Nem sequer cá vinha, porque tenho muito que fazer, mas já
fiquei em brasa, pelo que cá estou.
Ponto prévio: o Benfica do Jesus joga tanto hoje como jogou
sempre – assim, assim.
A bola é barata, a equipa tem poucas soluções colectivas, ataca de forma
individualizada, é muito limitada quanto aos fundamentos do
jogo e, por causa disso, tem dificuldades a defender. Tem pontos muito fortes –
a velocidade no último terço do campo, o porte fisico, a criatividade de alguns jogadores no
ataque e a capacidade táctica individual do meio-campo para trás, incluindo o
Matic – e tem uma equipa já relativamente madura que lhe permite ganhar muitas
vezes a nível interno, sobretudo porque é muito mais cara que todas as outras à
excepção daquela que, como equipa, lhe é superior (a do Porto).
Falta-lhe classe para jogar como o Jesus pensa que ela já joga
(porque não joga), e não vai a lado nenhum a não ser se contratar cada vez
melhores jogadores para o sistema em que joga. Se este Benfica trocar um
Cardozo por um Higuaín, por exemplo, se passar dos Limas, dos Maxis, dos
Melgarejos, dos Gaitáns, para jogadores um nível acima, melhora. De outra
maneira, nunca vai dar mais do que dá agora.
Nada disto é novo, para mim, e se me enervo com esta equipa
é porque ela não dá verdadeiras razões para confiarmos nela. Fé, crença, até
podemos ter, mas uma confiança à prova de bala, é impossível, e qualquer benfiquista
sereno percebe isto. A todo o momento há a sensação de que esta frágil castelo de
«notas artísticas» pode vir por aí a baixo, como veio na época passada. Até
pode ser já contra o Marítimo.
Dito tudo isto, convém meter as coisas no seu lugar, tal
como o Jesus fez, sem espinhas, quando disse que a Académica também foi um jogo
difícil para o Benfica, e que o Paços de Ferreira também teve muito a bola a
meio-campo quando jogou na Luz (Impagável!).
O Jesualdo Ferreira, que treina uma equipa do Sporting que
está a 37 pontos de distância do primeiro lugar (!), teve tempo, entre a boca do
túnel e a conferência de imprensa, de passar das dúvidas à certeza de que o
Sporting foi roubado em quatro – quatro! – penáltis.
Só não teve dúvidas, em nenhum dos casos, em dizer que o Sporting
foi melhor que o Benfica.
Ora bem…
O Sporting, que anda a fazer estágios semanais em Alcochete
há mais de três meses – no futebol moderno, quando uma equipa tem seis dias
para preparar o próximo jogo, é um verdadeiro estágio –, jogou na Luz contra
uma equipa do Benfica:
- que tinha de ganhar e dar espaços na defesa, perante um
adversário com jogadores talentosos no contra-ataque;
- com mais dez jogos nas pernas dos seus elementos nucleares,
para não falar dos toques e das mazelas que são inevitáveis nesta altura da
época (uma equipa já nitidamente na reserva, como se tornou evidente, e que
ainda tem o mês das decisões pela frente);
- com uma sucessão de jogos com um nível de exigência anímica
permanente que o Sporting já deixou de ter há meses;
- com uma meia-final decisiva, a ser jogada na Turquia, à
distância de quatro dias;
- sabendo perfeitamente que jogava perante uma equipa
inferior, e que a chave do jogo estava na finalização.
O Sporting, que estava à espera de ser passado a ferro, teve
muito mais a bola do que contava. Teve a bola no meio-campo (onde, como apontou
o Jesus, não se marcam golos) e, em frente à baliza, os seus jogadores fizeram
aquilo que melhor sabem fazer: atiraram-se para o chão.
O miúdo Bruma vai ser mais jogador que qualquer um daqueles
artistas de circo. Tem mais futebol que eles todos juntos, incluindo o «matador».
Dos quatro «penáltis» que, segundo o Urso de Carvalho não
deixaram os avançados do Sporting rematar, nenhum - nem um! – o é. Apesar de em todos haver
contacto.
No primeiro, o Garay faz o carrinho ao lado do Volfswinkel
que, como se vê perfeitamente na repetição por trás da baliza, sai da sua linha
e vai à procura do contacto. Se o Volfswinkel tivesse mantido a corrida a
direito não teria havido contacto, teria rematado e, provavelmente, sem se desequilibrar
com esse contacto, teria marcado golo. Não se decidiu se queria marcar,
proteger a bola ou provocar o penálti e não conseguiu nenhum dos três, mas penálti
não há nenhum.
No segundo, quando o Maxi toca no Capel já a bola passou, já
o Capel percebeu que não vai a lado nenhum e já se atirou à procura do contacto.
É uma jogada de ratice, em que o árbitro, e bem, não caiu, porque o contacto
que há não tem nada a ver com o falhanço do Capel. A jogada é rápida e os dois
jogadores falham a bola.
No terceiro, os dois jogadores estão a agarrar-se, o Viola escorrega
quando vai a arrancar, desequilibra-se, e depois tenta aproveitar a confusão para
sacar o penálti. Houve vinte jogadas daquelas em que não houve falta, metade delas contra o Sporting. Ali
seria falta porquê? Porque era a favor do Sporting? Porque o Calimero desceu à
Terra?
No quarto o Viola atirou-se contra o Jardel.
Tivemos hoje mais um episódio da interminável saga
calimérica do Sporting, a que não faltou a indispensável esperança no futuro,
baseada na talentosa juventude que, na cabeça dos sportinguistas, vai ter todo
o tempo e todo o espaço para crescer viçosamente.
Na realidade, o que é que vai acontecer?
O que vai acontecer é que, no fim das próximas duas
temporadas, cheias de vitórias morais e de erros colossais de arbitragem, esta
gloriosa juventude, que não tem estaleca para dar a volta a plantéis com
jogadores superiores em experiência e categoria, vai ter acabado mais dois anos
em terceiro ou quarto lugar, vai ser vendida a retalho, primeiro o Bruma,
depois o Illori, o Dier e os outros, como antes já foram todos os grandes talentos
do Sporting – ao desbarato – e vai ser desfeita para se começar de novo, com a SAD já vendida a um angolano qualquer.
O caminho, para o Sporting, era muito mais o do Duque e do
Freitas que esta pseudo-solução de meter os juniores a fazer de seniores. A
solução é ganhar, e só se ganha com jogadores experientes. Não é só com tempo,
como sugeriu o Jesualdo. Os jogadores jovens, a entrarem, só podem ser um ou dois
em onze, e tem de ser aos poucos, como o Jesus faz. Essa é que é a realidade em
qualquer grande equipa europeia. Se o talento jovem fosse suficiente para
vencer jogos os Real Madrid, Manchester United, Bayern e outros não andavam a
comprar experiência e carácter, compravam uma mão-cheia dos melhores putos do
mundo e punham-nos a jogar. Isso não existe. De quarenta em quarenta anos lá
aparece um Ajax, mas mesmo essas equipas excepcionais duram duas ou três épocas
e desaparecem.
Sem vitórias não há projectos, e sem maturidade não há
vitórias. O resto é lirismo. Não esqueçamos, nestas fantasias, que não basta ao
Sporting ter uma boa equipa de jovens: tem de ter uma equipa de jovens que
ganhe ao Porto e que ganhe ao Benfica no mesmo ano. Ou o Sporting vai desistir,
definitivamente, de ser campeão? E daí até se tornar num Everton demora quanto
tempo?
Equipas como esta do Sporting são equipas que, como disse o Jesus
e muito bem, não fazem a diferença em frente à baliza, que só ganham um campeonato
por acaso – algo que dificilmente acontecerá considerando a distância a que o
Porto e o Benfica se encontram – e que não vão a lado nenhum.
A verdade crua e nua? A este Benfica, que nem sequer é nada
de especial, bastou fazer um jogo certinho, baço, e duas jogadas com mais de quatro
passes, para ganhar a este Sporting.