segunda-feira, 22 de abril de 2013

Batei na Madeira, carago!

O Benfica-Sporting de domingo resolveu o principal problema do Porto este ano. Andava desde Janeiro à procura de uma boa mão-cheia de areia para atirar aos olhos das pessoas, e não conseguia. Janeiro é sempre uma altura importante para o Porto, porque é por aí que, regularmente, começa ou a condicionar o sistema de maneira a ganhar  o campeonato ou a preparar o álibi de final da época em caso de (rara) derrota.

Como já aqui disse, nos últimos 30 anos o Porto nunca perdeu um campeonato por culpa própria. Ou foi o árbitro, ou a federação, ou a Liga ou a PIDE.

Este ano, o grande problema é que ainda não havia túneis, nem estádios no Algarve, nem árbitros. O Porto estava, pura e simplesmente, a enterrar-se sozinho. Impensável. A Estrutura, com 100 milhões gastos em jogadores e comissões, estava à beira do maior fracasso desportivo do futebol português nos últimos vinte anos – repito: à beira do maior fracasso desportivo do futebol português dos últimos vinte anos.

O Capela, sozinho (bom, com a ajuda do povo calimérico…) resolveu esse problema. Se o Porto perder este campeonato, vai ser por causa do Capela, que, estupidamente, se inibiu no momento de fazer aquilo que se espera de qualquer árbitro português: que cometa um erro para satisfazer o sistema do politicamente correcto.

Vou repetir isto também, para que não fiquem dúvidas daquilo que alguns considerarão facciosismo mas que eu considero independência crítica: o Capela acertou ao não marcar todos os penáltis-fantasma, mas neste país não é suposto um árbitro acertar, é suposto marcar aquilo que o sistema acha que está na moda.

Também vou dizer isto outra vez, porque este post é o último em que falo de árbitros este ano, aconteça o que acontecer na Madeira e nas Antas: não mudo uma vírgula à minha visão dos lances.

A Sport TV continua a repetir os lances, até convencer toda a gente que tem de ser penálti. O que eu vejo cada vez mais à medida que eles os repetem é o Volkswagen a ir à procura do contacto com o Garay, o Capel a falhar o remate e a embrulhar-se com o Maxi quando já não pode acertar na bola (agora até vermelho já lhe querem mostrar, numa jogada em que o Capel nem sequer tinha ainda tocado na bola, o que mostra bem os verdadeiros sentimentos caliméricos na análise dos sportinguistas ao lance), o Viola a perder o pé de apoio quando vai a arrancar e, na última jogada, a atirar-se para cima do Jardel. Deste quatro, o único lance que me pareceu penálti  à primeira vista foi o do Volkswagen, e na repetição percebi que não era.

Nada disto, contudo, alguma vez será dito nos jornais, primeiro porque todos os Calimeros têm direito à vida, e depois porque não podemos contrariar o Pinto da Costa. Ele é omnipresente e omnipotente. A sua fina ironia consegue matar à distância, como se sabe. É um ser inteligentíssimo e, como tal, a última palavra pertence-lhe por direito.

Eu, que sou benfiquista, devo ser o mais pessimista deste país, porque continuo a dizer que o Benfica tem (agora) 50 por cento de hipóteses de ser campeão, que são as hipóteses que tem de ir ganhar à Madeira.

Mas é compreensível que também Pinto da Costa esteja mais pessimista agora, em relação ao título. Afinal, o campeonato começou de maneira auspiciosa, com o Benfica a empatar em casa com o Braga com um golo anulado ao Cardozo a cinco minutos do fim porque não tocou no guarda-redes.

Continuou ainda melhor, quando a Académica beneficiou de dois penáltis inexistentes para, também ela, empatar com o Benfica. Esses quatro pontos dos oito que o Benfica já perdeu este ano no campeonato eram boas razões para o optimismo de Pinto da Costa.

Tal como a grande defesa do Alex Sandro em Braga, na pequena área, beneficiando do critério largo selectivo do providencial Carlos Xistra.

Ou as vistas largas do Cosme Machado no jogo com o Olhanense, naquela mão no chão do jogador do Olhanense, que deu o penálti que o Jackson atirou para os Superdragões.

Havia boas razões para o optimismo de Pinto da Costa, mas o Capela entregou o campeonato ao Benfica. Alguém tinha de ser.

É preciso dar a volta a isto, e só há uma pessoa que pode pôr o futebol português a funcionar de maneira honesta e profissional: o grande líder, o homem infalível e sem idade.

É preciso fazer de Pinto da Costa presidente da Liga. É um desígnio nacional. Com ele, o futebol português terá estádios cheios, árbitros competentes, uma ética intocável e um futuro imenso. Eu sei do que estou a falar, porque já assisti.

Sim, eu sou do tempo em que o Pinto da Costa foi presidente da Liga, na gloriosa década de 90, em que tudo era possível no futebol português. Nessa altura, tudo estava como devia estar. Era matéria de sonhos.
O Porto ganhou oito campeonatos – os outros dois perdeu-os por causa dos árbitros, obviamente, apesar de haver árbitros de grande categoria, como Martins dos Santos, José Guímaro, Soares Dias, José Silvano, Carlos Calheiros e tantos, tantos outros que, hoje, fariam o Capela corar de humildade.

Bons tempos, em que o advogado Lourenço Pinto podia decidir, sossegadamente, à secretária da presidência do Conselho de Arbitragem da FPF, manipulando relatórios de delegados, que árbitros subiam, que árbitros desciam e quem chegava a internacional.

Tudo era bonito.

E tudo esta ignorante gente vermelha estragou.

Mas nem tudo está perdido. Pode ser que a flash interview casual do grande timoneiro na apresentação dos barcos de turismo do Rio Douro consiga, enfim, abrir os olhos ao árbitro do próximo Marítimo-Benfica, ajudá-lo a decidir em conformidade, e que ainda se vá a tempo de fazer justiça neste campeonato.

Afinal, é a última oportunidade, mas também é a melhor oportunidade.

Calimero desceu à Terra


Nem sequer cá vinha, porque tenho muito que fazer, mas já fiquei em brasa, pelo que cá estou.

Ponto prévio: o Benfica do Jesus joga tanto hoje como jogou sempre – assim, assim.
A bola é barata, a equipa tem poucas soluções colectivas, ataca de forma individualizada, é muito limitada quanto aos fundamentos do jogo e, por causa disso, tem dificuldades a defender. Tem pontos muito fortes – a velocidade no último terço do campo, o porte fisico, a criatividade de alguns jogadores no ataque e a capacidade táctica individual do meio-campo para trás, incluindo o Matic – e tem uma equipa já relativamente madura que lhe permite ganhar muitas vezes a nível interno, sobretudo porque é muito mais cara que todas as outras à excepção daquela que, como equipa, lhe é superior (a do Porto).

Falta-lhe classe para jogar como o Jesus pensa que ela já joga (porque não joga), e não vai a lado nenhum a não ser se contratar cada vez melhores jogadores para o sistema em que joga. Se este Benfica trocar um Cardozo por um Higuaín, por exemplo, se passar dos Limas, dos Maxis, dos Melgarejos, dos Gaitáns, para jogadores um nível acima, melhora. De outra maneira, nunca vai dar mais do que dá agora.

Nada disto é novo, para mim, e se me enervo com esta equipa é porque ela não dá verdadeiras razões para confiarmos nela. Fé, crença, até podemos ter, mas uma confiança à prova de bala, é impossível, e qualquer benfiquista sereno percebe isto. A todo o momento há a sensação de que esta frágil castelo de «notas artísticas» pode vir por aí a baixo, como veio na época passada. Até pode ser já contra o Marítimo.

Dito tudo isto, convém meter as coisas no seu lugar, tal como o Jesus fez, sem espinhas, quando disse que a Académica também foi um jogo difícil para o Benfica, e que o Paços de Ferreira também teve muito a bola a meio-campo quando jogou na Luz (Impagável!).

O Jesualdo Ferreira, que treina uma equipa do Sporting que está a 37 pontos de distância do primeiro lugar (!), teve tempo, entre a boca do túnel e a conferência de imprensa, de passar das dúvidas à certeza de que o Sporting foi roubado em quatro – quatro! – penáltis.

Só não teve dúvidas, em nenhum dos casos, em dizer que o Sporting foi melhor que o Benfica.

Ora bem…

O Sporting, que anda a fazer estágios semanais em Alcochete há mais de três meses – no futebol moderno, quando uma equipa tem seis dias para preparar o próximo jogo, é um verdadeiro estágio –, jogou na Luz contra uma equipa do Benfica:

- que tinha de ganhar e dar espaços na defesa, perante um adversário com jogadores talentosos no contra-ataque;

- com mais dez jogos nas pernas dos seus elementos nucleares, para não falar dos toques e das mazelas que são inevitáveis nesta altura da época (uma equipa já nitidamente na reserva, como se tornou evidente, e que ainda tem o mês das decisões pela frente);

- com uma sucessão de jogos com um nível de exigência anímica permanente que o Sporting já deixou de ter há meses;

- com uma meia-final decisiva, a ser jogada na Turquia, à distância de quatro dias;

- sabendo perfeitamente que jogava perante uma equipa inferior, e que a chave do jogo estava na finalização.

O Sporting, que estava à espera de ser passado a ferro, teve muito mais a bola do que contava. Teve a bola no meio-campo (onde, como apontou o Jesus, não se marcam golos) e, em frente à baliza, os seus jogadores fizeram aquilo que melhor sabem fazer: atiraram-se para o chão.

O miúdo Bruma vai ser mais jogador que qualquer um daqueles artistas de circo. Tem mais futebol que eles todos juntos, incluindo o «matador».

Dos quatro «penáltis» que, segundo o Urso de Carvalho não deixaram os avançados do Sporting rematar, nenhum  - nem um! – o é. Apesar de em todos haver contacto.

No primeiro, o Garay faz o carrinho ao lado do Volfswinkel que, como se vê perfeitamente na repetição por trás da baliza, sai da sua linha e vai à procura do contacto. Se o Volfswinkel tivesse mantido a corrida a direito não teria havido contacto, teria rematado e, provavelmente, sem se desequilibrar com esse contacto, teria marcado golo. Não se decidiu se queria marcar, proteger a bola ou provocar o penálti e não conseguiu nenhum dos três, mas penálti não há nenhum.

No segundo, quando o Maxi toca no Capel já a bola passou, já o Capel percebeu que não vai a lado nenhum e já se atirou à procura do contacto. É uma jogada de ratice, em que o árbitro, e bem, não caiu, porque o contacto que há não tem nada a ver com o falhanço do Capel. A jogada é rápida e os dois jogadores falham a bola.

No terceiro, os dois jogadores estão a agarrar-se, o Viola escorrega quando vai a arrancar, desequilibra-se, e depois tenta aproveitar a confusão para sacar o penálti. Houve vinte jogadas daquelas em que não houve falta, metade delas contra o Sporting. Ali seria falta porquê? Porque era a favor do Sporting? Porque o Calimero desceu à Terra?

No quarto o Viola atirou-se contra o Jardel.

Tivemos hoje mais um episódio da interminável saga calimérica do Sporting, a que não faltou a indispensável esperança no futuro, baseada na talentosa juventude que, na cabeça dos sportinguistas, vai ter todo o tempo e todo o espaço para crescer viçosamente.

Na realidade, o que é que vai acontecer?

O que vai acontecer é que, no fim das próximas duas temporadas, cheias de vitórias morais e de erros colossais de arbitragem, esta gloriosa juventude, que não tem estaleca para dar a volta a plantéis com jogadores superiores em experiência e categoria, vai ter acabado mais dois anos em terceiro ou quarto lugar, vai ser vendida a retalho, primeiro o Bruma, depois o Illori, o Dier e os outros, como antes já foram todos os grandes talentos do Sporting – ao desbarato – e vai ser desfeita para se começar de novo, com a SAD já vendida a um angolano qualquer.

O caminho, para o Sporting, era muito mais o do Duque e do Freitas que esta pseudo-solução de meter os juniores a fazer de seniores. A solução é ganhar, e só se ganha com jogadores experientes. Não é só com tempo, como sugeriu o Jesualdo. Os jogadores jovens, a entrarem, só podem ser um ou dois em onze, e tem de ser aos poucos, como o Jesus faz. Essa é que é a realidade em qualquer grande equipa europeia. Se o talento jovem fosse suficiente para vencer jogos os Real Madrid, Manchester United, Bayern e outros não andavam a comprar experiência e carácter, compravam uma mão-cheia dos melhores putos do mundo e punham-nos a jogar. Isso não existe. De quarenta em quarenta anos lá aparece um Ajax, mas mesmo essas equipas excepcionais duram duas ou três épocas e desaparecem.

Sem vitórias não há projectos, e sem maturidade não há vitórias. O resto é lirismo. Não esqueçamos, nestas fantasias, que não basta ao Sporting ter uma boa equipa de jovens: tem de ter uma equipa de jovens que ganhe ao Porto e que ganhe ao Benfica no mesmo ano. Ou o Sporting vai desistir, definitivamente, de ser campeão? E daí até se tornar num Everton demora quanto tempo?

Equipas como esta do Sporting são equipas que, como disse o Jesus e muito bem, não fazem a diferença em frente à baliza, que só ganham um campeonato por acaso – algo que dificilmente acontecerá considerando a distância a que o Porto e o Benfica se encontram – e que não vão a lado nenhum.

A verdade crua e nua? A este Benfica, que nem sequer é nada de especial, bastou fazer um jogo certinho, baço, e duas jogadas com mais de quatro passes, para ganhar a este Sporting.

sexta-feira, 12 de abril de 2013

Sorriso amarelo


Havia duas coisas que eu não queria no sorteio da meia-final da Liga Europa:

1 – Jogar com o Chelsea

Não é que eu queira ser mija-na-sopa do pessoal, mas qualquer equipa presente numa meia-final com um orçamento três vezes superior a qualquer uma das outras é a única favorita a ganhar a competição, e tem 80 por cento de hipóteses, no mínimo, de a ganhar.

Dizem-me que, há um ano, podíamos ter eliminado o Chelsea, o que é verdade, mas não estivemos tão perto como a típica boa vontade benfiquista fez passar a ideia – uma ideia que ficou nos jornais, como é costume, porque é sempre bom para as vendas iludir os benfiquistas. O Chelsea passou a eliminatória com o Benfica com relativa facilidade. Tal como o Benfica passou a eliminatória com o Newcastle com relativa facilidade, apesar de um ou outro momento de tentativa de superação por parte do Newcastle.

As hipóteses do Benfica ganharem ao Chelsea sobem bastante se for a vitória final disputada a um jogo. Um pouco como vai acontecer com o Vitória de Guimarães na final da Taça de Portugal. Com apenas um jogo as possibilidades, por parte da equipa mais forte, corrigirem os problemas causados por incidentes extraordinários – um erro do árbitro, um azar de um jogador, uma expulsão, um penálti – caem muito. Em último caso, chegando aos penáltis, as hipóteses aproximam-se muito dos 50/50, que é o máximo que qualquer uma das três equipas conseguirão ter diante do Chelsea.

O Chelsea está em crise. Quem tem Mata, Hazard, Ramires e uma série de outros grandes jogadores, independentemente das crises, só não é favorito perante equipas que custam o mesmo. Haveria sete ou oito equipas na Europa que, em competição com o Chelsea na Liga Europa, poderiam ser consideradas favoritas – e o Benfica não é uma delas.

2 – Ir jogar à Turquia na primeira mão

Apanhar o Fenerbace é bom em termos desportivos, porque é o adversário menos competitivo, mas ir à Turquia na primeira mão é péssimo, por duas razões.

Primeiro porque, como já defendi há dois ou três posts atrás, esta equipa do Benfica tem sempre vantagem em jogar a segunda mão fora de casa, onde já não há hipótese de os adversários responderem aos golos fora que o Benfica marca sempre, e porque o Benfica joga melhor em contra-ataque do que em ataque organizado – como o Real Madrid, por exemplo.

Segundo,  mas sobretudo, porque pode ser absolutamente determinante, para um eventual insucesso do Benfica no campeonato, ter de ir à Turquia a meio da semana decisiva para o campeonato nacional, e ainda por cima para fazer um jogo de pressão máxima em todos os sentidos – no ambiente, pela história, pelos objectivos da época, pelo cansaço acumulado, etc, etc.

A época do Benfica joga-se nos dois jogos com Sporting e Marítimo. Tem de os ganhar. Um empate é quase sinónimo de derrota no campeonato. Em condições normais, fazer duas vitórias nesses jogos já é difícil. Nestas condições, se o Benfica as conseguir, será quase extraordinário. E já nem conto com as possíveis lesões e castigos. Caramba, considerando a importância que a eliminatória vai ter para o Fenerbahce (é o jogo mais importante na história do clube) eu, se fosse o Vieira, até garrafas de oxigénio levava para não correr o risco de ser envenenado através do ar condicionado.

O ideal, considerando o cenário global, seria apanhar o Basileia e jogar primeiro em casa. Mesmo apanhar o Chelsea, que é um pulinho, seria preferível a ir à Turquia a meio da semana mais importante da época, passar 24 horas no inferno.

Olho para este cenário e vejo consolidarem-se aqueles receios que já aqui exprimi mesmo antes do Benfica se apurar para a Liga Europa. O Benfica joga contra a História, contra as probabilidades e, admitamos, contra si próprio, porque nem é a equipa com melhores condições para vencer o campeonato nem é a equipa com melhores condições para vencer a Liga Europa. Vejo uma corda esticada e um momento que se aproxima, com datas marcadas, em que o mais certo é mesmo partir.

Enfim, chegámos ao momento em que somos confrontados com a verdadeira essência do benfiquismo: acreditar, contra tudo e contra todos. Fazer de conta que a lógica não existe, que não há racionalidade, que podemos porque sim, porque é o Benfica, e o Benfica, se houvesse normalidade, nem sequer deveria existir, porque era um grupo de miúdos a jogar à bola que andava com a baliza às costas.

Chegou o momento de deixar de considerar a realidade. Voltamos à Terra daqui a um mês, e que seja o que Deus quiser. Nisso, não há melhor do que nós. Acreditemos, portanto.

sábado, 6 de abril de 2013

Grande Guerra de Olhão


1)      Um clube com quatro meses de salários em atraso que recebe um Benfica a três semanas de poder ser campeão e prescinde de jogar no Estádio do Algarve para não dar vantagem ao opositor – mesmo sabendo que, no José Arcanjo, a esmagadora maioria de adeptos vai continuar a ser do Benfica, e que, com isso, sabe que vai perder uma receita suplementar que lhe permitiria pagar pelo menos um desses meses de ordenados em atraso;

2)      Uma equipa a um ponto da linha de água, treinada por Manuel Cajuda, o único treinador em Portugal com mais calo no cu do que o Jorge Jesus;

3)      Um campo que, sem água, só é bom como terreno de pasto, e que, com água, nem para isso serve;

4)      Menos de 72 horas de descanso depois de um jogo contra uma equipa inglesa em que se teve de recuperar de uma desvantagem de 0-1 aos 15 minutos, numa eliminatória decidida pelo número de golos que se marcam (com uma viagem de autocarro até ao Algarve pelo meio);

5)      Segunda mão contra essa equipa inglesa, fora de casa, quatro dias depois;

6)      Um adversário que pertence à esfera de influência do Porto (como se comprova pela política de empréstimos de jogadores e de nomeação de treinadores nos últimos anos);

7)      Um presidente que, a quatro dias do jogo, perante um ultimato dos jogadores, aparece com 150 mil euros para pagar um mês e meio de ordenados, segundo ele proveniente de um amigo, sem contrapartidas previstas, porque, obviamente, o dinheiro é para se dar sem se esperar nada em troca. Note-se que só há dois clubes em Portugal para quem é fundamental que o Olhanense não tenha falta de comparência com o Benfica: o próprio Olhanense e o Porto;

8)      Um presidente que aproveita a reunião da Liga de Clubes, no Porto, para ir jantar a um restaurante da família do Reinaldo Teles;

9)      Um árbitro que protagonizou um dos jogos em que, no ano passado, o Benfica perdeu o campeonato – enquanto que, no Porto-Braga, é nomeado Pedro Proença, que ainda há uma semana foi colocado na primeira fila de uma festança da Associação de Futebol do Porto, para que quem tivesse dúvidas sobre o relacionamento entre Proença e o Porto pudesse deixar de as ter;

10)   Margem de erro: zero.

Tudo isto é apenas o cenário de partida. Ainda falta o jogo. Vai ser uma guerra pegada.

Preparem os intestinos: domingo é dia de São Campeão.

sexta-feira, 5 de abril de 2013

Vai pondo bifes, Jesus


Nesta altura, nem eu, que sou fundamentalista e que preferia que o Benfica tivesse sido eliminado da Liga Europa ainda antes de começar a jogá-la, já acho que faça sentido prescindir da Liga Europa.

Não é que não atrapalhe, nem é que não possa provocar a perda do campeonato, mas agora já não vale a pena. Vai haver pelo menos mais um jogo, o cansaço vai pesar, e a eventual meia-final vai ser disputadíssima, porque agora as equipas já estão a jogar motivadas e acreditam que podem ganhar a Taça (até aos oitavos-de-final era mentira, parecia jogos de solteiros e casados), mas a maior parte do mal, a haver, já está feita.
O Benfica está a atingir um patamar que de eficácia regular que já não tinha desde 1983, e, como tal, já não há alternativa: a solução, quando se chega a patamares destes, já não é gerir mas, simplesmente, cumprir. Neste ponto, o que a equipa do Benfica precisa de aprender, para crescer, é a ganhar em esforço psíquico. Mesmo que perca o campeonato (o que é muito possível, note-se) tem de o conseguir ganhar desta maneira, senão nunca deixará de ser apenas um projecto de equipa à mercê. E, agora, ou é capaz ou não é capaz.

Fazer mais do que o que o Jesus fez nesta quinta-feira, nem eu (que contra o Leverkussen até o Urreta e o Miguel Vítor teria metido…) lhe peço. Tudo o que é carne comestível ele está a meter no assador. Nos quartos-de-final, contra uma boa equipa inglesa, jogou com o André Almeida, o André Gomes, o Rodrigo e o Ola John. Quem havia para rodar sem entregar o jogo de bandeja, jogou. Bravo. A César o que é de César. O Jesus está a cumprir e, na minha classificação, continua a transformar pontos negativos em pontos positivos.
(Neste aspecto, registo para a passagem de certidão de óbito definitiva a Aimar e Carlos Martins. Se não jogaram hoje, o comboio já passou  e a época deles, a partir de agora, é mais bolos e treinos.)

Quanto à eliminatória, penso que o Benfica conseguiu o apuramento naquelas duas bolas aos postes dos ingleses. Qualquer resultado de uma eliminatória europeia a duas mãos em que esta equipa do Benfica só sofra um golo em casa é um bom resultado – até uma derrota por 0-1.

Há equipas ofensivas e equipas defensivas. Para uma equipa ofensiva, como é a do Benfica, que tem muita facilidade em marcar golos, jogar a segunda mão fora de casa é uma vantagem, por uma razão muito simples: porque o adversário já não tem a oportunidade de recuperar uma desvantagem conseguida pelos golos fora. O Benfica sabe que se marcar dois golos em Newcastle tem a eliminatória ganha, e o Newcastle já não pode fazer nada em relação a isso. Da mesma forma, durante o jogo, isso coloca pressão sobre a equipa da casa, que sabe que se sofrer um segundo golo tem de marcar dois.

Para uma equipa defensiva, saber que tem de marcar golos fora ma segunda mão é um problema. Para uma equipa como o Benfica, saber que cada golo fora, que vale por dois, já não pode ser rebatido na mesma moeda pela outra equipa, é uma vantagem.

O Benfica vai marcar em Newcastle, porque marca sempre, e muito mais em contra-ataque, e muto mais naquela relvinha rápida e bem tratada dos ingleses, e ainda mais com aqueles defesas porreiros que têm de pedir licença aos rins para mexer a perna. E, se marcar 2, os outros têm de marcar 5.

Logo para começar, o Newcastle tem de ganhar ao Benfica, o que já é pouco provável. O mais certo é haver um empate, o Benfica meter dois golitos até aos 60 minutos e, depois disso, toda a gente arrumaras fichas a pensar no campeonato, que é o que importa.

Até o 1-1 eu já assinava por baixo.

Façam este exercício: imaginem que eram o treinador do Newcastle e vinham empatar 1-1 à Luz. O que é que diziam aos jogadores antes do segundo jogo?

Que jogassem com calma, porque o 0-0 bastava? «Mas, mister, os homens marcam golos a toda a gente. E se sofremos um golo e depois não conseguimos marcar? E se eles marcam o segundo no contra-ataque? De 0 passamos a ter de marcar 3!»

Que jogassem ao ataque? «Mas, mister, começamos a atacar, abrimos a defesa, eles marcam e perdemos a vantagem. E se eles marcam o segundo?»

Não há nada pior, para uma equipa, na Europa, do que entrar em campo sem saber o resultado que tem de fazer, enquanto, do outro lado, a outra equipa tem um objectivo definido e sabeo que precisa de fazer. A não ser que se trate de uma equipa muito experiente internacionalmente, entre as indecisões e a convicção a convicção ganha quase sempre.

Contra equipas malucas e imprevisíveis como a do Benfica, que tanto podem levar três golos em 10 minutos como enfiar quatro batatas na baliza de qualquer equipa, numa eliminatória como esta a outra equipa só passa a ter vantagem por jogar em casa o segundo jogo se, no primeiro, marcar pelos menos dois fora de casa. Caso contrário, é sempre uma eliminatória a ser decidida na segunda mão, onde a vantagem do golo fora já só existe a favor dos outros.

O Newcastle devia ter apostado tudo em marcar mais um golo na Luz, mesmo que sofresse mais um ou dois. Para poder jogar à vontade em casa e atacar livremente, sem ficar presa pelo golo que o Benfica vai conseguir marcar.

E para o Benfica, a ideia terá de ser a mesma: se for para lá a pensar em marcar dois golos, desde que defenda relativamente bem, tem a eliminatória no bolso. E até pode sofrer quatro – o que não vai acontecer.

Mas vão ter de correr, atenção.
 
P.S. - O Cardozo está a elevar a técnica do penálti a arte. Hoje, subiu mais um degrau. No primeiro fez o que aprendeu a fazer na perfeição  durante os últimos meses: a esperar pelo primeiro passo do guarda-redes antes de rematar. Se o guarda-redesse mexe primeiro, morreu. Na repetição, pensei assim: «O guarda-redes, que é um bom guarda-redes, já o topou. No primeiro atrasou a queda tanto quanto pôde, agora, no segundo, não se vai mexer até ele baixar a cabeça para rematar. Sempre quero ver se o Cardozo tem estofo para lhe dar a volta. Ainda lhe vai acertar com a bola no peito a meio da baliza.»
Dito e feito. O guarda-redes parecia colado ao chão, e percebeu para que lado o Cardozo ia rematar. E o que é que fez o Cardozo, num golo que podia valer uma eliminatória? Percebendo que o guarda-redes ia atrasado, porque não se lançou suficientemente cedo, meteu-lhe a bola em jeito, com a força suficiente, para o seu (o do Cardozo) lado esquerdo, que é o mais difícil quando se é canhoto.
O Cardozo até pode falhar um penálti, e é mais provável que falhe a medida que a pressão vá subindo. Até o Maradona os falhou, e foi o melhor marcador que já vi. Mas só falha se falhar o remate tecnicamente, porque, na cabeça, tem tudo pré-definido quando parte para a bola. Tem um plano A e um plano B. Um plano C, não sei, veremos. Mas desde o Maradona que eu não via ninguém a marcar penáltis com esta certeza.
Eu sei que é sacrilégio pôr Cardozo e Maradona na mesma frase, mas pronto, um penálti é aquela situação extraordinária que há no futebol...

sexta-feira, 29 de março de 2013

Não é para meninos


Um dos principais méritos do Jesus no seu trabalho do Benfica, para não dizer mesmo o principal, foi ter trazido para o clube uma dimensão de realismo e pragmatismo que, por força dos sucessivos falhanços desportivos, este perdera. Quando se falha muito a tendência é para se duvidar de tudo o que se faz, o bom e o mau, e nesse processo perde-se não só a estrutura como a noção da realidade. É assim que aparecem, de repente, jogadores de terceira categoria a jogar com uma camisola de primeira e se fica a pensar que, por causa disso, o jogador também é de primeira. Centenas de jogadores de terceira categoria passaram pelo Benfica nos últimos anos.

O sinal mais evidente desse pragmatismo do Jesus – um tipo que tem a virtude de pensar pela própria cabeça, e, por vezes, o defeito de achar que só a cabeça dele é que pensa – é a dificuldade de entrar na equipa do Benfica.

Entre aqueles em quem ele apostou (por achar que lhe serviam o «sistema táctico») e falharam – o Bruno César, ou o defesa-esquerdo do ano passado de quem já nem lembro o nome, por exemplo – e aqueles que as pessoas lhe quiseram impingir por acharem que uma equipa de futebol do Benfica é um jogo de computador ou uma vitrina, já houve, nestes três anos, inúmeras ocasiões para esta equipa do Benfica se estampar ao comprido.

Se os editores dos jornais e a geração-Football Manager tivessem levado a sua avante, se o Jesus não soubesse mais de futebol do que eles todos juntos – notem que as minhas críticas em relação ao Jesus não têm e nunca terão nada a ver com o seu conhecimento acumulado e com a sua experiência como profissional de futebol, assim como não me provoca nenhuma comichão se ele sabe falar dinamarquês ou não, se enfia o dedo não sei onde ou se é bem ou mal educado seja com quem for – hoje, o Quim continuaria a ser guarda-redes do Benfica (porque é português, porque foi campeão, porque tem o cabelo aos caracóis…), o Roderick e o Nélson Oliveira seriam titulares (porque vieram dos juniores, porque são portugueses, jovens, porque o Benfica, vá-se lá saber porquê, tem de ser, para algumas pessoa, uma espécie de viveiro da Selecção, porque é politicamente correcto), o Carlos Martins também, o Miguel Rosa já estava no lugar do Gaitán, já havia um trinco qualquer a jogar à frente da defesa, em vez de um sérvio que custou 5 milhões de euros e de que ninguém ouvira falar, o Rodrigo já era titularíssimo, e por aí fora.

Ainda no final da época passada andava tudo a querer que o Benfica fosse buscar miúdos para meter logo a jogar, a defesa-esquerdo, a médio, a avançado, em todo o lado.

Eu reafirmo: a vitalidade desportiva e económica de um clube da dimensão do Benfica não pode depender de voluntarismos bacocos e de projecções de optimismo irrealista. O exemplo do Ola John é excelente. O Ola John tem, hoje, no Benfica, exactamente o lugar que devia ter, e que eu esperei que tivesse: é um mais, sem ser decisivo; acrescenta valor sem ter a influência que um miúdo de 19 anos não pode ter numa equipa que joga para ser campeã; e está a preparar-se para ser um jogador decisivo quando tiver 2/3 anos de experiência numa equipa deste nível. Numa equipa competitiva, um jogador como o Ola John não pode ser mais do que isto. Se for, é sinal de que a equipa tem estrutura de campeã. O mesmo se passa com o Rodrigo, o André Gomes, o André Almeida

O que é uma estrutura de campeã?

Uma estrutura de campeã é uma equipa chegar ao momento decisivo de um campeonato e, independentemente de o ganhar, ou independentemente da categoria individual destes jogadores, ter uma espinha dorsal composta por cinco jogadores que se encontram no topo de maturidade competitiva da sua carreira (Artur, Luisão, Garay, Lima e Cardozo) e mais dois que se encontram muito perto de aí chegar (Matic e Enzo Pérez).

Aí, no rau de maturidade, encontra-se uma das grandes diferenças desta equipa do Benfica em relação às anteriores, e que lhe permite ter subido um nível qualitativo apesar de continuar a ter um tipo de jogo altamente falível e pouco fiável e de, fisicamente, continuar a ser uma incerteza permanente.

Se a bitola elevada do Jesus tivesse sido influenciada pelo politicamente correcto de apostar num jogador porque é português, ou porque vende camisolas, ou porque dá entrevistas, ou porque está na moda, ou porque o pessoal que compra jornais está farto de ver as mesmas cara, esta espinha dorsal do Benfica não existiria. Provavelmente, destes, só jogariam o Luisão e o Cardozo, e é porque já fazem parte da mobília. Se os jornais e as redes sociais fizessem plantéis o Benfica hoje teria a jogar o Quim, o Roderick, o Sydney, o Nélson Oliveira (que nem no Corunha joga!) e uma série de outros cavalinhos de cortesia. E muito provavelmente estaria a disputar um lugar de acesso à Liga dos Campeões com o Braga e o Paços de Ferreira.

Ou alguém tem dúvidas de que se o Cardozo estivesse no Porto a marcar penáltis e o Jackson no Benfica o Porto já podia encomendar as faixas? Alguém é melhor a marcar penáltis, em qualquer lugar do mundo, neste momento, que o Cardozo? E isso não tem a ver com maturidade? Comparem como ele os marcava há dois anos e como os marca agora. Pois…

Acho que é uma boa lição a retirar. Eu, que também já vivi essas ilusões de fazer equipas no papel, já a retirei há uns anos, e esta é uma boa altura para os benfiquistas (e não só, note-se) perceberem que uma equipa campeã se faz, sobretudo, com qualidade e com experiência, e não com boas intenções e jogadores que são «projectos a longo prazo».
O «projecto» do Sporting, por exemplo, não vai dar em nada, porque a equipa vai perder. Daqui a três ou quatro anos vão chegar à conclusão a que o Duque e o Freitas já tinham chegado e voltar a fazer o que eles fizeram, porque perceberão que, de outra forma, não têm hipótese e transformam-se num Braga, que só joga para mostrar jogadores. Não é assim que funciona um clube grande. O «projecto» do Sporting não estava errado, nem falhou por ser errado. Falhou porque foi mal gerido. O que o Sporting tentou fazer é a única via, e foi o que o Benfica fez. Por isso é que tem uma dívida de 500 milhões de euros. Mas é a única via para um clube grande.
O Pinto da Costa, há dois anos, não andou a comprar ex-juniores para voltar a ganhar. Apostou financeiramente e apostou forte (comprou o Moutinho, manteve o Hulk a ganhar uma fortuna e outros jogadores que estavam an altura de sair, etc). Senão tinha perdido. E, se perder este ano (ou para o ano, em boa verdade), a sua única alternativa é voltar a endividar-se, porque com criancinhas não vai lá – e esse é que é o verdadeiro problema do Porto: a sua dificuldade em gerar receitas para além da Champions/transferências que lhe permitam controlar o endividamento, como o Benfica consegue controlar, apesar de ser muito superior, e como o Sporting não consegue.
Por isso digo, por exemplo, do Djuricic o mesmo que disse do Ola John há um ano: é muito bem vindo, vai ser um a mais, se correr tudo bem vai ser uma mais-valia desportiva e económica, vale a pena apostar – mas importante, importante é encontrar um defesa-central com experiência e categoria que possa entrar e pegar de estaca a substituir o Garay, um gajo internacional ou perto disso, com 24/25 anos; e um médio da mesma cepa, para jogar ao lado do Enzo Pérez ou para substituir o Matic (que vai sair, porque é o único jogador de topo europeu que o Benfica tem e vale muita massa). É com esses que se ganha campeonatos. Não é com meninos.

E se me começam a falar em dinheiro, como é costume, a resposta é fácil: ganhar um campeonato ou ir mais longe na Champions, por exemplo, vale muito mais dinheiro do que vender um jogador. Façam as contas a tudo o que isso gera, em bilheteira, marketing, valorização de jogadores, quotização, entrada de sócios, etc, etc, e digam-me lá se, mesmo abatendo os 5 milhões que custou, o Lima, em dois anos, não vai dar muito mais dinheiro a ganhar ao Benfica do que o Nélson Oliveira (como já se percebeu) alguma vez dará?

Não é tanto o barato que sai caro. O fácil é que sai caro.

terça-feira, 26 de março de 2013

Eu, Paulo Bento


Era assim que devia ser:

«- Paulo Bento, uma vitória importante aqui em Baku…

- Uma vitória fundamental, apesar de estarmos a falar de uma equipa que ficou em terceiro lugar no Campeonato da Europa. Todos os dias os jogadores têm de se lembrar que o que está feito não vale nada, porque, se não se lembrarem, é certo que alguém os recordará disso.

- Sente que é uma resposta às últimas críticas à equipa e a si pessoalmente?

- Sinto que todos os portugueses de segunda, como eu, estão, hoje, satisfeitos pelo resultado da sua Selecção. Quanto aos portugueses de primeira, também sabemos que a Selecção serve, sobretudo, para ser utilizada como arma de arremesso em proveito próprio. Para esses, hoje, o dia foi mau.

- Está a referir-se a Pinto da Costa?

- Estou a referir-me à aristocracia, de uma forma geral. Há uns tempos ouvi falar de uma rainha Isabel, e achei estranho, porque cresci a pensar que vivemos numa república, mas, de facto, olhando para a nossa realidade, e para as decisões que chegam de quem tem o poder político, e judicial, sou obrigado a concluir que há portugueses de primeira e portugueses de segunda. Há os que têm de viver dentro das regras, pagar impostos, fazer contas no fim do mês, e há os que se sentem à vontade para dizerem e fazerem o que querem.

- São palavras muito duras…

- O futebol é um meio muito duro. Quem não é profissional de futebol dos que avivem sentados à secretária sabe que tem de estar preparado para levar pancada, para sofrer, para jogar com dores. Se queremos viver do futebol temos de estar preparados para dar o corpo ao manifesto. Um jogador de futebol está sempre tocado, está sempre lesionado, acorda e adormece com dores. São os ossos do ofício. Quando jogamos futebol profissional aprendemos a ser duros, e continuamos a ser duros depois de terminar a carreira. Eu, como treinador, comecei nos juniores, e nunca tive 100 milhões de euros para fazer uma equipa. Mesmo assim, só não fui campeão porque, de há muitos anos a esta parte, o futebol joga-se dentro de campo mas os títulos decidem-se à mesa das marisqueiras. Lancei muitos jogadores, alguns deles estiveram aqui hoje, e conheço-os muito bem. O Nani, o Miguel Veloso, o João Moutinho, por exemplo. Sei a vontade que eles têm de ganhar, e de lutar pelo seu país. É esse profissionalismo que os torna tão valiosos para os clubes ricos do futebol europeu. Se eu fosse contra esse espírito de campeão estaria a ir contra aquilo que os torna especiais. E as pessoas que ganham dinheiro à conta do talento deles deviam agradecer-me por eu zelar pelos seus interesses.»

domingo, 24 de março de 2013

Morrer não morre, mas é quase a mesma coisa


Parece que o Carvalho vai ser o próximo presidente do Sporting. Pessoalmente, preferia que o Couceiro tivesse ganho as eleições. Com as toneladas de vaidade que ele já tem em cima sem nunca ter feito nada que o justificasse, a ideia de o ter como presidente, a sacudir a água do capote à primeira adversidade (como tem feito sempre), a minar aquilo tudo por dentro para não parecer o incompetente que é, atrai-me bastante. Mas, infelizmente, parece que não vai dar.

Chamaram a este Bruno Carvalho um Vale e Azevedo, mas duvido muito. O Vale e Azevedo era um verdadeiro artista, um megalómano, alguém que vivia numa realidade paralela e suficientemente louco para aldrabar meio Portugal com esse convencimento. Vale e Azevedo ficará para a história como um dos grandes burlões na história de Portugal, porque é um tipo alienado. Não me parece que este Bruno Carvalho, que ninguém sabe quem é ou o que fez a não ser aquilo que ele disse que é e fez, tenha essa grandeza de alienação.

Prefiro compará-lo ao Sousa Cintra porque aparece no Sporting na sequência do mesmo tipo de experiência democrática e porque, apesar de não ser tão estroina, vai acabar da mesma maneira que o Sousa Cintra se cometer o mesmo erro que ele.

O erro do Sousa Cintra foi ter cedido à tentação de tentar destruir o Benfica, quando se devia ter juntado a ele. O resultado foi que o Benfica o destruiu a ele, ao mesmo tempo que lançava o Sporting para o terceiro lugar do ranking de clubes em Portugal.

O Bruno de Carvalho terá a mesma tentação. Pinto da Costa irá tentar seduzi-lo, porque precisa do Sporting – sempre precisou do Sporting contra o Benfica, ou do Benfica contra o Sporting (como no tempo de João Rocha, em que se associou a Fernando Martins). A Juve Leo, que o elegeu, quererá que ele faça a figura do Bettencourt, que roube jogadores ao Benfica e os apresente no jantar da claque. A brigada do reumático, que continua a confundir rivalidade com estratégia e não percebe nada de nada a não ser de peneiras, vai picá-lo até conseguir virá-lo contra o Vieira.

O mais provável é que o Carvalho, no meio dos maus resultados que se adivinham, venha a sucumbir e a fazer a mesma figura que fez o Godinho Lopes. O mais provável é que o Sporting continue a consumir-se numa guerra contra o adversário errado, uma vez que o Bruno de Carvalho, que foi eleito pelo populismo, não deverá conseguir resistir a apelar ao populismo para manter a cabeça fora de água. Mais do que um ou dois anos de resultados miseráveis, esse foi o resultado do falhanço do Luís Duque: o falhanço da aliança ao Benfica.

O Sporting não consegue resistir ao complexo de inferioridade (ou de falsa superioridade) e à obsessão que tem em relação ao Benfica. O Porto até pode ir buscar o Rui Patrício, o Carrillo ou o Bruma no próximo Verão. Desde que use a marca de vaselina que tem usado, os sportinguistas continuarão a aceitar essa constante menorização de forma submissa, e a olhar para o Benfica com um rancor que, na verdade, não se justifica.

O erro fundamental dos sportinguistas é não perceberem que o seu rival é o Benfica, mas que o seu inimigo é o Porto. A relação com o Benfica, sendo de antagonismo, é saudável, e reforça o Sporting. A relação com o Porto é venenosa, e enfraquece o Sporting. Apesar de o Porto só lhes ter dado, desde sempre, razões para desconfiar, continuam a achar que é no Benfica que está o pecado. O mal que o Porto já fez ao Sporting é incomparável com as tristezas que o Benfica já lhe provocou. Mas a lagartagem não percebe isto. Pensa que é conversa da treta, de vendedor de banha da cobra. É difícil de explicar. Por isso e que é um complexo psicológico.

E também não percebem que o Benfica já resistiu ao pior da tempestade e que está cada vez mais forte, que vai começar a ganhar campeonatos, e que isso terá repercussões sérias.

 O verdadeiro problema estratégico do Sporting é ter parado no tempo e continuar a viver nos anos 70 – na era pré-Porto.

As notícias da morte do Sporting, aventadas pelos próprios candidatos, são amplamente exageradas. Nenhum clube com 3 milhões de adeptos acaba. Até pode mudar de nome, mas leva cem anos a morrer. A questão não é essa. A questão é demográfica.

O que tem mantido a nação sportinguista estável, em termos de números, é a proximidade competitiva em relação ao Benfica. O Sporting tem ganho muito pouco, mas o Benfica também, o que tem levado a que os dois clubes tenham competido directamente para o segundo lugar, atrás do Porto. Essa competição mantém a chama acesa na zona de Lisboa, e traduz-se numa renovação da rivalidade nas novas gerações. Para os novos sportinguistas, o Benfica ainda é do mesmo campeonato. Isso leva-se para a escola, para o trabalho, onde há benfiquistas, e assim o Sporting vai mantendo os números mais ou menos estáveis.

Mas, se Benfica e Porto voltarem ao registo dos anos 80, de dividir campeonatos enquanto o Sporting ficava a ver a banda passar, como parece que está a acontecer, o Sporting corre o risco de cair abruptamente no número de adeptos.

O país tem metade da população em Lisboa e Porto, e 80 por cento no litoral. O Porto é uma coutada, e não se consegue lá entrar. Na Grande Lisboa, no entanto, que é o ponto nevrálgico da economia e da sociedade portuguesa, o Benfica não tem conseguido ganhar adeptos ao Sporting, ao contrário do Porto, porque não tem ganho o suficiente. Mas, se começar a ganhar a sério, ganhará um grande ascendente também Lisboa, e aí sim, o Sporting, se não conseguir mais que ganhar dois ou três campeonatos nos próximos vinte anos, pode passar para um quinhão de apenas 10 ou 15 por cento entre os novos adeptos, o que seria fulminante a longo prazo, pois colocaria o Sporting num limbo – nem seria o clube grande que ainda é hoje, com ambições legítimas ao título de campeão, nem seria um clube pequeno. Em termos funcionais, perderia, definitivamente, a capacidade de competir, sobretudo com o Benfica, que está em dinâmica de crescimento, e o campeonato português ganharia uma forma parecida com o campeonato escocês – presumivelmente, com um ascendente acentuado do Benfica sobre o Porto, sem chegar à hegemonia.

A grande jogada de Bruno Carvalho seria perceber a corrente da História, e entender que, se fosse para sucumbir a uma aliança Porto-Sporting, o Benfica já teria sucumbido. Não sucumbiu. E está a recuperar a sua dimensão. O Benfica já deu a volta. Já bateu no fundo, e agora só pode subir. Isto é evidente para qualquer observador disposto a distanciar-se dos facciosismos.

A hora para o Sporting de livrar da doença que é Pinto da Costa (até hoje só perdeu com isso) e agarrar-se à bóia que vai a subir é agora. Se o fizesse, assegurava a sua sobrevivência como grande clube. Mas duvido muito que o vá fazer. A doença é muito profunda. É muito mais provável que volte a confundir rival com inimigo e que, como tem acontecido ao longo dos últimos 30 anos, essa confusão o encaminhe para a vulgaridade.

segunda-feira, 18 de março de 2013

100 milhões por uma bejeca?


Não teria havido campeonato para o Benfica sem uma vitória em Guimarães, mas o Porto continua a ser favorito. Agora 55, 45.

Para ser campeão, o Benfica terá de vencer os próximos cinco jogos no campeonato, com uma e provavelmente duas eliminatórias europeias pelo meio, e sendo que a segunda, a acontecer, deverá  ser contra Chelsea ou Tottenham nas meias-finais da Liga Europa, com a deslocação a casa do Marítimo no meio. O Newcastle saíu a pedido, é uma equipa à medida deste Benfica e do Jesus. Só uma boa equipa inglesa tem capacidade para ganhar a um Benfica motivado, e o Newcastle não é uma delas. Tem 20 por cento de hipóteses de eliminar o Benfica.

Esta equipa do Benfica dá-me úlceras e põe-me aos gritos. Já me falta o verbo para a qualificar, mas penso que o que acho em relação a ela está bem explícito noutros posts. Tem três ou quatro jogadores que conseguem passar um jogo, literalmente, sem pensarem naquilo que estão a fazer, e, como equipa, só funciona aos repelões, quer a atacar quer a defender. No entanto, pode alcançar a dobradinha. Inacreditável. Mas o futebol é isto, como diria o Gabriel Alves. Vale mais ter sorte do que ser bom.

Por outro lado, a eliminação europeia irá, de facto, beneficiar o Porto. Tal como no ano passado. Em condições normais, o jogo na Madeira era o último em que a Europa podia fazer pagar factura. Aconteceu. A questão é que a estrela parece tê-los abandonado.

A partir do jogo da Luz, correu tudo ao contrário para o Porto, que está a dar razões aos seus adeptos para, genuinamente, se assustarem. Tal como o Benfica, este ano mudou a ordem das voltas, começou bem e está a acabar mal. Inverte uma tendência de muitos anos de fazer épocas em crescendo. Não é uma grande ideia.

O clube que não falha está a um mau resultado, no campeonato, de pagar 100 milhões de euros por aquilo a que chamou de taça da cerveja. Basta mais um, seja contra quem for. Nesta altura, os 18 milhões pagos pelo lateral-direito não passam de uma loucura cara, a jogada de génio de trazer de volta Lucho já não parece tão genial – porque agora dava jeito ter um jogador que substituísse o Moutinho depois do Verão –, a golpada ao Sporting pelo Izmailov, que não jogou praticamente nada nos últimos dois encontos (decisivos), não parece tão boa, porque compraram um problema mental de 30 anos, e a contratação do Liedson, que continua a «recuperar a melhor condição» está tornar-se uma anedota.

Se, a isto, juntarmos o facto do «ciclo Villas-Boas», onde se enquadram estes negócios e os dois anos Vítor Pereira, ser, fundamentalmente, um período de forte investimento financeiro no momento para combater o advento de Jesus no Benfica, e de Jesus não só continuar no Benfica (contrariando o que era normal, que era o Benfica mudar de treinador quando as coisas começavam a correr mal só para depois ficar pior) como estar prestes a fazer a melhor época do clube desde 1983, o cenário pode tornar-se realmente complicado para Pinto da Costa.

Os insultos no aeroporto a uma equipa bicampeã dificilmente terão a mesma resposta que tiveram na última época de Jesualdo Ferreira. O Porto não tem hipóteses financeiras de voltar a cometer as loucuras que cometeu então, tem consumido uma parte substancial dos seus recursos na tentativa do «ganhar agora» (em Luchos, Liedsons, Izmailovs, Mankos), prescindindo da filosofia de investimento a médio prazo – porque Pinto da Costa sente que o Benfica está num momento de crescimento e que não pode parar de o pressionar – e o Benfica, em vez de vergar, está cada vez mais competitivo. Até já compra jogos ingleses e tudo.

A solução óbvia e única parece ser a de ir roubar Jesus ao Benfica. Um plano que já deve estar em curso.

Cá no fundo, tenho uma vontade secreta de que isso acontecesse. Se, por acaso, o Porto perdesse o campeonato, fosse buscar o Jesus, o Benfica encontrasse alguém tão bom ou melhor e voltasse a ganhar o campeonato, seria de tal forma desastroso para o Porto que o processo de enfraquecimento, que se prevê lento, seria acelerado vários anos.

Um campeonato ganha-se sempre. Mas a oportunidade de assistir a uma coisa destas justifica correr riscos. Ainda para mais, ao contrário do que é a opinião comum, acho que esta equipa cresceria imenso, em termos de qualidade, se passasse a ser treinada, por exemplo, por um Fernando Santos. E também gostava imenso de ver o homem que não é de se meter en«m estruturas a tentar encaixar-se na «estrutura» que funciona tão bem que até os adjuntos são os melhores do mundo. Sobretudo, gostava de ver isso a acontecer se a Rainha Isabel fosse obrigada a aparecer nos treinos de segunda-feira muitas vezes.

Mas, voltando à Terra, é mais provável que o Porto chegue à jornada 29 sem voltar a perder pontos do que o Benfica ganhar os próximos cinco jogos.

No entanto, esse é o desafio. Se o conseguir, será campeão.

sexta-feira, 8 de março de 2013

Foi à Benfica


O Luisão ficou chateado com o pessoal no fim do jogo com o Bordéus, e até lhe fica bem – acho de uma falta de personalidade enorme, por exemplo, ver as figuras do Rui Patrício, com cara de choro, a chamar os colegas para o centro do relvado para agradecer (ou pedir desculpa?) aos adeptos enquanto estes lhes chamam de chulos para cima.

Fica-lhe bem, desde que, depois, tenha a humildade de perceber porque é que foi assobiado.

É que, com a treta de que «futebol é resultado», que vai fazendo escola, os profissionais de futebol convencem-se mesmo disso, e perdem a perspectiva certa.

A reacção dos adeptos durante o jogo é o melhor barómetro da qualidade de uma equipa. Quer no entusiasmo que gera, quer na frustração, é nessas reacções que mais nos aproximamos da verdade. Naquele momento, é todo o instinto e a compreensão subconsciente do futebol, pelo adepto, que vem cá para fora. Em relação ao jogo em si, as pessoas começam a complicar quando começam a pensar, porque aí já começam a tentar encontrar justificações e álibis para defender as suas paixões. Depois do jogo acabar, com um resultado positivo, o adepto tenta desculpar os jogadores, não por causa dos jogadores mas porque, ao fazê-lo, está a tentar justificar-se a si próprio. Afinal, se aquela equipa não joga nada, que boa razão haveria para ele lhe pertencer? Não, isso não pode ser. Ele não seria assim tão irracional. A única explicação é de que, afinal, ele é que não estava a ver bem. O adepto prefere remeter a sua irracionalidade (que ele sabe que existe) para as reacções que tem durante o jogo, porque o jogo acaba, e com ele, supostamente, acabaria a irracionalidade. A alternativa seria aceitar que se é irracional nos intervalos entre os jogos...

Só que a irracionalidade, realmente, começa quando o jogo acaba. Antes disso só há naturalidade, e o que é natural, e genuíno, só muito raramente não é verdadeiro. Irracional, irracional, é negar as evidências.

Apesar das 1500 vitórias do Jesus, dos 3000 golos, do melhor Benfica da última geração, que aparecem todos os dias nos jornais para que alguém os compre, as pessoas que vão ao futebol, que já vêem futebol há muito tempo e que sabem muito mais de futebol do que aquilo que julgam, sabem ver quando uma equipa está a jogar aquém daquilo que pode, sabem ver quando um jogador está cansado ou é preguiçoso, sabem ver quando um jogador está cansado porque andou muito tempo a dar mais do que podia ou quando está cansado porque é preguiçoso e não trabalhou o que devia para se cansar menos.

Ao contrário do que se pensa e do que se diz, as pessoas não são estúpidas. Podem não saber dizer o que pensam, podem não ter argumentos para defender um ponto de vista, podem não se saber explicar ou explicar porque pensam como pensam, mas percebem muito rapidamente as coisas essenciais. Ser básico não é ser estúpido. Nós percebemo-nos todos muito bem uns aos outros, mesmo sendo quase todos bastante básicos.

As pessoas percebem perfeitamente que o nível de exigência desta equipa do Benfica, e sobre ela, é baixo. Porque se tomam as opções mais fáceis. Porque se desresponsabiliza quando se devia responsabilizar e só se responsabiliza na hora de sacudir a água do capote.

Não é tudo evidente, valha-nos isso. São as pequenas coisas, os gestos habituais. Os jogadores, os treinadores e os dirigentes, que são pessoal muito esperto, muito vivaço, sobretudo adaptam-se. Percebem qual é o ponto mínimo de esforço que têm de atingir para serem desculpados em caso da coisa correr mal e trabalham para atingir esse ponto. Se a coisa corre bem, óptimo. Se corre mal, paciência, «porque nós trabalhamos todos os dias para atingir o sucesso.» É apenas humano. Por mais que se goste do trabalho que se tem, ninguém gosta de ter de trabalhar para viver. Eles fazem o que toda a gente faz. Não é crime.

Mas é o grau de exigência que determina o grau do sucesso.

Em termos de resultados, o Benfica, hoje em dia, é um clube vulgar. Ao todo, ganhou três ou quatro títulos em dez anos, e só um ou dois de verdadeira importância. É um clube vulgar, em resultados, porque se exige pouco. Exige-se que se ganhe jogos em vez de se exigir que se ganhe campeonatos. Exige-se que se corra muito em vez de se exigir que se seja inteligente, que é muito mais importante. Exige-se que se comece bem a época em vez de se exigir que se acabe bem a época – e é por isso que cada época do Benfica tem duas épocas diferentes, a de antes do Ano Novo e a de depois do Ano Novo.

Nada disto é dramático porque tudo isto é um processo. Há dez anos era muito pior. Hoje já se exige mais. E a única forma de impedir que o clube seja colonizado por jogadores, treinadores ou dirigentes medíocres é exigir que eles vão além do que pensam que têm para dar. Para forçar os medícores a sair e fazer a selecção natural dos bons, entenda-se.

Um jogador medíocre é o que, no fim do jogo que ganha, se chateia com o público que o assobia, vai para casa e, no treino seguinte, continua convencido de que tem razão. O bom profissional é o que vai para casa, percebe que tem mais qualquer coisa para dar e, no treino seguinte, vai à procura dessa margem.

Acho bem que o Luisão e a equipa façam birra. Birra significa personalidade. É como com as crianças, e somos todos crianças a olhar para uma bola. Mas a resposta que interessa é a que se dá a seguir, e não é nos jornais, porque nos jornais só há conversa.

Que os adeptos assobiem a equipa quando ela perde e joga mal é inevitável. Que assobiem quando ela ganha e joga mal é muito saudável. É um sinal de evolução.

E qualquer jogador, treinador ou dirigente que ache que um clube vencedor se faz a meio-gás, a gerir apenas expectativas baixas, que não goste que lhe exijam mais do que ele se exige a si próprio, não tem carácter para estar num clube de ADN como o do Benfica.

Como eu já disse no último post, no Benfica, e ao contrário do que a maior parte das pessoas foi instruída para pensar, não se valoriza quem ganha, valoriza-se quem se entrega completamente enquanto tenta ganhar. Os resultados são, e foram sempre, apenas uma consequência natural.

Para mim, o final do jogo com o Bordéus foi o primeiro momento realmente à Benfica nesta temporada.

quarta-feira, 27 de fevereiro de 2013

Não é cultura de vitória, é cultura de exigência


Correu muito bem, em Braga.

Jogaram uma série de jogadores que vão fazer falta no próximo mês (Jardel, André Almeida, Aimar, Carlos Martins, Urreta, Aimar, Rodrigo); o Benfica aguentou-se bem, com uma equipa de suplentes contra a equipa principal do Braga, até aos penáltis; como disse o Pinto da Costa o ano passado, desta já se livrou, é menos um jogo, numa competição em que, após quatro anos a vencer, e encarando friamente, tinha muito mais a perder do que a ganhar; toda a gente viu o o Braga a festejar a passagem à final da «Taça da Cerveja» como se se tivesse apurado para a Champions (com o bónus de se poder ouvir o Luisão a gozar com eles na flash interview – «para o que estão a fazer têm mesmo de comemorar»…) e, se Deus quiser, ainda haveremos de ver este Braga a jogar com o Porto na final da tal Taça que não conta para nada e que, certamente, nenhuma das duas equipas quererá ganhar. Mais um jogo para o Porto (com o do Rio Ave já são dois, tendo o do Rio Ave de ser metido à pressão entre duas jornadas do campeonato) é bom para equilibrar um pouco a contabilidade de minutos.

A jornada europeia, veremos. Continuo a dizer que preferia que o Bayer tivesse passado e que o Benfica ficasse apenas com o campeonato para jogar, sobretudo depois do resultado do Porto, que quase lhes garante a passagem na Champions. As hipóteses de sucesso do Benfica no campeonato passam por aí. O Jesus tem toda a razão, como é evidente, por mais que os comentadores da treta ou os adeptos irrealistas insistam no contrário: a incompatibilidade entre uma época de sucesso a nível interno e externo é uma evidência histórica. Apenas muito pontualmente, e com equipas de muito alto nível, se consegue juntar as duas. O argumento de que o Porto o fez com Mourinho e Villas-Boas é falacioso. Em ambos os casos o sucesso internacional só foi possível porque, a nível interno, o campeonato já estava decidido no Natal. E convém não esquecer que o caso da fruta e do Jacinto Paixão (o Pinto da Costa sabe do que se trata porque ouviu as escutas no You Tube, e, como ele disse, aparecia lá o Vieira a falar do João Ferreira, pelo que o que foi posto na Net deve ser verdade…) deu-se precisamente num jogo com o Beira-Mar antes de uma eliminatória europeia (com o Panathinaikos ou com o Corunha), para garantir que tudo corria bem.

A única coisa boa na passagem da eliminatória é que, se o Porto não perder pontos nas próximas jornadas – como é bem possível – o Benfica pode ter na Liga Europa uma hipótese de prolongar a época. O Bordéus é muito fraquinho, muito mais fraco que o Bayer Leverkussen, e, mesmo considerando que o Bayer deu a primeira mão da eliminatória de barato, terá poucas hipóteses contra um Benfica normal.

Uma época com uma vitória na Taça de Portugal, um segundo lugar no campeonato e uma presença nas meias-finais da Liga Europa, por exemplo, seria uma época muito respeitável. Não há por que negá-lo.

A este propósito, convém recuperar aquele momento em que o Jesus pôs a sua cara de inteligente, há uns dias, e disse que o Benfica é um clube com cultura de vitória.

Antes de mais, deve dizer-se que as palavras falam pouco. O que fala são as acções. O Jesus pôs todos os suplentes que pôde frente ao Braga, o que traduz a importância relativa da Taça da Liga na perspectiva geral, e fez muito bem. E isso não impediu a equipa de jogar para ganhar. O Benfica não entregou o jogo. Facilitou, obviamente, mas não o entregou.

Depois, há duas questões diferentes.

A primeira é a de que o Benfica não tem, actualmente, uma cultura de vitória. E devo dizer que já não a tem há muito, muito tempo. Deixou-a deslassar a partir sensivelmente de meados da década de 80. O que o Benfica tem tido, esporadicamente, desde então, é algumas equipas que vão ganhando o hábito de ganhar e, muito mais vezes, equipas que tentam não perder. É muito diferente ter uma equipa que vai ganhando o hábito de ganhar (que era aquilo a que o Jesus se estava realmente a referir, confundindo o Benfica com a equipa que ele acha que é a sua equipa, a que ele inventou desde que chegou) e ter um clube com a cultura de vitória. Esta equipa tem fomentado, mais que todas as outras desde Eriksson, o hábito de ganhar jogos, o que a torna, por si só, na melhor dos últimos 25 anos, mas o clube está muito longe de ter recuperado a sua cultura de vitória. E isto por causa da segunda questão.

A segunda questão, que o Jesus (porque sempre foi sportinguista) e a maior parte dos benfiquistas ainda não conseguiram entender, é que a cultura do Benfica nunca foi, realmente, uma cultura de vitória: foi, sim, originalmente, uma cultura de trabalho e de espírito de superação. Foi daí que surgiram as vitórias, mas não, note-se, uma verdadeira cultura de vitória. As vitórias, no Benfica, nasceram do sacrifício colectivo, do trabalho, e a própria humildade de base na cultura benfiquista (popular, inculta, generosa mas pouco ambiciosa, pouco aristocrática) impediu o clube de adquirir uma cultura de vitória que o tornasse, por exemplo, no que hoje é um Barcelona ou um Real Madrid.

A verdadeira essência do Benfica, mais do que ser uma potência dominadora (quando chegou a altura de dominar, o clube veio a cair no deslumbramento e no novo-riquismo que ainda hoje o domina), é triunfar apesar das adversidades.

Dificilmente veremos no Benfica, algum dia, a aura aristocrática de um Real Madrid, aquela nobreza que parece natural, o sangue azul que parece estar na própria base da altivez desse clube. Mais facilmente veremos o Benfica, novamente, a aparecer entre os grandes em situações desfavoráveis e, depois, a recuar novamente. Seria preciso, para que assim não fosse, que houvesse uma grande revolução cultural entre a massa adepta do Benfica para, no espaço de uma geração, conquistar esse ADN dos que se se sentem realmente melhores que os outros. Não o sentimos. Sentimos que lhes podemos ganhar, isso sim. Mas não que somos naturalmente tão bons como eles.

Independentemente disto, o que interessa é que a cultura do Benfica é a da superação, da exigência acima do normal, acima do vulgar, e não a «cultura de vitória». É isso que o Jesus não entende, e é isso que me leva a não me rever, ainda, nesta «equipa do Jesus».

Esta equipa não reflecte a verdadeira cultura do Benfica. Exige pouco de si própria. Não tenta superar-se o suficiente. Resigna-se com demasiada facilidade. Aspira a pouco.

Não é que exija pouco, que não se tente superar ou que se resigne facilmente. Não é isso. Apenas o faz a níveis normais para qualquer equipa normal no mundo. E o que tornou o Benfica imenso foi precisamente isso: o Benfica não é apenas normal.

Quando vejo um colunista, no Record, a dizer que o Benfica precisa mais do Jesus que o Jesus do Benfica fico com os cabelos arrepiados. Porque esta gente, tão inteligente, não chega lá. Não percebe que um clube como os outros, que nasce no meio dos outros, não se torna tão maior do que os outros apenas por fazer o que os outros fazem, ou por pensar como os outros pensam.

O Benfica ergueu-se acima dos restantes a fazer o que parecia impossível. Não foi apenas «gestão». Foi devoção.

Dito tudo isto, o Benfica, como clube, teria «cultura» para jogar tudo e ganhar tudo, sem ter de abdicar de nada? Teria. Mas não com esta equipa.

domingo, 17 de fevereiro de 2013

O meteorito da sorte


Não devo ser desonesto. Aquilo que eu escrevi antes do penálti do Lima foi isto:

«Uma exibição absurda de uma equipa sem verdadeiro estofo para ganhar o campeonato, que é perdido, pela segunda época consecutiva, assim que é jogada a primeira eliminatória europeia do ano e sobe o ritmo e a exigência da competição.

Uma equipa que trabalha pela metade, orientada por um treinador que vive de esquemas, que vai aprendendo à medida que o esquema anterior falha e cuja principal capacidade é sobreviver, que tenta resolver a esbracejar o que não consegue preparar com trabalho, impreparada para enfrentar um adversário muitíssimo fraco e previsivelmente superdefensivo, sem ter uma jogada ensaiada para libertar um extremo que cruze, sem o mínimo de perigo nas bolas paradas, sem liderança em campo e sem verdadeira vontade de ganhar, incapaz de lutar contra as dificuldades numa noite mais difícil.

O Porto vai ser um campeão justo e, com a previsível eliminação de Lyon, Liverpool, Olympiakos, Nápoles e Atlético de Madrid da Liga Europa, se os benfiquistas querem ver futebol até ao fim da época têm de esperar pelas quintas-feiras. Os jogadores já mostraram onde está a sua cabeça e o treinador não tem dificuldade em admitir que a Europa  ‘é que dá prestígio’. Não faria sentido, aliás, outra coisa, a partir de agora, senão apostar na Liga Europa e na Taça de Portugal.

Fica-se em segundo, ganha-se a Taça, joga-se na Europa até Abril e está feita a época.

Se Vieira estava à espera do jogo das Antas para saber se renovava com o Jesus, a partir de agora só está a perder tempo. Ou renova ou não renova e só tem de assumir o que quer.

Quanto a mim, até me dá jeito. Começa amanhã o meu último semestre e quanto menos distrações melhor.»

 

Posto isto a limpo, deve dizer-se o seguinte:

- o penálti é indiscutível. Há um corpo a corpo que é legal e, quando o defesa se desequilibra e perde a posição, há um puxão que é ilegal e impede o Gaitán de jogar a bola;

- o Benfica teve hoje a mesma estrela que teve, há três anos, quando o Javi Garcia marcou de cabeça, na Luz, no último minuto, frente à Naval. Não sei se é estrela de campeão, mas sem estes três pontos o campeonato estava entregue. Se o Benfica chegar a ser campeão, há quatro resultados fundamentais, até agora: a vitória em Alvalade, a vitória em Braga, o empate do Porto com o Olhanense e esta vitória com a Académica. Será, talvez, a propósito das imagens que chegaram da Rússia, o meteorito da sorte - cuja onde de choque atingiu, certamente, o Porto, com o mesmo impacto;

- a Académica foi a pior equipa a jogar na Luz este ano. Não fez um remate à baliza, fez todo o tipo de anti-jogo e mereceu perder por 5 ou 6. Não merecia o empate porque, ao contrário do que disse o seu treinador, não teve coragem nenhuma. No entanto, a questão do «merecimento» não está em causa. Não está hoje como não esteve, por exemplo, no empate do Porto com o Olhanense. Nestes jogos as equipas grandes merecem sempre ganhar. Atacam mais, jogam mais e são sempre melhores. A questão é conseguir ou não ganhar.

Posto também isto a limpo, e excepção feita às consequências que o empate teria para o resto da época, não vejo, num penálti que tanto aconteceu como podia não ter acontecido, razão suficiente para mudar nada do que já tinha escrito após ver o Benfica a jogar durante 94 minutos.

quinta-feira, 14 de fevereiro de 2013

Hora de mudar de moscas


Coloquemos a coisa desta forma: se eu pertencesse ao directório do Benfica e controlasse o Conselho de Disciplina, as decisões tomadas nesta reunião de 4.ª feira teriam sido praticamente as mesmas que foram anunciadas.

Não há razões objectivas para a despenalização de Matic. O árbitro considerou jogo violento e não há, nas imagens, prova em contrário. Apenas a sensação clara de que o jogador do Nacional desproporcionou e tirou proveito da situação. Um jogo de descanso para o Matic, frente à Académica, até pode ser positivo. Andam há um mês a ver se o expulsam, o Proença fez-lhes a vontade, mas os danos são mínimos, e até é favorável, em termos de opinião pública, que a expulsão ocorra numa situação muito duvidosa. O Benfica está a fazer o seu papel, insinuando que a expulsão foi injusta, e, neste caso, terá ganho munições, assim saiba fazer o seu papel de prejudicado.

Para o Cardozo, o ideal teria sido levar dois jogos. A expulsão e o castigo, como já escrevi, eram inevitáveis, e o gesto de puxar o árbitro não deveria passar em claro, mesmo não sendo, realmente, uma agressão ou tentativa disso. Castigar o Cardozo apenas com um jogo limpa a segunda parte da cena, e isso é estranho – mesmo que seja defensável, por parte do Conselho, com a norma aplicada.

Um jogo pela expulsão e um jogo pelo puxão, teriam tido a virtude de, por um lado, colocar o Benfica mais a salvo de insinuações de domínio sobre o CD, e, por outro, reduziria o castigo a um mínimo razoável. O Benfica teria passado por este caso podendo dizer que não está acima da lei (ficando, assim, com a razão moral do seu lado) apesar de colher os benefícios da benevolência dessa mesma lei. Em termos futuros, teria sido mais útil, e em termos imediatos não haveria grande diferença – se for por não jogar o Cardozo que o Benfica não ganha à Académica ou ao Paços de Ferreira em casa, então não há nada que esta equipa possa, realmente, ganhar.

Quanto ao indulto ao Porto, é perfeito.

Em boa verdade – e ao contrário da manipulação de calendário do jogo com o Setúbal, que pode ter influência no campeonato –, todo o caso é uma mera esquisitice. Eliminar o Porto por causa de 15 minutos e de pôr a jogar três jogadores que nunca actuam pela equipa principal (caramba, se tivessem posto o James, o Jackson e o Moutinho para se apurarem, agora o Fabiano, o Abdoulaye e o Sebá…) é uma aberração jurídica. Aí, o Porto tem razão. Mas o que é um facto, e o que torna o caso realmente interessante, é que, mesmo sendo injusta, a decisão certa, de acordo com a norma, só podia ser a de dar a derrota ao Porto. Ou seja, houve uma subversão da norma em benefício do Porto. O resto são advogados a falar (e podem estar mais vinte anos a falar sem que algum dos lados ache que perdeu a razão).

Isso, para o Benfica, é bom.

Melhor ainda é que o Porto passe a ter mais dois jogos no calendário.

Além disso, como já aqui escrevi, meio a gozar, mas a falar sério, que é preciso que uma das equipas do regime ganhe a Taça da Liga para os três (quatro?) títulos do Benfica serem valorizados. A Taça da Liga está numa fase de afirmação, em que importa mais o seu prestígio do que o troféu em si.

Neste momento, e até pelo contexto competitivo em que está inserido, não há melhor cenário para o Benfica, nesta Taça da Liga, que ver Porto e Braga disputá-la numa final fratricida (e de preferência com erros escandalosos de arbitragem, muita vaselina e luvas de látex, como no jogo do campeonato).

Se eu fosse do Benfica e mandasse no CD, tinha inventado quaisquer justificações para manter o Porto na Taça da Liga, e quanto mais contra a lei melhor, para que se ficasse com a ideia de que se estava a passar por cima da lei para beneficiar o Porto.

Este caso é interessante, sobretudo, porque, pela coincidência de casos, vem abrir uma hostilidade que, no futuro, com a rebipolarização do futebol português, é inevitável, e que já aconteceu durante uma parte dos anos 90. Falo do controlo dos Conselhos de Arbitragem, de Disciplina e de Justiça da FPF.

Não estamos em condições de dizer qual dos dois clubes é que tem, neste momento, mais peso no C. Disciplina, mas tenho a certeza de que este é apenas um primeiro caso, no pós-Apito Dourado, de muitos em que a vantagem dentro do campo será condicionada pela vantagem nos gabinetes e nestas reuniões de 4.ª feira.

A ideia de que o Conselho aproveitou para beneficiar os dois clubes, compensando cada um pelo benefício dado ao outro, não me convence minimamente. Tenho a certeza de que o Conselho de Disciplina nem é independente nem é neutral, nem isento. Estou seguro de que há muitas pressões para o controlar, e que esse controlo está em andamento. Só não sabemos, ainda, quem o controla. Mas o seguimento que este caso vai ter, em termos de opinião pública, e quando ocorrerem outros casos, torná-lo-á claro. Estas decisões não foram tomadas para beneficiar os dois clubes: foram tomadas para, no futuro, ao beneficiar um dos clubes e prejudicar outro, serem usadas como argumento de idoneidade. Dir-se-á: «Mas, se nós queremos prejudicar o clube ‘x’, por que é que naquela situação o beneficiámos tão claramente?» Podem esperar. Esta decisão não foi uma decisão, foi um álibi para o futuro.

Se eu tivesse de apostar, agora, em qual dos dois está a trabalhar melhor o CD, até pelo que já disse, apostaria mais no Benfica. Mas está tudo em aberto. O Porto não é de facilitar nestas coisas, e trabalha a longo prazo.

Certo é que ambos estão, desde há muitos meses, a mexer-se para garantirem o domínio da nova ordem que advirá da passagem para a FPF da Arbitragem e da Disciplina.

Aos mais novos deve ser tornado claro uma coisa: a Liga Profissional de Futebol não surgiu devido ao grau de sofisticação, de boa vontade ou de súbita iluminação empresarial dos dirigentes. Ela surgiu porque a corrupção dos vários Conselhos dentro da Federação atingiu tal ponto, era de tal forma escandalosa, a ditadura do Porto era de tal forma esmagadora, que se tornou necessário arranjar maneira de lavar a situação. A criação da Liga (algo que estava na moda na Europa, nessa altura) e a passagem da Arbitragem, Disciplina e Justiça para a Liga foi a forma de mudar tudo para que tudo pudesse continuar na mesma.

Falava-se da Liga como se, de repente, as pessoas fossem mudar de carácter porque mudavam de sala, mas os dirigentes eram os mesmos, os árbitros eram os mesmos, os processos eram os mesmos, e poucos anos depois a escumalha que estava num lado (como algumas caras novas, como o Valentim Loureiro) já tinha passado para o outro, bem instalada na sede da Liga, no Porto. Talvez não saibam, ou não se lembrem, mas até o Pinto da Costa se deu ao luxo de ser presidente da Liga, apoiado pelo Manuel Damásio, o pior presidente na história do Benfica (sim, leram bem, o pior, e um dia falaremos disso).

O que se está a passar agora é a mesma coisa, mas com uma diferença. Enquanto naquela altura o que estava em curso era um fortalecimento óbvio do Porto, através da legitimação dos processos que esse clube usava para dominar o futebol português, por via de uma nova associação voluntária de TODOS os clubes, hoje, após o recuo imposto pelo Apito Dourado, e do confronto aberto com um Benfica de Vieira em fortalecimento, o que está em causa é a supremacia sobre a nova hierarquia, com o Porto a partir em vantagem, por motivos históricos e por causa de Pinto da Costa, mas a não estar claramente acima.

Mais que saber quem manda, hoje, no Vítor Pereira (o presidente do CA…), o que está em causa é sabe quem vai mandar nos vários Conselhos daqui por dois/três anos. É aí que há muitos pontos a ganhar. Foi aí que o Porto fez realmente a diferença na década de 90, passando-se de uma realidade em que as duas equipas ganhavam os campeonatos alternadamente para outro em que o Porto (com piores jogadores, note-se) passou a ganhar oito em dez, e o Benfica um em dez. Os sucessivos benefícios transformaram uma diferença mínima numa superioridade constante que, depois, se transformou numa hegemonia intocável.

A grande subtileza deste caso está nas duas últimas palavras do comunicado do CD, quando se fala na impossibilidade de fazer uma «interpretação extensiva» da norma constante no artigo.

Fazer uma «interpretação extensiva» da lei significa que, ao aplicar a norma jurídica ao caso, o decisor considera que, ao criar a lei, o legislador deixou a letra da lei aquém do espírito da lei (do pensamento e das intenções que a originam), e que, como tal, aquele que a interpreta deve dar mais importância ao espírito da lei do que ao que nela está escrito.

O CD optou por uma interpretação literal da lei, considerando que a letra da lei reflecte inteiramente o espírito que lhe está subjacente.

Também poderia ter optado por fazer uma interpretação restrita da lei – concluindo que o espírito da lei ficaria aquém da letra da lei.

É indiferente.

A subtileza, aqui, é que toda e qualquer norma jurídica tem de ser interpretada, e os vários tipos de interpretação permitem, a quem decide, interpretá-la como acharem melhor – ou como der mais jeito. Quem pensa que a lei é unívoca, está doido. A lei é o instrumento dos habilidosos e dos despudorados.

E é por isto que é importante controlar os homens que interpretam as leis. Porque, estando lá postos, eles não precisam de se justificar perante ninguém para fazerem o que querem. E fazem-no agindo dentro da lei, e com a força coerciva do seu lado.

A lei é sempre uma interpretação. E quando a lei não serve a ética ou o interesse comum, mas interesses particulares, a corrupção está instalada.

Este caso, em que os interesses particulares foram colocados acima da ética, e em conjunto com o clima de guerra civil latente é, para mim, liminar: vem aí mais um ciclo de pouca vergonha.