Permitam-me que invoque os dignificantes minutos em que a equipa de basquetebol do Benfica foi iluminada pelos isqueiros no pavilhão do Porto – felizmente que os portistas são pessoas mais civilizadas que os benfiquistas e não apagaram a luz, porque desta maneira pode ver-se a equipa do Benfica a festejar a conquista do título como deve ser (e a receber o troféu na cabine – para ter aqui um momento Tarzan Taborda.
A propósito do presidente do Porto a ralhar com a polícia por cumprir o seu dever, mostrando quem é a verdadeira autoridade neste regime democrático, eu afirmo que, se eu fosse presidente do Benfica, há muito (muuuito) tempo que esta paródia tinha acabado. E provavelmente tinha acabado tão mal que o Pinto da Costa, e eu próprio (como presidente do Benfica), já estaríamos exilados.
Quando se defronta uma força que não aceita nenhuma ordem que não a sua, só há duas estratégias possíveis: ou rendermo-nos e aliarmo-nos a ela, quando a nossa força é menor; ou enfrentá-la na mesma moeda e procedermos a uma escalada de violência sem contemplações a nada nem a ninguém, quando a nossa força é maior.
A força do Benfica é maior que a força do Porto. A única coisa que torna o Benfica mais fraco que o Porto são os escrúpulos em usar essa força, que não existem do lado do Porto.
Se eu fosse presidente do Benfica, há muito tempo que teria usado a força do Benfica para destruir o sistema e, com ele, Pinto da Costa.
Como? Indo directamente ao momento da verdade, passando por cima de todas as tibiezas, dos prolegómenos, dos entretantos. Há muito tempo que eu teria convidado o Sporting, o Guimarães e mais meia-dúzia de clubes de dimensão relevante em Portugal para criar uma nova organização de futebol em Portugal. Quando? Para não ir mais longe, assim que o advogado do Pinto da Costa, Lourenço Pinto, foi escolhido para nomear e classificar árbitros, em meados da década de 90. Teria sido o momento ideal, pelo puro desplante da situação.
Depois disso, tudo o que veio foi menor. O poder, a partir daí, já estava totalmente instituído. Aproveitando um momento de grande fragilidade directiva de Benfica e Sporting, Pinto da Costa instituiu, tacitamente, a hierarquia natural. A partir daí ficava implícito que ele poderia fazer o que quisesse, e esse statu quo ainda não se alterou.
Hoje, com o poder instituído e sedimentado, é mais difícil encontrar desculpas para virar a mesa. Se não se a virou na altura vai-se virar agora? Por isso, seria preciso criar um grand caso. Provocá-lo. Lembram-se do filme Braveheart, quando os companheiros do William Wallace (Mel Gibson) lhe perguntam, na altura das negociações, no campo de batalha, onde ele vai, e ele responde que vai «comprar uma guerra»? Era mais ou menos isso que era preciso fazer agora, para depois jogar forte, pôr os tomates em cima da mesa e usar todo o aparato e toda a força do Benfica num confronto directo e sem subterfúgios. Encontrar um pretexto para ir contra a lei, ir frontalmente contra a lei e, no fim. Ver quem ganhava. A força faz a lei. E a lei, convençamo-nos disso, não é boa nem é má: é feita pelo regime. O regime é do Porto, e o Porto faz a lei, para não ter que lhe desobedecer e se poder legitimar. O objectivo de toda a força subversiva é atingir o poder e, quando lá chega, legitimar-se.
Querem um exemplo de um bom pretexto?
Esta história do Nacional e do Marítimo contra o Sporting.
O Sporting tem aqui uma oportunidade histórica para recuperar a sua força real no futebol português, e até aumentá-la. Como?
Fácil.
É deixar que o processo se abra e ignorá-lo do princípio ao fim. Ignorar as instâncias federativas, ignorar os procedimentos, ignorar a autoridade. Ignorar totalmente a autoridade. Nem sequer mencionar o caso – e quanto mais audível ele se tornasse melhor. Deixar toda a gente a falar. Colocar-se acima da lei. E, depois, esperar que o descessem de divisão.
Esperar para ver quem é que era o primeiro a pegar no telefone.
Reparem nisto: teoricamente, a França e a Alemanha são as duas potências do eixo europeu, e igualmente importantes. No palavreado, dizem que têm de trabalhar em conjunto.
Na prática, quando o Hollande ganha as eleições em França, quem é que apanha o avião e quem é fica à espera?
Vão ver às notícias, se não repararam.
Tudo é política. O poder está em todo o lado, e é de quem o queira (mais) agarrar.