Hoje ainda não me apetece falar de coisas sérias. Ando em
desmame do stress dos exames e desde a semana passada que praticamente só falo
aqui de corrupção, corruptos e fruta fora de época. Apetece-me disparatar um
bocado.
Em Aveiro aconteceu um daqueles fenómenos inexplicáveis em
que o futebol é fértil: o Braga, a jogar com o Paulo Vinicius e com onze
jogadores nos últimos dez minutos – por via de nenhum dos seus centrais ter
sido escandalosamente expulso depois de um avançado do Beira-Mar ter tropeçado
na sua própria perna de propósito quando ia sozinho para a baliza –, o Braga,
dizia, levou três golos do Beira-Mar.
Como dizia o Gabriel Alves, o futebol é isto. Imprevisível.
Em Vila do Conde, o Sporting do Joãozinho fez o seu segundo
melhor jogo «da era Jesualdo Ferreira» e acabou com o mesmo resultado que teria
acabado o «melhor jogo da era Jesualdo Ferreira», uma semana antes, frente ao
Vitória de Guimarães, se o Xistra (sempre tão caseiro…) não tivesse fanado ao
Vitória um penálti do tamanho do Marquês de Pombal no último minuto.
Deve notar-se, aqui, duas coisas.
Primeiro, que a boa vontade com que esse lance foi tratado e
rapidamente esquecido nos leva a crer que, de facto, o caso do Sporting é,
actualmente, de solidariedade nacional, semelhante ao das avalanches da Madeira
ou do temporal de há quinze dias. Vamos ver se, daqui por mais ou menos um mês,
quando o Porto vier jogar a Alvalade se mantém o espírito de salvação do
Sporting ou se, em sinal de gratidão, se abrirão avenidas de boa vontade para
Izmailov, Liedson, Moutinho, Varela e companhia aí passarem com facilidade uma
etapa potencialmente decisiva para o título.
Há muitas maneiras de ser enganado, mas ser enganado
sucessivamente pelo Porto como o Sporting é enganado e reagir como o Sporting
reage faz-me lembrar aquela anedota do caçador e do urso.
Resumidamente, o caçador anda a tentar caçar um urso. O urso
apanha-o sempre, baixa-lhe as calças, diz-lhe «tu és mauzinho», e arromba-o
todo.
A certa altura, o caçador volta a insistir, o urso volta a
apanhá-lo e chega a uma conclusão óbvia: «Tu não és mauzinho, gostas é de levar
no rabinho.»
Do jogo de Vila do Conde ficou-me a confirmação de que o
miúdo Oblak tem um instinto para a baliza que raramente vi num guarda-redes de
20 anos e que o outro miúdo Diego Lopes tem atrevimento e futebol nos pés
suficientes para, no Benfica ou noutro Benfica qualquer, ser um jogador a
sério.
A talho de foice, li, em qualquer lado, um comentário
indignado de um sportinguista a dizer que o Adrien devia ter sido convocado para
a selecção em vez do André Gomes. Quando acabei de tossir, limitei-me a
concluir que, com 19 anos, o André Gomes tem mais futebol no pé direito do que
o que o Adrien vai ter no corpo inteiro quando tiver 30. E o Adrien até é bom
jogador.
Hoje também percebi, finalmente, a lógica do número 89 do
André Gomes. 8, 9…10, quando o Aimar se reformar. É a progressão natural.
Devo dizer que não fiquei minimamente preocupado com a
«ausência» do Benfica no mercado de Janeiro. O jogador de que o Benfica precisa
não se compra em Janeiro, em saldos. Compra-se com tempo, no verão, tal como
foram comprados o Javi Garcia, o Witsel, o Garay, o Ola John, o Matic, e
praticamente todos os que fazem a diferença. Os que vêm em Janeiro, regra
geral, só vêm fazer despesa. Também não acho que vá ser por falta de um
médio-centro que o Benfica não vá ser campeão, que deixe de ganhar a Taça ou
que não chegue às meias-finais da Liga Europa. Para isso, considerando a
concorrência, os que la estão chegam, desde que sejam aproveitados.
Para ser campeão, o Benfica precisa de chegar a Março com os
seus jogadores fundamentais – Luisão, Garay, Matic, Aimar, Gaitán, Salvio e
Cardozo – a produzirem perto dos 100 por cento. Se isso não acontecer, não é
por chegar mais um titular que o Benfica se safa.
O Bruno César não faz falta nenhuma – não é, nem nunca foi
outra coisa senão um tique de novo-riquismo do Jesus, e o facto de aparecer
algumas vezes no jornal, por jogar no Benfica, não invalida esta evidência – e
o Nolito, apesar de eu continuar a achar que o Jesus não o soube aproveitar,
também não, simplesmente porque nunca foi um jogador do Jesus mas do Rui Costa.
O Benfica tem o Gaitán e o Ola John, que jogam nos dois
flancos, o Salvio, o Urreta, ao que parece, está a evoluir, e o Miguel Rosa, apesar
de não ser grande espada e ser um jogador relativamente burro (até se enquadra
bem…), tem rodagem e, com a moral que leva se for chamado à equipa principal,
até é menino para decidir um jogo e dar uns pontintos.
Aquilo que o Benfica conseguiu foi, na verdade, equilibrar o
plantel, ao retirar-lhe os excessos e subindo a responsabilidade aos jogadores
que lá estão.
Repito: neste campeonato, em que o sexto leva 4-0 do
primeiro, em casa, sem que o primeiro tenha de meter a quarta, este plantel
chega. Se o Benfica vier a perder pontos inesperados não será por falta de
jogadores, mas por falta de concentração ou por opções erradas por parte do
Jesus – jogar com o melhor onze com o Leverkussen em vez de guardar jogadores
para o campeonato, por exemplo, como aconteceu no ano passado antes do jogo em
Coimbra, em que uma vitória teria dado o título ao Benfica.
Para mim, com o Leverkussen, é o jogo ideal para dar minutos
ao Aimar, ao Luisinho, ao André Gomes, ao Urreta, ao Rodrigo, ao André Almeida.
Para ninguém ter dúvidas nenhumas (começando pelos jogadores) sobre quais são
as prioridades da época.
Aliás, para acabar com a minha habitual nota catastrofista,
e após ver o desempenho da equipa nas últimas semanas, não tenho dúvidas
nenhumas de que se o Benfica não for campeão esta época será pela exacta mesma
razão que não foi na última: porque não quer. E como não quer, não vai fazer o
suficiente por isso.
Quando há nem que seja uma hipótese em vinte do campeonato
ser decidido «à Calabote», por goal-average, não se ganha 2-1 ao Moreirense
quando se pode ganhar por 5-1, não se dá 3 ao Setúbal quando se pode dar 7 (e
resolver logo, de uma vez por todas, a questão do goal-average), não se ganha
2-1 ao Braga, de aflitos, quando se tem a hipótese de fazer um resultado histórico
– que é o que teria acontecido se o Benfica tem sabido jogar a segunda parte
frente a este Braga.
Hoje, os jogadores do Benfica estavam a guardar-se
exactamente para quê, que eu não percebo? Para o jantar? Para a folga?
O Aimar, por exemplo, entrou exactamente para quê? Para
mostrar a camisola? Se foi para ganhar ritmo, o ritmo a que ele jogou tem é de
ser perdido, porque, assim, nem para o Qatar serve.
Certo, não era preciso.
Daqui a umas semaninhas, quando me vierem falar de árbitros,
voltamos a conversar sobre o que é preciso.
Mas não quero acabar com azedume. Afinal, o Benfica até
ganhou. Prefiro salientar uma pequena nota que não é minimamente de desprezar
quando se conjecturam cenários futuros de igual sucesso desportivo entre Benfica e
Porto – o que não acontece neste momento. Se se pegasse na assistência que
esteve ontem na Luz – num domingo à noite, no princípio de Fevereiro (e quem
tem de pagar as contas da casa sabe ao que eu me refiro, porque os dois
primeiros meses do ano, a seguir ao Natal, são sempre os piores), com um frio
do caraças, frente a um Vitória de Setúbal fraquíssimo, com o Benfica sem ganhar nada de jeito há dois anos – e se a transplantasse
para as Antas, o Porto teria feito uma das melhores casas da época.
P.S. - Aliás, fui confirmar, e esta época o Porto ainda não conseguiu meter 39 mil espectadores em casa em nenhum jogo. Nem com o Sporting.
P.S. - Aliás, fui confirmar, e esta época o Porto ainda não conseguiu meter 39 mil espectadores em casa em nenhum jogo. Nem com o Sporting.