A proverbial boa vontade da nação benfiquista, a começar
pelo seu representante oficioso (o jornal A Bola), fez do Benfica-Porto um jogo
de dois momentos – a fífia do Artur e a defesa de Helton que levou a bola de
Cardozo ao poste.
Quando o Benfica ganha dois jogos, em casa, ao Porto, em
dez, e em cada um dos oito que não ganha se encontra «aquele momento» em que a
coisa falhou, por azar ou azelhice, o que fica evidente, pela regularidade, é
que a coisa não falhou por causa «daquele momento» mas precisamente por tudo o
que se passou para além «daquele momento».
Se o Artur não
tivesse dado aquela fífia, ou se o Cardozo tivesse marcado aquele golo, o
Benfica teria tido mais hipóteses de ganhar, mas a verdade (e a boa vontade dos
benfiquistas, aqui, deve dar lugar à sensatez) é que, com 90 por cento de probabilidades,
o Porto encontraria outra maneira de não perder aquele jogo.
Gosto de fazer previsões, pelo puro gozo de arriscar, e
falho tantas vezes quantas as que acerto, mas quando previ que o Benfica
encontraria o mesmo tipo de problemas que encontrou no ano anterior nem sequer
era uma previsão. O risco de errar era tão pequeno que era mais uma certeza. O
Porto joga com o Benfica, na Luz, da mesma maneira há 30 anos (que eu veja), e o
Benfica joga com o Porto, na Luz, da mesma maneira há quatro. Quando o Benfica ganhou,
perdeu ou empatou (e ganhou pouco) ao Porto, na Luz, nos últimos quatro anos,
ganhou, perdeu ou empatou pelos mesmos motivos, que nada têm a ver com sorte –
mesmo que a sorte possa intervir no desenrolar do jogo, como também é quase
sempre o caso.
Mantenho o que já disse: que não é impossível, ao Benfica,
com este estilo de jogo, ganhar oito jogos em dez ao Porto. Mas isso só é
possível com jogadores muito melhores do que os que tem.
Vamos desmistificar esta história do Porto: o Porto, desde o
tempo do Pedroto, foi construído para ser um Guimarães da Europa, e para competir,
cá pelo burgo, com outro Guimarães da Europa (o Benfica), sendo que o Benfica,
por atravessar um período de profunda crise na sua cultura de vitória, se
transformou num Moreirense da Europa, estando agora a recuperar, sucessivamente,
a sua dimensão.
Em Portugal, num ambiente viciado, ao Porto basta ser um
Guimarães da Europa para ir ganhando quase tudo. Na Europa, joga com as armas
que qualquer outro Guimarães da Europa vai usando para se manter na luta: um
jogo disciplinado, certinho, a jogar no erro do adversário, feito a pensar em
jogadores de classe média-média/alta – cuja principal capacidade seja a de
manter a formatura a atacar e a defender, e jogar em equipa para colmatar lacunas
individuais – e em treinadores pouco audaciosos cuja principal virtude seja a
de conseguir fazer a transição do técnico anterior para o técnico seguinte com
o mínimo de inovação, de forma a evitar retrocessos estruturais.
E isto chega para o Porto andar, constantemente, entre as 14
melhores equipas da Europa, o que lhe permite, depois, manter a superioridade
em relação aos competidores internos que não têm as mesmas armas financeiras e a mesma
experiência competitiva adquirida internacionalmente. Como o contexto europeu é
menos viciado que o nacional, às vezes – normalmente quando coincidem um
treinador melhorzinho, dois ou três jogadores melhorzinhos e um nível de
concorrência inferior – o Porto consegue fazer o que um Guimarães, em Portugal,
não consegue: ser o melhor no fim da época.
Mas, no quadro maior (considerando o topo de gama do futebol
internacional), o Porto não é mais que uma equipa certinha, espremida até perto
do máximo. Com grande regularidade, o Porto perde perante equipas com jogadores
melhores, que não têm de inventar nada a não ser fazer o que fazem normalmente. E às vezes até é vulgarizado.
Este Benfica, é o contrário. É um Rio Ave da Europa a jogar
à Real Madrid, mas com jogadores de Rio Ave, a quem acontece o que geralmente
acontece aos Rio Aves quando jogam à Real Madrid com jogadores de Rio Ave: ganham com relativa
facilidade às equipas da mesma dimensão (ou andam perto disso), porque têm o
ascendente que advém do tipo de jogo mais audacioso; perdem quase sempre com os
Guimarães da Europa, que têm um estilo de jogo mais cínico e cerebral, mais a
pensar no resultado que na imagem, e que geralmente têm jogadores ligeiramente
melhores (sendo que, ocasionalmente, podem ganhar) e perdem sempre com os Reais
Madrid a sério, às vezes queixando-se da ingratidão da sorte, quando a verdade
é que, a um Real Madrid, basta jogar q.b., mesmo fazendo o jogo parecer
equilibrado, porque a classe superior dos seus jogadores resolve o assunto num minuto, na
esmagadora maioria das vezes.
O estilo de jogo do Benfica é à grande da Europa – o estilo.
O do Porto, não. Por isso é que, mesmo ganhando de vez em quando, o Porto não
deixa marcas. Tal como um qualquer Lyon ou um qualquer Valência não as deixam. São equipas sem
brilho, que jogam no falhanço dos adversários, de índole defensiva, feitas para
não perder. Quando as outras equipas perdem, elas continuam de pé, e assim
parece que ganham, quando, na verdade, se limitam a não perder – o que é
diferente. São equipas que, culturalmente, representam muito pouco. Uma semana
depois do Porto ser campeão da Europa com o Mourinho já ninguém se lembrava a
não ser os portugueses.
O estilo de jogo que o Jesus pôs o Benfica a jogar, pelo
contrário, se for colocado em prática por jogadores de classe superior, mesmo
tendo sempre dificuldades em impor-se contra equipas da mesma igualha que
tenham um registo mais cínico, cria uma memória. O risco é uma característica
dos grandes. Só arriscando a liberdade se atinge a grandeza. Manter a segurança
é típico dos que sobrevivem, mas não dos que lideram.
É claro que entre este Benfica e a grandeza se encontram
os Jardéis, os Enzo Pérez, os Maxis Pereira, os Cardozos…
A superioridade do Porto, na Luz, não foi técnica. Os
jogadores do Porto não são tecnicamente muito melhores, na generalidade, que os
do Benfica (apesar de serem melhores, e por isso é que são mais caros). Parecem muito melhores porque o que se
lhes pede é mais fácil – quer em qualidade quer em variedade.
A superioridade do Porto, na Luz, foi (e é sempre)
posicional, porque a matriz de jogo do Porto é posicional.
Apesar de não parecer, o futebol é muito parecido com o râguebi
que lhe deu origem. Aparentemente é muito aberto e aleatório, porque as suas
duas linhas básicas se movimentam mais, em termos verticais, mas não o é –
continua a ser um jogo territorial, condicionado pela colocação das balizas nas
duas linhas de fundo, em que a posição da bola marca o ponto de choque entre as
linhas, numa acção constantemente repetitiva. É um jogo muito mais técnico,
porque é mais difícil controlar a bola com os pés do que com as mãos – e isso
leva a que quem consiga fazer bem os gestos técnicos mais básicos
invariavelmente ganhe vantagem –, mas continua a ser um jogo de choque, repetitivo,
entre linhas, com a defesa a rechaçar o ataque, de uma maneira ou de outra, na esmagadora maioria dos embates.
O estilo de jogo «apoiado», como se costuma dizer do
Porto, é um estilo que permite manter as linhas juntas apesar da bola. O
Barcelona faz a mesma coisa, mas muito melhor, e é por isso que consegue
pressionar imediatamente o jogador da bola quando a perde. Ocupando os espaços ao pé da
bola, os jogadores adversários, se não estiverem preparados para a fazer sair
daquele raio de vinte metros – geralmente porque não têm técnica nem sincronismo
colectivo para isso – perdem-na, são forçados a recuar, a fazer faltas, e a
jogar directo para os avançados (ou como disse, e com razão, o Vítor Pereira, de
pontapé para a frente).
Ao Porto, bastou adiantar a sua linha média dez metros, de
forma compacta, de maneira a tapar as linhas do primeiro e do segundo passe na
faixa central (em termos de latitude aquela faixa que começa dez metros para lá
da linha do meio-campo e acaba dez metros para cá de quem defende), para ganhar
uma vantagem posicional que se transformou em vantagem territorial.
O Benfica não tem argumentos técnicos e tácticos para
superar este tipo de defesa, seja com o Porto, com o Bayer Leverkussen ou com
qualquer outra boa equipa europeia que a consiga executar de forma disciplinada.
Mas também não há grandes segredos em relação a como dar a
volta a isto. Mesmo mantendo o estilo de jogo arriscado e, admita-se, pouco
inteligente, que é o do Jesus, sem ser necessário mudar de registo, este
Benfica teria, não digo vulgarizado, mas dominado o Porto se tivesse, na
sua defesa, um jogador que conseguisse passar a bola para o miolo com segurança e
se, nesse miolo, tivesse dois médios com categoria suficiente para jogar entre
as linhas do Porto, capazes de receber e distribuir a bola sob pressão – com um
ou dois defesas a uma distância de três/quatro metros – sem a perderem imediatamente
por a passarem para o sítio errado ou tomarem a opção errada. E reparem que não
estou a falar em Aimares ou em Carlos Martins. Esses não conseguem. Pensam, às vezes até vêem a jogada, mas
não a conseguem executar.
Bastaria isto para, mesmo perdendo muitas bolas no ataque em
jogadas de sucesso improvável (como é timbre dos seus jogadores), o Benfica desmantelar
o jogo posicional do Porto, obrigá-lo a recuar as linhas, fazê-lo perder a
vantagem territorial e, por jogar mais depressa com a bola perto da baliza –
como é que surgiram os golos do Benfica? –, marcar golos, impedir o Porto de os
marcar, e ganhar o jogo.
O Benfica-Porto que eu vi foi isto. O Braga-Benfica também
vai ser – o que não quer dizer que o resultado venha a ser o mesmo, porque,
mesmo tendo sido isto, o Benfica teve uma hipótese real de vencer o jogo, e o Porto tem melhores jogadores que o Braga.
A verdadeira questão que deve intrigar os benfiquistas não é
se o Porto é isto ou aquilo, porque o Porto é a mesma coisa há 30 anos, nunca conseguirá ser outra e ganha-se ao Porto da mesma maneira que se
ganha a qualquer outro Porto – sendo melhor física, técnica e tacticamente. É,
sabendo que o que separa o Benfica dos seus objectivos é apenas ganhar ao
Porto, se este Benfica do Jesus, e com o Jesus, conseguirá vir a ser aquele
Benfica que o do Jesus ainda não conseguiu ser.
E, com isto, não estou necessariamente a dizer que não.
Mas isso tem de ficar para a próxima, porque a prosa já vai
longa.