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segunda-feira, 2 de abril de 2012

Futebol quântico

Há um segredo por revelar e que joga a favor do Benfica nestes últimos 30 dias de competição. É possível que eu possa estar a dar azar ao falar disto, mas, considerando que já lixei o campeonato ao Benfica ao dizer que não íamos perder com o Porto em casa, espero que isto permite reverter o feitiço (porque só se eu conseguir reverter o feitiço é que temos a mínima hipótese de ainda ganhar isto, obviamente).

O segredo é este: entrámos no plano do irracional.

Basta olhar para os sinais. Começando por Olhão, para não irmos mais longe. Saviola falha um golo feito no último remate do jogo e o Benfica fica com o campeonato pendurado por um cabelo. Dois dias depois, em Paços de Ferreira, o Porto desperdiça cerca de 10 golos em frente ao guarda-redes e, a 8 minutos do fim, com o título no bolso, sofre um golo de canto com o jogador do Paços a marcar de cabeça no centro da área, sem um único jogador do Porto saltar. Juro pela saúde dos meus filhos que, desde que vejo futebol, nunca vi o Porto sofrer um golo destes numa situação destas. Nunca. Jamais. Em tempo algum. Ponto final, parágrafo. Eu, se fosse do Porto, depois daquele jogo, teria sentido o mesmo que um japonês ao ver chegar a tsunami.

Mas calma. Não é tudo.

No sábado, o Porto vê os seus dois rivais chegarem aos 78 minutos com o resultado que lhe interessava. O Benfica ficaria fora do campeonato. E o Benfica estava morto. O Elderson faz um penálti de apanhados. Com o Cardozo no banco e três tipos à volta da bola sem saber o que lhe fazer até ao próprio Cardozo mandar, do banco, que fosse o Witsel a marcar (leiam no Jogo, está muito bem sacada a notícia). Golo. Três minutos depois o Braga empata outra vez. Tudo perfeito, outra vez. E, de repente, na última jogada, o Gaitán e o Chuta-Chuta sacam um coelho da cartola. Duas vezes, no espaço de uma semana, o Porto vê fugir, por minutos (por segundos!), em jogadas insólitas, um campeonato que já esteve a perder por 5 pontos e a liderar por 3. Quero aqui remeter para o vídeo já indicado, mas avançando 30 segundos, por favor – quando já chegou a segunda vaga e a água subiu mais cinco metros...

Mas calma, não é tudo.

No meio disto há o Chelsea. Do David Luiz, do Ramires e do Villas-Boas. Um Chelsea de segunda categoria que, salvando-se até de um dos penáltis mais escandalosos que alguma vez não se marcaram nuns quartos-de-final da Champions, ganha por 1-0.

Para o Benfica, obviamente, perder não bastava – também tinha de ficar sem o seu terceiro central no segundo jogo do título da época, para juntar à ausência do defesa-esquerdo titular.

Leram aquele comentário que eu fiz sobre o Jesus ter a sorte de passar a ter mais dois jogadores de futebol na equipa para o jogo com o Braga em vez de duas tentativas de defesa? Era um exagero propositado, obviamente, mas não escrevi aquilo por acaso. É que, no ponto em que estamos, isto já não tem nada a ver com jogadores.

É preciso ter assistido à vitória do Benfica no campeonato dos 6-3 em Alvalade para perceber que, a partir de certo ponto, os jogadores, os treinadores, os dirigentes, os adeptos e os árbitros já não têm nada a ver com isto.

Entra-se no campo do futebol quântico. Porque é que a bola vai para ali quando teria exactamente as mesmas probabilidades de ir para o lado contrário? Ninguém sabe. Podia, exactamente da mesma maneira, não ir. Mas vai. Podia ser o Hulk a chutá-la ou o júnior que lá vai treinar às segundas-feiras. Não interessa. A puta da bola vai porque quer ir.

Ora, quando entramos no plano do transcendente em que actualmente nos situamos, entramos no campo de colheita do Benfica. Quando as coisas começam a acontecer ao contrário do projecto, ao contrário da razão, ao contrário da lógica, ao contrário do método e dos princípios básicos do trabalho a longo prazo, quando se entra no plano do insondável, o Benfica pode não ficar em vantagem em relação a qualquer clube do mundo, incluindo o Porto, mas em desvantagem não fica de certeza.

Estamos no campo da mística. E no que toca ao Benfica, pode não valer nada no resto, mas no campo do sobrenatural dá cartas seja a quem for.



Eis o ponto da situação: na quarta-feira o Benfica joga em Londres e tem de ganhar ao Chelsea do Abramovich para ser apurado para a meias-finais da Champions. Vai jogar com um central agarrado ao joelho e outro adaptado, e nada disso terá importância absolutamente nenhuma. Para o Jesus vai ser um bicho de sete cabeças, porque aquilo na cabeça dele não joga, mas o treinador que o Benfica precisava de ter em Londres não era o Jesus – era o Toni. O Toni nunca foi nem metade do treinador que o Jesus é, mas conseguiu ser campeão no Benfica, mais do que uma vez, por uma razão extraordinariamente simples: porque tinha sensibilidade para entender a natureza mística do Benfica. Como o Mário Wilson, por exemplo. Com o Toni ou o Mário Wilson, em Londres, os jogadores do Benfica teriam a surpresa das suas vidas. Estariam à espera de ver um treinador sorumbático, acabrunhado, derrotado antes do jogo começar, e de repente ia-lhes aparecer um Toni vermelhusco, sem ter nada de relevante tacticamente ou estrategicamente para dizer, mas de que iria transparecer uma ideia absurda: «Temos de ganhar em Londres, ao Chelsea, sem centrais, quatro dias depois de jogar com o Braga e quatro dias antes de ir a Alvalade, onde temos de ganhar para seros campeões? Fantástico. Temo-los mesmo onde os queríamos.»

A sério: ninguém tem noção de como o Benfica está perto de eliminar o Chelsea. A começar pelos jogadores.

O que vai acontecer é o seguinte: o jesus vai entrar com a equipa tão arranjadinha quanto possível, e com o Cardozo, o Witsel, o Aimar, a tropa toda, e com o Javi a central, claro. Porque é o que faz sentido, em termos futebolísticos. O Benfica vai ser eliminado e, no final, toda a gente vai chegar à conclusão que não foi por causa de quem jogou que o Benfica perdeu, e que nem sequer foi por causa de ter perdido na Luz: foi por não ter acreditado que podia ganhar e não ter sido convicto nas oportunidades que teve.

Teoricamente, o Benfica perdeu a sua oportunidade na Luz. Foi superior, podia ter ganho e perdeu, em casa, contra uma equipa, em princípio, superior e mais experiente em todos os aspectos. Hipóteses de apuramento? 5 por cento. Na prática, vai ser este pressuposto que vai eliminar o Benfica. Porque… o que é que o Benfica tem a perder? Precisamente.

Se eu fosse o Toni, em Stamford Bridge, conhecendo o Benfica, faria isto: primeiro dizia-lhes «temo-los mesmo onde os queríamos». Depois, já no avião, antes de levantar voo, dizia-lhes: «Amanhã jogam Artur, Maxi, Javi, Emerson e Capdevilla; Witsel, Aimar e Gaitán; Saviola, Nélson e Rodrigo. E o Chuta-Chuta e o Nolito entram na segunda parte para acabar o serviço. É para correr até cair para o lado ou até marcarmos o quarto golo, o que quer que aconteça primeiro.» Para que eles não tivessem dúvida do tipo de missão que teriam em Londres. E colocaria o Chelsea perante o último tipo de problemas que está preparado para encontrar: uma equipa kamikaze. Perante o estado de fragilidade psíquica em que o Chelsea se encontra (nem à Champions provavelmente vai para o ano, atenção), o jogo seria lançado numa base absolutamente errática. Perfeito para os malucos do Benfica, péssimo para a equipa na posição superior.

Ia ser um festival.

O Benfica ou passava ou fazia um escarcéu que até à China chegava. Daqui a dez anos ainda se ia falar deste jogo. 3-2, 4-3, 5-2, 2-5, não sei, mas que ia ficar para a história ia.



E depois disto, claro, o que verdadeiramente interessa. «Temos de ir ganhar ao Sporting, a Alvalade, sem centrais, a quatro jornadas do fim, frente a um Sporting que tem a hipótese de nos roubar o título? Perfeito. Temo-los mesmo onde os queríamos.»

(passem para o minuto 8.30 do vídeo…)

domingo, 11 de março de 2012

Mata surreal

O que teria uma equipa madura e completa feito hoje na Mata Real?

Teria aproveitado o momento do jogo em que o adversário lhe permitiu ganhá-lo, ou seja, os primeiros 25 minutos, em que, graças à capacidade de Saviola e Bruno César jogarem entre linhas, teve tempo e espaço para marcar não um mas vários golos. Porquê uma equipa madura? Porque só uma equipa madura consegue ver o jogo tal como ele está a decorrer, e não como ele deveria decorrer, e porque só uma equipa madura, vendo as condições em que este jogo estava a ser jogado, perceberia que, mais do que atacar em velocidade, teria sido eficiente jogar com um pouco mais de calma e resolver as coisas tecnicamente, acertando bem os passes, chegando ao remate em boas condições. Uma equipa madura, com cabecinha, teria tido não cinco ou seis oportunidades nesses 25 minutos mas uma ou duas, e numa delas teria feito o golo. É uma questão simples de cérebro ou falta dele.

Teria, no caso de isso não ter resultado, percebido que, após os primeiros 5 minutos da segunda parte, teria de gastar outros 5 minutos a recolocar o jogo nas condições que lhe permitissem a vitória. Fez exactamente o contrário. Entrou numa corrida a pé com o Paços de Ferreira, perdendo a vantagem técnica que teria SE soubesse adoptar uma estratégia que lhe permitisse colocar a contenda nesses termos.

Após o 2-1, com o jogo completamente aberto, teria procurado situações de futebol apoiado – pelo menos 3 jogadores num quadrado imaginário com 5 metros de lado, com bola no pé, de maneira a poder pressionar imediatamente a bola se a perdesse – e procurando o contacto para provocar a falta. A precisar de marcar, o mais importante para uma equipa é como tratar da bola. A precisar de defender, o mais importante é como tratar o espaço. Passa a ser um jogo territorial. Porque nem se marca golos sem bola nem se sofre golos de baliza a baliza. O Benfica continuou a jogar como se estivesse empatado, na correria.

Após a expulsão, acabou o jogo. Permitir o empate nessa situação, frente a uma equipa inevitavelmente cansada e desmoralizada, teria sido o cúmulo da estupidez. Caraças, quanto mais não fosse permitir um remate teria sido idiota. E o que é que o Benfica faz?
Faltas. Abriu ao Paços a única porta que poderia ter para marcar um golo, dando-lhe a vantagem territorial. Pobre.

Fintas em vez de passes, maus controlos de bola, más opções, jogadores que não aparecem para receber a bola quando são precisos, jogadores a ocupar os espaços de outros, incapacidade de manter uma linha de jogo coerente, sobretudo na primeira parte. Alguma coisa de novo em relação ao que se passava em Outubro? Só o resultado. Mas o resultado não é causa, é consequência. E analisar o jogo considerando o resultado é o erro que faz com que, mais tarde, o resultado também não venha.

A coisa acabou bem? Acabou perfeitamente. Há algum benfiquista que não esteja contente? Não. Podia ter acabado de maneira muito diferente? Sem dúvida. Pode sempre, claro, mesmo quando se faz tudo bem feito. Mas hoje podia MESMO. Bastava ter entrado aquela do Melgarejo, aquela do Michel, etc, etc, etc.

Se perguntarem ao Jesus, ou a qualquer benfiquista mais aliviado, como é o Benfica ganhou, hoje, um jogo que aos 60 minutos estava perdido, todos terão uma resposta para dar. Mas é mentira. Ninguém sabe. Hoje, houve pequeno milagre, não só pela forma como aconteceu como pelo momento em que aconteceu.


Notas finais:

- vendo Capdevilla a jogar, é pura fantasia ter Emerson a titular do Benfica. O que Capdevilla poderá, eventualmente, não ter em resistência física, compensa largamente na abordagem ao jogo. Não há aflição quando tem a bola nos pés, não compromete a equipa com opções idiotas, sabe o que fazer, sabe quando o pode fazer, e não parece ter a ilusão de Emerson em ser Roberto Carlos, algo que teria evitado muitos dissabores ao Benfica ao longo da época. Jesus vai voltar a pôr Emerson na próxima jornada. E voltará a fazer mal. Capdevilla, um defesa-esquerdo mediano, é, ainda assim, o melhor defesa-esquerdo do Benfica.

- Jardel, com bola, é um risco permanente. Como Emerson. O melhor defesa que já conheci foi o Zidane. Porquê? Porque dali ela só saía com bom destino.

- não comecem já a ter orgasmos como Melgarejo. Melgarejo tem jogado com frequência, está com a pedalada toda, tem uma equipa a jogar para ele, em contra-ataque, com espaço, e não tem absolutamente pressão nenhuma em cima. Este não é o Melgarejo do Benfica. O Melgarejo do Benfica teria uma oportunidade de três em três semanas para jogar, durante 20 ou 30 minutos. Não teria ritmo de jogo, pelo que tudo o que dependesse da sua velocidade (que é a base do seu jogo) ficaria muito afectado, e teria de ser pelos fundamentos que ele ganharia um lugar na equipa. Jogaria sempre com pouco espaço. E teria uma tonelada de pressão em cima, porque no Benfica ninguém lhe iria pagar para atirar bolas ao poste mas para marcar golos e ganhar jogos.

- o Nélson Oliveira continua a pensar que a forma de marcar golos é atirar-se para o chão. Ridículo. Multinha por cada mergulho, que aprende logo, porque ou ninguém lhe explica ou, se alguém explica, ele não entende.

- ver o Cardozo a pedir centros para a área, a jogar contra nove, a dois minutos do fim e a ganhar por 2-1, define a inteligência e a concentração de um jogador no objectivo colectivo. Qual é a palavra, mesmo? Ah, sim. Ridículo.


Última palavra: será… a estrelinha?