segunda-feira, 6 de maio de 2013

E Deus, dará?


O futebol  é pressão. Quem não consegue lidar com a pressão só ganha alguns jogos, nunca ganha nada de importante sem ser por acidente ou por favor.

Já aqui escrevi muitas vezes (as vezes suficientes, diga-se) que a classe é fazer o que é preciso ser feito no momento em que é preciso ser feito. O facto de eu escrever essas coisas quando o Benfica ganha leva os inquisitores do benfiquismo (que também os há) a responderem: «Bom, então quando se ganha tem-se classe, e quando se perde não se tem classe!»

Por isso, neste momento, eu vou repetir aquilo que já disse 50 vezes. Só para parecer um gajo muito pretensioso.

Há duas coisas que as grandes equipas, com classe, têm de saber fazer para serem grandes equipas.

A primeira é saber como cada jogo tem de ser jogado. Ou seja, jogar cada jogo de acordo com as suas características e aquilo que o envolve (o adversário, o cansaço, o resultado necessário, etc). O que implica, muitas vezes, ter a personalidade suficiente para ir contra o senso comum.

A segunda é executar essa estratégia, de forma colectiva. O que implica saber executar os gestos e os movimentos adequados sob pressão.

O Benfica não é uma grande equipa porque não tem classe.

Não tem classe porque joga todos os jogos da mesma maneira, e porque não sabe executar o que tem de executar nos momentos em que é necessário.

É uma equipa que joga ao deus-dará.

É-o há quatro anos e continuará a sê-lo durante mais quarenta, se for caso disso.

Se Deus der o campeonato, dá. Se Deus não der, não dá.

É o pressuposto da fé.

domingo, 5 de maio de 2013

Genial, Professor Pardal!


Grande jogada psicológica do Professor Pardal, a mostrar muito respeito por uma equipa com um orçamento dez vezes inferior ao da sua e com mais vinte pontos no campeonato. Uma jogada à sua altura. Uma jogada que resultou em pleno: com a vitória da equipa mais mentalmente forte sobre a equipa mentalmente inferior. A dele.
Não quero ser (muito) faccioso, mas se algum treinador do Benfica, mesmo no último lugar, tivesse a ousadia de dizer que o Paços de Ferreira era favorito, independentemente das manobras psicológicas envolvidas, em qualquer circunstância, contra o Benfica, não era com o resultado do jogo que teria de se preocupar.
O Sporting que continue a apostar no «Professor». Vai ensinar muitas coisas positivas àquela miudagem. Sobretudo a pensar em grande.
Este é o tipo de coisas que o Jesus não diria nem com uma arma encostada à cabeça.
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Hoje vi uns cinco jogos de futebol enquanto ia tratando de burocracias. Nesses cinco jogos vi dezenas – atenção, eu disse dezenas – de jogadas em que os jogadores se agarram mutuamente, se embrulham e caem. Em cerca de metade o árbitro marcou falta, na outra deixou seguir. Mas no Benfica-Sporting é suposto aquela jogada ser penálti indiscutível. Porquê? Porque o Benfica está a ganhar o campeonato ao Porto. É esse o único critério, certo?
Nesses cinco jogos também vi os árbitro, na maior parte das vezes, a marcarem falta ao atacante quando este põe a perna entre o defesa que vem ao corte e a bola. Mas quando o Volkswagen sai da sua linha para meter a perna esquerda à frente do Garay, que já vem lançado, estamos a assistir, segundo o Bernardo Ribeiro, do Record, um lagarto doente (sei-o eu, e não é porque ninguém me disse), a «um roubo».
À noite, na Mata Real, vi o Capel a fazer o que faz sempre – sempre; repito, sempre! – que não consegue controlar a bola em jogadas de um contra um: a atirar-se para o chão, e sempre que pode indo contra as pernas do adversário, para poder simular melhor a falta. Se os árbitros não metessem o livro de leis no bolso, em todos os jogos do Sporting, o Capel não acabava um jogo. Mas, na Luz, aquele choque provocado pelo Capel não só era penálti como tinha de dar expulsão do Maxi Pereira. Porquê? Porque a equipa que ganhou vinte campeonatos em trinta anos conseguiu convencer os idiotas da bola de que o sistema é controlado pela equipa que ganhou três nos últimos vinte. Cada país tem a inteligência que merece, e depois não me venham dizer que a culpa é da troika.
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Estava a ver o trailer do Benfica-Estoril, na Sport TV, e veio-me esta ideia à cabeça: o Benfica-Moreirense pode ser o último jogo que a Sport TV emite do Estádio da Luz. Se fosse o jogo do título seria (como dizer) uma fina ironia…
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Estava a ver o Guimarães-Gil e dei comigo a pensar na contagem de espingardas na luta pelo sistema.
A contratação do Ricardo e do Tiago qualquer coisa pelo Porto, por 2 milhões de euros, é muito mais relevante do que o mero negócio indica. É um canto de sereia do Porto para a nova Direcção do Guimarães. (O Porto continua a fazer vida de rico. Dar 2 milhões de euros por dois jogadores que não valem nem metade disso para os emprestar dá excelentes indicações de gestão para o futuro. Era isto que o Angelino Ferreira queria dizer com downsizing? Se é uma palavra estrangeira, tem razão, com certeza.)
Pelo que se lê nas entrelinhas, as coisas parecem bem encaminhadas para o Sporting se aliar ao Benfica. Está a ser feito devagarinho, porque os Juve Leos e a brigada do reumático do Sporting continuam convencidos de que o Pinto da Costa é que é bom (vê-se, pela quantidade de segundos lugares que o Sporting acumulou naquilo que o Bettencourt classificou como «segundo melhor período na história do clube»).
O Pinto da Costa está a precaver-se, tentando unir os pequenos sem seu redor.
Neste momento, considerando a próxima época, na I Liga, os exércitos estariam assim definidos, sensivelmente:
Exército Vermelho – Benfica e Marítimo.
Neutrais mas avermelhados – Paços de Ferreira, Estoril.
Em aproximação ao Exército Vermelho – Sporting.
Exército Azul – Porto, Braga, Rio Ave, Académica, Setúbal, Olhanense, Belenenses (não se esqueçam de quem é o novo dono do Belenenses, o Rui Pedro Soares da falcatrua do Taguspark, que é dragão de ouro e, na minha opinião, entrou no Belenenses como testa-de-ferro).
Neutrais mas azulados – Beira-Mar.
Em aproximação ao Exército Azul – Nacional, Guimarães
A política de contratações virtuais, como eu gosto de lhes chamar (do tipo Luisinho, Michel, Fabiano, Ricardo, Tiago não-sei-quê), e de empréstimos, pode ajudar a definir alguns indecisos, mas o núcleo dos pequenos está, sem dúvidas, com o Porto. É algo, aliás, que se vê nas declarações dos dirigentes e treinadores quase todas as semanas. Quando aparece alguém como o tipo do Marítimo a dizer o que disse até se torna notícia.

quinta-feira, 2 de maio de 2013

25 por cento para começar


Não sei se estou mais nervoso com a perspectiva de ser eliminado ou de ir à final.

Quando penso na última semana do campeonato,  a ideia de jogarnas Antas no sábado, Com o Chelsea, na final, na 4.ª feira, e de ter de ganhar a uma equipa metida no buraco na última jornada, até tenho cólicas.

Há uma semana disse que o Benfica tinha 25 por cento de hipóteses de passar à final. Por um lado, por causa do resultado, por outro porque os turcos me parecem mais comprometidos, mais concentrados, do que o Benfica – o que é natural, considerando que, para o Benfica, a Liga Europa é a segunda prioridade neste momento, e tem tido finais atrás de finais, e para eles este é o jogo das suas vidas.

Penso que as hipóteses do Benfica passar dependem de marcar um golo nos primeiros 30 minutos e, a sofrer algum, de o sofrer até ao intervalo.

A ver vamos.

quarta-feira, 1 de maio de 2013

A 3.ª parte é que foi «à campeão»


A 2.ª parte do Benfica no Funchal foi muito melhor que a 1.ª, sim senhor, mas a 3.ª parte, que foi jogada hoje, a solo e à capela, pelo João Gabriel, essa sim, foi de um nível de excelência a que os benfiquistas não estão habituados.
Antes de mais deve dizer-se que a gestão do pós-dérbi foi praticamente perfeita por parte do Benfica. Se bem se lembram, até sábado, não houve uma palavra. Demonstrou compostura, controlo mental e consciência da situação.
A imagem que passou do dérbi, verdadeira ou não, foi a de que o Benfica tinha o controlo da arbitragem. Apesar da tendência para dizer logo que não, a verdade é que não faz mal nenhum deixar as coisas em aberto. Afinal, como ensinou Maquiavel, ao príncipe vale mais ser temido que amado. O silêncio foi positivo. Até porque, reagir, era como assumir a culpa.
Além disso, havia jogo na quinta-feira. Ou seja, as ladradelas não durariam mais de três dias, porque a meia-final na Turquia, por direito natural, passaria a ser o tema principal da imprensa desportiva.
Já a seguir ao jogo da Turquia, e depois da canalha se ter toda calado, o Vieira fez exactamente o que tinha a fazer: falou, pouco, apenas para lembrar que o Benfica não tinha beneficiado de nada de que o Porto não tivesse beneficiado durante vinte anos. Fê-lo apenas para dar espaço de manobra, na opinião pública, ao árbitro do jogo de segunda-feira. Se tivesse ficado completamente calado abriria espaço a que o árbitro se sentisse desamparado e forçado a compensar o Porto.
A subtileza, aqui, é que o que Vieira realmente diz não é que o Benfica é inocente, mas que o Porto também é culpado. Ou seja, reforça a ideia que tinha ficado como silêncio anterior – que o Benfica agora também tem poder sobre o sistema – e, ao mesmo tempo, joga a cartada da justiça, dizendo que o Benfica merece ter esse poder.
O que o Vieira disse é que «agora é a nossa vez». E quem pode negar que isso é justo?
Mas a jogada de classe foi a desta segunda-feira, porque implica, essa sim, o estofo de esperar e confiar pela resposta da equipa em campo antes de marcar esta posição.
Se a equipa tivesse perdido, num jogo sem casos, este comunicado faria tão pouco sentido que, provavelmente, nem sequer seria feito.
Fazer o trabalho em campo e reforçar esse trabalho com a máquina fora de campo é algo que o Benfica não fez durante décadas, primeiro por falta de estofo (fora de campo), depois porque, dentro de campo, não conseguia resolver nada. Durante anos a mensagem do Benfica, mesmo quando tinha razão, foi constantemente minada pela incapacidade dentro de campo, perdendo, por isso, a sua força.
Desta vez não.
Com a legitimidade adquirida por um fim-de-semana perfeito, em que não só ganhou com a melhor arbitragem do campeonato como se viu as duas equipas contestatárias (Porto e Sporting) a serem flagrantemente beneficiadas por erros de arbitragem, a conferência de imprensa do Jorge Gabriel deu, sem qualquer dúvida, a posição elevada ao Benfica.
Tocou nos pontos essenciais, foi conciso e objectivo, falou das intenções escondidas (aproveitar o jogo do Marítimo), da fruta, da visita à Assembleia da República (João Gabriel, confessa lá, andas a vir aqui ao blog, não andas? Continua, fazes bem), e do escândalo dos guarda-redes múltiplos.
Mais ainda: fez tudo isso pagando na mesma moeda, porque dificilmente o árbitro se conseguirá esconder (à Xistra) se o Danilo, o Sandro ou qualquer outro voltarem a fazer grandes defesas na Madeira.
Nos últimos 15 dias, o comportamento do Benfica fora de campo tem sido de um profissionalismo e de um talento, como disse o Gabriel, sensacional.
Definitivamente, parece que os tempos estão a mudar.
P.S. – Tudo indica que o Sporting arranjou, finalmente, um presidente a sério. Voltaremos a isto daqui a uns tempos. Mas, se o Bruno de Carvalho mantiver o equiçíbrio, se não se deixar enganar pelos Juve Leos, e se o Benfica souber jogar a sua cartada, com cabecinha, podemos estar a assistir ao princípio do fim do regime de Pinto da Costa, e ao início de uma era de recuperação da supremacia de Benfica (mais) e Sporting (o suficiente) no futebol português.

segunda-feira, 29 de abril de 2013

Marítimo-Benfica

Um golo aos 5 minutos a favor de uma equipa que não sabe jogar em vantagem, e em que apenas os defesas sabem defender.

Bola para a frente de qualquer maneira, a dar o jogo todo ao Marítimo, que tem sempre três homens na frente - com um relvado aos buracos, em que a bola está constantemente aos ressaltos, dificultando os cortes de primeira.

Jogadores a darem espaço e pouco concentrados, nitidamente desgastados em termos físicos.

Está-se mesmo a ver o que isto vai dar, não está?

O Benfica, para ganhr este jogo, tem de marcar um golo nos primeiros 15 minutos da segunda parte, esteja o resultado como estiver.

A continuar no intervalo.

sábado, 27 de abril de 2013

A vergonha não é para os parvos?


Só agora, ao ler as declarações do Professor Pardal, percebo que talvez não tenha sido suficientemente claro e objectivo na análise que fiz a seguir ao Benfica-Sporting. Como tal, tenho de me penitenciar, e alterar alguma coisa em relação ao que disse.

Antes de mais, dizer ao Professor Pardal que não são apenas duas pessoas que acham que o Capela ajuizou bem nos penáltis-fantasma na Luz: somos três. O Capela, o observador da arbitragem ao jogo e eu. Com mais um já dá para fazer uma suecada.

(Devo só notar que ainda ninguém se entendeu sobre quantos penáltis é que houve na Luz. Alguns sportinguistas falam em quatro, outros em três, outros em dois, outros em um, o Vítor Pereira fala em três e meio, e a única coisa que sobra disto tudo é que ninguém parece saber o que é que é penálti e o que não é. O que fragiliza, só um bocadinho, os seus argumentos… Mas adiante.)

Depois de salientar que não houve erros graves do Capela na Luz, devo, então, acrescentar alguma coisa em relação ao texto inicial.

É preciso dizer que tenho poucas dúvidas de que quer o Capela quer o observador estivessem controlados pelo Benfica.

Como é que se justifica esta aparente contradição? De uma forma muito simples.

O que seria normal, naquelas situações, seria marcar penálti – pelo menos no do Volkswagen. Não por ser penálti, que não é, mas porque é o que se costuma fazer.

Teria sido normal (errado, mas normal) que o Capela tivesse marcado aquele penálti.

Da mesma forma que teria sido normal ao fiscal-de-linha do jogo com o Nacional marcar fora-de-jogo no primeiro golo do Nacional (lembram-se?). Também foi estranho não marcar, porque, mesmo errando, os fiscais-de-linha marcam sempre aquilo.

Como é normal marcarem falta sobre o guarda-redes sempre que ele se atira para o chão a esbracejar dentro da pequena-área. Foi o que aconteceu, por exemplo, na primeira jornada, quando o Beto simulou uma falta do Cardozo e levou o árbitro a invalidar o terceiro golo do Benfica, que lhe daria a vitória.

Um grande exemplo disto foi o que aconteceu ontem no Estoril, na jogada em que o Braga reclama penálti. A decisão do Bruno Paixão é sensacional. Diria mesmo que foi a melhor decisão, tecnicamente, que vi este ano no campeonato, confirmando que o Paixão, sendo uma pessoa doente – como já aqui disse há uns tempos – pela obsessão compulsiva que tem em estar no centro do Universo, é, em termos técnicos, o melhor árbitro português.

Na repetição por trás da baliza, vê-se claramente o guarda-redes a alterar a trajectória da bola com a perna, ficando demonstrado que a defendeu, apesar do espalhafato do Custódio. Uma grande saída da baliza, uma grande decisão do árbitro e, na Sport TV, o que é que se ouve: a repetição, até à exaustão, que tinha sido um erro. Porquê? Porque teria sido o mais óbvio, porque o que se espera dos árbitros é que marquem aquelas coisas, independentemente do que ajuízam em campo e do que está certo, e porque decidem que é um erro, mesmo não o sendo.

A lógica subsequente, é óbvia: se ele não marca é porque não quer, se não quer é porque está «comprado».

Com o Bruno Paixão, não acredito que esteja comprado. Como já aqui disse, o Paixão não é comprável. Para ele, a possibilidade de, mantendo a incorruptibilidade, continuar a poder provocar as pessoas e chamar as atenções, é impagável.

Do Capela, já não consigo dizer o mesmo. É um árbitro igual aos outros, faz o que se espera dele, subindo, assim, na carreira, mantendo as pazes com o sistema e, por isso, quando «decide» tornar-se muito melhor árbitro do que é, é demasiado estranho.

Para mim, portanto, o Capela entrou em campo decidido a não sair dele sem uma vitória do Benfica.

Dito isto, o que se deve também dizer é que o Vieira está a caminho de se tornar num grande dirigente, de acordo com os critérios portugueses.

Em Portugal, um dirigente que, durante 31 anos, provoque violência, corrompa árbitros, compre jogos, manipule as instituições, a comunicação social e a indústria do futebol; um dirigente que utilize quaisquer meios para atingir os seus fins é, pelo que tenho visto nos últimos anos, o melhor dirigente do mundo, um exemplo para o país e um fiel representante da cultura nacional, arriscando-se mesmo a ser recebido em apoteose na Assembleia da República, a ser condecorado por instituições políticas sustentadas pelo voto e pelos fundos da população, e a colocar-se acima da lei.

A lição que podemos aprender dos comentadores, fazedores de opinião ou simples adeptos iluminados deste país – uma ideia emitida sobretudo a partir desse arquipélago de inteligência e carácter nacional que é a região do Grande Porto – é que a única coisa que realmente interessa é ganhar, e que quem não ganha não é honesto, mas fraco, e como tal merece ser humilhado.

Sendo assim, eu, ao contrário do Pinto da Costa, sinto-me optimista, porque o Benfica ganhou. E se ganhou, de acordo com o pintismo, é porque foi melhor – seja lá no que for.

A única coisa que espero é que continue a ganhar. Porque, se ganhar o suficiente, e durante o tempo suficiente, tudo aquilo que fizer de criminoso será facilmente apagado da opinião pública.

Sim, claro que eu gostaria queos campeonatos em Portugal não fossem ganhos mergulhados em lama, mas, como também já aqui disse, não é possível fugir a ela, porque Pinto da Costa é a lama que não sai deste futebol, e enquanto ele e os seus cordeiros cá andarem não haverá senão lama.

Num dos primeiros posts deste blog escrevi uma coisa que mantenho. Todos gostaríamos de ganhar «limpinho, limpinho», de ver os méritos reconhecidos pelos perdedores, para podermos fazer o mesmo quando perdêssemos. Quando isso não é possível, contudo, quando, entre quem joga, há quem não ligue à maneira como se ganha desde que se ganhe, só há um caminho: perceber as regras do jogo e ganhar com aquilo que nos põem à frente.

Se a alternativa é ver a mafia do Porto a ganhar, a baixar-nos as calças, a montar-nos e a forçar-nos a agradecer, todos os anos, eu prescindo. Prefiro ter os Capelas todos na mão e ver os que perdem a tomar comprimidos para a azia, obrigado. E espero que continue, até mudar o regime. Porque, para mudar o regime, basta que a sua cabeça (Pinto da Costa) comece a perder.

Não se envergonhem. Afinal, as elites deste país demonstram-nos que a vergonha é um conceito a que o bom povo dá demasiada importância. Por isso é que não vai a lado nenhum. Certo?

quinta-feira, 25 de abril de 2013

Estugarda


O pior dia de benfiquismo da minha vida não tem nada a ver com o Porto ou com o Sporting.

O pior dia de benfiquismo da minha vida foi o dia 25 de Maio de 1988, quando o Benfica perdeu a final da Taça dos Campeões Europeus nos penáltis, por 6-5, contra o PSV Eindhoven. Eu tinha 14 anos, acabados de fazer cinco dias antes.

Quando o Veloso passou a bola ao Van Breukelen (o melhor guarda-redes europeu da altura), no sexto penálti, o meu mundo acabou. Tranquei-me na casa-de-banho a chorar, depois de, pela primeira vez,ter dito uma asneira em frente ao meu pai, que, com o espanto, nem sequer teve coragem de me ir chamar. Quando saí daquela casa-de-banho, tinha vontade de espancar alguém. Precisei de vingança. E posso confessar que continuo a sentir essa sede. O Benfica deve-me uma compensação. Já se aproximou algumas vezes dela – poucas, como o 2-0 do César Brito, nas Antas, os 6-3 de Alvalade, ou o título de 2010 – mas nunca abateu realmente a sua dívida.

Naquela altura, a quente, miúdo que eu era, pareceu-me, primeiro, um sonho, e depois um pesadelo. Só depois, com o tempo, percebi que aquilo não devia ter acontecido. Até chegarmos à final parecia mesmo sonho, perfeito. Mas era irreal. O Benfica, mais do que não ter perdido, não devia ter jogado aquela final. Não estava preparado. Não era o momento.

Desde logo, porque as duas melhores equipas europeias desse ano eram o Porto e o Real Madrid. O Porto, então campeão europeu, foi eliminado prematuramente pelo Real, que depois foi eliminado pelo PSV nas meias-finais, enquanto o Benfica eliminava um Steaua muito mais acessível.

Mas, sobretudo, não era o momento do Benfica, que já estava em decadência. Já nada tinha a ver com a grande equipa de Eriksson, a última verdadeira grande equipa do clube até hoje, e o clube estava a cair para a mediocridade, para a baixa exigência e para a vulgarização.

A final de dois anos depois, com o Milan, quase nem chateou, porque a diferença era tão grande que não se esperava nada.

Nesse dia, do jogo com o PSV, percebi a minha bitola como benfiquista. Se, hoje, alguns de vocês acham que eu sou um lunático, que espero demais do meu clube, eu culpo esse dia. Porque foi aí que eu percebi que, para mim, que sou o benfiquista mais doente que conheço, ir a uma final não é nenhum objectivo. O objectivo é ganhar a final.

Nesse dia percebi a diferença entre jogar uma final e ganhar uma final. Entendi a grande distância que vai do sucesso à merda, e, paradoxalmente, como é curto o caminho entre ambos. Posso dizer que foi nesse dia que eu deixei de ser enganado por promessas ocas, conversas de galarós, vendedores de banhas da cobra e procissões de fé por parte dos adeptos.

Quando eu penso no Benfica, vejo um jogo ideal. Nesse jogo ideal, o Benfica joga contra a melhor equipa da Europa (nem sequer é com um PSV), do clube mais forte do Mundo, contra o tempo, o árbitro e as lesões, e ganha porque é mais forte que o adversário e as adversidades.

Quando eu vos digo que para mim, a Champions é para jogar só até aos oitavos-de-final, ou que a Liga Europa não vale o esforço, vocês ficam chateados comigo porque pensam que eu não sou suficientemente benfiquista. Pensam que eu não quero ganhar, que não sou ambicioso. Estão enganados.

Não há nada que eu queira mais, como benfiquista, do que vingar aquela final de Estugarda. Ser campeão europeu. Mas quero sê-lo como deve de ser. É o meu sonho como benfiquista. É ter uma grande equipa, jogar contra uma grande equipa, superar tudo e todos, chegar ao fim com mais um golo marcado e com o orgulho de não haver nada a dizer, de sentir que aquela glória, mesmo que passageira, me dá paz. Talvez seja uma utopia, mas não me interessa. Para mim, o Benfica é essa utopia. E ninguém ma pode tirar. Se ela sobreviveu a 25 anos de frustrações e vergonhas, não é agora que vai morrer.

Quando eu olho para esta equipa do Benfica vejo a de 1987. Uma equipa aceitável, que não envergonha, mas incapaz de ganhar uma final europeia a sério. E quando eu falo em final europeia falo da Taça do Benfica: a dos Campeões.

Esta equipa não está preparada para ganhar. Vão ser precisos anos, de bom trabalho, de lucidez, de dedicação e de sofrimento. Anos.
E fazer uma tripla, nesta altura até poderia ser tão contraproducente como foi o 6-3 em Alvalade: à conta de um bambúrrio, por se convencerem de que valem mais do que realmente valem, dar-se um retrocesso de dez anos.

O resultado na Turquia foi mau porque não marcámos. Tivemos azar com o árbitro e sorte com os postes. Normal. Nestes momentos em que tudo está em jogo, as equipas que jogam em casa são sempre beneficiadas pelos árbitros. O Benfica também vai ser na segunda mão.

O Fenerbahce está muito motivado, e vem à Luz para fazer o jogo das suas vidas. Provavelmente marcará. O resultado de 1-0 será perfeitamente reversível se o Benfica jogar tão motivado na Luz como eles jogaram lá, mas o Benfica terá de entrar mentalizado para marcar pelo menos três golos, o que será difícil – entrar mentalizado para isso, e não marcar os golos, entenda-se. Marcar golos, para esta equipa, é o mais fácil.

O que apurou o Benfica até aqui – os golos fora – desta vez não existem.

Neste momento, o Fenerbahce tem 75 por cento de hipóteses de chegar à final.

Mesmo que passe, o Benfica perderá a final com o Chelsea, pela mesma razão que o Sporting perdeu na Luz: porque, quando a diferença de categoria entre jogadores é tão grande, a equipa inferior tenta marcar e a equipa superior marca, mesmo que pareça que está a jogar menos. Não está a jogar menos. Está é à espera do seu momento.

Se passarmos à final e ganharmos ao Chelsea, com sorte? Tudo bem, seria muito giro, dava para ganhar maturidade, mas para mim significaria pouco. Não vai ser isso que me mata a sede. Porque o mais provável, para o ano, seria voltar a ficar pelos oitavos ou quartos-de-final da Champions, que é o que esta equipa realmente vale. Ou duvidam?

A Liga Europa, a mim, dá-me igual. O jogo do ano é o do Funchal.

Se me pusessem aqui à frente um papel para assinar em que eu tivesse de trocar uma vitória na Madeira por uma vitória sobre o Chelsea na final da Liga Europa, eu escolhia logo a vitória na Madeira.

Porque o Benfica, para voltar a ser realmente grande, tem é de começar por ganhar ao Porto todos os anos, e não ao Chelsea uma vez na vida.