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sexta-feira, 6 de abril de 2012

A tripa

Este sábado há esbórnia na Catedral Oficial dos Blogues Com Menos de 300 visitantes por dia (COBCOM): comentários, relambório e esventramento em directo do Braga-Porto. Vamos dissecar, chafurdar, esmiuçar e de preferência não lamentar tudo – tirando algumas coisas que nos passem ao lado… - o que aconteça no jogo entre o grande clube do Porto e o seu apêndice minhoto. Das bolas de naftalina atiradas para dentro do campo ao speaker afónico por uma noite.

Com este trailer espero, pelo menos, 301 visitantes, para subir à categoria de Capelinha Oficial dos Blogues Com Menos de 5000 visitantes por dia (COBCOM).

Entretanto, há meia-dúzia de coisas que não me saem da cabeça. Ou seja, três.



1 – Lista dos três jogadores que mais falta fazem ao Porto, de acordo com os resultados no campeonato, por ordem de importância: (1) Fernando; (2) Hulk; (3) Lucho González.

Os cibercomentadores que têm passado o dia a valorizar a importância da ausência do Fernando no jogo de Braga têm toda a razão. Devo advertir que não faço a mínima ideia do que os cibercomentadores têm passado o dia a fazer, porque tenho coisas melhores para fazer com o meu tempo, mas se não passaram o dia a falar do Fernando deviam ter passado.

O mais bizarro é que, provavelmente, os portistas mais… (bom, em frente), se tivessem ficado sem o Hulk, andavam desvairados de desespero, e não ligariam muito ao Fernando, mas eu, se fosse portista e tivesse de escolher, trocava o Hulk pelo Fernando num instantinho. Não é que o Polvo (que epíteto tão adequado, céus!) seja nem um terço do jogador que o outro é, mas é o que já aqui disse muitas vezes: não é a qualidade do jogador, é a função. Não quer dizer que o Hulk não fizesse falta (aliás, está em segundo na lista oficial emitida por mim próprio aqui em cima), mas um golo marca-se de muitas maneiras, agora fazer o que o Fernando faz, no Porto, só ele é que faz.



2 – Este fim-de-semana é à campeão. Não há muitas equipas verdadeiramente campeãs no desporto. Campeãs a sério. Nenhuma destas que ganhará o campeonato deste ano o é. Um Benfica à campeão jamais teria perdido aquele jogo em Guimarães. Um Porto à campeão nunca teria empatado aquele jogo em Paços de Ferreira. Um Braga à campeão teria ganho o jogo da Luz. Mas, mesmo assim, este fim-de-semana, é a melhor oportunidade que aparecerá este ano para qualquer uma delas se aproximar desse nível.

Uma equipa campeã, na minha definição, é uma equipa que não aceita a derrota, sob nenhuma circunstância, incluindo a das famosas arbitragens eu tanto enche a barriga do Zé Povo. Uma equipa campeã consegue até colocar-se acima desse jogo – joga um jogo diferente. É muito raro. Quando acontece, assistimos à consagração do desporto. É uma coisa importante. Podemos passar anos e anos à espera que aconteça. Não é coisa que se coadune com calimerices do género «e tal, e estava fora-de-jogo, e o gajo não quis marcar», ou «e não deu o vermelho», e choraminguices dessa categoria, tipo «eles falam, falam, falam mas eu não os vejo a fazer nada…». É coisa para se chegar ao fim e dizer: «Tu ganhas-me é o c….!»

É uma coisa com outra classe, portanto.



3 – Quanto mais se aproxima o jogo mais se me vai crescendo, cá dentro da tripa, uma sensação de que os jovens adeptos do Benfica – esse pessoal com menos de 21 anos, que só começou a conseguir perceber o que era isto da bola há coisa de 13/14 anos – podem estar à beira de assistir, na próxima segunda-feira, ao primeiro momento realmente à Benfica das suas vidas, e a um dos dez maiores momentos na história do clube.

A coisa está-se a compor de uma maneira que, tal como está neste momento, só acontece de dez em dez anos ou mais. Aparecer o cenário é sempre a parte mais difícil, pela grande conjugação de factores que implica. E o cenário está quase, quase, montado.

Eu já disse que ando a ver se desenguiço este campeonato desde que lixei o jogo com o Porto?

segunda-feira, 2 de abril de 2012

Futebol quântico

Há um segredo por revelar e que joga a favor do Benfica nestes últimos 30 dias de competição. É possível que eu possa estar a dar azar ao falar disto, mas, considerando que já lixei o campeonato ao Benfica ao dizer que não íamos perder com o Porto em casa, espero que isto permite reverter o feitiço (porque só se eu conseguir reverter o feitiço é que temos a mínima hipótese de ainda ganhar isto, obviamente).

O segredo é este: entrámos no plano do irracional.

Basta olhar para os sinais. Começando por Olhão, para não irmos mais longe. Saviola falha um golo feito no último remate do jogo e o Benfica fica com o campeonato pendurado por um cabelo. Dois dias depois, em Paços de Ferreira, o Porto desperdiça cerca de 10 golos em frente ao guarda-redes e, a 8 minutos do fim, com o título no bolso, sofre um golo de canto com o jogador do Paços a marcar de cabeça no centro da área, sem um único jogador do Porto saltar. Juro pela saúde dos meus filhos que, desde que vejo futebol, nunca vi o Porto sofrer um golo destes numa situação destas. Nunca. Jamais. Em tempo algum. Ponto final, parágrafo. Eu, se fosse do Porto, depois daquele jogo, teria sentido o mesmo que um japonês ao ver chegar a tsunami.

Mas calma. Não é tudo.

No sábado, o Porto vê os seus dois rivais chegarem aos 78 minutos com o resultado que lhe interessava. O Benfica ficaria fora do campeonato. E o Benfica estava morto. O Elderson faz um penálti de apanhados. Com o Cardozo no banco e três tipos à volta da bola sem saber o que lhe fazer até ao próprio Cardozo mandar, do banco, que fosse o Witsel a marcar (leiam no Jogo, está muito bem sacada a notícia). Golo. Três minutos depois o Braga empata outra vez. Tudo perfeito, outra vez. E, de repente, na última jogada, o Gaitán e o Chuta-Chuta sacam um coelho da cartola. Duas vezes, no espaço de uma semana, o Porto vê fugir, por minutos (por segundos!), em jogadas insólitas, um campeonato que já esteve a perder por 5 pontos e a liderar por 3. Quero aqui remeter para o vídeo já indicado, mas avançando 30 segundos, por favor – quando já chegou a segunda vaga e a água subiu mais cinco metros...

Mas calma, não é tudo.

No meio disto há o Chelsea. Do David Luiz, do Ramires e do Villas-Boas. Um Chelsea de segunda categoria que, salvando-se até de um dos penáltis mais escandalosos que alguma vez não se marcaram nuns quartos-de-final da Champions, ganha por 1-0.

Para o Benfica, obviamente, perder não bastava – também tinha de ficar sem o seu terceiro central no segundo jogo do título da época, para juntar à ausência do defesa-esquerdo titular.

Leram aquele comentário que eu fiz sobre o Jesus ter a sorte de passar a ter mais dois jogadores de futebol na equipa para o jogo com o Braga em vez de duas tentativas de defesa? Era um exagero propositado, obviamente, mas não escrevi aquilo por acaso. É que, no ponto em que estamos, isto já não tem nada a ver com jogadores.

É preciso ter assistido à vitória do Benfica no campeonato dos 6-3 em Alvalade para perceber que, a partir de certo ponto, os jogadores, os treinadores, os dirigentes, os adeptos e os árbitros já não têm nada a ver com isto.

Entra-se no campo do futebol quântico. Porque é que a bola vai para ali quando teria exactamente as mesmas probabilidades de ir para o lado contrário? Ninguém sabe. Podia, exactamente da mesma maneira, não ir. Mas vai. Podia ser o Hulk a chutá-la ou o júnior que lá vai treinar às segundas-feiras. Não interessa. A puta da bola vai porque quer ir.

Ora, quando entramos no plano do transcendente em que actualmente nos situamos, entramos no campo de colheita do Benfica. Quando as coisas começam a acontecer ao contrário do projecto, ao contrário da razão, ao contrário da lógica, ao contrário do método e dos princípios básicos do trabalho a longo prazo, quando se entra no plano do insondável, o Benfica pode não ficar em vantagem em relação a qualquer clube do mundo, incluindo o Porto, mas em desvantagem não fica de certeza.

Estamos no campo da mística. E no que toca ao Benfica, pode não valer nada no resto, mas no campo do sobrenatural dá cartas seja a quem for.



Eis o ponto da situação: na quarta-feira o Benfica joga em Londres e tem de ganhar ao Chelsea do Abramovich para ser apurado para a meias-finais da Champions. Vai jogar com um central agarrado ao joelho e outro adaptado, e nada disso terá importância absolutamente nenhuma. Para o Jesus vai ser um bicho de sete cabeças, porque aquilo na cabeça dele não joga, mas o treinador que o Benfica precisava de ter em Londres não era o Jesus – era o Toni. O Toni nunca foi nem metade do treinador que o Jesus é, mas conseguiu ser campeão no Benfica, mais do que uma vez, por uma razão extraordinariamente simples: porque tinha sensibilidade para entender a natureza mística do Benfica. Como o Mário Wilson, por exemplo. Com o Toni ou o Mário Wilson, em Londres, os jogadores do Benfica teriam a surpresa das suas vidas. Estariam à espera de ver um treinador sorumbático, acabrunhado, derrotado antes do jogo começar, e de repente ia-lhes aparecer um Toni vermelhusco, sem ter nada de relevante tacticamente ou estrategicamente para dizer, mas de que iria transparecer uma ideia absurda: «Temos de ganhar em Londres, ao Chelsea, sem centrais, quatro dias depois de jogar com o Braga e quatro dias antes de ir a Alvalade, onde temos de ganhar para seros campeões? Fantástico. Temo-los mesmo onde os queríamos.»

A sério: ninguém tem noção de como o Benfica está perto de eliminar o Chelsea. A começar pelos jogadores.

O que vai acontecer é o seguinte: o jesus vai entrar com a equipa tão arranjadinha quanto possível, e com o Cardozo, o Witsel, o Aimar, a tropa toda, e com o Javi a central, claro. Porque é o que faz sentido, em termos futebolísticos. O Benfica vai ser eliminado e, no final, toda a gente vai chegar à conclusão que não foi por causa de quem jogou que o Benfica perdeu, e que nem sequer foi por causa de ter perdido na Luz: foi por não ter acreditado que podia ganhar e não ter sido convicto nas oportunidades que teve.

Teoricamente, o Benfica perdeu a sua oportunidade na Luz. Foi superior, podia ter ganho e perdeu, em casa, contra uma equipa, em princípio, superior e mais experiente em todos os aspectos. Hipóteses de apuramento? 5 por cento. Na prática, vai ser este pressuposto que vai eliminar o Benfica. Porque… o que é que o Benfica tem a perder? Precisamente.

Se eu fosse o Toni, em Stamford Bridge, conhecendo o Benfica, faria isto: primeiro dizia-lhes «temo-los mesmo onde os queríamos». Depois, já no avião, antes de levantar voo, dizia-lhes: «Amanhã jogam Artur, Maxi, Javi, Emerson e Capdevilla; Witsel, Aimar e Gaitán; Saviola, Nélson e Rodrigo. E o Chuta-Chuta e o Nolito entram na segunda parte para acabar o serviço. É para correr até cair para o lado ou até marcarmos o quarto golo, o que quer que aconteça primeiro.» Para que eles não tivessem dúvida do tipo de missão que teriam em Londres. E colocaria o Chelsea perante o último tipo de problemas que está preparado para encontrar: uma equipa kamikaze. Perante o estado de fragilidade psíquica em que o Chelsea se encontra (nem à Champions provavelmente vai para o ano, atenção), o jogo seria lançado numa base absolutamente errática. Perfeito para os malucos do Benfica, péssimo para a equipa na posição superior.

Ia ser um festival.

O Benfica ou passava ou fazia um escarcéu que até à China chegava. Daqui a dez anos ainda se ia falar deste jogo. 3-2, 4-3, 5-2, 2-5, não sei, mas que ia ficar para a história ia.



E depois disto, claro, o que verdadeiramente interessa. «Temos de ir ganhar ao Sporting, a Alvalade, sem centrais, a quatro jornadas do fim, frente a um Sporting que tem a hipótese de nos roubar o título? Perfeito. Temo-los mesmo onde os queríamos.»

(passem para o minuto 8.30 do vídeo…)

sábado, 31 de março de 2012

Gaitán-Robben, Cardozo-Aguero, Aimar-Özil...

Em nenhum momento em que tem a bola nos pés nenhum jogador do Benfica tem uma ideia de como a jogada deve acabar. Ou melhor, têm uma ideia: sabem onde está a baliza. Tudo o resto é fruto do acaso. Os jogadores do Benfica são muito melhores do que o que parecem.

O Gaitán tem muito mais futebol dentro dele do que aquilo. O Rodrigo também. O Witsel também. Não têm é treinadores para isso. Os jogadores do ataque do Benfica só têm uma dimensão: a sua. A dimensão colectiva que possam ter dentro deles, com o tempo, com Jorge Jesus, pura e simplesmente desaparece. Porque o que o Jesus pede aos seus jogadores de ataque é precisamente isso: que sejam imprevisíveis, que usem a liberdade para criar soluções. O Rodrigo, ao fim de seis meses, é um jogador muito mais individualista do que era no princípio.

O resultado disto, na prática, é que facilmente o ataque do Benfica se torna também unidimensional: jogador com bola olha para a bola, olha para a frente e começa a correr. Há escassas hipóteses do colectivo do Benfica resolver um jogo, no ataque, porque, quando o jogador procura a solução colectiva, ou ainda não está lá ou já passou. Porque o outro jogador, obviamente, está na sua própria dimensão do jogo, que raramente coincide com a dos outros.

Tudo o que não seja óbvio, simples ou sorte não está ao alcance de uma equipa assim.



Este é o estilo de ataque do Jorge Jesus. Mas é curioso que só é assim desde que chegou ao Benfica. Antes disso, mesmo no Braga, quer o ataque quer a defesa eram mecanizados ao pormenor. Não havia liberdade para ninguém. Fazia o que os americanos chamam de micro-management, controlava todos os movimentos de todos os jogadores até ao pormenor. Nunca cheguei a perceber se o Jesus mudou o chip só porque estava no Benfica, se foi por perceber que, contra as defesas muito cerradas que o Benfica tem de enfrentar, só poderia resultar assim, se foi por sentir que finalmente tinha matéria humana para jogar «à Barcelona» (ao Barcelona do tempo dele, não do actual, entenda-se). Mas a verdade é que mudou mesmo.



Este estilo de jogo não é necessariamente errado. Quando é executado por grandes jogadores, como é que se defende um ataque imprevisível, rápido e tecnicista? É praticamente impossível. Aí sim, entramos no plano teórico do «basta marcar mais um que eles», porque as probabilidades são as de ganhar quase sempre por 3-2, 4-2, 3-1…

É o que acontece com esta equipa do Benfica em 70 por cento dos jogos, com as equipas com menos categoria, de baixa rotação e com menos capacidade de aguentar a pressão. Com as outras, não, por uma razão simples: os jogadores do Benfica não são suficientemente bons e não se conhecem suficientemente bem para arranjarem soluções em conjunto.

O Barcelona de Cruyff que ganhou cinco campeonatos seguidos e a Taça dos Campeões, e onde o Jesus foi fazer estágio, tinha-os. Stoichkov e Romário, por exemplo. Mesmo assim, note-se, sempre no fio da navalha. Dois ou três desses campeonatos foram ganhos graças a falhanços dos concorrentes directos (o Real e o Corunha uma, com um penálti falhado no último minuto do último jogo do campeonato, a jogar no Riazor) e na segunda final da Taça dos Campeões, que marcou o fim da era-Cruyff, com o Milão, levou 4-0! (Repare-se, contudo, que a disciplina táctica dessa equipa do Barcelona não é comparável com a deste Benfica. Era muitíssimo superior, assim como a capacidade de passar a bola.)

Este tipo de futebol de alto risco é um futebol que rebenta com os nervos, mas que apaixona, é ousado, corajoso e é à equipa grande. O tipo de futebol do Porto, por exemplo, sempre foi ao contrário, defensivo, seguro, e por mais que ganhe não apaixona ninguém. Passa incógnito. O que é que se sabe na Europa sobre o Porto? Que ganha. Mas só os treinadores é que gostam de os ver a jogar. Para os adeptos o Porto é igual aos outros, não se distingue.



Para conseguir fazer nos outros 30 por cento de jogos o que faz nos mais fáceis, e com o Jesus, só há uma hipótese: ter melhores jogadores. E já não vou para Ronaldos, Messis ou Iniestas. Ter um Aguero em vez do Cardozo. Ter um Robben em vez de um Gaitán. Ter um Mata em vez de um Bruno César. Ter um Özil em vez de um Aimar. Ter um Yaya Touré em vez de um Javi García. Ter um Coentrão em vez de um Emerson. Por este último exemplo, apenas, se pode ver a que distância real se encontra (na minha opinião, claro) o Benfica de Jesus da equipa que ele (o Jesus) pensa que tem.



Mais um ano de entente Vieira/Jesus, na melhor das hipóteses, vai dar nisto: o Benfica perde dois titulares, compra três ou quatro, melhora o onze inicial, os jogadores conhecem-se um pouco melhor, alguns deles amadurecem (Rodrigo, a Charrua, o Witsel…), o Benfica começa a época na data normal, chega a Fevereiro mais fresco, passa da tal fasquia dos 70 por cento para a dos 75 ou 80, se tiver sorte alguns deles são os decisivos, o Porto perde o Hulk e fica com o TOC mais um ano, e dá um campeonato. Mais nada. E isto é na melhor das hipóteses, porque ninguém garante que o Porto sem Hulk será mais fraco, como equipa, que o Porto com o abono de família Hulk.



Quanto ao jogo, qual foi a novidade? Uma equipa com 60 minutos de jogo no pulmão, a desperdiçar posse de bola como se tivesse 120 e como se do outro lado estivesse uma equipa a treinar. Jogo relativamente seguro a defender e totalmente errático a atacar, incapacidade de segurar uma vantagem caída do céu aos trambolhões numa jogada idiota do defesa do Braga, uma equipa do Braga a jogar como o Feirense e inferior em todos os sentidos menos nos pormenores da organização e do colectivismo, jogada individual genial de Gaitán no minuto 92, já fora de tudo, com Bruno César a marcar o golo da sua carreira num momento de classe, fazendo o que tinha de ser feito de maneira precisa. O Benfica ganha da única forma que consegue ganhar um jogo com este grau de pressão: com uma coincidência de momentos individuais brilhantes. Que, por extrema felicidade (estrelinha de campeão?) chega no último suspiro. É Gaitán quem ganha este jogo, não nos iludamos. Os outros empataram-no – ele, em cinco segundos, ganhou-o. No limite. À messias. Como o povo gosta. Mas para termos uma equipa de nível europeu temos de o trocar por um Robben.

Fácil, não?

segunda-feira, 26 de março de 2012

O Braga e a praga

Acho que a vitória do Braga, hoje, é boa para o Benfica.

A minha lógica é relativamente simples: para o Benfica, ficar em segundo depende sempre de ganhar ao Braga em casa, e não ganhar ao Braga em casa implica ficar em terceiro no campeonato, independentemente de como o Braga chegasse ao jogo da Luz. Não acredito que o Braga ganhe ao Porto e ao Sporting, o que significa dois maus resultados, pelo menos, até ao fim do campeonato. Em caso de vitória frente ao Braga, o Benfica até pode perder em Alvalade, que as hipóteses de não ficar em segundo são mínimas.



Para o Benfica (e isto sempre na perspectiva do Benfica ganhar no próximo fim-de-semana, caso contrário toda esta conversa é fútil) uma vitória do Braga implica que, mesmo perdendo na Luz, o Braga chega ao jogo em casa, com o Porto, a um ponto do Porto. Isso quer dizer que, se ganhar ao Porto, o Braga não só fica à frente do Porto como, provavelmente, fica em vantagem no confronto directo, uma vez que marcou dois golos nas Antas – e isto quando o Porto ainda tem de ir à Madeira, jogar com o Marítimo, e receber o Sporting (um jogo sempre imprevisível) nas quatro jornadas que faltam.

Ou seja, com os resultados deste fim-de-semana o Braga ganhou combustível para lutar pelo título, pelo menos, até ao jogo com o Porto – e só o perderá se perder os dois jogos que se seguem. E esse jogo com o Porto passou a ter uma importância decisiva para a classificação final do Braga neste campeonato.



Resta dizer que, para o Benfica, seria quase desastroso acabar esta época em terceiro lugar. Penso que quando chegarmos ao fim da época identificaremos três factores especialmente importantes para a perda de um campeonato que, até Dezembro, estava setenta por cento ganho:

- ter começado a época um mês antes dos outros, o que, se por um lado lhe permitiu começar melhor a época e ir, por exemplo (creio eu), empatar às Antas, também lhe roubou, claramente, fôlego no inverno;

- ter avançado na Champions acima das expectativas, ao contrário dos seus dois principais rivais (que vão, por isso, chegar a Abril com menos seis ou sete jogos a sério nas pernas e na cabeça;

- não ter conseguido, em Janeiro, acrescentar um ou dois lugares de profundidade real ao seu plantel, nomeadamente com um defesa central que ermitisse não ter de jogar com o Jardel e um bom extremo, com gás suficiente para abrir, por si só, pelo menos um jogo daqueles que o Benfica empatou a zero, nomeadamente em Coimbra ou em Olhão.



Se acabar em segundo, o primeiro destes problemas fica resolvido. Se acabar em terceiro, as hipóteses de fazer uma época em crescendo, a chegar relativamente bem aos últimos jogos, ficam praticamente eliminadas logo de início.



Também resta dizer que os gajos do Braga estão todos cagados por terem chegado a primeiro. Bastou olhar para as caras deles.

Sempre quero ver como é que se vão comportar na Luz. Mas até adivinho que vaiser o Benfica-Braga mais fácil, para o Benfica, dos últimos anos. Wait and see

*

Num assunto relacionado, assisti a uma boa parte do jogo do Granada com o Sevilha. Para ver o Franco Jara, só por curiosidade.

Como é que um jogador que é apenas igual aos outros numa equipa de fundo da tabela de Espanha, que não mostra nenhuma característica distintiva, que não se destaca, pode fazer parte das soluções de um clube como o Benfica?

De que é que estamos a falar?

Que espécie de lógica é que nos leva a considerar, sequer, a hipótese de ter um jogador assim no Benfica?

Só pergunto isto porque a lógica do Jara é a mesma lógica do Emerson, do Jardel, do Capdevilla, do César Peixoto, do Bruno César e de tantos, tantos outros ao longo dos anos.

Só há uma hipótese racional de um jogador assim servir para o Benfica: estar completamente subvalorizado por uma questão conjectural, como uma lesão ou uma zanga séria com o clube em que esteja. O que é raríssimo.

Vamos colocar as coisas dentro da perspectiva certa: para se jogar no Benfica, não serve, por exemplo, um suplente do Braga, nem serve sequer um titular do Braga – serve um jogador CLARAMENTE MELHOR QUE OS OUTROS no Braga, ou em qualquer outro clube à excepção dos que joguem nas 15 ou 20 melhores equipas do mundo. E isto tendo 18, 23 28 ou 33 anos. Que tipo de mais-valia real é que pode trazer para o Benfica, de facto, um suplente do Corinthians, um suplente do Villarreal ou um tipo que não consegue sequer acabar um jogo no Granada sem se distinguir dos outros?

Isto não é ser simplista – isto é senso-comum.

Um Emerson, um Capdevilla, um Jardel, um Bruno César (Não me lixem com o Bruno César, ok? Só não é um jogador vulgar porque está no Benfica. Se vocês o vissem a jogar no campeonato brasileiro era igual a mais 100 gajos) só estão, no Benfica, a fazer duas coisas: a ocupar um lugar que não lhes pertence, impedindo que outros melhores lá estejam, e a consumir recursos.

Como um clube resiste a uma política de contratações tão displicente e tão estúpida (é a única palavra que me ocorre para a repetição dos mesmos erros nas mesmas condições, sofrendo as mesmas consequências, ano após ano), isso sim, é um verdadeiro milagre.

quinta-feira, 22 de março de 2012

Pareceu mesmo a sério...

Hoje à noite houve mais um jogo amigável para a Taça da Cerveja. Deu para ver que não foi a sério porque o treinador do Gil Vicente disse, na véspera, que era apenas o jogo mais importante na história do clube, e porque o Braga jogou com os suplentes todos… no banco. Mas não era a sério. E quando for a final também não vai ser a sério, não senhor. A azia dos jogadores e adeptos do Braga pareceram mesmo a sério, mas enfim…



Tenho poucas dúvidas que esta Taça da Liga se tornará, a médio prazo, e se sobreviver ao facto de os suplentes do Porto não a conseguirem ganhar – o que joga muito contra ela porque vai contra a contabilidade de merceeiro que a propaganda tem vindo a tentar instituir –, na segunda prova mais importante do calendário.

Em primeiro lugar tem vindo a ser dominada pelo Benfica, com vitórias sucessivas sobre os seus dois rivais, o que lhe vai assegurando a atenção de metade dos adeptos em Portugal.

Em segundo lugar, o facto de se estar a tornar numa taça benfiquista vai torná-la fonte de cobiça mais forte para Sporting e para os suplentes do Porto, uma vez que tudo o que o Benfica tem os outros querem, sobretudo os suplentes do Porto.

Em terceiro lugar, dá dinheiro.

Em quarto lugar, pelo tipo de filosofia que os clubes maiores têm até chegar às meias-finais – a partir das quais a levam, mesmo, a sério –, porque abre quase sempre espaço a pelo menos uma equipa pequena nas meias-finais, e quando não abre assegura dois grandes jogos nessa fase. Eu sou completamente a favor do esquema que está instituído, que favorece, na teoria, o apuramento dos três grandes. Na prática, com a política de usar as segundas equipas por parte do Benfica, Sporting e dos suplentes do Porto, o que dá é um equilíbrio entre o interesse de ter pelo menos dois deles nas meias-finais e um elemento da plebe metido ao barulho, geralmente com bons comportamentos precisamente pelo factor-motivação.



Talvez fizesse mais sentido, no entanto, e de acordo com esta filosofia (que não vai mudar) fazer a Taça da Liga no princípio da época, como acho que já foi feito (ou como se faz noutros países). Eliminar do calendário a Supertaça Cândido de Oliveira, por exemplo, e substituí-la pela fase de grupos da Taça da Liga, ao longo de uma semana (são três jogos, afinal), faria sentido, deixando as meias-finais e final, por exemplo, para a semana antes do Natal, ou mesmo no Natal. Futebol competitivo para todas as equipas das duas Ligas, no Verão, com toda a gente a querer ver futebol e todos os treinadores a quererem dar minutos aos jogadores, isso sim, faria sentido.



Outra hipótese seria tornar a Supertaça uma final four entre os dois primeiros classificados da Liga e os vencedores da taça de Portugal e da Taça da Liga do ano anterior. O que faz pouco sentido é ter um fim-de-semana, no Verão – quando os emigrantes estão cá e há grande fome de bola – reservado para dois clubes. Uma competição deste tipo tornaria a Supertaça, pelo menos, minimamente equiparável, em termos de importância e legitimidade do título, a qualquer uma das outras competições internas.



Para acabar, o Quim voltou a dar um frango e a confirmar que, sendo um bom guarda-redes para o nível do Braga, é apenas sofrível ao nível de um Benfica. No Braga, depois de amanhã já ninguém se lembra. No Benfica, este tipo de Robertada daria para repetições durante semanas a fio.

Da mesma forma, o Lima, a precisar de seis ou sete oportunidades para fazer um golo, é um jogador razoável, mas só pode jogar no Braga. Não quer dizer que não seja melhor que o Kléber ou que não possa ser melhor que o Cardozo, mas para isso, teria de subir muito a sua eficácia. Um jogo como o que fez hoje, num Benfica ou no Porto, seria, imediatamente, motivo de desconfiança, e daí a uma espiral de sub-rendimento seria só mais um pulinho. É um jogador com algumas semelhanças com o Derlei, por exemplo, e num clube maior, como mais exigência, poderia subir o nível de concentração e tornar-se, de facto num grande jogador, mas a jogar como joga neste momento não pode aspirar a nenhum clube maior que o Braga. É o seu limite de Peter.

domingo, 19 de fevereiro de 2012

O Benfica do Minho

Há aqui alguém que deixe de me falar se eu disser que não vi um único minuto do jogo do Porto e que do Sporting só vi dois ou três bochechos (só o suficiente para ver que o Sporting continua a não jogar nada?

Não estava com paciência para jogos da treta.

Mas posso partilhar convosco a Primeira Lei do Crescimento Territorial do Estado, proposta pelo alemão (claro…) Friedrich Ratzel, um dos precursores da geopolítica: «O primeiro impulso para o desenvolvimento territorial de um Estado vem do exterior, de uma civilização mais adiantada.»

E a Segunda também, já agora: «O espaço de um Estado aumenta a expansão da sua cultura por ir assim difundindo o seu poder»

São sete, ao todo, e a sua publicação data de 1897.

Vale a pena saber disto, para se perceber que, ao falar-se de crescimento civilizacional do Porto ou de um Norte benfiquista, não se está realmente a revelar a fórmula da Coca-Cola.



Como já devem ter percebido, só cá vim picar o ponto. O único jogo capaz de me fazer sentar a ver futebol hoje seria para aí um Liverpool-Everton, um Bilbao-Real Sociedad, um Roma-Lazio ou um Bétis-Sevilha. Assim uma valente picardia, mas daquelas picardias a sério.

Já que estamos a falar de geopolítica e de picardias e do Minho, não sei se também têm esta ideia, mas a reprodução da guerra Porto-Benfica entre Braga e Guimarães tem muito mais em comum do que apenas o empréstimo de jogadores.

Mesmo quando tinha jogadores emprestados pelo Porto, o Guimarães já era uma espécie de Benfica do Minho. O apoio popular real ao clube é muito mais forte em Guimarães do que em Braga. A paixão exacerbada, que facilmente resvala para a pura irracionalidade. Não se consegue conceber com facilidade acontecer em Braga o que acontece com os adeptos em Guimarães, porque passa a sensação de que em Braga tudo aquilo é muito profissional, muito sistemático, muito bem pensado, mas, no fundo, muito artificial. A sensação que tenho, pelo menos, é que no dia em que acontecer ao Braga, por algum razão, em termos de resultados, o que tem acontecido ao Vitória, os adeptos saem de fininho, vão buscar outra vez os seus cachecóis do Benfica e fazem de conta que não tiveram nada a ver com aquilo. «Eu? Eu não sei nada, só cá vim ver a bola.» E o AXA fica para parque de estacionamento da Bragaparques.

O Braga não parece capaz de seduzir, realmente. Falta-lhe a ligação. Há um cheiro a podre que não se consegue disfarçar no meio de tudo aquilo. Eu chamo-lhe o cheiro da negatividade. O Vitória, pelo contrário, resiste, e parece ter essa ligação visceral à gente da terra de que é feita a massa do verdadeiro clubismo. É, entre as suas paixões assolapadas, os seus falhanços e os seus êxitos, um clube positivo – apesar do vulto omnipresente do sinistro Pimenta Machado.

É fácil, hoje, pensar que o aliado certo para se ter no Minho é o Braga. Pois eu continuaria a escolher o Vitória. Porque acho mais provável que, daqui a dez ou quinze anos, quando mudarem as pessoas e os cenários, ele continue a ser mais clube que o Braga.



*



Quando se chega a um score de 0-7 só há uma coisa a fazer: tentar a perfeição.

Mas com estilo.

Sobra-me um jogo. O saldo desta jornada é de 35 milhões de rupias apostadas e 35 milhões de rupias perdidas. Só há uma aposta simultaneamente valiosa e útil que me permita ou recuperar os 35 milhões ou, em alternativa, fazer o pleno: a vitória do Vitória a 6.25.

Portanto, aqui vai:

7 milhões de rupias na vitória do Guimarães a 6.25.

E quando o Benfica ganhar, amanhã, espero que os benfiquistas se lembrem que o enguiço invertido que resolveu o jogo foi feito aqui, e que o Jesus, o Cardozo e os patudos não foram mais que meros actores secundários neste grande enredo alquímico do qual vocês são espectadores (ou espetadores, com o novo acordo ortográfico) privilegiados.

domingo, 15 de janeiro de 2012

Braga-Sporting em directo

Estive a ver com alguma atenção o Académica-Guimarães. Porque estava na cara que ia ser um bom jogo e por curiosidade. Afinal, Académica e Guimarães vão ter um papel importante na atribuição do título.

O Guimarães é a típica equipa em libertação. Há equipas que se vêem enfiadas num poço sem perceberem como e, depois, quando as coisas mudam, se libertam e ganham uma alegria que acaba por compensar, no final da época a parte má. É o Vitória deste ano. Está fresco da cabeça, com vontade de correr e de jogar à bola. Claramente mais fresco que a Académica, por exemplo. Mas tem problemas estruturais. Vê-se que a equipa foi construída dentro de uma concepção de jogo e que os jogadores não encaixam bem uns nos outros. O Vitória, por estar fresco, é perigoso, mas se se jogar com cabeça é muito vulnerável, porque defende mal nas alas e ataca sem critério, muito na base da correria – precisamente porque os jogadores que tem o impõem.

A Académica, que é uma equipa certinha, mostrou isso claramente. Em dois ou três passes metidos no sítio certo achava facilmente o espaço para jogar e para cruzar. A diferença entre a Académica e o Vitória é essa. São equipas em momentos diferentes. Enquanto o Vitória está em libertação, a Académica, sem estar a cair, atingiu o seu ponto óptimo mais cedo e agora está numa fase de tentar não perder dinâmica. Por outro lado, o que faz (e não é muito) é bem feito. O perigo da Académica não vem dos fogos que pode atear, mas do ritmo constante e das brechas que consegue encontrar na concentração oposta.

O Vitória ganha o jogo porque marca num momento em que não permite resposta imediata, e cima do intervalo.

Para ganhar à Académica e ao Vitória vão ser necessárias armas diferentes e estratégias diferentes. Vamos ver se o Mestre da Táctica dá com elas. Se der justifica o ordenado.



Bom, agora o Braga-Sporting.

O Domingos vai jogar forte. Mete o Rodríguez ao fim de não sei quantos meses e tira o Polga, provavelmente porque já percebeu que quando o Polga entra no carrossel das calinadas consegue enterrar-se a ele e à equipa durante semanas a fio. Mete o Evaldo para poder jogar com o Insúa a meio-campo e sem trincos – a não ser que Insúa jogue a trinco, o que não me parece. Joga com o Matías e mete um avançado que chegou na terça-feira. Não há volta a dar: para o bem ou para o mal, o resultado de hoje vai ter grande influência das decisões do Choramingos.

Também há que dizer que, de facto, este é um dos dois jogos mais importantes da temporada do Sporting, porque grande parte das possibilidades de apuramento para a pré-eliminatória da Champions passam pelos resultados que fizer com o Braga. Essa é a luta real do Sporting, neste momento. O resto é pura ficção. Vamos ver se os treinadores e jogadores do Sporting percebem isso, e que provavelmente um empate, em casa de um adversário directo, não seria mau resultado de todo. Se perder, o Sporting fica com três pontos de atraso em relação ao Braga e também com desvantagem no confronto directo.

Como de costume, vou postando comentários de dez em dez minutos.

Siga a bola!

quarta-feira, 9 de novembro de 2011

O Norte benfiquista

Se eu fosse presidente do Benfica marcava pelo menos cinco jogos por ano, incluindo um jogo europeu, para o Norte do país, de preferência no antigo Estádio Municipal de Braga (se é que ainda existe) mas também, eventualmente, no Estádio do Bessa.

Três jogos do campeonato (com clubes do Norte, que agradeceriam muito não terem de vir a Lisboa e não jogar na Luz), mais um da Europa (mesmo da Champions, porque não?) e um ou dois da taça de Portugal e da Taça da Liga.
Sem dúvidas nenhumas.
A vantagem do factor casa, com o Benfica, tanto existe na Luz como em Braga, desde que haja lá mais benfiquistas que dos outros.

Vamos enumerar as vantagens duma ofensiva deste tipo?
Embora:
- Os jogadores que ainda não o soubessem perceberiam perfeitamente  onde estão, qual é o tipo de desafio que enfrentam e o que se espera deles;

- O Benfica assumiria a sua dimensão de clube verdadeiramente nacional (não faz sentido andar a dizer-se que se é um clube nacional e depois só fazer sessões de autógrafos, por exemplo, num raio de trinta quilómetros à volta de Lisboa. É estúpido. Eu quero ver o Rodrigo e o Witsel a dar autógrafos no Porto, para aprenderem. E para se mostrar que não se tem medo de papões.)

- Em consequência disto que acabei de dizer, passava-se a batata quente para as mãos de quem a realmente deve ter: as autoridades públicas. A polícia local, as autarquias, quem eles quiserem. Não são eles quem deve garantir a liberdade de expressão e de movimentos dentro do território nacional? Então que mostrem que querem e sabem fazer o seu trabalho.

- Ao tirar jogos de Lisboa estar-se-ia, ao mesmo tempo, a evitar a sobrecarga económica actual aos adeptos de Lisboa e aos que vêm do Norte, gastando dezenas de euros para ver um jogo que, desta forma, teriam perto de casa, e ao qual mais facilmente eles, e outros que não podem vir a Lisboa, poderiam ir. Provavelmente teria melhores receitas do que na Luz, e tanta ou mais gente a ver, porque quem quisesse ir ver o Benfica aproveitaria essas oportunidades com bilhetes bem mais baratos que os que pagam em Vila do Conde, Guimarães, etc (onde são positivamente roubados de cada vez que o Benfica lá vai);

- Mostrar-se-ia a solidariedade quer da Direcção quer dos benfiquistas de Lisboa com o resto da nação benfiquista. Não há muitas maneiras dos benfiquistas do Sul se mostrarem solidários com os que, no Norte, sofrem na pele por o serem.

- Ser-se-ia inovador, liderante e mostrar-se-ia aos outros algumas diferenças básicas. Porto e Sprting teriam alguém a ver os seus jogos na mesma situação?

Depois disto tudo ainda comprava um prédio na Avenida dos Aliados e montava lá uma mega-store do Benfica, a maior do país a seguir à da Luz. Com vídeos sempre a passar, ecrãs gigantes a dar para a rua (protegidos com vidros à prova de bolas de golfe, evidentemente), espaços para ver os jogos, sessões de autógrafos mensais, etc, etc.

Não é preciso apenas ser esperto – é preciso ser atrevido. Mas para isso é preciso ter tomates e encarar a guerra de frente.

Estão à vontade para enumerar mais vantagens.

Muito trabalho. Até mais ver.

terça-feira, 8 de novembro de 2011

Terreno sagrado

Sou um liberal. Acredito no Governo mínimo, acredito na justiça antes de acreditar no Direito e acredito no indivíduo antes de acreditar no Estado. Sou quase um anarca. Isso poder parecer giro, mas, na verdade, se as pessoas soubessem o que isso realmente implica mais depressa me mandariam prender por constituir um risco para a sociedade. Tudo bem.
O facto de dizer que o futebol, em Portugal, é uma religião nacional, é apenas parcialmente eufemístico. Na prática, há mais de religioso no futebol, em Portugal, que na igreja.
Para mim, o futebol só faz sentido se se partir de um pressuposto – e é para se chegar a esse pressuposto que eu, afinal, escrevo este blog: o pressuposto de que o campo de jogo é um lugar sagrado.

Quando digo que é sagrado, evidentemente, não me refiro às acções mais ou menos litúrgicas que se passam lá dentro. Refiro-me a necessidade de ser inviolabilidade, inconspurcável por quem não é do campo, e, também, limitado, ou seja, naquele rectângulo, ninguém entra, mas o que se passa lá dentro também não sai.
Haver bolas de golfe, isqueiros, petardos, invasões, dentro de um campo de futebol é a negação do jogo, da mesma maneira que o é fazer emboscadas a jogadores e a árbitros fora dele, seja em túneis ou em centros comerciais. Nem sequer estou a falar de dignidade, de indignidades, de cobardias, de pulhices – estou a falar do princípio. O campo de batalha é o campo de batalha.

A única forma de conceber o futebol é concebê-lo de forma a que tudo o que ele tem de bom ou de mau se manifeste no interior daquele rectângulo. Eventualmente tentar fazer do espaço uma área mais saudável, mais atraente, tentar fazer o jogo melhor, o melhor possível, mas mesmo isso depende de quem vê o jogo. Há grupos de pessoas que não gostam realmente do jogo mas do conflito que o rodeia. Nesse caso, melhorar o que se passa no «campo de jogo» não é importante. Não estou a fazer juízos de valor. Estou só a dizer que o campo é o campo.

No sábado disse que, se fosse dirigente do Benfica, fazia do erro do Proença o sim ou sopas do futebol português. Não volto atrás no que disse. Só altero uma coisa: não fazia, tentava fazer. Porque não acredito, realmente, na importância dos dirigentes enquanto agentes determinantes do futebol.

Os dirigentes são agentes superficiais ao jogo, tal como os adeptos. Antes de haver adeptos e dirigentes já havia jogo. Foram eles que se aproximaram do jogo, não o contrário. Os próprios treinadores são elementos parcialmente secundários, que só lá chegaram numa segunda vaga, e mais a pedido dos jogadores que propriamente por terem algum talento especial. Chegaram á conclusão que havia uma vantagem em ter alguém a ver o jogo de fora e inventou-se o treinador. E os árbitros a mesma coisa. Era preciso um elemento imparcial para decidir dúvidas justas e deu-se um apito a alguém para que todos o ouvissem. Convém não esquecer estes pormenores.

Quem faz parte, realmente, do jogo são os jogadores.

Quem tem de defender o jogo é quem o joga, não é quem o paga nem é quem pensa que manda nele. Quem joga tem de tratar do jogo. Se ele for bom, pagamos para o ver. Se ele for grande, arranja-se quem marque os campos, os hotéis, quem pague a viagens, os salários, etc, etc.

Quem tem de defender o jogo de futebol é, em primeiro caso, o jogador. No sentido plural. Há o ligeiro problema de o jogador de futebol ser, regra geral, demasiado ignorante e pouco habituado a exercer qualquer tipo de poder. São pessoas do povo, convencidas de que lhes fazem um favor por lhes pagarem para jogar futebol. Não percebem o poder que têm e por isso também não o exercem.

Quem tem de defender o jogo e, também, o treinador. Não é por causa do dinheiro, ou do fair-play, ou de coisa nenhuma em particular. É porque é. Não é a UEFA que tem de reunir os melhores treinadores para eles discutirem o jogo – devem ser os treinadores a reunirem-se, a discutirem sobre o jogo e a dizerem à UEFA: «Olhem, o jogo agora vai será assim. Façam isto, e isto, e isto, senão arranjamos outros.»

Quem tem de defender as leis do jogo e os árbitros não são as APAFes, nem as Ligas, nem os CAs, nem os CDs, nem as PSPs – são os árbitros. São os árbitros que devem dizer aos jogadores quais são os problemas e resolvê-los.

Sou radical, neste aspecto. O mal do jogo não é o facto de ser profano em redor do campo d e jogo, é o facto de se profanar o campo de jogo. O que se passa no campo deve ser resolvido dentro do campo. Seja como for. É conversa? É conversa. É trolha? Seja trolha. Eles são brancos, e pretos, e amarelos, que se entendam. Eles que decidam quem é racista, quem é porco, quem é sujo, quem deve ou não deve jogar. Não é num jogo em particular, obviamente, mas é de maneira a que eles próprios, os donos do jogo, se entendam fora de campo para resolverem os problemas dentro dele.

Vamos admitir que o Javi chamou preto não sei do quê ao Alan e aos filhos do Alan e à mãe do Alan e ao cão do Alan. Nem sequer quero entrar no terreno do juízo valorativo, do que é o insulto, do contexto do insulto, do propósito e da intenção do insulto. Também não quero entrar no terreno da justiça do insulto – de quem é o Alan, do que ele fez, faz e continua a tentar fazer, sempre, em todos os jogos, e do que ele representa.

O que eu quero é dizer que o que se passa dentro de campo resolve-se dentro de campo. Se isso implica o Alan dar uma tareia o Javi, e acabar tudo à porrada, ou apenas fazer  queixa ao árbitro, ou sair de campo, como fez o Roberto Carlos, ou tentar partir a perna ao javi, como ele tentou, seja lá o que for, que seja. Mas fica dentro do campo. Mesmo que não seja naquele campo. Mesmo que seja na Luz, daqui a uns meses. Ou noutro campo qualquer, em que o Alan peça a um amigo para arruinar a carreira do Javi. Tudo isso é secundário. O que importa é que fique DENTRO do campo. Até aquela cotovelada do Paulinho Santos ao João Pinto, há uns anos – aquilo tinha de ser resolvido dentro do campo, naquele dia, na semana seguinte, no ano seguinte ou no torneio de veteranos do INATEL. Não interessa.

Porque, quando tira o que é do campo de dentro do campo, o que o Alan está a fazer, mais do que uma canalhice, mais do que tentar fazer política e jogo sujo (que está), é a destruir a sacralidade do terreno de jogo. É a destruir a única coisa que torna o jogo um jogo, e não apenas mais um processo de autodestruição entre os homens.

P.S. - Em relação aos comunicados, não se preocupem muito: é só a luta natural de um clube a tentar existir