Quando ouvi o Carlos Carvalhal, na RTP, há quinze dias,
dizer que, contra uma equipa de segundas figuras do Barcelona, «mal seria» se o
o Benfica não fosse favorito, admito que pensei cá com os meus botões: «Deve
ser, deve… Se não forem os russos a ganhar na Escócia bem fodidos estamos.»
Devo avisar que hoje, como já
devem ter reparado, vou ser bastante ordinário. Porque me apetece.
Afinal, o Carvalhal tinha razão. Admito. A «ideia» de
futebol do Barcelona – que é mais que uma ideia, é uma cultura –, quando não é
interpretada por meia-dúzia de freaks
da bola e quando não tem nada a ganhar, não é mais que uma vaga ideia, que
poderia perfeitamente ter sido batida com uma única e simples qualidade por
parte do Benfica: instinto assassino.
Azar.
É aquilo que este Benfica tem menos. Como eu já disse quinze
milhões de vezes, esta equipa do Benfica não é agressiva. Falta-lhe a qualidade
fundamental numa equipa de futebol. Chamem-lhe carácter, ambição, audácia,
chamem-lhe o que quiserem, mas o que falta a esta equipa do Benfica é colhões.
E enquanto lhe faltar colhões vai continuar a ser uma equipa de segunda, tenha
os jogadores que tiver. Sem colhões, o máximo que pode acontecer a uma equipa é
ir a uma ou outra final, de vez em quando, com muita sorte pelo meio, e
inevitavelmente perdê-la. Nada que o Benfica não tenha feito, por exemplo, em
1989 e 1991, e que, historicamente, acabou por significar exactamente nada,
como hoje facilmente se percebe.
Alguma classe, o Benfica até tem. Não é uma equipa
totalmente sem classe. Faz as coisas mais ou menos certinhas. Mas não as
consegue levar até ao fim porque lhe falta carácter.
Vi três momentos à campeão, hoje à noite, ao Benfica:
- quando entrou a defender em cima da baliza do Barcelona
(algo só possível porque o Barcelona jogou sem nenhum dos seus quatro cérebros –
Iniesta, Xavi, Busquets e Messi – que teriam facilmente transposto, em três passes,
a primeira linha defensiva do Benfica);
- quando o Luisão virou o Messi ao contrário na primeira vez
que o encontrou, de maneira a que ele entendesse que aquilo não era um jogo-treino
nem um jogo para os recordes;
- e quando o Maxi Pereira deu duas ripadas seguidas no
extremo do Barcelona a meio da segunda parte, quando se percebeu que o pessoal
do meio-campo tinha entrado em modo zombie.
Tudo o resto – e o resto é o que fica, porque é o que define
o resultado – foi, basicamente, uma cambada de pachachinhas encolhidas, todas
molhadinhas por estarem a jogar com o Barcelona, algumas – André Gomes, Ola
John, Nolito – com um bocadinho mais de classe que outras, alguma gente que vai
poder ganhar alguma coisa quando tiver quatro ou cinco jogadores com colhões a
jogar a seu lado, mas, no fundo, apenas uma cambada de pachachinhas, que foi fazer
um jogo de futebol a Barcelona e não conquistar um apuramento na Liga dos
Campeões a Barcelona, incapaz de cravar o punhal no momento em que o adversário
estava à mercê, incapaz de ter a audácia suficiente para entrar na história,
gente de fraca dimensão, que não tem, realmente, massa de campeã.
Como todos sabem, é-me um bocado igual ao litro se o Benfica
passa ou não passa aos oitavos-de-final da Liga dos Campeões. Continuo a achar
que é um desperdício de recursos humanos quando se quer ser campeão nacional e nem
sequer se tem a melhor equipa nacional. O que me chateou nesta noite foi voltar
a perceber que o que tirou este apuramento ao Benfica foi a mesma fraqueza que
lhe tirou o título no ano passado, e que tirará este ano, a menos que haja
algum bambúrrio ou que o Porto chegue às meias-finais da Champions e cague no
campeonato. A mesma fraqueza mental que levará a que, mesmo ganhando este
campeonato, seja praticamente impossível ganhar o próximo, como levou a que
fosse uma miragem a repetição do título em 2011. É a mesma debilidade.
É a mesma debilidade que acompanha o Benfica há cerca de 30
anos, e que a classe ocasional de alguns jogadores e treinadores e as contingências
próprias do futebol têm disfarçado: ao Benfica, à sua equipa de futebol, falta
carácter, espírito de conquista, agressividade, instinto assassino. Não falta,
nunca faltou, jogadores: falta, e sempre faltou, competidores. Massa de
campeão. Mais do que verniz de campeão, estofo.
Os benfiquistas podem continuar a falar de jogadores, de
ilusões, durante mais 30 anos, mas só voltarão a ter uma equipa de futebol de
topo europeu quando começarem a distinguir competidores de jogadores.
O que é que diferencia os grandes clubes europeus dos de
segunda linha? Os grandes clubes europeus gastam algum dinheiro em talento,
claro que sim, sem talento não há diferença, mas, quando querem, enfim, passar
da qualidade às vitórias, ganhar, o que os clubes vitoriosos compram é
carácter.
O carácter é mais raro que o talento.
Não queria acabar sem falar do Cardozo. O Benfica não foi
eliminado por causa do Cardozo, nem o Cardozo é hoje pior ou melhor jogador que
era há duas semanas. Foi mais importante, na eliminação do Benfica, o árbitro
paneleiro do Celtic-Spartak (vi o jogo aos bochechos mas nesses bocados não vi
nenhuma decisão do tipo que não mostrasse uma vontade enorme de fazer um favor
ao fair-play e ao politicamente correcto e que não favorecesse o Celtic, culminando
naquele penálti absurdo), a derrota em Moscovo (por falta de agressividade) ou
o jogo em que o Celtic toca duas vezes na bola e ganha ao Barcelona por 2-1.
Mas, na última jogada do desafio, com o apuramento nos pés, isolado
em frente ao guarda-redes, em corrida, o Cardozo – jogador de 28 anos, com toda
a experiência possível e num momento de plenitude profissional, a jogar um dos
desafios mais importantes da sua carreira – porque a bola lhe vai para o pé
direito e porque tem de se virar para a baliza em corrida, o Cardozo, atentem
bem… tropeça na bola. O Cardozo tropeça na bola.
E isso, meus caros amigos benfiquistas, mesmo que se consiga
marcar 500 golos ao Santa Clara, ao Penafiel, ao Setúbal, ao Nacional da
Madeira, isso define um jogador.
Não quero dizer aos meus caros amigos que metam o Cardozo no
cú. Não quero. Mas só porque já o disse há muito tempo, aqui neste blog, e numa
altura em que, salvo erro, ele até era o melhor marcador do campeonato.
Enquanto o seu jogador-chave for um Cardozo (este ou outro),
as hipóteses do Benfica ter uma boa equipa europeia durante uma década, por
exemplo, são exactamente iguais a zero. Seja lá qual for a «ideia de jogo» que o
treinador do Benfica, por mais inteligente que se considere, tenha.
Quanto ao resto, é saber o que se quer, para se escolher o
que se tem.
Sirva ao menos para isso mais esta derrota.