Há duas razões para Vítor Pereira adoptar uma estratégia de
ataque psicológico antes do jogo do próximo domingo.
A primeira é a consciência de que, neste momento, o único
factor que pode fazer o Porto ganhar ou, até, não perder na Luz, e que ele pode
minimamente controlar, é o medo, por parte dos jogadores do Benfica, de
voltarem a perder sem saberem como é que perderam. As derrotas do Benfica na
Luz, frente ao Porto, nos últimos anos, têm de deixar uma marca psicológica
traumática nesta equipa do Benfica, que gera desconfiança. A equipa está
psicologicamente forte, mas este é um jogo diferente – provavelmente o único
jogo (defrontar o Porto na Luz) que pode pôr os jogadores a pensar em demasia
nas suas próprias possibilidades de ganhar fazendo o seu jogo normal).
A segunda é a consciência de que o jogo é decisivo. Não é
decisivo para o Porto, mas é decisivo para o Benfica. A conquista do título,
para o Benfica, passa por ganhar este jogo. Sejamos claros: num campeonato em
que as duas equipas da frente têm dois empates em treze jogos, os resultados
nos confrontos directos valem o título – mesmo que seja indirectamente. Uma
derrota do Benfica na Luz, sabendo que o Porto praticamente não perde pontos, e
que têm de ir jogar a Braga e às Antas na segunda volta (às Antas na penúltima
jornada), ainda por cima com o terceiro classificado a 10 (?) pontos de
distância, faria toda a gente tomar como certo que a época se resumiria ao
apuramento para a Champions, em ganhar a Taça de Portugal e em ir longe na Liga
Europa, com a consequente despressurização e perda de pontos nos jogos do
campeonato (que vão ser muito mais difíceis na segunda volta, como já devem ter
reparado no calendário).
Dito isto, se fosse feito um inquérito às pessoas neutras
(ou seja, não-doentes) deste país sobre o resultado, 90 por cento apostaria num
empate.
Só há uma coisa que me faz comichão atrás da orelha neste
cenário de equilíbrio. É uma lógica um bocado invertida, mas, no entanto,
parece-me que não penso desta maneira por ser benfiquista.
É-me difícil ver esta equipa do Porto a conquistar um
tricampeonato – algo que, apesar dos últimos 30 anos de máfia, aconteceu poucas
vezes, e que, quando aconteceu, aconteceu em cenários diferentes, em que o
equilíbrio entre os candidatos ao título não tinha nada a ver com o que existe
hoje. Aliás, nunca vi o Porto a ser tricampeão este ano. Além da questão
estatística, o resto: a qualidade de jogo da equipa (pior do que o ano passado,
já com o Lucho, na minha opinião, o que atesta bem da qualidade do seu
treinador), a boa carreira na Liga dos Campeões (que é sinónimo, em 95 por
cento das vezes, a uma descompensação no campeonato, que ainda não se viu mas
se vai ver), a acomodação evidente em alguns jogos da Liga. Já vi o Porto ser
campeão muitas vezes, infelizmente, mas não me lembro de ver um Porto tão
fraco, em termos de jogo, como o que seria este ano se viesse a ser campeão.
Ora, para não ser campeão, também não vejo outro resultado
possível neste domingo que não seja a vitória do Benfica.
O Benfica não tem melhor equipa que o ano passado, nem está
a jogar melhor. A primeira metade da época foi de grande nível em termos de
confiança e forma física. Em termos de jogo, o Benfica que vai defrontar o
Porto e o mesmo, vai ter exactamente os mesmos problemas perante outra equipa
que vai ser exactamente igual ao que era há um ano. A única e eventualmente fundamental
diferença para o ano passado é que, há um ano, a equipa do Benfica chegava ao
jogo com o Porto de rastos quer física quer mentalmente, depois de duas semanas
de maus resultados e de um regresso de férias de Natal desastroso, enquanto o
Porto tinha os jogadores relativamente descansados devido à grande rotação
durante a primeira metade da época. Mesmo com a clara diferença física, que foi
evidente no 2-2, em que os jogadores do Benfica simplesmente não conseguiram
recuperar a tempo, o Porto só ganhou na Luz com um golo em fora-de-jogo, a poucos
minutos do fim, e (se não me engano) já a jogar contra 10.
Neste momento, e referindo que o Porto continua a ter uma
vantagem funcional nos jogos com o Benfica, que decorre do seu tipo de jogo
mais colectivo, feito para dar resultados nos jogos de grande pressão, em que o
erro é mais caro, só vejo duas maneiras do Porto ganhar na Luz:
- Se a equipa do Benfica entrar derrotada, a pensar nos resultados
dos últimos dois anos, e se acobardar – o que é um cenário bem possível, porque
a esta equipa do Benfica falta carácter de campeão;
- Ou se tiver a sorte do jogo (um vermelho que o árbitro não
consiga evitar mostrar, um golo numa altura crucial, qualquer coisa de anormal
que afecte o desenrolar normal do jogo).
É possível, e não seria nada de extraordinário.
Não acredito que aconteça. Objectivamente, sem superstições
nem receios, não vejo este Porto a ganhar na Luz a este Benfica, com Matic,
Lima e sem Emerson, e com força nas pernas e na cabeça para recuperar
desvantagens, como tem acontecido este ano. Este é um factor muito sintomático
do amadurecimento da equipa do Benfica. Só uma equipa a partir de um certo
nível de maturidade e qualidade colectiva é que consegue virar jogos, sem
entrar em pânico. Ainda não vi esta equipa do Benfica entrar em pânico este
ano. Não joga muito (joga depressa, o que é diferente), mas não entra em
pânico. Nesse sentido, a ser o Benfica o campeão, o jogo de Alvalade terá sido
decisivo, não só pelo resultado como pelo desenrolar do jogo. É o tipo de jogo
em que há pouco a ganhar e tudo a perder. O Benfica não perdeu. Veremos se,
para o Porto, será assim tão fácil.
O resultado natural, neste domingo, seria o empate a um golo,
ou a dois. Parece-me, no entanto, que vai acontecer o contrário do que
aconteceu o ano passado: o golinho fora do plano, nos últimos minutos, vai cair
para o lado do Benfica. Vai ser coerente com o cenário de grande equilíbrio
entre as duas equipas de que se vai falar daqui a uns anos, relativamente a
este período, e que começou na última época. As diferenças serão minímas e os
dois clubes terão histórias muito semelhantes para contar, parecendo tiradas a
papel químico.
De qualquer forma,
não vou ver o jogo a não ser daqui a uma semana. Vai ser uma experiência.
Depois de saber resultado e tudo o que
se disse, vou ver o jogo pela primeira vez, sem nervos, sem pressão, e fazer
uma leitura distanciada. Amanhã, nem sequer leio jornais. Tenho três exames nos
próximos seis dias, o primeiro dos quais às 8.15 de segunda-feira. A última
coisa de que preciso é de um Benfica-Porto a dar-me cabo da noite. Às vezes (e
esta é a primeira vez) é preciso saber pôr a doença no sítio.