Só agora, ao ler as declarações do Professor Pardal, percebo
que talvez não tenha sido suficientemente claro e objectivo na análise que fiz
a seguir ao Benfica-Sporting. Como tal, tenho de me penitenciar, e alterar
alguma coisa em relação ao que disse.
Antes de mais, dizer ao Professor Pardal que não são apenas
duas pessoas que acham que o Capela ajuizou bem nos penáltis-fantasma na Luz:
somos três. O Capela, o observador da arbitragem ao jogo e eu. Com mais um já
dá para fazer uma suecada.
(Devo só notar que ainda ninguém se entendeu sobre quantos
penáltis é que houve na Luz. Alguns sportinguistas falam em quatro, outros em
três, outros em dois, outros em um, o Vítor Pereira fala em três e meio, e a
única coisa que sobra disto tudo é que ninguém parece saber o que é que é
penálti e o que não é. O que fragiliza, só um bocadinho, os seus argumentos…
Mas adiante.)
Depois de salientar que não houve erros graves do Capela na
Luz, devo, então, acrescentar alguma coisa em relação ao texto inicial.
É preciso dizer que tenho poucas dúvidas de que quer o
Capela quer o observador estivessem controlados pelo Benfica.
Como é que se justifica esta aparente contradição? De uma
forma muito simples.
O que seria normal, naquelas situações, seria marcar penálti
– pelo menos no do Volkswagen. Não por ser penálti, que não é, mas porque é o
que se costuma fazer.
Teria sido normal (errado, mas normal) que o Capela tivesse
marcado aquele penálti.
Da mesma forma que teria sido normal ao fiscal-de-linha do
jogo com o Nacional marcar fora-de-jogo no primeiro golo do Nacional
(lembram-se?). Também foi estranho não marcar, porque, mesmo errando, os
fiscais-de-linha marcam sempre aquilo.
Como é normal marcarem falta sobre o guarda-redes sempre que
ele se atira para o chão a esbracejar dentro da pequena-área. Foi o que
aconteceu, por exemplo, na primeira jornada, quando o Beto simulou uma falta do
Cardozo e levou o árbitro a invalidar o terceiro golo do Benfica, que lhe daria
a vitória.
Um grande exemplo disto foi o que aconteceu ontem no Estoril,
na jogada em que o Braga reclama penálti. A decisão do Bruno Paixão é
sensacional. Diria mesmo que foi a melhor decisão, tecnicamente, que vi este
ano no campeonato, confirmando que o Paixão, sendo uma pessoa doente – como já
aqui disse há uns tempos – pela obsessão compulsiva que tem em estar no centro
do Universo, é, em termos técnicos, o melhor árbitro português.
Na repetição por trás da baliza, vê-se claramente o
guarda-redes a alterar a trajectória da bola com a perna, ficando demonstrado
que a defendeu, apesar do espalhafato do Custódio. Uma grande saída da baliza,
uma grande decisão do árbitro e, na Sport TV, o que é que se ouve: a repetição,
até à exaustão, que tinha sido um erro. Porquê? Porque teria sido o mais óbvio,
porque o que se espera dos árbitros é que marquem aquelas coisas,
independentemente do que ajuízam em campo e do que está certo, e porque decidem
que é um erro, mesmo não o sendo.
A lógica subsequente, é óbvia: se ele não marca é porque não
quer, se não quer é porque está «comprado».
Com o Bruno Paixão, não acredito que esteja comprado. Como
já aqui disse, o Paixão não é comprável. Para ele, a possibilidade de, mantendo
a incorruptibilidade, continuar a poder provocar as pessoas e chamar as
atenções, é impagável.
Do Capela, já não consigo dizer o mesmo. É um árbitro igual
aos outros, faz o que se espera dele, subindo, assim, na carreira, mantendo as
pazes com o sistema e, por isso, quando «decide» tornar-se muito melhor árbitro
do que é, é demasiado estranho.
Para mim, portanto, o Capela entrou em campo decidido a não
sair dele sem uma vitória do Benfica.
Dito isto, o que se deve também dizer é que o Vieira está a
caminho de se tornar num grande dirigente, de acordo com os critérios
portugueses.
Em Portugal, um dirigente que, durante 31 anos, provoque
violência, corrompa árbitros, compre jogos, manipule as instituições, a
comunicação social e a indústria do futebol; um dirigente que utilize quaisquer
meios para atingir os seus fins é, pelo que tenho visto nos últimos anos, o
melhor dirigente do mundo, um exemplo para o país e um fiel representante da cultura
nacional, arriscando-se mesmo a ser recebido em apoteose na Assembleia da República,
a ser condecorado por instituições políticas sustentadas pelo voto e pelos
fundos da população, e a colocar-se acima da lei.
A lição que podemos aprender dos comentadores, fazedores de
opinião ou simples adeptos iluminados deste país – uma ideia emitida sobretudo
a partir desse arquipélago de inteligência e carácter nacional que é a região
do Grande Porto – é que a única coisa que realmente interessa é ganhar, e que quem
não ganha não é honesto, mas fraco, e como tal merece ser humilhado.
Sendo assim, eu, ao contrário do Pinto da Costa, sinto-me
optimista, porque o Benfica ganhou. E se ganhou, de acordo com o pintismo, é
porque foi melhor – seja lá no que for.
A única coisa que espero é que continue a ganhar. Porque, se
ganhar o suficiente, e durante o tempo suficiente, tudo aquilo que fizer de
criminoso será facilmente apagado da opinião pública.
Sim, claro que eu gostaria queos campeonatos em Portugal não
fossem ganhos mergulhados em lama, mas, como também já aqui disse, não é
possível fugir a ela, porque Pinto da Costa é a lama que não sai deste futebol,
e enquanto ele e os seus cordeiros cá andarem não haverá senão lama.
Num dos primeiros posts deste blog escrevi uma coisa que
mantenho. Todos gostaríamos de ganhar «limpinho, limpinho», de ver os méritos
reconhecidos pelos perdedores, para podermos fazer o mesmo quando perdêssemos.
Quando isso não é possível, contudo, quando, entre quem joga, há quem não ligue à maneira como se ganha desde que se ganhe, só há um caminho: perceber as regras do
jogo e ganhar com aquilo que nos põem à frente.
Se a alternativa é ver a mafia do Porto a ganhar, a
baixar-nos as calças, a montar-nos e a forçar-nos a agradecer, todos os anos,
eu prescindo. Prefiro ter os Capelas todos na mão e ver os que perdem a tomar
comprimidos para a azia, obrigado. E espero que continue, até mudar o regime.
Porque, para mudar o regime, basta que a sua cabeça (Pinto da Costa) comece a
perder.
Não se envergonhem. Afinal, as elites deste país demonstram-nos
que a vergonha é um conceito a que o bom povo dá demasiada importância. Por
isso é que não vai a lado nenhum. Certo?