Ponto 1 –
Lembrem-me de dizer mal do Cardozo antes de cada jogo decisivo. Resulta. A bola
vai batendo nos outros e entrando.
Ponto 2 –
o Benfica pode ter achado o próximo grande jogador do futebol português. Há uns
tempos disse que André Gomes me lembrava Zidane, neste momento lembra-me mais o
Paulo Sousa com 19 anos. Um portento. Daqui a dois anos estaremos a falar da
grande tragédia dos clubes portugueses: a de não conseguirem segurar os
jogadores nacionais que podem fazer deles grandes, permanentemente, na Europa.
Ponto 3 –
O Benfica pode ter começado aqui a ganhar o campeonato, se isso lhe permitir
chegar ao jogo com o Porto em vantagem pontual. Se isso acontecer, o desenrolar
desse jogo, pelas expectativas e ansiedade que deixará de gerar, será completamente
diferente. Uma das razões para o Benfica perder campeonatos para o Porto é
chegar ao jogo com o Porto, em casa, a precisar de ganhar sob risco de não ser
campeão. Um jogo em que um empate permita manter a liderança muda completamente
as coisas. É um facto histórico.
Ponto 4 - Se
o Benfica tivesse jogado, esta noite, com 11.º classificado da Liga e o 11.º
classificado fosse o Estoril-Praia, o jogo teria sido, provavelmente,
exactamente o mesmo que foi em Alvalade.
Para ganhar um jogo fora, contra uma equipa inferior, depois
de um jogo europeu de grande exigência mental, o que é preciso, mais que
técnica, táctica ou frescura física, é classe. Fazer o jogo necessário. Nestes
casos, a classe traduz-se por eficácia. Não é apenas passar a bola entre os
defesas – é atacar bem nas poucas vezes em que se ataca, e meter a batata na
baliza primeiro que o adversário, nem que demore 89 minutos (e se, aos 89 minutos,
a bola é rematada, bate numa canela, na parte de baixo da barra, e cai um palmo
dentro da baliza, nesse caso é muito bom sinal, porque é a estrelinha de
campeão a brilhar).
Quando se permite à equipa da casa jogar em contra-ataque,
seja o Moreirense ou o Sporting, o espaço e a vontade são tantas que quaisquer
problemas psicológicos desaparecem. Poder fazer figura de equipa pequena foi
óptimo para o Sporting, sobretudo porque, de facto, não há memória de uma
equipa do Sporting tão pequena como esta. Mas isso já toda a gente sabia, desde
os benfiquistas, acostumados a verem a lagartagem agigantar-se para ganhar a
Taça Segunda Circular todos os anos, aos dirigentes do Sporting, que, «à
Braga», aproveitaram todas as oportunidades para alimentar guerras artificiais.
Classe não é coisa que abunde nesta equipa do Benfica,
evidentemente. Mas a rotina a alto nível vai faendo a diferença e é assim que a
classe vai aparecendo. E, hoje, chegou. A segunda parte do Benfica, em
desvantagem, a jogar em Alvalade, e com mais um jogo europeu nas pernas na
semana passada, teve lampejos de classe e a sorte suficiente, sem a qual o
benfica não consegue ganhar em Alvalade.
Sim, mais um jogo europeu, leram bem. Porque…
Ponto 5: Só
um idiota é que se permitia, sequer, embarcar no folclore do «adiamento» e do
cansaço. Aliás, quando ouvi os comentadores da Sport TV a dizerem que a meio da
segunda parte «se notou o cansaço» fiquei a falar sozinho, e a perguntar: «Mas o cansaço de quê? De estarem sentados?»
É evidente que o Vercauteren estava preparado (e até
agradecia) para jogar até no dia seguinte ao jogo do Videoton, porque assim
teria tido o Benfica ainda menos refeito do decisivo jogo com o Barcelona, em
Barcelona,onde jogou com 9 ou 10 dos titulares de hoje, enquanto o Sporting
jogou com o Videoton com apenas três titulares de hoje. Qualquer nabo
conseguiria perceber que, quanto mais cedo fosse o jogo, melhor seria para o
Sporting. A última vez que os titulares do Sporting jogaram, entre Taça e Liga
Europa, foi para aí há um mês. Se a equipa do Sporting rebentou na segunda
parte é porque a sua preparação física é uma merda.
Se alguma equipa deveria ter rebentado na segunda parte essa
equipa deveria ter sido o Benfica. Aliás, o cansaço entre alguns jogadores do
Benfica foram óbvios (Garay, Ola John e Salvio incapazes de mudar de
velocidade, Maxi Pereira, até o Lima) até ao momento do golo, em que a perspectiva
de vitória os revigorou.
Ponto 6 –
Só hoje é que a época do Sporting ficou dramática. Perder com o Benfica, em
casa, é a única coisa que pode realmente estragar a época aos adeptos do
Sporting, e o Godinho já vai a caminho.
O Sporting fechou hoje a sua época – e, como não vai poder
voltar a jogar em contra-ataque até ao fim da época, à excepção do jogo como
Porto em casa, continuará a ter as
dificuldades das equipas pequenas para ganhar jogos de forma continuada.
Acabará a temporada em quarto ou quinto lugar mas, acima de tudo, perdeu com o Benfica
Ponto 7 – A
única coisa que fica, de realmente relevante, deste Sporting-Benfica, é a
certeza de que o Benfica terá de continuar a lutar sozinho contra o Porto, com
o Sporting a prestar-se ao papel de Sancho Pança, à espera que lhe caia
qualquer coisa no prato.
Para o Benfica, penso eu, acabará por ser bom, porque o
Sporting, historicamente, não mostra dimensão para ser mais que um outsider, que conseguirá, quanto muito, reclamar
algumas vitórias. Num cenário de luta Benfica-Sporting, sem Porto, o Sporting não
consegue superar o Benfica. Só tornará as coisas um pouco mais difíceis para o Benfica,
na luta contra o Porto, mas isso não é um problema incontornável. É uma questão
de tempo, e até pode ser melhor a emenda que o soneto.
Para o Porto, é óptimo. Uma aliança real Benfica-Sporting, a
longo prazo, destruiria a hegemonia portista. Com Benfica e Sporting separados,
o Porto terá, durante muito tempo, boas hipóteses de ganhar.
Para o Sporting, é trágico, porque se auto-sentencia a uma
eterna secundarização. Os Cristóvãos que ficaram a rodear o Godinho (e os que
vêm a seguir ainda vão ser piores) são muito mais broncos que os Duques que
foram saindo.
Os Duques tinham um plano. Iam fazer um tango, uma dança de
amor-ódio com o Benfica, para bater o Porto e, depois do rei decapitado, iam
tentar superiorizar-se ao Benfica. Era um bom plano, porque o Sporting ainda
tem qualidade estrutural para poder ser melhor que o Benfica. Difícil de concretizar,
impopular entre os adeptos, mas bom.
Agora, a única coisa que é, um arrojo aos pés do Porto para
bater o Benfica, que não tem nenhuma perspectiva além de aceitar ser um eterno
segundo, com grandes probabilidades de continuar a ser segundo mesmo que o
Porto venha a definhar, porque isso significaria que o Benfica teria ganho a
luta de superpotências actualmente em curso.
Hoje, o Benfica cumpriu, também, o seu destino natural: definiu o que vai ser a história do Sporting nos próximos anos.