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sábado, 21 de abril de 2012

Menos é mais

Tenho aqui uma buchazita para meter a propósito do Sporting, e do Sé Pinto, e dos treinadores, mas ainda não está acabada, e os jogos do Benfica são sempre um motivo para nos pormos a pensar sobre (lá está…) o Benfica, mesmo quando já metemos a chave à porta para acabar uma época e começamos a pensar na outra, como é o meu caso nas últimas semanas.



Algumas ideias soltas, mas que acho que são interessantes, a propósito do onze do Benfica.

Matic no lugar de García, por exemplo. Acho que estamos perante um caso típico de protecção de um jogador, que um bom treinador tem de saber fazer. Javi está claramente numa péssima forma. Em Alvalade fez, provavelmente, o pior jogo desde que está no Benfica, e quando isso acontece num jogo daqueles, com um animal competitivo como é Javí, é porque fisicamente o jogador está de rastos.

Mas duvido que Jesus tivesse feito isto em Dezembro ou em Janeiro. A filosofia do Jesus – e é por isso que os jogadores acabam por ficar tão queimados – é que a forma de eles superarem a fossa física é continuando a correr. Não é o único, nem é necessariamente errado. Há muitos treinadores, em muitas modalidades, que têm a mesma postura, e alguns com grande sucesso. É uma forma de trabalhar.

A questão é que, se se tem essa forma de trabalhar, a filosofia dos grandes plantéis não faz sentido. Se se quer apostar num núcleo curto (13 jogadores de campo + substitutos), que é o que o Jesus faz, na prática, tem de se gastar dinheiro a melhorar esse núcleo, e não a reforçar o fim do banco.

Eu não tenho nada contra o Jesus apostar numa equipa curta – para dizer a verdade, até me parece a melhor filosofia, embora sempre numa perspectiva de uma época/um título, que é a realista, e não na de «queremos ganhar tudo ou ir o mais longe possível», que é óptima para não se ganhar nada – mas se assim é os 13 jogadores nucleares têm de ter estofo físico e mental para aguentar as covas físicas num nível médio-alto, não podem ir ao fundo. Não é com Cardozos nem com Aimares que se lá vai. Tem de haver uma estrutura física e mental sólida.

E esses jogadores são mais caros. Porque são melhores. Como tal, na lógica do Jesus, o dinheiro gasto em contratações e salários de jogadores de terceira linha do plantel deveria ser gasto em menos jogadores e melhores  jogadores.

O onze inicial do Benfica na cabeça do Jesus, no início deste ano, deveria ser o seguinte: Artur, Maxi, Luisão, Garay, Emerson (porque não veio o defesa-esquerdo que ele queria, note-se), Javi, Witsel, Aimar, Enzo Pérez, Gaitán e Cardozo. Só aqui temos três ou quatro jogadores capazes de fazerem mais de um lugar (Javi, Witsel, Gaitán, Maxi…).

Este núcleo deveria ser complementado (novamente, no início da época), por Rúben Amorim, Matic, Saviola e Rodrigo, todos eles polivalentes e, portanto, capazes de fazer mais do que um lugar no caso de entrarem, que é exactamente o que se espera numa equipa de 14.

Além destes, o Benfica teve Nolito, Bruno César, Nélson Oliveira, Capdevilla, Jardel, Miguel Vítor, mais tarde Yannick, André Almeida, e acho que ainda me estou a esquecer de alguém. O caso específico de Enzo Pérez abriu o lugar para um mas todos os outros são jogadores com um custo muito acima da sua utilidade real.

(que não pode acontecer quando se trata de um jogador nuclear, pois coloca em causa o trabalho de uma época – e antes de me dizerem que «os jogadores são como os melões» eu digo já que dessa não como, porque vi um jogo completo do senhor Enzo e o que ali está é uma prima dona, pelo que das duas uma: ou não se contratam prima donas ou, se se contratam, tem de estar preparado para as tratar como prima donas a partir do momento em põe em pé em Lisboa)

Falemos só dos que vieram a custo zero (que não é zero nenhum, claro): Nolito, Capdevilla e Emerson, todos juntos, valem um jogador (que até pode ser também a custo zero) três vezes melhor que qualquer um deles, que entra directamente para o onze inicial e fortalece o núcleo de 14 que vai, de facto, decidir a época.

Quando começamos a ver nomes a surgir nos jornais para a próxima época é importante pensarmos nisto, porque toda a gente gosta de ver jogadores novos, e de preferência um todas as semanas, para matar o aborrecimento, mas no que 80 por cento desses jogadores se tornam depois é em parasitas.

O Benfica, já contando com os dois que vão sair, precisa de quatro titulares para a próxima época, e nem mais um. Os outros sete são para treinar e para jogar com o Freamunde, e para isso qualquer David Simão chega. Com um bocadinho de sorte até há um deles que dá jogador a sério e toda a gente parece mais inteligente. Todos os que não vierem nesta política, com o Jesus a treinador, são mais um desperdício de recursos e um erro de gestão.

Estou só a avisar com antecedência para, daqui a uns meses, poder falar com autoridade.



No processo de auto-crítica que tenho feito nos últimos tempos em relação à minha análise e às minhas previsões, já encontrei algumas em que atirei completamente ao lado, mas houve uma que se confirmou plenamente, mesmo que eu, bem à benfiquista, tenha tentado negar e olhar para o lado, mesmo contra todas as minhas convicções, e até à última hora: em Dezembro disse que o Benfica não seria campeão com Nélson Oliveiras, possíveis jogadores ainda de fraldas, a fazerem figura de Saviolas, que com a idade deles já estava entre os cinco melhores do mundo, e que para ter hipóteses o Jesus teria de recuperar o Saviola para a segunda metade da época. É um caso de classe pura. Se havia jogadores que mereciam grande investimento técnico, no Benfica. Mas no Benfica os jogadores são baratos.

 Tinha toda a razão.

Agora é tarde.



Ao ver o Nolito marcar dois golos de primeira, como marcou vários esta época, e a passar bola de cabeça levantada, a dar golos e a abrir jogo, fico com a certeza de que é um jogador de toque e de posição, na melhor escola do Barcelona, e não um jogador de drible e progressão com bola. Apesar de ter a tendência para se agarrar muito à bola, e de gostar demasiado de a ter nos pés, Nolito, que dá a imagem do individualista acabado, tem, de facto, um jogador de equipa dentro de si. E não é o único. Rodrigo também, por exemplo. A mais-valia destes jogadores está em tocarem bem e poucas vezes na bola, e não muitas. A produção de Rodrigo, por exemplo, caíu muito a partir do momento em que deixou de jogar a 9 para começar a transportar a bola.

Gaitán seria muito melhor se tivesse menos bola e usasse melhor a bola. Aimar também. Witsel, que fisicamente é um portento e é o único jogador do meio-campo do Benfica capaz de chegar ao campo todo, ainda mais. Bruno César também.

Na ânsia de criar um estilo de ataque imprevisível, Jesus alimentou um estilo imprevisível, sim, mas individualista e desgarrado.

E já não o vai mudar.

Nem deve, nesta altura do campeonato. Neste ponto, com mais uma época de projecto, é viver pela espada ou morrer pela espada. Mudar de arma já não serviria para nada.

quinta-feira, 12 de abril de 2012

2012/13 racional

Em relação ao chefe da Guarda Pretoriana Lacoste, e ficando ansiosamente à espera de mais desenvolvimentos para poder continuar a rir-me a bandeira despregadas, quero só, para já, remeter para o conceito de sportinguite já aqui enunciado anteriormente, e acrescentar que, em caso de sportinguite aguda, a «processo de auto-mortificação em que todas as partes, numa sequência lógica, encadeiam precipitações até criarem um problema administrativamente insolúvel», se deve juntar «e em que, no processo, os envolvidos conseguem dobrar-se e trincar os próprios tomates em público.»



Em frente.

Hoje e amanhã, um exercício de contraditório.



Racionalmente, a época de 2012/13 do Benfica é linear. Por isso é melhor estabelecermos já essa linearidade porque , daqui até Agosto, haverá múltiplas distorções que tornarão esta recta racional, se tudo correr bem, numa elipse, e se tudo correr mal num U, mandando tudo lá para trás outra vez – sendo este tudo três anos de crescimento gradual.



Esta é, então, a lógica a que, teoricamente, obedecerá a planificação da próxima época benfiquista:



1º segmento

Desportivamente, é a temporada de conclusão de um projecto. O treinador está no último ano de contrato e acumulou a experiência necessária para estar mais bem colocado do que nos três anos anteriores para atingir os objectivos desportivos.

A equipa tem subido gradualmente de capacidade – a única anomalia foi ter sido campeã no primeiro ano, tendo subido de terceiro (ou quarto?) para primeiro, saltando um degrau, algo que foi normalizado no ano seguinte e neste que agora acaba, com uma subida da capacidade competitiva reflectida na distância pontual para o primeiro.

Há um núcleo de jogadores que cumpriu todo o ciclo como coluna vertebral da equipa (Luisão, Maxi, Javi, Aimar, Cardozo) e que atinge, sem excepção um momento de maturidade competitiva ou definitiva ou muito perto do limite possível enquanto jogadores do campeonato português. Neste momento, os principais jogadores do Benfica já viveram o suficiente para saberem praticamente tudo o que há para saber no que respeita ao que é preciso para serem campeões.

O último ano do treinador coincidiria com o último ano, também, de alguns destes jogadores, que representam o modelo futebolístico que implantou desde o primeiro dia. É fácil, e mesmo natural, ver Javi, Aimar e Cardozo, por exemplo, a encerrarem este ciclo e a sairem no fim da próxima época.

Não faria sentido romper, neste momento pré-conclusivo, com a continuidade, a começar pela cabeça: o treinador é a pedra basilar do plano quadrianual (já dizia Estaline…), como tal deve ficar.



2.º segmento

A equipa que este ano ficou à beira do título – não é, de todo, desajustado dizer que ficou a um resultado do título – foi uma equipa com 9 jogadores novos no clube: Artur, Garay, Emerson, Matic, Witsel, Nolito, Bruno César, Rodrigo e Nélson Oliveira, a que se pode juntar um décimo, Yannick, com alguma boa vontade.

Destes 9 jogadores, há 8 com margem de progressão evidente se se juntar a maturidade de um ano de competição alta ao seu próprio processo individual de crescimento. Incluo Artur porque um guarda-redes só o é mesmo a partir dos 30 anos e não incluo Emerson, porque não tem potencial para mais do que o que já dá. Destes 8, há 4 que representarão, provavelmente, uma subida de qualidade do onze inicial (Artur, Garay, Witsel e Rodrigo), dois que, potencialmente, podem explodir (Matic e Nélson Oliveira) e dois que acrescentarão profundidade, de facto, ao plantel, ainda que não tenham, potencialmente, a categoria para jogar, de caras, no onze inicial de um Benfica de alto nível (Nolito e Bruno César).

A margem de progressão do plantel como está é grande, e há poucos pontos fracos. Em termos de onze inicial, o Benfica pode dar-se ao luxo de adquirir apenas um defesa-esquerdo e um extremo, além dos substitutos para o(s) jogador(es) que sair(em). Se tivesse apostar apostaria em Gaitán – uma aposta tão segura que já nem é aposta – o que não será muito prejudicial para a equipa e Javi García – o que será, na minha opinião, um erro, mas provavelmente um erro inevitável, porque será o jogador com mais mercado. Mais facilmente venderia Rodrigo, Nélson Oliveira ou Cardozo para poder ficar com Javi mais um ano, mas enfim, não se tem o que se quer, tem-se o que se pode.

O Benfica tem quatro aquisições por fazer. Se acertar em três é suficiente para melhorar a equipa. Quanto ao banco, precisa de mais um jogador. Um Rúben Amorim qualquer. Chega.

Em termos de construção de plantel, está numa situação privilegiada.

(Acrescento que não conto com Enzo Pérez porque vi um jogo do Estudiantes há uns dias e, se vier, vai ser um a menos. Sim, bastou-me um jogo. Sou mesmo um génio… Espero enganar-me.)

Há dois jogadores de saída que abrirão não só lugar no plantel como espaço salarial (Saviola e Capdevilla), o que nos leva ao terceiro segmento.



3.º segmento

É o primeiro ano com novo contrato televisivo, ou sem ele. Não se acredita que o Benfica possa prescindir de receitas televisivas no meio da pior crise económica do século, mesmo que venha a não assinar com a Sport TV (num aparte, como é que o presidente do Benfica tem condições reais de assinar contrato com a Olivedesportos, ponta-de-lança financeira do sistema, neste momento? Vejo as coisas complicadíssimas nesse aspecto.). Ainda assim, é difícil ao Benfica não aumentar as suas actuais receitas anuais com direitos televisivos mesmo que venha a negociar jogo a jogo com os operadores nacionais durante um ano ou dois. Pode não ganhar tanto como com uma venda em pacote a longo prazo, mas ganha mais do que o que ganha actualmente de certeza.

Isso deverá significar a possibilidade de investir na equipa, ainda que não se possa saber muito bem quanto é que custa o dinheiro ao Benfica, neste momento. Podemos supor que custa muito caro, dada a falta de investimento em Janeiro, quando as condições para chegar ao título eram as mais propícias e quando, com mais um titular, muito possivelmente, se teria ganho o campeonato.

Esse refreamento em Janeiro dá toda a ideia de ter sido estratégico, para se esperar pelo Verão e reforçar a equipa com maiores garantias de sucesso e com mais dinheiro para gastar. Veremos, no Verão, se se confirma, ou se o investimento está mesmo impossível.

Por outro lado, na concorrência, houve uma aposta forte em Janeiro, quer na não-saída de jogadores quer na entrada de elementos sem-retorno financeiro garantido (Lucho e Manko), já depois de ter havido um investimento brutal no Verão de 2011.

Ao que tudo indica, o Porto empenhou-se (literalmente) para renovar o título este ano e «para o próximo, logo se vê». É um sinal, não diria de desespero, mas de ansiedade, de fuga para a frente. As fugas para a frente não acabam bem. O que nos leva ao quarto segmento.



4.º segmento

A concorrência estará mais fraca, pelo menos durante uma parte da temporada. O Porto tem duas épocas para pagar – a que acaba e a que aí vem – e recursos limitados para a pagar. Na melhor das hipóteses saem Hulk, Álvaro Pereira e Rolando. Na pior, juntam-se-lhe Moutinho, James ou Fernando, se Guarín não for comprado pelo Inter (o que ninguém pode dar como certo). Os outros, se saírem, não dão dinheiro a sério porque não têm mercado.

A capacidade de competir do Porto não vai diminuir, a ética de trabalho é forte, e provavelmente até veremos o Porto a jogar mais colectivamente do que este ano, mas a qualidade imediata, sim, decairá. O Porto vai ter de encontrar três titulares, pelo menos para manter um nível aproximado (o que não é garantido que chegue se o Benfica realmente subir) ou quatro para melhorar a equipa. Mesmo que já os tenha (Mangala, Sandro, Danilo, serão titulares) o nível, pelo menos durante os primeiros meses, não será o mesmo, e a compulsão para ir buscar mais jogadores será inevitável. Ainda que encontre boas opções (o que é crível, porque o Porto trabalha bem no mercado) o processo de adaptação à equipa é sempre mais moroso. Até o Hulk levou algumas semanas a entrar na equipa. Além disso, o Porto não compra jogadores experientes (Lucho e Manko foram uma clara excepção), por razões económicas e porque, se não vêm já formatados para o estilo de jogo da equipa, são mais difíceis de educar.

Não se está a contabilizar o novo treinador (ou o actual, o que seria pior) e a necessidade imperial de apostar forte na Liga dos Campeões para repor receitas.

Quer queira quer não, o Porto, que adiou o final de ciclo para este ano apesar de, pela lógica económica, ele dever ter acontecido no Verão passado, terá um ano de transição, seja qual for o treinador, apenas porque uma parte importante da espinha dorsal da equipa será nova. Será um ano de clara passagem de testemunho, em que jogadores como James, Moutinho ou Danilo serão chamados a assumir a liderança da equipa em termos de rendimento.

O Sporting estará numa fase, ainda, de concorrência apenas parcial. Em termos de resposta à pressão, o Sporting falhou claramente este ano, e seria preciso um milagre igualmente parcial para subir dois degraus num único ano perante duas equipas já rotinadas na competição pelo título. Se o Benfica esteve a um resultado do título, o Sporting esteve a uma volta inteira. Vai chatear, mas não vai ganhar. Ou, pelo menos, não seria racional contar com isso, e este é um exercício de racionalidade.



Racionalmente, perante este cenário, só haveria uma coisa a fazer pelo Benfica: manter a direcção firme, não mudar nada de substancial, meter uma abaixo e carregar no pedal.



Aliás, é tudo tão certinho que até dá para desconfiar.



Amanhã veremos a 2012/13 intuitiva.

sábado, 31 de março de 2012

Gaitán-Robben, Cardozo-Aguero, Aimar-Özil...

Em nenhum momento em que tem a bola nos pés nenhum jogador do Benfica tem uma ideia de como a jogada deve acabar. Ou melhor, têm uma ideia: sabem onde está a baliza. Tudo o resto é fruto do acaso. Os jogadores do Benfica são muito melhores do que o que parecem.

O Gaitán tem muito mais futebol dentro dele do que aquilo. O Rodrigo também. O Witsel também. Não têm é treinadores para isso. Os jogadores do ataque do Benfica só têm uma dimensão: a sua. A dimensão colectiva que possam ter dentro deles, com o tempo, com Jorge Jesus, pura e simplesmente desaparece. Porque o que o Jesus pede aos seus jogadores de ataque é precisamente isso: que sejam imprevisíveis, que usem a liberdade para criar soluções. O Rodrigo, ao fim de seis meses, é um jogador muito mais individualista do que era no princípio.

O resultado disto, na prática, é que facilmente o ataque do Benfica se torna também unidimensional: jogador com bola olha para a bola, olha para a frente e começa a correr. Há escassas hipóteses do colectivo do Benfica resolver um jogo, no ataque, porque, quando o jogador procura a solução colectiva, ou ainda não está lá ou já passou. Porque o outro jogador, obviamente, está na sua própria dimensão do jogo, que raramente coincide com a dos outros.

Tudo o que não seja óbvio, simples ou sorte não está ao alcance de uma equipa assim.



Este é o estilo de ataque do Jorge Jesus. Mas é curioso que só é assim desde que chegou ao Benfica. Antes disso, mesmo no Braga, quer o ataque quer a defesa eram mecanizados ao pormenor. Não havia liberdade para ninguém. Fazia o que os americanos chamam de micro-management, controlava todos os movimentos de todos os jogadores até ao pormenor. Nunca cheguei a perceber se o Jesus mudou o chip só porque estava no Benfica, se foi por perceber que, contra as defesas muito cerradas que o Benfica tem de enfrentar, só poderia resultar assim, se foi por sentir que finalmente tinha matéria humana para jogar «à Barcelona» (ao Barcelona do tempo dele, não do actual, entenda-se). Mas a verdade é que mudou mesmo.



Este estilo de jogo não é necessariamente errado. Quando é executado por grandes jogadores, como é que se defende um ataque imprevisível, rápido e tecnicista? É praticamente impossível. Aí sim, entramos no plano teórico do «basta marcar mais um que eles», porque as probabilidades são as de ganhar quase sempre por 3-2, 4-2, 3-1…

É o que acontece com esta equipa do Benfica em 70 por cento dos jogos, com as equipas com menos categoria, de baixa rotação e com menos capacidade de aguentar a pressão. Com as outras, não, por uma razão simples: os jogadores do Benfica não são suficientemente bons e não se conhecem suficientemente bem para arranjarem soluções em conjunto.

O Barcelona de Cruyff que ganhou cinco campeonatos seguidos e a Taça dos Campeões, e onde o Jesus foi fazer estágio, tinha-os. Stoichkov e Romário, por exemplo. Mesmo assim, note-se, sempre no fio da navalha. Dois ou três desses campeonatos foram ganhos graças a falhanços dos concorrentes directos (o Real e o Corunha uma, com um penálti falhado no último minuto do último jogo do campeonato, a jogar no Riazor) e na segunda final da Taça dos Campeões, que marcou o fim da era-Cruyff, com o Milão, levou 4-0! (Repare-se, contudo, que a disciplina táctica dessa equipa do Barcelona não é comparável com a deste Benfica. Era muitíssimo superior, assim como a capacidade de passar a bola.)

Este tipo de futebol de alto risco é um futebol que rebenta com os nervos, mas que apaixona, é ousado, corajoso e é à equipa grande. O tipo de futebol do Porto, por exemplo, sempre foi ao contrário, defensivo, seguro, e por mais que ganhe não apaixona ninguém. Passa incógnito. O que é que se sabe na Europa sobre o Porto? Que ganha. Mas só os treinadores é que gostam de os ver a jogar. Para os adeptos o Porto é igual aos outros, não se distingue.



Para conseguir fazer nos outros 30 por cento de jogos o que faz nos mais fáceis, e com o Jesus, só há uma hipótese: ter melhores jogadores. E já não vou para Ronaldos, Messis ou Iniestas. Ter um Aguero em vez do Cardozo. Ter um Robben em vez de um Gaitán. Ter um Mata em vez de um Bruno César. Ter um Özil em vez de um Aimar. Ter um Yaya Touré em vez de um Javi García. Ter um Coentrão em vez de um Emerson. Por este último exemplo, apenas, se pode ver a que distância real se encontra (na minha opinião, claro) o Benfica de Jesus da equipa que ele (o Jesus) pensa que tem.



Mais um ano de entente Vieira/Jesus, na melhor das hipóteses, vai dar nisto: o Benfica perde dois titulares, compra três ou quatro, melhora o onze inicial, os jogadores conhecem-se um pouco melhor, alguns deles amadurecem (Rodrigo, a Charrua, o Witsel…), o Benfica começa a época na data normal, chega a Fevereiro mais fresco, passa da tal fasquia dos 70 por cento para a dos 75 ou 80, se tiver sorte alguns deles são os decisivos, o Porto perde o Hulk e fica com o TOC mais um ano, e dá um campeonato. Mais nada. E isto é na melhor das hipóteses, porque ninguém garante que o Porto sem Hulk será mais fraco, como equipa, que o Porto com o abono de família Hulk.



Quanto ao jogo, qual foi a novidade? Uma equipa com 60 minutos de jogo no pulmão, a desperdiçar posse de bola como se tivesse 120 e como se do outro lado estivesse uma equipa a treinar. Jogo relativamente seguro a defender e totalmente errático a atacar, incapacidade de segurar uma vantagem caída do céu aos trambolhões numa jogada idiota do defesa do Braga, uma equipa do Braga a jogar como o Feirense e inferior em todos os sentidos menos nos pormenores da organização e do colectivismo, jogada individual genial de Gaitán no minuto 92, já fora de tudo, com Bruno César a marcar o golo da sua carreira num momento de classe, fazendo o que tinha de ser feito de maneira precisa. O Benfica ganha da única forma que consegue ganhar um jogo com este grau de pressão: com uma coincidência de momentos individuais brilhantes. Que, por extrema felicidade (estrelinha de campeão?) chega no último suspiro. É Gaitán quem ganha este jogo, não nos iludamos. Os outros empataram-no – ele, em cinco segundos, ganhou-o. No limite. À messias. Como o povo gosta. Mas para termos uma equipa de nível europeu temos de o trocar por um Robben.

Fácil, não?

domingo, 12 de fevereiro de 2012

Futebol entrançado

Fui à bola com a sacerdotisa. Da última vez que a tinha levado ao Benfica tínhamos perdido 3-0 com a Académica. Da primeira tínhamos empatado a 2 com o Beira-Mar. A minha mulher dá azar ao Benfica. Quando levo a mulher à bola e o Benfica ganha 4-1 não há razões para se esta preocupado. Vai tudo correr bem.

No regresso ela disse-me para não vir para aqui estragar a noite aos benfiquistas com as minhas exigências. «A equipa até deu bons toques na bola (sic) e marcou bons golos», disse-me ela.

Por deferência à esposa, e também porque, quando vinha para casa, ouvi o Jesus no rádio a dizer que o Benfica tinha feito uma das melhores exibições da época, vou dedicar esta crónica a alguns fait-divérs mais levezinhos.



Por exemplo, sabemos que um jogador é o elo mais fraco de uma equipa quando uma equipa amputada dos seus dois ou três melhores jogadores, com uma meia-final da Taça de Portugal perdida dois dias antes e uma viagem da Madeira para Portugal pelo meio, depois de tentar explorar, durante 15 minutos, o facto de a outra equipa ter um médio-ofensivo a jogar a defesa-direito, rapidamente percebe que obterá melhores resultados se canalizar todo o seu jogo ofensivo para o outro lado, onde está o defesa-esquerdo titular, porque aí é que pode estar o tesouro.



Durante 45 minutos pensei que o Witsel tivesse rapado o cabelo. Só quando mudaram de campo é que vi que tinha trancinhas. Foi nesse momento que me apercebi da plena potencialidade do cabelo do Witsel. O Witsel devia ter um penteado para cada posição. Quando joga a médio-centro, usar a afro. A defesa-direito, as trancinhas. A 10, pôr o cabelo todo liso, para trás, à maestro. Quando jogar a extremo-esquerdo fazer risco ao lado. Esta é uma ideia demasiado espectacular para se perder num blog clandestino. Alguém com poder que pegue nisto e faça história. «Camaleão Witsel».



A equipa do Benfica tem três partes. A parte de trás, que é relativamente boa; a parte do meio, que precisa de muito espaço para funcionar; e a parte da frente, que é uma coisa do caraças. O grande desafio desta equipa do Benfica é conseguir chegar à linha imaginária que atravessa o campo de um lado ao outro cerca de 15 metros à frente da grande-área adversária. Se o Benfica chega aos últimos 35 metros do campo, passa a ser um problema de classe mundial que os outros têm para resolver. É um futebol entrançado, que dá poucas hipóteses à defesa. Com melhores jogadores a executar, este estilo de ataque é mortífero. É muito parecido com o da equipa que ganhou o campeonato em 1994, com o João Pinto, o Rui Costa, o Isaías, o Águas, o Paneira… Mas essa defendia muito pior.

Agora só falta conseguir chegar a esses 35 metros sem ser em jogadas de transição. Não é impossível. Se não se estragar o que já está feito, se se for prudente com o que se tem, profissional, audacioso e ambicioso com o que ainda não se tem, e se se acertar muito mais do que o que se errar, daqui a 5 ou 6 anos é possível.



Antes do Cardozo marcar o penálti disse à minha mulher: «O Cardozo vai tentar marcar em jeito e falha.» (Porque o Cardozo, juntamente com as anémonas e os corais, é um dos invertebrados marinhos mais previsíveis do oceano). Ela encolheu os ombros, porque enquanto vocês só apanham comigo aos poucochinhos ela apanha comigo todos os dias. Aquele encolher de ombros era uma forma de dizer: «Cala-te, chato.» Depois, o Cardozo tentou marcar em jeito, falhou o penálti e ela ficou a olhar em frente, sem abrir a boca, e a tentar não se desmanchar a rir para não irritar os benfiquistas em redor.

Devo dizer que, hoje, o Cardozo me mostrou, de facto, que está a fazer a melhor época dele no Benfica. Está um jogador muito mais leve, mais colectivo e ligeiramente mais criativo do que da última vez que o vi. Este Cardozo vale mesmo pontos – e olhem que, em quatro anos, este é o maior elogio que já lhe fiz.



O Rodrigo é um competidor nato. Com aquela capacidade física, cultura táctica e facilidade técnica, aos 20 anos de idade, confesso que, ao vivo (e ao vivo percebe-se perfeitamente tudo isto, sobretudo o seu poder físico, que o coloca claramente acima dos defesas), vi poucos. Posso estar a exagerar, mas, se há uns dias disse que ele e o Witsel, daqui a poucos anos, estariam nas melhores equipas da Europa, hoje digo que o Rodrigo, aos 27 anos, se não houver lesões e se não quiser dar um passo maior do que a perna – ou seja, se não quiser subir depressa demais para ganhar dinheiro e com isso ficar encostado metade do tempo numa equipa acima das suas capacidades – vai estar entre os cinco melhores avançados da Europa. E, na próxima época, será já o jogador mais importante na equipa do Benfica.



Já em casa, ouvi o Grande J dizer na conferência de imprensa que o Benfica tinha «um estádio a três dimensões» e, depois disto, só se pode ir para a cama com um sorriso nos lábios.

segunda-feira, 31 de outubro de 2011

Eu, Carlos Xistra, confesso…

Sporting (IRPR = 0.125)

Domingos não é melhor nem pior que qualquer outro treinador português em relação à arbitragem. Quando é prejudicado chora muito, quando é beneficiado chora menos. Mas a capacidade inata para transformar toda e qualquer questão uma telenovela mexicana com dobragem para português da Leça da Palmeira vai-me aos nervos de uma maneira que mal consigo descrever.

«Foram quebras do jogo permanentes» (Domingos descobriu ontem que as equipas mais fracas tentam quebrar o ritmo das mais fortes. O que é estranho, porque a do feirense é das que menos antijogo faz em Portugal.)

«Dizer isto e aquilo é fácil, mas que perigo é que o Feirense nos criou?» (Com 0-0 o Feirense teve duas situações de jogadores em frente à baliza em que era só encostar. O Sporting, no jogo todo, não teve duas oportunidades tão boas como essa.)

«O Jéffren é um jogador que procura sempre a perfeição, e blá, blá, blá, blá, e sentiu o músculo a prender e saiu a correr» (Tradução: o Jéfren acagaçou-se e pirou-se)

«Tivemos a felicidade do penálti, como já tinha havido outro na primeira parte que não foi marcado» (Se alguém tem um movimento contra-natura é o jogador do Sporting, logo, é ele quem provocam o toque, que de facto existe. No primeiro lance o Elias sofre um toque e atira-se para o chão. Se o facto de ter levado o toque não o impediu de se impulsionar para o lado a tentar cavar a falta também não o impediria de continuar a correr, se quisesse, logo, o toque foi igual a tantos outros que existem num jogo e que, muito bem, não resultam em falta. Uma coisa é levar um toque, outra é sofrer falta. Há centenas de toques na área. O contacto físico é permitido no futebol. O que é sancionável é o impedimento do adversário de jogar a bola.)

«O Rinaudo leva dois amarelos em dois jogos só por jogar a bola.» (Isto depois do Sporting ter visto o jogo ser desencalhado por um vermelho dado a um jogador do Feirense por fazer falta sobre o Capel numa jogada em que este já tinha a bola perdida.)



Podia ter sido o Jesus, o Grande Timoneiro, o Cajuda, qualquer outro a dizer isto, mas no Jesus, por exemplo, na maior parte das vezes não passa de um assomo de boçalidade – no caso do Domingos, quando não há premeditação, é mesmo aquela costela Calimero que rebenta pelas costuras.

Cada conferência de imprensa do Domingos é um enredo, um drama, qualquer coisa de brutalmente trágico, desumanamente injusto, uma perseguição atroz, uma verdadeira novela – o lábio sempre húmido, o sorriso carente, as mãozinhas finas num crisma permanente.

Espero que ninguém diga isto ao Choramingos, senão ele lava-se em lágrimas, passa a mão no cabelo e desabafa: «Não podemos agradar a toda a gente. Eu compreendo…»

Há quem ganhe pela insistência. O Choramingos vai ganhar pela piedade.
Jesus, por favor, salva o Choramingos, porque ele sofre muito!

Em relação ao jogo o Sporting teve o benefício que qualquer um dos três grandes tem. Não é preciso fazer nenhum drama. Para isso já cá temos o Domingos.


Porto (IRPR = 0.100)

Momento do jogo por ordem temporal: um auto-golo digno dos Três Estarolas na última jogada da primeira parte.

Momento do jogo por ordem de grandeza: a substituição do Hulk. A criatura tornou-se, oficialmente, maior que o criador. Merece um post só para ele. Fica prometido.


Benfica (IRPR = 0.070)

Já não há dirigentes como antigamente. Nos bons velhos tempos (estou certo…) haveria de haver quem aplicasse uma bela multa de pelo menos 10 por cento do ordenado por se sofrer um golo como o do Olhanense. Da forma como dois jogadores do Olhanense arranjaram espaço, na linha lateral, para centrar à vontade uma bola que atravessa toda a grande-área e vai parar a um jogador sozinho do outro lado do campo para este encostar, tudo naquela jogada foi uma ode à calanzice por parte dos jogadores do Benfica.

O grande problema do Benfica não é técnico, nem táctico, é de concentração. Também isto vai merecer um post – quer vocês queiram quer não. Já aqui disse que só há uma coisa que me tira realmente do sério a ver futebol: a estupidez. Não confundir estupidez com ignorância. Ignorantes somos todos. Ignorância é não saber. Estupidez é não querer saber.

O Rodrigo não engana, mas atenção ao Matic. Tem dois pequenos problemas:

- não é nem um médio defensivo nem um médio ofensivo, ou seja, não é um especialista, o que hoje em dia é complicado a não ser que se seja muito bom;
- falta-lhe alguma agressividade.

Nenhum dos dois é um handicap definitivo. Pelo contrário. Aliás, se solucionar a segunda parte a primeira parte soluciona-se por si própria, porque aquilo que o Matic está a mostrar é que é um médio box-to-box com um potencial altíssimo nível, que enche o campo, rápido sobre a bola, com visão de jogo de linha a linha, capacidade física acima da dos restantes e uma técnica suficiente para meter a bola a quarenta metros sem risco. Com tempo de jogo, o Benfica pode ter encontrado aqui um jogador sensacional. Assim que aprender a dar porrada (a chamada «agressividade no bom sentido» vem depois, por simpatia), o que não é fácil, fica prontinho. Para já, com o sem Javi, vai ser titular em Braga, ou eu não me chame Jorge Jesus.

E ainda…

Estou a escrever isto enquanto vejo os resumos dos jogos. O penálti do Leiria-Setúbal é complicado, mas o do jogo do Guimarães…  Caramba
Eu não gosto de falar de arbitragens (agora até parecia um técnico dos da nossa praça), porque é um elemento poluidor de qualquer conversa, mas já que abri uma excepção para poder gozar um bocado com o Choramingos, acabo o serviço.

Vamos lá a ver: há uma ligeira (ligeiríssima) hipótese do Xistra ter sido condicionado pelo ambiente do jogo, mas o que eu vejo, naquele penálti, em que a bola vai bater na mão de um jogador que está de costas, a cair para trás e que nem sequer teve tempo para perceber que o adversário a tinha cabeceado, é um dos melhores argumentos que eu já vi a favor da tese dos que dizem que existe corrupção, pura e dura, ainda hoje, no futebol português. Naquele contexto (o Vitória à beira de ser desmantelado por dentro, a empatar em casa com o Rio Ave cinco minutos depois da hora) marcar aquele penálti é uma autêntica confissão tácita, e é dizer «sim, estou comprado e estou-me borrifando para o que vocês têm a dizer em relação a isso.»

Um hino à desonestidade.