrário, defensivo, seguro, e por mais que ganhe não apaixona ninguém. Passa incógnito. O que é que se sabe na Europa sobre o Porto? Que ganha. Mas só os treinadores é que gostam de os ver a jogar. Para os adeptos o Porto é igual aos outros, não se distingue.



Para conseguir fazer nos outros 30 por cento de jogos o que faz nos mais fáceis, e com o Jesus, só há uma hipótese: ter melhores jogadores. E já não vou para Ronaldos, Messis ou Iniestas. Ter um Aguero em vez do Cardozo. Ter um Robben em vez de um Gaitán. Ter um Mata em vez de um Bruno César. Ter um Özil em vez de um Aimar. Ter um Yaya Touré em vez de um Javi García. Ter um Coentrão em vez de um Emerson. Por este último exemplo, apenas, se pode ver a que distância real se encontra (na minha opinião, claro) o Benfica de Jesus da equipa que ele (o Jesus) pensa que tem.



Mais um ano de entente Vieira/Jesus, na melhor das hipóteses, vai dar nisto: o Benfica perde dois titulares, compra três ou quatro, melhora o onze inicial, os jogadores conhecem-se um pouco melhor, alguns deles amadurecem (Rodrigo, a Charrua, o Witsel…), o Benfica começa a época na data normal, chega a Fevereiro mais fresco, passa da tal fasquia dos 70 por cento para a dos 75 ou 80, se tiver sorte alguns deles são os decisivos, o Porto perde o Hulk e fica com o TOC mais um ano, e dá um campeonato. Mais nada. E isto é na melhor das hipóteses, porque ninguém garante que o Porto sem Hulk será mais fraco, como equipa, que o Porto com o abono de família Hulk.



Quanto ao jogo, qual foi a novidade? Uma equipa com 60 minutos de jogo no pulmão, a desperdiçar posse de bola como se tivesse 120 e como se do outro lado estivesse uma equipa a treinar. Jogo relativamente seguro a defender e totalmente errático a atacar, incapacidade de segurar uma vantagem caída do céu aos trambolhões numa jogada idiota do defesa do Braga, uma equipa do Braga a jogar como o Feirense e inferior em todos os sentidos menos nos pormenores da organização e do colectivismo, jogada individual genial de Gaitán no minuto 92, já fora de tudo, com Bruno César a marcar o golo da sua carreira num momento de classe, fazendo o que tinha de ser feito de maneira precisa. O Benfica ganha da única forma que consegue ganhar um jogo com este grau de pressão: com uma coincidência de momentos individuais brilhantes. Que, por extrema felicidade (estrelinha de campeão?) chega no último suspiro. É Gaitán quem ganha este jogo, não nos iludamos. Os outros empataram-no – ele, em cinco segundos, ganhou-o. No limite. À messias. Como o povo gosta. Mas para termos uma equipa de nível europeu temos de o trocar por um Robben.

Fácil, não?

domingo, 11 de março de 2012

Tribunal Inquisitório

Se calhar não devia falar de arbitragem, mas não estou a conseguir resistir: vou fazer de Jorge Coroado, no Tribunal do Jogo e ser o desmancha-prazeres de plantão, quer para uns quer para outros.


Penálti do Hulk

Tal como em inúmeras outras situações, o Hulk passa pelo adversário e decide atirar-se para o chão. Com o Hulk é fácil sabermos que não é falta porque sempre que ele tenta inventar uma falta, quando vai a cair, faz um movimento de tesoura com as pernas, torce o tronco e faz um esgar de dor, que lhe passa assim que cai no chão. É à Futre, mas sem cabelo – o cabelo deu muitos penáltis ao Futre.

No lance do Hulk há contacto mas não há falta. Os jogadores embrulham-se com os braços e o defesa da Académica tenta agarrar o Hulk, sem grande sucesso. Independentemente disso, tecnicamente, é penálti se o árbitro quiser marcar, porque a intenção de fazer a falta está lá. Mas o Hulk, que é um bisonte, liberta-se e ganha a frente. E é já depois de ter ganho a luta física que decide que prefere o penálti e se atira para o chão, lançando as pernas para trás (lá está, em tesoura) à procura de novo contacto – que existe, mas esse já provocado por ele. Não foi o defesa que impediu o Hulk de jogar, foi o próprio Hulk que decidiu não jogar. Logo, não é falta.

O árbitro só lhe dá o amarelo para proteger a sua decisão, que está correcta. Se não desse, apareciam logo os Coroados a dizer: «Se não deu amarelo é porque sabia que foi falta, e se sabia que foi falta devia ter marcado, e se não marcou foi porque não quis marcar.» É só por isso que os árbitros começaram a dar amarelo neste tipo de jogadas duvidosas – para se protegerem.

Comentário bónus: Já houve situações, e vai continuar a haver, em que se diz que não há penálti porque não há contacto. Permitam-me que discorde. Em claro paradoxo com o que aconteceu ontem, há situações em que não há contacto mas em que há penálti. Se um defesa ou um guarda-redes entrarem de carrinho, ou de forma perigosa, sobre um avançado que leva a bola ou que persegue a bola na área, com vantagem, e o avançado, por exemplo, saltar para se proteger, e cair, é claro que tem de ser penálti, mesmo sem haver contacto. É como levar um soco. Há um jogador que nos tenta dar o soco. Nós esquivamo-nos e ele não nos toca. Isso quer dizer que não há agressão? Claro que há agressão. É é uma agressão azelha. Não tem de haver contacto para haver falta, dentro ou fora da área. Se o gesto do defesa for impeditivo de o avançado jogar a bola, claro que é falta.
Não vi o lance do James em directo, só vi uma repetição. Vi que não há nem contacto mas não sei se houve falta – precisaria de rever, para avaliar se é a acção do defesa que o impede de jogar a bola ou se é só ele que se atira para o chão.



O fora-de-jogo do Hulk

 Igual a quinhentos foras-de-jogo todas as semanas em que, quando o fiscal-de-linha consegue ver o jogador (que não conseguiu ver arrancar), este já tem cinco metros de avanço. Não marcar o fora-de-jogo é que seria altamente suspeito. Em cada cem situações destas marca-se fora-de-jogo 95 vezes, e quando não se marca é porque anda mouro na costa.

Na lei do fora-de-jogo o que conta é o momento do passe, na prática do fora-de-jogo o que conta é o momento em que o fiscal apreende a situação, o que demora mais alguns centésimos de segundo. Esses centésimos de segundo podem representar entre 5 e 20 metros de distância do avançado para o último defesa. Não gostam? Não acham justo? Aguentem-se. Todas as equipas do mundo já passaram por isto, e até em situações muito piores, a empatar ou a perder a poucos minutos do fim. É igual para todos. E vai continuar a ser assim enquanto

 não mudarem a lei do fora-de-jogo.

Comentário bónus: o fora-de-jogo do Maicon, na Luz, é fora-de-jogo, pela lei, mas não devia ser, pelo bom senso. Para que é que existe o fora-de-jogo? Para evitar que os atacantes beneficiem de uma vantagem injusta em relação aos defesas (uma vez que já têm a vantagem de ter a bola e de estarem perto da baliza do adversário). Sem a lei do fora-de-jogo o futebol tornava-se num jogo de gato e rato, em que a defesa não teria a mínima hipótese de defender a não ser encafuada na sua grande-área assim que perdesse a bola. Ora, na jogada do livre, na Luz, o Benfica tinha onze jogadores na sua grande-área. Que tipo de vantagem há para o atacante em haver alguém meio metro à frente do último defesa? Os defesas não estão lá todos? Então defendam! Uma sugestão para melhorar a lei do fora-de-jogo e, com isso, melhorar o jogo e evitar as «tácticas do autocarro»: sempre que a equipa que defende tenha mais de cinco jogadores entre a sua linha de fundo e uma linha (a ser marcada) a 30 metros do meio-campo, não há fora-de-jogo. Têm lá defesas? Então defendam a bola.



Penálti do black

Primeira ideia: o cabeceamento é muito perto e a bola é que vai bater na mão do defesa, que já lá estava.

Segunda ideia: a bola só vai bater na mão do jogador porque ele a pôs, intencionalmente, lá, de maneira a impedir que a bola fosse para a baliza.

É um lance complicado mas acho que o árbitro ajuizou bem. O defesa percebe que perdeu o duelo aéreo, que a jogada pode dar golo e deixa a mão atrás para o tentar evitar. Por acaso, a bola bate mesmo no braço. É uma espécie de penálti a priori, mas é penálti.

Comentário bónus: em câmara lenta todas as mãos, casuais ou não, parecem intencionais. É o caso da mão do Cardozo. Quanto mais lenta é a repetição maior parece ser a intenção do jogador em jogar a bola com a mão. Na verdade, seria impossível para o Cardozo não tocar com a mão na bola dado o movimento natural do seu corpo e a posição da bola em relação a ele. Geralmente a primeira ideia, que é a única que é vista em velocidade real, é a correcta. E aqui, amigos, não há tecnologia que valha: é sempre a capacidade do árbitro (o seu talento, no fundo, e a sua coragem) que vai decidir. Nenhum computador será capaz de julgar, em tempo real, a intenção de um jogador. Até porque, muitas vezes, nem o próprio jogador tem uma intenção clara de meter a mão à bola. Ou seja, tem intenção, mas tem-na antes de pensar. É instintivo. No fundo, não quer, racionalmente, fazer a falta, mas fá-la mesmo. Foi, julgo, o que aconteceu ontem.



Apreciação global

Pelo que vi – que não foi tudo, confesso –, digo da arbitragem deste tipo – de que não sei o nome, não conheço e nunca me foi apresentado – o mesmo que disse da do Proença na semana passada: muito boa.

Os erros são aceitáveis, nos principais lances acertou todos e nos que não acertou foi por responsabilidade dos fiscais-de-linha, sendo que essa responsabilidade é relativa pois são lances quase impossíveis de ajuizar de outra maneira em tempo real.

Se todas as arbitragens em Portugal fossem tão boas como esta haveria fundamentos éticos para castigar com um mês de ordenado qualquer indivíduo que difamasse a honra dos árbitros e estaríamos muito mais perto de termos um futebol mais justo.

Comentário bónus: A reacção dos elementos do Porto à arbitragem – uma espécie de «sim, mas…» - além de revelar o bom-senso possível numa situação de frustração e pressão, vem confirmar duas coisas:

- não é, definitivamente, a mesma coisa ser prejudicado por um erro que praticamente entrega o campeonato ao adversário, como aconteceu ao Benfica, e ser prejudicado por um erro num empate em casa com a Académica já com o as faixas a caminho. A dimensão dos dois erros não é comparável. Aliás, remeto para o último parágrafo do post de sábado: é querer confundir a estrada da Beira com a beira da estrada.

- o Porto sente-se à vontade. Compare-se esta reacção do TOC com a que teve em Barcelos. Independentemente disso, em termos de atitude perante o jogo, não desgosto do Pereira. É claro que o ideal seria dizer: «Qual árbitro?», mas admitir os erros da própria equipa é muito positivo. O TOC pode não ser grande espiga a tomar decisões, mas tem sentido crítico e, sobretudo, auto-crítico. É um bom observador, que percebe os erros e não tem medo de os enfrentar. Lá está, daria um excelente adjunto…



Tudo isto dito, continuo a borrifar-me para o fora-de-jogo do Maicon.

Comentario bónus: Só para não pensarem que também eu estou num processo de branqueamento…

quinta-feira, 22 de dezembro de 2011

O Menino Jesus, a Criatura e outra coisa qualquer

Há uma série de coisas sobre as quais ando com vontade de escrever – o Jorge Jesus (e o Paulo Bento…), o calendário do que falta da época, uma comparação realista entre as equipas de Benfica e Porto (para fazer uma do Sporting teria de ver os jogos do Braga…eh, eh), e outras que por aqui andam, mas sinceramente isso merece-me mais tempo do que o que tenho tido, como se deve poder ver, aliás, pela assiduidade dos posts.



Para já há três coisas que quero dizer sobre aquilo que vou vendo de relance no jornais.



1 – Eu defino a qualidade de um treinador por aquilo que dizem e fazem os jogadores que não jogam. Não há treinadores perfeitos, mas há treinadores tão bons naquilo que fazem que nem os jogadores que não jogam têm coragem para dizer mal deles, e que são tão bons que, quando os suplentes são chamados, jogam tão bem ou melhor que os titulares. Não é preciso dar exemplos, e tenho a certeza que há um nome que, neste momento, já está na vossa cabeça, portanto escuso-me de o dizer.

Quando vejo o Enzo Pérez, como se fosse a coisa mais normal do mundo, a reunir-se com dirigentes de outro clube e a dizer que não quer regressar a Portugal, e o Rodrigo Mora a mesma coisa, e o Miguel Vítor a querer sair, e o Amorim, e o Capdevilla (que não diz nada mas também não precisa porque o agente fala por ele), e até o agente do Nolito a refilar, concluo que o Jesus é o típico treinador de titulares, no pior que isso tem.

Nunca gostei de treinadores de titulares – se calhar porque quando joguei basquete não era titular e sentia que para o treinador havia filhos e enteados (não era porque eu fosse melhor que os titulares, mas era porque, quando só se dá atenção a uma parte do plantel e se despreza os outros, não há espírito de equipa, há espírito de alguma equipa.



2 – O problema do Hulk não são os 100 milhões. Quem fala em 100 milhões, desculpem lá se alguém se ofende, é atrasado mental. Até hoje não houve um único jogador, no Porto, a sair pela cláusula de rescisão – nem o Falcão, que precisou dos milhões da treta do Dois Dedos  Micael para bater os 45 –, e agora ia ser o primeiro logo por 100 milhões? Ridículo.

O problema do Hulk também não é o sair a meio da época, porque o Hulk não vai sair a meio da época – seria mostrar a bandeira branca ao Benfica, na prática, porque se alguma vantagem o Porto tem, neste momento, é o Hulk. Se o Porto o vender vai vendê-lo agora para o libertar no final da época, mesmo que perca algum dinheiro com isso, como o Benfica perderá com o Gaitán se fizer o negócio de que se fala com o Manchester United. De qualquer forma, não acredito que o Porto venda o Hulk antes de Junho.

O problema da Criatura é que já custou 22 milhões de euros e o Porto só tem 85 por cento dela.

Coloquemos uma transferência do Hulk em valores realistas: 50 milhões de euros. Que se lixe, uma vez que há sheiks ao barulho, como o próprio Hulk já confirmou, vamos colocá-lo em valores irrealistas: 60 milhões.

Vamos tirar 5 por cento (que podem ser mais) de comissões. São 3 milhões. Sobram 57.

85 por cento de 57 milhões são 48 milhões. Sobram 26 milhões.

26 milhões foi o que o Porto gastou nos dois laterais que fez questão de roubar ao Benfica no Verão.

26 milhões de lucro com o Hulk, por Incrível que pareça, é pouco. É o que o Benfica está para ganhar com o Gaitán, que ao pé do Hulk, na Europa, é júnior.

Agora,  por puro divertimento, vão baixando o valor da transferência e cheguem a um número pelo qual achem que vale a pena vender o Hulk.

Não se compra um jogador por 22 milhões de euros para ganhar dinheiro mas para ganhar títulos. Ora, quando se vende um jogador que se compra para ganhar títulos o que é que isso quer dizer, para o resto da equipa e para os adeptos?



3 – Só há uma boa razão para o Benfica gastar 300 mil euros a comprar um Djaniny à União de Leiria, e não é o Djaniny: é construir fidelidades.

Acho uma excelente política o Benfica servir de banco aos clubes portugueses, todos eles endividados. Aliás, se eu tivesse de escolher, por exemplo, entre gastar 2,5 milhões de euros com um Kardec qualquer e gastar esses 2,5 milhões a fingir que compro jogadores para, na prática, financiar encapotadamente os clubes que disputam os campeonatos nacionais em Portugal, não duvidem que escolho a segunda. É muito mais importante para o Benfica ter aliados a sério nos clubes portugueses, de Norte a Sul, e sobretudo no Norte, a comprar mais suplentes. A diferença de dimensão entre o Benfica e os clubes pequenos, em Portugal, é tão grande que o que o Benfica gasta em lixo, todos os anos, tirava os clubes todos da I Liga, abaixo do sexto lugar, do vermelho. E não é suposto aproveitar-se esse poder? Ai não que não aproveitava. Venham mais Djaninis para emprestar ao Covilhã e ao Atlético e ao Granada, e venham em força. Grande parte do poder que o Porto reuniu ao longo dos anos resultou desse jogo de fidelidades improváveis, e entre resultados e jogadores comprados e vendidos com lucro vejam quanto ganhou. Porque não há-se o Benfica fazer mais e melhor se é maior e melhor?

Quanto ao resto, um caboverdiano que veio das Distritais dos Açores e que se chama Djaniny não é um jogador da bola, é uma personagem de romance ou é outra coisa qualquer. Eu gosto. Dava uma grande história de Natal. Mas...

terça-feira, 22 de novembro de 2011

«Por favor, não matem o TOC!»

Probabilidades do Benfica acabar a época com nenhuma derrota: 0 %.
Probabilidades de uma derrota com o Manchester United comprometer minimamente a época do Benfica: 1 %.
Boas razões para eu não me importar minimamente com uma derrota do Benfica, hoje, em Manchester (desde que não tragamos um cabaz no avião…): 99.

Apesar disso, não joga o Rooney.
Ainda assim, prefiro mais ser do Otelul Galati desde pequenino que acreditar muito num bom resultado do Benfica em Inglaterra. Era giro, mas não é que seja preciso. É melhor guardar a primeira vitória em Manchester para outras núpcias.

*

Os terroristas ameaçam rebentar qualquer coisa em Donetsk. Se alguém tiver aí por perto um ucraniano das obras com contactos à rede terrorista, peçam-lhe para ligar para lá e ele que lhes transmita esta mensagem:
«Por amor de Deus, o tipo baixinho com pulôver azul à Técnico Oficial de Contas e nariz comprido não é para matar. Repito: não é para matar!

Alvos preferenciais:
- ser mutante disfarçado de jogador de futebol. Fácil de reconhecer, apesar de já não ter o cabelo oxigenado: é o que manda nos outros e no TOC.
- velho bem vestido com olhos de carneiro mal morto. Pode acontecer que se desenvolva  um cheiro pútrido à sua volta. Leva a filha, brasileira. Também é fácil de reconhecer. É o que atrai as moscas mesmo com 15 graus abaixo de zero.

*

Ao intervalo cá estarei.

segunda-feira, 31 de outubro de 2011

A criatura

Hulk é um futebolista fantástico. Qualquer análise que não acabe nesta conclusão é porque começou enviesada pela clubite. É o melhor futebolista a actuar em Portugal, quer pela qualidade técnica e física quer pela competitividade, não tenho dúvidas, e o maior mérito na dimensão futebolística que ele atingiu pertence ao Porto. O Porto trabalha bem os seus jogadores e, geralmente, quando eles não pegam é porque ou não querem trabalhar ou querem trabalhar numa perspectiva de pôr a equipa a trabalhar para eles em vez do contrário.
O maior mérito do Porto é a sua capacidade de trabalho desportivo. O trabalho anti-desportivo, que existe, é posterior. (E enquanto os adeptos dos outros clubes não compreenderem perfeitamente esta distinção continuarão a ser presas em vez de serem predadores).

A filosofia colectivista e unitária que sustenta a cultura desportiva do Porto tem um elemento primordial: a abdicação de uma parte importante do ego, por cada jogador, a favor do colectivo. O sacrifício de uma parte da sua individualidade a bem do que é melhor para a equipa.

Porque é que o cabelo amarelo do Hulk suscitou estranheza (além do óbvio mau gosto)? Porque é uma expressão de individualidade invulgar no Porto. O Porto inventou o cinzentismo no futebol português. Criou a imagem do futebolista inexpressivo, totalmente concentrado no jogo, ausente do que existe em seu redor, um homem de cassete pronta para os jornalistas, o micro-management da comunicação, tudo a bem de uma imagem espartana da equipa, de uma máquina de guerra, preparada para tudo. É uma forma de cultura, baseada mais numa ideia de defesa da cidade que de ataque, de conquista. É por isto que o Porto tem tanta dificuldade em ganhar glamour. O Porto alcançou resultados mas não a admiração que deveria ter alcançado como consequência natural desses resultados. Estamos a falar de um clube de província português, sem recursos, que, graças a um processo espontâneo de construção de sucesso, se torna numa espécie de gigante dos pequenos da Europa. Qualquer adepto europeu de futebol deveria estar apto a reconhecer o brilhantismo dos seus feitos. No entanto, o Porto não tem glamour. Porquê? Porque a cultura do Porto é uma cultura de supressão de personalidade, e são as personalidades, não as vitórias militares, que conquistam as pessoas.

Ainda hoje, se perguntarem aos adeptos mais velhos do Porto quais são os jogadores que eles mais admiram eles vão, quase sempre, buscar jogadores antigos, de tempos em que o Porto pouco ganhava, mas que tinham um carisma que os diferenciava. Assim como hoje, se perguntarem aos mais jovens, eles não ligam o clube à imagem de um ou mais jogadores mas à identidade colectiva – à equipa. Sim, o Deco, o Falcão, etc, mas todos eles secundários da ideia da equipa. Até o adepto vulgar se vê compelido a falar do colectivo quando tem de defender o seu clubismo. É um discurso monocórdico que homogeneizou o clube.

Tão importante como ganhar, para se conquistar corações, é a graça com que se perde. Para haver ligação emotiva tem de haver humanidade. A essência do ser humano é o erro, o disparate. Quem não vacila são as máquinas. Quem é que quer saber de uma máquina?


É curioso como o Porto teve de criar uma cultura contra-natura ao ambiente em que está inserido para ter sucesso. O Porto-cidade é a verdadeira cidade liberal de Portugal. É uma terra de alegria, de espontaneidade, de vivacidade, de profunda liberdade, de personalidade e de carisma. O Porto-clube é uma realidade obscura, fria, negativa, opressora, fechada, lítica. Não digo que seja certo ou errado – pelos resultados dir-se-ia que é assim que tem de ser – só digo que é o que é. Aliás, esta é uma filosofia que tem feito escola nos outros dois clubes grandes portugueses. Gerou-se a ideia de que, para se ser um campeão, tem de se ser feio, porco e mau. Enquanto não aparecer um conjunto de personalidades livres que consigam ganhar com continuidade não haverá razões para se pensar o contrário. Até ver, isto não é para quem ri, é para quem aguenta.

Qual foi o último espírito livre a singrar no Futebol Clube do Porto? Alguém cuja primeira imagem, aos olhos do público, seja um sorriso, alguém que gere uma empatia natural, que se sinta que está fora de uma unidade militarizada? Não me lembro.
O colectivismo é a fórmula de sucesso do Porto, mas também é a sua fronteira. Para crescer, verdadeiramente, para extravasar a sua dimensão provinciana, o Porto terá de se render, progressivamente, aos indivíduos.

Ao pintar o cabelo, ao sair do campo propositadamente amuado, o que o Hulk está a dizer a toda a gente é que já é maior do que aquilo.
É ele e mais dez, segundo o presidente. Está na selecção do Brasil, joga quando quer e como quer, ganha mais do que os outros, custou mais do que os outros, vale 100 milhões, tem os clubes todos atrás dele e, evidentemente (não esquecer este pormenor), o Porto só não foi campeão em 2010 porque ele foi alvo de uma injustiça, segundo a própria mensagem pública veiculada pelo clube. Foi só ele voltar que o Porto nunca mais perdeu. Por que razão objectiva é que Hulk não deveria pensar que está acima do clube em que joga?

Hulk não é propriamente uma personalidade radiante, mas é um indisciplinado natural – a quem o castigo aplicado após o caso o túnel da Luz, por sinal, muito ajudou.
                   (Olhando retrospectivamente, teria sido preferível para o Benfica, por exemplo, que o castigo não tivesse sido aplicado: o Porto não teria sido campeão de qualquer forma, Hulk não seria o jogador que é porque não teria grandes motivos para mudar a sua atitude negativa, o Porto não teria encontrado um álibi para essa época nem uma motivação extra para a seguinte e provavelmente, Hulk, nesta altura, já não jogaria em Portugal.)

A fase pós-castigo acalmou-o e atrasou a sua explosão de personalidade, mas ela, agora, é irreversível e o Porto não está preparado para aclimatar um jogador assim. A criatura tornou-se maior que o criador.

A manutenção de Hulk após esta época – que é muito difícil em termos económicos –, ou de qualquer outra personalidade anormal, significaria que o Porto estaria a abrir uma outra dimensão de si próprio. Até certo ponto esse crescimento é inevitável. A partir de certo ponto a única forma de crescer quando uma cultura cristaliza é inserir elementos estranhos à tradição, liberalizar os costumes e esperar pela mistura de diferenças. Não é uma ciência oculta, é o processo social histórico.

Mas o Porto não vai fazer isso. Porque há outra tendência histórica que resulta directamente da natureza humana: a que diz que quando a realidade é rica, quando há muito a perder, a disposição do homem é conservadora, e não inovadora. Quando preza o que tem, o homem tende a não querer mudar, a não trocar o que julga certo pelo incerto. E o Porto tem muito a perder. Na verdade, tem tudo a perder, pois todo o seu sucesso desportivo real foi alcançado através do actual método a que podemos chamar de estóico.

Ninguém no Porto quer realmente manter Hulk na equipa para o ano que vem. É inseguro. É um risco. As coisas funcionam bem sem Hulks, como se comprovou nos últimos vinte anos. O Porto não vai liberalizar os seus costumes. E, como tal, vai-lhe acontecer o mesmo que aconteceu a todas as civilizações que passaram a seguir um instinto conservador: vai estagnar e, posteriormente, assim que uma civilização alternativa (Benfica ou Sporting) encontrar uma forma de evolução inovadora, cair em decadência. Até à vulgaridade. Como aconteceu ao Benfica depois dos anos 70, quando o Porto, através de Pedroto, encontrou a dimensão seguinte do profissionalismo do futebol português.

Eu, Carlos Xistra, confesso…

Sporting (IRPR = 0.125)

Domingos não é melhor nem pior que qualquer outro treinador português em relação à arbitragem. Quando é prejudicado chora muito, quando é beneficiado chora menos. Mas a capacidade inata para transformar toda e qualquer questão uma telenovela mexicana com dobragem para português da Leça da Palmeira vai-me aos nervos de uma maneira que mal consigo descrever.

«Foram quebras do jogo permanentes» (Domingos descobriu ontem que as equipas mais fracas tentam quebrar o ritmo das mais fortes. O que é estranho, porque a do feirense é das que menos antijogo faz em Portugal.)

«Dizer isto e aquilo é fácil, mas que perigo é que o Feirense nos criou?» (Com 0-0 o Feirense teve duas situações de jogadores em frente à baliza em que era só encostar. O Sporting, no jogo todo, não teve duas oportunidades tão boas como essa.)

«O Jéffren é um jogador que procura sempre a perfeição, e blá, blá, blá, blá, e sentiu o músculo a prender e saiu a correr» (Tradução: o Jéfren acagaçou-se e pirou-se)

«Tivemos a felicidade do penálti, como já tinha havido outro na primeira parte que não foi marcado» (Se alguém tem um movimento contra-natura é o jogador do Sporting, logo, é ele quem provocam o toque, que de facto existe. No primeiro lance o Elias sofre um toque e atira-se para o chão. Se o facto de ter levado o toque não o impediu de se impulsionar para o lado a tentar cavar a falta também não o impediria de continuar a correr, se quisesse, logo, o toque foi igual a tantos outros que existem num jogo e que, muito bem, não resultam em falta. Uma coisa é levar um toque, outra é sofrer falta. Há centenas de toques na área. O contacto físico é permitido no futebol. O que é sancionável é o impedimento do adversário de jogar a bola.)

«O Rinaudo leva dois amarelos em dois jogos só por jogar a bola.» (Isto depois do Sporting ter visto o jogo ser desencalhado por um vermelho dado a um jogador do Feirense por fazer falta sobre o Capel numa jogada em que este já tinha a bola perdida.)



Podia ter sido o Jesus, o Grande Timoneiro, o Cajuda, qualquer outro a dizer isto, mas no Jesus, por exemplo, na maior parte das vezes não passa de um assomo de boçalidade – no caso do Domingos, quando não há premeditação, é mesmo aquela costela Calimero que rebenta pelas costuras.

Cada conferência de imprensa do Domingos é um enredo, um drama, qualquer coisa de brutalmente trágico, desumanamente injusto, uma perseguição atroz, uma verdadeira novela – o lábio sempre húmido, o sorriso carente, as mãozinhas finas num crisma permanente.

Espero que ninguém diga isto ao Choramingos, senão ele lava-se em lágrimas, passa a mão no cabelo e desabafa: «Não podemos agradar a toda a gente. Eu compreendo…»

Há quem ganhe pela insistência. O Choramingos vai ganhar pela piedade.
Jesus, por favor, salva o Choramingos, porque ele sofre muito!

Em relação ao jogo o Sporting teve o benefício que qualquer um dos três grandes tem. Não é preciso fazer nenhum drama. Para isso já cá temos o Domingos.


Porto (IRPR = 0.100)

Momento do jogo por ordem temporal: um auto-golo digno dos Três Estarolas na última jogada da primeira parte.

Momento do jogo por ordem de grandeza: a substituição do Hulk. A criatura tornou-se, oficialmente, maior que o criador. Merece um post só para ele. Fica prometido.


Benfica (IRPR = 0.070)

Já não há dirigentes como antigamente. Nos bons velhos tempos (estou certo…) haveria de haver quem aplicasse uma bela multa de pelo menos 10 por cento do ordenado por se sofrer um golo como o do Olhanense. Da forma como dois jogadores do Olhanense arranjaram espaço, na linha lateral, para centrar à vontade uma bola que atravessa toda a grande-área e vai parar a um jogador sozinho do outro lado do campo para este encostar, tudo naquela jogada foi uma ode à calanzice por parte dos jogadores do Benfica.

O grande problema do Benfica não é técnico, nem táctico, é de concentração. Também isto vai merecer um post – quer vocês queiram quer não. Já aqui disse que só há uma coisa que me tira realmente do sério a ver futebol: a estupidez. Não confundir estupidez com ignorância. Ignorantes somos todos. Ignorância é não saber. Estupidez é não querer saber.

O Rodrigo não engana, mas atenção ao Matic. Tem dois pequenos problemas:

- não é nem um médio defensivo nem um médio ofensivo, ou seja, não é um especialista, o que hoje em dia é complicado a não ser que se seja muito bom;
- falta-lhe alguma agressividade.

Nenhum dos dois é um handicap definitivo. Pelo contrário. Aliás, se solucionar a segunda parte a primeira parte soluciona-se por si própria, porque aquilo que o Matic está a mostrar é que é um médio box-to-box com um potencial altíssimo nível, que enche o campo, rápido sobre a bola, com visão de jogo de linha a linha, capacidade física acima da dos restantes e uma técnica suficiente para meter a bola a quarenta metros sem risco. Com tempo de jogo, o Benfica pode ter encontrado aqui um jogador sensacional. Assim que aprender a dar porrada (a chamada «agressividade no bom sentido» vem depois, por simpatia), o que não é fácil, fica prontinho. Para já, com o sem Javi, vai ser titular em Braga, ou eu não me chame Jorge Jesus.

E ainda…

Estou a escrever isto enquanto vejo os resumos dos jogos. O penálti do Leiria-Setúbal é complicado, mas o do jogo do Guimarães…  Caramba
Eu não gosto de falar de arbitragens (agora até parecia um técnico dos da nossa praça), porque é um elemento poluidor de qualquer conversa, mas já que abri uma excepção para poder gozar um bocado com o Choramingos, acabo o serviço.

Vamos lá a ver: há uma ligeira (ligeiríssima) hipótese do Xistra ter sido condicionado pelo ambiente do jogo, mas o que eu vejo, naquele penálti, em que a bola vai bater na mão de um jogador que está de costas, a cair para trás e que nem sequer teve tempo para perceber que o adversário a tinha cabeceado, é um dos melhores argumentos que eu já vi a favor da tese dos que dizem que existe corrupção, pura e dura, ainda hoje, no futebol português. Naquele contexto (o Vitória à beira de ser desmantelado por dentro, a empatar em casa com o Rio Ave cinco minutos depois da hora) marcar aquele penálti é uma autêntica confissão tácita, e é dizer «sim, estou comprado e estou-me borrifando para o que vocês têm a dizer em relação a isso.»

Um hino à desonestidade.