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terça-feira, 6 de março de 2012

Otebis'

(Já experimentaram isto? Deviam experimentar. É educativo. Ainda estou a treinar, mas já dá para ver resultados.)


Nunca mais na vida temos uma oportunidade destas de passar aos quartos-de-final da Champions. Estes gajos não jogavam nada. Fomos derrotados pelo factor casa. Fomos para lá só para defender e lixámo-nos.
 

Fomos derrotados por uma equipa com quatro jogadores: o central brasileiro careca, que cortou tudo e saía logo a jogar; o gajo espanhol do cabelo à maricas, no meio-campo, que é rijo e está em todas; aquele meio-black com o cabelo em pé, que é o melhor jogador deles e joga no campo todo; e o defesa-direito careca que marcou o golo. Os outros todos juntos não fazem um.

Toda a gente naquela equipa está convencido que consegue entrar com a bola pela baliza a dentro, incluindo o guarda-redes. (Porra, aquela perdida… era só meter uma colherada por cima dele. Tínhamos feito aí o apuramento. Nunca mais nos agarravam, e ainda ganhávamos o jogo.)


Ó pá, expliquem-me lá uma coisa, como é que numa jogada a dois ou três minutos do intervalo o defesa-direito deles (o defesa-direito!!!) aparece sozinho na nossa pequena-área a fazer uma recarga. Uma recarga!!!!! É o golo mais estúpido na história do futebol. Caraças, na história do desporto. Eles tinham 6 jogadores contra 5 nossos na nossa grande-área. Desafio alguém a mostrar-me outra ocasião em que isto já tenha acontecido. Não consegue.

É o tipo de golos que só acontece quando uma equipa joga em casa. Aquele à-vontade todo, e jogar fora, não existe. 6 contra 5. Surreal.
 

O Spaletti falhou. Esteve bem ao não meter o Bruno, para não acelerar os gajos, mas não devíamos ter jogado tão atrás. Tive sempre a sensação de que nos bastava meter um golo para passar. Nunca na vida aqueles tipos nos conseguiriam meter duas batatas se tivéssemos tratado melhor a bola. Não jogam nada. Só faziam perigo quando conseguiam chegar às imediações da nossa área, e era porque faziam tudo ao contrário. Como é que se defende uma equipa assim? Parecem os turcos a jogar à bola, é cada um por si, mas depois começam a correr e a fintar, a bola começa a ressaltar e de repente vai parar a um gajo deles. Em jogo jogado, não fazem perigo nenhum. O Shirakov mexeu mais na bola que o ponta-de-lança deles.

Claro, quando quisemos mudar o chip, com o decorrer do jogo, não conseguimos. Ainda não temos estaleca internacional para isso.

Nunca devíamos ter entrado no jogo da correria. Eles jogam ao sprint, e estão habituados. Se apanham uma equipa inteligente a jogar são comidos. Mas lá está, falta-nos estaleca. O que é mais frustrante é sentir que eles têm tanta como nós a passaram porque tiveram a sorte da marcha do marcador.

E não sabem defender. Assim que conseguíamos fazer dois ou três passes seguidos passávamos da linha defensiva deles a meio-campo. Se tivéssemos ido para lá mentalizados em fazer um golo em vez de só defender tínhamos passado. Eu disse logo que aquele nosso terceiro golo cá nos podia sair caro. É um resultado enganador. Tudo bem, ganhámos a primeira mão, mas vamos lá a pensar no 0-0 e quando sofremos um golo fazemos o quê? E é suposto irmos duas vezes a Portugal e não sofrer nenhum golo? Quais são as probabilidades?

Os gajos apanham uma equipa italiana e levam 5, mas isso, a nós serve-nos do quê?

Eu sabia que devia ter ficado a ver o Arsenal. Deve ter sido um jogão. Até o estádio era igual…

Azia do caraças. Pelo menos ficamos a pensar só no campeonato… Até pode ser que seja bom. Mas se tivéssemos sido apurados, com a equipa fresca na próxima eliminatória enquanto os gajos já andam a jogar há seis meses, e a duas mãos, só não teríamos tido hipótese contra o Barcelona ou o Real.
F…., já não escrevo mais nada. Até à próxima.

terça-feira, 21 de fevereiro de 2012

Autópsia de uma derrota

Primeiro ponto: Witsel.

Não acredito que Jesus se tenha deixado levar pela treta do «temos 15 jogadores com o mesmo valor» que costuma atirar aos pacóvios, nem sequer concebo que ele pense assim. Seria demasiado básico, até para ele. O Benfica tem três ou quatro jogadores que fazem a diferença, e Witsel é um deles. É para jogar jogos como o de Guimarães que Witsel está no Benfica. Não é, de certeza, para ganhar ao Setúbal em casa. Para isso chega o David Simão.

Não sou dos que querem que o treinador faça sempre as escolhas óbvias. Por alguma razão o treinador é o treinador, e treinador que se preze tenta criar soluções em vez de aceitar fatalidades. Aceito que o Jesus se tenha convencido que, para aquele jogo, havia uma estratégia apropriada para vencer o Vitória, e que tenha escolhido a equipa de acordo com isso, mas afirmo já, sem a conhecer, que essa estratégia era uma porcaria, porque qualquer estratégia que envolva jogar sem o melhor jogador é um erro. É pura invenção, pura auto-sugestão.

Prefiro pensar – e até acredito muito mais nisso – que Witsel tenha acusado o desgaste pela acumulação de jogos. É um jogador que corre muito, tem estado sempre em actividade, possivelmente não teria mais de meio jogo de alto nível para dar e Jesus preferiu guardar esse meio jogo para o fim em vez de para o princípio. Tudo o que não seja isto é apenas o Jesus a querer ficar na fotografia. É a natureza do animal.

Mas também digo que, quando eu dizia que o Javi era insubstituível, era porque, sem o Javi, não havia a mínima hipótese de poupar alguém a meio-campo no jogo com o Zenit. O Benfica tem quatro médios centrais (Javi, Matic, Aimar e Witsel) para jogarem três. Falta um médio-centro no Benfica se, como faz Jesus, Bruno César adquire a rotina colectiva de jogar nas alas. Lesionando-se um acaba-se a possibilidade de rotatividade eficaz no meio-campo. Se Witsel ou Aimar se lesionarem o problema é o mesmo. É essa a falta que faz um polivalente como Ruben Amorim. Não é o Ruben Amorim que vai decidir um jogo sozinho, mas os minutos de Ruben Amorim na Rússia teriam sido preciosos e talvez tivessem valido pontos em Guimarães.



Segundo ponto: quem pensou que o Benfica ia chegar ao fim do campeonato sem perder sofre de uma doença comum entre os benfiquistas: irrealismo. Para que fiquemos entendidos, o que aconteceu ao Porto no ano passado acontece, literalmente, uma vez a cada 35 anos, seja com um campeonato de 12, 16, 18 ou 38 equipas.



Este jogo era um desastre anunciado para a equipa do Benfica. A única coisa que podia levar a pensar que o Benfica venceria em Guimarães era a (nossa) boa vontade.

Enumeremos apenas alguns factores:

- adversário e campo;

- ausência de Javi García;

- jogo altamente desgastante da Champions, na Rússia, na 4.ª feira;

- série de vitórias consecutivas, ausência de derrotas no campeonato e resultados muito acima da normalidade, contra as probabilidades naturais mesmo nos melhores percursos das equipas campeãs (a aproximação do final do campeonato só aumenta a força da gravidade),

a que se juntaram, já na partida:

- o péssimo relvado, favorecendo quem tinha de destruir;

- a diferença na eficácia nas situações de golo;

- o momento do golo do Vitória, já com meia-hora de jogo gasta, colocando-se numa situação de vantagem que era a última coisa de que uma equipa animicamente desgastada precisava.

Na prática, considerando que tinha acabado o período em que ainda poderia ter maior frescura física a perder por 1-0, e dado tudo isto, o Benfica vinha para a segunda parte com cerca de 5 por cento de hipóteses reais de ganhar o jogo. Um empate era, nesse momento, já um óptimo resultado.



Não havia um único argumento lógico que levasse a pensar que o Benfica não perderia pontos em Guimarães e, no fundo, este era o jogo que todos os benfiquistas estavam dispostos a dar de barato. Só por se aceitar, a priori, que o mais natural era perder pontos aqui, aliás, é que os efeitos da derrota, pelo que tenho visto, estão a ser tão bem assimilados. Se nos distanciarmos analiticamente, mesmo considerando que uma derrota é sempre indigesta, num cenário de conquista do título pelo Benfica a derrota de Guimarães é perfeitamente enquadrável – ao contrário, por exemplo, da derrota do Porto em Barcelos, quer pelos números, quer pelo adversário. Não é a mesma coisa ir perder por 3-1, a Barcelos, com o Gil Vicente, num jogo banal e ir perder a Guimarães, por 1-0, quatro dias depois de jogar na Rússia. Continua a haver, no percurso de um Benfica (eventualmente) campeão, um traço de normalidade que o percurso de um Porto (eventualmente) campeão já não tem. O Benfica empata em Barcelos, nas Antas e em Braga e perde em Guimarães. Nenhum destes resultados é extraordinário. O Porto empata com o Feirense em Aveiro, com o Benfica em casa, com o Olhanense fora e com o Sporting fora e perde com o Gil em Barcelos. Qualquer semelhança é pura ficção. Há dois possíveis eventos que podem, a curto prazo, roubar ao Benfica esta característica de normalidade que ainda o torna, neste momento, no principal favorito ao título:

- uma não-vitória em Coimbra, que faria o Benfica passar de «ter um mau jogo» a ter «uma quebra de forma», algo que o Porto ainda não teve, pois, sofrendo vários acidentes pontuais, ainda não teve dois maus resultados consecutivos;

- uma derrota na Luz, com o Porto, pois um campeão não perde em casa com o seu concorrente directo (a não ser que se trate do Barcelona, claro…).

Qualquer um destes dois eventos alteraria a lógica de um Benfica campeão. Ou seja, o que aconteceu em Guimarães não foi mais que a utilização da almofada de que tanto se falou, e que os benfiquistas, no fundo (incluindo a equipa e o Jesus, pelo que disse antes do jogo) já tinham debaixo do enregelado e dorido traseiro quando o jogo começou.



Tudo correu mal ao Benfica – como tudo correu mal ao Porto em Barcelos. Ressaltos, um passe com um palmo a mais ou um palmo a menos, cruzamentos ligeiramente atrasados ou adiantados, remates que batem no rabo dos defesas e voltam para trás em vez de traírem os guarda-redes, enfim, as pequenas coisas que correm bem nos dias bons e que correm mal nos dias em que têm de correr mal.

Não há nada de escandaloso nesta derrota do Benfica em Guimarães – uma equipa em boa forma, a jogar em casa e com a sorte do jogo do seu lado.

O que o Benfica não conseguiu executar em Guimarães é o que geralmente não consegue executar. Quem viu neste jogo lacunas súbitas da equipa do Benfica, lamento, mas não sabe realmente ver futebol, porque o vê ou a partir do resultado final ou a partir da camisola. E aqui incluo não só o adepto comum, como os Rui Santos ou qualquer paineleiro de verde, vermelho ou azul.

Depois do jogo e de saber o resultado, o Vítor Paneira, por exemplo, conseguiu ver coisas do arco-da-velha: o Benfica a não pressionar alto tão bem como é costume, a não conseguir trocar a bola tão bem como é costume, o Vitória a fazer o melhor jogo da época, etc, etc, etc. Treta. Treta de alto a baixo.

O Benfica não conseguiu fazer pressão alta assim como geralmente não consegue – tenta mas não consegue a não ser de vez em quando. na maior parte das vezes a equipa adversária, se conseguir meter o segundo passe, encontra o spaço para sair a jogar pelo meio. Geralmente, é suficiente para o Benfica ganhar, porque as outras equipas são fracas. Contra uma boa equipa, como o Zenit, ou num dia em que as coisas não corram tão bem, como ontem, não chega. As auto-estradas que se abriram para os contra-ataques do Vitória foram as mesmas que se abrirão, em Coimbra, para os contra-ataques da Académica, e na Luz, com o Zenit, e uma delas, eventualmente, até resultará em golo – ao contrário das do Vitória, que só marcou num ressalto de um livre.

As transposições defesa-ataque do Benfica em ataque organizado, com o Vitória a defender com onze atrás da bola e a meter pressão nas linhas de passe dos centrais para os médios, correram tão bem ou tão mal como correm sempre que uma equipa consegue fazer o que o Vitória fez. Várias equipas, na Luz, perante a mesma situação de inferioridade técnica, e adoptando a mesma estratégia defensiva, já conseguiram fazer o mesmo, mas não tiveram a sorte do jogo suficiente para evitar o golo ou conseguir uma vantagem, como o Vitória teve ontem, numa situação suficientemente proveitosa.

O Benfica jogou, com o Vitória, em termos técnico-tácticos (volta Gabriel Alves, que estás perdoado...), tão bem ou tão mal como na maior parte dos outros jogos desta época. Obviamente que a disponibilidade física e mental não terá sido a mesma de quando não se faz uma viagem de ida e volta à Rússia com um jogo sobre cimento a 15 graus negativos, mas o Aimar não fez nada que não tivesse feito contra o Setúbal ou contra o Sporting, nem o Emerson fez pior que na Rússia (pelo contrário), nem o Cardozo (com a diferença óbvia de ser diferente ter cinco ocasiões num jogo e marcar uma e ter duas e não marcar nenhuma, mas isso já eu disse há muito tempo que é a questão real do Cardozo «que não perdoa»...)

Ao contrário do que se disse, o Guimarães não fez nenhum jogo fantástico, pelo contrário. Teve um jogo a seu favor, permitindo-lhe fazer o que faz melhor: meter muitos atrás e pôr os da frente a correr muito. Não teve mérito por aí além a impedir o Benfica de ter a bola, de chegar à área ou de se aproximar da baliza. Os números do jogo traduzem essa realidade. O Benfica teve a posse de bola suficiente, o domínio do meio-campo suficiente e as oportunidades suficientes. Foi o Benfica quem falhou a concretizar a vitória, não o Guimarães que acertou.

Talvez haja uma maneira de desmistificar a derrota de ontem: há alguém que possa dizer que, em Braga, onde alcançou um empate normal a 1 golo, o Benfica tenha jogado pior do que em Guimarães? É que nem pensar. Mesmo. Nem pensar. Digo mais: o Benfica jogou melhor ontem, em termos de processos, que em Braga. Só que em Braga estava mais fresco.

E quem fala no Braga fala nas Antas, em Vila da Feira e na esmagadora maioria dos campos em que já jogou este ano.



Muitas vezes esta época o Benfica já passou por entre os pingos da chuva (volto a utilizar esta expressão porque os jogos como o de ontem exemplificam bem o que quero dizer) graças à sua capacidade de marcar golos. Ontem, ao fim de 37 jogos seguidos a marcar pelo menos um golo, o Benfica expôs-se à sua própria vulnerabilidade. E choveu.

Já defendi aqui que os ataques ganham jogos e que as defesas ganham campeonatos. Reafirmo essa máxima, mas não sejamos fundamentalistas: perder por 1-0 em Guimarães não é um bom exemplo. Sofrer quatro ou cinco golos entre este jogo e os dois que se seguem, sim, seria – porque, provavelmente, isso equivaleria mesmo à perda do campeonato.

E se defendermos que manter o Vitória a zero e sacar pelo menos o pontinho do empate seria um passo importante em conquistar o título também teríamos, pelo outro lado, de presumir que uma equipa com um ataque anémico não teria conseguido marcar dois golos nas Antas, ou pelo menos um golo em todos os outros jogos do campeonato, com os vários pontos que essa facildade concretizadora já valeu.

A máxima aplicar-se-á se, marcando o ataque golos nos próximos jogos, a defesa não conseguir cumprir os serviços mínimos. A defesa (ainda) não falhou. Se falhar, por melhor que seja o ataque, o Benfica perderá o campeonato.

O que falhou foi o ataque. E isso, para este Benfica, é o menos problemático, pois acontece uma ou duas vezes por ano.



Não há, em nada disto, a tentativa de minimizar a derrota, mas de a relativizar sim. Mais do que o Guimarães, foi a situação que venceu o Benfica, ontem à noite. Uma situação para a qual o Benfica não estava estruturalmente preparado – e todos, benfiquistas ou não, facilmente concordarão neste ponto.

Se adeptos, técnicos e jogadores se convencerem de que perderam ontem porque fizeram mal o que noutras ocasiões fizeram bem, estarão enganados e a perder uma excelente oportunidade para evoluir. Se perceberem que fizeram o mesmo que fizeram noutras ocasiões, e que é isso que não é suficiente, que é preciso melhorar nas rotinas, na abordagem ao jogo e na preparação mental, então estarão certos e poderão tornar-se melhores.

Conclusões da autópsia: o defunto não está morto.

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012

A câmara criogénica

Quando faltavam 7 minutos para acabar o jogo e estava 2-1, já convencido de que ia acabar assim, pois ambas as equipas estavam satisfeitas, pensei: «Excelente resultado.»

Quando o Benfica fez o 2-2, saltei, claro – pois emocionalmente o único resultado realmente bom para um benfiquista é uma vitória, sempre e em qualquer situação, é para isso que estamos treinados como adeptos… – mas quando me sentei torci o nariz.

Quando o Zenit fez o 3-2, depois de engolir o travo amargo, pensei: «Excelente resultado.» Como é evidente, pois se o 2-1 era excelente, o 3-2 é ainda melhor.



Posso dizer-vos exactamente o dia em que comecei a desconfiar dos empates fora, com golos, nas competições europeias: foi no dia em que o Benfica foi eliminar o Arsenal, a Highbury, por 3-1, depois de empatar a 1 em casa (jogo na Luz antiga a que assisti ao vivo).

E também vos posso dizer quando é que confirmei a sensação que tive nesse dia: quando, em 1994, o Benfica foi empatar 4-4 a Leverkussen depois de ter empatado a 1 em casa.



Quando a primeira mão é fora de casa, prefiro perder 2-1 a empatar 1-1, e prefiro perder 3-2 a empatar 2-2. E explico porquê.

O mais importante para uma equipa numa eliminatória europeia é entrar em cada jogo a saber ao que vai, e não há nada mais contra-natura para uma equipa do que entrar num jogo em casa a defender um resultado. Quando se está a falar de equipas de primeiro nível isso não é problemático, porque essas equipas (os Barcelona, Real Madrid, Manchester United, Milan, etc) só o são porque, historicamente, conseguiram esbater o factor casa/fora e jogam praticamente sempre da mesma maneira. Mas em equipas como o Benfica ou o Zenit, para quem o factor casa é quase sempre decisivo nas competições europeias, a ordem natural das coisas, que manda atacar em casa e defender fora, impõe-se. Ir contra isso mexe-lhes com o ADN.

Para o Benfica, entrar para a segunda mão sem saber se (e sobretudo como) deveria defender ou atacar, e onde é que começava e acabava um bom resultado, poderia ser mortífero – ainda me lembro de uma eliminatória em que o Benfica foi ganhar ao PAOK, à Grécia, por 2-1, e na segunda mão, cá (o treinador do Benfica era o Heynckes e jogava o Sabry no PAOK), teve de ir a prolongamento para os eliminar.

Uma eliminatória não é dois jogos, é um, e estamos no intervalo. Uma equipa que entra para a segunda parte sem ideias claras, contra outra que sabe perfeitamente e que vai mentalizada para o que tem de fazer (e qualidade para o fazer, esclareça-se) fica imediatamente numa situação de inferioridade, a começar pela iniciativa, que é um factor preponderante numa eliminatória tão equilibrada como esta



O 3-2 resolve uma série de problemas ao Benfica e ao Jesus.

Os jogadores sabem, com duas semanas de antecedência, que têm de jogar para ganhar na Luz. Ou seja, aquilo a que estão habituados e treinados para fazer. E sabem que sofrer um golo não é determinante, o que é igualmente importante, porque o Zenit vai marcar na Luz - tal como o Gil Vicente,o Feirense, o Guimarães, a Académica, o Nacional, todos menos o Sporting... - e convém, nessa altura, não entrar em parafuso.

O Jesus sabe com quem é que tem de jogar, porque também sabe que Zenit vai ter na Luz: o mesmo Zenit do Dragão, a defender muito e a jogar para o empate.



Por tudo isto, reafirmo: não é perfeito, porque perfeito seria ganhar 3-0 e poder meter os suplentes todos a jogar na 2.ª mão, mas é um resultado excelente.

Algum benfiquista lúcido, nas condições em que o jogo é jogado, rejeitaria uma derrota por 3-2 antes da partida? Claro que não.

Já sei que alguns de vocês vão dizer que sim, mas tudo bem, temos todos a mesma doença, só a vivemos de maneira diferente.

Se sabe a pouco ou sabe a muito é irrelevante: ficar à distância de uma vitória por 1-0 ou 2-1, na Luz, com o Zenit, para passar aos quartos-de-final da Liga dos Campeões é praticamente tudo o que, realisticamente, o Benfica poderia desejar. Nem a passagem teria a mesma graça se bastasse um empate. Com empates em casa em jogos decisivos não há realmente grandes noites europeias.



Quanto ao jogo em si, assisti a uma exibição espantosa do Benfica. Não sou, ao contrário do que se possa pensar, um utópico. Sei o que espero do meu Benfica, mas sei também, perfeitamente, que não é razoável esperá-lo já, nem tão cedo. Mas hoje fiquei espantado. E afogado. Durante a segunda parte olhei para o relógio a pensar que ia a meio e ainda só tinham passado 7 minutos.

O adversário, o cenário, o campo e o contexto foram de uma exigência brutal, e a equipa respondeu perfeitamente à altura. Ouso dizer (penso estar a repetir-me em relação ao que já referi na fase de grupos, mas ainda assim digo-o) que, com este jogo em São Petersburgo, a equipa do Benfica mostrou que está mentalmente preparada para jogar na Europa. Falta-lhe qualidade, evidentemente, não é com a maior parte destes jogadores que se pode chegar muito longe contra adversários melhores, mas o enquadramento mental está lá. Se o mantiver e se rechear o corpo da equipa com mais talento, o Benfica terá subido, definitivamente, para um patamar europeu onde já não se encontrava há décadas.



O Benfica fez tudo bem. Defendeu como devia, atacou como devia, jogou o jogo como se impunha que jogasse. Alcançou o primeiro objectivo aos 20 minutos, marcando o seu golo, e o segundo objectivo depois do 2-1 do adversário, segurando o jogo e não deixando fugir a eliminatória quando teria sido relativamente fácil abrir uma desvantagem de mais um ou dois golos, a vinte minutos do fim.

Não vale a pena dramatizar os golos do Zenit. Tal como eu tinha dito, aqueles são os golos de uma equipa habituada a atacar em casa. Há muito trabalho para chegar até lá e para ter a bola jogável em situação criativa, mas, depois, a parte inventiva sai naturalmente – como a do Benfica vai sair na 2.ª mão. Aquele segundo golo o Zenit marca-o ao Benfica, ao Lokomotiv de Moscovo, ao Rio Ave lá do sítio ou ao Barcelona. É uma jogada que o Zenit só faz em casa – porque aí está habituado a jogar no meio-campo adversário, porque os seus jogadores se conhecem e passam a maior parte do tempo a atacar, porque é um esticão que sai do ritmo normal do jogo, etc, etc. O terceiro a mesma coisa.

Foi o factor casa (e não o frio, note-se, como eu também tinha dito há uns tempos) que derrotou o Benfica, não a equipa do Zenit pelo seu valor superior.



Grande jogo do Maxi, um jogador a diesel feito para este tipo de terrenos em que não tem de apanhar com mudanças de velocidade. Falhou no terceiro golo? E então? Submetidos àquele tipo de esforço durante 90 minutos, todos os jogadores falham.

Espantoso jogo defensivo de Aimar. Não se preocupem muito com a ausência no segundo jogo. Não vai ser por aí. Muito pior seria ter ficado sem Garay, Luisão ou Artur. E assim sabemos que joga os 90 minutos com o Porto.

Meio-campo, de resto, em grande nível, incluindo Matic, cuja capacidade de passar a bola depressa e à distância desmontou, à nascença, várias situações de pressão do Zenit a meio-campo.

O Emerson, mais uma vez, foi o elo mais fraco. No segundo golo, não fecha o meio. No terceiro, perde a bola na saída para o ataque. Poder-se-ia dizer que era azar, como foi a do Maxi, se não tivesse acontecido umas 6 ou 7 vezes. Acabou por compensar com um dos seus pontos mais fortes: a resistência física, que lhe permitiu aparecer em velocidade na área contrária fazer o centro para o segundo golo do Benfica aos 85 minutos de jogo. O Emerson vai acabar a época como o segundo ou terceiro jogador de campo mais utilizado pelo Jesus, e isso é uma coisa duplamente notável. É fraquinho? É. Mas só nos pés, porque no pulmão vale por um corredor.

«Cardozo para os livres e para encostar se ela aparecer em frente à baliza»… Ah, espera, isto foi o que escrevi na antevisão, quando se soube o 11…

Gostei de ver o Nolito com pressa para recomeçar o jogo a poucos minutos do fim. É mentalidade de clube grande. Vê-se que lhe está no sangue. É mais importante do que parece. É um jogador à Benfica. Poderíamos dizer o mesmo do Gaitán, por exemplo, mesmo sendo bem melhor jogador?



Uma palavra para o Rodrigo: não vai ser o único a ficar encostado ou pendurado pelo rabinho no jogo com o Vitória. Às vezes até parece que já vi o jogo antes, digam lá se não é?



O que eu mais desejava neste momento? Que, depois da câmara frigorífica que foi o Estádio Petrovski houvesse uma câmara criogénica dentro do avião, no regresso, para onde os jogadores entrassem, que lhes permitisse apagar, quer dos músculos quer do sistema nervoso tudo o que aconteceu nos últimos dois dias.

Como se nada tivesse acontecido e a única coisa que existisse fosse o jogo de segunda-feira contra o Vitória de Guimarães, que é muito mais importante e vai ser muito mais desprezado que este da Rússia na época do Benfica.

Bah…



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terça-feira, 14 de fevereiro de 2012

Tremei!

Começa amanhã o resto da época e não quero saber do Sá Pinto para nada, a verdade é esta. Não me apetece falar de politicas, apetece-me falar de bola, porque agora é que a bola chegou a sério. Deixo o Sá Pinto para a semana, depois das duas vitórias nos dois primeiros jogos meterem os sportinguistas de barriga para o ar.

Para já, só duas notas:

- O Coração de Leão tomar posse no Dia dos Namorados é engraçado, e veremos se não é premonitório;

- Sem querer, encostado à parede, o Sporting é bem capaz de ter acertado, por aquilo que vou observando e racicinando. Dentro dos limites daquilo que, para o Sporting, é acertar, claro. Repare-se que nestes dois dias já se falou não sei quantas vezes do «sucesso» do Paulo Bento, quando o sucesso do Paulo Bento foi ter ganho duas Taças e ter ficado três vezes em segundo no campeonato. Porto e Benfica adorariam que Sá Pinto ficasse 20 anos no Sporting com este tipo de sucesso. Eram mais 20 campeonatos para distribuir entre os dois.



Falando do que interessa…



Estou com grande curiosidade em ver a equipa que o Jesus vai escolher para o jogo de amanhã. Eu, no momento de definir prioridades, não teria dúvidas em resguardar jogadores para o jogo de Guimarães. Por duas razões.

Em primeiro lugar, porque jogar naquelas condições vai dar disparate. É demasiado exigente para o físico para não virem de lá, pelo menos, dois jogadores tocados, e isto num momento em que Javi Garcia já não vai jogar.

Em segundo lugar, porque estou plenamente convencido que o segundo jogo é que vai decidir a eliminatória.

O sucesso do Benfica nesta eliminatória passa por defender muito bem na Rússia, marcar um golo e deixar a passagem em aberto para o segundo jogo, que virá no final do ciclo decisivo para o campeonato, com a equipa (se tudo correr bem) com o título encaminhado e sem ter mais nada na cabeça, a jogar em casa. Na Luz, o Benfica pode fazer o resultado de que precisa, desde que não o comprometa na Rússia.

A eliminatória é equilibradíssima, e penso que poderá ter ficado decidida com a lesão de Danny, que seria o jogador fundamental do Zenit na 2.ª mão.

A ausência de Javi Garcia não deve ser menosprezada. Ter Matic não é o mesmo que ter Javi, em nada, mas sobretudo em cultura defensiva. A lesão de Javi, aliás, vem na pior altura, e é problemática. De facto, juntamente com Luisão e Artur, Javi é, na minha opinião, um dos três jogadores que não têm substituto à altura na equipa, quer pela qualidade quer pelas funções específicas que desempenham. A saída de qualquer outro jogador não obriga a nada mais que uma mudança de pessoal. A saída de Luisão e Javi obriga a mudar estratégias, porque a sua substituição requer sempre um jogador e meio – ou seja, dois jogadores. Neste caso. Witsel vai ter de fazer de uma parte de Javi, e ofensivamente o meio-campo vai ressentir-se.

Não devemos também menosprezar o facto de este ser um dos jogos mais importantes na carreira do Jesus. Neste momento, o Jesus é um treinador já a alargar horizontes, e a Liga dos Campeões é o espaço para ele se mostrar. Já aconteceu este ano e vai voltar a acontecer. Aliás, o contrário é que seria estranho, e penso que os próprios jogadores, que sonham com a Champions, não ficariam agradados se sentissem que o treinador punha em causa a prestação da equipa nessa competição para proteger jogadores. Os jogadores não querem ser protegidos na Champions, querem é jogá-la, porque campeonato há todas as semanas. Mesmo que dissessem o contrário (e não dizem, note-se).

Curiosamente, acho que o estado do relvado e a lesão do Javi Garcia, apesar de dificultarem a vida à equipa, podem facilitar as decisões de Jesus. O terreno pesado pode levá-lo a apostar em jogadores mais físicos. Não me admiraria que Gaitán e Aimar não jogassem de início e que Jesus os guardasse para a passagem da hora de jogo, tentando optimizar o único factor que tem a seu favor: a falta de pedalada do Zenit, faz o seu primeiro jogo a sério depois das férias.

Não me surpreenderia mesmo nada ver o Benfica a entrar com Artur; Maxi, Luisão, Jardel e Emerson; Witsel, Garay e Matic; Bruno César, Cardozo e Saviola, com Aimar, Gaitán e Rodrigo a entrarem na segunda parte, apesar de ser mais provável que Jardel não jogue e que um destes três (provavelmente Gaitán) ou Nolito comecem o jogo.

Sei que o Jesus vai tentar surpreender o Spaletti (ou, segundo a gíria benfiquista, inventar) só não sei onde.



A grande questão para o Benfica vai ser conseguir marcar. É verdade que, normalmente, o Benfica marca, mas esta é uma situação extraordinária. Além de tudo o resto, convém não esquecer que o Zenit é uma das equipas que mais aproveita o factor casa na Europa, seja porque razões for, com bom ou mau tempo. Há uma própria cultura que se cria, e isso, nos jogos europeus, conta muito.

Penso, friamente, que arrancar uma vitória em São Petersburgo não está ao alcance do actual Benfica, que um empate é possível mas improvável, e que provavelmente o Zenit vai acabar por conseguir desequilibrar numa jogada fortuita, por mero à-vontade de jogar em casa.

Também penso que, no cômputo geral, o Benfica é ligeiramente superior ao Zenit (sobretudo sem Danny) e jogo nisso para decidir a eliminatória.

Em conclusão, considerando tudo isto, e sobretudo por causa das lesões, que vão ser mais influentes que o frio, prevejo, mais ou menos, o seguinte: vitória do Zenit, na Rússia, por 2-1, e vitória do Benfica, na Luz, por 3-1, eventualmente no prolongamento. É assim tão equilibrada esta eliminatória.



Já que estamos em dia de amores e almas gémeas, falo também do Porto.

Continuo a dizer que o Porto vai passar a eliminatória. Os factores que identifiquei na altura do sorteio mantêm-se intactos. Confirma-se que o City caiu de produção, como era previsível que caísse, e o facto do primeiro jogo ser jogado nas Antas favorece o Porto, porque joga em casa sentindo que tem tudo em aberto.

Não é problemático para o Porto não ter o Manko. Duvido que o Manko jogasse este jogo mesmo se pudesse. O Porto vai beneficiar de um autêntico privilégio para qualquer equipa de topo: poder jogar em contra-ataque em casa, algo que praticamente nunca acontece e que desta vez vai acontecer. Nesta estratégia, é melhor para o Porto ter três avançados rápidos do que dois, sobretudo com o Hulk no meio. Com uma equipa pequena, é contra-produtivo; com uma equipa grande é o ideal. Ter espaço para correr e jogar, com avançados tecnicamente muito superiores aos defesas adversários, em casa, com a motivação no topo, no que pode ser a última oportunidade para mostrar a toda a gente que continua a ser uma equipa de Champions, contra uma equipa suficientemente boa para exigir o máximo mas muito longe de se encontrar fora de alcance (pelo contrário) – eis o cenário ideal com que o Porto se vai deparar na 5.ª feira. Hulk e James, a jogarem para o contrato, vão detonar a defesa inglesa.

Também há o factor Lucho, que traz experiência e confiança. Lucho tem a tarimba europeia toda. Aliás, o Porto tem uma equipa mais experiente, em termos europeus, que o City, e isso vai ser importante na abordagem ao jogo. O Porto vai saber como abordar a eliminatória, e não só o jogo. O City, duvido. Aliás, é só por não ter experiência europeia  que o City está na Liga Europa e não na Champions, porque qualidade não lhe falta.

Duvido muitíssimo que os factores de motivação do City lhe permitem arrancar sequer um empate nas Antas, e consigo ver perfeitamente o Porto a empatar em Manchester, se tiver de o conseguir para passar a eliminatória. O Porto tem tarimba suficiente para isso.



O que prevejo nesta eliminatória: vitória do Porto nas Antas, com 2 ou mais golos marcados, e o resultado necessário para passar, na 2.ª mão, em Inglaterra, mesmo que seja uma derrota.



Sendo assim, para meter o dinheiro falso onde tenho o paleio, aqui fica uma ronda europeia da Liga Bwin, já com o Sporting, cuja antevisão deixo para amanhã (e ainda bem que não apostei no Braga…):



Zenit-Benfica

6 euros na vitória do Zenit, a 2.55. (Bem gostava eu de meter os 6 euros no empate, a 3.20. O coração manda, mas a razão não deixa)



Porto-Manchester City

8 euros na vitória do Porto, a 2.75



Legia-Sporting

9 euros no empate do Sporting, a 3.20 (uma odd óptima, digo de passagem. A vitória do Sporting está a 2.15. Irrealista, atrevo-me a dizer.)