Antes de mais nada, um acto de contrição: sinceras desculpas por alguns
excessos no último post. É da azia. Peço que entendam. Não tem sido fácil.
Posto isto…
Ponto 1
Jorge Jesus fez este ano a sua melhor época no Benfica.
Melhor do que a primeira. O título ganho na primeira época foi resultado de uma
combinação de qualidade e oportunidade, com maior pendor para a segunda.
Em 2009 Jesus entrou no Benfica nas melhores condições
possíveis para um treinador com as suas características:
– Expectativas muito baixas, considerando os resultados nas
temporadas anteriores, que situavam o Benfica no terceiro lugar do ranking nacional, a ameaçar descida para
o quarto perante a subida do Braga, e a competir na Liga Europa, o que permitiu
evitar alguma derrotas comprometedoras na decisiva primeira metade da época, em
que a equipa estava em fase de construção anímica;
– Um plantel com um valor muito acima dos resultados
recentes, mal explorado e habituado a um nível de exigência próprio de uma
equipa do meio da tabela. A um grupo de jogadores que rendiam metade do que
valiam, ou mesmo emprestados (David Luiz, Cardozo, Di Maria, Fábio Coentrão,
Aimar) foram somados jogadores como Javi Garcia, Saviola ou Ramires (o melhor
médio que passou pelo Benfica nos últimos quatro anos). O ponto forte de Jesus é
precisamente o melhoramento do desempenho individual dos jogadores;
– Um Porto acomodado ao tricampeonato e demasiado seguro da
sua superioridade, que o levou a menosprezar o campeonato e a chegar ao Natal
já em terceiro lugar.
O sucesso da primeira época, em termos de resultados,
deveu-se, mais do que a uma qualidade de jogo que, na verdade, nunca existiu
realmente, à dinâmica de vitória criada a partir da conjugação destes três
factores, sustentada no factor surpresa. Pela primeira vez em muitos anos o
Benfica apareceu a jogar como uma equipa grande, a apostar no ataque, com um
estilo rápido, para o qual os adversários (Porto incluído) não estavam
preparados, o que lhe permitiu fazer uma boa primeira metade do campeonato e
ganhar a vantagem necessária para ser campeão. Os jogadores passaram de render
50 por cento do que podiam para render 80 por cento (e só não renderam nem rendem mais porque, daí para cima, só lá vão com a ajuda do colectivo).
Tirando isso, o Benfica
campeão, que foi eliminado da Taça de Portugal em casa pelo Guimarães e que não
passou dos quartos-de-final na Liga Europa, ganhando uma Taça da Liga a um
Porto por essa altura moralmente destruído, era uma equipa que defendia
relativamente mal, sem um jogo colectivo definido, incapaz de jogar em mais de
uma velocidade e de se proteger, com grandes dificuldades para aguentar os
jogos de alta pressão – ganhou ao Porto por 1-0, na Luz, com um golo em
fora-de-jogo e cheíssimo de sorte, ao Braga, também por 1-0, com um golo a
poucos minutos do fim, e perdeu nas Antas e em Braga. Jogando a Champions e com
um Porto normal, nessa época, o Benfica, que chegou às últimas três jornadas já
sem gasolina no tanque, não teria sido campeão.
A segunda época foi a do deslumbramento, natural para um
clube que ganhou sem saber muito bem como depois de muito tempo de frustração;
para um presidente que julgou que aquele título mudava a maré histórica; para
um treinador habituado a treinar equipas do meio da tabela que, no primeiro ano
num grande, se convence de que tinha tido sempre razão e que era fácil ser
campeão (muito alimentado pelas bacoradas e pela falta de sentido crítico quer
dos adeptos quer dos vendedores de jornais); para um grupo de jogadores que
nunca tinha tido verdadeiro sucesso desportivo e que também se deixou convencer
de que jogava muito melhor do que realmente jogava.
A super-época do Porto não esteve directamente relacionada
com o lado negro da força que a Luz revelou nesse ano. Ajudou a desmoralizar
(sobretudo com aqueles 5-0), mas não foi por causa disso que o Benfica falhou.
Quando levou 5 nas Antas, à 9.ª jornada, já o campeonato estava perdido havia muito.
Não era preciso o Porto do Villas-Boas: o Porto de Jesualdo teria ganho
facilmente aquele campeonato.
A época da verdade do Jesus, no Benfica, foi a terceira. O
nível de pressão era o normal, o Porto partia também a um nível normal, a
equipa estava estruturada, o tipo de jogo estava definido, competiu-se na
Champions, o Jesus e o Vieira tiveram tempo e espaço para planificarem tudo o
que havia a planificar, desde que soubessem.
E o que é facto é que tudo o que é frágil e tudo o que é
forte na liderança técnica de Jesus ficou claro como água durante a época
passada. Já nem é preciso, julgo eu, bater mais no ceguinho. O Jesus implementa
um estilo ofensivo, rápido e pouco pensado no ataque, pouco colectivo, em que
os jogadores estão bastante conscientes das suas funções individuais e
geralmente indiferentes à necessidade do jogo em conjunto, que não é capaz de
gerar soluções de equipa de forma sólida, sobretudo contra as melhores equipas. Isso deixa demasiada pressão no único mecanismo defensivo que, actualmente, o Benfica executa bem: o fora-de-jogo. Todos os outros processos defensivos (incluindo a posse de bola defensiva) são abaixo da média para uma boa equipa europeia.
O tipo de jogo do Benfica de Jesus está formatado para
ganhar 95 por cento dos jogos contra equipas de nível médio e baixo,
permite-lhe competir (embora com pouca segurança) contra equipas de nível
médio-alto, e dá-lhe muito poucas hipóteses de ganhar jogos de alta pressão. Por exemplo, se
retirarmos da equação os jogos para a Taça da Liga, em 11 jogos contra o Porto
o Jesus ganhou um, em que o Saviola marca o golo numa posição de fora-de-jogo
muito mais clara que a do Maicon no ano passado.
Este ano a prestação de Jesus foi claramente melhor que no
ano passado. Fez melhor no campeonato, nas taças europeias e na Taça de Portugal,
partindo de uma situação de pressão muito maior, dada a forma como perdeu o campeonato
no ano passado, e perdendo o seu meio-campo no início da época. Fez o que sabe
fazer melhor (trabalhar individualmente jogadores, o que lhe permitiu inventar
Matic, Enzo, Melgarejo e André Almeida). Teve a ajuda das lesões e dos castigos
na gestão do plantel, mas, com muita sorte à mistura, soube levar um barco
curto até duas praias – campeonato e Liga Europa – praticamente sem soluções
para além dos 12/13 homens de campo que iam jogando.
Em resumo, há três razões para alguns (muitos? poucos?) benfiquistas
que antes gostavam do Jesus acharem agora que ele não deve renovar com o
Benfica, e duas delas não fazem sentido:
1.ª – Porque os resultados foram maus.
Não faz sentido. No
ano em que foi campeão, o Benfica fez 76 pontos. Este ano fez 77. Foi o melhor campeonato
do Jesus no Benfica, a melhor prestação europeia do Jesus no Benfica e a primeira
presença na final da Taça de Portugal. Perdeu a Taça da Liga. Irrelevante. Não
vejo sentido em basear a decisão em renovar ou não renovar contrato com o Jesus
na relação contexto/prestação/resultado precisamente quando o Jesus tem o seu
melhor desempenho.
2.ª – Porque estão frustrados.
Tão simples como isto. Não
faz sentido nenhum. Basear uma decisão destas num estado de alma foi o que
levou o Benfica ao deserto durante vinte anos. Nesses vinte anos houve decisões
baseadas sobre estados de alma que estavam certas e outras que estavam erradas,
mas o que matou a grandeza do Benfica não foram as decisões em si, foi a lógica. É um
princípio tão errado, mas tão errado, que quase que vale a pena tomar a decisão
que vai contra o estado de alma só para estabelecer o princípio de que o estado de alma, como factor de decisão, deve ser contrariado. Não chego a tanto, mas mandar
o Jesus embora só porque estamos zangados com ele é demasiado estúpido para ser
verdade. Parece que, por aí, e pelo que se lê, já ganhámos qualquer coisa em
ter um presidente que sabe esperar e parar para não decidir em cima de emoções.
Parece…
3.ª – Porque já perceberam que o Jesus não tem estofo nem
qualidade para ser o treinador de que o Benfica precisa.
Esta é a única razão
que pode fazer sentido, mas não é inequívoca. Eu apontei esta razão antes do final da
época passada, quando se falava da possibilidade de ele sair. Houve quem
concordasse e quem discordasse. Apontei as minhas razões e vou falar delas
outra vez no terceiro e último post que dedicarei a este tema.
No entanto, adianto duas ideias:
– em primeiro lugar, que não há nenhuma boa razão para que quem
defendia que o Jesus devia continuar, no fim da época passada, defenda agora
que ele deve sair. Esta época foi uma réplica da última, mas para melhor em
todos os sentidos excepto no tipo e qualidade de jogo, que são iguais;
- em segundo lugar, que na altura eu defendi o seguinte:
esta é a altura de ou trocar de treinador, por uma boa razão (para acrescentar
à equipa soluções que ele, claramente, já não conseguia, nem vai conseguir,
agora, dar); ou de assumir o treinador, com todas as suas qualidades e os seus
defeitos, como inerente ao projecto e, nesse caso, não apenas não o despedir
como, logo nessa altura, somar-lhe mais quatro ou cinco anos ao contrato.
Acrescento, já agora, que, se o Vieira tivesse feito isso
no ano passado, e renovado o contrato até 2016 ou 17, não digo que este ano a questão da continuidade do Jesus não
tivesse existido (porque existe sempre num clube como o Benfica, em que os
resultados podem mudar tudo em dois minutos), mas os resultados poderiam ter
sido diferentes, uma vez que a distracção permanente sobre «o futuro de Jesus»
e a pressão acrescida quase que desapareceriam.
(Próximo post: Jesus
(2) – A Falsa Escolha de Vieira)