sábado, 19 de janeiro de 2013

O Benfica-Porto que eu já vi cinquenta vezes


A proverbial boa vontade da nação benfiquista, a começar pelo seu representante oficioso (o jornal A Bola), fez do Benfica-Porto um jogo de dois momentos – a fífia do Artur e a defesa de Helton que levou a bola de Cardozo ao poste.

Quando o Benfica ganha dois jogos, em casa, ao Porto, em dez, e em cada um dos oito que não ganha se encontra «aquele momento» em que a coisa falhou, por azar ou azelhice, o que fica evidente, pela regularidade, é que a coisa não falhou por causa «daquele momento» mas precisamente por tudo o que se passou para além «daquele momento».

Se  o Artur não tivesse dado aquela fífia, ou se o Cardozo tivesse marcado aquele golo, o Benfica teria tido mais hipóteses de ganhar, mas a verdade (e a boa vontade dos benfiquistas, aqui, deve dar lugar à sensatez) é que, com 90 por cento de probabilidades, o Porto encontraria outra maneira de não perder aquele jogo.

Gosto de fazer previsões, pelo puro gozo de arriscar, e falho tantas vezes quantas as que acerto, mas quando previ que o Benfica encontraria o mesmo tipo de problemas que encontrou no ano anterior nem sequer era uma previsão. O risco de errar era tão pequeno que era mais uma certeza. O Porto joga com o Benfica, na Luz, da mesma maneira há 30 anos (que eu veja), e o Benfica joga com o Porto, na Luz, da mesma maneira há quatro. Quando o Benfica ganhou, perdeu ou empatou (e ganhou pouco) ao Porto, na Luz, nos últimos quatro anos, ganhou, perdeu ou empatou pelos mesmos motivos, que nada têm a ver com sorte – mesmo que a sorte possa intervir no desenrolar do jogo, como também é quase sempre o caso.

Mantenho o que já disse: que não é impossível, ao Benfica, com este estilo de jogo, ganhar oito jogos em dez ao Porto. Mas isso só é possível com jogadores muito melhores do que os que tem.

Vamos desmistificar esta história do Porto: o Porto, desde o tempo do Pedroto, foi construído para ser um Guimarães da Europa, e para competir, cá pelo burgo, com outro Guimarães da Europa (o Benfica), sendo que o Benfica, por atravessar um período de profunda crise na sua cultura de vitória, se transformou num Moreirense da Europa, estando agora a recuperar, sucessivamente, a sua dimensão.

Em Portugal, num ambiente viciado, ao Porto basta ser um Guimarães da Europa para ir ganhando quase tudo. Na Europa, joga com as armas que qualquer outro Guimarães da Europa vai usando para se manter na luta: um jogo disciplinado, certinho, a jogar no erro do adversário, feito a pensar em jogadores de classe média-média/alta – cuja principal capacidade seja a de manter a formatura a atacar e a defender, e jogar em equipa para colmatar lacunas individuais – e em treinadores pouco audaciosos cuja principal virtude seja a de conseguir fazer a transição do técnico anterior para o técnico seguinte com o mínimo de inovação, de forma a evitar retrocessos estruturais.

E isto chega para o Porto andar, constantemente, entre as 14 melhores equipas da Europa, o que lhe permite, depois, manter a superioridade em relação aos competidores internos que não têm as mesmas armas financeiras e a mesma experiência competitiva adquirida internacionalmente. Como o contexto europeu é menos viciado que o nacional, às vezes – normalmente quando coincidem um treinador melhorzinho, dois ou três jogadores melhorzinhos e um nível de concorrência inferior – o Porto consegue fazer o que um Guimarães, em Portugal, não consegue: ser o melhor no fim da época.

Mas, no quadro maior (considerando o topo de gama do futebol internacional), o Porto não é mais que uma equipa certinha, espremida até perto do máximo. Com grande regularidade, o Porto perde perante equipas com jogadores melhores, que não têm de inventar nada a não ser fazer o que fazem normalmente. E às vezes até é vulgarizado.

Este Benfica, é o contrário. É um Rio Ave da Europa a jogar à Real Madrid, mas com jogadores de Rio Ave, a quem acontece o que geralmente acontece aos Rio Aves quando jogam à Real Madrid com jogadores de Rio Ave: ganham com relativa facilidade às equipas da mesma dimensão (ou andam perto disso), porque têm o ascendente que advém do tipo de jogo mais audacioso; perdem quase sempre com os Guimarães da Europa, que têm um estilo de jogo mais cínico e cerebral, mais a pensar no resultado que na imagem, e que geralmente têm jogadores ligeiramente melhores (sendo que, ocasionalmente, podem ganhar) e perdem sempre com os Reais Madrid a sério, às vezes queixando-se da ingratidão da sorte, quando a verdade é que, a um Real Madrid, basta jogar q.b., mesmo fazendo o jogo parecer equilibrado, porque a classe superior dos seus jogadores resolve o assunto num minuto, na esmagadora maioria das vezes.

O estilo de jogo do Benfica é à grande da Europa – o estilo. O do Porto, não. Por isso é que, mesmo ganhando de vez em quando, o Porto não deixa marcas. Tal como um qualquer Lyon ou um qualquer Valência não as deixam. São equipas sem brilho, que jogam no falhanço dos adversários, de índole defensiva, feitas para não perder. Quando as outras equipas perdem, elas continuam de pé, e assim parece que ganham, quando, na verdade, se limitam a não perder – o que é diferente. São equipas que, culturalmente, representam muito pouco. Uma semana depois do Porto ser campeão da Europa com o Mourinho já ninguém se lembrava a não ser os portugueses.

O estilo de jogo que o Jesus pôs o Benfica a jogar, pelo contrário, se for colocado em prática por jogadores de classe superior, mesmo tendo sempre dificuldades em impor-se contra equipas da mesma igualha que tenham um registo mais cínico, cria uma memória. O risco é uma característica dos grandes. Só arriscando a liberdade se atinge a grandeza. Manter a segurança é típico dos que sobrevivem, mas não dos que lideram.

É claro que entre este Benfica e a grandeza se encontram os Jardéis, os Enzo Pérez, os Maxis Pereira, os Cardozos…

A superioridade do Porto, na Luz, não foi técnica. Os jogadores do Porto não são tecnicamente muito melhores, na generalidade, que os do Benfica (apesar de serem melhores, e por isso é que são mais caros). Parecem muito melhores porque o que se lhes pede é mais fácil – quer em qualidade quer em variedade.

A superioridade do Porto, na Luz, foi (e é sempre) posicional, porque a matriz de jogo do Porto é posicional.

Apesar de não parecer, o futebol é muito parecido com o râguebi que lhe deu origem. Aparentemente é muito aberto e aleatório, porque as suas duas linhas básicas se movimentam mais, em termos verticais, mas não o é – continua a ser um jogo territorial, condicionado pela colocação das balizas nas duas linhas de fundo, em que a posição da bola marca o ponto de choque entre as linhas, numa acção constantemente repetitiva. É um jogo muito mais técnico, porque é mais difícil controlar a bola com os pés do que com as mãos – e isso leva a que quem consiga fazer bem os gestos técnicos mais básicos invariavelmente ganhe vantagem –, mas continua a ser um jogo de choque, repetitivo, entre linhas, com a defesa a rechaçar o ataque, de uma maneira ou de outra, na esmagadora maioria dos embates.

O estilo de jogo «apoiado», como se costuma dizer do Porto, é um estilo que permite manter as linhas juntas apesar da bola. O Barcelona faz a mesma coisa, mas muito melhor, e é por isso que consegue pressionar imediatamente o jogador da bola quando a perde. Ocupando os espaços ao pé da bola, os jogadores adversários, se não estiverem preparados para a fazer sair daquele raio de vinte metros – geralmente porque não têm técnica nem sincronismo colectivo para isso – perdem-na, são forçados a recuar, a fazer faltas, e a jogar directo para os avançados (ou como disse, e com razão, o Vítor Pereira, de pontapé para a frente).

Ao Porto, bastou adiantar a sua linha média dez metros, de forma compacta, de maneira a tapar as linhas do primeiro e do segundo passe na faixa central (em termos de latitude aquela faixa que começa dez metros para lá da linha do meio-campo e acaba dez metros para cá de quem defende), para ganhar uma vantagem posicional que se transformou em vantagem territorial.

O Benfica não tem argumentos técnicos e tácticos para superar este tipo de defesa, seja com o Porto, com o Bayer Leverkussen ou com qualquer outra boa equipa europeia que a consiga executar de forma disciplinada.

Mas também não há grandes segredos em relação a como dar a volta a isto. Mesmo mantendo o estilo de jogo arriscado e, admita-se, pouco inteligente, que é o do Jesus, sem ser necessário mudar de registo, este Benfica teria, não digo vulgarizado, mas dominado o Porto se tivesse, na sua defesa, um jogador que conseguisse passar a bola para o miolo com segurança e se, nesse miolo, tivesse dois médios com categoria suficiente para jogar entre as linhas do Porto, capazes de receber e distribuir a bola sob pressão – com um ou dois defesas a uma distância de três/quatro metros – sem a perderem imediatamente por a passarem para o sítio errado ou tomarem a opção errada. E reparem que não estou a falar em Aimares ou em Carlos Martins. Esses não conseguem. Pensam, às vezes até vêem a jogada, mas não a conseguem executar.

Bastaria isto para, mesmo perdendo muitas bolas no ataque em jogadas de sucesso improvável (como é timbre dos seus jogadores), o Benfica desmantelar o jogo posicional do Porto, obrigá-lo a recuar as linhas, fazê-lo perder a vantagem territorial e, por jogar mais depressa com a bola perto da baliza – como é que surgiram os golos do Benfica? –, marcar golos, impedir o Porto de os marcar, e ganhar o jogo.

O Benfica-Porto que eu vi foi isto. O Braga-Benfica também vai ser – o que não quer dizer que o resultado venha a ser o mesmo, porque, mesmo tendo sido isto, o Benfica teve uma hipótese real de vencer o jogo, e o Porto tem melhores jogadores que o Braga.

A verdadeira questão que deve intrigar os benfiquistas não é se o Porto é isto ou aquilo, porque  o Porto é a mesma coisa há 30 anos, nunca conseguirá ser outra e ganha-se ao Porto da mesma maneira que se ganha a qualquer outro Porto – sendo melhor física, técnica e tacticamente. É, sabendo que o que separa o Benfica dos seus objectivos é apenas ganhar ao Porto, se este Benfica do Jesus, e com o Jesus, conseguirá vir a ser aquele Benfica que o do Jesus ainda não conseguiu ser.

E, com isto, não estou necessariamente a dizer que não.

Mas isso tem de ficar para a próxima, porque a prosa já vai longa.

quinta-feira, 17 de janeiro de 2013

Pedro Proença tem de ser ouvido


Já vi o Benfica-Porto, e deixarei a minha perspectiva sobre o jogo para este fim-de-semana, porque, neste momento, um Benfica-Porto é mais que um jogo, e tem demasiadas implicações no futuro de qualquer uma das equipas, pelo que merece alguma ponderação suplementar.

No entanto ter visto o jogo, nomeadamente a forma como acabou, e ler, hoje, as declarações do Lucho González, suscita-me questões.

Diz Lucho que algumas pessoas se contentam com um ponto, mas eles, os do Porto, não – sendo que só sobra outra equipa… - e que se devia investigar a razão por que o melhor árbitro do Mundo não apitou o jogo.

Devo dizer, a este respeito, especificamente, que a IHHFFHFHFFHS – que foi a entidade oficial que considerou o Sporting a melhor equipa portuguesa da época passada (voltando a provar que os números são uma batata) – voltou a pecar por defeito. Pedro Proença não foi apenas o melhor árbitro do Mundo. Tornou-se, também, no melhor árbitro português de todos os tempos, graças à brilhantina e a um emprego na advocacia que lhe permitirá arrecadar pecúlio e prestígio suficientes para não ter de fazer como o primeiro grande arbitro português, o grande António Garrido, que se viu obrigado a fazer-se avençado como conselheiro do Futebol Clube do Porto para assuntos de arbitragem.

A primeira parte da conversa de Lucho deixa-me curioso, porque, aos 88 minutos do jogo da Luz, não só vi o treinador do Porto a fazer substituições para queimar tempo como o vi a ele próprio, Lucho González, a passo, a ir entregar a braçadeira de capitão a Helton antes de ser substituído por Castro, esgotando o pouco tempo que a sua equipa («sempre superior») tinha para marcar o golo da vitória.

Note-se, apesar do défice que o Porto tem para a posição, estranhamente, dois minutos antes, quando entrou a substituir Varela, o defesa-central Abdoulaye não foi jogar a ponta-de-lança.

Há, pelo menos, duas pessoas que, como demonstram as suas acções, ficaram contentes com o ponto na Luz: o capitão do Porto e o treinador do Porto. Certamente que Vítor Pereira foi confrontado com esta situação colocada pelo seu jogador, pelos jornalistas do Porto, durante a conferência de imprensa em que fingiu que pediu desculpa ao Jesus, perante a profunda admiração desses jornalistas. (Nunca consegui confiar em quem não é capaz de pedir desculpa. É um problema de carácter que tenho.)

A segunda parte da conversa de Lucho com os jornalistas do Porto deixou-me ansioso, porque abre a possibilidade do melhor árbitro do Mundo para a IHHHFHFHHFS – como foi ampla e auspiciosamente destacado na primeira página do jornal O Jogo nas vésperas da partida do passado fi-de-semana – vir a ser ouvido, do alto do seu hoje intocado e incontornável prestígio, pelos jornalistas, não só do Porto como dos que trabalham para os jornais com vista à informação do público.

Porque o melhor árbitro do Mundo tem coisas importantes para dizer.

Eis a transcrição de uma parte da entrevista dada por Pedro Proença ao Record, há algumas semanas:

«Record – A sua geração fica marcada pelo Processo Apito Dourado?

Pedro Proença – Muito marcada. Mas há que ter em conta a forma como o sector deu uma resposta positiva. Mexeu-se em algo que as entidades judiciais não souberam lidar. Não souberam penalizar quem tinha de o ser. A montanha pariu um rato, como se costuma dizer. Há escutas telefónicas que não foram penalizadas, vemos factos que são conhecidos de toda a gente e nada aconteceu.

Record – O ónus ficou com os árbitros?

Pedro Proença – Sim. O problema é que não se vêem resultados e fica no ar a suspeição. Ainda por cima houve factos reais. Pior é que uma má decisão é uma não-decisão. Neste caso, houve uma não-decisão. Criaram-se expectativas em relação a determinadas situações e ninguém foi punido.»

Temos, aqui, uma janela de oportunidade.

Por um lado, há grande preocupação, no Porto, neste momento, pelo «bem do futebol». Foi o próprio treinador campeão nacional quem o disse, ao defender a expulsão de Maxi Pereira, Matic, João Moutinho e Fernando, e a necessidade de se acertar na marcação de fora-de-jogo – sendo que a comoção, compreensivelmente, o levou a esquecer-se de referir os seus jogadores ou a ocasião em que ganhou o campeonato nacional com um golo em fora-de-jogo a cinco minutos do fim, frente a este mesmo adversário, no mesmo campo.

Por outro, quem fala é um árbitro a quem Jorge Nuno Pinto da Costa – pelo que se lê em todos os jornais um cidadão exemplar, o maior dirigente português de sempre e alguém que percebe todas as linhas com que se cose o sucesso no futebol – reconhece toda a honestidade, verticalidade e decência. (E eu também reconheço, convém dizê-lo, já agora).

A bem do futebol, Pinto da Costa, Vítor Pereira, toda a comunidade futebolística acima do Mondego e abaixo do Mondego, vão querer ouvir o melhor árbitro do Mundo sobre o caso de corrupção que castigou o Boavista e o Gondomar, e saber:

- quem tinha de ser penalizado;

- de que escutas telefónicas está a falar;

- quais são os factos reais de que Pedro Proença fala;

- que decisão era esperada.

Deixar passar esta oportunidade, propiciada pelo principal representante da classe da arbitragem em Portugal – não só de hoje mas de sempre, refira-se – colocaria em causa a fiabilidade dos resultados desportivos alcançados pelos eventuais envolvidos durante o seu percurso no desporto.

Não podia haver pior para o futebol que permitir que se instalasse a sombra da desonestidade.

sábado, 12 de janeiro de 2013

A diferença mínima que é toda a diferença


Há duas razões para Vítor Pereira adoptar uma estratégia de ataque psicológico antes do jogo do próximo domingo.

A primeira é a consciência de que, neste momento, o único factor que pode fazer o Porto ganhar ou, até, não perder na Luz, e que ele pode minimamente controlar, é o medo, por parte dos jogadores do Benfica, de voltarem a perder sem saberem como é que perderam. As derrotas do Benfica na Luz, frente ao Porto, nos últimos anos, têm de deixar uma marca psicológica traumática nesta equipa do Benfica, que gera desconfiança. A equipa está psicologicamente forte, mas este é um jogo diferente – provavelmente o único jogo (defrontar o Porto na Luz) que pode pôr os jogadores a pensar em demasia nas suas próprias possibilidades de ganhar fazendo o seu jogo normal).

A segunda é a consciência de que o jogo é decisivo. Não é decisivo para o Porto, mas é decisivo para o Benfica. A conquista do título, para o Benfica, passa por ganhar este jogo. Sejamos claros: num campeonato em que as duas equipas da frente têm dois empates em treze jogos, os resultados nos confrontos directos valem o título – mesmo que seja indirectamente. Uma derrota do Benfica na Luz, sabendo que o Porto praticamente não perde pontos, e que têm de ir jogar a Braga e às Antas na segunda volta (às Antas na penúltima jornada), ainda por cima com o terceiro classificado a 10 (?) pontos de distância, faria toda a gente tomar como certo que a época se resumiria ao apuramento para a Champions, em ganhar a Taça de Portugal e em ir longe na Liga Europa, com a consequente despressurização e perda de pontos nos jogos do campeonato (que vão ser muito mais difíceis na segunda volta, como já devem ter reparado no calendário).

Dito isto, se fosse feito um inquérito às pessoas neutras (ou seja, não-doentes) deste país sobre o resultado, 90 por cento apostaria num empate.

Só há uma coisa que me faz comichão atrás da orelha neste cenário de equilíbrio. É uma lógica um bocado invertida, mas, no entanto, parece-me que não penso desta maneira por ser benfiquista.

É-me difícil ver esta equipa do Porto a conquistar um tricampeonato – algo que, apesar dos últimos 30 anos de máfia, aconteceu poucas vezes, e que, quando aconteceu, aconteceu em cenários diferentes, em que o equilíbrio entre os candidatos ao título não tinha nada a ver com o que existe hoje. Aliás, nunca vi o Porto a ser tricampeão este ano. Além da questão estatística, o resto: a qualidade de jogo da equipa (pior do que o ano passado, já com o Lucho, na minha opinião, o que atesta bem da qualidade do seu treinador), a boa carreira na Liga dos Campeões (que é sinónimo, em 95 por cento das vezes, a uma descompensação no campeonato, que ainda não se viu mas se vai ver), a acomodação evidente em alguns jogos da Liga. Já vi o Porto ser campeão muitas vezes, infelizmente, mas não me lembro de ver um Porto tão fraco, em termos de jogo, como o que seria este ano se viesse a ser campeão.

Ora, para não ser campeão, também não vejo outro resultado possível neste domingo que não seja a vitória do Benfica.

O Benfica não tem melhor equipa que o ano passado, nem está a jogar melhor. A primeira metade da época foi de grande nível em termos de confiança e forma física. Em termos de jogo, o Benfica que vai defrontar o Porto e o mesmo, vai ter exactamente os mesmos problemas perante outra equipa que vai ser exactamente igual ao que era há um ano. A única e eventualmente fundamental diferença para o ano passado é que, há um ano, a equipa do Benfica chegava ao jogo com o Porto de rastos quer física quer mentalmente, depois de duas semanas de maus resultados e de um regresso de férias de Natal desastroso, enquanto o Porto tinha os jogadores relativamente descansados devido à grande rotação durante a primeira metade da época. Mesmo com a clara diferença física, que foi evidente no 2-2, em que os jogadores do Benfica simplesmente não conseguiram recuperar a tempo, o Porto só ganhou na Luz com um golo em fora-de-jogo, a poucos minutos do fim, e (se não me engano) já a jogar contra 10.

Neste momento, e referindo que o Porto continua a ter uma vantagem funcional nos jogos com o Benfica, que decorre do seu tipo de jogo mais colectivo, feito para dar resultados nos jogos de grande pressão, em que o erro é mais caro, só vejo duas maneiras do Porto ganhar na Luz:

- Se a equipa do Benfica entrar derrotada, a pensar nos resultados dos últimos dois anos, e se acobardar – o que é um cenário bem possível, porque a esta equipa do Benfica falta carácter de campeão;

- Ou se tiver a sorte do jogo (um vermelho que o árbitro não consiga evitar mostrar, um golo numa altura crucial, qualquer coisa de anormal que afecte o desenrolar normal do jogo).

É possível, e não seria nada de extraordinário.

Não acredito que aconteça. Objectivamente, sem superstições nem receios, não vejo este Porto a ganhar na Luz a este Benfica, com Matic, Lima e sem Emerson, e com força nas pernas e na cabeça para recuperar desvantagens, como tem acontecido este ano. Este é um factor muito sintomático do amadurecimento da equipa do Benfica. Só uma equipa a partir de um certo nível de maturidade e qualidade colectiva é que consegue virar jogos, sem entrar em pânico. Ainda não vi esta equipa do Benfica entrar em pânico este ano. Não joga muito (joga depressa, o que é diferente), mas não entra em pânico. Nesse sentido, a ser o Benfica o campeão, o jogo de Alvalade terá sido decisivo, não só pelo resultado como pelo desenrolar do jogo. É o tipo de jogo em que há pouco a ganhar e tudo a perder. O Benfica não perdeu. Veremos se, para o Porto, será assim tão fácil.

O resultado natural, neste domingo, seria o empate a um golo, ou a dois. Parece-me, no entanto, que vai acontecer o contrário do que aconteceu o ano passado: o golinho fora do plano, nos últimos minutos, vai cair para o lado do Benfica. Vai ser coerente com o cenário de grande equilíbrio entre as duas equipas de que se vai falar daqui a uns anos, relativamente a este período, e que começou na última época. As diferenças serão minímas e os dois clubes terão histórias muito semelhantes para contar, parecendo tiradas a papel químico.

 De qualquer forma, não vou ver o jogo a não ser daqui a uma semana. Vai ser uma experiência. Depois de saber  resultado e tudo o que se disse, vou ver o jogo pela primeira vez, sem nervos, sem pressão, e fazer uma leitura distanciada. Amanhã, nem sequer leio jornais. Tenho três exames nos próximos seis dias, o primeiro dos quais às 8.15 de segunda-feira. A última coisa de que preciso é de um Benfica-Porto a dar-me cabo da noite. Às vezes (e esta é a primeira vez) é preciso saber pôr a doença no sítio.

segunda-feira, 7 de janeiro de 2013

Fazer das tripas 100 milhões


Praticamente tudo corre bem ao Benfica este ano.

Vê três dos seus jogadores decisivos – Aimar, Luisão, Gaitán – chegarem a janeiro praticamente sem minutos nas pernas, numa altura em que a época vai começar a sério.

Teve de inventar jogadores e, com isso, ganhou uma profundidade de plantel que faz com que as hipóteses de ganhar o titulo sejam reais. Por exemplo, Matic, André Gomes, André Almeida, Enzo Pérez (este freguês, em especial, vai merecer um post, só porque há um ano certo andava eu aqui a dizer que ele nunca jogaria um minuto sequer pelo Benfica e, agora, tem ali um médio-centro de grande categoria em construção. E vocês já sabem que, comigo, a César o que é de César.)

Perde os jogos que tem a perder nas competições que não interessam e ganha no campeonato (algo que permitiu ao Porto ser campeão o ano passado, por exemplo).

Calhou-lhe no sorteio da Liga Europa a equipa certa para resolver já esse problema. O Bayer Leverkusen, como qualquer equipa alemã, tem à partida 90 por cento de hipóteses de eliminar o Benfica – não me perguntem porquê, só porque sim. Alemães e Italianos, desde que não sejam os que andam pelo meio da tabela, são tiro e queda. Holandeses e ingleses é o contrário, venham eles que ficam cá. Neste aspecto, melhor mesmo só se o Porto eliminar o Málaga e for jogar ao Tajiquistão com o Shaktar Donetsk.

Cada vez mais me convenço, ao ver Benfica e Porto a fazerem uma das melhores primeiras voltas conjuntas na história do futebol português, que este campeonato se vai decidir pela quantidade e exigência de minutos que as duas equipas tenham de vir a fazer na Europa até Março.

Com o Porto fora da Taça, a verdadeira final do Benfica é em Coimbra. Porque o Braga, sim senhor, mas não nos esqueçamos que é o Peseiro. Joga bem? Têm maturidade? Bons jogadores? Experientes? Está bem, está tudo certo. Mas é o Peseiro.

E agora, a única coisa que podia correr mal, de repente, foi ultrapassada: o decisivo Benfica-Porto (decisivo, leram bem) calha precisamente a meio de uma quinzena em que tenho cinco exames. O que significa que: (1) não vou ter tempo para escrever aquilo que penso; o que leva a que (2) não vá poder enguiçar esta porcaria toda, como fiz no ano passado.

Aliás, para terem uma ideia, estou a pensar em nem sequer ver o jogo, ler jornais ou ver notícias no próximo domingo, porque, «ó sócios, estou aqui concentradíssimo», e não quero abalar a minha vibe.

O que estou a pensar, muito seriamente, se tiver tempo, é em fazer uma previsão remissiva, ou seja, escrever a previsão e publicá-la depois do jogo. Só para gozar. Sim, porque eu às vezes acerto.

Querem um exemplo?

Ando há semanas a dizer aos meus amigos que, se eu fosse treinador do Benfica, o Cardozo marcava os cantos. Aliás, não só marcava os cantos como marcava todos os livres num raio de 15 metros em redor da grande área, independentemente do lado.

Porquê? Porque é o único jogador do Benfica com força e técnica para marcar um canto, ou um livre, bem marcado – tenso, a cair à entrada da pequena-área, sem dar tempo ao guarda-redes para sair ao centro. Um pontapé em força, a cair em frente à baliza, é meio-golo. Há um ressalto, um toque, e está feito. Sem ser preciso inventar mais nada de bloqueios, zonas, pivôs...

Devo confessar que também dizia isto para me armar um bocado em esperto, que é uma coisa que às vezes faço, e para pôr o pessoal a chamar-me maluco.

Mas isso não quer dizer que não estivesse a falar a sério.

O Jesus, que é um tipo dos esquemas, que fez a carreira no Vietname do futebol português como João Ratão, graças aos atalhos, às espertices, sabe que 80 por cento dos golos, no futebol, são jogadas de sorte – ou em ressaltos, ou em falhanços, ou a passar no meio das pernas de um defesa, ou por cima da mão do guarda-redes... É raro o jogador de futebol que, na zona de finalização, consegue fazer exactamente o que quer, quando quer. Por isso é que o Jesus (tal como o Camacho, diga-se, lembram-se do Binya) pôs o Benfica a fazer lançamentos laterais à Vizela. Porque a batata vai para o meio do maralhal, há alguém que se atrapalha e, de repente, está na baliza. É feio? É o futebol de alta competição.

Nunca pensei, contudo, que o homem tivesse a lata de pôr o Cardozo a marcar os cantos. Achei que não tinha coragem. Pois bem, hoje o Jesus subiu muitos pontos na minha consideração. O Jesus está na melhor forma desde que chegou ao Benfica – e se sou eu que o digo, podem acreditar que está. Anda tranquilo, acho que já percebeu que não morre se confiar um pouco mais nos jogadores (só um pouco), resta saber se já percebeu realmente que a melhor maneira de fazer um bom contrato em Espanha não é apostar tudo nas competições europeias, como no ano passado, mas ganhar o campeonato ao Porto.

Hoje à noite, ao primeiro canto do Benfica, lá voltei eu à lenga-lenga do costume. «Mete o Cardozo a marcar os cantos e vais ver. Mete o Cardozo a marcar os cantos e vais ver.» E o Cardozo na área, claro. Até que, a certa altura, o Cardozo vai mesmo marcar um canto. Nem pude acreditar. O primeiro foi sem gás. Deu noutro canto. «Olha, queres ver?! Queres ver?!»

Parecia bruxedo: ao segundo canto, golo. E nem sequer foi muito bem marcado. Ele que meta o homem a marcar os cantos todos, que o deixe tomar as medidas e apanhar-lhe o jeito, e quando os balázios começarem a chegar à pequena-área a 100 à hora a bater nas cabeças dos defesas e a entrar na baliza, vocês vão ver. Depois disso é só fazer o mesmo em todas as bolas paradas perto da área. O Cardozo marcaria menos golos? Talvez. Mas a equipa passaria a conseguir voltar a fazer perigo nos cantos.

No próximo post - depois desta peça de narcisismo intelectual completamente despropositado que é fruto do meu actual estado de quase demência por motivos de esgotamento neuronal – explicarei porque é que eu seria o melhor paineleiro do Benfica nas segundas-feiras à noite.

Caramba, vou já adiantar, até porque se calhar só cá volto já com o Sporting na II Divisão. Eu seria o melhor paineleiro do Benfica nos Donos da Bola porque, comigo, já não se falaria senão de duas coisas desde o dia de Natal:

- do facto do Porto ser o clube do regime corrupto desta província peninsular, do fora-de-jogo do Maicon e de todos os casos em que o Benfica foi roubado com o Porto  desde o tempo do Iuran (sim, isso mesmo: seria tão ostensivo como isso. Não haveria de ficar nenhuma dúvida no ar de que eu estaria apenas a pressionar os árbitros para lhes ser impossível prejudicar o Benfica em caso de dúvida. Foi assim que o impoluto Pinto da Costa minou isto tudo. Não foi por ter pudor, foi por ser tão ostensivo que praticamente exigia ser beneficiado, mesmo quando não tinha razão absolutamente nenhuma. Neste país de baixa-as-cuecas profissionais, o segredo é não ter vergonha de exigir o que para pessoas de boa cepa, seria ultrajante);

- do facto da primeira equipa a gastar 100 milhões de euros por ano no futebol português ficar em risco de não ganhar o campeonato se perder na Luz. E continuaria a falar nos 100 milhões de euros até toda a gente ficar a perceber bem esta realidade, que a propaganda do regime tem tido o cuidado de não propagandear: o Porto, que teve um prejuízo de 40 milhões de euros num ano em que vendeu o Falcão por 40 ou 50 milhões, tem o primeiro orçamento de 100 milhões de euros este ano. O clube dos pobrezinhos, do «contra tudo e contra todos», do fazer do pouco muito, vai gastar 100 milhões de euros (mais 30 milhões que o Benfica), e pode muito bem acabar a época de mãos a abanar. E aí – se não for este ano vai ser num dos próximos – no momento em que o fracasso for assim tão visível, é que a vaca vai começar a tossir.

Aí, vai começar a perguntar-se se o Porto pode pagar 18 milhões de euros por um defesa-direito só porque o Benfica o quis contratar - quando o suplente desse jogador, que até andou emprestado para rodar em Braga, vai passar a ser «um dos jogadores mais bem pagos do Sporting, com um ordenado anual de 1 milhão de euros» (não vai, concerteza, ser aumentado com a mudança para Alvalade). E se pode pagar 12 milhões por um central mexicano de 20 anos e 70 quilos, quando o Benfica só ofereceu metade. E se faz sentido andar a pagar o dobro para ter James, Álvaros Pereiras e quejandos se o Benfica, gastando apenas 70 por cento, consegue ser campeão com o André Almeida, o Jardel e o Melgarejo.

Foi, também, com esta argumentação, (os mais novos não se lembram, e agora vêem-no tão dócil que nem lhes passa pela cabeça a pouca-vergonha que era) que o impoluto mestre foi construindo a imagem de eficiência e do «fazer das tripas coração». O «fazer das tripas coração», actualmente, é gastar mais 30 milhões de euros que o propalado «clube do regime». E isso diz tudo sobre o desfasamento do discurso que ainda passa nos media e a realidade. Nos media cria-se a ilusão de um «clube pequeno do Norte» a lutar contra os gigantes de Lisboa que têm os recursos todos. Na realidade, o Porto gasta, sozinho, quase tanto dinheiro como o Benfica e o Sporting em conjunto. Só por incompetência é que uma equipa que gasta mais 30 por cento do que o outro candidato não é campeã. E isso explica o nervosismo provocado pela rotura muscular do James e pela «ausência de Atsu e Kléber», como li hoje a um dos freteiros no Record. Como é que uma equipa bicampeã nacional, com 100 milhões de euros de orçamento, fica tão nervosa com um jogo na Luz a meio do campeonato?

Acreditem: esses vão ser os bons tempos. Mas era preciso começar a semeá-los já, antes que a Gabriela mate o velho do coração. Nessa altura já não terá tanta piada.

domingo, 16 de dezembro de 2012

O melhor Benfica


A 16 de Dezembro de 2012, e com o Benfica no primeiro lugar do campeonato, é uma boa altura para lembrar a quem, eventualmente, não leu, na altura, ou já não se lembra, que, no final da última época, vaticinei que o Jesus já não passava o Natal como treinador do Benfica.

O que eu disse, na altura, numa carta aberta a Jesus, foi mais ou menos isto:

«Caro Jesus, eu sei que pensas que, para o ano, vai ser diferente. Estás a pensar que, com mais um ano em cima, a tua equipa vai subir de qualidade, mantendo o mesmo estilo de jogo, e que, se este ano já estiveste apenas a um jogo de ser campeão, na próxima época, com mais experiência, e com o Porto a perder o Hulk (pelo menos), dificilmente não serás campeão. Mas não é o que vai acontecer. O que vai acontecer é que as coisas vão começar a correr mal na pré-época, vais perceber que já perdeste os jogadores, que já nem confiam em ti nem têm paciência para te aturar. E, a partir daí, as coisas vão degradar-se e vais ter desejado sair neste Verão, para o bem de toda a gente.»

É o momento ideal para recordar esta minha previsão não só porque estamos a uma semana do Natal mas também porque ontem, com o Marítimo, vi o Benfica de Jesus fazer, que me lembre, o seu melhor jogo.

Com o Marítimo, o Benfica atacou como devia, e atacou bem. Defendeu como devia, e defendeu bem – a recuperar bolas no meio-campo adversário umas atrás das outras, como faz o Barcelona, por pura capacidade de antecipação.

Não o fez contra uma equipa banal mas contra uma equipa que sabe jogar futebol, que está desenhada para jogar em contra-ataque e que tem bons jogadores.

Não teve a sorte do jogo, pelo contrário: teve de lutar contra ela e contra um claro erro de arbitragem no primeiro golo, que resulta do primeiro remate do Marítimo, depois de um massacre de meia-hora sem marcar, a que se seguiu outro massacre de uma hora, a marcar quatro golos.

Não apanhou o Marítimo nem ninguém de surpresa, ao contrário do que acontecia durante os primeiros três meses da época do campeonato (em que, simplesmente, as equipas não estavam preparadas para lidar com aquela atitude de ataque desenfreado).

Nunca perdeu o controlo do jogo nem da cabeça. Nunca se desconcentrou. Fez o primeiro jogo a velocidade alta e constante durante os noventa minutos desde que me lembro.

E isto, para mim, é um bom jogo de uma equipa. Podia ser fora, para ser melhor? Podia. Podia ser contra o Real Madrid? Podia. Podia ser na final da Liga dos Campeões. Podia. Mas também podia ser em casa, com o Marítimo, para o campeonato, e ser uma merda de jogo, como tem sido quase sempre até aqui.

É claro que há explicações conjunturais para esta exibição.

Fisicamente, o Benfica está na melhor fase da época, como tem sido sempre nos últimos quatro anos. Muito mais difícil será encontrar uma equipa assim tão fresca a partir de Janeiro, quando as equipas do Jesus costumam quebrar (esta época, contudo, está a dar-se uma situação curiosa, como referi há uns tempos: a de que muitos jogadores essenciais vão chegar ao Inverno praticamente sem carga acumulada, devido a lesões, castigos e má forma actual. Ter elementos como Aimar, Gaitán, Luisão ou Carlos Martins frescos em Fevereiro/Março pode vir a ser perfeitamente decisivo).

Animicamente, a equipa está no máximo, depois de dar a volta ao dérbi. Ontem, a cada bola dividida, a decisão já estava feita no momento em que os jogadores do Benfica partiam para o duelo, tal a confiança com que estão. Neste momento os jogadores estão com aquele estado de espírito em que nem sequer pensam que podem falhar, e por isso ganham praticamente todos os 1x1.

A coincidência de quatro jogadores iminentemente colectivos e muito homogéneos na sua forma de jogar deu à equipa uma atitude colectiva – de jogar em equipa a atacar e a defender, de optar pelo passe antes da fina, de se mover em bloco – que raramente ou nunca tem. Falo de Matic, André Gomes, Ola John e Lima. São quatro jogadores de «Categoria E» - de equipa.

Matic dá ao meio-campo uma dimensão atacante que jamais teria com um Javi Garcia a jogar a «6». É um jogador de dimensão extra, muito mais próximo de um Witsel do que de Javi. Mesmo tirando o facto de estar num grande momento de forma, tem um kit de ferramentas – envergadura e força física, visão atacante e ampla do jogo, capacidade de passe perto e à distância, ausência de tiques tecnicistas e finteiros, capacidade de concentração – que fazem com que venha a ser a próxima grande venda do Benfica, no próximo Verão. A evoluir como está actualmente, Matic vai, facilmente, integrar uma das oito melhores equipas da Europa na próxima época. Já é o melhor «6» do campeonato, pois tem essa dimensão atacante que Fernando, por exemplo, não tem, e é um jogador feito para equipas grandes. Em termos de capacidades e estilo, é uma espécie de Yaya Touré – mas não tão bom, por enquanto. Uma equipa grande não precisa por aí além de um varredor especialista defensivo. Raramente tem de defender assim tanto. Precisa, sim, de jogadores que, em todas as posições do campo, construam jogo. Matic vai ter muito mais dificuldades contra o Porto, por exemplo, porque vai ter de defender mais, mas, nos outros 28 jogos do campeonato, é jogador para encher o meio-campo.

Devo dizer que, neste caso, sinto que tinha razão quando dizia que o meio-campo do Benfica, no ano passado, devia ter sido Javi-Matic-Witsel. Não percebo como é que o Jesus não viu isso.

André Gomes está na fase de apanhar com o Jesus em cima, como se viu ontem, mas não engana. A sua primeira ideia é sempre a equipa, a bola vai para onde tem de ir, as faltas aparecem quando têm de aparecer, falta-lhe ainda o estofo físico e melhorar o posicionamento defensivo, obviamente, mas é um daqueles jogadores que, por serem de equipa, fazem os outros melhores.

Vejo Ola John fazer coisas que já não julgava possível ver num extremo moderno. Ontem, vimos John fazer três, quatro, cinco centros em corrida, com o pé esquerdo, e meter a bola onde queria. Tal como o Pacheco dizia na televisão, depois do jogo com o Sporting, o defesa não tem opções, porque não pode dar-lhe um lado. Isso faz com que a mudança de velocidade e o pique nã sejam fundamentais no seu jogo. Tal como eu pensava, John é um pivô na linha, faz lembrar o Ronaldinho Gaúcho no Barcelona, em termos de abordagem ao jogo – sem se poder comparar em termos de classe, obviamente. Ontem, todo o ataque do Benfica estava centrado na linha do flanco esquerdo. Dai partiam os desequilíbrios. O melhor, para mim, em Ola John, é que a primeira opção é sempre o passe. Não acha que a boa jogadaseja passar por cinco adversários e entregar a bola de bandeja. Tem a mesma visão de jogo de Gaitán, mas muito mais desapego à bola e muito mais cuidado com a equipa. O jogo, em John, não trava: acelera, porque os outros jogadores, em vez de pararem, mexem-se. Veremos se não se estraga com a usual idolatria benfiquista.

Lima é o verdadeiro avançado titular desta equipa, precisamente porque faz o trabalho colectivo que permite ao ataque funcionar. E tem um poder físico que, juntamente com o de Matic e André Gomes (atenção, que o «menino» tem cabedal e não é tão lento como parece), dá ao miolo do Benfica uma pujança física que massacra. Algo que Aimar e Martins não conseguem dar.

Ou seja, em conclusão: tirando Jardel (bom jogador colectivo, também) e metendo Luisão, a melhor equipa do Benfica, em termos colectivos – ou seja, naquilo que conta – a melhor equipa do Benfica é que jogou ontem. Sem Aimar, Gaitán e Enzo Pérez.

É uma equipa que não dá garantias, no entanto. Não devemos esperar que Ola John, André Gomes e, mesmo, Cardozo, mantenham o nível actual. Os dois primeiros têm 19 anos (alguma vez isto aconteceu nos 30 anos de carreira de Jorge Jesus???!!!) e o segundo  nunca fez uma equipa inteira ao mesmo nível. O Benfica não vai ser sempre assim tão colectivo, e só será campeão com individualidades.

Por outras palavras, quando o colectivo falhar (e vai falhar, porque não foi suficientemente trabalhado nos últimos anos) o Benfica irá precisar de alguns momentos de Aimar, de alguns bons jogos de Gaitán, de alguns golos de Martins, de marcar golos de canto e de livre.

E aí, dando a mão à palmatória, com toda a alegria benfiquista, em relação à capacidade do Jesus em adaptar-se ao plantel – na verdade, é nesses momentos, em que tem de trabalhar limitado pelos condicionalismos dos plantéis feitos por outros ou por situações extraordinárias, que o Jesus melhor trabalha, como já devem ter reparado, e não quando começa a escolher brasileiros de segunda e a querer fazer equipas à sua imagem – continuo a não ver, ainda, no Benfica, uma dimensão estrutural, e colectiva, de campeão. Um filosofia e uma estabilidade de jogo que lhe permita manter um nível como o de ontem durante (não digo toda) a maior parte da época, e que lhe permita, por exemplo, ser melhor que o Porto na Luz e ir às Antas bater-se de igual para igual.

O que não quer dizer que o Benfica não tenha boas hipóteses de ser campeão. Aliás, imaginar esta equipa do Porto como tricampeã nacional, mais do que uma improbabilidade estatística, parece um claro optimismo exagerado. A bicefalia acentuada actual permite todos os cenários, e vai sempre criar uma situação anormal – uma equipa de terceira dimensão europeia (Benfica) a ganhar a outra de classe média-alta (Porto) ou uma equipa medíocre, em termos históricos, em comparação com outras (porto) a ganhar três campeonatos seguidos. Neste ponto, a sensação que tenho é que o Benfica-Porto vai decidir o campeonato, sendo que o Benfica tem uma hipótese em três de o vencer, precisando, para isso, de bater o Porto em casa.

Também não vejo este Porto, sem Hulk, a ganhar dois jogos seguidos para o campeonato na Luz, mas…

De qualquer forma, fica o reconhecimento: o Jesus, apesar de já não conseguir fazer a equipa crescer (e isto mantenho, porque é a própria equipa que, com a estabilidade do plantel, tem vindo a desenvolver a sua química), ainda não é desrespeitado pelos jogadores. A condição essencial para a implosão que previ não se cumpriu. Ainda bem. Sem cinismo. Não sou dos que preferem que a equipa perca para poderem dizer: «Vêem como eu tinha razão?»

Resta, agora, saber duas coisas:

- se a não-entrada de alguns jogadores, durante o Verão, para a equipa titular (defesa-esquerdo, médio-centro), acompanhada da saída de dois titulares, vai ser decisiva na fase em que o campeonato se decide, ou se os que estão chegam;

- se a pré-época foi suficientemente boa para permitir ao plantel (curto) enfrentar um  inverno que se prevê rigoroso e, provavelmente, «prolongado» pela presença em quatro competições.

Direi apenas que este era um ano excelente para acontecerem duas coisas: o Benfica voltar a ganhar a Taça de Portugal (admito que já tenho saudades, porra…); e o Porto, além de se mostrar «uma grande equipa europeia» na Liga dos Campeões, ser «obrigado a ganhar a Taça da Liga.

Nem que fosse para ver se, na final, jogavam com os suplentes, e se, ganhando, já não se queriam ver «livres desta»…

segunda-feira, 10 de dezembro de 2012

O Benfica definiu a história do Sporting


Ponto 1 – Lembrem-me de dizer mal do Cardozo antes de cada jogo decisivo. Resulta. A bola vai batendo nos outros e entrando.

Ponto 2 – o Benfica pode ter achado o próximo grande jogador do futebol português. Há uns tempos disse que André Gomes me lembrava Zidane, neste momento lembra-me mais o Paulo Sousa com 19 anos. Um portento. Daqui a dois anos estaremos a falar da grande tragédia dos clubes portugueses: a de não conseguirem segurar os jogadores nacionais que podem fazer deles grandes, permanentemente, na Europa.

Ponto 3 – O Benfica pode ter começado aqui a ganhar o campeonato, se isso lhe permitir chegar ao jogo com o Porto em vantagem pontual. Se isso acontecer, o desenrolar desse jogo, pelas expectativas e ansiedade que deixará de gerar, será completamente diferente. Uma das razões para o Benfica perder campeonatos para o Porto é chegar ao jogo com o Porto, em casa, a precisar de ganhar sob risco de não ser campeão. Um jogo em que um empate permita manter a liderança muda completamente as coisas. É um facto histórico.

Ponto 4 - Se o Benfica tivesse jogado, esta noite, com 11.º classificado da Liga e o 11.º classificado fosse o Estoril-Praia, o jogo teria sido, provavelmente, exactamente o mesmo que foi em Alvalade.
Para ganhar um jogo fora, contra uma equipa inferior, depois de um jogo europeu de grande exigência mental, o que é preciso, mais que técnica, táctica ou frescura física, é classe. Fazer o jogo necessário. Nestes casos, a classe traduz-se por eficácia. Não é apenas passar a bola entre os defesas – é atacar bem nas poucas vezes em que se ataca, e meter a batata na baliza primeiro que o adversário, nem que demore 89 minutos (e se, aos 89 minutos, a bola é rematada, bate numa canela, na parte de baixo da barra, e cai um palmo dentro da baliza, nesse caso é muito bom sinal, porque é a estrelinha de campeão a brilhar).
Quando se permite à equipa da casa jogar em contra-ataque, seja o Moreirense ou o Sporting, o espaço e a vontade são tantas que quaisquer problemas psicológicos desaparecem. Poder fazer figura de equipa pequena foi óptimo para o Sporting, sobretudo porque, de facto, não há memória de uma equipa do Sporting tão pequena como esta. Mas isso já toda a gente sabia, desde os benfiquistas, acostumados a verem a lagartagem agigantar-se para ganhar a Taça Segunda Circular todos os anos, aos dirigentes do Sporting, que, «à Braga», aproveitaram todas as oportunidades para alimentar guerras artificiais.
Classe não é coisa que abunde nesta equipa do Benfica, evidentemente. Mas a rotina a alto nível vai faendo a diferença e é assim que a classe vai aparecendo. E, hoje, chegou. A segunda parte do Benfica, em desvantagem, a jogar em Alvalade, e com mais um jogo europeu nas pernas na semana passada, teve lampejos de classe e a sorte suficiente, sem a qual o benfica não consegue ganhar em Alvalade.
Sim, mais um jogo europeu, leram bem. Porque…

Ponto 5: Só um idiota é que se permitia, sequer, embarcar no folclore do «adiamento» e do cansaço. Aliás, quando ouvi os comentadores da Sport TV a dizerem que a meio da segunda parte «se notou o cansaço» fiquei a falar sozinho, e a perguntar: «Mas o cansaço de quê? De estarem sentados?»
É evidente que o Vercauteren estava preparado (e até agradecia) para jogar até no dia seguinte ao jogo do Videoton, porque assim teria tido o Benfica ainda menos refeito do decisivo jogo com o Barcelona, em Barcelona,onde jogou com 9 ou 10 dos titulares de hoje, enquanto o Sporting jogou com o Videoton com apenas três titulares de hoje. Qualquer nabo conseguiria perceber que, quanto mais cedo fosse o jogo, melhor seria para o Sporting. A última vez que os titulares do Sporting jogaram, entre Taça e Liga Europa, foi para aí há um mês. Se a equipa do Sporting rebentou na segunda parte é porque a sua preparação física é uma merda.
Se alguma equipa deveria ter rebentado na segunda parte essa equipa deveria ter sido o Benfica. Aliás, o cansaço entre alguns jogadores do Benfica foram óbvios (Garay, Ola John e Salvio incapazes de mudar de velocidade, Maxi Pereira, até o Lima) até ao momento do golo, em que a perspectiva de vitória os revigorou.

Ponto 6 – Só hoje é que a época do Sporting ficou dramática. Perder com o Benfica, em casa, é a única coisa que pode realmente estragar a época aos adeptos do Sporting, e o Godinho já vai a caminho.
O Sporting fechou hoje a sua época – e, como não vai poder voltar a jogar em contra-ataque até ao fim da época, à excepção do jogo como Porto em casa, continuará a ter as dificuldades das equipas pequenas para ganhar jogos de forma continuada. Acabará a temporada em quarto ou quinto lugar mas, acima de tudo, perdeu com o Benfica

Ponto 7 – A única coisa que fica, de realmente relevante, deste Sporting-Benfica, é a certeza de que o Benfica terá de continuar a lutar sozinho contra o Porto, com o Sporting a prestar-se ao papel de Sancho Pança, à espera que lhe caia qualquer coisa no prato.
Para o Benfica, penso eu, acabará por ser bom, porque o Sporting, historicamente, não mostra dimensão para ser mais que um outsider, que conseguirá, quanto muito, reclamar algumas vitórias. Num cenário de luta Benfica-Sporting, sem Porto, o Sporting não consegue superar o Benfica. Só tornará as coisas um pouco mais difíceis para o Benfica, na luta contra o Porto, mas isso não é um problema incontornável. É uma questão de tempo, e até pode ser melhor a emenda que o soneto.
Para o Porto, é óptimo. Uma aliança real Benfica-Sporting, a longo prazo, destruiria a hegemonia portista. Com Benfica e Sporting separados, o Porto terá, durante muito tempo, boas hipóteses de ganhar.
Para o Sporting, é trágico, porque se auto-sentencia a uma eterna secundarização. Os Cristóvãos que ficaram a rodear o Godinho (e os que vêm a seguir ainda vão ser piores) são muito mais broncos que os Duques que foram saindo.
Os Duques tinham um plano. Iam fazer um tango, uma dança de amor-ódio com o Benfica, para bater o Porto e, depois do rei decapitado, iam tentar superiorizar-se ao Benfica. Era um bom plano, porque o Sporting ainda tem qualidade estrutural para poder ser melhor que o Benfica. Difícil de concretizar, impopular entre os adeptos, mas bom.
Agora, a única coisa que é, um arrojo aos pés do Porto para bater o Benfica, que não tem nenhuma perspectiva além de aceitar ser um eterno segundo, com grandes probabilidades de continuar a ser segundo mesmo que o Porto venha a definhar, porque isso significaria que o Benfica teria ganho a luta de superpotências actualmente em curso.
Hoje, o Benfica cumpriu, também, o seu destino natural: definiu o que vai ser a história do Sporting nos próximos anos.

quarta-feira, 5 de dezembro de 2012

Uma equipa de pachachinhas


Quando ouvi o Carlos Carvalhal, na RTP, há quinze dias, dizer que, contra uma equipa de segundas figuras do Barcelona, «mal seria» se o o Benfica não fosse favorito, admito que pensei cá com os meus botões: «Deve ser, deve… Se não forem os russos a ganhar na Escócia bem fodidos estamos.»
Devo avisar que hoje, como já devem ter reparado, vou ser bastante ordinário. Porque me apetece.
Afinal, o Carvalhal tinha razão. Admito. A «ideia» de futebol do Barcelona – que é mais que uma ideia, é uma cultura –, quando não é interpretada por meia-dúzia de freaks da bola e quando não tem nada a ganhar, não é mais que uma vaga ideia, que poderia perfeitamente ter sido batida com uma única e simples qualidade por parte do Benfica: instinto assassino.
Azar.
É aquilo que este Benfica tem menos. Como eu já disse quinze milhões de vezes, esta equipa do Benfica não é agressiva. Falta-lhe a qualidade fundamental numa equipa de futebol. Chamem-lhe carácter, ambição, audácia, chamem-lhe o que quiserem, mas o que falta a esta equipa do Benfica é colhões. E enquanto lhe faltar colhões vai continuar a ser uma equipa de segunda, tenha os jogadores que tiver. Sem colhões, o máximo que pode acontecer a uma equipa é ir a uma ou outra final, de vez em quando, com muita sorte pelo meio, e inevitavelmente perdê-la. Nada que o Benfica não tenha feito, por exemplo, em 1989 e 1991, e que, historicamente, acabou por significar exactamente nada, como hoje facilmente se percebe.
Alguma classe, o Benfica até tem. Não é uma equipa totalmente sem classe. Faz as coisas mais ou menos certinhas. Mas não as consegue levar até ao fim porque lhe falta carácter.
Vi três momentos à campeão, hoje à noite, ao Benfica:
- quando entrou a defender em cima da baliza do Barcelona (algo só possível porque o Barcelona jogou sem nenhum dos seus quatro cérebros – Iniesta, Xavi, Busquets e Messi – que teriam facilmente transposto, em três passes, a primeira linha defensiva do Benfica);
- quando o Luisão virou o Messi ao contrário na primeira vez que o encontrou, de maneira a que ele entendesse que aquilo não era um jogo-treino nem um jogo para os recordes;
- e quando o Maxi Pereira deu duas ripadas seguidas no extremo do Barcelona a meio da segunda parte, quando se percebeu que o pessoal do meio-campo tinha entrado em modo zombie.
Tudo o resto – e o resto é o que fica, porque é o que define o resultado – foi, basicamente, uma cambada de pachachinhas encolhidas, todas molhadinhas por estarem a jogar com o Barcelona, algumas – André Gomes, Ola John, Nolito – com um bocadinho mais de classe que outras, alguma gente que vai poder ganhar alguma coisa quando tiver quatro ou cinco jogadores com colhões a jogar a seu lado, mas, no fundo, apenas uma cambada de pachachinhas, que foi fazer um jogo de futebol a Barcelona e não conquistar um apuramento na Liga dos Campeões a Barcelona, incapaz de cravar o punhal no momento em que o adversário estava à mercê, incapaz de ter a audácia suficiente para entrar na história, gente de fraca dimensão, que não tem, realmente, massa de campeã.

Como todos sabem, é-me um bocado igual ao litro se o Benfica passa ou não passa aos oitavos-de-final da Liga dos Campeões. Continuo a achar que é um desperdício de recursos humanos quando se quer ser campeão nacional e nem sequer se tem a melhor equipa nacional. O que me chateou nesta noite foi voltar a perceber que o que tirou este apuramento ao Benfica foi a mesma fraqueza que lhe tirou o título no ano passado, e que tirará este ano, a menos que haja algum bambúrrio ou que o Porto chegue às meias-finais da Champions e cague no campeonato. A mesma fraqueza mental que levará a que, mesmo ganhando este campeonato, seja praticamente impossível ganhar o próximo, como levou a que fosse uma miragem a repetição do título em 2011. É a mesma debilidade.
É a mesma debilidade que acompanha o Benfica há cerca de 30 anos, e que a classe ocasional de alguns jogadores e treinadores e as contingências próprias do futebol têm disfarçado: ao Benfica, à sua equipa de futebol, falta carácter, espírito de conquista, agressividade, instinto assassino. Não falta, nunca faltou, jogadores: falta, e sempre faltou, competidores. Massa de campeão. Mais do que verniz de campeão, estofo.
Os benfiquistas podem continuar a falar de jogadores, de ilusões, durante mais 30 anos, mas só voltarão a ter uma equipa de futebol de topo europeu quando começarem a distinguir competidores de jogadores.

O que é que diferencia os grandes clubes europeus dos de segunda linha? Os grandes clubes europeus gastam algum dinheiro em talento, claro que sim, sem talento não há diferença, mas, quando querem, enfim, passar da qualidade às vitórias, ganhar, o que os clubes vitoriosos compram é carácter.
O carácter é mais raro que o talento.

Não queria acabar sem falar do Cardozo. O Benfica não foi eliminado por causa do Cardozo, nem o Cardozo é hoje pior ou melhor jogador que era há duas semanas. Foi mais importante, na eliminação do Benfica, o árbitro paneleiro do Celtic-Spartak (vi o jogo aos bochechos mas nesses bocados não vi nenhuma decisão do tipo que não mostrasse uma vontade enorme de fazer um favor ao fair-play e ao politicamente correcto e que não favorecesse o Celtic, culminando naquele penálti absurdo), a derrota em Moscovo (por falta de agressividade) ou o jogo em que o Celtic toca duas vezes na bola e ganha ao Barcelona por 2-1.
Mas, na última jogada do desafio, com o apuramento nos pés, isolado em frente ao guarda-redes, em corrida, o Cardozo – jogador de 28 anos, com toda a experiência possível e num momento de plenitude profissional, a jogar um dos desafios mais importantes da sua carreira – porque a bola lhe vai para o pé direito e porque tem de se virar para a baliza em corrida, o Cardozo, atentem bem… tropeça na bola. O Cardozo tropeça na bola.
E isso, meus caros amigos benfiquistas, mesmo que se consiga marcar 500 golos ao Santa Clara, ao Penafiel, ao Setúbal, ao Nacional da Madeira, isso define um jogador.
Não quero dizer aos meus caros amigos que metam o Cardozo no cú. Não quero. Mas só porque já o disse há muito tempo, aqui neste blog, e numa altura em que, salvo erro, ele até era o melhor marcador do campeonato.
Enquanto o seu jogador-chave for um Cardozo (este ou outro), as hipóteses do Benfica ter uma boa equipa europeia durante uma década, por exemplo, são exactamente iguais a zero. Seja lá qual for a «ideia de jogo» que o treinador do Benfica, por mais inteligente que se considere, tenha.

Quanto ao resto, é saber o que se quer, para se escolher o que se tem.

Sirva ao menos para isso mais esta derrota.