domingo, 10 de fevereiro de 2013

Choupanas mil


Alguns pontos sobre o empate na Madeira, por ordem crescente de importância:

1 – O empate com o Nacional não muda nada, no essencial, do que escrevi nos últimos dois posts. Nunca esperei que o Benfica chegasse ao jogo das Antas com onze vitórias em onze jogos. Por outro lado, a margem acaba aqui. Continuo a achar que o Benfica só manterá 25 por cento de hipóteses de ser campeão se ganhar os próximos dez jogos para o campeonato. Da mesma maneira que continuo a pensar que o Benfica só será campeão se o Porto fizer três maus resultados até esse jogo. O jogo da Madeira era o jogo mais difícil, para o Benfica, até ao das Antas (mais, na minha opinião, que a visita ao Guimarães ou ao Marítimo). Independentemente da forma como aconteceu, o resultado é um resultado normal no percurso de uma equipa que ganhe o campeonato, neste tipo de campeonato.

2 – No que toca a opções de gestão do plantel, que para mim era mais importante que o resultado, o Jesus deu uma no cravo e outra na ferradura, mas penso que deu mais no cravo que na ferradura. Entre o onze inicial e o melhor onze do Benfica faltariam Melgarejo, Gaitán e Cardozo (isto considerando as opções do Jesus, porque, se eu fosse o senhor do universo, o Ola John seria titular). Melgarejo está lesionado, Cardozo esteve parado duas semanas e não nos podemos esquecer de um factor fundamental quando se joga na Choupana: a partir dos 60 minutos, devido à altitude e à humidade, as equipas visitantes começam a correr para trás. Pela mesma razão aceito perfeitamente a não inclusão de Ola John, que jogou pela Holanda. Não acredito que tivesse mais de 30 minutos para dar. Por outro lado, a escolha de Urreta não se enquadra no normal descarte. À primeira vista, sim. Mas o rendimento que Urreta evidenciou mostra que está no ponto para que o treinador aposte nele não para fazer descansar alguém mas para sacar rendimento. Foi, sem dúvida, o melhor jogador do Benfica, e só aceito a sua substituição na perspectiva que já falei, de a Choupana exigir demasiado de um jogador que não faz 90 minutos há meses. É muito provável que, quando saíu, o Urreta já estivesse sem combustível.

Ou seja, o Jesus cumpriu: escolheu o campeonato. Isso, por si só, é positivo no que respeita a este campeonato, mas também porque demonstra aquilo que já sabemos: que o Jesus está sempre a aprender. Todo o conhecimento do Jesus é empírico, resulta da experiência. O Jesus é esperto, e esse é o seu ponto forte. Mas não é muito inteligente. E esse é o seu ponto fraco.

3 – Alguém disse um dia que o primeiro e fundamental passo para resolver qualquer problema é reconhecer que esse problema existe. Depois disso, em boa verdade, havendo persistência, é uma questão de tempo e engenho.

Para identificar um problema é preciso ter capacidade crítica (muitas vezes auto-crítica, que é ainda ais complicada). E só é possível ter capacidade crítica se se tiver capacidade de abstracção. O abstracto é aquilo que não é concreto. Existe no campo da ideia. Da possibilidade. Da teoria. As pessoas que pensam são tratadas como idiotas, como arrogantes, e muitas são isso mesmo, mas é uma verdade indesmentível que tudo o que é concreto, tudo o que o homem faz voluntariamente à face da Terra, nasce no abstracto, na ideia, antes de se concretizar em acções.

O empirismo, a aprendizagem pela experiência, resulta do concreto. A crítica resulta do abstracto. Estão a ver qual é o problema do Jesus?

O Jesus não entende o abstracto. Não acredita em teorias. É um Action Man. O fair play é uma treta (e é). Se o Benfica tem 17 vitórias em 20 jogos, se marca três golos por jogo, se só tem meia dúzia de golos sofridos, como é que é possível que alguém pense que não tem equipa para ser campeão? Só um idiota. Só alguém que não percebe nada de futebol. Porque o futebol é resultado. Certo? Errado.

Errado, porquê? Errado porque, depois, o Jesus é enganado, sem saber como. E porquê? Eu respondo porquê: porque não se abstrai o suficiente da sua filosofia de futebol.

Vou escrever aqui uma coisa que assumirei perfeitamente quer ele fique quer ele vá embora: se, em vez de dois ou três arrumadores de cones, o Jesus tivesse dois bons técnicos como adjuntos, o Jesus seria, a breve prazo, um dos cinco melhores treinadores do Mundo.

Eu repito. Com um Peseiro e um Jesualdo Ferreira como adjuntos, com a capacidade que o Benfica já mostrou para encontrar e contratar bons jogadores, com a capacidade que tem de mobilizar adeptos e a facilidade que demonstra em chegar, com facilidade, à alta-roda europeia (em cinquenta anos de competições europeias o Sporting nunca fez o que o Benfica fez, por exemplo, quando eliminou Manchester United e Liverpool, há uns anos, e isso nem foi nada de especial na história do Benfica), com a capacidade que o Jesus tem de aprender com aquilo que vê, em cinco/seis anos o Benfica estaria entre as dez melhores equipas europeias, seria melhor que o Porto e o Jesus estaria entre a elite dos técnicos mundiais – mesmo com chicletes, com a mania das grandezas e com todas as suas peculiaridades.

Mas essa não é a realidade.

A realidade é o Jesus a dizer que, em Braga, o Benfica «jogou em posse» na segunda parte, quando, de facto, o Benfica apenas tentou jogar em posse, não o conseguindo, obviamente, porque não sabe, limitando-se a perder bolas no meio-campo, sem defender nem atacar, ficando à mercê do discernimento do adversário.

A realidade é o Jesus a falar de uma equipa que «sabe controlar o jogo» quando, de facto, em quatro anos, e mesmo jogando em vantagem durante mais de metade do tempo, o benfica continua a ser uma equipa unidimensional, que só sabe jogar de uma maneira – «para a frente e em força» – e que, tendo de controlar um jogo ou através da posso de bola ou através do posicionamento defensivo, invariavelmente falha.

E isso vê-se todas as semanas. Vê-se em Braga, vê-se na Madeira, ou vê-se em Moreira de Cónegos. A meio da segunda parte desse jogo, há uma jogada em que o Matic tem a bola a meio do meio campo do Moreirense, já com o Benfica a ganhar. Tem a possibilidade de passar a bola nessa zona, fazendo aquilo que é, realmente, «a gestão da posse», necessitando, contudo, de arriscar um pouco, porque havia alguma pressão. Está, notem, a 70 metros da sua baliza. Em vez de manter a posse de bola nessa área, passa-a para trás, onde o central a recebe a vontade. O Moreirense sobe, e o central, novamente, em vez de manter a bola no ataque, fá-la recuar para  guarda-redes. Nessa altura, o Artur, já com o Ghilas em cima, chuta para a frente, e a bola fica solta.

Não se viu, naquele lance (um entre muitos), o mínimo esforço, ou o mínimo de trabalho, para fazer aquilo que o Jesus sabe que é o que deve ser feito, e que o Jesus pensa que estava a ser feito, que era manter a bola em circulação na intermediária adversária, sob alguma pressão, para, através de uma desmarcação, aproveitar o espaço e, num passe sem risco, atacar a baliza.

É apenas um exemplo.

Quem estiver suficientemente predisposto a isso encontra, em qualquer jogo do Benfica, dezenas de situações em que se consegue identificar falhas provocadas não pela falta de qualidade técnica ou física dos jogadores mas fruto de desconcentrações, erros posicionais, opções erradas, erros técnicos básicos, que, ao fim de quatro anos, e pela regularidade com que recorrentemente surgem, não podem senão ser produto de lacunas no trabalho diário. E quem as vê, e quem vai vivendo o dia-a-dia do clube, percebe perfeitamente que elas não são trabalhadas porque não são identificadas. Porque não há capacidade, antes de mais, para as reconhecer.

A realidade é uma equipa do Benfica que, estando num nível alto, internamente, faz tudo o que fazia de bom e de mau que já fazia há três anos, apenas com intérpretes diferentes.

A realidade é que, em 50 jogos que o Benfica faz em cada época, há 12/13 em que se decidem competições e 40 que servem para vender bilhetes, camisolas, jornais, jogadores, etc, e que, se não há nenhuma equipa mais bem preparada que o Benfica para ter bons resultados nestes 40 jogos, nos outros 12/13, em que tem de haver inteligência, cérebro, exigência, este Benfica continua a ser apenas uma equipa mediana. E é por isso que, provavelmente, vai voltar a perder o campeonato.

Não é por a bola ter ido ao poste, nem por causa do fora-de-jogo, nem por causa das lesões, nem sequer é por ter empatado com o Nacional da Madeira. O Nacional da Madeira pode empatar com qualquer equipa no seu campo, e isso não diminui essa equipa.

Mas ir empatar à Madeira por não se conseguir pôr em prática o plano de jogo adequado, por falta de engenho ocasional ou de sorte, é uma coisa.

Ir empatar à Madeira porque não se sabe, simplesmente, o suficiente para jogar esse jogo como ele tem de ser jogado – de forma cínica, concentrada, segura, controlando colectivamente a bola e o espaço de jogo – é outra.

E o Benfica não empatou por não ter conseguido fazer o que sabe – empatou porque não sabe fazer mais. Faltou-lhe, afinal, aquilo que não lhe pode faltar, sob pena de se tornar uma equipa apenas pouco mais que vulgar: a sorte do jogo.

Pode ser campeão? Pode.

Tem 25 por cento de possibilidades.

sexta-feira, 8 de fevereiro de 2013

Metafísicas à parte (II)


O campeonato

Tornou-se claro, para mim, ao fim de pouco mais de um mês de Liga, aquilo que, antes, era muito provável: que haveria dois campeonatos para Benfica e Porto. Um campeonato até ao Benfica-Porto e um campeonato depois disso, totalmente condicionado pelo resultado do Benfica-Porto.

Confirmo-o completamente. A única coisa que não esperava era que a distância entre os dois e os restantes fosse tão clara, e isso ainda tornou maior a importância do resultado desse jogo.

A queda abrupta de qualidade das equipas de classe média e baixa, por motivos da crise económica (algo que já era visível na última época); a redução para 16 equipas, com a facilidade de calendarização para as equipas de topo (praticamente não houve jornadas da liga antes dos jogos europeus até agora); e a elevação do nível competitivo de Benfica e Porto por via da dinâmica desafio-resposta que se estabeleceu, desde há quatro anos, entre os dois, provocou uma regressão da exigência e uma distância entre essas duas equipas e as restantes que só encontra paralelo nos anos 70.

Não é por acaso que se fala tanto, hoje, dos campeonatos invictos do Benfica nos anos 70 (num deles até acabou invicto e perdeu para o Porto por diferença de golos, vejam lá…). O Porto fê-lo há dois anos e, provavelmente, a equipa que for campeã este ano voltará a fazê-lo. Voltámos ao tempo em que o Amora, o Alcobaça, o Estoril, iam à Luz, levavam um cabaz e vinham satisfeitos por o jogo ter acabado. A última vez que vi uma coisa destas foi no tempo da primeira passagem do Eriksson pelo Benfica.

Também não é por acaso que, em duas épocas seguidas, Benfica e Porto tenham feito, em conjunto, aquelas que terão, sido, provavelmente, as melhores primeiras voltas dos últimos 50 anos. Em épocas normais, uma equipa que chegasse ao fim da primeira volta com seis pontos perdidos em 45 possíveis seria campeão virtual. Nas duas últimas, isso acontecerá duas vezes a equipas que não vão ganhar o campeonato.

Neste cenário, só uma falta de comparência cerebral poderia levar alguém a dizer que o Benfica-Porto e o Porto-Benfica não seriam decisivos. Tal como anos 70, feitas as contas, a equipa que ficar por cima no confronto directo entre os dois primeiros ganha o campeonato. E isso pode acontecer quer pelos pontos em si quer pelo desinteresse que um mau resultado terá nos outros jogos – foi o que aconteceu ao Benfica, por exemplo, claramente, o ano passado, depois de perder na Luz. A diferença real entre as duas equipas era inferior que a diferença pontual no final do campeonato, e esta só aconteceu por causa da vitória do Porto. Em caso de empate, por exemplo, o Porto teria sido campeão, certamente, mas apenas com dois ou três pontos de avanço.

Para efeitos da competição, o 2-2 da Luz poderá ser tão decisivo no final como foi o 3-2 do ano passado. O resultado do Benfica-Porto condicionou o resto do campeonato.

Se tivesse ganho (e considerando que ainda não tinha jogado em Braga) o Benfica passaria a ter 65 por cento de hipóteses de ser campeão. Com aquele empate, iniciou-se um novo campeonato em que o Porto passou a ter 85 por cento de hipóteses de ser campeão. Com a improvável vitória em Braga, o Benfica ganhou um balão de oxigénio que passa as suas hipóteses para 25 por cento, contra 75 por cento do Porto. Mudou alguma coisa, mas não mudou o fundamental.

Este novo campeonato é marcado pelo facto incontornável de as duas equipas se encontrarem nas Antas, na penúltima jornada, e é daí que resulta a probabilidade que assumo atrás.

Realisticamente, para ter mais que apenas uma escassa hipótese de ser campeão, o Benfica precisa de chegar a esse jogo com quatro pontos de vantagem sobre o Porto. Considerando a diferença de qualidade colectiva, de carácter e de agressividade, e considerando o ambiente específico que se encontrará no Porto num cenário de final para atribuição do título e os antecedentes históricos, este Benfica, a precisar de empatar ou de ganhar para ser campeão, não teria mais de 25 por cento de hipóteses de o conseguir – e é uma estimativa optimista.

Alguém lembrará a ocasião em que o Benfica, há 20 anos, foi ganhar ao Porto quase nas mesmas condições, ao que eu respondo que esse Benfica, do Eriksson, era uma equipa muito mais sólida do que esta, apesar de menos talentosa, e que esse Porto, do Artur Jorge, em reconstrução, era uma equipa muito menos dominante que o Porto que conhecemos hoje.

(O Pinto da Costa, por outro lado, já era o mesmo, assim como a «estrutura», de que fazia parte o famigerado Guarda Abel, que, para criar bom ambiente, inventou que o árbitro Carlos Valente – o Pedro Proença da altura – tinha viajado para o Porto no mesmo comboio da equipa do Benfica. Uma completa mentira. Gente séria, agora e sempre. Exemplos de desportivismo. Cabeça semelhante a essa só quando o Benfica foi às Antas ganhar a final da Taça no início dos anos 80, porque o Pinto da Costa disse que não queria jogar no Jamor. Ah, pois é. Há mais coisas entre o céu e a Terra do que a espuma destes dias que hoje correm.)

Quer isto dizer, friamente, que, em vinte jogos em que este Porto tivesse de ganhar a este Benfica, em casa, para ser campeão, na penúltima jornada, só não ganharia cinco.

Essa é a premissa fundamental: estamos numa situação em que, claramente, será o Porto a perder o campeonato, mais que o Benfica a ganhá-lo – tal como aconteceu, inversamente, na última época, sobretudo após o Benfica ter ganho uma vantagem de 5 pontos, tendo já empatado nas Antas na primeira volta.

Quatro pontos. São dois resultados. Em onze jornadas. Para isso acontecer, Benfica e Porto têm de desempenhar o seu papel. O Benfica tem de acertar quase tudo, o Porto tem de falhar muito mais do que o que falhou até agora.

O Jesus conta com o Sporting para fazer um desses resultados, e conta bem. Sem o Sporting, o Benfica muito dificilmente será campeão.

Num cenário de pormenores, e de clara superioridade, as equipas perderão por falhas de concentração, cansaço ou lesões. Nesse aspecto, a próxima eliminatória europeia será um momento potencialmente decisivo.

Estou mais do que convicto de que o sucesso do Benfica no campeonato passa, inevitavelmente, pelo apuramento do Porto nos oitavos-de-final da Champions, e que quanto mais o Porto avançar maiores serão as hipóteses do Benfica ser campeão – deve notar-se, neste aspecto, que, passando o Málaga, o Porto tem alguns potenciais adversários acessíveis, tal como o Shalke 04/Galatasaray, o Valência/PSG ou, até, o Shaktar, se eliminar o Dortmund. Mesmo que não lhes ganhe, o estatuto relativo chega para fazer sonhar e para distrair.

O apuramento para os quartos-de-final colocaria o Porto a lutar em duas frentes até 10 de Abril, e com a ideia inevitável (e certa) de que o campeonato seria um objectivo mais fácil e secundário (até porque os jogadores que lá estão já ganharam dois seguidos). Pelo meio, casados com as eliminatórias, há jogos fora, por exemplo, com Marítimo e Académica, o jogo em casa com o Braga, além dos outros que, sem a Champions no subconsciente e no corpo, são mero cumprimento de calendário.

Mesmo com a Champions, note-se, as probabilidades do Porto fazer três ou quatro maus resultados em onze jogos são pequenas.

Porquê três ou quatro? Porque, se forem só dois, o Benfica teria de conseguir algo de extraordinário até chegar ao jogo das Antas: ganhar mais 11 jogos seguidos para o campeonato, sendo um deles com o Sporting, sempre imprevisível, e cinco fora de casa (Nacional, Beira-Mar, Guimarães, Olhanense e Marítimo). Não vai acontecer. Na melhor das hipóteses, ganha 10 e empata 1. É nessa melhor hipótese que o Jesus tem de decidir se deve apostar antes do jogo com o Nacional, que é, provavelmente, o mais importante que vai ter até ir jogar às Antas. Por várias razões.

Se o Porto for eliminado pelo Málaga, as hipóteses do Benfica, como já disse, serão reduzidas. A decisão dessa eliminatória com o Málaga será feita a 13 de Março. A 3 de Março, o Porto vai a Alvalade. Três dias depois da segunda mão, vai ao Funchal jogar com o Marítimo. Por essa altura, muito do que tiver de acontecer já terá acontecido. Entrámos no mês fulcral do campeonato. Para ser campeão o Benfica tem de chegar vivo a dia 13, e de preferência à frente do Porto.

Se não chegar a 16 de Março com 2/4 pontos de avanço sobre o Porto, as hipóteses do Benfica ser campeão passam por ganhar nas Antas o jogo do título. 5 por cento. Se esse for o cenário, então sim, justifica-se completamente que o Jesus aposte tudo na Liga Europa, se ainda lá estiver. Porque o campeonato, em teoria, estará praticamente perdido. (O Benfica até pode ganhar nas Antas, note-se, mas, se o conseguir, considerando o seu estilo de jogo, será por pura sorte. Tal como qualquer APOEL, Dínamo Zagreb, o Sporting ou o Marselha lá ganhariam: com alguma qualidade, claro, mas graças à sorte.)

Até dia 14 de Março, o Benfica tem nove jogos – onde se incluem duas eliminatórias da Liga Europa – jogando com o Nacional, fora, antes da 1.º mão dos 16-avos, e com o Beira-Mar, fora, antes da 1.ª mão dos oitavos. A seu favor tem o facto de ter duas jornadas consecutivas em casa entre esses dois jogos.

Se passar aos oitavos, três dias depois da segunda mão vai jogar a Guimarães (onde é que nós já vimos isto?).

Consultem o calendário que vem na Bola, que é bom para pôr as coisas em perspectiva.

Em conclusão, o jogo com o Nacional é muito importante por duas razões:

- em primeiro lugar, porque, para chegar à bifurcação – o dia em que o Porto pode ser  apurado frente ao Málaga – em condições ou de continuar a lutar pelo título ou de poder apostar na Liga Europa, precisa de ganhar os próximos cinco jogos para o campeonato, dos quais o da Madeira é, claramente, o mais difícil;

- em segundo, porque o jogo da Madeira revelará o pensamento real do Jesus relativamente às prioridades.

Qualquer ideia que não passe por dar absoluta (a 100 por cento) prioridade às já pequenas hipóteses de ser campeão resultarão na perda do campeonato. O Jesus sabe disso. E a questão que está aqui em causa, na verdade, é saber se o Jesus ainda acredita que pode ser campeão o não.

É possível que não acredite. Até é natural. Quando se sabe que se tem 25 por cento de se ganhar uma aposta, aposta-se ou muda-se de mão?

É para tomar este tipo de decisões que o Jesus ganha bem, e tem de tomar uma até domingo.

Seria muito mais racional (até para os dirigentes, provavelmente) fazer as contas por baixo, guardar o que já se tem e mudar de mão. O Benfica tem o apuramento directo para a Champions garantido e vai ganhar a Taça – o que é sempre bom, porque não há mais jogos depois disso e a última imagem é sempre a que fica. Tem algumas hipóteses de passar o Leverkusen e de, se apostar muito nisso, chegar às meias-finais da Liga Europa. Seria uma época mais que razoável (caramba, no Sporting seria uma grande época. O Paulo Bento ficou lá três anos à conta disso…). Até podia calhar ir à final. O jogo do título foi o jogo da Luz, com o Porto, e o Benfica não ganhou. «Fica para o ano…», terão pensado os mais realistas.

Mas terá o Jesus pensado assim? Porque o Jesus, enquanto anda a viajar na maionese, é lunático, mas depois de aterrar torna-se um tipo bem realista.

Se for para a Madeira a poupar jogadores, o Benfica, mesmo ganhando, passará a mensagem mais importante, incluindo para os próprios jogadores: o campeonato é secundário.

Se, pelo contrário, o Benfica jogar com a melhor equipa na Madeira e for a Leverkusen (ainda por cima é fora…) com alguns suplentes – por exemplo, se meter o Maxi, o Gaitán, o Garay, o Enzo Pérez no jogo do Funchal – não só tem mais hipóteses de ganhar como deixará outra mensagem: a de que, mesmo com escassas hipóteses de ser campeão, a aposta continua a ser essa.

O Benfica até pode empatar na Madeira (perder, não), desde que ganhe os dez jogos seguintes, mas, se der tudo o que tem para ganhar, estabelecerá o cenário em que decorrerá o campeonato até ao final. E colocará o Porto, finalmente, sob pressão – algo que ainda não aconteceu e que, para que este venha a deixar fugir o título, tem mesmo de acontecer.

Se jogar com os titulares todos nos dois jogos, é fácil: é sinal de que vai acontecer o que já aconteceu no ano passado. Até pode ganhar um dos dois jogos, mas no fim perderá, mais ou menos rapidamente, o campeonato e a Liga Europa. Porque quer dizer que o Jesus embarcou no modo «rebenta cavalos», em que joga sempre com os melhores e depois começa a substituí-los à medida que eles vão ficando pelo caminho. Sendo assim, daqui a mês e meio estamos todos à espera que a final da Taça chegue depressa.

Em síntese, ansioso não estou muito (25 por cento é pouco…) mas curioso estou.

quinta-feira, 7 de fevereiro de 2013

Metafísicas à parte (I)


Deixemos as metafísicas de lado, por hoje (só por hoje…), e falemos de resultados.

Ontem, na «coluna-Gestapo» que o Record tem no lado esquerdo da página inicial da secção atribuída a cada um dos grandes – aquela em que os jornalistas que «acompanham» o dia-a-dia da equipa escrevem dois ou três parágrafos dignos de figurar num qualquer facebook das claques respectivas – o João Qualquer Coisa Rodrigues chamava a atenção para a necessidade de não ser demasiado exigente com o Jesus e com a equipa do Benfica, dados os resultados alcançados até agora.

«Não se deve deitar a perder tudo o que já foi alcançado por causa de pormenores como o goal-average», escrevia o Qualquer Coisa Rodrigues, notando que o Benfica estava em primeiro no campeonato, (praticamente) na final da Taça, nas meias-finais da Taça da Liga e nos 16-avos da Liga Europa.

É o tipo de coisa que se espera encontrar na coluna-Gestapo.

(Abrindo um parêntesis, a lógica da coluna-Gestapo é a seguinte:

- os jornalistas dos desportivos têm de levar com as máquinas de propaganda azul-vermelha-verde todos os dias, e têm de as confrontar com rumores quase todos os dias. Também estão sujeitos a pressões, todos os dias, por parte dos adeptos. Ser um «jornalista de grande» é um ofício diário de pressão e negociação, com tudo e com todos, até dentro das respectivas redacções.

De um «jornalista de grande» não se espera grandes notícias, não se espera objectividade e nem sequer se espera que diga a verdade. A função do «jornalista de grande» não é denunciar casos nem criar assuntos mas manter uma máquina de fabricação de caracteres e preenchimento de colunas que venda jornais, 24 horas por dia, 7 dias por semana. É a economia. Ocasionalmente (muito ocasionalmente), o que mantém a máquina a funcionar é a verdade, ou a objectividade, e lá aparece uma notícia relevante. Se querem saber a verdade, ou algo aproximado, sobre os clubes grandes, têm de esperar que os jornalistas não comprometidos lá cheguem. Não é por serem melhores - os jornalistas desportivos até têm de ter um estofo superior aos dos seus colegas «convencionais»: é por terem mais espaço de manobra.

A coluna-Gestapo é a síntese dessa lógica. Os jornalistas usam aqueles 1000 caracteres para apaziguar os ânimos, para agradar a determinadas franjas de adeptos (de preferência ao maior número possível de adeptos), para transmitir determinadas mensagens que lhes são veiculadas especificamente pelas estruturas de comunicação dos clubes, ou para ganhar lastro negocial que lhes permita, noutras situações, pedir um pouco mais do que o normal, ter um acesso especial ou, em casos extremos em que vão contra o sistema de relacionamento instituído, argumentar em favor próprio apresentando a sua cumplicidade em casos anteriores.

É normal, por exemplo, ler-se aí considerações ao comportamento dos jogadores, sobretudo durante o período de transferências (veja-se o caso do Rolando), expectativas em relação a novas contratações (Kléber, Izmailov…) ou, mais raramente, críticas a alguns elementos de que a «estrutura» espera mais em termos de rendimento. Quando qualquer uma destas coisas acontece, acontece com o beneplácito ou, quanto muito, com o consentimento, por omissão, dos clubes.

No caso do Porto isso é mais visível, por um lado porque a «estrutura» é mais antiga e mais profissional, e por outro porque, ao contrário do que acontece em Lisboa, os jornalistas são praticamente todos adeptos do clube, e por isso mais permeáveis ao «interesse de Estado», mas a lógica é a mesma.

A coluna-Gestapo destaca-se por fazer opinião, «sustentada», geralmente, nas «notícias» que são, no mesmo dia, apresentadas nas três/quatro páginas seguintes, e por isso é um espaço relativamente importante para os clubes. Aí criam-se temas de discussão, lançam-se lebres, e algumas até acabam perseguidas pelos perdigueiros. A eficácia das máquinas de comunicação clubística – a capacidade de controlar o fluxo da informação e as ideologias de pacotilha que ela serve – pode medir-se, perfeitamente, pelo grau de liberdade crítica real dos jornalistas que escrevem na coluna-Gestapo.

Mas, voltando aos resultados…)

É normal que o Qualquer Coisa Rodrigues use a coluna-Gestapo para deitar barro à parede, mas a leitura que ele fez não é objectiva.

Objectivamente, a verdade é a que se segue. «Tudo o que já foi alcançado», neste momento, é zero. Nada foi alcançado. No ano passado, por esta altura, os resultados do Benfica eram melhores do que os deste ano, e, no fim, segundo a perspectiva instalada, a época foi um fracasso.

Havia cinco pontos de avanço no campeonato, apesar da Taça de Portugal já estar perdida. Estava melhor que este ano, na minha opinião.

Havia um apuramento para os oitavos-de-final da Champions. Muito melhor que este ano.

Um apuramento para as meias-finais da Taça da Liga. Igual a este ano.

E o que havia, como se comprovou, era o mesmo que este ano: por enquanto, nada.

Falemos em hipóteses – uma tentativa de unir subjectividade e objectividade, que não me agrada muito, mas, ainda assim, possível e relevante.

O Benfica tem 25 por cento de hipóteses de ser campeão nacional, 90 por cento de hipóteses de ganhar a Taça de Portugal, 30 por cento de hipóteses de ganhar a Taça da Liga (se o Porto for eliminado, como está nos regulamentos), 3 por cento de chegar à final da Liga Europa e 1 por cento de hipóteses de a ganhar.

 A Liga Europa

Comecemos pelo fim. A Liga Europa é uma competição residual, em termos de hipóteses de sucesso intrínseco, na época do Benfica, e potencialmente fundamental em termos de importância dos efeitos secundários que pode gerar.

Com equipas como o Zenit, o Olympiakos, o Leverkussen, o Chelsea, o Nápoles, o Tottenham, o Lyon, o Ajax, o Inter, o Atlético de Madrid ou a Lazio, a passagem à final não é impossível, nem a vitória na final, mas quase, e exigiriam, de um plantel curto como é o do Benfica, um esforço insuportável – já para não falar de uma dose de sorte muito considerável para uma boa parte destas equipas se eliminar entre si.

É um logro, mas é um logro perigoso porque os adeptos do Benfica estão muito predispostos a cair nele e porque o treinador do Benfica tem a ambição de treinar no estrangeiro, e vê nas competições europeias a sua única oportunidade real de isso vir a acontecer.
Além disso, o Jesus é de outro tempo, Lembremo-nos de que ele continua a dizer que ganhou uma competição europeia, a irrisória Taça Intertoto - que no meu tempo era a Taça do Totobola, porque permitia que houvesse apostas durante o Verão. Apesar de ser bem mais velho, o Jesus ainda é do meu tempo: um tempo em que ganhar uma Taça UEFA ou uma Taça das Taças era uma coisa muito importante. Hoje, é só uma coisa apenas relativamente importante. É uma coisa para puristas. Para a «elite pensante» do futebol, é mais importante chegar aos quartos-de-final da Liga dos Campeões que ganhar a II Divisão que é a Liga Europa. Basta ver que, até ao aparecimento da Champions, as equipas portuguesas só chegaram às meias-finais de qualquer dessas competições duas ou três vezes, e que, nos últimos dez anos, praticamente todas as épocas lá vão. Há dois anos, as meias-finais da Liga Europa pareciam as meias-finais da Taça da Liga portuguesa. Até o Sporting lá chega de dois em dois anos, e isso diz tudo.

A Liga Europa será muito mais importante para o campeonato do Benfica, para o bem ou para o mal, do que para a própria Liga Europa – a começar já este fim-de-semana. É uma carta solta no baralho do Jesus, um jóquer que tanto o pode matar como pode virar o jogo a seu favor, dependendo de como este se vá desenrolar. Mas já lá iremos.

 
A Taça da Liga

Da maneira como o cenário se está a montar, a Taça da Liga é a tal competição que os jornais determinaram que o Braga vai ganhar para abrilhantar a «era-Salvador». Segundo o plano, devia ter sido a Taça de Portugal (assim faziam a dobradinha…), mas o futebol é injusto.

Considerando a previsível escassa importância que a meia-final terá, na altura, comparativamente, para um Benfica já desgastado por um Fevereiro com seis jogos; considerando a habitual Sarajevo que o Benfica encontra em Braga; considerando a pouca diferença real de qualidade entre as duas equipas, o Braga jogará a final da Taça da Liga com o Rio Ave (?) e ganhará. Apesar do Peseiro.

Até é bom. Assim que uma das equipas do arco do poder (Porto, Braga, Sporting) ganhar a Taça da Liga, a competição, magicamente, tornar-se-á relevante na comunicação social e deixará de ser a Taça da Cerveja. As equipas honestas, que trabalham, que ganham à custa do suor, e não dos árbitros, não ganham Taças da Cerveja. Nem sequer competem em Taças de Cerveja. Só ganham taças a sério.

Nessa altura, a Taça da Liga começará a valer tanto como a Supertaça Cândido de Oliveira, por exemplo – essa excelsa competição entre duas equipas, disputada antes de começar o campeonato nacional, que, na relação exigência-glória, é a mais valiosa de Portugal, pela simples razão de que, valendo tanto, em termos nominais, como um campeonato nacional, e existindo apenas há trinta e poucos anos, permitiu ao Porto tornar-se no clube mais vitorioso do futebol português, segundo os cânones vigentes de que as competições são todas iguais ao litro.

É claro que há a desvantagem de, quando alguém do trio SPortBra (agora lembrei-me de um wonderbra para três tetas…) ganhar a Taça da Liga, o Benfica já ter uma série delas de avanço. O futebol é injusto. Mas acho que já disse isto.

 
A Taça de Portugal

Não dou como certo que o Guimarães elimine o Belenenses. Há dinâmicas diferentes entre equipas que jogam sempre para ganhar e equipas que jogam para não perder que, às vezes, esbatem diferenças de qualidade. Além disso, não há uma diferença de qualidade assim tão grande entre uma equipa que está em sexto lugar numa I Liga nivelada muito por baixo e uma equipa com 20 pontos de avanço em primeiro numa II Liga muito competitiva.

Mas, com Vitória ou Belenenses, o Benfica tem 90 por cento de hipóteses de ganhar a final. Por um lado porque é muito melhor, por outro porque é a final da Taça, e finalmente porque, provavelmente, na altura em que se jogar a final, a Taça de Portugal será a única coisa que o Benfica ainda pode ganhar nesta época.

Só a história do Jesus, e do pai do Jesus (Virgulino? Armandino? Saturnino?...), da promessa, o folcore todo, mesmo sem o Benfica, já seria suficiente para os jornais decidirem quem é que teria de ganhar a Taça.

Não vai ser o Benfica a ganhar a Taça, vai ser o Jesus. E o homem até merece.

(amanhã há mais…)

domingo, 3 de fevereiro de 2013

«Tu não és mauzinho...»


Hoje ainda não me apetece falar de coisas sérias. Ando em desmame do stress dos exames e desde a semana passada que praticamente só falo aqui de corrupção, corruptos e fruta fora de época. Apetece-me disparatar um bocado.

Em Aveiro aconteceu um daqueles fenómenos inexplicáveis em que o futebol é fértil: o Braga, a jogar com o Paulo Vinicius e com onze jogadores nos últimos dez minutos – por via de nenhum dos seus centrais ter sido escandalosamente expulso depois de um avançado do Beira-Mar ter tropeçado na sua própria perna de propósito quando ia sozinho para a baliza –, o Braga, dizia, levou três golos do Beira-Mar.

Como dizia o Gabriel Alves, o futebol é isto. Imprevisível.

Em Vila do Conde, o Sporting do Joãozinho fez o seu segundo melhor jogo «da era Jesualdo Ferreira» e acabou com o mesmo resultado que teria acabado o «melhor jogo da era Jesualdo Ferreira», uma semana antes, frente ao Vitória de Guimarães, se o Xistra (sempre tão caseiro…) não tivesse fanado ao Vitória um penálti do tamanho do Marquês de Pombal no último minuto.

Deve notar-se, aqui, duas coisas.

Primeiro, que a boa vontade com que esse lance foi tratado e rapidamente esquecido nos leva a crer que, de facto, o caso do Sporting é, actualmente, de solidariedade nacional, semelhante ao das avalanches da Madeira ou do temporal de há quinze dias. Vamos ver se, daqui por mais ou menos um mês, quando o Porto vier jogar a Alvalade se mantém o espírito de salvação do Sporting ou se, em sinal de gratidão, se abrirão avenidas de boa vontade para Izmailov, Liedson, Moutinho, Varela e companhia aí passarem com facilidade uma etapa potencialmente decisiva para o título.

Há muitas maneiras de ser enganado, mas ser enganado sucessivamente pelo Porto como o Sporting é enganado e reagir como o Sporting reage faz-me lembrar aquela anedota do caçador e do urso.

Resumidamente, o caçador anda a tentar caçar um urso. O urso apanha-o sempre, baixa-lhe as calças, diz-lhe «tu és mauzinho», e arromba-o todo.

A certa altura, o caçador volta a insistir, o urso volta a apanhá-lo e chega a uma conclusão óbvia: «Tu não és mauzinho, gostas é de levar no rabinho.»

Do jogo de Vila do Conde ficou-me a confirmação de que o miúdo Oblak tem um instinto para a baliza que raramente vi num guarda-redes de 20 anos e que o outro miúdo Diego Lopes tem atrevimento e futebol nos pés suficientes para, no Benfica ou noutro Benfica qualquer, ser um jogador a sério.

A talho de foice, li, em qualquer lado, um comentário indignado de um sportinguista a dizer que o Adrien devia ter sido convocado para a selecção em vez do André Gomes. Quando acabei de tossir, limitei-me a concluir que, com 19 anos, o André Gomes tem mais futebol no pé direito do que o que o Adrien vai ter no corpo inteiro quando tiver 30. E o Adrien até é bom jogador.

Hoje também percebi, finalmente, a lógica do número 89 do André Gomes. 8, 9…10, quando o Aimar se reformar. É a progressão natural.

Devo dizer que não fiquei minimamente preocupado com a «ausência» do Benfica no mercado de Janeiro. O jogador de que o Benfica precisa não se compra em Janeiro, em saldos. Compra-se com tempo, no verão, tal como foram comprados o Javi Garcia, o Witsel, o Garay, o Ola John, o Matic, e praticamente todos os que fazem a diferença. Os que vêm em Janeiro, regra geral, só vêm fazer despesa. Também não acho que vá ser por falta de um médio-centro que o Benfica não vá ser campeão, que deixe de ganhar a Taça ou que não chegue às meias-finais da Liga Europa. Para isso, considerando a concorrência, os que la estão chegam, desde que sejam aproveitados.

Para ser campeão, o Benfica precisa de chegar a Março com os seus jogadores fundamentais – Luisão, Garay, Matic, Aimar, Gaitán, Salvio e Cardozo – a produzirem perto dos 100 por cento. Se isso não acontecer, não é por chegar mais um titular que o Benfica se safa.

O Bruno César não faz falta nenhuma – não é, nem nunca foi outra coisa senão um tique de novo-riquismo do Jesus, e o facto de aparecer algumas vezes no jornal, por jogar no Benfica, não invalida esta evidência – e o Nolito, apesar de eu continuar a achar que o Jesus não o soube aproveitar, também não, simplesmente porque nunca foi um jogador do Jesus mas do Rui Costa.

O Benfica tem o Gaitán e o Ola John, que jogam nos dois flancos, o Salvio, o Urreta, ao que parece, está a evoluir, e o Miguel Rosa, apesar de não ser grande espada e ser um jogador relativamente burro (até se enquadra bem…), tem rodagem e, com a moral que leva se for chamado à equipa principal, até é menino para decidir um jogo e dar uns pontintos.

Aquilo que o Benfica conseguiu foi, na verdade, equilibrar o plantel, ao retirar-lhe os excessos e subindo a responsabilidade aos jogadores que lá estão.

Repito: neste campeonato, em que o sexto leva 4-0 do primeiro, em casa, sem que o primeiro tenha de meter a quarta, este plantel chega. Se o Benfica vier a perder pontos inesperados não será por falta de jogadores, mas por falta de concentração ou por opções erradas por parte do Jesus – jogar com o melhor onze com o Leverkussen em vez de guardar jogadores para o campeonato, por exemplo, como aconteceu no ano passado antes do jogo em Coimbra, em que uma vitória teria dado o título ao Benfica.

Para mim, com o Leverkussen, é o jogo ideal para dar minutos ao Aimar, ao Luisinho, ao André Gomes, ao Urreta, ao Rodrigo, ao André Almeida. Para ninguém ter dúvidas nenhumas (começando pelos jogadores) sobre quais são as prioridades da época.

Aliás, para acabar com a minha habitual nota catastrofista, e após ver o desempenho da equipa nas últimas semanas, não tenho dúvidas nenhumas de que se o Benfica não for campeão esta época será pela exacta mesma razão que não foi na última: porque não quer. E como não quer, não vai fazer o suficiente por isso.

Quando há nem que seja uma hipótese em vinte do campeonato ser decidido «à Calabote», por goal-average, não se ganha 2-1 ao Moreirense quando se pode ganhar por 5-1, não se dá 3 ao Setúbal quando se pode dar 7 (e resolver logo, de uma vez por todas, a questão do goal-average), não se ganha 2-1 ao Braga, de aflitos, quando se tem a hipótese de fazer um resultado histórico – que é o que teria acontecido se o Benfica tem sabido jogar a segunda parte frente a este Braga.

Hoje, os jogadores do Benfica estavam a guardar-se exactamente para quê, que eu não percebo? Para o jantar? Para a folga?

O Aimar, por exemplo, entrou exactamente para quê? Para mostrar a camisola? Se foi para ganhar ritmo, o ritmo a que ele jogou tem é de ser perdido, porque, assim, nem para o Qatar serve.

Certo, não era preciso.

Daqui a umas semaninhas, quando me vierem falar de árbitros, voltamos a conversar sobre o que é preciso.

Mas não quero acabar com azedume. Afinal, o Benfica até ganhou. Prefiro salientar uma pequena nota que não é minimamente de desprezar quando se conjecturam cenários futuros de igual sucesso desportivo entre Benfica e Porto – o que não acontece neste momento. Se se pegasse na assistência que esteve ontem na Luz – num domingo à noite, no princípio de Fevereiro (e quem tem de pagar as contas da casa sabe ao que eu me refiro, porque os dois primeiros meses do ano, a seguir ao Natal, são sempre os piores), com um frio do caraças, frente a um Vitória de Setúbal fraquíssimo, com o Benfica sem ganhar nada de jeito há dois anos – e se a transplantasse para as Antas, o Porto teria feito uma das melhores casas da época.

P.S. - Aliás, fui confirmar, e esta época o Porto ainda não conseguiu meter 39 mil espectadores em casa em nenhum jogo. Nem com o Sporting.

sábado, 2 de fevereiro de 2013

O melhor condutor do mundo


Há coisas importantes para dizer sobre o Benfica, e serão ditas até ao próximo domingo, mas não quero deixar passar a oportunidade para deixar aqui uma mensagem de júbilo e boa esperança para todos os jovens benfiquistas que por aí andam e que possam sentir-se esmagados pela mensagem diária passada pela cultura dominante do regime (a última é a de tentarem fazer do Vítor Pereira um Guardiola, e é de cagar a rir).

Quero lembrar-vos de um anúncio que passava na televisão quando eu era pequenino, e de que já falei aqui uma vez a propósito do Jorge Jesus. Descansem, hoje ainda não vou falar-vos do Jesus.

Nessa altura, em que aqui o tio Hugo tinha uns dez aninhos, ainda só havia dois canais de televisão, mas já havia alguns automóveis, filas na ponte sobre o Tejo, já havia bêbedos e de vez em quando havia acidentes de automóvel. O anúncio era uma caneta Bic que começava a traçar uma linha em cima de uma folha de papel, e uma voz a dizer: «O (vamos chamá-lo assim) Jorge é o melhor condutor do mundo.»

A linha ia avançando, em linha recta. À medida que o Jorge bebia um copo aqui e outro copo ali tornava-se mais errática, até que, a dado momento, já com o Jorge completamente embriagado, o carro estampa-se.

A mensagem de boa esperança que eu vos quero deixar é uma profecia e é a seguinte: estão a ver o Sporting de agora? O Sporting dos Roquettes, dos Batanetes, dos doutores e engenheiros? O Porto de agora a 20 anos vai ser igual.

Porque é que eu digo isto?

Porque o Jorge é o melhor condutor do mundo, mas o ziguezague já começou há um bom tempo.

Em Novembro, por exemplo, o Jorge pediu 30 milhões de euros emprestados, com um juro de 8,5 por cento, para conseguir pagar o empréstimo anterior e, ao que se disse, financiar o reforço da equipa no mercado de Inverno. A empresa do Jorge, note-se, deu um prejuízo de 37 milhões de euros apesar de, no espaço de 18 meses, ter vendido jogadores num valor de mais de 100 milhões.

O Jorge, ao que parece, pagou o que faltava pagar do empréstimo anterior e, em Janeiro, reforça a equipa com um jogador de 30 anos e outro de 35 a custo zero (apesar de ser curioso como se nota que «o clube vai poupar os salários de Rolando até ao fim da época» e pouco se falar dos encargos 3 a 4 vezes superiores que apenas aqueles dois jogadores representarão).

Em Janeiro, pelo contrário, o Jorge pagou mais empréstimos. Pagou um empréstimo de 4,125 milhões (reaquisição dos 37 por cento do Moutinho) a um juro de cerca de 75 por cento, e outro de 2,55 milhões à insuspeita Gol Football Luxemburg (a reaquisição de 35 por cento do James), fazendo, aqui, o negócio do século: por esses 2,55 milhões que recebeu em Dezembro de 2010 o Jorge pagou, pouco mais de um ano depois, segundo o comunicado feito à CMVM, 8,75 milhões de euros, ou seja, três vezes e meia aquilo que recebeu.

Significa isto que, para conseguir manter uma equipa de 100 milhões de euros capaz de não mais que chegar a Janeiro em igualdade pontual no campeonato com o Benfica, o Jorge se sentiu forçado, só nestes dois casos (James e Moutinho), e em menos dois anos, a perder 10 milhões de euros para fazer negócios que não tinha dinheiro para fazer.

Quando a fuga para a frente é desta dimensão, o facto de, em 2015, inevitavelmente, o Jorge vir a ter de contrair um novo empréstimo obrigacionista para poder pagar os 33 milhões que vai estar a dever, é apenas um pormenor de gestão corrente.

Que o Jorge já está, não apenas a errar, mas numa espiral desastrosa, só não é ainda evidente para todos porque, como dizia o amigo major, «esta merda também tem de ter um bocado de folclore».

Continuará a não ser evidente quando, após vender o James e o Moutinho por 70 milhões no Verão, e depois de chegar aos quartos-de-final da Liga dos Campeões, apresentar um «lucro recorde» de cerca de 15 milhões de euros. Pelo contrário. Far-se-á folclore com o recorde e, provavelmente, com o título conquistado à tangente, provavelmente graças a uma nova vitória directa sobre o Benfica, nas Antas, na penúltima jornada do campeonato. Tudo isso alimentará o monstro, e os adeptos farão questãode não querer ver mais nada além disso.

Continuará a não ser evidente enquanto houver troféus para exibir.

Mas começará a tornar-se evidente quando a lei das probabilidades, que é tão inexorável como a lei da gravidade, retirar ao Jorge o pechisbeque brilhante com que ele vai encadeando os tolos.

Não será imediatamente evidente. Falar-se-á, então, de roubos de igreja, de Calabotes, da cegada do costume, que já dura há 40 anos, mas, basicamente, o que o Jorge fará será aquilo que fez há dois anos:enquanto atira poeira para os olhos do povo, vai voltar a endividar-se com o que tem e com o que não tem para poder concorrer com um rival que tem mais recursos. E, provavelmente, vai voltar a ganhar por mais dois ou três anos. Mas na mesma lógica, e cada vez mais enterrado na dívida.

Dirá, então, que a dívida não é um problema, porque o Benfica também a tem, e muito maior – o que é verdade, e se justifica por o Benfica, empurrado por uma espiral de expectativas elevadas e falhadas, ter tido de sair do fundo do mesmo poço para o qual o Jorge, agora, já vai a cair. Com as vitórias, ninguém quererá notar que o Jorge nunca conseguirá fazer com que o seu clube venha a conseguir receitas suficientes para, sem transferências de jogadores, se situar entre os 25 mais ricos da Europa. Ninguém quererá reconhecer que o Jorge manda num país como Portugal e que tenta concorrer com um país que é, em comparação, quase uma Espanha.

E quando, enfim, vier o segundo ciclo do fracasso, numa altura em que o rival tiver melhorado o suficiente para quebrar a hegemonia necessária à manutenção deste tão frágil equilíbrio, falar-se-á do desastre do Jorge como um acidente súbito e fulminante, quando não o é.

É apenas inevitável, e já está em curso. O melhor condutor do mundo já perdeu o controlo da situação há muito tempo. Só espera que ninguém dê por isso, e que os ignorantes continuem a confiar que há coisas demasiado grandes para falhar.

terça-feira, 22 de janeiro de 2013

«É a lama, é a lama»


Nunca julguei que o Paulo Vinicius fosse um jogador tão importante para o futebol português – pelo que me lembro, segundo a imprensa do regime, o último jogador decisivo no futebol português foi o Vandinho, injustamente suspenso por três meses por andar ao soco no túnel de Braga, e graças ao qual o Benfica foi campeão em 2010.

No entanto, a acusação lançada a público nos últimos dias, de que o árbitro Duarte Gomes faria parte de uma conspiração orquestrada pelo presidente do Conselho de Arbitragem da Liga, Vítor Pereira, para entregar o título de campeão nacional ao Benfica, fez-me ir ver ao You Tube a escandalosa expulsão do Paulo Vinicius no tempo de descontos do jogo com o Setúbal.

Confesso que ia preparado para admitir que o Duarte Gomes tivesse dado largas à sua costela benfiquista – algo que, ao que me lembre, nunca beneficiou o Benfica (tal como com o Pedro Proença, por exemplo) – e que, desta vez, tivesse aproveitado, cirurgicamente, e com pouca habilidade, a oportunidade de beneficiar o Benfica, por prejuízo de entreposta pessoa. Se isso fosse verdade, o grau de premeditação e de pouca-vergonha necessária para o fazer tão às claras significaria, claramente, que, de facto, estaria em marcha uma campanha obscura para dar o campeonato ao Benfica, se não por toda pelo menos por uma parte da arbitragem portuguesa.

(Dizem que o Salino devia ter sido expulso, mas disso não fui à procura, porque o Salino, para não ter sido expulso, é porque, claramente, não é um jogador essencial para ganhar ao Benfica.)

Depois de ver as imagens, tudo se tornou mais claro.

Tornou-se claro, por um lado, que o Paulo Vinicius pode ser um jogador excepcional, mas que não o é pela inteligência, porque, aos 93 minutos de um jogo em que a sua equipa está a ganhar por 4-1, com os outros centrais todos lesionados ou castigados, faz uma obstrução ostensiva, e com contacto físico, a um jogador do Setúbal que ia lançado em direcção à baliza, sem nenhum outro defesa entre ele e o guarda-redes.

Por outro lado, confirmei que Duarte Gomes é um excelente árbitro, muito acima da mediocridade geral, e que está acima do nível de coragem de praticamente todos (senão mesmo todos) os seus colegas de profissão em Portugal. Tomou uma decisão justa e correcta numa altura em que teria espaço (na opinião pública, não de acordo com as regras) para se esconder e fazer de conta que não sabia. Ter-lhe-ia sido muito mais fácil optar por dar o amarelo, pela simples razão de que os cães que ladram no Norte são muitos mais e metem muito mais medo que os cães que ladrariam em Lisboa (pelo menos na bancada sul da Segunda Circular, porque na bancada norte a opção também já está tomada).

Pedro Proença, provavelmente, ter-se-ia escondido. E não o teria feito por ser pior árbitro, ou por estar comprado, mas porque tem um sentido de preservação maior que o de Duarte Gomes, o que lhe possibilitou ir muito mais longe do que Duarte Gomes sem ser tão bom árbitro.

Estou à vontade para dizer isto porque, para mim, só há três árbitros em Portugal que têm demonstrado ser «incorruptíveis», no sentido de não se deixarem pressionar (mais do que o normal) pelo sistema. São eles Pedro Proença, Duarte Gomes e (podem deixar cair os queixos), Bruno Paixão. Sim, Bruno Paixão. Bruno Paixão é um mau árbitro – mas é-o porque quer. Ou melhor, é-o porque prefere ser um mau árbitro e estar no centro das atenções a ser «apenas» mais um excelente árbitro. Tecnicamente, Bruno Paixão poderia ser um dos melhores árbitros europeus, até porque tem um ego enorme e uma vaidade insuperável. No entanto, é um apenas um sociopata egocêntrico. Vive para estar no centro das atenções. Quando não há razões para isso, inventa-as, e inventa-as quase sempre. É uma pessoa doente, que precisa mais de alimentar o seu umbigo do que de ser um bom árbitro. Mas é incorruptível, pela simples razão de que não arbitra nem para enriquecer, nem para ser internacional, nem para ir a finais do Europeu ou da Liga dos Campeões – arbitra para ser insultado e para que se fale dele. Não há nada com que ele seja verdadeiramente aliciável, porque o que ele quer já tem, e prefere não arriscar a perdê-lo ao ser apanhado em escutas policiais ou em casas de alterne do Norte.

Todos os outros árbitros portugueses, além destes três (ainda não conheço bem alguns dos novos, apesar de haver dois ou três que me pareçam ter potencial), vivem confortavelmente dentro do sistema, alimentando-o e alimentando-se dele, uns favorecendo sobretudo o Benfica (quando podem), outros favorecendo o Porto. Estes últimos são mais, por uma razão simples: o Porto tem a posição elevada no sistema, tem mais força institucional e mediática adquirida, e pode prejudicá-los mais.

Actualmente – e já no tempo do Apito Dourado era assim sobretudo em relação aos árbitros internacionais – a corrupção não se faz pela via patrimonial. Ou seja, não se paga aos árbitros para roubar. Isso acontecia (hoje não sei se acontecerá) com os Jacintos Paixões, com os José Guímaros, com os José Silvanos, com os Francisco Silvas. Com a escumalha da arbitragem, gente barata, pouco acima do lixo.

Com os bons árbitros – que são os que realmente têm importância porque, salvo algumas excepções, apitam os jogos decisivos – a corrupção sempre se fez sobretudo através da manipulação das carreiras. Manipulando uma carreira dá-se a árbitro o melhor de dois mundos: a oportunidade de ser árbitro nos jogos importantes a nível nacional e internacional e a oportunidade de ganhar muito dinheiro, de forma legalizada. É uma espécie de corrupção dentro da lei. Promovem-se árbitros de categoria (2.ª, 1.ª, internacional) para os premiar pelo desempenho a favor de determinadas equipas.

O sistema, hoje, está controlado pelo Porto, porque ainda não apareceu quem desafiasse a lógica instalada de que, para se subir na vida, na arbitragem portuguesa, pode-se beneficiar quem se quiser, mas, em última instância, em caso de dúvida, não se pode prejudicar o Porto. O que está instalado, mais que um sistema de corrupção organizada (acredito que o Apito Dourado mudou alguma coisa, nesse aspecto) é um sistema de medo instalado, ou de subserviência à autoridade. Não acredito que Porto ou Benfica manipulem o Vítor Pereira ou as classificações dos árbitros, mas acredito que os árbitros estão condicionados por sentirem que os clubes têm muito poder sobre as suas carreiras, e que beneficiam mais facilmente o Porto porque sentem que o Porto tem mais poder do que o Benfica. Ainda assim, não acho que os campeonatos, actualmente, sejam premeditadamente decididos pelos árbitros – e  muito menos pelo Pedro Proença ou pelo Duarte Gomes. Acho, sim, que é muitíssimo difícil o Porto perder um campeonato porque qualquer árbitro ou qualquer conjunto de árbitros assim o decidam, e tenho a certeza de que o Porto já não perde um campeonato por causa dos árbitros há décadas.

Este sistema corrompido que existe hoje teve um período decisivo de implantação: a primeira metade da década de 90, o cúmulo da pouca vergonha, em que a Associação de Futebol do Porto, através do então seu corruptíssimo presidente Adelino Pinto, em concluio com Pinto da Costa, usavam o facto da AF Porto ter a primazia na escolha de cargos da FPF para escolherem o presidente do Conselho de Arbitragem, que por sua vez tinha a prerrogativa de alterar as classificações dos árbitros. Um desses presidentes do CA da FPF foi o próprio Lourenço Pinto, advogado de Pinto da Costa, certamente graças ao seu ilustríssimo passado desportivo e arbitral. A década de 90 foi, por inteiro, um tratado de corrupção, e a época mais negra do futebol português. Quem nasceu ou começou a ver futebol depois disso não tem ideia de quão baixo é possível descer em termos de degradação ética e cívica. A história colocará esses anos 90 no seu lugar.

E isto leva-me à terceira conclusão que tirei após ver a expulsão do famigerado Paulo Vinicius e as declarações de António Salvador e Vítor Pereira: a de que estamos a assistir à rotineira e anual fase da mistificação do eventual título do Benfica.

Não é difícil de identificar. Acontece todos os anos em que é preciso acontecer, e acontece sempre por esta altura - que não se localiza no tempo mas na classificação: é sempre que o Benfica está a três ou menos pontos que o Porto.

Quando a coisa ainda não está certa, o Porto  monta o seu caso – é uma questão cultural instituída, que se espalhou, por osmose aos seus aliados (neste momento o Braga, noutros, por exemplo, o Guimarães, quase sempre o Sporting, e respectivos cães-de-fila na imprensa). Aproveita um ou dois casos em que o Benfica é, lícita ou ilicitamente, favorecido, e cria um discurso que ou, por um lado, é justificativo da eventual derrota no campeonato, ou, preferivelmente, ajuda a evitar essa derrota. É o que o Porto espera que aconteça em Braga: que o árbitro do jogo, sentindo-se pressionado pela opinião pública e pela suspeição (que não precisa de ter razões para existir para produzir efeitos), decida contra o Benfica nos vários momentos em que terá de agir sobre pressão, e que isso venha a valer uma vitória ou, pelo menos, um empate ao Braga, mas sobretudo, ao Porto.

Os mais novos não devem deixar-se impressionar. Desde o início dos anos 70, pelo menos, que, segundo os seus dirigentes e treinadores, o Porto não perde um campeonato que não seja por causa dos árbitros, e não há nenhum campeonato em que o Benfica não tenha sido beneficiado pelos árbitros. Isto é o bê-a-bá do futebol português. Está institucionalizado. Como tem dado resultados – porque o povo é estúpido, e os árbitros fazem parte do povo – todos os outros adoptaram o sistema, o que leva a algo que é trágico para o futebol português: que, nos últimos quarenta anos, não tenha havido, segundo as próprias pessoas que participam directamente no campeonato, um único campeão justo. Ou seja, que não tenha havido um campeão, apenas uma equipa que chegou ao fim de uma prova organizada pela FPF com mais pontos que as outras, signifique isso o que significar.

Eu gosto que assim seja.

Gosto que a premissa que deu início à chamada «era do dragão» tenha sido o de que o campeonato é um jogo sujo e viciado, e que essa premissa, por razões mais que justificadas, se tenha mantido até hoje.

Gosto que o Porto tenha tomado a opção de lançar lama sobre a glória do Benfica (na altura penta-finalista da Taça dos Campeões, e em que o que ficava de umas épocas para outras eram os jogadores, e não o(s) dirigente(s)) para a poder conquistar, porque, hoje, não há água que chegue, nem nunca haverá – por mais esforços que se façam nas salas de imprensa e nas redacções orquestradas para esse efeito – para lavar a suposta glória do Porto.

É um problema que se resolve a si próprio. Está resolvido desde a origem. O tempo passa. A glória é passageira. Hoje, já poucos benfiquistas se lembram dos tempos em que o Benfica andava a fazer a figura do Sporting, dos 13 anos a penar, como ninguém se lembra de que o Benfica foi bicampeão europeu. Sabe-se que foi, mas significa pouco para quem vive agora. Já pouca gente se lembra do primeiro Porto campeão europeu, ou do tão celebrado penta. É passado, e vai ficando cada vez mais passado. O que se mantém, contudo, é a lama.

Gosto que o Vítor Pereira insinue que o campeonato está a ser entregue pelos árbitros ao Benfica. Sempre que o faz, segue a linha histórica do Porto, segundo a qual o campeonato é uma coisa viciada. O que leva a que, sempre que o Porto ganha um campeonato, esteja, simplesmente, a ganhar uma coisa que admite ser viciada. Podem ser vinte, trinta ou quarenta. Enquanto a premissa for esta, a perversão é a mesma.

Para ser campeão, o Porto optou por queimar tudo. Tornou-se, então, campeão. De quê? De nada que valha a pena ganhar. De coisa nenhuma.

O preço da glória, para o Porto, é este. Pode tê-la, mas não pode limpá-la, porque foi o próprio Porto a querê-la suja, ao não admitir a derrota como uma coisa possível e limpa.

E daqui não há saída, por mais voltas que se dê. Será assim enquanto o Porto for campeão, quando o Benfica vier a ser campeão, quando o Sporting, o Boavista, o Braga ou o Moreirense forem campeões. Ao sugerirem que os dados estão viciados, todos os treinadores, dirigentes e jogadores continuam a cuspir no próprio prato onde vão ter de comer - pelo simples facto de não haver outro.

O verdadeiro triunfador do futebol português será aquele qu, não apenas venha a ganhar, mas que, ganhando o privilégio de impôr o discurso, venha a conseguir mudá-lo. O que implica aprender a perder. Algo incompatível com hegemonias artificiais.

Só no dia em que ocorrer uma epifania cívica e se perceber que andar a jogar um jogo viciado é mau para todos, sobretudo para os que o podem ganhar, é que o futebol português voltará a ter a elementar inocência que o tornará, novamente, algo de digno. Mas vai levar mais vinte anos.

Que o principal prejudicado desta imensa porcaria, historicamente, venha a ser a equipa que mais ganhou com ela, é apenas justo.

E ainda é mais justo que não seja concebível, para ninguém, que algum dia haja em Portugal um campeonato verdadeiramente limpo enquanto nele estiverem envolvidas quaisquer pessoas que tenham sido enlameadas pela coabitação com Jorge Nuno Pinto da Costa – incluindo todos os futuros dirigentes do Porto e dos outros clubes que tenham jogado com as regras que ele ditou.

Hoje, Pinto da Costa é a lama que não sai. E ainda bem.

sábado, 19 de janeiro de 2013

O Benfica-Porto que eu já vi cinquenta vezes


A proverbial boa vontade da nação benfiquista, a começar pelo seu representante oficioso (o jornal A Bola), fez do Benfica-Porto um jogo de dois momentos – a fífia do Artur e a defesa de Helton que levou a bola de Cardozo ao poste.

Quando o Benfica ganha dois jogos, em casa, ao Porto, em dez, e em cada um dos oito que não ganha se encontra «aquele momento» em que a coisa falhou, por azar ou azelhice, o que fica evidente, pela regularidade, é que a coisa não falhou por causa «daquele momento» mas precisamente por tudo o que se passou para além «daquele momento».

Se  o Artur não tivesse dado aquela fífia, ou se o Cardozo tivesse marcado aquele golo, o Benfica teria tido mais hipóteses de ganhar, mas a verdade (e a boa vontade dos benfiquistas, aqui, deve dar lugar à sensatez) é que, com 90 por cento de probabilidades, o Porto encontraria outra maneira de não perder aquele jogo.

Gosto de fazer previsões, pelo puro gozo de arriscar, e falho tantas vezes quantas as que acerto, mas quando previ que o Benfica encontraria o mesmo tipo de problemas que encontrou no ano anterior nem sequer era uma previsão. O risco de errar era tão pequeno que era mais uma certeza. O Porto joga com o Benfica, na Luz, da mesma maneira há 30 anos (que eu veja), e o Benfica joga com o Porto, na Luz, da mesma maneira há quatro. Quando o Benfica ganhou, perdeu ou empatou (e ganhou pouco) ao Porto, na Luz, nos últimos quatro anos, ganhou, perdeu ou empatou pelos mesmos motivos, que nada têm a ver com sorte – mesmo que a sorte possa intervir no desenrolar do jogo, como também é quase sempre o caso.

Mantenho o que já disse: que não é impossível, ao Benfica, com este estilo de jogo, ganhar oito jogos em dez ao Porto. Mas isso só é possível com jogadores muito melhores do que os que tem.

Vamos desmistificar esta história do Porto: o Porto, desde o tempo do Pedroto, foi construído para ser um Guimarães da Europa, e para competir, cá pelo burgo, com outro Guimarães da Europa (o Benfica), sendo que o Benfica, por atravessar um período de profunda crise na sua cultura de vitória, se transformou num Moreirense da Europa, estando agora a recuperar, sucessivamente, a sua dimensão.

Em Portugal, num ambiente viciado, ao Porto basta ser um Guimarães da Europa para ir ganhando quase tudo. Na Europa, joga com as armas que qualquer outro Guimarães da Europa vai usando para se manter na luta: um jogo disciplinado, certinho, a jogar no erro do adversário, feito a pensar em jogadores de classe média-média/alta – cuja principal capacidade seja a de manter a formatura a atacar e a defender, e jogar em equipa para colmatar lacunas individuais – e em treinadores pouco audaciosos cuja principal virtude seja a de conseguir fazer a transição do técnico anterior para o técnico seguinte com o mínimo de inovação, de forma a evitar retrocessos estruturais.

E isto chega para o Porto andar, constantemente, entre as 14 melhores equipas da Europa, o que lhe permite, depois, manter a superioridade em relação aos competidores internos que não têm as mesmas armas financeiras e a mesma experiência competitiva adquirida internacionalmente. Como o contexto europeu é menos viciado que o nacional, às vezes – normalmente quando coincidem um treinador melhorzinho, dois ou três jogadores melhorzinhos e um nível de concorrência inferior – o Porto consegue fazer o que um Guimarães, em Portugal, não consegue: ser o melhor no fim da época.

Mas, no quadro maior (considerando o topo de gama do futebol internacional), o Porto não é mais que uma equipa certinha, espremida até perto do máximo. Com grande regularidade, o Porto perde perante equipas com jogadores melhores, que não têm de inventar nada a não ser fazer o que fazem normalmente. E às vezes até é vulgarizado.

Este Benfica, é o contrário. É um Rio Ave da Europa a jogar à Real Madrid, mas com jogadores de Rio Ave, a quem acontece o que geralmente acontece aos Rio Aves quando jogam à Real Madrid com jogadores de Rio Ave: ganham com relativa facilidade às equipas da mesma dimensão (ou andam perto disso), porque têm o ascendente que advém do tipo de jogo mais audacioso; perdem quase sempre com os Guimarães da Europa, que têm um estilo de jogo mais cínico e cerebral, mais a pensar no resultado que na imagem, e que geralmente têm jogadores ligeiramente melhores (sendo que, ocasionalmente, podem ganhar) e perdem sempre com os Reais Madrid a sério, às vezes queixando-se da ingratidão da sorte, quando a verdade é que, a um Real Madrid, basta jogar q.b., mesmo fazendo o jogo parecer equilibrado, porque a classe superior dos seus jogadores resolve o assunto num minuto, na esmagadora maioria das vezes.

O estilo de jogo do Benfica é à grande da Europa – o estilo. O do Porto, não. Por isso é que, mesmo ganhando de vez em quando, o Porto não deixa marcas. Tal como um qualquer Lyon ou um qualquer Valência não as deixam. São equipas sem brilho, que jogam no falhanço dos adversários, de índole defensiva, feitas para não perder. Quando as outras equipas perdem, elas continuam de pé, e assim parece que ganham, quando, na verdade, se limitam a não perder – o que é diferente. São equipas que, culturalmente, representam muito pouco. Uma semana depois do Porto ser campeão da Europa com o Mourinho já ninguém se lembrava a não ser os portugueses.

O estilo de jogo que o Jesus pôs o Benfica a jogar, pelo contrário, se for colocado em prática por jogadores de classe superior, mesmo tendo sempre dificuldades em impor-se contra equipas da mesma igualha que tenham um registo mais cínico, cria uma memória. O risco é uma característica dos grandes. Só arriscando a liberdade se atinge a grandeza. Manter a segurança é típico dos que sobrevivem, mas não dos que lideram.

É claro que entre este Benfica e a grandeza se encontram os Jardéis, os Enzo Pérez, os Maxis Pereira, os Cardozos…

A superioridade do Porto, na Luz, não foi técnica. Os jogadores do Porto não são tecnicamente muito melhores, na generalidade, que os do Benfica (apesar de serem melhores, e por isso é que são mais caros). Parecem muito melhores porque o que se lhes pede é mais fácil – quer em qualidade quer em variedade.

A superioridade do Porto, na Luz, foi (e é sempre) posicional, porque a matriz de jogo do Porto é posicional.

Apesar de não parecer, o futebol é muito parecido com o râguebi que lhe deu origem. Aparentemente é muito aberto e aleatório, porque as suas duas linhas básicas se movimentam mais, em termos verticais, mas não o é – continua a ser um jogo territorial, condicionado pela colocação das balizas nas duas linhas de fundo, em que a posição da bola marca o ponto de choque entre as linhas, numa acção constantemente repetitiva. É um jogo muito mais técnico, porque é mais difícil controlar a bola com os pés do que com as mãos – e isso leva a que quem consiga fazer bem os gestos técnicos mais básicos invariavelmente ganhe vantagem –, mas continua a ser um jogo de choque, repetitivo, entre linhas, com a defesa a rechaçar o ataque, de uma maneira ou de outra, na esmagadora maioria dos embates.

O estilo de jogo «apoiado», como se costuma dizer do Porto, é um estilo que permite manter as linhas juntas apesar da bola. O Barcelona faz a mesma coisa, mas muito melhor, e é por isso que consegue pressionar imediatamente o jogador da bola quando a perde. Ocupando os espaços ao pé da bola, os jogadores adversários, se não estiverem preparados para a fazer sair daquele raio de vinte metros – geralmente porque não têm técnica nem sincronismo colectivo para isso – perdem-na, são forçados a recuar, a fazer faltas, e a jogar directo para os avançados (ou como disse, e com razão, o Vítor Pereira, de pontapé para a frente).

Ao Porto, bastou adiantar a sua linha média dez metros, de forma compacta, de maneira a tapar as linhas do primeiro e do segundo passe na faixa central (em termos de latitude aquela faixa que começa dez metros para lá da linha do meio-campo e acaba dez metros para cá de quem defende), para ganhar uma vantagem posicional que se transformou em vantagem territorial.

O Benfica não tem argumentos técnicos e tácticos para superar este tipo de defesa, seja com o Porto, com o Bayer Leverkussen ou com qualquer outra boa equipa europeia que a consiga executar de forma disciplinada.

Mas também não há grandes segredos em relação a como dar a volta a isto. Mesmo mantendo o estilo de jogo arriscado e, admita-se, pouco inteligente, que é o do Jesus, sem ser necessário mudar de registo, este Benfica teria, não digo vulgarizado, mas dominado o Porto se tivesse, na sua defesa, um jogador que conseguisse passar a bola para o miolo com segurança e se, nesse miolo, tivesse dois médios com categoria suficiente para jogar entre as linhas do Porto, capazes de receber e distribuir a bola sob pressão – com um ou dois defesas a uma distância de três/quatro metros – sem a perderem imediatamente por a passarem para o sítio errado ou tomarem a opção errada. E reparem que não estou a falar em Aimares ou em Carlos Martins. Esses não conseguem. Pensam, às vezes até vêem a jogada, mas não a conseguem executar.

Bastaria isto para, mesmo perdendo muitas bolas no ataque em jogadas de sucesso improvável (como é timbre dos seus jogadores), o Benfica desmantelar o jogo posicional do Porto, obrigá-lo a recuar as linhas, fazê-lo perder a vantagem territorial e, por jogar mais depressa com a bola perto da baliza – como é que surgiram os golos do Benfica? –, marcar golos, impedir o Porto de os marcar, e ganhar o jogo.

O Benfica-Porto que eu vi foi isto. O Braga-Benfica também vai ser – o que não quer dizer que o resultado venha a ser o mesmo, porque, mesmo tendo sido isto, o Benfica teve uma hipótese real de vencer o jogo, e o Porto tem melhores jogadores que o Braga.

A verdadeira questão que deve intrigar os benfiquistas não é se o Porto é isto ou aquilo, porque  o Porto é a mesma coisa há 30 anos, nunca conseguirá ser outra e ganha-se ao Porto da mesma maneira que se ganha a qualquer outro Porto – sendo melhor física, técnica e tacticamente. É, sabendo que o que separa o Benfica dos seus objectivos é apenas ganhar ao Porto, se este Benfica do Jesus, e com o Jesus, conseguirá vir a ser aquele Benfica que o do Jesus ainda não conseguiu ser.

E, com isto, não estou necessariamente a dizer que não.

Mas isso tem de ficar para a próxima, porque a prosa já vai longa.

quinta-feira, 17 de janeiro de 2013

Pedro Proença tem de ser ouvido


Já vi o Benfica-Porto, e deixarei a minha perspectiva sobre o jogo para este fim-de-semana, porque, neste momento, um Benfica-Porto é mais que um jogo, e tem demasiadas implicações no futuro de qualquer uma das equipas, pelo que merece alguma ponderação suplementar.

No entanto ter visto o jogo, nomeadamente a forma como acabou, e ler, hoje, as declarações do Lucho González, suscita-me questões.

Diz Lucho que algumas pessoas se contentam com um ponto, mas eles, os do Porto, não – sendo que só sobra outra equipa… - e que se devia investigar a razão por que o melhor árbitro do Mundo não apitou o jogo.

Devo dizer, a este respeito, especificamente, que a IHHFFHFHFFHS – que foi a entidade oficial que considerou o Sporting a melhor equipa portuguesa da época passada (voltando a provar que os números são uma batata) – voltou a pecar por defeito. Pedro Proença não foi apenas o melhor árbitro do Mundo. Tornou-se, também, no melhor árbitro português de todos os tempos, graças à brilhantina e a um emprego na advocacia que lhe permitirá arrecadar pecúlio e prestígio suficientes para não ter de fazer como o primeiro grande arbitro português, o grande António Garrido, que se viu obrigado a fazer-se avençado como conselheiro do Futebol Clube do Porto para assuntos de arbitragem.

A primeira parte da conversa de Lucho deixa-me curioso, porque, aos 88 minutos do jogo da Luz, não só vi o treinador do Porto a fazer substituições para queimar tempo como o vi a ele próprio, Lucho González, a passo, a ir entregar a braçadeira de capitão a Helton antes de ser substituído por Castro, esgotando o pouco tempo que a sua equipa («sempre superior») tinha para marcar o golo da vitória.

Note-se, apesar do défice que o Porto tem para a posição, estranhamente, dois minutos antes, quando entrou a substituir Varela, o defesa-central Abdoulaye não foi jogar a ponta-de-lança.

Há, pelo menos, duas pessoas que, como demonstram as suas acções, ficaram contentes com o ponto na Luz: o capitão do Porto e o treinador do Porto. Certamente que Vítor Pereira foi confrontado com esta situação colocada pelo seu jogador, pelos jornalistas do Porto, durante a conferência de imprensa em que fingiu que pediu desculpa ao Jesus, perante a profunda admiração desses jornalistas. (Nunca consegui confiar em quem não é capaz de pedir desculpa. É um problema de carácter que tenho.)

A segunda parte da conversa de Lucho com os jornalistas do Porto deixou-me ansioso, porque abre a possibilidade do melhor árbitro do Mundo para a IHHHFHFHHFS – como foi ampla e auspiciosamente destacado na primeira página do jornal O Jogo nas vésperas da partida do passado fi-de-semana – vir a ser ouvido, do alto do seu hoje intocado e incontornável prestígio, pelos jornalistas, não só do Porto como dos que trabalham para os jornais com vista à informação do público.

Porque o melhor árbitro do Mundo tem coisas importantes para dizer.

Eis a transcrição de uma parte da entrevista dada por Pedro Proença ao Record, há algumas semanas:

«Record – A sua geração fica marcada pelo Processo Apito Dourado?

Pedro Proença – Muito marcada. Mas há que ter em conta a forma como o sector deu uma resposta positiva. Mexeu-se em algo que as entidades judiciais não souberam lidar. Não souberam penalizar quem tinha de o ser. A montanha pariu um rato, como se costuma dizer. Há escutas telefónicas que não foram penalizadas, vemos factos que são conhecidos de toda a gente e nada aconteceu.

Record – O ónus ficou com os árbitros?

Pedro Proença – Sim. O problema é que não se vêem resultados e fica no ar a suspeição. Ainda por cima houve factos reais. Pior é que uma má decisão é uma não-decisão. Neste caso, houve uma não-decisão. Criaram-se expectativas em relação a determinadas situações e ninguém foi punido.»

Temos, aqui, uma janela de oportunidade.

Por um lado, há grande preocupação, no Porto, neste momento, pelo «bem do futebol». Foi o próprio treinador campeão nacional quem o disse, ao defender a expulsão de Maxi Pereira, Matic, João Moutinho e Fernando, e a necessidade de se acertar na marcação de fora-de-jogo – sendo que a comoção, compreensivelmente, o levou a esquecer-se de referir os seus jogadores ou a ocasião em que ganhou o campeonato nacional com um golo em fora-de-jogo a cinco minutos do fim, frente a este mesmo adversário, no mesmo campo.

Por outro, quem fala é um árbitro a quem Jorge Nuno Pinto da Costa – pelo que se lê em todos os jornais um cidadão exemplar, o maior dirigente português de sempre e alguém que percebe todas as linhas com que se cose o sucesso no futebol – reconhece toda a honestidade, verticalidade e decência. (E eu também reconheço, convém dizê-lo, já agora).

A bem do futebol, Pinto da Costa, Vítor Pereira, toda a comunidade futebolística acima do Mondego e abaixo do Mondego, vão querer ouvir o melhor árbitro do Mundo sobre o caso de corrupção que castigou o Boavista e o Gondomar, e saber:

- quem tinha de ser penalizado;

- de que escutas telefónicas está a falar;

- quais são os factos reais de que Pedro Proença fala;

- que decisão era esperada.

Deixar passar esta oportunidade, propiciada pelo principal representante da classe da arbitragem em Portugal – não só de hoje mas de sempre, refira-se – colocaria em causa a fiabilidade dos resultados desportivos alcançados pelos eventuais envolvidos durante o seu percurso no desporto.

Não podia haver pior para o futebol que permitir que se instalasse a sombra da desonestidade.