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quarta-feira, 25 de abril de 2012

Pedretas

Ver uma equipa alemã de alto nível a jogar futebol, para mim, é quase uma ideologia.

Só encontro uma palavra suficientemente significativa e definidora: carácter.

Escrevo isto enquanto vejo o Real Madrid-Bayern, está 2-1 e não sei como vai acabar, mas é indiferente. Um dia, o Mourinho já não vai estar no Real, vai estar outro pior que ele, nem o Ronaldo, o Real vai ser qualquer coisa de titubeante, e nesse dia o Bayern, qualquer que seja o seu treinador e quaisquer que sejam os seus jogadores, continuará a ser, senão melhor, uma equipa superior em mentalidade, compostura, disciplina. Em carácter. Com alemães, ganeses, argentinos, peruanos ou brasileiros.

O Bayern sofre o primeiro golo a abrir num penálti inventado pelo Santiago Bernabéu e mantém-se firme. Sofre o segundo num repelão e aguenta-se. Continua na mesma. Não treme. Marca, evidentemente, como estava já claro que conseguiria marcar, e enquanto festeja, já metade dos jogadores faz questão de recordar à outra metade que ainda falta ganhar o jogo. A jogar fora, com a melhor equipa da Europa do momento, o Bayern toma conta do jogo. O Real, por estratégia ou não, faz figura de equipa menor. Provavelmente vai ganhar, porque tem melhores jogadores, funciona melhor como equipa e tem o factor casa (é, portanto, tecnicamente muito superior), mas esta equipa do Bayern faz jus à melhor tradição alemã e é uma garantia de que, como disse Lineker, o futebol continuará a ser um jogo simples, de onze contra onze, em que os alemães ganham no fim.

Porque é praticamente invulnerável aos estados de alma.



Não são os estados de alma que ganham os títulos. É raríssimo isso acontecer. A velha máxima de que o segredo para o sucesso é 90 por cento de transpiração e 10 por cento de inspiração é completamente certa, e os estados de alma só imperam quando, por uma grande coincidência, entram em competição duas ou mais equipas que transpiram igualmente muito.

Quando começo a ouvir falar em motivação, em superação, em benfiquismos, sportinguismos ou portismos, começo logo a pedalar para trás.

São tretas. Costumo dizer que são Pedretas.

Lembro-me sempre de uma história que me contou um amigo jornalista da velha guarda sobre o Joaquim Meirim, quando estava no Belenenses, e andava com essas patranhas da mentalização na cabeça, nos anos 70. Um dia o Belenenses estava em estágio num hotel e o Meirim meteu na cabeça que ia meter um jogador que não sabia nadar a nadar. Era um defesa brasileiro, de que não me lembro o nome. Levou o rapaz para a beira da piscina e começou a mentalizá-lo. E «está tudo na tua cabeça», e «tu és capaz», e «tu és o melhor nadador do mundo», e não sei que mais, e o jogador, a certo ponto, tanto se convenceu de que se quisesse sabia nadar que se atirou à piscina. Tiveram de ir tirá-lo à água para não morrer afogado.

É verdade que toda a gente pode começar a nadar bem de um momento para o outro, mas não é na primeira vez que se atira à água.



Desconfio sempre das equipas que melhoram com as chicotadas psicológicas. É porque são fracas da cabeça e, quando se acabar o estado de alma, não têm carácter lá dentro. As equipas verdadeiramente fortes melhoram contra as dificuldades, não quando as dificuldades são mitigadas. As verdadeiras equipas crescem perante as dificuldades.

Eu, como dirigente, até poderia recorrer à chicotada psicológica, mas se ela resultasse preocupar-me-ia, realmente, em trocar de jogadores o mais rápido possível.



Ouço e leio notícias sobre o Só Pinto, ouço-o a falar, vejo-o a orientar a equipa, e só vejo ali um caso psicológico.

Aparentemente, a equipa do Sporting, seis anos depois, continua a precisar (desesperadamente) apenas de… tranquilidade.

Os cirurgiões embevecem-se, os engenheiros coninhas encostam-se, as velhas glórias revêem-se, os pretorianos enchem o peito e cantam o hino, os jogadores voltam a sentir-se relevantes, e tudo está lindo e perfeito. Vão ganhar a Taça à Académica, talvez cheguem à final da Liga Europa, e depois vão de férias. E quando vierem de férias vão encontrar quem realmente têm: um psicólogo amador, só que então já sem ninguém para tratar. E se o psicolólogo não tiver mais tácticas para usar nos jogos a sério a não ser a do autocarro vão ganhar exactamente os mesmos campeonatos que ganharam com o último: zero. E o novo psicólogo, que até é capaz de ficar em segundo uma ou duas vezes, como o outro, sai pela mesma porta por onde entrou.



Dizem que o grande segredo do Mourinho é ser um grande psicólogo, que é conseguir entrar na cabeça dos jogadores. Não é, porque não é segredo nenhum. Toda a gente sabe. Só é segredo para quem só está preparado para compreender até aí.

O verdadeiro segredo do Mourinho é fazer as pessoas acreditar que os mind games são o seu trunfo. É levar os outro a pensar que é mágico, que tem um toque de Midas. Os jornalistas idolatram-no e os outros técnicos tentam imitá-lo. O segredo dele é enganar as pessoas com a verdade, quando diz que ganha mais porque trabalha mais. O verdadeiro segredo do Mourinho é que o factor menos importante do seu sucesso são os estados de alma. Ele ganha porque trabalha melhor que os outros.

Se o Mourinho dependesse de estados de alma hoje estava a treinar o Besiktas.

segunda-feira, 16 de abril de 2012

Complexo de Odivelas

Ao fim de dois dias, o ínclito sacerdote desce do eremitério e olha em redor. Recorda-se do profeta Gabriel (Alves) e conclui: «O futebol é isto»:



Parece que vai o Nico, e que vêm o Macheda e o Fábio. O Nico é bem ido e o Fábio é bem vindo: tanto joga a defesa direito como a esquerdo (pelo que se ganha mais um suplente sem se pagar por isso), é jogador de futebol (o que lhe dá uma vantagem automática sobre o Emerson, mesmo vindo por empréstimo) e, sobretudo, é mau como as cobras. Só não morde quando não pode. Faz-me lembrar aquelas serpentes pequeninas mas lixadas, do género do que se ouve no National Geographic: «A aparência da Cobra Minorca engana. Parece inofensiva mas apenas uma dose do seu veneno é capaz de cilindrar um cavalo de pequeno porte em menos de 20 segundos.» O Benfica precisa de mais dois ou três cabrõezinhos, e isto apenas se o Javi se for embora. Para cavalinhos de cortesa já há lá muitos. Quanto ao Macheda, desconfio, como desconfio sempre de jogadores que saem a título definitivo de um grande europeu com 20 anos. É porque esses clubes já perceberam que não há ali grande espiga. Mas, por outro lado, é italiano, em princípio tem boa ética profissional (o Balottelli não conta, porque não é italiano a sério…), e é agressivo. Teoricamente.



«O Jesus é um treinador à Benfica», diz o Capristano. Por acaso até é, esteja ou não em fim de prazo de validade. Mas há uma coisa que os mais novos, sobretudo, devem saber: o Capristano não é um dirigente à Benfica.



O Sporting ficou a dois minutos de ser eliminado pelo Manchester City depois de estar a ganhar por 3-0 na eliminatória, ficou a um penálti de ir a prolongamento contra uma equipa que corre menos do que o Athletic de Bilbao e só joga metade e viu o seu guarda-redes ser o melhor jogador em campo nessas quatro partidas. Entretanto, estacionou o autocarro em frente à baliza e jogou em contra-ataque puro, em casa, com o Benfica (o tal banho táctico de que ouvi falar tanto nesta semana, muito parecido ao banho táctico que o Moreirense deu ao Sporting no mesmo estádio há umas semanas e que na altura foi caracterizado como anti-jogo…). Ganhou. O Sá Pinto é um grande treinador. O Sporting, que provavelmente vai acabar o campeonato em quarto lugar, vai ser campeão para o ano.

Se fosse no Benfica eu falava em vício da negação. No Sporting prefiro usar o termo complexo de Odivelas, que não tem nada a ver com isto mas que li no Record hoje e me pareceu, em termos de caracterização de uma psicose qualquer, um excelente nome para aplicar ao Sporting. Proponho que, a partir de hoje, se use a expressão complexo de Odivelas quando se falar da capacidade de negação sportinguista. E se alguém perguntar porquê, que se responda apenas: «Porque soa bem». Um bocado somo síndroma de Estocolmo ou doença holandesa, se falarmos em economia. Digam lá se não soa bem: «O Sporting tem um complexo de Odivelas».



O Saviola quer ficar, diz o Record. «Onde?», pergunto eu. «Ele está a ligar de onde?»



O Sporting decretou um blackout. Nãããããããooo!!!!!!!!!!!!!



Antes, no entanto, o Coninhas ainda esclareceu que vão baixar os custos ao fundir duas empresas do grupo. É recorrente. Quando o Sporting não tem dinheiro muda o nome às empresas. Das duas uma: ou o problema do Sporting não é não ter dinheiro mas tê-lo sempre no sítio errado; ou os seus dirigentes já perceberam que a única maneira de continuar a enganar os adeptos é inventar alterações estruturais entre empresas fictícias e fazer de conta que o dinheiro existe, mas estava no sítio errado.



Já repararam como o Duque, que andou seis meses sem dar sinal de vida, agora aparece nas capas dos jornais (chamo a atenção ara o facto de eu, actualmente, só ler as capas)? Quem é que tinha razão sobre as duas facções em choque lá dentro, quem era? Bom, provavelmente eu e mais 5 milhões de pessoas…

O homem anda a juntar espingardas enquanto pode. É que na 5.ª feira a coisa pode correr muito mal…

sábado, 14 de abril de 2012

O plebeu

Um breve interlúdio verde antes da próxima especulação benfiquista para 2012/13.



Algumas coisas que vão ficando claras.

Como escrevi aqui, duas facções dentro do Sporting: os políticos, liderados por Luís Duque; e os fundamentalistas, de quem o Guarda Pretoriano Cristóvão era o representante na Direcção.

Duque tentando criar condições para uma aliança com o Benfica, Cristóvão tentando conquistar o poder por dentro.

Cristóvão é (era) o homem do trabalho sujo, desde o início, no Sporting. A sua função não era só pintar girassóis nos corredores: era entrar nos meandros do futebol (que devia conhecer muito bem porque, como ex-PJ, tinha maneiras de conhecer) e voltar a meter o Sporting no jogo. Não há, nem no Sporting nem em clube algum à excepção do Porto, assim tanta gente disponível para chafurdar na lama. É por isso, aliás, que Pinto da Costa chego a Papa: por falta de vergonha. Nem toda a gente tem a capacidade de se rebaixar eticamente ao ponto de viver confortavelmente no meio da escumalha.

Essa era base da influência de Cristóvão junto do presidente – um coninhas, como já toda a gente percebeu – e era a partir daí que Cristóvão (um plebeu, note-se)esperava alcançar o poder dentro do Sporting e tornar-se o Pinto da Costa do clube (um sonho comum a tantos e tantos benfiquistas e sportinguistas). O controlo do submundo, libertando os viscondes sportinguistas desse ónus, dar-lhe-ia um poder funcional e a postura anti-benfiquista, que tinha vindo a trabalhar com afinco, dar-lhe-ia o poder demagógico para subir no barómetro do poder e, na altura certa, disputar a presidência do clube.

Confirma-se que, no Sporting, todos sentem ter direito ao poder, e que essa é a grande vulnerabilidade interna do clube.



A saída de Cristóvão – não se pode dizer irreversível porque, em política, os cadáveres só dormem – abre a porta à facção duquista e à respectiva estratégia.

Enfraquece brutalmente a posição estratégica do Sporting, não só por garantir que o clube não é inocente mas também pela imagem de amadorismo que passa.

O presidente, principalmente, sai muitíssimo enfraquecido, e Duque, que trocou Domingos por Sá Pinto, que vai ganhar a Taça, que chega às meias-finais da Liga Europa e que acaba o ano a tirar o campeonato ao Benfica (a mais importante das três façanhas para os sportinguistas), está em alta, quando ainda há poucas semanas parecia preso por arames.

segunda-feira, 9 de abril de 2012

Duas formas da banalidade

O Benfica devia ter entrado com a táctica que usa na Luz contra as equipas pequenas. O Sporting jogou como se estivesse a jogar na Luz, mas com a vantagem de estar em casa. Se o Benfica tivesse entrado a perceber que ia defrontar um autocarro teria ganho vantagem.

Já o Sporting, ganhou o jogo mas não ganhou mais nada, pelo contrário. O que o Sporting tinha a ganhar hoje não era o jogo, nem os três pontos: era o mesmo que o Benfica tem a ganhar quando joga com o Porto – uma atitude de predador. E fez exactamente o contrário. O Sporting ganha um jogo mas, não chegando ao extremo de dizer que perdeu uma equipa (porque seria um claro exagero), perdeu uma grande oportunidade de lançar a próxima época com um sentimento de superioridade sobre o Benfica. Algo que lhe vai ser muito necessário, pois o seu objectivo será, novamente, ficar à frente do Benfica.

A forma como cada jogada perfeitamente banal era aplaudida pelo banco do Sporting, como fosse o banco do Rio Ave a ganhar ao Benfica na Luz, chegou a ser constrangedora. A festa imensa no final do jogo também, sobretudo no olhar embevecido do Sá Pinto, como que a dizer: «Ganhei ao Benfica. Hoje posso dizer que cumpri o meu destino como treinador do Sporting.» Fazer de um Sporting-Benfica, no quinto lugar do campeonato, o jogo da época, é de facto revelador, e só augura novos cataclismos vermelhos no caminho do Sporting nos próximos anos. Claro que o que vão dizer na imprensa não é isto, é que este jogo foi só mais um, porque, no fundo, têm noção da mediocridade. Só não estão dispostos a prescindir dela.

Quanto à sua importância na conta corrente dos dérbis, até nem é mau que o Sporting tenha ganho. Equilibra os números para quando for preciso jogar os jogos a sério. O da primeira volta, por exemplo, foi bem mais importante do que este. O Sporting começou a morrer nesse dia. Hoje, o Benfica só acabou de morrer, a ferida já estava a sangrar há muitas semanas.


A porrada que o Javi deu no Volkswagen aos 25 minutos deveria ter sido dada aos 5. Anjinhos.



Acho que já percebi porque é que o Maxi Pereira começou a fazer aquela finta marada de metar para dentro sempre que tem a bola: esqueceu-se de como se centra. Escusava era de ter voltado a começar neste jogo.



Segundo os critérios do Soares Dias houve três penáltis na primeira parte, um deles a favor do Benfica no primeiro minuto. Em nenhum dos três o jogador caíu por causa do contacto. A razão por que marcou só um é um mistério de Fafe. Aliás, faltas iguais àquela houve dezenas durante o jogo, e ele só marcou metade. Ter calhado uma delas ser um penálti é, obviamente, pura coincidência.



Mas agora a sério…



O Benfica entrou mal preparado e completamente desconcentrado para um jogo em que teria de mostrar fibra de campeão. Não sabia como jogar, não soube executar, mostrou novamente todo o seu défice colectivo e mostrou que não tem estaleca suficiente para chegar e ganhar quando é preciso – faltou-lhe classe. Deu a ideia de ter entrado convencido de que já não havia nada a ganhar depois da vitória do Porto em Braga.

É um ponto final conclusivo que, tal como no jogo com o Porto, na Luz, pode ser encarado de duas maneiras pelos adeptos: ou fazem de conta que perderam por causa do árbitro, e voltam a perder para o ano e para outros anos a seguir; ou assumem que perderam porque não têm equipa suficiente para ganhar um campeonato de forma categórica.

Tenho a sensação de que sei o que o Jesus e o Vieira vão dizer, mas a opinião pública só pode ser manipulada se se deixar manipular.

O Benfica passou por situações muito distintas neste campeonato: sendo a equipa mais mediática (e não, atenção, a mais eficiente), fez figura de campeão durante metade da época, não por ser a melhor equipa mas porque a melhor equipa estava a perder o campeonato por si própria; quando teve oportunidade para mostrar que tinha estofo para ser campeã não a aproveitou e foi ela a perder o campeonato.



Neste momento, em que tudo vai parecer mau (porque o animal-homem é mesmo assim) convém dizer duas coisas muito breves:

- se o Benfica acabar em segundo lugar terá feito uma época acima das expectativas (realistas) iniciais, e em termos de qualidade competitiva, no cômputo geral (e na minha opinião), fez a melhor das três épocas do Jesus. Melhor que a primeira, onde só foi campeão porque a concorrência era menor, e muito melhor que a segunda;

- o que levou o Benfica a sucessivos fracassos nos últimos 30 anos não foi ter perdido campeonatos: foi, por um lado, não ter compreendido as razões das derrotas, e, por outro, não ter construído sobre elas, atirando-se a mudar o que estava mal e o que estava bem, sem método nem critério.



O ponto da situação do Benfica, não só a partir de agora mas desde a derrota em casa com o Porto, é o seguinte: se acabar o campeonato no segundo lugar está em óptima situação para começar o próximo como principal favorito (real, não teórico) à conquista do título. No fundo, o melhor que realisticamente se poderia esperar depois de uma época avassaladora por parte do Porto. Tudo depende do trabalho que se fizer no Verão – e o que o Porto possa fazer na resposta nem sequer é assim tão importante, porque a iniciativa está do lado do Benfica. Basta começar a dar ao pedal com força, acreditar e não facilitar – incluindo, obviamente, com os Soares Dias deste país.

Se ter ficado em segundo neste campeonato será, a longo prazo, melhor do que o ter ganho, veremos. É algo que só se pode dizer ao fim de muito tempo. No fim de dez anos há sempre campeonatos que se ganham e campeonatos que se perdem. O que fica, e o que faz a diferença nesse grande plano, é como eles são ganhos.

Volto a dizer o que já disse aqui várias vezes: ganhar sem o mérito suficiente é uma tentação perigosa, pela qual o Benfica pagou bastante caro ao longo dos últimos anos.



P. S. 1 – O Benfica não conseguiu fazer um único remate à baliza na sequência de um canto ou de um livre, e não chutou de longe. Como é que queriam marcar golos ao Rui Patrício?

P.S. 2 – Quando vejo o Jesus a gesticular para os jogadores, aos berros, a descobrir, naquele preciso momento do jogo, a chave para a vitória numa simples troca de posicionamento de dois jogadores ou no adiantamento dos médios em dois metros, fico sempre com uma angústia cá dentro de mim, em forma de dúvida: o que seria desta equipa do Benfica se em vez de passar a semana a treinar tácticas treinasse futebol?

Bombardeiem

Após dois dias de desintoxicação futebolística, abro os jornais na Internet e começo-me a rir.

*

A BOLA faz uma capa com o Dia D – ou seja invocando o desembarque dos Aliados na Normandia. Só que mete o Jesus e o Sá Pinto com o capacete dos Aliados. Ora, pela lógica, uma das partes devia ter um capacete diferente, mais exactamente um capacete nazi. Ou é suposto serem os dois do mesmo exército? Claro que o problema nesta grande ideia seria pôr o Sá Pinto (o invadido, logicamente) com um capacete nazi.

Há coisas que funcionam tão bem antes de serem postas em práticas. Mas estes pormenores que teimam em dar cabo delas…

Além de só a imagem dos dois manuéis com um capacete empinado a troucho-mocho, só por si, já ser bizarra (para não dizer mais), esta capa define o jornal A Bola:

- Falta de originalidade gritante

Já deve ser para aí a quinquagésima quinta vez que se faz uma capa de um jogo de futebol aludindo ao Dia D;

- Falta de sentido de oportunidade estapafúrdio.

Ao que parece o fim-de-semana foi pródigo em suásticas verdes e em advertências vermelhas aos pais de família que fossem ao jogo;

- Falta de personalidade.

A política da Bola é a de estar bem com gregos e troianos, sempre, dar uma no cravo e outra na ferradura, ausência de posicionamento definido, ausência de carácter, numa palavra. A Bola é um jornal dirigido por maus políticos, que estão sempre comprometidos com tudo e todos e que não se comprometem com nada até ao fim. O único que ainda vai tendo alguma coragem de se definir de um lado, com acções, é o José Manuel Delgado. Esse não engana nem quer enganar ninguém. Os outros batem e escondem a mão.

Prefiro a postura da Marca, ou do Sport: são claramente tendenciosos mas não o escondem.

Talvez possamos acrescentar aqui alguma falta de inteligência…

*

O Sporting vai levar toda a gente para estágio. É uma espécie de terapia de grupo.

Já estou em dúvida sobre se o Sá Pinto é treinador de futebol ou um líder espiritual tibetano.

Desde que entrou que todas as semanas temos uma nova sessão de tratamento psicológico, de apaziguamento, de carinho, ele é o «os jogadores estiveram insuperáveis», ele é o «ele dava uma perna por mim», ele é a coisa mais linda e simbiótica de que há memória na longa história do futebol.

Confesso que não tenho paciência nenhum para estas carochices. Nem no Sporting nem em nenhum clube, e muito menos no Benfica.

Quando ouço falar-se da «psicologia» de uma equipa ou de um jogador de futebol como se fosse o sétimo segredo do Universo até se me arrepanham as varizes. De repente um jogador marca um golo, sente a inspiração divina a descer sobre si e vai tratar, sozinho, de dois ou três adversários ao mesmo tempo. E quando um treinador entra e começa a falar do «trabalho psicológico profundo» que é preciso fazer. Meu Deus, que drama.

É um chorrilho de paneleirices. É a escola dos Pedrotos que não se vai embora.

Estas tretas são a verdadeira fraqueza do futebol português. Um jogador é tratado como tudo – um artista, um campeão, um ídolo, uma flor de estufa, um caso clínico – menos aquilo que tem de ser: um profissional de corpo inteiro.

Sucumbe-se à mariquice tão prontamente que os próprios jogadores de culturas mais combativas e de responsabilização individual (os holandeses ou os suecos, por exemplo), ao fim de alguns meses, já se amaricaram. Pudera: é só paparoquices por todos os lados.

Enquanto o futebol português continuar a tratar os seus profissionais como ursos panda, que têm de viver em condições ambientais perfeitas para poderem desempenhar, não vai a lado nenhum. Até o Porto, que tem a mentalidade mais profissional, está tão embrenhado na nacional-saloice que, assim que apanha uma equipa inglesa ou alemã como deve de ser, parece uma equipa de juniores, de meninos a jogar à bola com adultos.

O caso do Sá Pinto tem sido gritante. Estas paneleirices todas sabem bem agora, basicamente porque quando ele entrou o Sporting já dava a temporada por perdida (logo, só podia subir) e teve a sorte de apanhar um Manchester City em fase de implosão. Além dessa eliminatória (salva no último minuto pelo Rui Patrício) o Sporting passou outra com o Kharkiv em que o Patrício foi outra vez o melhor em campo nos dois jogos, desceu para o quinto lugar no campeonato e não joga um caroço. Mas toda a gente anda satisfeita com o Sá porque o Sá tem conseguido reunir os jogadores em seu redor, com muito carinho e compreensão. É tudo tão lindo. É tudo tão à Sporting…

E hoje ganham ao Benfica e fazem a época, em perfeita comunhão de sentimentos, com a Juve Leo a chorar para o Sá.

E se esperarmos pelo início da época a sério para saber se o amor, por si só, chega?

Ou muito me engano ou o último campeonato que o Sá acaba à frente do Sporting é o que está agora a chegar ao fim…

*

Vejo, no Record, o Rui Patrício a passar de uma cotação de 5 para 17 milhões de euros e o Matías Fernandez a passar de 4,5 para 12 e não consigo mesmo parar de rir.

Em relação a isto, só uma coisa a dizer, a propósito do jogo de hoje, aos jogadores do Benfica: -- Não tem nada que saber: podem sofrer um golo, não se enervem, não se preocupem muito com o Matías Fernandez, porque esse só toca na bola quando o Elias não joga, preocupem-se com o Elias e com o Izmailov, os outros são todos cavalinhos de cortesia; entrem com o pé por cima e ao joelho, que daí para a frente os jogadores do Sporting cortam-se a todas, pois começam a fazer contas de cabeça à Liga Europa; aproveitem um canto e vão rematando de longe até o Rui Patrício ser, surpreendentemente, apanhado em falso. Se fizerem isso pelo menos dois golos marcam. E se insistirem até fazem mais.

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012

Aspirina psicológica

Em tons de azul desmaiado, o conto de Carnaval mais bonito de que há memória no futebol moderno.

A enternecedora história do jovem aristocrata seduzido por um oligarca russo que, vendo-se assolapado da cadeira de sonho pela tentação de superar as façanhas do seu antigo mestre, dá por si perdido num enorme palácio cheio de monstros, e que, no regresso de uma viagem terrível ao Reino das Duas Sicílias, da qual por pouco escapou com vida, e sabendo que o seu antigo clã se encontra numa floresta ao seu alcance, voa 400 quilómetros para Norte e consegue, finalmente, encontrar um momento de conforto sentado num lugar de sonho, entre um ancião administrativamente inocente e um ex-pugilista de boas famílias.

Haverá imagem mais assassina que a de André Villas-Boas, ladeado por Pinto da Costa e Reinaldo Teles, a poucos dias de ser despedido, vendo a anterior equipa a levar 4 na pá com o seu ex-adjunto e a-poucas-semanas-de-ser-substituído Vítor Pereira no comando?

Ontem dizia num jornal que o Barcelona estava a pensar no Villas-Boas para substituir o Guardiola. Eu cá acredito…

Acredito que ele está outra vez no Porto em Agosto, claro. Vem é quebrado, como os cães que são postos a treinar na GNR e nunca mais se esquecem. Primeiro o Pinto da Costa deu-lhe umas chapadas no focinho pelos jornais, Depois, desde os Masturbações de Ouro que lhe anda a passar a mão pelo pêlo. Ontem, o André deu a patinha. Tudo isto é educativo. Para que conste, ainda assim, vale mais um caniche de Villas-Boas que um doberman de TOC.

As hipóteses de o Pinto da Costa, político hábil e experimentado, não fazer ideia do impacto e da leitura que aquelas imagens provocariam (e não é propriamente que eles se tenham escondido das câmaras...) são exactamente iguais a z-e-r-o.

O Manchester City passou o jogo todo quase a treinar, a deixar o Porto correr e a fingir que dominava. A eliminatória ficou decidida quando o Aguero marcou o… 2-1 cá. O momento de maior frissom do Mancini foi quando não estava a conseguir o pacote dos Sugus para dar um ao adjunto. Mas depois lá resolveu o problema e pode voltar a recostar-se, a cruzar os braços e a ver os seus jogadores a treinarem o posicionamento defensivo e o TOC a apanhar chuva.

Não deixou de ter piada o TOC a dizer que o Porto tinha o jogo controlado até ao 2-0 depois de sofrer um golo aos 20 segundos. Há qualquer coisa de bizarro e simultaneamente trágico naquele personagem. É uma espécie de Calimero. Vê-se que é bem intencionado, que tenta fazer as coisas como acha que devem ser feitas, que dá o melhor, mas é um daqueles tipos que parece que nasceu com uma cruz por cima. E lá vai, tentando enganar o destino, sem querer convencer-se de que nasceu para perder.

Talvez eu esteja a ser cruel e tenha de engolir estas palavras, mas olho para o Vítor Pereira e vejo um daqueles filhos enjeitados que nunca tiveram hipótese e não o sabem.



Em Alvalade, um adversário perfeito para o Sporting: estúpido a jogar à bola, matreiro, experiente, a apostar tudo no físico e com mais gente nas bancadas que a equipa da casa. Se a isso juntarmos os traumas recorrentes do Sporting em casa, tínhamos ali um belíssimo cocktail verde.

Se viram o jogo, diga-me lá: é verdade ou não é que os polacos, por terem empatado a 2  em casa na primeira mão, entraram muito mais convictos e concentrados que o Sporting, e que graças a isso, mesmo sem jogarem nada, tomaram a iniciativa do jogo e estiveram quase a ganhar vantagem e a pôr o Sporting à beira de um ataque de nervos? Com vantagem na eliminatória, o Sporting viu-se «n» vezes em igualdade numérica no seu meio-campo. Claramente, os médios do Sporting não sabiam tão bem o que fazer como os médios do Légia.

Penso que não estou a ver o que quero ver, mas o que aconteceu. Vocês me poderão dizer melhor.

Até conseguir marcar o golo a 10 minutos do fim o Sporting esteve sempre no fio da navalha, e pode-se legitimamente dizer que esteve tão próximo de ser eliminado como de eliminar. Bastava aquele cabeceamento em chapéu ao Patrício ter entrado e os fantasmas sairiam todos de baixo da cadeiras coloridas vazias.

Agora apanha o City. Se contra uma equipa que só sabe correr o Sporting passou à justa, contra outra que sabe correr e fazer tudo o resto prevê-se uma eliminatória equilibrada... Sobretudo no capítulo das bolas paradas, em que as equipas inglesas são muito débeis, o City vai ter dificuldades.

Em relação ao Sá Pinto, começam a reunir-e condições para lhe traçar o famigerado perfil, mas, para já, fico com a ideia clara que ele entrou meiguinho, meiguinho. Vê-lo a dizer: «Tá bem, João» depois do João Pereira fazer um daqueles passes esquizofrénicos de primeira a 50 metros para a terra de ninguém é enternecedor. Se aquilo é o Sá Pinto Coração de Leão, que ia trazer garra à equipa, vou ali e já venho. O Sporting passou de uma equipa Cerelac histérica para uma equipa de mama amorfa. Regrediu. Até pode ser aquilo de que precisa para depois começar a andar, mas, considerando a inocência do Sá Pinto em todas as acções que teve até agora como treinador apetece dizer que o que aconteceu em Alvalade foi muito mais uma aspirina psicológica que uma chicotada.


Prosseguindo para o tema seguinte da agenda, cumpre-me transmitir a triste notícia de que o nosso leitor Danilu Kerdi Zerkarma já não está entre nós. Pelo que me foi dito pôs a casa no prego para poder jogar tudo o que tinha e suicidou-se após o sétimo resultado negativo do passado fim-de-semana.

É um castigo justo para um homem de pouca fé. Se tivesse esperado mais um dia teria começado a aprender uma lição eterna que qualquer benfiquista de boa cepa há muito aprendeu: é perfeitamente possível levar 7-1 e mesmo assim chegar à frente no fim do campeonato.

Estou em pesquisas e amanhã lanço a chave milionária. Estou à espera de pelo menos 15 mil visualizações quando se souber que em apenas três jornadas mais uns pozinhos já dobrei o dinheiro falso que tinha no início.

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2012

Os Outros

Más notícias para o Porto antes do jogo começar: Mancini não secundarizou a Liga Europa. Pior do que isso: não só percebeu que esta eliminatória é uma final antecipada como quis resolvê-la logo na primeira mão. Vai daí, mete o onze mais forte. Isso foi, por si só, o factor mais determinante para o desfecho do jogo.

O cariz do jogo foi, afinal, aquele que eu esperava, com o Porto permitir a superioridade territorial do City para aproveitar o espaço – e aproveitou-o mesmo, fazendo uma primeira parte muito boa.

Só a qualidade colectiva e a experiência internacional do Porto lhe permitiram equilibrar um jogo perante uma equipa tecnicamente muito superior e com um ritmo que não está ao alcance de nenhuma equipa portuguesa. Um City sem Silva e Touré, por exemplo, poderia estar mais vulnerável. Um City completo é outra história – e Silva é a verdadeira estrela desta equipa.

A sorte do jogo e a imaturidade de Balotelli frente a baliza permitiram ao Porto aguentar o 1-0, mas os primeiros 20 minutos da segunda parte acabaram por mostrar que não há milagres. Nesse período faltou ao Porto, simplesmente, qualidade. Quatro meses de degradação técnica e táctica por parte do seu treinador de segunda categoria resultaram, afinal, no que se viu no Porto quando o City manteve o pedal a fundo e foi atrás da eliminatória: uma equipa afundada, sem soluções, sem verdadeiros automatismos na saída da pressão alta (algo a que, em Portugal, nunca está sujeito).

Este é o Porto de Jesualdo. O Porto pré-Villas-Boas. Um Porto a quem falta a sexta velocidade europeia. O City meteu uma abaixo e o Porto passou a ver jogar.

A época europeia do Porto acaba daqui a uma semana, e a grande questão é quanto vai passar a valer este Porto a jogar só para o campeonato. Pode ser que se aborreçam, que percam o ritmo, enfim, que estranhem… O Hulk, pela quantidade de vezes que, em desespero, tentou inventar passes de calcanhar para ainda conseguir dar nas vistas, vai estranhar de certeza.

A verdade é que as três próximas jornadas passam a ter uma importância ainda maior depois disto.



O Legia-Sporting foi uma espécie de Zenit-Benfica dos pequeninos. Liga Europa em vez de Liga dos Campeões, Polónia em vez de Rússia, a diferença dos clubes, claro, os factores campo e frio – falou-se pouco destes dois por causa da Novela do Choramingo mas o Sporting enfrentou condições tão adversas como o Benfica, neste aspecto – e até o Sá Pinto, quando for crescido, vai ter aquela bela melena pintada de grisalho, como o Grande J. Aura de salvador, já tem.

O que escrevi ontem em relação aos empates com golos, mantenho. Mas o 2-2, sobretudo contra uma equipa claramente inferior como é o Legia, continua a ser um resultado que quase mete o Sporting na próxima eliminatória. Apesar de tudo, dá muito mais margem de manobra do que o 1-1. O Sporting pode sofrer um golo sem entrar em pânico. Apesar de estarmos a falar do Sporting e de termos de dar o desconto para a tragédia, note-se…

Como o Legia demonstrou, continua a ser facílimo marcar um golo ao Sporting de bola parada: basta centrar a bola para onde não está o Capitão América e esperar que a lei da gravidade faça o resto, sendo que neste caso a bola é inevitavelmente atraída para a baliza.

A chicotada psicológica não funcionou, o que, parecendo que não, é positivo. Geralmente os jogadores que respondem a chicotadas psicológicas são jogadores psicologicamente frágeis. Um jogador estrutural e profissionalmente sólido não deve estar dependente de ter um treinador novo para jogar melhor. O Sporting do Domingos teria feito o mesmo resultado e o mesmo jogo na Polónia que o Sporting do Sá Pinto.

O verdadeiro impacto do novo treinador vê-se muito mais no longo prazo, e não é no pontapé na bola, que nisso os jogadores são iguais ao que eram antes. É na capacidade de aguentar a contrariedade, de suportar a pressão, de procurar o colectivo como solução, de jogar mais depressa, de fazer e sofrer pressão, nos pormenores que, todos juntos, fazem as pequenas diferenças que em competição cavam os grandes fossos entre as equipas. E que dão, centímetro a centímetro, muito trabalho até se conseguir fazer sem pensar. O jogo menos importante de um novo treinador é o primeiro.

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012

O último chuif

Talvez a saída do Choramingos merecesse aqui uma análise extraordinária, mas a verdade é que não me inspira nada de particularmente especial. Provavelmente porque não vi, logo de início, nenhuma razão para o orgasmo colectivo que rodeou a entrada dele no Sporting.

A única coisa que realmente destacou o Domingos dos outros treinadores portugueses, nos últimos anos, foi o timing. Falando em bom português, a oportunidade. Quer nos clubes por onde passou quer na sua entrada no Sporting. Aliás, olho para o que escrevi nessa altura e não vejo onde me possa ter enganado. Não mudaria uma vírgula.

Mas vamos começar por aqui, pela oportunidade.



O projecto do costume

A diferença do Domingos para qualquer tentativa de clone mourinhesco que tenha entrado no Sporting desde José Peseiro é que o Domingos entra no momento mais importante da história recente do Sporting, após eleições em que, na prática, os sócios sufragaram (ou tentaram sufragar) o enterro da tecnocracia roquetista e passar a praticar uma política de investimento à Benfica, desistindo dos barretes a custo zero para passar a apostar em valores caros para obter resultados. Esta inflexão na política de despesas do clube teve três faces: Luis Duque, Carlos Freitas e Domingos, o homem de que o próprio Duque fez depender o seu regresso como condição essencial para o sucesso.

A saída de Domingos fragiliza imenso o projecto do Sporting (e quero ressalvar aqui o facto de, ao referir-me a projecto, estar a ser completamente sarcástico) acima de tudo porque, ao fragilizar todas as partes envolvidas, fragmenta o poder.

Despedir Domingos ao fim de oito meses da revolução – esta sim, uma revolução – não é o mesmo que despedir Carvalhal, Couceiro ou Paulo Sérgio, porque nenhum deles representava realmente um projecto, antes uma tentativa. Nem ter o real Luís Duque a ver cair o seu treinador é o mesmo que ter o curioso Costinha a ver cair a sua invenção. Foi uma aposta muito elevada, num momento demasiado importante, para ser equiparada a alguns disparates anteriores, que não passaram mesmo disso. Isto não foi um disparate – foi um rotundo falhanço.

E não é só o momento em que entra que distingue o Domingos. É também o momento em que sai, um dia depois do presidente do clube dizer que «isso não faria sentido» e dois dias depois da Juve Leo ter ido esperar a equipa ao aeroporto com insultos quatro dias após o apuramento para a final da Taça.



Juve Leo ao poder

A entrega da cadeira de treinador a Sá Pinto representa a subida definitiva da Juve Leo a um patamar de influência sobre a decisão que lhe permite superar a pequena margem que lhe faltou para eleger Bruno Carvalho à presidência no último Verão.

Só alguém extremamente inocente é que não vê na política comunicacional da Direcção do Sporting nos últimos meses uma tentativa de trazer a claque oficial do clube para o seu lado. O afastamento institucional em relação ao Benfica, liderado pelo vice-presidente ex-PJ Cristóvão, ao arrepio do próprio interesse estratégico do clube, é um exemplo evidente. Neste período, foi sempre o clube a virar à direita e a aproximar-se do extremo onde se encontra a claque. Da parte desta nunca se vislumbrou qualquer aproximação. A escolha de Sá Pinto – um tipo esperto, que soube, desde cedo, aproveitar a força da claque a seu favor – é o momento em que a Direcção do Sporting atravessa a linha de não-retorno. E é um momento desastroso para o futuro próximo do Sporting.

Neste momento, especificamente, numa altura em que entrou num processo de inversão estratégica histórica, o Sporting precisava de ter tido um líder. Um estadista. Alguém que dissesse, pelo seu gesto: «O poder está aqui. E não vai a lado nenhum.» Alguém que dissesse basta. Aconteceu exactamente o contrário. A Direcção não aguentou a pressão e rendeu-se. Ao render-se, permitiu o desmantelamento da estrutura de poder sem a qual não pode haver coerência na tomada de decisão. O que o Sporting ganhará em tranquilidade nas próximas semanas será rapidamente consumido pela degradação institucional que aqui tem origem.

O pior disto tudo é que mesmo que Sá Pinto não tenha sido escolhido para apaziguar a Juve Leo, parece, e isso é suficiente para passar o poder à claque. O poder no Sporting já caiu na rua, e, entre alguns êxitos (que hão-de aparecer) e muitos mais insucessos, por lá vai andar nos próximos anos até aparecer alguém suficientemente audacioso, ambicioso e oportunista para o agarrar, o concentrar (como Vieira e Pinto da Costa) e o exercer durante muitos e muitos anos. Se calhar até alguém que apareça de dentro da Juve Leo…



«O perfil», take 357

Assim que o Ricardo Sá Pinto for apresentado como novo homem de facto providencial do Sporting, com a Juve Leo a transformar a sala de imprensa num comício ateniense, há uma palavra que inevitavelmente vai saltar da boca do presidente do Sporting: «Perfil».

O perfil é a pedra filosofal do Sporting nos últimos 20 anos, pelo menos. Quando o Sporting encontrar o homem com o perfil, vai ser imparável. O perfil é o Projecto Manhattan do Sporting. O Duque já tinha dado com o perfil, quando quis contratar o Mourinho «e o meu país não deixou» (leia-se, a Juve Leo...). É, aliás, ainda hoje, o seu grande capital de crédito. O Duque sabe qual é o perfil - ou sabia, pensou-se até agora, e por isso é que o Domingos se torna um problema tão grande...

Há um conjunto de treinadores que me preocuparia ver entrar no Sporting e todos eles têm várias características em comum, que em conjunto constituem aquilo que normalmente se chama de perfil. Escusado será dizer que nenhum deles é o Ricardo Sá Pinto, como não era nem o Domingos, nem o Paulo Sérgio, nem o Carvalhal, nem o Couceiro, nem o Paulo Bento, nem qualquer outro jovem talento que lá tenha estado desde que o Inácio saiu.

Todos esses treinadores que me preocuparia ver no Sporting têm bem mais de 50 anos, todos já passaram por todo o tipo de experiência no futebol português menos uma (serem campeões nacionais como treinadores) e todos têm uma personalidade relativamente carismática, construída pelo tempo e pela sua própria personalidade.

Quando digo todos, digo três. Três manuéis. Por esta ordem, Manuel José, Manuel Cajuda e Manuel Fernandes.

Louco? Quem, eu?

Amanhã, quando eu entrar dentro do ADN do Sá Pinto, falamos melhor sobre isso…



Só para acabar, quero reafirmar o seguinte, para que conste: quem despediu o Domingos não foi o Godinho Lopes, nem o Duque, nem próprio Domingos – foi o Benfica.

(E se não acreditam tirem as vossas conclusões de agora mesmo eu estar a ouvir na SIC Noticias o Ribeiro Cristovão, sportinguista dos sete costados e representante do mais tradicional sportinguismo, a fazer comparações entre o Benfica e o Sporting, sem ninguém lhe fazer qualquer pergunta nesse sentido, num dia em que a única notícia benfiquista foi a equipa ter apanhado um avião para a Rússia. Ao contrário isto não aconteceria.)