No Sporting o jogador talentoso e mentalmente hesitante é a regra e os Ronaldos (muito poucos) são a excepção.
No Porto, o jogador mentalmente mais apto para a competição e menos apto de desequilibrar tecnicamente é a regra e os Postigas são a excepção.Se considerarmos um Futre, um Figo e um Ronaldo como jogadores à parte de todo o universo futebolístico português – seja Sporting, Porto ou Benfica – o quadro geral, penso eu, aproxima-se disso.
Mas é discutível, obviamente…
Em relação ao que custa, ainda é mais discutível, mas a minha ideia é a de que a formação do Benfica, entre prospecção, alojamento, salários, deslocações, águas e luzes, etc, custa cerca de 5 milhões de euros por ano (lembro-me de ter lido este número num jornal, há uns tempos, e de ter feito sentido). Mas vamos fazer por baixo: vamos pôr o número em 3 milhões/ano. São 30 milhões de euros em dez anos. Nestes dez anos (desde 2001) qual foi o grande jogador que o Benfica formou?
Vejamos se me faço entender. O problema do Benfica não gastar 30 a 50 milhões de euros em dez anos no futebol de formação – é gastar 30/50 milhões sem sequer conseguir formar um bom suplente, quanto mais um bom titular, quanto mais um grande jogador.
Admito que possa ter havido algum, mas desculpem-me, não me lembro - o que, por si só, já é significativo.Qualquer processo que resulte numa perda de 3 a 5 milhões de euros por ano, sem retorno desportivo, é péssimo.
Mas também se pode pegar pelo outro lado. David Luiz custou 4 milhões de euros ao Benfica. Di Maria 6, Javi Garcia, 7,5 milhões, Gaitán 8,5. Ao rácio de 3 milhões/ano (que é mais, estou certo), o Benfica consegue formar um David Luiz por ano, ou um Di Maria de dois em dois anos? Ou até um Gaitán de três em três? Não é que sejam jogadores baratos, pois não são. Mas são jogadores de nível mundial, cujas transferências pagaram e pagarão o seu custo e ainda cobrirão despesas.
Evidentemente que por cada Javi Garcia pode acontecer um Balboa, isso é indesmentível e tem de entrar na equação, mas nesta perspectiva a leitura económica é a do resultado financeiro no fim da cada época e, sobretudo – não nos esqueçamos deste «pormenor» – o resultado desportivo.
Com Javi Garcia (+ Balboa) o Benfica não só não perde dinheiro como consegue estar na luta pelo campeonato e, eventualmente, ganhá-lo. Com a diferença entre o lucro de 10 milhões que Javi Garcia dará e o que Balboa custou (5 milhões) o Benfica pagaria uma época e meia de formação, da qual não tiraria nenhum jogador que conseguisse vender ou, sequer, que o conseguisse pôr a lutar por mais do que o quarto lugar do campeonato nacional.
Por tudo isto que eu disse pode pensar-se que eu sou contra o futebol de formação no Benfica. Não sou. É completamente ao contrário. Na minha ideia do Benfica a formação seria toda a base cultural e desportiva do clube. Digo mais: eu estruturaria todo o clube sobre as suas bases formativas. Já penso assim há muito tempo – sem me querer armar em «idiota», penso assim desde ainda antes de o Barcelona ter elevado a formação a cátedra. Formação é trabalho, o trabalho mais árduo porque envolve não apena recursos ma também arte. Qualquer clube que se construa em cima da formação é visceralmente saudável. Mas o Benfica não forma nada – e o Sporting, que forma mais que qualquer outro clube em Portugal, ainda assim não forma o suficiente, como eu defendi no último post.
Tudo isto parte de uma perspectiva pessoal, obviamente. Eu sou um darwinista. Não o sou por pensar que sou mais apto que os outros – não o suficiente para pensar que sou melhor, seguramente – mas porque a lei da sobrevivência dos mais aptos está de tal forma patente à nossa volta que a tomo como inquestionável.
Acredito que, no fim, os mais aptos prevalecem, e que é por isso que, por exemplo, no futebol, muitas vezes um jogador estrangeiro (pode ser um português no estrangeiro, entenda-se) se torna melhor que um nacional: porque é colocado perante uma adversidade maior e, com o desafio, recorre a mais capacidades pessois, que o tornam, no fim, mais forte que o que poucas vezes ou nunca foi desafiado.
Acredito que é sobre este princípio que o futebol está suportado, e, como tal, acredito que é pensando nisto que se deve formar um jogador de futebol.
No seu comentário, o Rui diz que a mentalidade pode ser trabalhada. Não discordo. Mas o ponto inicial é fundamental. Sim, pode-se pôr um miúdo que tenha uma perna mais pequena que a outra a correr os 100 metros – mas não se pode esperar, realisticamente, que algum dia ele venha a conseguir competir com um miúdo com as duas pernas do mesmo tamanho que treine tanto e tenha tanta vontade como ele.
Poder trabalhar-se a mentalidade competitiva, pode-se. Mas a primeira parte do trabalho consiste em eliminar, à partida, os miúdos que não tenham os requisitos mínimos. Não tenho nada contra eles – caramba, provavelmente eu ou os meus filhos não teríamos capacidade para competir ao nível que é exigido num Benfica, mesmo que tivéssemos jeito para a bola! – mas cada macaco no seu galho. Fazer desporto é uma coisa, fazer desporto de altíssima competição internacional é outra, completamente diferente.
Num grupo de animais, o que faz a força do grupo é a selecção natural. Os mais fracos mal conseguem chegar a adultos, quanto mais fazerem filhos a alguém. Num clube de futebol a lógica terá de ser a mesma. É a selva, pessoal. Como disse, um dia, um treinador americano, «uma equipa é tão mais forte quanto mais forte for o seu elo mais fraco», porque é por aí que a equipa será atacada.
O que se vê, nos jovens que o Benfica forma, é uma quase total inaptidão competitiva de alto nível, mesmo que um ou outro até consigam dar dois pontapés seguidos na bola.
Deixo só uma provocação – um exagero, decerto, mas vocês perceberão o sentido – à vossa consideração. Onde é que é mais difícil entrar: nos Comandos ou no plantel principal do Benfica? E onde é que deveria ser mais difícil entrar?
Seria engraçado ver como as respostas divergiriam.