domingo, 24 de março de 2013

Morrer não morre, mas é quase a mesma coisa


Parece que o Carvalho vai ser o próximo presidente do Sporting. Pessoalmente, preferia que o Couceiro tivesse ganho as eleições. Com as toneladas de vaidade que ele já tem em cima sem nunca ter feito nada que o justificasse, a ideia de o ter como presidente, a sacudir a água do capote à primeira adversidade (como tem feito sempre), a minar aquilo tudo por dentro para não parecer o incompetente que é, atrai-me bastante. Mas, infelizmente, parece que não vai dar.

Chamaram a este Bruno Carvalho um Vale e Azevedo, mas duvido muito. O Vale e Azevedo era um verdadeiro artista, um megalómano, alguém que vivia numa realidade paralela e suficientemente louco para aldrabar meio Portugal com esse convencimento. Vale e Azevedo ficará para a história como um dos grandes burlões na história de Portugal, porque é um tipo alienado. Não me parece que este Bruno Carvalho, que ninguém sabe quem é ou o que fez a não ser aquilo que ele disse que é e fez, tenha essa grandeza de alienação.

Prefiro compará-lo ao Sousa Cintra porque aparece no Sporting na sequência do mesmo tipo de experiência democrática e porque, apesar de não ser tão estroina, vai acabar da mesma maneira que o Sousa Cintra se cometer o mesmo erro que ele.

O erro do Sousa Cintra foi ter cedido à tentação de tentar destruir o Benfica, quando se devia ter juntado a ele. O resultado foi que o Benfica o destruiu a ele, ao mesmo tempo que lançava o Sporting para o terceiro lugar do ranking de clubes em Portugal.

O Bruno de Carvalho terá a mesma tentação. Pinto da Costa irá tentar seduzi-lo, porque precisa do Sporting – sempre precisou do Sporting contra o Benfica, ou do Benfica contra o Sporting (como no tempo de João Rocha, em que se associou a Fernando Martins). A Juve Leo, que o elegeu, quererá que ele faça a figura do Bettencourt, que roube jogadores ao Benfica e os apresente no jantar da claque. A brigada do reumático, que continua a confundir rivalidade com estratégia e não percebe nada de nada a não ser de peneiras, vai picá-lo até conseguir virá-lo contra o Vieira.

O mais provável é que o Carvalho, no meio dos maus resultados que se adivinham, venha a sucumbir e a fazer a mesma figura que fez o Godinho Lopes. O mais provável é que o Sporting continue a consumir-se numa guerra contra o adversário errado, uma vez que o Bruno de Carvalho, que foi eleito pelo populismo, não deverá conseguir resistir a apelar ao populismo para manter a cabeça fora de água. Mais do que um ou dois anos de resultados miseráveis, esse foi o resultado do falhanço do Luís Duque: o falhanço da aliança ao Benfica.

O Sporting não consegue resistir ao complexo de inferioridade (ou de falsa superioridade) e à obsessão que tem em relação ao Benfica. O Porto até pode ir buscar o Rui Patrício, o Carrillo ou o Bruma no próximo Verão. Desde que use a marca de vaselina que tem usado, os sportinguistas continuarão a aceitar essa constante menorização de forma submissa, e a olhar para o Benfica com um rancor que, na verdade, não se justifica.

O erro fundamental dos sportinguistas é não perceberem que o seu rival é o Benfica, mas que o seu inimigo é o Porto. A relação com o Benfica, sendo de antagonismo, é saudável, e reforça o Sporting. A relação com o Porto é venenosa, e enfraquece o Sporting. Apesar de o Porto só lhes ter dado, desde sempre, razões para desconfiar, continuam a achar que é no Benfica que está o pecado. O mal que o Porto já fez ao Sporting é incomparável com as tristezas que o Benfica já lhe provocou. Mas a lagartagem não percebe isto. Pensa que é conversa da treta, de vendedor de banha da cobra. É difícil de explicar. Por isso e que é um complexo psicológico.

E também não percebem que o Benfica já resistiu ao pior da tempestade e que está cada vez mais forte, que vai começar a ganhar campeonatos, e que isso terá repercussões sérias.

 O verdadeiro problema estratégico do Sporting é ter parado no tempo e continuar a viver nos anos 70 – na era pré-Porto.

As notícias da morte do Sporting, aventadas pelos próprios candidatos, são amplamente exageradas. Nenhum clube com 3 milhões de adeptos acaba. Até pode mudar de nome, mas leva cem anos a morrer. A questão não é essa. A questão é demográfica.

O que tem mantido a nação sportinguista estável, em termos de números, é a proximidade competitiva em relação ao Benfica. O Sporting tem ganho muito pouco, mas o Benfica também, o que tem levado a que os dois clubes tenham competido directamente para o segundo lugar, atrás do Porto. Essa competição mantém a chama acesa na zona de Lisboa, e traduz-se numa renovação da rivalidade nas novas gerações. Para os novos sportinguistas, o Benfica ainda é do mesmo campeonato. Isso leva-se para a escola, para o trabalho, onde há benfiquistas, e assim o Sporting vai mantendo os números mais ou menos estáveis.

Mas, se Benfica e Porto voltarem ao registo dos anos 80, de dividir campeonatos enquanto o Sporting ficava a ver a banda passar, como parece que está a acontecer, o Sporting corre o risco de cair abruptamente no número de adeptos.

O país tem metade da população em Lisboa e Porto, e 80 por cento no litoral. O Porto é uma coutada, e não se consegue lá entrar. Na Grande Lisboa, no entanto, que é o ponto nevrálgico da economia e da sociedade portuguesa, o Benfica não tem conseguido ganhar adeptos ao Sporting, ao contrário do Porto, porque não tem ganho o suficiente. Mas, se começar a ganhar a sério, ganhará um grande ascendente também Lisboa, e aí sim, o Sporting, se não conseguir mais que ganhar dois ou três campeonatos nos próximos vinte anos, pode passar para um quinhão de apenas 10 ou 15 por cento entre os novos adeptos, o que seria fulminante a longo prazo, pois colocaria o Sporting num limbo – nem seria o clube grande que ainda é hoje, com ambições legítimas ao título de campeão, nem seria um clube pequeno. Em termos funcionais, perderia, definitivamente, a capacidade de competir, sobretudo com o Benfica, que está em dinâmica de crescimento, e o campeonato português ganharia uma forma parecida com o campeonato escocês – presumivelmente, com um ascendente acentuado do Benfica sobre o Porto, sem chegar à hegemonia.

A grande jogada de Bruno Carvalho seria perceber a corrente da História, e entender que, se fosse para sucumbir a uma aliança Porto-Sporting, o Benfica já teria sucumbido. Não sucumbiu. E está a recuperar a sua dimensão. O Benfica já deu a volta. Já bateu no fundo, e agora só pode subir. Isto é evidente para qualquer observador disposto a distanciar-se dos facciosismos.

A hora para o Sporting de livrar da doença que é Pinto da Costa (até hoje só perdeu com isso) e agarrar-se à bóia que vai a subir é agora. Se o fizesse, assegurava a sua sobrevivência como grande clube. Mas duvido muito que o vá fazer. A doença é muito profunda. É muito mais provável que volte a confundir rival com inimigo e que, como tem acontecido ao longo dos últimos 30 anos, essa confusão o encaminhe para a vulgaridade.

segunda-feira, 18 de março de 2013

100 milhões por uma bejeca?


Não teria havido campeonato para o Benfica sem uma vitória em Guimarães, mas o Porto continua a ser favorito. Agora 55, 45.

Para ser campeão, o Benfica terá de vencer os próximos cinco jogos no campeonato, com uma e provavelmente duas eliminatórias europeias pelo meio, e sendo que a segunda, a acontecer, deverá  ser contra Chelsea ou Tottenham nas meias-finais da Liga Europa, com a deslocação a casa do Marítimo no meio. O Newcastle saíu a pedido, é uma equipa à medida deste Benfica e do Jesus. Só uma boa equipa inglesa tem capacidade para ganhar a um Benfica motivado, e o Newcastle não é uma delas. Tem 20 por cento de hipóteses de eliminar o Benfica.

Esta equipa do Benfica dá-me úlceras e põe-me aos gritos. Já me falta o verbo para a qualificar, mas penso que o que acho em relação a ela está bem explícito noutros posts. Tem três ou quatro jogadores que conseguem passar um jogo, literalmente, sem pensarem naquilo que estão a fazer, e, como equipa, só funciona aos repelões, quer a atacar quer a defender. No entanto, pode alcançar a dobradinha. Inacreditável. Mas o futebol é isto, como diria o Gabriel Alves. Vale mais ter sorte do que ser bom.

Por outro lado, a eliminação europeia irá, de facto, beneficiar o Porto. Tal como no ano passado. Em condições normais, o jogo na Madeira era o último em que a Europa podia fazer pagar factura. Aconteceu. A questão é que a estrela parece tê-los abandonado.

A partir do jogo da Luz, correu tudo ao contrário para o Porto, que está a dar razões aos seus adeptos para, genuinamente, se assustarem. Tal como o Benfica, este ano mudou a ordem das voltas, começou bem e está a acabar mal. Inverte uma tendência de muitos anos de fazer épocas em crescendo. Não é uma grande ideia.

O clube que não falha está a um mau resultado, no campeonato, de pagar 100 milhões de euros por aquilo a que chamou de taça da cerveja. Basta mais um, seja contra quem for. Nesta altura, os 18 milhões pagos pelo lateral-direito não passam de uma loucura cara, a jogada de génio de trazer de volta Lucho já não parece tão genial – porque agora dava jeito ter um jogador que substituísse o Moutinho depois do Verão –, a golpada ao Sporting pelo Izmailov, que não jogou praticamente nada nos últimos dois encontos (decisivos), não parece tão boa, porque compraram um problema mental de 30 anos, e a contratação do Liedson, que continua a «recuperar a melhor condição» está tornar-se uma anedota.

Se, a isto, juntarmos o facto do «ciclo Villas-Boas», onde se enquadram estes negócios e os dois anos Vítor Pereira, ser, fundamentalmente, um período de forte investimento financeiro no momento para combater o advento de Jesus no Benfica, e de Jesus não só continuar no Benfica (contrariando o que era normal, que era o Benfica mudar de treinador quando as coisas começavam a correr mal só para depois ficar pior) como estar prestes a fazer a melhor época do clube desde 1983, o cenário pode tornar-se realmente complicado para Pinto da Costa.

Os insultos no aeroporto a uma equipa bicampeã dificilmente terão a mesma resposta que tiveram na última época de Jesualdo Ferreira. O Porto não tem hipóteses financeiras de voltar a cometer as loucuras que cometeu então, tem consumido uma parte substancial dos seus recursos na tentativa do «ganhar agora» (em Luchos, Liedsons, Izmailovs, Mankos), prescindindo da filosofia de investimento a médio prazo – porque Pinto da Costa sente que o Benfica está num momento de crescimento e que não pode parar de o pressionar – e o Benfica, em vez de vergar, está cada vez mais competitivo. Até já compra jogos ingleses e tudo.

A solução óbvia e única parece ser a de ir roubar Jesus ao Benfica. Um plano que já deve estar em curso.

Cá no fundo, tenho uma vontade secreta de que isso acontecesse. Se, por acaso, o Porto perdesse o campeonato, fosse buscar o Jesus, o Benfica encontrasse alguém tão bom ou melhor e voltasse a ganhar o campeonato, seria de tal forma desastroso para o Porto que o processo de enfraquecimento, que se prevê lento, seria acelerado vários anos.

Um campeonato ganha-se sempre. Mas a oportunidade de assistir a uma coisa destas justifica correr riscos. Ainda para mais, ao contrário do que é a opinião comum, acho que esta equipa cresceria imenso, em termos de qualidade, se passasse a ser treinada, por exemplo, por um Fernando Santos. E também gostava imenso de ver o homem que não é de se meter en«m estruturas a tentar encaixar-se na «estrutura» que funciona tão bem que até os adjuntos são os melhores do mundo. Sobretudo, gostava de ver isso a acontecer se a Rainha Isabel fosse obrigada a aparecer nos treinos de segunda-feira muitas vezes.

Mas, voltando à Terra, é mais provável que o Porto chegue à jornada 29 sem voltar a perder pontos do que o Benfica ganhar os próximos cinco jogos.

No entanto, esse é o desafio. Se o conseguir, será campeão.

sexta-feira, 8 de março de 2013

Foi à Benfica


O Luisão ficou chateado com o pessoal no fim do jogo com o Bordéus, e até lhe fica bem – acho de uma falta de personalidade enorme, por exemplo, ver as figuras do Rui Patrício, com cara de choro, a chamar os colegas para o centro do relvado para agradecer (ou pedir desculpa?) aos adeptos enquanto estes lhes chamam de chulos para cima.

Fica-lhe bem, desde que, depois, tenha a humildade de perceber porque é que foi assobiado.

É que, com a treta de que «futebol é resultado», que vai fazendo escola, os profissionais de futebol convencem-se mesmo disso, e perdem a perspectiva certa.

A reacção dos adeptos durante o jogo é o melhor barómetro da qualidade de uma equipa. Quer no entusiasmo que gera, quer na frustração, é nessas reacções que mais nos aproximamos da verdade. Naquele momento, é todo o instinto e a compreensão subconsciente do futebol, pelo adepto, que vem cá para fora. Em relação ao jogo em si, as pessoas começam a complicar quando começam a pensar, porque aí já começam a tentar encontrar justificações e álibis para defender as suas paixões. Depois do jogo acabar, com um resultado positivo, o adepto tenta desculpar os jogadores, não por causa dos jogadores mas porque, ao fazê-lo, está a tentar justificar-se a si próprio. Afinal, se aquela equipa não joga nada, que boa razão haveria para ele lhe pertencer? Não, isso não pode ser. Ele não seria assim tão irracional. A única explicação é de que, afinal, ele é que não estava a ver bem. O adepto prefere remeter a sua irracionalidade (que ele sabe que existe) para as reacções que tem durante o jogo, porque o jogo acaba, e com ele, supostamente, acabaria a irracionalidade. A alternativa seria aceitar que se é irracional nos intervalos entre os jogos...

Só que a irracionalidade, realmente, começa quando o jogo acaba. Antes disso só há naturalidade, e o que é natural, e genuíno, só muito raramente não é verdadeiro. Irracional, irracional, é negar as evidências.

Apesar das 1500 vitórias do Jesus, dos 3000 golos, do melhor Benfica da última geração, que aparecem todos os dias nos jornais para que alguém os compre, as pessoas que vão ao futebol, que já vêem futebol há muito tempo e que sabem muito mais de futebol do que aquilo que julgam, sabem ver quando uma equipa está a jogar aquém daquilo que pode, sabem ver quando um jogador está cansado ou é preguiçoso, sabem ver quando um jogador está cansado porque andou muito tempo a dar mais do que podia ou quando está cansado porque é preguiçoso e não trabalhou o que devia para se cansar menos.

Ao contrário do que se pensa e do que se diz, as pessoas não são estúpidas. Podem não saber dizer o que pensam, podem não ter argumentos para defender um ponto de vista, podem não se saber explicar ou explicar porque pensam como pensam, mas percebem muito rapidamente as coisas essenciais. Ser básico não é ser estúpido. Nós percebemo-nos todos muito bem uns aos outros, mesmo sendo quase todos bastante básicos.

As pessoas percebem perfeitamente que o nível de exigência desta equipa do Benfica, e sobre ela, é baixo. Porque se tomam as opções mais fáceis. Porque se desresponsabiliza quando se devia responsabilizar e só se responsabiliza na hora de sacudir a água do capote.

Não é tudo evidente, valha-nos isso. São as pequenas coisas, os gestos habituais. Os jogadores, os treinadores e os dirigentes, que são pessoal muito esperto, muito vivaço, sobretudo adaptam-se. Percebem qual é o ponto mínimo de esforço que têm de atingir para serem desculpados em caso da coisa correr mal e trabalham para atingir esse ponto. Se a coisa corre bem, óptimo. Se corre mal, paciência, «porque nós trabalhamos todos os dias para atingir o sucesso.» É apenas humano. Por mais que se goste do trabalho que se tem, ninguém gosta de ter de trabalhar para viver. Eles fazem o que toda a gente faz. Não é crime.

Mas é o grau de exigência que determina o grau do sucesso.

Em termos de resultados, o Benfica, hoje em dia, é um clube vulgar. Ao todo, ganhou três ou quatro títulos em dez anos, e só um ou dois de verdadeira importância. É um clube vulgar, em resultados, porque se exige pouco. Exige-se que se ganhe jogos em vez de se exigir que se ganhe campeonatos. Exige-se que se corra muito em vez de se exigir que se seja inteligente, que é muito mais importante. Exige-se que se comece bem a época em vez de se exigir que se acabe bem a época – e é por isso que cada época do Benfica tem duas épocas diferentes, a de antes do Ano Novo e a de depois do Ano Novo.

Nada disto é dramático porque tudo isto é um processo. Há dez anos era muito pior. Hoje já se exige mais. E a única forma de impedir que o clube seja colonizado por jogadores, treinadores ou dirigentes medíocres é exigir que eles vão além do que pensam que têm para dar. Para forçar os medícores a sair e fazer a selecção natural dos bons, entenda-se.

Um jogador medíocre é o que, no fim do jogo que ganha, se chateia com o público que o assobia, vai para casa e, no treino seguinte, continua convencido de que tem razão. O bom profissional é o que vai para casa, percebe que tem mais qualquer coisa para dar e, no treino seguinte, vai à procura dessa margem.

Acho bem que o Luisão e a equipa façam birra. Birra significa personalidade. É como com as crianças, e somos todos crianças a olhar para uma bola. Mas a resposta que interessa é a que se dá a seguir, e não é nos jornais, porque nos jornais só há conversa.

Que os adeptos assobiem a equipa quando ela perde e joga mal é inevitável. Que assobiem quando ela ganha e joga mal é muito saudável. É um sinal de evolução.

E qualquer jogador, treinador ou dirigente que ache que um clube vencedor se faz a meio-gás, a gerir apenas expectativas baixas, que não goste que lhe exijam mais do que ele se exige a si próprio, não tem carácter para estar num clube de ADN como o do Benfica.

Como eu já disse no último post, no Benfica, e ao contrário do que a maior parte das pessoas foi instruída para pensar, não se valoriza quem ganha, valoriza-se quem se entrega completamente enquanto tenta ganhar. Os resultados são, e foram sempre, apenas uma consequência natural.

Para mim, o final do jogo com o Bordéus foi o primeiro momento realmente à Benfica nesta temporada.

quarta-feira, 27 de fevereiro de 2013

Não é cultura de vitória, é cultura de exigência


Correu muito bem, em Braga.

Jogaram uma série de jogadores que vão fazer falta no próximo mês (Jardel, André Almeida, Aimar, Carlos Martins, Urreta, Aimar, Rodrigo); o Benfica aguentou-se bem, com uma equipa de suplentes contra a equipa principal do Braga, até aos penáltis; como disse o Pinto da Costa o ano passado, desta já se livrou, é menos um jogo, numa competição em que, após quatro anos a vencer, e encarando friamente, tinha muito mais a perder do que a ganhar; toda a gente viu o o Braga a festejar a passagem à final da «Taça da Cerveja» como se se tivesse apurado para a Champions (com o bónus de se poder ouvir o Luisão a gozar com eles na flash interview – «para o que estão a fazer têm mesmo de comemorar»…) e, se Deus quiser, ainda haveremos de ver este Braga a jogar com o Porto na final da tal Taça que não conta para nada e que, certamente, nenhuma das duas equipas quererá ganhar. Mais um jogo para o Porto (com o do Rio Ave já são dois, tendo o do Rio Ave de ser metido à pressão entre duas jornadas do campeonato) é bom para equilibrar um pouco a contabilidade de minutos.

A jornada europeia, veremos. Continuo a dizer que preferia que o Bayer tivesse passado e que o Benfica ficasse apenas com o campeonato para jogar, sobretudo depois do resultado do Porto, que quase lhes garante a passagem na Champions. As hipóteses de sucesso do Benfica no campeonato passam por aí. O Jesus tem toda a razão, como é evidente, por mais que os comentadores da treta ou os adeptos irrealistas insistam no contrário: a incompatibilidade entre uma época de sucesso a nível interno e externo é uma evidência histórica. Apenas muito pontualmente, e com equipas de muito alto nível, se consegue juntar as duas. O argumento de que o Porto o fez com Mourinho e Villas-Boas é falacioso. Em ambos os casos o sucesso internacional só foi possível porque, a nível interno, o campeonato já estava decidido no Natal. E convém não esquecer que o caso da fruta e do Jacinto Paixão (o Pinto da Costa sabe do que se trata porque ouviu as escutas no You Tube, e, como ele disse, aparecia lá o Vieira a falar do João Ferreira, pelo que o que foi posto na Net deve ser verdade…) deu-se precisamente num jogo com o Beira-Mar antes de uma eliminatória europeia (com o Panathinaikos ou com o Corunha), para garantir que tudo corria bem.

A única coisa boa na passagem da eliminatória é que, se o Porto não perder pontos nas próximas jornadas – como é bem possível – o Benfica pode ter na Liga Europa uma hipótese de prolongar a época. O Bordéus é muito fraquinho, muito mais fraco que o Bayer Leverkussen, e, mesmo considerando que o Bayer deu a primeira mão da eliminatória de barato, terá poucas hipóteses contra um Benfica normal.

Uma época com uma vitória na Taça de Portugal, um segundo lugar no campeonato e uma presença nas meias-finais da Liga Europa, por exemplo, seria uma época muito respeitável. Não há por que negá-lo.

A este propósito, convém recuperar aquele momento em que o Jesus pôs a sua cara de inteligente, há uns dias, e disse que o Benfica é um clube com cultura de vitória.

Antes de mais, deve dizer-se que as palavras falam pouco. O que fala são as acções. O Jesus pôs todos os suplentes que pôde frente ao Braga, o que traduz a importância relativa da Taça da Liga na perspectiva geral, e fez muito bem. E isso não impediu a equipa de jogar para ganhar. O Benfica não entregou o jogo. Facilitou, obviamente, mas não o entregou.

Depois, há duas questões diferentes.

A primeira é a de que o Benfica não tem, actualmente, uma cultura de vitória. E devo dizer que já não a tem há muito, muito tempo. Deixou-a deslassar a partir sensivelmente de meados da década de 80. O que o Benfica tem tido, esporadicamente, desde então, é algumas equipas que vão ganhando o hábito de ganhar e, muito mais vezes, equipas que tentam não perder. É muito diferente ter uma equipa que vai ganhando o hábito de ganhar (que era aquilo a que o Jesus se estava realmente a referir, confundindo o Benfica com a equipa que ele acha que é a sua equipa, a que ele inventou desde que chegou) e ter um clube com a cultura de vitória. Esta equipa tem fomentado, mais que todas as outras desde Eriksson, o hábito de ganhar jogos, o que a torna, por si só, na melhor dos últimos 25 anos, mas o clube está muito longe de ter recuperado a sua cultura de vitória. E isto por causa da segunda questão.

A segunda questão, que o Jesus (porque sempre foi sportinguista) e a maior parte dos benfiquistas ainda não conseguiram entender, é que a cultura do Benfica nunca foi, realmente, uma cultura de vitória: foi, sim, originalmente, uma cultura de trabalho e de espírito de superação. Foi daí que surgiram as vitórias, mas não, note-se, uma verdadeira cultura de vitória. As vitórias, no Benfica, nasceram do sacrifício colectivo, do trabalho, e a própria humildade de base na cultura benfiquista (popular, inculta, generosa mas pouco ambiciosa, pouco aristocrática) impediu o clube de adquirir uma cultura de vitória que o tornasse, por exemplo, no que hoje é um Barcelona ou um Real Madrid.

A verdadeira essência do Benfica, mais do que ser uma potência dominadora (quando chegou a altura de dominar, o clube veio a cair no deslumbramento e no novo-riquismo que ainda hoje o domina), é triunfar apesar das adversidades.

Dificilmente veremos no Benfica, algum dia, a aura aristocrática de um Real Madrid, aquela nobreza que parece natural, o sangue azul que parece estar na própria base da altivez desse clube. Mais facilmente veremos o Benfica, novamente, a aparecer entre os grandes em situações desfavoráveis e, depois, a recuar novamente. Seria preciso, para que assim não fosse, que houvesse uma grande revolução cultural entre a massa adepta do Benfica para, no espaço de uma geração, conquistar esse ADN dos que se se sentem realmente melhores que os outros. Não o sentimos. Sentimos que lhes podemos ganhar, isso sim. Mas não que somos naturalmente tão bons como eles.

Independentemente disto, o que interessa é que a cultura do Benfica é a da superação, da exigência acima do normal, acima do vulgar, e não a «cultura de vitória». É isso que o Jesus não entende, e é isso que me leva a não me rever, ainda, nesta «equipa do Jesus».

Esta equipa não reflecte a verdadeira cultura do Benfica. Exige pouco de si própria. Não tenta superar-se o suficiente. Resigna-se com demasiada facilidade. Aspira a pouco.

Não é que exija pouco, que não se tente superar ou que se resigne facilmente. Não é isso. Apenas o faz a níveis normais para qualquer equipa normal no mundo. E o que tornou o Benfica imenso foi precisamente isso: o Benfica não é apenas normal.

Quando vejo um colunista, no Record, a dizer que o Benfica precisa mais do Jesus que o Jesus do Benfica fico com os cabelos arrepiados. Porque esta gente, tão inteligente, não chega lá. Não percebe que um clube como os outros, que nasce no meio dos outros, não se torna tão maior do que os outros apenas por fazer o que os outros fazem, ou por pensar como os outros pensam.

O Benfica ergueu-se acima dos restantes a fazer o que parecia impossível. Não foi apenas «gestão». Foi devoção.

Dito tudo isto, o Benfica, como clube, teria «cultura» para jogar tudo e ganhar tudo, sem ter de abdicar de nada? Teria. Mas não com esta equipa.

domingo, 17 de fevereiro de 2013

O meteorito da sorte


Não devo ser desonesto. Aquilo que eu escrevi antes do penálti do Lima foi isto:

«Uma exibição absurda de uma equipa sem verdadeiro estofo para ganhar o campeonato, que é perdido, pela segunda época consecutiva, assim que é jogada a primeira eliminatória europeia do ano e sobe o ritmo e a exigência da competição.

Uma equipa que trabalha pela metade, orientada por um treinador que vive de esquemas, que vai aprendendo à medida que o esquema anterior falha e cuja principal capacidade é sobreviver, que tenta resolver a esbracejar o que não consegue preparar com trabalho, impreparada para enfrentar um adversário muitíssimo fraco e previsivelmente superdefensivo, sem ter uma jogada ensaiada para libertar um extremo que cruze, sem o mínimo de perigo nas bolas paradas, sem liderança em campo e sem verdadeira vontade de ganhar, incapaz de lutar contra as dificuldades numa noite mais difícil.

O Porto vai ser um campeão justo e, com a previsível eliminação de Lyon, Liverpool, Olympiakos, Nápoles e Atlético de Madrid da Liga Europa, se os benfiquistas querem ver futebol até ao fim da época têm de esperar pelas quintas-feiras. Os jogadores já mostraram onde está a sua cabeça e o treinador não tem dificuldade em admitir que a Europa  ‘é que dá prestígio’. Não faria sentido, aliás, outra coisa, a partir de agora, senão apostar na Liga Europa e na Taça de Portugal.

Fica-se em segundo, ganha-se a Taça, joga-se na Europa até Abril e está feita a época.

Se Vieira estava à espera do jogo das Antas para saber se renovava com o Jesus, a partir de agora só está a perder tempo. Ou renova ou não renova e só tem de assumir o que quer.

Quanto a mim, até me dá jeito. Começa amanhã o meu último semestre e quanto menos distrações melhor.»

 

Posto isto a limpo, deve dizer-se o seguinte:

- o penálti é indiscutível. Há um corpo a corpo que é legal e, quando o defesa se desequilibra e perde a posição, há um puxão que é ilegal e impede o Gaitán de jogar a bola;

- o Benfica teve hoje a mesma estrela que teve, há três anos, quando o Javi Garcia marcou de cabeça, na Luz, no último minuto, frente à Naval. Não sei se é estrela de campeão, mas sem estes três pontos o campeonato estava entregue. Se o Benfica chegar a ser campeão, há quatro resultados fundamentais, até agora: a vitória em Alvalade, a vitória em Braga, o empate do Porto com o Olhanense e esta vitória com a Académica. Será, talvez, a propósito das imagens que chegaram da Rússia, o meteorito da sorte - cuja onde de choque atingiu, certamente, o Porto, com o mesmo impacto;

- a Académica foi a pior equipa a jogar na Luz este ano. Não fez um remate à baliza, fez todo o tipo de anti-jogo e mereceu perder por 5 ou 6. Não merecia o empate porque, ao contrário do que disse o seu treinador, não teve coragem nenhuma. No entanto, a questão do «merecimento» não está em causa. Não está hoje como não esteve, por exemplo, no empate do Porto com o Olhanense. Nestes jogos as equipas grandes merecem sempre ganhar. Atacam mais, jogam mais e são sempre melhores. A questão é conseguir ou não ganhar.

Posto também isto a limpo, e excepção feita às consequências que o empate teria para o resto da época, não vejo, num penálti que tanto aconteceu como podia não ter acontecido, razão suficiente para mudar nada do que já tinha escrito após ver o Benfica a jogar durante 94 minutos.

quinta-feira, 14 de fevereiro de 2013

Hora de mudar de moscas


Coloquemos a coisa desta forma: se eu pertencesse ao directório do Benfica e controlasse o Conselho de Disciplina, as decisões tomadas nesta reunião de 4.ª feira teriam sido praticamente as mesmas que foram anunciadas.

Não há razões objectivas para a despenalização de Matic. O árbitro considerou jogo violento e não há, nas imagens, prova em contrário. Apenas a sensação clara de que o jogador do Nacional desproporcionou e tirou proveito da situação. Um jogo de descanso para o Matic, frente à Académica, até pode ser positivo. Andam há um mês a ver se o expulsam, o Proença fez-lhes a vontade, mas os danos são mínimos, e até é favorável, em termos de opinião pública, que a expulsão ocorra numa situação muito duvidosa. O Benfica está a fazer o seu papel, insinuando que a expulsão foi injusta, e, neste caso, terá ganho munições, assim saiba fazer o seu papel de prejudicado.

Para o Cardozo, o ideal teria sido levar dois jogos. A expulsão e o castigo, como já escrevi, eram inevitáveis, e o gesto de puxar o árbitro não deveria passar em claro, mesmo não sendo, realmente, uma agressão ou tentativa disso. Castigar o Cardozo apenas com um jogo limpa a segunda parte da cena, e isso é estranho – mesmo que seja defensável, por parte do Conselho, com a norma aplicada.

Um jogo pela expulsão e um jogo pelo puxão, teriam tido a virtude de, por um lado, colocar o Benfica mais a salvo de insinuações de domínio sobre o CD, e, por outro, reduziria o castigo a um mínimo razoável. O Benfica teria passado por este caso podendo dizer que não está acima da lei (ficando, assim, com a razão moral do seu lado) apesar de colher os benefícios da benevolência dessa mesma lei. Em termos futuros, teria sido mais útil, e em termos imediatos não haveria grande diferença – se for por não jogar o Cardozo que o Benfica não ganha à Académica ou ao Paços de Ferreira em casa, então não há nada que esta equipa possa, realmente, ganhar.

Quanto ao indulto ao Porto, é perfeito.

Em boa verdade – e ao contrário da manipulação de calendário do jogo com o Setúbal, que pode ter influência no campeonato –, todo o caso é uma mera esquisitice. Eliminar o Porto por causa de 15 minutos e de pôr a jogar três jogadores que nunca actuam pela equipa principal (caramba, se tivessem posto o James, o Jackson e o Moutinho para se apurarem, agora o Fabiano, o Abdoulaye e o Sebá…) é uma aberração jurídica. Aí, o Porto tem razão. Mas o que é um facto, e o que torna o caso realmente interessante, é que, mesmo sendo injusta, a decisão certa, de acordo com a norma, só podia ser a de dar a derrota ao Porto. Ou seja, houve uma subversão da norma em benefício do Porto. O resto são advogados a falar (e podem estar mais vinte anos a falar sem que algum dos lados ache que perdeu a razão).

Isso, para o Benfica, é bom.

Melhor ainda é que o Porto passe a ter mais dois jogos no calendário.

Além disso, como já aqui escrevi, meio a gozar, mas a falar sério, que é preciso que uma das equipas do regime ganhe a Taça da Liga para os três (quatro?) títulos do Benfica serem valorizados. A Taça da Liga está numa fase de afirmação, em que importa mais o seu prestígio do que o troféu em si.

Neste momento, e até pelo contexto competitivo em que está inserido, não há melhor cenário para o Benfica, nesta Taça da Liga, que ver Porto e Braga disputá-la numa final fratricida (e de preferência com erros escandalosos de arbitragem, muita vaselina e luvas de látex, como no jogo do campeonato).

Se eu fosse do Benfica e mandasse no CD, tinha inventado quaisquer justificações para manter o Porto na Taça da Liga, e quanto mais contra a lei melhor, para que se ficasse com a ideia de que se estava a passar por cima da lei para beneficiar o Porto.

Este caso é interessante, sobretudo, porque, pela coincidência de casos, vem abrir uma hostilidade que, no futuro, com a rebipolarização do futebol português, é inevitável, e que já aconteceu durante uma parte dos anos 90. Falo do controlo dos Conselhos de Arbitragem, de Disciplina e de Justiça da FPF.

Não estamos em condições de dizer qual dos dois clubes é que tem, neste momento, mais peso no C. Disciplina, mas tenho a certeza de que este é apenas um primeiro caso, no pós-Apito Dourado, de muitos em que a vantagem dentro do campo será condicionada pela vantagem nos gabinetes e nestas reuniões de 4.ª feira.

A ideia de que o Conselho aproveitou para beneficiar os dois clubes, compensando cada um pelo benefício dado ao outro, não me convence minimamente. Tenho a certeza de que o Conselho de Disciplina nem é independente nem é neutral, nem isento. Estou seguro de que há muitas pressões para o controlar, e que esse controlo está em andamento. Só não sabemos, ainda, quem o controla. Mas o seguimento que este caso vai ter, em termos de opinião pública, e quando ocorrerem outros casos, torná-lo-á claro. Estas decisões não foram tomadas para beneficiar os dois clubes: foram tomadas para, no futuro, ao beneficiar um dos clubes e prejudicar outro, serem usadas como argumento de idoneidade. Dir-se-á: «Mas, se nós queremos prejudicar o clube ‘x’, por que é que naquela situação o beneficiámos tão claramente?» Podem esperar. Esta decisão não foi uma decisão, foi um álibi para o futuro.

Se eu tivesse de apostar, agora, em qual dos dois está a trabalhar melhor o CD, até pelo que já disse, apostaria mais no Benfica. Mas está tudo em aberto. O Porto não é de facilitar nestas coisas, e trabalha a longo prazo.

Certo é que ambos estão, desde há muitos meses, a mexer-se para garantirem o domínio da nova ordem que advirá da passagem para a FPF da Arbitragem e da Disciplina.

Aos mais novos deve ser tornado claro uma coisa: a Liga Profissional de Futebol não surgiu devido ao grau de sofisticação, de boa vontade ou de súbita iluminação empresarial dos dirigentes. Ela surgiu porque a corrupção dos vários Conselhos dentro da Federação atingiu tal ponto, era de tal forma escandalosa, a ditadura do Porto era de tal forma esmagadora, que se tornou necessário arranjar maneira de lavar a situação. A criação da Liga (algo que estava na moda na Europa, nessa altura) e a passagem da Arbitragem, Disciplina e Justiça para a Liga foi a forma de mudar tudo para que tudo pudesse continuar na mesma.

Falava-se da Liga como se, de repente, as pessoas fossem mudar de carácter porque mudavam de sala, mas os dirigentes eram os mesmos, os árbitros eram os mesmos, os processos eram os mesmos, e poucos anos depois a escumalha que estava num lado (como algumas caras novas, como o Valentim Loureiro) já tinha passado para o outro, bem instalada na sede da Liga, no Porto. Talvez não saibam, ou não se lembrem, mas até o Pinto da Costa se deu ao luxo de ser presidente da Liga, apoiado pelo Manuel Damásio, o pior presidente na história do Benfica (sim, leram bem, o pior, e um dia falaremos disso).

O que se está a passar agora é a mesma coisa, mas com uma diferença. Enquanto naquela altura o que estava em curso era um fortalecimento óbvio do Porto, através da legitimação dos processos que esse clube usava para dominar o futebol português, por via de uma nova associação voluntária de TODOS os clubes, hoje, após o recuo imposto pelo Apito Dourado, e do confronto aberto com um Benfica de Vieira em fortalecimento, o que está em causa é a supremacia sobre a nova hierarquia, com o Porto a partir em vantagem, por motivos históricos e por causa de Pinto da Costa, mas a não estar claramente acima.

Mais que saber quem manda, hoje, no Vítor Pereira (o presidente do CA…), o que está em causa é sabe quem vai mandar nos vários Conselhos daqui por dois/três anos. É aí que há muitos pontos a ganhar. Foi aí que o Porto fez realmente a diferença na década de 90, passando-se de uma realidade em que as duas equipas ganhavam os campeonatos alternadamente para outro em que o Porto (com piores jogadores, note-se) passou a ganhar oito em dez, e o Benfica um em dez. Os sucessivos benefícios transformaram uma diferença mínima numa superioridade constante que, depois, se transformou numa hegemonia intocável.

A grande subtileza deste caso está nas duas últimas palavras do comunicado do CD, quando se fala na impossibilidade de fazer uma «interpretação extensiva» da norma constante no artigo.

Fazer uma «interpretação extensiva» da lei significa que, ao aplicar a norma jurídica ao caso, o decisor considera que, ao criar a lei, o legislador deixou a letra da lei aquém do espírito da lei (do pensamento e das intenções que a originam), e que, como tal, aquele que a interpreta deve dar mais importância ao espírito da lei do que ao que nela está escrito.

O CD optou por uma interpretação literal da lei, considerando que a letra da lei reflecte inteiramente o espírito que lhe está subjacente.

Também poderia ter optado por fazer uma interpretação restrita da lei – concluindo que o espírito da lei ficaria aquém da letra da lei.

É indiferente.

A subtileza, aqui, é que toda e qualquer norma jurídica tem de ser interpretada, e os vários tipos de interpretação permitem, a quem decide, interpretá-la como acharem melhor – ou como der mais jeito. Quem pensa que a lei é unívoca, está doido. A lei é o instrumento dos habilidosos e dos despudorados.

E é por isto que é importante controlar os homens que interpretam as leis. Porque, estando lá postos, eles não precisam de se justificar perante ninguém para fazerem o que querem. E fazem-no agindo dentro da lei, e com a força coerciva do seu lado.

A lei é sempre uma interpretação. E quando a lei não serve a ética ou o interesse comum, mas interesses particulares, a corrupção está instalada.

Este caso, em que os interesses particulares foram colocados acima da ética, e em conjunto com o clima de guerra civil latente é, para mim, liminar: vem aí mais um ciclo de pouca vergonha.

domingo, 10 de fevereiro de 2013

Choupanas mil


Alguns pontos sobre o empate na Madeira, por ordem crescente de importância:

1 – O empate com o Nacional não muda nada, no essencial, do que escrevi nos últimos dois posts. Nunca esperei que o Benfica chegasse ao jogo das Antas com onze vitórias em onze jogos. Por outro lado, a margem acaba aqui. Continuo a achar que o Benfica só manterá 25 por cento de hipóteses de ser campeão se ganhar os próximos dez jogos para o campeonato. Da mesma maneira que continuo a pensar que o Benfica só será campeão se o Porto fizer três maus resultados até esse jogo. O jogo da Madeira era o jogo mais difícil, para o Benfica, até ao das Antas (mais, na minha opinião, que a visita ao Guimarães ou ao Marítimo). Independentemente da forma como aconteceu, o resultado é um resultado normal no percurso de uma equipa que ganhe o campeonato, neste tipo de campeonato.

2 – No que toca a opções de gestão do plantel, que para mim era mais importante que o resultado, o Jesus deu uma no cravo e outra na ferradura, mas penso que deu mais no cravo que na ferradura. Entre o onze inicial e o melhor onze do Benfica faltariam Melgarejo, Gaitán e Cardozo (isto considerando as opções do Jesus, porque, se eu fosse o senhor do universo, o Ola John seria titular). Melgarejo está lesionado, Cardozo esteve parado duas semanas e não nos podemos esquecer de um factor fundamental quando se joga na Choupana: a partir dos 60 minutos, devido à altitude e à humidade, as equipas visitantes começam a correr para trás. Pela mesma razão aceito perfeitamente a não inclusão de Ola John, que jogou pela Holanda. Não acredito que tivesse mais de 30 minutos para dar. Por outro lado, a escolha de Urreta não se enquadra no normal descarte. À primeira vista, sim. Mas o rendimento que Urreta evidenciou mostra que está no ponto para que o treinador aposte nele não para fazer descansar alguém mas para sacar rendimento. Foi, sem dúvida, o melhor jogador do Benfica, e só aceito a sua substituição na perspectiva que já falei, de a Choupana exigir demasiado de um jogador que não faz 90 minutos há meses. É muito provável que, quando saíu, o Urreta já estivesse sem combustível.

Ou seja, o Jesus cumpriu: escolheu o campeonato. Isso, por si só, é positivo no que respeita a este campeonato, mas também porque demonstra aquilo que já sabemos: que o Jesus está sempre a aprender. Todo o conhecimento do Jesus é empírico, resulta da experiência. O Jesus é esperto, e esse é o seu ponto forte. Mas não é muito inteligente. E esse é o seu ponto fraco.

3 – Alguém disse um dia que o primeiro e fundamental passo para resolver qualquer problema é reconhecer que esse problema existe. Depois disso, em boa verdade, havendo persistência, é uma questão de tempo e engenho.

Para identificar um problema é preciso ter capacidade crítica (muitas vezes auto-crítica, que é ainda ais complicada). E só é possível ter capacidade crítica se se tiver capacidade de abstracção. O abstracto é aquilo que não é concreto. Existe no campo da ideia. Da possibilidade. Da teoria. As pessoas que pensam são tratadas como idiotas, como arrogantes, e muitas são isso mesmo, mas é uma verdade indesmentível que tudo o que é concreto, tudo o que o homem faz voluntariamente à face da Terra, nasce no abstracto, na ideia, antes de se concretizar em acções.

O empirismo, a aprendizagem pela experiência, resulta do concreto. A crítica resulta do abstracto. Estão a ver qual é o problema do Jesus?

O Jesus não entende o abstracto. Não acredita em teorias. É um Action Man. O fair play é uma treta (e é). Se o Benfica tem 17 vitórias em 20 jogos, se marca três golos por jogo, se só tem meia dúzia de golos sofridos, como é que é possível que alguém pense que não tem equipa para ser campeão? Só um idiota. Só alguém que não percebe nada de futebol. Porque o futebol é resultado. Certo? Errado.

Errado, porquê? Errado porque, depois, o Jesus é enganado, sem saber como. E porquê? Eu respondo porquê: porque não se abstrai o suficiente da sua filosofia de futebol.

Vou escrever aqui uma coisa que assumirei perfeitamente quer ele fique quer ele vá embora: se, em vez de dois ou três arrumadores de cones, o Jesus tivesse dois bons técnicos como adjuntos, o Jesus seria, a breve prazo, um dos cinco melhores treinadores do Mundo.

Eu repito. Com um Peseiro e um Jesualdo Ferreira como adjuntos, com a capacidade que o Benfica já mostrou para encontrar e contratar bons jogadores, com a capacidade que tem de mobilizar adeptos e a facilidade que demonstra em chegar, com facilidade, à alta-roda europeia (em cinquenta anos de competições europeias o Sporting nunca fez o que o Benfica fez, por exemplo, quando eliminou Manchester United e Liverpool, há uns anos, e isso nem foi nada de especial na história do Benfica), com a capacidade que o Jesus tem de aprender com aquilo que vê, em cinco/seis anos o Benfica estaria entre as dez melhores equipas europeias, seria melhor que o Porto e o Jesus estaria entre a elite dos técnicos mundiais – mesmo com chicletes, com a mania das grandezas e com todas as suas peculiaridades.

Mas essa não é a realidade.

A realidade é o Jesus a dizer que, em Braga, o Benfica «jogou em posse» na segunda parte, quando, de facto, o Benfica apenas tentou jogar em posse, não o conseguindo, obviamente, porque não sabe, limitando-se a perder bolas no meio-campo, sem defender nem atacar, ficando à mercê do discernimento do adversário.

A realidade é o Jesus a falar de uma equipa que «sabe controlar o jogo» quando, de facto, em quatro anos, e mesmo jogando em vantagem durante mais de metade do tempo, o benfica continua a ser uma equipa unidimensional, que só sabe jogar de uma maneira – «para a frente e em força» – e que, tendo de controlar um jogo ou através da posso de bola ou através do posicionamento defensivo, invariavelmente falha.

E isso vê-se todas as semanas. Vê-se em Braga, vê-se na Madeira, ou vê-se em Moreira de Cónegos. A meio da segunda parte desse jogo, há uma jogada em que o Matic tem a bola a meio do meio campo do Moreirense, já com o Benfica a ganhar. Tem a possibilidade de passar a bola nessa zona, fazendo aquilo que é, realmente, «a gestão da posse», necessitando, contudo, de arriscar um pouco, porque havia alguma pressão. Está, notem, a 70 metros da sua baliza. Em vez de manter a posse de bola nessa área, passa-a para trás, onde o central a recebe a vontade. O Moreirense sobe, e o central, novamente, em vez de manter a bola no ataque, fá-la recuar para  guarda-redes. Nessa altura, o Artur, já com o Ghilas em cima, chuta para a frente, e a bola fica solta.

Não se viu, naquele lance (um entre muitos), o mínimo esforço, ou o mínimo de trabalho, para fazer aquilo que o Jesus sabe que é o que deve ser feito, e que o Jesus pensa que estava a ser feito, que era manter a bola em circulação na intermediária adversária, sob alguma pressão, para, através de uma desmarcação, aproveitar o espaço e, num passe sem risco, atacar a baliza.

É apenas um exemplo.

Quem estiver suficientemente predisposto a isso encontra, em qualquer jogo do Benfica, dezenas de situações em que se consegue identificar falhas provocadas não pela falta de qualidade técnica ou física dos jogadores mas fruto de desconcentrações, erros posicionais, opções erradas, erros técnicos básicos, que, ao fim de quatro anos, e pela regularidade com que recorrentemente surgem, não podem senão ser produto de lacunas no trabalho diário. E quem as vê, e quem vai vivendo o dia-a-dia do clube, percebe perfeitamente que elas não são trabalhadas porque não são identificadas. Porque não há capacidade, antes de mais, para as reconhecer.

A realidade é uma equipa do Benfica que, estando num nível alto, internamente, faz tudo o que fazia de bom e de mau que já fazia há três anos, apenas com intérpretes diferentes.

A realidade é que, em 50 jogos que o Benfica faz em cada época, há 12/13 em que se decidem competições e 40 que servem para vender bilhetes, camisolas, jornais, jogadores, etc, e que, se não há nenhuma equipa mais bem preparada que o Benfica para ter bons resultados nestes 40 jogos, nos outros 12/13, em que tem de haver inteligência, cérebro, exigência, este Benfica continua a ser apenas uma equipa mediana. E é por isso que, provavelmente, vai voltar a perder o campeonato.

Não é por a bola ter ido ao poste, nem por causa do fora-de-jogo, nem por causa das lesões, nem sequer é por ter empatado com o Nacional da Madeira. O Nacional da Madeira pode empatar com qualquer equipa no seu campo, e isso não diminui essa equipa.

Mas ir empatar à Madeira por não se conseguir pôr em prática o plano de jogo adequado, por falta de engenho ocasional ou de sorte, é uma coisa.

Ir empatar à Madeira porque não se sabe, simplesmente, o suficiente para jogar esse jogo como ele tem de ser jogado – de forma cínica, concentrada, segura, controlando colectivamente a bola e o espaço de jogo – é outra.

E o Benfica não empatou por não ter conseguido fazer o que sabe – empatou porque não sabe fazer mais. Faltou-lhe, afinal, aquilo que não lhe pode faltar, sob pena de se tornar uma equipa apenas pouco mais que vulgar: a sorte do jogo.

Pode ser campeão? Pode.

Tem 25 por cento de possibilidades.