Parece que o Carvalho vai ser o próximo presidente do
Sporting. Pessoalmente, preferia que o Couceiro tivesse ganho as eleições. Com
as toneladas de vaidade que ele já tem em cima sem nunca ter feito nada que o
justificasse, a ideia de o ter como presidente, a sacudir a água do capote à
primeira adversidade (como tem feito sempre), a minar aquilo tudo por dentro
para não parecer o incompetente que é, atrai-me bastante. Mas, infelizmente,
parece que não vai dar.
Chamaram a este Bruno Carvalho um Vale e Azevedo, mas duvido
muito. O Vale e Azevedo era um verdadeiro artista, um megalómano, alguém que
vivia numa realidade paralela e suficientemente louco para aldrabar meio
Portugal com esse convencimento. Vale e Azevedo ficará para a história como um
dos grandes burlões na história de Portugal, porque é um tipo alienado. Não me
parece que este Bruno Carvalho, que ninguém sabe quem é ou o que fez a não ser
aquilo que ele disse que é e fez, tenha essa grandeza de alienação.
Prefiro compará-lo ao Sousa Cintra porque aparece no
Sporting na sequência do mesmo tipo de experiência democrática e porque, apesar
de não ser tão estroina, vai acabar da mesma maneira que o Sousa Cintra se cometer
o mesmo erro que ele.
O erro do Sousa Cintra foi ter cedido à tentação de tentar
destruir o Benfica, quando se devia ter juntado a ele. O resultado foi que o
Benfica o destruiu a ele, ao mesmo tempo que lançava o Sporting para o terceiro
lugar do ranking de clubes em Portugal.
O Bruno de Carvalho terá a mesma tentação. Pinto da Costa
irá tentar seduzi-lo, porque precisa do Sporting – sempre precisou do Sporting
contra o Benfica, ou do Benfica contra o Sporting (como no tempo de João Rocha,
em que se associou a Fernando Martins). A Juve Leo, que o elegeu, quererá que
ele faça a figura do Bettencourt, que roube jogadores ao Benfica e os apresente
no jantar da claque. A brigada do reumático, que continua a confundir
rivalidade com estratégia e não percebe nada de nada a não ser de peneiras, vai
picá-lo até conseguir virá-lo contra o Vieira.
O mais provável é que o Carvalho, no meio dos maus
resultados que se adivinham, venha a sucumbir e a fazer a mesma figura que fez o
Godinho Lopes. O mais provável é que o Sporting continue a consumir-se numa
guerra contra o adversário errado, uma vez que o Bruno de Carvalho, que foi
eleito pelo populismo, não deverá conseguir resistir a apelar ao populismo para
manter a cabeça fora de água. Mais do que um ou dois anos de resultados
miseráveis, esse foi o resultado do falhanço do Luís Duque: o falhanço da aliança
ao Benfica.
O Sporting não consegue resistir ao complexo de
inferioridade (ou de falsa superioridade) e à obsessão que tem em relação ao Benfica.
O Porto até pode ir buscar o Rui Patrício, o Carrillo ou o Bruma no próximo
Verão. Desde que use a marca de vaselina que tem usado, os sportinguistas continuarão
a aceitar essa constante menorização de forma submissa, e a olhar para o Benfica
com um rancor que, na verdade, não se justifica.
O erro fundamental dos sportinguistas é não perceberem que o
seu rival é o Benfica, mas que o seu inimigo é o Porto. A relação com o Benfica,
sendo de antagonismo, é saudável, e reforça o Sporting. A relação com o Porto é
venenosa, e enfraquece o Sporting. Apesar de o Porto só lhes ter dado, desde
sempre, razões para desconfiar, continuam a achar que é no Benfica que está o
pecado. O mal que o Porto já fez ao Sporting é incomparável com as tristezas
que o Benfica já lhe provocou. Mas a lagartagem não percebe isto. Pensa que é
conversa da treta, de vendedor de banha da cobra. É difícil de explicar. Por
isso e que é um complexo psicológico.
E também não percebem que o Benfica já resistiu ao pior da
tempestade e que está cada vez mais forte, que vai começar a ganhar
campeonatos, e que isso terá repercussões sérias.
O verdadeiro problema
estratégico do Sporting é ter parado no tempo e continuar a viver nos anos 70 –
na era pré-Porto.
As notícias da morte do Sporting, aventadas pelos próprios
candidatos, são amplamente exageradas. Nenhum clube com 3 milhões de adeptos
acaba. Até pode mudar de nome, mas leva cem anos a morrer. A questão não é essa.
A questão é demográfica.
O que tem mantido a nação sportinguista estável, em termos
de números, é a proximidade competitiva em relação ao Benfica. O Sporting tem
ganho muito pouco, mas o Benfica também, o que tem levado a que os dois clubes
tenham competido directamente para o segundo lugar, atrás do Porto. Essa competição
mantém a chama acesa na zona de Lisboa, e traduz-se numa renovação da
rivalidade nas novas gerações. Para os novos sportinguistas, o Benfica ainda é
do mesmo campeonato. Isso leva-se para a escola, para o trabalho, onde há
benfiquistas, e assim o Sporting vai mantendo os números mais ou menos
estáveis.
Mas, se Benfica e Porto voltarem ao registo dos anos 80, de
dividir campeonatos enquanto o Sporting ficava a ver a banda passar, como
parece que está a acontecer, o Sporting corre o risco de cair abruptamente no
número de adeptos.
O país tem metade da população em Lisboa e Porto, e 80 por
cento no litoral. O Porto é uma coutada, e não se consegue lá entrar. Na Grande
Lisboa, no entanto, que é o ponto nevrálgico da economia e da sociedade
portuguesa, o Benfica não tem conseguido ganhar adeptos ao Sporting, ao
contrário do Porto, porque não tem ganho o suficiente. Mas, se começar a ganhar
a sério, ganhará um grande ascendente também Lisboa, e aí sim, o Sporting, se
não conseguir mais que ganhar dois ou três campeonatos nos próximos vinte anos,
pode passar para um quinhão de apenas 10 ou 15 por cento entre os novos
adeptos, o que seria fulminante a longo prazo, pois colocaria o Sporting num
limbo – nem seria o clube grande que ainda é hoje, com ambições legítimas ao
título de campeão, nem seria um clube pequeno. Em termos funcionais, perderia,
definitivamente, a capacidade de competir, sobretudo com o Benfica, que está em
dinâmica de crescimento, e o campeonato português ganharia uma forma parecida
com o campeonato escocês – presumivelmente, com um ascendente acentuado do
Benfica sobre o Porto, sem chegar à hegemonia.
A grande jogada de Bruno Carvalho seria perceber a corrente
da História, e entender que, se fosse para sucumbir a uma aliança
Porto-Sporting, o Benfica já teria sucumbido. Não sucumbiu. E está a recuperar
a sua dimensão. O Benfica já deu a volta. Já bateu no fundo, e agora só pode
subir. Isto é evidente para qualquer observador disposto a distanciar-se dos
facciosismos.
A hora para o Sporting de livrar da doença que é Pinto da
Costa (até hoje só perdeu com isso) e agarrar-se à bóia que vai a subir é
agora. Se o fizesse, assegurava a sua sobrevivência como grande clube. Mas duvido
muito que o vá fazer. A doença é muito profunda. É muito mais provável que
volte a confundir rival com inimigo e que, como tem acontecido ao longo dos
últimos 30 anos, essa confusão o encaminhe para a vulgaridade.