quinta-feira, 7 de fevereiro de 2013

Metafísicas à parte (I)


Deixemos as metafísicas de lado, por hoje (só por hoje…), e falemos de resultados.

Ontem, na «coluna-Gestapo» que o Record tem no lado esquerdo da página inicial da secção atribuída a cada um dos grandes – aquela em que os jornalistas que «acompanham» o dia-a-dia da equipa escrevem dois ou três parágrafos dignos de figurar num qualquer facebook das claques respectivas – o João Qualquer Coisa Rodrigues chamava a atenção para a necessidade de não ser demasiado exigente com o Jesus e com a equipa do Benfica, dados os resultados alcançados até agora.

«Não se deve deitar a perder tudo o que já foi alcançado por causa de pormenores como o goal-average», escrevia o Qualquer Coisa Rodrigues, notando que o Benfica estava em primeiro no campeonato, (praticamente) na final da Taça, nas meias-finais da Taça da Liga e nos 16-avos da Liga Europa.

É o tipo de coisa que se espera encontrar na coluna-Gestapo.

(Abrindo um parêntesis, a lógica da coluna-Gestapo é a seguinte:

- os jornalistas dos desportivos têm de levar com as máquinas de propaganda azul-vermelha-verde todos os dias, e têm de as confrontar com rumores quase todos os dias. Também estão sujeitos a pressões, todos os dias, por parte dos adeptos. Ser um «jornalista de grande» é um ofício diário de pressão e negociação, com tudo e com todos, até dentro das respectivas redacções.

De um «jornalista de grande» não se espera grandes notícias, não se espera objectividade e nem sequer se espera que diga a verdade. A função do «jornalista de grande» não é denunciar casos nem criar assuntos mas manter uma máquina de fabricação de caracteres e preenchimento de colunas que venda jornais, 24 horas por dia, 7 dias por semana. É a economia. Ocasionalmente (muito ocasionalmente), o que mantém a máquina a funcionar é a verdade, ou a objectividade, e lá aparece uma notícia relevante. Se querem saber a verdade, ou algo aproximado, sobre os clubes grandes, têm de esperar que os jornalistas não comprometidos lá cheguem. Não é por serem melhores - os jornalistas desportivos até têm de ter um estofo superior aos dos seus colegas «convencionais»: é por terem mais espaço de manobra.

A coluna-Gestapo é a síntese dessa lógica. Os jornalistas usam aqueles 1000 caracteres para apaziguar os ânimos, para agradar a determinadas franjas de adeptos (de preferência ao maior número possível de adeptos), para transmitir determinadas mensagens que lhes são veiculadas especificamente pelas estruturas de comunicação dos clubes, ou para ganhar lastro negocial que lhes permita, noutras situações, pedir um pouco mais do que o normal, ter um acesso especial ou, em casos extremos em que vão contra o sistema de relacionamento instituído, argumentar em favor próprio apresentando a sua cumplicidade em casos anteriores.

É normal, por exemplo, ler-se aí considerações ao comportamento dos jogadores, sobretudo durante o período de transferências (veja-se o caso do Rolando), expectativas em relação a novas contratações (Kléber, Izmailov…) ou, mais raramente, críticas a alguns elementos de que a «estrutura» espera mais em termos de rendimento. Quando qualquer uma destas coisas acontece, acontece com o beneplácito ou, quanto muito, com o consentimento, por omissão, dos clubes.

No caso do Porto isso é mais visível, por um lado porque a «estrutura» é mais antiga e mais profissional, e por outro porque, ao contrário do que acontece em Lisboa, os jornalistas são praticamente todos adeptos do clube, e por isso mais permeáveis ao «interesse de Estado», mas a lógica é a mesma.

A coluna-Gestapo destaca-se por fazer opinião, «sustentada», geralmente, nas «notícias» que são, no mesmo dia, apresentadas nas três/quatro páginas seguintes, e por isso é um espaço relativamente importante para os clubes. Aí criam-se temas de discussão, lançam-se lebres, e algumas até acabam perseguidas pelos perdigueiros. A eficácia das máquinas de comunicação clubística – a capacidade de controlar o fluxo da informação e as ideologias de pacotilha que ela serve – pode medir-se, perfeitamente, pelo grau de liberdade crítica real dos jornalistas que escrevem na coluna-Gestapo.

Mas, voltando aos resultados…)

É normal que o Qualquer Coisa Rodrigues use a coluna-Gestapo para deitar barro à parede, mas a leitura que ele fez não é objectiva.

Objectivamente, a verdade é a que se segue. «Tudo o que já foi alcançado», neste momento, é zero. Nada foi alcançado. No ano passado, por esta altura, os resultados do Benfica eram melhores do que os deste ano, e, no fim, segundo a perspectiva instalada, a época foi um fracasso.

Havia cinco pontos de avanço no campeonato, apesar da Taça de Portugal já estar perdida. Estava melhor que este ano, na minha opinião.

Havia um apuramento para os oitavos-de-final da Champions. Muito melhor que este ano.

Um apuramento para as meias-finais da Taça da Liga. Igual a este ano.

E o que havia, como se comprovou, era o mesmo que este ano: por enquanto, nada.

Falemos em hipóteses – uma tentativa de unir subjectividade e objectividade, que não me agrada muito, mas, ainda assim, possível e relevante.

O Benfica tem 25 por cento de hipóteses de ser campeão nacional, 90 por cento de hipóteses de ganhar a Taça de Portugal, 30 por cento de hipóteses de ganhar a Taça da Liga (se o Porto for eliminado, como está nos regulamentos), 3 por cento de chegar à final da Liga Europa e 1 por cento de hipóteses de a ganhar.

 A Liga Europa

Comecemos pelo fim. A Liga Europa é uma competição residual, em termos de hipóteses de sucesso intrínseco, na época do Benfica, e potencialmente fundamental em termos de importância dos efeitos secundários que pode gerar.

Com equipas como o Zenit, o Olympiakos, o Leverkussen, o Chelsea, o Nápoles, o Tottenham, o Lyon, o Ajax, o Inter, o Atlético de Madrid ou a Lazio, a passagem à final não é impossível, nem a vitória na final, mas quase, e exigiriam, de um plantel curto como é o do Benfica, um esforço insuportável – já para não falar de uma dose de sorte muito considerável para uma boa parte destas equipas se eliminar entre si.

É um logro, mas é um logro perigoso porque os adeptos do Benfica estão muito predispostos a cair nele e porque o treinador do Benfica tem a ambição de treinar no estrangeiro, e vê nas competições europeias a sua única oportunidade real de isso vir a acontecer.
Além disso, o Jesus é de outro tempo, Lembremo-nos de que ele continua a dizer que ganhou uma competição europeia, a irrisória Taça Intertoto - que no meu tempo era a Taça do Totobola, porque permitia que houvesse apostas durante o Verão. Apesar de ser bem mais velho, o Jesus ainda é do meu tempo: um tempo em que ganhar uma Taça UEFA ou uma Taça das Taças era uma coisa muito importante. Hoje, é só uma coisa apenas relativamente importante. É uma coisa para puristas. Para a «elite pensante» do futebol, é mais importante chegar aos quartos-de-final da Liga dos Campeões que ganhar a II Divisão que é a Liga Europa. Basta ver que, até ao aparecimento da Champions, as equipas portuguesas só chegaram às meias-finais de qualquer dessas competições duas ou três vezes, e que, nos últimos dez anos, praticamente todas as épocas lá vão. Há dois anos, as meias-finais da Liga Europa pareciam as meias-finais da Taça da Liga portuguesa. Até o Sporting lá chega de dois em dois anos, e isso diz tudo.

A Liga Europa será muito mais importante para o campeonato do Benfica, para o bem ou para o mal, do que para a própria Liga Europa – a começar já este fim-de-semana. É uma carta solta no baralho do Jesus, um jóquer que tanto o pode matar como pode virar o jogo a seu favor, dependendo de como este se vá desenrolar. Mas já lá iremos.

 
A Taça da Liga

Da maneira como o cenário se está a montar, a Taça da Liga é a tal competição que os jornais determinaram que o Braga vai ganhar para abrilhantar a «era-Salvador». Segundo o plano, devia ter sido a Taça de Portugal (assim faziam a dobradinha…), mas o futebol é injusto.

Considerando a previsível escassa importância que a meia-final terá, na altura, comparativamente, para um Benfica já desgastado por um Fevereiro com seis jogos; considerando a habitual Sarajevo que o Benfica encontra em Braga; considerando a pouca diferença real de qualidade entre as duas equipas, o Braga jogará a final da Taça da Liga com o Rio Ave (?) e ganhará. Apesar do Peseiro.

Até é bom. Assim que uma das equipas do arco do poder (Porto, Braga, Sporting) ganhar a Taça da Liga, a competição, magicamente, tornar-se-á relevante na comunicação social e deixará de ser a Taça da Cerveja. As equipas honestas, que trabalham, que ganham à custa do suor, e não dos árbitros, não ganham Taças da Cerveja. Nem sequer competem em Taças de Cerveja. Só ganham taças a sério.

Nessa altura, a Taça da Liga começará a valer tanto como a Supertaça Cândido de Oliveira, por exemplo – essa excelsa competição entre duas equipas, disputada antes de começar o campeonato nacional, que, na relação exigência-glória, é a mais valiosa de Portugal, pela simples razão de que, valendo tanto, em termos nominais, como um campeonato nacional, e existindo apenas há trinta e poucos anos, permitiu ao Porto tornar-se no clube mais vitorioso do futebol português, segundo os cânones vigentes de que as competições são todas iguais ao litro.

É claro que há a desvantagem de, quando alguém do trio SPortBra (agora lembrei-me de um wonderbra para três tetas…) ganhar a Taça da Liga, o Benfica já ter uma série delas de avanço. O futebol é injusto. Mas acho que já disse isto.

 
A Taça de Portugal

Não dou como certo que o Guimarães elimine o Belenenses. Há dinâmicas diferentes entre equipas que jogam sempre para ganhar e equipas que jogam para não perder que, às vezes, esbatem diferenças de qualidade. Além disso, não há uma diferença de qualidade assim tão grande entre uma equipa que está em sexto lugar numa I Liga nivelada muito por baixo e uma equipa com 20 pontos de avanço em primeiro numa II Liga muito competitiva.

Mas, com Vitória ou Belenenses, o Benfica tem 90 por cento de hipóteses de ganhar a final. Por um lado porque é muito melhor, por outro porque é a final da Taça, e finalmente porque, provavelmente, na altura em que se jogar a final, a Taça de Portugal será a única coisa que o Benfica ainda pode ganhar nesta época.

Só a história do Jesus, e do pai do Jesus (Virgulino? Armandino? Saturnino?...), da promessa, o folcore todo, mesmo sem o Benfica, já seria suficiente para os jornais decidirem quem é que teria de ganhar a Taça.

Não vai ser o Benfica a ganhar a Taça, vai ser o Jesus. E o homem até merece.

(amanhã há mais…)

domingo, 3 de fevereiro de 2013

«Tu não és mauzinho...»


Hoje ainda não me apetece falar de coisas sérias. Ando em desmame do stress dos exames e desde a semana passada que praticamente só falo aqui de corrupção, corruptos e fruta fora de época. Apetece-me disparatar um bocado.

Em Aveiro aconteceu um daqueles fenómenos inexplicáveis em que o futebol é fértil: o Braga, a jogar com o Paulo Vinicius e com onze jogadores nos últimos dez minutos – por via de nenhum dos seus centrais ter sido escandalosamente expulso depois de um avançado do Beira-Mar ter tropeçado na sua própria perna de propósito quando ia sozinho para a baliza –, o Braga, dizia, levou três golos do Beira-Mar.

Como dizia o Gabriel Alves, o futebol é isto. Imprevisível.

Em Vila do Conde, o Sporting do Joãozinho fez o seu segundo melhor jogo «da era Jesualdo Ferreira» e acabou com o mesmo resultado que teria acabado o «melhor jogo da era Jesualdo Ferreira», uma semana antes, frente ao Vitória de Guimarães, se o Xistra (sempre tão caseiro…) não tivesse fanado ao Vitória um penálti do tamanho do Marquês de Pombal no último minuto.

Deve notar-se, aqui, duas coisas.

Primeiro, que a boa vontade com que esse lance foi tratado e rapidamente esquecido nos leva a crer que, de facto, o caso do Sporting é, actualmente, de solidariedade nacional, semelhante ao das avalanches da Madeira ou do temporal de há quinze dias. Vamos ver se, daqui por mais ou menos um mês, quando o Porto vier jogar a Alvalade se mantém o espírito de salvação do Sporting ou se, em sinal de gratidão, se abrirão avenidas de boa vontade para Izmailov, Liedson, Moutinho, Varela e companhia aí passarem com facilidade uma etapa potencialmente decisiva para o título.

Há muitas maneiras de ser enganado, mas ser enganado sucessivamente pelo Porto como o Sporting é enganado e reagir como o Sporting reage faz-me lembrar aquela anedota do caçador e do urso.

Resumidamente, o caçador anda a tentar caçar um urso. O urso apanha-o sempre, baixa-lhe as calças, diz-lhe «tu és mauzinho», e arromba-o todo.

A certa altura, o caçador volta a insistir, o urso volta a apanhá-lo e chega a uma conclusão óbvia: «Tu não és mauzinho, gostas é de levar no rabinho.»

Do jogo de Vila do Conde ficou-me a confirmação de que o miúdo Oblak tem um instinto para a baliza que raramente vi num guarda-redes de 20 anos e que o outro miúdo Diego Lopes tem atrevimento e futebol nos pés suficientes para, no Benfica ou noutro Benfica qualquer, ser um jogador a sério.

A talho de foice, li, em qualquer lado, um comentário indignado de um sportinguista a dizer que o Adrien devia ter sido convocado para a selecção em vez do André Gomes. Quando acabei de tossir, limitei-me a concluir que, com 19 anos, o André Gomes tem mais futebol no pé direito do que o que o Adrien vai ter no corpo inteiro quando tiver 30. E o Adrien até é bom jogador.

Hoje também percebi, finalmente, a lógica do número 89 do André Gomes. 8, 9…10, quando o Aimar se reformar. É a progressão natural.

Devo dizer que não fiquei minimamente preocupado com a «ausência» do Benfica no mercado de Janeiro. O jogador de que o Benfica precisa não se compra em Janeiro, em saldos. Compra-se com tempo, no verão, tal como foram comprados o Javi Garcia, o Witsel, o Garay, o Ola John, o Matic, e praticamente todos os que fazem a diferença. Os que vêm em Janeiro, regra geral, só vêm fazer despesa. Também não acho que vá ser por falta de um médio-centro que o Benfica não vá ser campeão, que deixe de ganhar a Taça ou que não chegue às meias-finais da Liga Europa. Para isso, considerando a concorrência, os que la estão chegam, desde que sejam aproveitados.

Para ser campeão, o Benfica precisa de chegar a Março com os seus jogadores fundamentais – Luisão, Garay, Matic, Aimar, Gaitán, Salvio e Cardozo – a produzirem perto dos 100 por cento. Se isso não acontecer, não é por chegar mais um titular que o Benfica se safa.

O Bruno César não faz falta nenhuma – não é, nem nunca foi outra coisa senão um tique de novo-riquismo do Jesus, e o facto de aparecer algumas vezes no jornal, por jogar no Benfica, não invalida esta evidência – e o Nolito, apesar de eu continuar a achar que o Jesus não o soube aproveitar, também não, simplesmente porque nunca foi um jogador do Jesus mas do Rui Costa.

O Benfica tem o Gaitán e o Ola John, que jogam nos dois flancos, o Salvio, o Urreta, ao que parece, está a evoluir, e o Miguel Rosa, apesar de não ser grande espada e ser um jogador relativamente burro (até se enquadra bem…), tem rodagem e, com a moral que leva se for chamado à equipa principal, até é menino para decidir um jogo e dar uns pontintos.

Aquilo que o Benfica conseguiu foi, na verdade, equilibrar o plantel, ao retirar-lhe os excessos e subindo a responsabilidade aos jogadores que lá estão.

Repito: neste campeonato, em que o sexto leva 4-0 do primeiro, em casa, sem que o primeiro tenha de meter a quarta, este plantel chega. Se o Benfica vier a perder pontos inesperados não será por falta de jogadores, mas por falta de concentração ou por opções erradas por parte do Jesus – jogar com o melhor onze com o Leverkussen em vez de guardar jogadores para o campeonato, por exemplo, como aconteceu no ano passado antes do jogo em Coimbra, em que uma vitória teria dado o título ao Benfica.

Para mim, com o Leverkussen, é o jogo ideal para dar minutos ao Aimar, ao Luisinho, ao André Gomes, ao Urreta, ao Rodrigo, ao André Almeida. Para ninguém ter dúvidas nenhumas (começando pelos jogadores) sobre quais são as prioridades da época.

Aliás, para acabar com a minha habitual nota catastrofista, e após ver o desempenho da equipa nas últimas semanas, não tenho dúvidas nenhumas de que se o Benfica não for campeão esta época será pela exacta mesma razão que não foi na última: porque não quer. E como não quer, não vai fazer o suficiente por isso.

Quando há nem que seja uma hipótese em vinte do campeonato ser decidido «à Calabote», por goal-average, não se ganha 2-1 ao Moreirense quando se pode ganhar por 5-1, não se dá 3 ao Setúbal quando se pode dar 7 (e resolver logo, de uma vez por todas, a questão do goal-average), não se ganha 2-1 ao Braga, de aflitos, quando se tem a hipótese de fazer um resultado histórico – que é o que teria acontecido se o Benfica tem sabido jogar a segunda parte frente a este Braga.

Hoje, os jogadores do Benfica estavam a guardar-se exactamente para quê, que eu não percebo? Para o jantar? Para a folga?

O Aimar, por exemplo, entrou exactamente para quê? Para mostrar a camisola? Se foi para ganhar ritmo, o ritmo a que ele jogou tem é de ser perdido, porque, assim, nem para o Qatar serve.

Certo, não era preciso.

Daqui a umas semaninhas, quando me vierem falar de árbitros, voltamos a conversar sobre o que é preciso.

Mas não quero acabar com azedume. Afinal, o Benfica até ganhou. Prefiro salientar uma pequena nota que não é minimamente de desprezar quando se conjecturam cenários futuros de igual sucesso desportivo entre Benfica e Porto – o que não acontece neste momento. Se se pegasse na assistência que esteve ontem na Luz – num domingo à noite, no princípio de Fevereiro (e quem tem de pagar as contas da casa sabe ao que eu me refiro, porque os dois primeiros meses do ano, a seguir ao Natal, são sempre os piores), com um frio do caraças, frente a um Vitória de Setúbal fraquíssimo, com o Benfica sem ganhar nada de jeito há dois anos – e se a transplantasse para as Antas, o Porto teria feito uma das melhores casas da época.

P.S. - Aliás, fui confirmar, e esta época o Porto ainda não conseguiu meter 39 mil espectadores em casa em nenhum jogo. Nem com o Sporting.

sábado, 2 de fevereiro de 2013

O melhor condutor do mundo


Há coisas importantes para dizer sobre o Benfica, e serão ditas até ao próximo domingo, mas não quero deixar passar a oportunidade para deixar aqui uma mensagem de júbilo e boa esperança para todos os jovens benfiquistas que por aí andam e que possam sentir-se esmagados pela mensagem diária passada pela cultura dominante do regime (a última é a de tentarem fazer do Vítor Pereira um Guardiola, e é de cagar a rir).

Quero lembrar-vos de um anúncio que passava na televisão quando eu era pequenino, e de que já falei aqui uma vez a propósito do Jorge Jesus. Descansem, hoje ainda não vou falar-vos do Jesus.

Nessa altura, em que aqui o tio Hugo tinha uns dez aninhos, ainda só havia dois canais de televisão, mas já havia alguns automóveis, filas na ponte sobre o Tejo, já havia bêbedos e de vez em quando havia acidentes de automóvel. O anúncio era uma caneta Bic que começava a traçar uma linha em cima de uma folha de papel, e uma voz a dizer: «O (vamos chamá-lo assim) Jorge é o melhor condutor do mundo.»

A linha ia avançando, em linha recta. À medida que o Jorge bebia um copo aqui e outro copo ali tornava-se mais errática, até que, a dado momento, já com o Jorge completamente embriagado, o carro estampa-se.

A mensagem de boa esperança que eu vos quero deixar é uma profecia e é a seguinte: estão a ver o Sporting de agora? O Sporting dos Roquettes, dos Batanetes, dos doutores e engenheiros? O Porto de agora a 20 anos vai ser igual.

Porque é que eu digo isto?

Porque o Jorge é o melhor condutor do mundo, mas o ziguezague já começou há um bom tempo.

Em Novembro, por exemplo, o Jorge pediu 30 milhões de euros emprestados, com um juro de 8,5 por cento, para conseguir pagar o empréstimo anterior e, ao que se disse, financiar o reforço da equipa no mercado de Inverno. A empresa do Jorge, note-se, deu um prejuízo de 37 milhões de euros apesar de, no espaço de 18 meses, ter vendido jogadores num valor de mais de 100 milhões.

O Jorge, ao que parece, pagou o que faltava pagar do empréstimo anterior e, em Janeiro, reforça a equipa com um jogador de 30 anos e outro de 35 a custo zero (apesar de ser curioso como se nota que «o clube vai poupar os salários de Rolando até ao fim da época» e pouco se falar dos encargos 3 a 4 vezes superiores que apenas aqueles dois jogadores representarão).

Em Janeiro, pelo contrário, o Jorge pagou mais empréstimos. Pagou um empréstimo de 4,125 milhões (reaquisição dos 37 por cento do Moutinho) a um juro de cerca de 75 por cento, e outro de 2,55 milhões à insuspeita Gol Football Luxemburg (a reaquisição de 35 por cento do James), fazendo, aqui, o negócio do século: por esses 2,55 milhões que recebeu em Dezembro de 2010 o Jorge pagou, pouco mais de um ano depois, segundo o comunicado feito à CMVM, 8,75 milhões de euros, ou seja, três vezes e meia aquilo que recebeu.

Significa isto que, para conseguir manter uma equipa de 100 milhões de euros capaz de não mais que chegar a Janeiro em igualdade pontual no campeonato com o Benfica, o Jorge se sentiu forçado, só nestes dois casos (James e Moutinho), e em menos dois anos, a perder 10 milhões de euros para fazer negócios que não tinha dinheiro para fazer.

Quando a fuga para a frente é desta dimensão, o facto de, em 2015, inevitavelmente, o Jorge vir a ter de contrair um novo empréstimo obrigacionista para poder pagar os 33 milhões que vai estar a dever, é apenas um pormenor de gestão corrente.

Que o Jorge já está, não apenas a errar, mas numa espiral desastrosa, só não é ainda evidente para todos porque, como dizia o amigo major, «esta merda também tem de ter um bocado de folclore».

Continuará a não ser evidente quando, após vender o James e o Moutinho por 70 milhões no Verão, e depois de chegar aos quartos-de-final da Liga dos Campeões, apresentar um «lucro recorde» de cerca de 15 milhões de euros. Pelo contrário. Far-se-á folclore com o recorde e, provavelmente, com o título conquistado à tangente, provavelmente graças a uma nova vitória directa sobre o Benfica, nas Antas, na penúltima jornada do campeonato. Tudo isso alimentará o monstro, e os adeptos farão questãode não querer ver mais nada além disso.

Continuará a não ser evidente enquanto houver troféus para exibir.

Mas começará a tornar-se evidente quando a lei das probabilidades, que é tão inexorável como a lei da gravidade, retirar ao Jorge o pechisbeque brilhante com que ele vai encadeando os tolos.

Não será imediatamente evidente. Falar-se-á, então, de roubos de igreja, de Calabotes, da cegada do costume, que já dura há 40 anos, mas, basicamente, o que o Jorge fará será aquilo que fez há dois anos:enquanto atira poeira para os olhos do povo, vai voltar a endividar-se com o que tem e com o que não tem para poder concorrer com um rival que tem mais recursos. E, provavelmente, vai voltar a ganhar por mais dois ou três anos. Mas na mesma lógica, e cada vez mais enterrado na dívida.

Dirá, então, que a dívida não é um problema, porque o Benfica também a tem, e muito maior – o que é verdade, e se justifica por o Benfica, empurrado por uma espiral de expectativas elevadas e falhadas, ter tido de sair do fundo do mesmo poço para o qual o Jorge, agora, já vai a cair. Com as vitórias, ninguém quererá notar que o Jorge nunca conseguirá fazer com que o seu clube venha a conseguir receitas suficientes para, sem transferências de jogadores, se situar entre os 25 mais ricos da Europa. Ninguém quererá reconhecer que o Jorge manda num país como Portugal e que tenta concorrer com um país que é, em comparação, quase uma Espanha.

E quando, enfim, vier o segundo ciclo do fracasso, numa altura em que o rival tiver melhorado o suficiente para quebrar a hegemonia necessária à manutenção deste tão frágil equilíbrio, falar-se-á do desastre do Jorge como um acidente súbito e fulminante, quando não o é.

É apenas inevitável, e já está em curso. O melhor condutor do mundo já perdeu o controlo da situação há muito tempo. Só espera que ninguém dê por isso, e que os ignorantes continuem a confiar que há coisas demasiado grandes para falhar.

terça-feira, 22 de janeiro de 2013

«É a lama, é a lama»


Nunca julguei que o Paulo Vinicius fosse um jogador tão importante para o futebol português – pelo que me lembro, segundo a imprensa do regime, o último jogador decisivo no futebol português foi o Vandinho, injustamente suspenso por três meses por andar ao soco no túnel de Braga, e graças ao qual o Benfica foi campeão em 2010.

No entanto, a acusação lançada a público nos últimos dias, de que o árbitro Duarte Gomes faria parte de uma conspiração orquestrada pelo presidente do Conselho de Arbitragem da Liga, Vítor Pereira, para entregar o título de campeão nacional ao Benfica, fez-me ir ver ao You Tube a escandalosa expulsão do Paulo Vinicius no tempo de descontos do jogo com o Setúbal.

Confesso que ia preparado para admitir que o Duarte Gomes tivesse dado largas à sua costela benfiquista – algo que, ao que me lembre, nunca beneficiou o Benfica (tal como com o Pedro Proença, por exemplo) – e que, desta vez, tivesse aproveitado, cirurgicamente, e com pouca habilidade, a oportunidade de beneficiar o Benfica, por prejuízo de entreposta pessoa. Se isso fosse verdade, o grau de premeditação e de pouca-vergonha necessária para o fazer tão às claras significaria, claramente, que, de facto, estaria em marcha uma campanha obscura para dar o campeonato ao Benfica, se não por toda pelo menos por uma parte da arbitragem portuguesa.

(Dizem que o Salino devia ter sido expulso, mas disso não fui à procura, porque o Salino, para não ter sido expulso, é porque, claramente, não é um jogador essencial para ganhar ao Benfica.)

Depois de ver as imagens, tudo se tornou mais claro.

Tornou-se claro, por um lado, que o Paulo Vinicius pode ser um jogador excepcional, mas que não o é pela inteligência, porque, aos 93 minutos de um jogo em que a sua equipa está a ganhar por 4-1, com os outros centrais todos lesionados ou castigados, faz uma obstrução ostensiva, e com contacto físico, a um jogador do Setúbal que ia lançado em direcção à baliza, sem nenhum outro defesa entre ele e o guarda-redes.

Por outro lado, confirmei que Duarte Gomes é um excelente árbitro, muito acima da mediocridade geral, e que está acima do nível de coragem de praticamente todos (senão mesmo todos) os seus colegas de profissão em Portugal. Tomou uma decisão justa e correcta numa altura em que teria espaço (na opinião pública, não de acordo com as regras) para se esconder e fazer de conta que não sabia. Ter-lhe-ia sido muito mais fácil optar por dar o amarelo, pela simples razão de que os cães que ladram no Norte são muitos mais e metem muito mais medo que os cães que ladrariam em Lisboa (pelo menos na bancada sul da Segunda Circular, porque na bancada norte a opção também já está tomada).

Pedro Proença, provavelmente, ter-se-ia escondido. E não o teria feito por ser pior árbitro, ou por estar comprado, mas porque tem um sentido de preservação maior que o de Duarte Gomes, o que lhe possibilitou ir muito mais longe do que Duarte Gomes sem ser tão bom árbitro.

Estou à vontade para dizer isto porque, para mim, só há três árbitros em Portugal que têm demonstrado ser «incorruptíveis», no sentido de não se deixarem pressionar (mais do que o normal) pelo sistema. São eles Pedro Proença, Duarte Gomes e (podem deixar cair os queixos), Bruno Paixão. Sim, Bruno Paixão. Bruno Paixão é um mau árbitro – mas é-o porque quer. Ou melhor, é-o porque prefere ser um mau árbitro e estar no centro das atenções a ser «apenas» mais um excelente árbitro. Tecnicamente, Bruno Paixão poderia ser um dos melhores árbitros europeus, até porque tem um ego enorme e uma vaidade insuperável. No entanto, é um apenas um sociopata egocêntrico. Vive para estar no centro das atenções. Quando não há razões para isso, inventa-as, e inventa-as quase sempre. É uma pessoa doente, que precisa mais de alimentar o seu umbigo do que de ser um bom árbitro. Mas é incorruptível, pela simples razão de que não arbitra nem para enriquecer, nem para ser internacional, nem para ir a finais do Europeu ou da Liga dos Campeões – arbitra para ser insultado e para que se fale dele. Não há nada com que ele seja verdadeiramente aliciável, porque o que ele quer já tem, e prefere não arriscar a perdê-lo ao ser apanhado em escutas policiais ou em casas de alterne do Norte.

Todos os outros árbitros portugueses, além destes três (ainda não conheço bem alguns dos novos, apesar de haver dois ou três que me pareçam ter potencial), vivem confortavelmente dentro do sistema, alimentando-o e alimentando-se dele, uns favorecendo sobretudo o Benfica (quando podem), outros favorecendo o Porto. Estes últimos são mais, por uma razão simples: o Porto tem a posição elevada no sistema, tem mais força institucional e mediática adquirida, e pode prejudicá-los mais.

Actualmente – e já no tempo do Apito Dourado era assim sobretudo em relação aos árbitros internacionais – a corrupção não se faz pela via patrimonial. Ou seja, não se paga aos árbitros para roubar. Isso acontecia (hoje não sei se acontecerá) com os Jacintos Paixões, com os José Guímaros, com os José Silvanos, com os Francisco Silvas. Com a escumalha da arbitragem, gente barata, pouco acima do lixo.

Com os bons árbitros – que são os que realmente têm importância porque, salvo algumas excepções, apitam os jogos decisivos – a corrupção sempre se fez sobretudo através da manipulação das carreiras. Manipulando uma carreira dá-se a árbitro o melhor de dois mundos: a oportunidade de ser árbitro nos jogos importantes a nível nacional e internacional e a oportunidade de ganhar muito dinheiro, de forma legalizada. É uma espécie de corrupção dentro da lei. Promovem-se árbitros de categoria (2.ª, 1.ª, internacional) para os premiar pelo desempenho a favor de determinadas equipas.

O sistema, hoje, está controlado pelo Porto, porque ainda não apareceu quem desafiasse a lógica instalada de que, para se subir na vida, na arbitragem portuguesa, pode-se beneficiar quem se quiser, mas, em última instância, em caso de dúvida, não se pode prejudicar o Porto. O que está instalado, mais que um sistema de corrupção organizada (acredito que o Apito Dourado mudou alguma coisa, nesse aspecto) é um sistema de medo instalado, ou de subserviência à autoridade. Não acredito que Porto ou Benfica manipulem o Vítor Pereira ou as classificações dos árbitros, mas acredito que os árbitros estão condicionados por sentirem que os clubes têm muito poder sobre as suas carreiras, e que beneficiam mais facilmente o Porto porque sentem que o Porto tem mais poder do que o Benfica. Ainda assim, não acho que os campeonatos, actualmente, sejam premeditadamente decididos pelos árbitros – e  muito menos pelo Pedro Proença ou pelo Duarte Gomes. Acho, sim, que é muitíssimo difícil o Porto perder um campeonato porque qualquer árbitro ou qualquer conjunto de árbitros assim o decidam, e tenho a certeza de que o Porto já não perde um campeonato por causa dos árbitros há décadas.

Este sistema corrompido que existe hoje teve um período decisivo de implantação: a primeira metade da década de 90, o cúmulo da pouca vergonha, em que a Associação de Futebol do Porto, através do então seu corruptíssimo presidente Adelino Pinto, em concluio com Pinto da Costa, usavam o facto da AF Porto ter a primazia na escolha de cargos da FPF para escolherem o presidente do Conselho de Arbitragem, que por sua vez tinha a prerrogativa de alterar as classificações dos árbitros. Um desses presidentes do CA da FPF foi o próprio Lourenço Pinto, advogado de Pinto da Costa, certamente graças ao seu ilustríssimo passado desportivo e arbitral. A década de 90 foi, por inteiro, um tratado de corrupção, e a época mais negra do futebol português. Quem nasceu ou começou a ver futebol depois disso não tem ideia de quão baixo é possível descer em termos de degradação ética e cívica. A história colocará esses anos 90 no seu lugar.

E isto leva-me à terceira conclusão que tirei após ver a expulsão do famigerado Paulo Vinicius e as declarações de António Salvador e Vítor Pereira: a de que estamos a assistir à rotineira e anual fase da mistificação do eventual título do Benfica.

Não é difícil de identificar. Acontece todos os anos em que é preciso acontecer, e acontece sempre por esta altura - que não se localiza no tempo mas na classificação: é sempre que o Benfica está a três ou menos pontos que o Porto.

Quando a coisa ainda não está certa, o Porto  monta o seu caso – é uma questão cultural instituída, que se espalhou, por osmose aos seus aliados (neste momento o Braga, noutros, por exemplo, o Guimarães, quase sempre o Sporting, e respectivos cães-de-fila na imprensa). Aproveita um ou dois casos em que o Benfica é, lícita ou ilicitamente, favorecido, e cria um discurso que ou, por um lado, é justificativo da eventual derrota no campeonato, ou, preferivelmente, ajuda a evitar essa derrota. É o que o Porto espera que aconteça em Braga: que o árbitro do jogo, sentindo-se pressionado pela opinião pública e pela suspeição (que não precisa de ter razões para existir para produzir efeitos), decida contra o Benfica nos vários momentos em que terá de agir sobre pressão, e que isso venha a valer uma vitória ou, pelo menos, um empate ao Braga, mas sobretudo, ao Porto.

Os mais novos não devem deixar-se impressionar. Desde o início dos anos 70, pelo menos, que, segundo os seus dirigentes e treinadores, o Porto não perde um campeonato que não seja por causa dos árbitros, e não há nenhum campeonato em que o Benfica não tenha sido beneficiado pelos árbitros. Isto é o bê-a-bá do futebol português. Está institucionalizado. Como tem dado resultados – porque o povo é estúpido, e os árbitros fazem parte do povo – todos os outros adoptaram o sistema, o que leva a algo que é trágico para o futebol português: que, nos últimos quarenta anos, não tenha havido, segundo as próprias pessoas que participam directamente no campeonato, um único campeão justo. Ou seja, que não tenha havido um campeão, apenas uma equipa que chegou ao fim de uma prova organizada pela FPF com mais pontos que as outras, signifique isso o que significar.

Eu gosto que assim seja.

Gosto que a premissa que deu início à chamada «era do dragão» tenha sido o de que o campeonato é um jogo sujo e viciado, e que essa premissa, por razões mais que justificadas, se tenha mantido até hoje.

Gosto que o Porto tenha tomado a opção de lançar lama sobre a glória do Benfica (na altura penta-finalista da Taça dos Campeões, e em que o que ficava de umas épocas para outras eram os jogadores, e não o(s) dirigente(s)) para a poder conquistar, porque, hoje, não há água que chegue, nem nunca haverá – por mais esforços que se façam nas salas de imprensa e nas redacções orquestradas para esse efeito – para lavar a suposta glória do Porto.

É um problema que se resolve a si próprio. Está resolvido desde a origem. O tempo passa. A glória é passageira. Hoje, já poucos benfiquistas se lembram dos tempos em que o Benfica andava a fazer a figura do Sporting, dos 13 anos a penar, como ninguém se lembra de que o Benfica foi bicampeão europeu. Sabe-se que foi, mas significa pouco para quem vive agora. Já pouca gente se lembra do primeiro Porto campeão europeu, ou do tão celebrado penta. É passado, e vai ficando cada vez mais passado. O que se mantém, contudo, é a lama.

Gosto que o Vítor Pereira insinue que o campeonato está a ser entregue pelos árbitros ao Benfica. Sempre que o faz, segue a linha histórica do Porto, segundo a qual o campeonato é uma coisa viciada. O que leva a que, sempre que o Porto ganha um campeonato, esteja, simplesmente, a ganhar uma coisa que admite ser viciada. Podem ser vinte, trinta ou quarenta. Enquanto a premissa for esta, a perversão é a mesma.

Para ser campeão, o Porto optou por queimar tudo. Tornou-se, então, campeão. De quê? De nada que valha a pena ganhar. De coisa nenhuma.

O preço da glória, para o Porto, é este. Pode tê-la, mas não pode limpá-la, porque foi o próprio Porto a querê-la suja, ao não admitir a derrota como uma coisa possível e limpa.

E daqui não há saída, por mais voltas que se dê. Será assim enquanto o Porto for campeão, quando o Benfica vier a ser campeão, quando o Sporting, o Boavista, o Braga ou o Moreirense forem campeões. Ao sugerirem que os dados estão viciados, todos os treinadores, dirigentes e jogadores continuam a cuspir no próprio prato onde vão ter de comer - pelo simples facto de não haver outro.

O verdadeiro triunfador do futebol português será aquele qu, não apenas venha a ganhar, mas que, ganhando o privilégio de impôr o discurso, venha a conseguir mudá-lo. O que implica aprender a perder. Algo incompatível com hegemonias artificiais.

Só no dia em que ocorrer uma epifania cívica e se perceber que andar a jogar um jogo viciado é mau para todos, sobretudo para os que o podem ganhar, é que o futebol português voltará a ter a elementar inocência que o tornará, novamente, algo de digno. Mas vai levar mais vinte anos.

Que o principal prejudicado desta imensa porcaria, historicamente, venha a ser a equipa que mais ganhou com ela, é apenas justo.

E ainda é mais justo que não seja concebível, para ninguém, que algum dia haja em Portugal um campeonato verdadeiramente limpo enquanto nele estiverem envolvidas quaisquer pessoas que tenham sido enlameadas pela coabitação com Jorge Nuno Pinto da Costa – incluindo todos os futuros dirigentes do Porto e dos outros clubes que tenham jogado com as regras que ele ditou.

Hoje, Pinto da Costa é a lama que não sai. E ainda bem.

sábado, 19 de janeiro de 2013

O Benfica-Porto que eu já vi cinquenta vezes


A proverbial boa vontade da nação benfiquista, a começar pelo seu representante oficioso (o jornal A Bola), fez do Benfica-Porto um jogo de dois momentos – a fífia do Artur e a defesa de Helton que levou a bola de Cardozo ao poste.

Quando o Benfica ganha dois jogos, em casa, ao Porto, em dez, e em cada um dos oito que não ganha se encontra «aquele momento» em que a coisa falhou, por azar ou azelhice, o que fica evidente, pela regularidade, é que a coisa não falhou por causa «daquele momento» mas precisamente por tudo o que se passou para além «daquele momento».

Se  o Artur não tivesse dado aquela fífia, ou se o Cardozo tivesse marcado aquele golo, o Benfica teria tido mais hipóteses de ganhar, mas a verdade (e a boa vontade dos benfiquistas, aqui, deve dar lugar à sensatez) é que, com 90 por cento de probabilidades, o Porto encontraria outra maneira de não perder aquele jogo.

Gosto de fazer previsões, pelo puro gozo de arriscar, e falho tantas vezes quantas as que acerto, mas quando previ que o Benfica encontraria o mesmo tipo de problemas que encontrou no ano anterior nem sequer era uma previsão. O risco de errar era tão pequeno que era mais uma certeza. O Porto joga com o Benfica, na Luz, da mesma maneira há 30 anos (que eu veja), e o Benfica joga com o Porto, na Luz, da mesma maneira há quatro. Quando o Benfica ganhou, perdeu ou empatou (e ganhou pouco) ao Porto, na Luz, nos últimos quatro anos, ganhou, perdeu ou empatou pelos mesmos motivos, que nada têm a ver com sorte – mesmo que a sorte possa intervir no desenrolar do jogo, como também é quase sempre o caso.

Mantenho o que já disse: que não é impossível, ao Benfica, com este estilo de jogo, ganhar oito jogos em dez ao Porto. Mas isso só é possível com jogadores muito melhores do que os que tem.

Vamos desmistificar esta história do Porto: o Porto, desde o tempo do Pedroto, foi construído para ser um Guimarães da Europa, e para competir, cá pelo burgo, com outro Guimarães da Europa (o Benfica), sendo que o Benfica, por atravessar um período de profunda crise na sua cultura de vitória, se transformou num Moreirense da Europa, estando agora a recuperar, sucessivamente, a sua dimensão.

Em Portugal, num ambiente viciado, ao Porto basta ser um Guimarães da Europa para ir ganhando quase tudo. Na Europa, joga com as armas que qualquer outro Guimarães da Europa vai usando para se manter na luta: um jogo disciplinado, certinho, a jogar no erro do adversário, feito a pensar em jogadores de classe média-média/alta – cuja principal capacidade seja a de manter a formatura a atacar e a defender, e jogar em equipa para colmatar lacunas individuais – e em treinadores pouco audaciosos cuja principal virtude seja a de conseguir fazer a transição do técnico anterior para o técnico seguinte com o mínimo de inovação, de forma a evitar retrocessos estruturais.

E isto chega para o Porto andar, constantemente, entre as 14 melhores equipas da Europa, o que lhe permite, depois, manter a superioridade em relação aos competidores internos que não têm as mesmas armas financeiras e a mesma experiência competitiva adquirida internacionalmente. Como o contexto europeu é menos viciado que o nacional, às vezes – normalmente quando coincidem um treinador melhorzinho, dois ou três jogadores melhorzinhos e um nível de concorrência inferior – o Porto consegue fazer o que um Guimarães, em Portugal, não consegue: ser o melhor no fim da época.

Mas, no quadro maior (considerando o topo de gama do futebol internacional), o Porto não é mais que uma equipa certinha, espremida até perto do máximo. Com grande regularidade, o Porto perde perante equipas com jogadores melhores, que não têm de inventar nada a não ser fazer o que fazem normalmente. E às vezes até é vulgarizado.

Este Benfica, é o contrário. É um Rio Ave da Europa a jogar à Real Madrid, mas com jogadores de Rio Ave, a quem acontece o que geralmente acontece aos Rio Aves quando jogam à Real Madrid com jogadores de Rio Ave: ganham com relativa facilidade às equipas da mesma dimensão (ou andam perto disso), porque têm o ascendente que advém do tipo de jogo mais audacioso; perdem quase sempre com os Guimarães da Europa, que têm um estilo de jogo mais cínico e cerebral, mais a pensar no resultado que na imagem, e que geralmente têm jogadores ligeiramente melhores (sendo que, ocasionalmente, podem ganhar) e perdem sempre com os Reais Madrid a sério, às vezes queixando-se da ingratidão da sorte, quando a verdade é que, a um Real Madrid, basta jogar q.b., mesmo fazendo o jogo parecer equilibrado, porque a classe superior dos seus jogadores resolve o assunto num minuto, na esmagadora maioria das vezes.

O estilo de jogo do Benfica é à grande da Europa – o estilo. O do Porto, não. Por isso é que, mesmo ganhando de vez em quando, o Porto não deixa marcas. Tal como um qualquer Lyon ou um qualquer Valência não as deixam. São equipas sem brilho, que jogam no falhanço dos adversários, de índole defensiva, feitas para não perder. Quando as outras equipas perdem, elas continuam de pé, e assim parece que ganham, quando, na verdade, se limitam a não perder – o que é diferente. São equipas que, culturalmente, representam muito pouco. Uma semana depois do Porto ser campeão da Europa com o Mourinho já ninguém se lembrava a não ser os portugueses.

O estilo de jogo que o Jesus pôs o Benfica a jogar, pelo contrário, se for colocado em prática por jogadores de classe superior, mesmo tendo sempre dificuldades em impor-se contra equipas da mesma igualha que tenham um registo mais cínico, cria uma memória. O risco é uma característica dos grandes. Só arriscando a liberdade se atinge a grandeza. Manter a segurança é típico dos que sobrevivem, mas não dos que lideram.

É claro que entre este Benfica e a grandeza se encontram os Jardéis, os Enzo Pérez, os Maxis Pereira, os Cardozos…

A superioridade do Porto, na Luz, não foi técnica. Os jogadores do Porto não são tecnicamente muito melhores, na generalidade, que os do Benfica (apesar de serem melhores, e por isso é que são mais caros). Parecem muito melhores porque o que se lhes pede é mais fácil – quer em qualidade quer em variedade.

A superioridade do Porto, na Luz, foi (e é sempre) posicional, porque a matriz de jogo do Porto é posicional.

Apesar de não parecer, o futebol é muito parecido com o râguebi que lhe deu origem. Aparentemente é muito aberto e aleatório, porque as suas duas linhas básicas se movimentam mais, em termos verticais, mas não o é – continua a ser um jogo territorial, condicionado pela colocação das balizas nas duas linhas de fundo, em que a posição da bola marca o ponto de choque entre as linhas, numa acção constantemente repetitiva. É um jogo muito mais técnico, porque é mais difícil controlar a bola com os pés do que com as mãos – e isso leva a que quem consiga fazer bem os gestos técnicos mais básicos invariavelmente ganhe vantagem –, mas continua a ser um jogo de choque, repetitivo, entre linhas, com a defesa a rechaçar o ataque, de uma maneira ou de outra, na esmagadora maioria dos embates.

O estilo de jogo «apoiado», como se costuma dizer do Porto, é um estilo que permite manter as linhas juntas apesar da bola. O Barcelona faz a mesma coisa, mas muito melhor, e é por isso que consegue pressionar imediatamente o jogador da bola quando a perde. Ocupando os espaços ao pé da bola, os jogadores adversários, se não estiverem preparados para a fazer sair daquele raio de vinte metros – geralmente porque não têm técnica nem sincronismo colectivo para isso – perdem-na, são forçados a recuar, a fazer faltas, e a jogar directo para os avançados (ou como disse, e com razão, o Vítor Pereira, de pontapé para a frente).

Ao Porto, bastou adiantar a sua linha média dez metros, de forma compacta, de maneira a tapar as linhas do primeiro e do segundo passe na faixa central (em termos de latitude aquela faixa que começa dez metros para lá da linha do meio-campo e acaba dez metros para cá de quem defende), para ganhar uma vantagem posicional que se transformou em vantagem territorial.

O Benfica não tem argumentos técnicos e tácticos para superar este tipo de defesa, seja com o Porto, com o Bayer Leverkussen ou com qualquer outra boa equipa europeia que a consiga executar de forma disciplinada.

Mas também não há grandes segredos em relação a como dar a volta a isto. Mesmo mantendo o estilo de jogo arriscado e, admita-se, pouco inteligente, que é o do Jesus, sem ser necessário mudar de registo, este Benfica teria, não digo vulgarizado, mas dominado o Porto se tivesse, na sua defesa, um jogador que conseguisse passar a bola para o miolo com segurança e se, nesse miolo, tivesse dois médios com categoria suficiente para jogar entre as linhas do Porto, capazes de receber e distribuir a bola sob pressão – com um ou dois defesas a uma distância de três/quatro metros – sem a perderem imediatamente por a passarem para o sítio errado ou tomarem a opção errada. E reparem que não estou a falar em Aimares ou em Carlos Martins. Esses não conseguem. Pensam, às vezes até vêem a jogada, mas não a conseguem executar.

Bastaria isto para, mesmo perdendo muitas bolas no ataque em jogadas de sucesso improvável (como é timbre dos seus jogadores), o Benfica desmantelar o jogo posicional do Porto, obrigá-lo a recuar as linhas, fazê-lo perder a vantagem territorial e, por jogar mais depressa com a bola perto da baliza – como é que surgiram os golos do Benfica? –, marcar golos, impedir o Porto de os marcar, e ganhar o jogo.

O Benfica-Porto que eu vi foi isto. O Braga-Benfica também vai ser – o que não quer dizer que o resultado venha a ser o mesmo, porque, mesmo tendo sido isto, o Benfica teve uma hipótese real de vencer o jogo, e o Porto tem melhores jogadores que o Braga.

A verdadeira questão que deve intrigar os benfiquistas não é se o Porto é isto ou aquilo, porque  o Porto é a mesma coisa há 30 anos, nunca conseguirá ser outra e ganha-se ao Porto da mesma maneira que se ganha a qualquer outro Porto – sendo melhor física, técnica e tacticamente. É, sabendo que o que separa o Benfica dos seus objectivos é apenas ganhar ao Porto, se este Benfica do Jesus, e com o Jesus, conseguirá vir a ser aquele Benfica que o do Jesus ainda não conseguiu ser.

E, com isto, não estou necessariamente a dizer que não.

Mas isso tem de ficar para a próxima, porque a prosa já vai longa.

quinta-feira, 17 de janeiro de 2013

Pedro Proença tem de ser ouvido


Já vi o Benfica-Porto, e deixarei a minha perspectiva sobre o jogo para este fim-de-semana, porque, neste momento, um Benfica-Porto é mais que um jogo, e tem demasiadas implicações no futuro de qualquer uma das equipas, pelo que merece alguma ponderação suplementar.

No entanto ter visto o jogo, nomeadamente a forma como acabou, e ler, hoje, as declarações do Lucho González, suscita-me questões.

Diz Lucho que algumas pessoas se contentam com um ponto, mas eles, os do Porto, não – sendo que só sobra outra equipa… - e que se devia investigar a razão por que o melhor árbitro do Mundo não apitou o jogo.

Devo dizer, a este respeito, especificamente, que a IHHFFHFHFFHS – que foi a entidade oficial que considerou o Sporting a melhor equipa portuguesa da época passada (voltando a provar que os números são uma batata) – voltou a pecar por defeito. Pedro Proença não foi apenas o melhor árbitro do Mundo. Tornou-se, também, no melhor árbitro português de todos os tempos, graças à brilhantina e a um emprego na advocacia que lhe permitirá arrecadar pecúlio e prestígio suficientes para não ter de fazer como o primeiro grande arbitro português, o grande António Garrido, que se viu obrigado a fazer-se avençado como conselheiro do Futebol Clube do Porto para assuntos de arbitragem.

A primeira parte da conversa de Lucho deixa-me curioso, porque, aos 88 minutos do jogo da Luz, não só vi o treinador do Porto a fazer substituições para queimar tempo como o vi a ele próprio, Lucho González, a passo, a ir entregar a braçadeira de capitão a Helton antes de ser substituído por Castro, esgotando o pouco tempo que a sua equipa («sempre superior») tinha para marcar o golo da vitória.

Note-se, apesar do défice que o Porto tem para a posição, estranhamente, dois minutos antes, quando entrou a substituir Varela, o defesa-central Abdoulaye não foi jogar a ponta-de-lança.

Há, pelo menos, duas pessoas que, como demonstram as suas acções, ficaram contentes com o ponto na Luz: o capitão do Porto e o treinador do Porto. Certamente que Vítor Pereira foi confrontado com esta situação colocada pelo seu jogador, pelos jornalistas do Porto, durante a conferência de imprensa em que fingiu que pediu desculpa ao Jesus, perante a profunda admiração desses jornalistas. (Nunca consegui confiar em quem não é capaz de pedir desculpa. É um problema de carácter que tenho.)

A segunda parte da conversa de Lucho com os jornalistas do Porto deixou-me ansioso, porque abre a possibilidade do melhor árbitro do Mundo para a IHHHFHFHHFS – como foi ampla e auspiciosamente destacado na primeira página do jornal O Jogo nas vésperas da partida do passado fi-de-semana – vir a ser ouvido, do alto do seu hoje intocado e incontornável prestígio, pelos jornalistas, não só do Porto como dos que trabalham para os jornais com vista à informação do público.

Porque o melhor árbitro do Mundo tem coisas importantes para dizer.

Eis a transcrição de uma parte da entrevista dada por Pedro Proença ao Record, há algumas semanas:

«Record – A sua geração fica marcada pelo Processo Apito Dourado?

Pedro Proença – Muito marcada. Mas há que ter em conta a forma como o sector deu uma resposta positiva. Mexeu-se em algo que as entidades judiciais não souberam lidar. Não souberam penalizar quem tinha de o ser. A montanha pariu um rato, como se costuma dizer. Há escutas telefónicas que não foram penalizadas, vemos factos que são conhecidos de toda a gente e nada aconteceu.

Record – O ónus ficou com os árbitros?

Pedro Proença – Sim. O problema é que não se vêem resultados e fica no ar a suspeição. Ainda por cima houve factos reais. Pior é que uma má decisão é uma não-decisão. Neste caso, houve uma não-decisão. Criaram-se expectativas em relação a determinadas situações e ninguém foi punido.»

Temos, aqui, uma janela de oportunidade.

Por um lado, há grande preocupação, no Porto, neste momento, pelo «bem do futebol». Foi o próprio treinador campeão nacional quem o disse, ao defender a expulsão de Maxi Pereira, Matic, João Moutinho e Fernando, e a necessidade de se acertar na marcação de fora-de-jogo – sendo que a comoção, compreensivelmente, o levou a esquecer-se de referir os seus jogadores ou a ocasião em que ganhou o campeonato nacional com um golo em fora-de-jogo a cinco minutos do fim, frente a este mesmo adversário, no mesmo campo.

Por outro, quem fala é um árbitro a quem Jorge Nuno Pinto da Costa – pelo que se lê em todos os jornais um cidadão exemplar, o maior dirigente português de sempre e alguém que percebe todas as linhas com que se cose o sucesso no futebol – reconhece toda a honestidade, verticalidade e decência. (E eu também reconheço, convém dizê-lo, já agora).

A bem do futebol, Pinto da Costa, Vítor Pereira, toda a comunidade futebolística acima do Mondego e abaixo do Mondego, vão querer ouvir o melhor árbitro do Mundo sobre o caso de corrupção que castigou o Boavista e o Gondomar, e saber:

- quem tinha de ser penalizado;

- de que escutas telefónicas está a falar;

- quais são os factos reais de que Pedro Proença fala;

- que decisão era esperada.

Deixar passar esta oportunidade, propiciada pelo principal representante da classe da arbitragem em Portugal – não só de hoje mas de sempre, refira-se – colocaria em causa a fiabilidade dos resultados desportivos alcançados pelos eventuais envolvidos durante o seu percurso no desporto.

Não podia haver pior para o futebol que permitir que se instalasse a sombra da desonestidade.

sábado, 12 de janeiro de 2013

A diferença mínima que é toda a diferença


Há duas razões para Vítor Pereira adoptar uma estratégia de ataque psicológico antes do jogo do próximo domingo.

A primeira é a consciência de que, neste momento, o único factor que pode fazer o Porto ganhar ou, até, não perder na Luz, e que ele pode minimamente controlar, é o medo, por parte dos jogadores do Benfica, de voltarem a perder sem saberem como é que perderam. As derrotas do Benfica na Luz, frente ao Porto, nos últimos anos, têm de deixar uma marca psicológica traumática nesta equipa do Benfica, que gera desconfiança. A equipa está psicologicamente forte, mas este é um jogo diferente – provavelmente o único jogo (defrontar o Porto na Luz) que pode pôr os jogadores a pensar em demasia nas suas próprias possibilidades de ganhar fazendo o seu jogo normal).

A segunda é a consciência de que o jogo é decisivo. Não é decisivo para o Porto, mas é decisivo para o Benfica. A conquista do título, para o Benfica, passa por ganhar este jogo. Sejamos claros: num campeonato em que as duas equipas da frente têm dois empates em treze jogos, os resultados nos confrontos directos valem o título – mesmo que seja indirectamente. Uma derrota do Benfica na Luz, sabendo que o Porto praticamente não perde pontos, e que têm de ir jogar a Braga e às Antas na segunda volta (às Antas na penúltima jornada), ainda por cima com o terceiro classificado a 10 (?) pontos de distância, faria toda a gente tomar como certo que a época se resumiria ao apuramento para a Champions, em ganhar a Taça de Portugal e em ir longe na Liga Europa, com a consequente despressurização e perda de pontos nos jogos do campeonato (que vão ser muito mais difíceis na segunda volta, como já devem ter reparado no calendário).

Dito isto, se fosse feito um inquérito às pessoas neutras (ou seja, não-doentes) deste país sobre o resultado, 90 por cento apostaria num empate.

Só há uma coisa que me faz comichão atrás da orelha neste cenário de equilíbrio. É uma lógica um bocado invertida, mas, no entanto, parece-me que não penso desta maneira por ser benfiquista.

É-me difícil ver esta equipa do Porto a conquistar um tricampeonato – algo que, apesar dos últimos 30 anos de máfia, aconteceu poucas vezes, e que, quando aconteceu, aconteceu em cenários diferentes, em que o equilíbrio entre os candidatos ao título não tinha nada a ver com o que existe hoje. Aliás, nunca vi o Porto a ser tricampeão este ano. Além da questão estatística, o resto: a qualidade de jogo da equipa (pior do que o ano passado, já com o Lucho, na minha opinião, o que atesta bem da qualidade do seu treinador), a boa carreira na Liga dos Campeões (que é sinónimo, em 95 por cento das vezes, a uma descompensação no campeonato, que ainda não se viu mas se vai ver), a acomodação evidente em alguns jogos da Liga. Já vi o Porto ser campeão muitas vezes, infelizmente, mas não me lembro de ver um Porto tão fraco, em termos de jogo, como o que seria este ano se viesse a ser campeão.

Ora, para não ser campeão, também não vejo outro resultado possível neste domingo que não seja a vitória do Benfica.

O Benfica não tem melhor equipa que o ano passado, nem está a jogar melhor. A primeira metade da época foi de grande nível em termos de confiança e forma física. Em termos de jogo, o Benfica que vai defrontar o Porto e o mesmo, vai ter exactamente os mesmos problemas perante outra equipa que vai ser exactamente igual ao que era há um ano. A única e eventualmente fundamental diferença para o ano passado é que, há um ano, a equipa do Benfica chegava ao jogo com o Porto de rastos quer física quer mentalmente, depois de duas semanas de maus resultados e de um regresso de férias de Natal desastroso, enquanto o Porto tinha os jogadores relativamente descansados devido à grande rotação durante a primeira metade da época. Mesmo com a clara diferença física, que foi evidente no 2-2, em que os jogadores do Benfica simplesmente não conseguiram recuperar a tempo, o Porto só ganhou na Luz com um golo em fora-de-jogo, a poucos minutos do fim, e (se não me engano) já a jogar contra 10.

Neste momento, e referindo que o Porto continua a ter uma vantagem funcional nos jogos com o Benfica, que decorre do seu tipo de jogo mais colectivo, feito para dar resultados nos jogos de grande pressão, em que o erro é mais caro, só vejo duas maneiras do Porto ganhar na Luz:

- Se a equipa do Benfica entrar derrotada, a pensar nos resultados dos últimos dois anos, e se acobardar – o que é um cenário bem possível, porque a esta equipa do Benfica falta carácter de campeão;

- Ou se tiver a sorte do jogo (um vermelho que o árbitro não consiga evitar mostrar, um golo numa altura crucial, qualquer coisa de anormal que afecte o desenrolar normal do jogo).

É possível, e não seria nada de extraordinário.

Não acredito que aconteça. Objectivamente, sem superstições nem receios, não vejo este Porto a ganhar na Luz a este Benfica, com Matic, Lima e sem Emerson, e com força nas pernas e na cabeça para recuperar desvantagens, como tem acontecido este ano. Este é um factor muito sintomático do amadurecimento da equipa do Benfica. Só uma equipa a partir de um certo nível de maturidade e qualidade colectiva é que consegue virar jogos, sem entrar em pânico. Ainda não vi esta equipa do Benfica entrar em pânico este ano. Não joga muito (joga depressa, o que é diferente), mas não entra em pânico. Nesse sentido, a ser o Benfica o campeão, o jogo de Alvalade terá sido decisivo, não só pelo resultado como pelo desenrolar do jogo. É o tipo de jogo em que há pouco a ganhar e tudo a perder. O Benfica não perdeu. Veremos se, para o Porto, será assim tão fácil.

O resultado natural, neste domingo, seria o empate a um golo, ou a dois. Parece-me, no entanto, que vai acontecer o contrário do que aconteceu o ano passado: o golinho fora do plano, nos últimos minutos, vai cair para o lado do Benfica. Vai ser coerente com o cenário de grande equilíbrio entre as duas equipas de que se vai falar daqui a uns anos, relativamente a este período, e que começou na última época. As diferenças serão minímas e os dois clubes terão histórias muito semelhantes para contar, parecendo tiradas a papel químico.

 De qualquer forma, não vou ver o jogo a não ser daqui a uma semana. Vai ser uma experiência. Depois de saber  resultado e tudo o que se disse, vou ver o jogo pela primeira vez, sem nervos, sem pressão, e fazer uma leitura distanciada. Amanhã, nem sequer leio jornais. Tenho três exames nos próximos seis dias, o primeiro dos quais às 8.15 de segunda-feira. A última coisa de que preciso é de um Benfica-Porto a dar-me cabo da noite. Às vezes (e esta é a primeira vez) é preciso saber pôr a doença no sítio.