Havia duas coisas que eu não queria no sorteio da meia-final
da Liga Europa:
1 – Jogar com o Chelsea
Não é que eu queira ser mija-na-sopa do pessoal, mas
qualquer equipa presente numa meia-final com um orçamento três vezes superior a
qualquer uma das outras é a única favorita a ganhar a competição, e tem 80 por
cento de hipóteses, no mínimo, de a ganhar.
Dizem-me que, há um ano, podíamos ter eliminado o Chelsea, o
que é verdade, mas não estivemos tão perto como a típica boa vontade
benfiquista fez passar a ideia – uma ideia que ficou nos jornais, como é
costume, porque é sempre bom para as vendas iludir os benfiquistas. O Chelsea
passou a eliminatória com o Benfica com relativa facilidade. Tal como o Benfica
passou a eliminatória com o Newcastle com relativa facilidade, apesar de um ou
outro momento de tentativa de superação por parte do Newcastle.
As hipóteses do Benfica ganharem ao Chelsea sobem bastante
se for a vitória final disputada a um jogo. Um pouco como vai acontecer com o
Vitória de Guimarães na final da Taça de Portugal. Com apenas um jogo as
possibilidades, por parte da equipa mais forte, corrigirem os problemas
causados por incidentes extraordinários – um erro do árbitro, um azar de um
jogador, uma expulsão, um penálti – caem muito. Em último caso, chegando aos
penáltis, as hipóteses aproximam-se muito dos 50/50, que é o máximo que
qualquer uma das três equipas conseguirão ter diante do Chelsea.
O Chelsea está em crise. Quem tem Mata, Hazard, Ramires e
uma série de outros grandes jogadores, independentemente das crises, só não é
favorito perante equipas que custam o mesmo. Haveria sete ou oito equipas na Europa
que, em competição com o Chelsea na Liga Europa, poderiam ser consideradas
favoritas – e o Benfica não é uma delas.
2 – Ir jogar à Turquia na primeira mão
Apanhar o Fenerbace é bom em termos desportivos, porque é o adversário
menos competitivo, mas ir à Turquia na primeira mão é péssimo, por duas razões.
Primeiro porque, como já defendi há dois ou três posts
atrás, esta equipa do Benfica tem sempre vantagem em jogar a segunda mão fora
de casa, onde já não há hipótese de os adversários responderem aos golos fora
que o Benfica marca sempre, e porque o Benfica joga melhor em contra-ataque do
que em ataque organizado – como o Real Madrid, por exemplo.
Segundo, mas sobretudo,
porque pode ser absolutamente determinante, para um eventual insucesso do Benfica
no campeonato, ter de ir à Turquia a meio da semana decisiva para o campeonato
nacional, e ainda por cima para fazer um jogo de pressão máxima em todos os
sentidos – no ambiente, pela história, pelos objectivos da época, pelo cansaço
acumulado, etc, etc.
A época do Benfica joga-se nos dois jogos com Sporting e
Marítimo. Tem de os ganhar. Um empate é quase sinónimo de derrota no campeonato.
Em condições normais, fazer duas vitórias nesses jogos já é difícil. Nestas
condições, se o Benfica as conseguir, será quase extraordinário. E já nem conto
com as possíveis lesões e castigos. Caramba, considerando a importância que a
eliminatória vai ter para o Fenerbahce (é o jogo mais importante na história do
clube) eu, se fosse o Vieira, até garrafas de oxigénio levava para não correr o
risco de ser envenenado através do ar condicionado.
O ideal, considerando o cenário global, seria apanhar o Basileia
e jogar primeiro em casa. Mesmo apanhar o Chelsea, que é um pulinho, seria
preferível a ir à Turquia a meio da semana mais importante da época, passar 24
horas no inferno.
Olho para este cenário e vejo consolidarem-se aqueles receios
que já aqui exprimi mesmo antes do Benfica se apurar para a Liga Europa. O Benfica
joga contra a História, contra as probabilidades e, admitamos, contra si
próprio, porque nem é a equipa com melhores condições para vencer o campeonato
nem é a equipa com melhores condições para vencer a Liga Europa. Vejo uma corda
esticada e um momento que se aproxima, com datas marcadas, em que o mais certo
é mesmo partir.
Enfim, chegámos ao momento em que somos confrontados com a
verdadeira essência do benfiquismo: acreditar, contra tudo e contra todos. Fazer
de conta que a lógica não existe, que não há racionalidade, que podemos porque
sim, porque é o Benfica, e o Benfica, se houvesse normalidade, nem sequer
deveria existir, porque era um grupo de miúdos a jogar à bola que andava com a
baliza às costas.
Chegou o momento de deixar de considerar a realidade.
Voltamos à Terra daqui a um mês, e que seja o que Deus quiser. Nisso, não há
melhor do que nós. Acreditemos, portanto.