Nesta altura, nem eu, que sou fundamentalista e que preferia
que o Benfica tivesse sido eliminado da Liga Europa ainda antes de começar a
jogá-la, já acho que faça sentido prescindir da Liga Europa.
Não é que não atrapalhe, nem é que não possa provocar a perda
do campeonato, mas agora já não vale a pena. Vai haver pelo menos mais um jogo,
o cansaço vai pesar, e a eventual meia-final vai ser disputadíssima, porque agora as equipas já estão a jogar motivadas e acreditam que podem ganhar a Taça (até aos oitavos-de-final era mentira, parecia jogos de solteiros e casados), mas a maior parte do mal, a haver, já está feita.
O Benfica
está a atingir um patamar que de eficácia regular que já não tinha desde 1983,
e, como tal, já não há alternativa: a solução, quando se chega a patamares
destes, já não é gerir mas, simplesmente, cumprir. Neste ponto, o que a equipa
do Benfica precisa de aprender, para crescer, é a ganhar em esforço psíquico. Mesmo que
perca o campeonato (o que é muito possível, note-se) tem de o conseguir ganhar
desta maneira, senão nunca deixará de ser apenas um projecto de equipa à mercê. E, agora, ou é capaz ou não é capaz.
Fazer mais do que o que o Jesus fez nesta quinta-feira, nem
eu (que contra o Leverkussen até o Urreta e o Miguel Vítor teria metido…) lhe
peço. Tudo o que é carne comestível ele está a meter no assador. Nos quartos-de-final, contra uma boa equipa inglesa, jogou com o André
Almeida, o André Gomes, o Rodrigo e o Ola John. Quem havia para rodar sem
entregar o jogo de bandeja, jogou. Bravo. A César o que é de César. O Jesus
está a cumprir e, na minha classificação, continua a transformar pontos
negativos em pontos positivos.
(Neste aspecto, registo para a passagem de certidão de óbito definitiva a Aimar e Carlos Martins. Se não jogaram hoje, o comboio já passou e a época deles, a partir de agora, é mais bolos e treinos.)
Quanto à eliminatória, penso que o Benfica conseguiu o
apuramento naquelas duas bolas aos postes dos ingleses. Qualquer resultado de
uma eliminatória europeia a duas mãos em que esta equipa do Benfica só sofra um
golo em casa é um bom resultado – até uma derrota por 0-1.
Há equipas ofensivas e equipas defensivas. Para uma equipa
ofensiva, como é a do Benfica, que tem muita facilidade em marcar golos, jogar a
segunda mão fora de casa é uma vantagem, por uma razão muito simples: porque o
adversário já não tem a oportunidade de recuperar uma desvantagem conseguida
pelos golos fora. O Benfica sabe que se marcar dois golos em Newcastle tem a
eliminatória ganha, e o Newcastle já não pode fazer nada em relação a isso. Da mesma
forma, durante o jogo, isso coloca pressão sobre a equipa da casa, que sabe que
se sofrer um segundo golo tem de marcar dois.
Para uma equipa defensiva, saber que tem de marcar golos
fora ma segunda mão é um problema. Para uma equipa como o Benfica, saber que
cada golo fora, que vale por dois, já não pode ser rebatido na mesma moeda pela
outra equipa, é uma vantagem.
O Benfica vai marcar em Newcastle, porque marca sempre, e
muito mais em contra-ataque, e muto mais naquela relvinha rápida e bem tratada
dos ingleses, e ainda mais com aqueles defesas porreiros que têm de pedir
licença aos rins para mexer a perna. E, se marcar 2, os outros têm de marcar 5.
Logo para começar, o Newcastle tem de ganhar ao Benfica, o
que já é pouco provável. O mais certo é haver um empate, o Benfica meter dois
golitos até aos 60 minutos e, depois disso, toda a gente arrumaras fichas a
pensar no campeonato, que é o que importa.
Até o 1-1 eu já assinava por baixo.
Façam este exercício: imaginem que eram o treinador do
Newcastle e vinham empatar 1-1 à Luz. O que é que diziam aos jogadores antes do
segundo jogo?
Que jogassem com calma, porque o 0-0 bastava? «Mas, mister,
os homens marcam golos a toda a gente. E se sofremos um golo e depois não
conseguimos marcar? E se eles marcam o segundo no contra-ataque? De 0 passamos
a ter de marcar 3!»
Que jogassem ao ataque? «Mas, mister, começamos a atacar, abrimos
a defesa, eles marcam e perdemos a vantagem. E se eles marcam o segundo?»
Não há nada pior, para uma equipa, na Europa, do que entrar
em campo sem saber o resultado que tem de fazer, enquanto, do outro lado, a
outra equipa tem um objectivo definido e sabeo que precisa de fazer. A não ser
que se trate de uma equipa muito experiente internacionalmente, entre as
indecisões e a convicção a convicção ganha quase sempre.
Contra equipas malucas e imprevisíveis como a do Benfica,
que tanto podem levar três golos em 10 minutos como enfiar quatro batatas na
baliza de qualquer equipa, numa eliminatória como esta a outra equipa só passa
a ter vantagem por jogar em casa o segundo jogo se, no primeiro, marcar pelos
menos dois fora de casa. Caso contrário, é sempre uma eliminatória a ser
decidida na segunda mão, onde a vantagem do golo fora já só existe a favor dos
outros.
O Newcastle devia ter apostado tudo em marcar mais um golo
na Luz, mesmo que sofresse mais um ou dois. Para poder jogar à vontade em casa
e atacar livremente, sem ficar presa pelo golo que o Benfica vai conseguir
marcar.
E para o Benfica, a ideia terá de ser a mesma: se for para
lá a pensar em marcar dois golos, desde que defenda relativamente bem, tem a
eliminatória no bolso. E até pode sofrer quatro – o que não vai acontecer.
Mas vão ter de correr, atenção.
P.S. - O Cardozo está a elevar a técnica do penálti a arte. Hoje, subiu mais um degrau. No primeiro fez o que aprendeu a fazer na perfeição durante os últimos meses: a esperar pelo primeiro passo do guarda-redes antes de rematar. Se o guarda-redesse mexe primeiro, morreu. Na repetição, pensei assim: «O guarda-redes, que é um bom guarda-redes, já o topou. No primeiro atrasou a queda tanto quanto pôde, agora, no segundo, não se vai mexer até ele baixar a cabeça para rematar. Sempre quero ver se o Cardozo tem estofo para lhe dar a volta. Ainda lhe vai acertar com a bola no peito a meio da baliza.»
Dito e feito. O guarda-redes parecia colado ao chão, e percebeu para que lado o Cardozo ia rematar. E o que é que fez o Cardozo, num golo que podia valer uma eliminatória? Percebendo que o guarda-redes ia atrasado, porque não se lançou suficientemente cedo, meteu-lhe a bola em jeito, com a força suficiente, para o seu (o do Cardozo) lado esquerdo, que é o mais difícil quando se é canhoto.
O Cardozo até pode falhar um penálti, e é mais provável que falhe a medida que a pressão vá subindo. Até o Maradona os falhou, e foi o melhor marcador que já vi. Mas só falha se falhar o remate tecnicamente, porque, na cabeça, tem tudo pré-definido quando parte para a bola. Tem um plano A e um plano B. Um plano C, não sei, veremos. Mas desde o Maradona que eu não via ninguém a marcar penáltis com esta certeza.
Eu sei que é sacrilégio pôr Cardozo e Maradona na mesma frase, mas pronto, um penálti é aquela situação extraordinária que há no futebol...