Não há apostas a tão longo prazo, mas utilizem odds equivalentes nas apostas disponíveis, considerando o que são as odds normais nos jogos do Benfica e do Porto. Há de dar qualquer coisa como 2.10 + 1.30 + 1.45 + 1.05 + 1.45 (Benfica) + 3.00 (Porto) para 1. Eu acabei de fazer uma simulação para seis odds destas em conjunto e por cada euro que apostasse nessa loucura receberia 44.56 de volta.
44 para um. Eis as probabilidades matemáticas do Benfica ser campeão. Imaginem que tentavam chutar uma bola ao poste da entrada da área e precisavam de 44 tentativas para acertar. É isso.
Traduzindo para percentagens, 2 para 1 indica 50 por cento de probabilidades. 44 para 1 significa 22 vezes menos.
Cerca de 2 por cento de hipóteses matemáticas de ser campeão.
São quase as mesmas probabilidades de se pegar num baralho de cartas e sair o ás de ouros na primeira carta.
É claro que para um benfiquista estas probabilidades são irrealistas. Porque o futebol não é matemático, porque às vezes a bola vai ao poste, porque é o Benfica. É verdade, o futebol não é matemático. O próprio Benfica, antes do jogo em Coimbra, recebia 60 por cento de probabilidades de ser campeão. E mesmo agora, se alguém apostar no Benfica para ser campeão, as probabilidades são de cerca de 4 para 1, ou seja, 25 por cento. Doze vezes mais do que os 2 por cento. E, no entanto, a conjugação de resultados necessária para o Benfica ser campeão dá esses 2 por cento.
Cada um pode escolher qual é a percentagem mais provável.
«Basta ganharmos ao Sporting, não empatar mais nenhum jogo e esperar que o Porto deslize na Madeira ou em casa com o Sporting», dirão muitos. «Dois por cento? Disparate.»
Pois eu cá acho que as duas são verdadeiras: sim, «basta» ganhar ao Sporting e et cetera, e sim, são só dois por cento.
Se depois do jogo da Luz eram 10 por cento, para mim, agora são 2. Mas, como estamos no campo do futebol quântico, 2 por cento chegam, porque é como se fossem 100.
Não procurem neste post uma conclusão, porque não há. Nem procurem muita lógica, porque também não é disso que se trata. É apenas um tributo à inacreditável aleatoriedade do futebol.
Se quisermos traduzir estas incongruências numa frase poderemos dizer que as probabilidades do Benfica ganhar o campeonato são de 2 por cento, e que as suas possibilidades… são boas.
Há duas coisas que se pode dizer:
- o cenário de um momento histórico, em Alvalade, desvaneceu-se. Faltava este pormenor do Porto não ganhar em Braga para estar montado. Era o último. Lá está, faltou um bocadinho assim. Se o Benfica ganhar e, depois, vier a ganhar o campeonato, será notável, mas já não terá o aspecto transcendente que teria no caso de passar para a frente e praticamente garantir o título com uma vitória em Alvalade;
- se o Benfica ganhar este campeonato será uma das conquistas internas mais extraordinárias da sua história, e penso que se pode com segurança dizer que a mais extraordinária dos últimos 25/30 anos. Só o título de 1994 poderia aproximar-se, mas mesmo nesse penso que, no cômputo geral, as circunstâncias ao longo da época foram bastante menos adversas.
O que fica do jogo de hoje, de facto, e para mim o mais importante, é que o Benfica praticamente garantiu o segundo lugar e um início de época normal em 2012/13. Como disse depois do jogo da Luz, naquele dia começava, para mim, a próxima época, e quanto mais vejo mais me convenço de que o momento decisivo do próximo campeonato serão as três semanas que vão anteceder a Hipertaça Cândido de Oliveira.
Nessas três semanas duas coisas vão acontecer:
- O Jesus (muito provavelmente, mas se não for ele será outro) terá o único espaço do calendário suficientemente liberto para fazer dos reforços do Benfica reforços de facto, e não apenas mais jogadores. Numa equipa em construção, em que dois jogadores deverão sair e em que é fundamental ir acrescentando um bocado todos os anos, só isso pode valer ao Benfica se quiser subir o nível do seu jogo – porque, em relação ao resto (aperfeiçoamento ao longo da época, aquisição de fundamentos tácticos, e outros), como já se viu em três anos, o que há em Agosto é o que haverá em maio do ano seguinte, que o JJ é animal de hábitos;
- simultaneamente, o Porto (provavelmente sem o TOC, mas esperemos que com ele) vai ter de reaprender a jogar sem Hulk e regressar a um tempo de hipervalorização do colectivo. Será um corte profundo com o passado recente de sobredependência de um jogador e uma tentativa de voltar a umas certas origens éticas de colectivismo de que o regresso de Lucho já foi um sinal importante.
Da relação de forças que resultar destes dois movimentos simultâneos em confronto sairá o próximo campeão.
O campeonato, em termos de Porto/Benfica, será tão renhido como este. Nessas três semanas alguém vai ganhar vantagem.
Sem Copa América, sem Campeonato do Mundo, sem nenhum titular a competir no Verão (que eu veja, pelo menos), sem ter de jogar eliminatórias europeias de elevada exigência imediata, sem ter de disputar Supertaças às quais nunca ligou e que sempre lhe trouxeram mais prejuízos que benefícios, sem precisar de fazer rupturas num plantel que está estabilizado, que ganha experiência e que está contratualmente seguro, com a perspectiva de crescimento de alguns jovens jogadores com potencial de alcançarem a titularidade e que já se encontram no plantel, o Benfica encara, potencialmente, a melhor pré-época desde que Jesus chegou ao Benfica, e consequentemente a melhor época das últimas quatro em termos de qualidade da equipa, desde que o trabalho no Verão seja bem feito.