quarta-feira, 5 de dezembro de 2012

Uma equipa de pachachinhas


Quando ouvi o Carlos Carvalhal, na RTP, há quinze dias, dizer que, contra uma equipa de segundas figuras do Barcelona, «mal seria» se o o Benfica não fosse favorito, admito que pensei cá com os meus botões: «Deve ser, deve… Se não forem os russos a ganhar na Escócia bem fodidos estamos.»
Devo avisar que hoje, como já devem ter reparado, vou ser bastante ordinário. Porque me apetece.
Afinal, o Carvalhal tinha razão. Admito. A «ideia» de futebol do Barcelona – que é mais que uma ideia, é uma cultura –, quando não é interpretada por meia-dúzia de freaks da bola e quando não tem nada a ganhar, não é mais que uma vaga ideia, que poderia perfeitamente ter sido batida com uma única e simples qualidade por parte do Benfica: instinto assassino.
Azar.
É aquilo que este Benfica tem menos. Como eu já disse quinze milhões de vezes, esta equipa do Benfica não é agressiva. Falta-lhe a qualidade fundamental numa equipa de futebol. Chamem-lhe carácter, ambição, audácia, chamem-lhe o que quiserem, mas o que falta a esta equipa do Benfica é colhões. E enquanto lhe faltar colhões vai continuar a ser uma equipa de segunda, tenha os jogadores que tiver. Sem colhões, o máximo que pode acontecer a uma equipa é ir a uma ou outra final, de vez em quando, com muita sorte pelo meio, e inevitavelmente perdê-la. Nada que o Benfica não tenha feito, por exemplo, em 1989 e 1991, e que, historicamente, acabou por significar exactamente nada, como hoje facilmente se percebe.
Alguma classe, o Benfica até tem. Não é uma equipa totalmente sem classe. Faz as coisas mais ou menos certinhas. Mas não as consegue levar até ao fim porque lhe falta carácter.
Vi três momentos à campeão, hoje à noite, ao Benfica:
- quando entrou a defender em cima da baliza do Barcelona (algo só possível porque o Barcelona jogou sem nenhum dos seus quatro cérebros – Iniesta, Xavi, Busquets e Messi – que teriam facilmente transposto, em três passes, a primeira linha defensiva do Benfica);
- quando o Luisão virou o Messi ao contrário na primeira vez que o encontrou, de maneira a que ele entendesse que aquilo não era um jogo-treino nem um jogo para os recordes;
- e quando o Maxi Pereira deu duas ripadas seguidas no extremo do Barcelona a meio da segunda parte, quando se percebeu que o pessoal do meio-campo tinha entrado em modo zombie.
Tudo o resto – e o resto é o que fica, porque é o que define o resultado – foi, basicamente, uma cambada de pachachinhas encolhidas, todas molhadinhas por estarem a jogar com o Barcelona, algumas – André Gomes, Ola John, Nolito – com um bocadinho mais de classe que outras, alguma gente que vai poder ganhar alguma coisa quando tiver quatro ou cinco jogadores com colhões a jogar a seu lado, mas, no fundo, apenas uma cambada de pachachinhas, que foi fazer um jogo de futebol a Barcelona e não conquistar um apuramento na Liga dos Campeões a Barcelona, incapaz de cravar o punhal no momento em que o adversário estava à mercê, incapaz de ter a audácia suficiente para entrar na história, gente de fraca dimensão, que não tem, realmente, massa de campeã.

Como todos sabem, é-me um bocado igual ao litro se o Benfica passa ou não passa aos oitavos-de-final da Liga dos Campeões. Continuo a achar que é um desperdício de recursos humanos quando se quer ser campeão nacional e nem sequer se tem a melhor equipa nacional. O que me chateou nesta noite foi voltar a perceber que o que tirou este apuramento ao Benfica foi a mesma fraqueza que lhe tirou o título no ano passado, e que tirará este ano, a menos que haja algum bambúrrio ou que o Porto chegue às meias-finais da Champions e cague no campeonato. A mesma fraqueza mental que levará a que, mesmo ganhando este campeonato, seja praticamente impossível ganhar o próximo, como levou a que fosse uma miragem a repetição do título em 2011. É a mesma debilidade.
É a mesma debilidade que acompanha o Benfica há cerca de 30 anos, e que a classe ocasional de alguns jogadores e treinadores e as contingências próprias do futebol têm disfarçado: ao Benfica, à sua equipa de futebol, falta carácter, espírito de conquista, agressividade, instinto assassino. Não falta, nunca faltou, jogadores: falta, e sempre faltou, competidores. Massa de campeão. Mais do que verniz de campeão, estofo.
Os benfiquistas podem continuar a falar de jogadores, de ilusões, durante mais 30 anos, mas só voltarão a ter uma equipa de futebol de topo europeu quando começarem a distinguir competidores de jogadores.

O que é que diferencia os grandes clubes europeus dos de segunda linha? Os grandes clubes europeus gastam algum dinheiro em talento, claro que sim, sem talento não há diferença, mas, quando querem, enfim, passar da qualidade às vitórias, ganhar, o que os clubes vitoriosos compram é carácter.
O carácter é mais raro que o talento.

Não queria acabar sem falar do Cardozo. O Benfica não foi eliminado por causa do Cardozo, nem o Cardozo é hoje pior ou melhor jogador que era há duas semanas. Foi mais importante, na eliminação do Benfica, o árbitro paneleiro do Celtic-Spartak (vi o jogo aos bochechos mas nesses bocados não vi nenhuma decisão do tipo que não mostrasse uma vontade enorme de fazer um favor ao fair-play e ao politicamente correcto e que não favorecesse o Celtic, culminando naquele penálti absurdo), a derrota em Moscovo (por falta de agressividade) ou o jogo em que o Celtic toca duas vezes na bola e ganha ao Barcelona por 2-1.
Mas, na última jogada do desafio, com o apuramento nos pés, isolado em frente ao guarda-redes, em corrida, o Cardozo – jogador de 28 anos, com toda a experiência possível e num momento de plenitude profissional, a jogar um dos desafios mais importantes da sua carreira – porque a bola lhe vai para o pé direito e porque tem de se virar para a baliza em corrida, o Cardozo, atentem bem… tropeça na bola. O Cardozo tropeça na bola.
E isso, meus caros amigos benfiquistas, mesmo que se consiga marcar 500 golos ao Santa Clara, ao Penafiel, ao Setúbal, ao Nacional da Madeira, isso define um jogador.
Não quero dizer aos meus caros amigos que metam o Cardozo no cú. Não quero. Mas só porque já o disse há muito tempo, aqui neste blog, e numa altura em que, salvo erro, ele até era o melhor marcador do campeonato.
Enquanto o seu jogador-chave for um Cardozo (este ou outro), as hipóteses do Benfica ter uma boa equipa europeia durante uma década, por exemplo, são exactamente iguais a zero. Seja lá qual for a «ideia de jogo» que o treinador do Benfica, por mais inteligente que se considere, tenha.

Quanto ao resto, é saber o que se quer, para se escolher o que se tem.

Sirva ao menos para isso mais esta derrota.

sexta-feira, 30 de novembro de 2012

A derrota do trabalho


Não sou, como todos bem sabem, propriamente um jesuíta, mas há algo de profundamente imoral quando um arrivista como o TOC – que antes de receber de bandeja o cargo mais fácil do futebol mundial (e de o fazer parecer, não o esqueçamos, um bicho de sete cabeças), não tinha feito nada de nada – se arroga, de sobrancelha franzida e nariz empinado, a dar lições de trabalho a um tipo como o Jorge Jesus, que, no futebol português, já passou por tudo e mais alguma coisa, que subiu a pulso (com ou sem vitaminas) e que, até ver, é dez vezes mais treinador do que ele.

«A sorte dá trabalho», diz o TOC, antes e depois de, num jogo perfeitamente equilibrado, marcar um golo no último minuto, com dois ressaltos num remate falhado a fazerem a bola passar por cima do guarda-redes.

Tenho uma aversão extrema aos tipos que acham que só eles é que trabalham, e que ninguém trabalha mais do que eles. Não vejo neles grande diferença para os troikistas do Norte (neste caso da Europa) que, privilegiados pelo sistema em que vivem – e cuja construção não é mérito deles mas dos que os antecederam – acham que podem decidir que os outros não trabalham, ou porque não querem ou porque não sabem, e que por isso não merecem nada.

É suposto o Jorge Jesus, que anda nisto há 30 anos, ou o Peseiro, que já fez cinquenta vezes mais piscinas que o Vítor Pereira, serem desrespeitados por um idiotazinho encartado que teve a sorte (a sorte!) de arranjar um bom emprego?

Porque o que o TOC disse, mesmo, foi isto: «Ah, ele diz que temos sorte em Braga? O que ele está a dizer é que quando lá vamos somos favorecidos.» Vai daí, ataca, pelo único ponto em que pode pegar: o dos resultados.

Se o Vítor Pereira ganhou com um golo às três tabelas aos 89 minutos, o José Peseiro, que pôs uma equipa inferior a jogar de igual para igual e, muitas vezes, melhor que o Porto, perdeu porque trabalhou menos ou pior?

Gostava de ter visto o inginhêiro Salbador a defender o seu treinador como teria defendido, certamente, se tivesse sido o Jesus a gabar-se de ser melhor que o Peseiro (como aconteceu com o Domingos), da mesma forma que gostaria de ter visto a reacção do inginhêiro Salbador se, em vez do Alex Sandro, tivesse sido o Melgarejo a fazer aquele penálti nítido e o Braga perdesse no último minuto, como gostaria de saber se também passaram fotografias do penálti do Fernando sobre o Hugo Viana por baixo da porta do Benquerença no final do jogo de hoje.

Ficamos, também, sem saber se, nos últimos cinco dias, o Porto deixou de trabalhar bem ou se, simplesmente, teve o azar de, em vez de marcar um golo às três tabelas no último minuto, sofrer um auto-golo inaceitável até para um iniciado a dez minutos do fim.

O Pereira anda inchado, e eu gosto disso. Gosto de o ver a cagar de alto para o Jesus, a dizer que se ri quando olha para o que ele ganha, a dizer que quem não ensina a sua equipa a controlar um jogo é incompetente, da mesma maneira que gosto de ver o Peseiro a dizer que este é o melhor Porto desde o Mourinho. Gosto de ver isso tudo porque tudo isso é manifestamente exagerado e arrogante. Gosto de ver que se toma esta equipa do Porto, e este treinador, como algo muito melhor do que aquilo que são.

Também gosto bastante de ver toda a gente, a começar pelo próprio treinador, a dizer que o Porto está mais forte sem o Hulk, porque agora «é mais equipa e depende menos das individualidades». Gosto bastante porque me lembro perfeitamente de ouvir o Pinto da Costa dizer na sequência da vitória do Benfica no campeonato de 2010, que «só um atrasado mental (sic) é que acha que qualquer equipa do Mundo fica mais forte sem um jogador como o Hulk.»

É toda uma mistificação do tão tentado «campeonato dos túneis» que cai por terra – o tal campeonato em que o tal Porto prejudicado perdeu tantos pontos a jogar com o Hulk como sem o Hulk, e em que já estava a 8 pontos do Benfica antes do Hulk começar aos pontapés aos gorilas. Afinal, do que o Porto precisava para ser uma equipa sério era de vender o terceiro melhor jogador do mundo, que foi jogar para o Zenit de São Petersburgo.

Em relação ao jogo de hoje, fico com algumas ideias:

- que o Braga, a jogar contra os suplentes do Porto, e numa competição que pode ganhar, não conseguiu jogar tão motivado como se esperaria. Vai ser preciso o Benfica ir lá, em Fevereiro, para podermos voltar a ver o Braga a encontrar a sua razão de existir, o Mossoró a comer a relva, o Alan a ter outra vez 20 anos, o Hugo Viana a reaprender a marcar livres. É tudo uma questão de motivação;

- que o Pinto da Costa não vai dizer «desta já nos livrámos», porque, se dissesse, algué poderia pensar que foram lá jogar com os suplentes por favor;

- e que, no fim deste miniciclo fratricida (que, estupidamente, os cérebros da Santa Aliança ainda não encontraram maneira de evitar), aconteceu, por pura coincidência, aquilo que já tinha acontecido nos últimos dez jogos entre Braga e Porto: cada um teve o resultado que precisava, sem prejudicar em demasia o outro. O Porto ganha na prova que quer ganhar e é eliminado (ia a dizer retribui com uma derrota, mas não quero ser mal interpretado…) na prova em que dificilmente teria disponibilidade para ganhar; o Braga perde na prova em que já tem o lugar praticamente definido (o terceiro, entenda-se) e ganha na prova que, realmente, quer ganhar.

Foi uma questão de sorte, certamente, porque em Braga se defrontaram as duas únicas equipas e os dois únicos clubes que trabalham em Portugal.

Pode ser que tenham azar…

domingo, 11 de novembro de 2012

Um problema de cada vez


Tenho de confessar que já não via o Benfica jogar com atenção há uns tempos. Foi hoje. Porque não gosto de fazer figura de velho dos Marretas e dizer mal só por dizer. Fiquei genuinamente atento a ver o que estava diferente, o que estava igual, e o que pensar dos novos jogadores.

Em relação ao resultado, nenhuma dúvida: depois de um jogo da Champions, e antes de um Braga-Porto, é  o tipo de resultado que, no final da época, faz a diferença entre uma equipa campeã e as outras. É muito possível que, daqui a uma jornada, o Benfica seja líder isolado.
Tal como na época anterior, o Benfica está a fazer um melhor campeonato, em termos de resultados, do que o Porto. Empatou um jogo em casa com o Braga e um fora, com a Académica. Dois resultados completamente aceitáveis num percurso à campeão - tal como o seria se empatasse em Vila do Conde.
Este é, tradicionalmente, o momento mais forte da época para o Jesus (entre a 3.ª/4ª e a 10ª/11ª jornadas). Tal como no ano passado, o jogo com o Sporting vai ser fundamental, e o do Porto, em casa, decisivo, mesmo sendo à 14.ª jornada.
 
Esta é a conjuntura.

Quanto à «estrutura», acho que a forma do Jesus pensar o futebol é relativamente simples de entender. É um treinador de esquemas. Divide o jogo em bocados e tenta encontrar um esquema. Tem os lançamentos laterais, os cantos ofensivos, os cantos defensivos, o ataque do lado esquerdo, o ataque do lado direito, a defesa por aqui, a defesa por ali, tem a defesa, o meio-campo e o ataque, e depois vai montando o jogo, retalho a retalho. Foi o que o futebol português lhe ensinou.

Porque é que o Cardozo, para o Jesus, não tem preço? Porque há um bocado do jogo (para aí cinco ou seis vezes em noventa minutos) em que a bola vai dar à grande área, e um tipo que consiga meter o pé e, de primeira, enfiá-la na baliza nem que seja um terço das vezes, resolve esse bocado. Não serve para nada noutros bocados? Arranja-se um esquema.

O Jesus nunca vai perder um campeonato por não ter jogadores pesados, porque aprendeu, ao longo dos anos, em todas as divisões, que o futebol português tem campeonatos que se decidem no Inverno e em maus relvados.

O Jesus nunca vai perder um campeonato nos pontapés de canto ou por ter centrais baixos, porque sabe que noventa e cinco por cento das jogadas de ataque de todos os jogos do campeonato acabam num cruzamento para a área.

Nunca vai perder um campeonato por jogar sem um trinco que varra a intermediária, porque sabe, por experiência, que, num campeonato de pontapé para a frente e pouca capacidade técnica, praticamente todas as jogadas de perigo das equipas pequenas, em casa, resultam das segundas bolas.

É assim, ao fragmentar o jogo e tentando resolver cada fragmento um a um, tentando retirar aos jogadores o máximo de importância em cada acção (porque sabe que o jogador é um animal pouco fiável, basicamente calão e geralmente com pouca vontade de triunfar, ao contrário dele), que o Jesus vai ganhando campeonatos, apuramentos para a Europa, subidas de divisão.

Foi assim que chegou à Luz e, sendo campeão na primeira época, se convenceu, para todo o sempre, que essa maneira de trabalhar chegava. Encarou essa vitória como a prova concludente de que era o melhor condutor do mundo.

É esse o limite do Jesus, e é esse o limite da equipa do Benfica, que nunca vai deixar de ser campeão por não ter centrais altos, trincos, matadores e jogadores especialistas em alguns momentos do jogo, mas que nunca conseguirá ser uma equipa capaz de ligar as diferentes fases do jogo. Porque não jogadores nem treinadores com espírito colectivo suficiente para isso.

Pode vir a ser campeã, mas apenas se o Porto se deixar convencer de que não há hipótese de não cilindrar qualquer equipa do campeonato em dez minutos. Se isso acontecer, há uma hipótese de que, num dos jogos entre-Champions, esses «dez minutos à campeão» não resultem e que o Benfica, se se mantiver por perto, aproveite, no momento certo, para os enganar. Fora desse cenário, é irrealismo. O Porto é uma equipa que se situa num patamar competitivo entre o lugar 12 e 16 da hierarquia europeia, o Benfica estará sensivelmente entre as posições 25 e 30. Em cada dez jogos disputados em terreno neutro, em condições de igualdade de motivação e necessidade de ganhar, o Benfica ganha dois, empata dois e perde seis. E, da maneira como o campeonato está desequilibrado a favor destas duas equipas, para o Benfica ser campeão empatar não chega.

 

Em relação aos jogadores, confirmo o que pensei na altura da contratação do Ola John. Tem escola, faz-me lembrar o Ruud Gullit, mas muito menos potente, e é, claramente, um extremo-pivot, parecido com o Gaitán, que faz jogar, menos veloz, menos técnico, mas claramente mais inteligente e muito mais colectivo.

O Matic é um excelente jogador, claramente diferente do Javi Garcia, muito menos especialista na primeira fase defensiva mas muito mais completo, e eu diria mesmo que mais próprio de uma grande equipa europeia do que o Javi Garcia em termos de características, por ter visão de jogo, capacidade técnica e comprimento e largura de jogo. Não é um jogador unidimensional, como Javi. Mas também não tem o seu carácter – e o que as grandes equipas compram é carácter. Talvez se revele, com a rodagem.

O Melgarejo esta melhor, obrigado, mas quando apanhar com o James vai ficar despido da cintura para baixo.
 
O Enzo Pérez, técnica e tacticamente, é bom jogador. Tem fibra. Vamos ver o que vale para a equipa a longo prazo. Penso que, pelo menos, não será difícil vendê-lo acima do preço de custo.

O Lima tem tantos golos nos pés como o Cardozo, e mais jogo. Ao vê-lo jogar, cada vez mais me convenço que tinha razão ao pensar que, nesta equipa do Benfica, qualquer avançado com o mínimo de espírito assassino marca 40 golos por ano, sem ter de ser uma nulidade em todas as outras fases do jogo, como é o Cardozo. O Cardozo está numa fase boa, está maduro, deixou de perder muito tempo a tentar fazer o que não sabe e, por isso, está muito mais confiante em si próprio e parece melhor jogador. É o normal num jogador que chega aos 30 anos. Tem mais 30/40 golos até acabar a sua carreira no Benfica. Há um, dois anos, teria sido bem vendido, indo buscar um Lima qualquer. Actualmente, já não faz muito sentido pensar nele como jogador para vender, mas antes como um investimento consumado, para jogar mais dois ou três anos, fazer de conta que se dá muito valor aos jogadores-património e ir aproveitando os seus bons momentos, que, contra os Setúbais deste campeonato, valem alguns pontos.

Quanto aos outros, uma palavra só para o Rodrigo e para o Sálvio. O Freitas Lobo perguntava na televisão, há uns dias, o que se passava com a evolução do Rodrigo. Passa-se exactamente aquilo que eu previ, há um ano, que se passaria: a falta de cultura colectiva do treinador e da equipa leva a que o Rodrigo, como o Sálvio, como o Gaitán, antes dele, como o Nolito, como o Bruno César, como outros, confundam «jogar bem» com «jogar sozinho».
Por isso, sendo um jogador muito melhor que os outros, insiste no individualismo, agarra-se à bola e tenta resolver os jogos isoladamente, levando a que tente fazer o que sabe e o que não sabe e a tomar constantes opções erradas. Como é muito forte, vai aparecendo para marcar os seus golos. A imprensa alimenta os egos para vender capas, toda a gente gosta muito, convence-se de que assim é que é, e uma deficiência pontual e perfeitamente corrigível no processo de crescimento de um jogador excepcional transforma-se num defeito.
Ainda hoje, ao assistirmos a um jogo do Chelsea, podemos ver, perfeitamente, a quantidade de erros fundamentais que David Luiz, um dos melhores centrais do Mundo em potência, comete ao longo do jogo, colocando-o à mercê do azar. Porquê? Porque o menino era tão lindo que não havia nada a ensinar-lhe. A não ser as «tácticas», claro…
 
 

quinta-feira, 8 de novembro de 2012

A teoria do resgate


Olho para esta equipa do Sporting e penso em várias coisas.

1 – Lembro-me das piores épocas do Benfica, em que acabávamos em quarto, quinto, sexto, em que levávamos sete do Celta. Mesmo assim, no Benfica foi pior. Mas vejo um clube desmontado, à beira do resgate.

2 – Tenho vontade de ser presidente do Benfica, ligar ao Fodinho Lopes, e dizer-lhe. «estou disposto a ficar-te com o Elias até ao final da época, pagando-lhe o salário, com opção de compra por 5 milhões a qualquer momento do empréstimo. E ofereço-te mais dois milhões por 70 por cento do André Martins.»

3 – «Mete a tua televisão a funcionar, e não faças mais contratos com o Oliveira. Quando o teu acabar juntamos os nossos dois pacotes em casa, vendemo-los em conjunto ou exploramo-los em conjunto e tiramos o tapete àqueles cabrões. Mas não te vais sentar ao lado do papa, senão esquece.»

4 – Quanto é que vale o Rojo em relação ao Jardel? Ou ao Melgarejo?

5 – Quanto é que vale o Labyad em relação ao Nolito?

6 – Quem é que o Sporting vai conseguir vender acima de 60 por cento do seu valor real? Se não conseguir vender mais ninguém, o Sporting pode recusar uma oferta de 7 milhões por Rui Patrício? Ou de 6 pelo Volkswagen? Ou de 4 por Insúa? Ou por Capel (só porque é espanhol)? Ou de 3 por Adrien?

7 – E para o ano, se não for, outra vez, à Liga dos Campeões?

8 – O Sporting vai, forçosamente, melhorar, pela qualidade dos jogadores que tem, porque mudou de treinador e porque a segunda metade do campeonato é muito mais fácil. Não dou como líquido que o Sporting não consiga recuperar os 10 pontos que tem para o Braga, sobretudo se for ajudado pelas arbitragens e se o Braga continuar a competir na Europa para lá de Fevereiro.

9 – A mudança de treinador não teria sido impeditiva de o Sporting fazer uma boa época. Pelo contrário. Se tivesse ocorrido mais cedo, possivelmente o Sporting estaria ainda perfeitamente dentro da corrida pelo título. A bravata do Sá Pinto («Não sou homem para desistir») foi o pior serviço que fez ao Sporting. Deveria ter tido a lucidez para sair pelo seu próprio pé. Tudo o que estava certo, no Sporting, continuaria bem, e o que estava mal teria sido mudado.

10 – Só esta valente merda deste clube é que seria capaz de me fazer falhar tão calorosamente uma previsão de campeão por duas vezes – a época em que o Jesus chegou ao Benfica, e em que o Sporting ficou a cerca de 500 pontos do primeiro lugar, e agora esta.

No entanto, quero aproveitar a minha série de sucesso e os meus augúrios para deixar aqui mais uma previsão, esperando que os resultados sejam os correspondentes: o campeão nacional vai ser o Porto, à vontadinha…

quarta-feira, 7 de novembro de 2012

Há unicórnios à chuva


Quem é familiar da minha lógica sabe que não estou a ser irónico quando digo que o resultado ideal para o Benfica, hoje, teria sido uma derrota com o Spartak de Moscovo. E até sabem logo porque é que digo isto.

Em termos de resultados a época estava a correr muito bem para o Benfica.

No campeonato ainda não tem nenhum ponto de atraso para o Porto. Uma das condições para ser campeão é chegar ao jogo com o Porto, em casa, pelo menos em igualdade pontual. Teve dois resultados que considero (ao contrário das exibições, como é evidente) muito bons: os 3-0 em Barcelos e na Luz, ao Vitória, condicionados pelas eliminatórias das Champions e quando o Porto teve jogos fáceis, para somar. O próximo, com o Rio Ave, é realmente importante, pois provavelmente daria a liderança do campeonato em caso de vitória. Teve dois resultados relativamente maus, mas aceitáveis num cenário de vitória no campeonato.

Na Europa, sim, as coisas estavam a correr verdadeiramente bem.

Primeiro, desde logo, porque, como disse o Jesus, calhou no grupo do Barcelona, o que inviabilizou imediatamente a possibilidade de primeiro lugar, que lhe daria a possibilidade forte de voltar a acontecer o que aconteceu no ano passado, em que teve de jogar duas eliminatórias da Champions na segunda metade da época.

A única coisa pior do que isso seria aquilo que provavelmente vai acontecer, que é acabar em terceiro, que só dá trabalho – a menos que aconteça como aconteceu ao Porto, apanhando um Manchester City para arrumar o assunto logo em Janeiro. Caso contrário, o Benfica arrisca-se a apanhar com os devaneios europeus do JJ e do Orelhas e de passar três meses a jogar às quartas-feiras para depois cair nas meias-finais da Taça do Courato – ou Liga Europa, como também é chamada pela UEFA e pelo jornal O Jogo.

Não. Importaria acabar em segundo para jogar com o Real Madrid ou, se possível, ficar mesmo em quarto.

Qualquer benfiquista que partilhe das ilusões do animal híbrido Jesurelhas – de que é possível competir em mais do que uma competição a sério com este plantel, sem inevitavelmente as perder todas – precisa de ir à rua tirar o unicórnio da chuva.

Pela mesma lógica, muito bom é o primeiro lugar do Porto. Espero que sim. Espero que fiquem em primeiro, e que joguem com o Spartak de Moscovo ou com o Shaktar Donetsk nos oitavos-de-final, que passem outra vez e que possam encontrar, depois, um Dortmund qualquer.

O presumível apuramento do Braga para a Liga Europa é um bónus.

A eliminação do Sporting um brinde.

Se ficar fora da Europa em Janeiro, e se ganhar ao Porto em casa – obrigatório – o Benfica, mesmo sem jogar nada, pode ser campeão, por uma mera razão de recursos humanos. Nem o Jesus conseguiria lixar isto. Bom, quer dizer…

A questão do pessoal é a outra parte que está a correr muito bem ao Benfica. A sorte está a fazer o trabalho do Jesus pelo Jesus. Também aqui, o homem não está a ter hipótese para lixar isto. Perdeu o Javi e o Witsel na véspera do fecho do mercado, o Luisão perdeu 10 jogos por castigo, semana sim, semana não perde o Aimar, o Martins, o Matic, o Gaitán, o Sálvio, o Melgarejo…

O resultado disto é que a gestão do plantel está a ser a ideal. Basta tirar ao Jesus a gestão dos jogadores para as coisas começarem a correr bem. Os supostos problemas com o plantel vão resultar, simplesmente, nisto: em Janeiro, à entrada para a parte decisiva da época (quando a perdeu há um ano), o Benfica vai ter as soluções de que, na última época, o Jesus prescindiu (Amorim, Martins, Nélson Oliveira, Saviola) e que este ano foi forçado a inventar (Luisinho, Jardel, André Gomes, André Almeida, Ola John, Enzo Pérez no meio, mais Luisão fresco, mais Gaitán fresco, mais Nolito fresco, mais o reforço no meio-campo que vai chegar em Janeiro). É, potencialmente, a melhor situação em que o Benfica chega a Janeiro desde que o Jesus tomou conta da equipa, e, por si só, será mais do que suficiente para garantir pelo menos o segundo lugar do campeonato.

 

Em relação à Champions propriamente dita, surpreende-me que o Celtic tenha ganho, mas não que o Barcelona não tenha ganho. Achei peregrina, desde o início, a lógica do Jesus de que o Barcelona não entrava nas contas, só porque ganhou na Luz por 2-0. Em vinte anos de Champions só deve ter havido duas ou três equipas a ganhar os jogos todos, e não tem a ver com a qualidade das equipas. Tem a ver com a motivação, com a gestão do plantel, com a necessidade de fazer o resultado, com o simples azar. A derrota do Barcelona hoje, por exemplo, foi-lhe perfeitamente indiferente. De qualquer maneira, com mais uma vitória (frente ao Benfica, por exemplo), faz 12 pontos e é primeiro. Para o Celtic, pelo contrário, era um dos jogos do ano. O Celtic é o caso típico daquela equipa medíocre que aparece todos os anos, a quem as coisas correm bem, e que são apuradas apesar de serem uma das equipas mais fracas da competição (como o APOEL no ano passado). Aquele jogo em Moscovo seria suficiente para perceber isso, e o jogo de ontem confirmou-o.

Sempre tomei como líquido que o Barcelona empataria, pelo menos, um jogo fora. Não percebo como é que um homem tão atento a todas as estatísticas não percebeu isso. Ou, se calhar, até percebo, mas pronto, ele também não é parvo e já sabe o que os tolos papam… E como sabe o que os tolos comem vai dizer que perdeu o apuramento porque o Celtic fez o resultado o Barça. Tretas. O Benfica perdeu o apuramento em Moscovo. Empatando, seria segundo no grupo

 

Neste momento, o que eu, como maquiavélico que sou, desejaria que o Benfica perdesse os próximos dois jogos ou que, fazendo um ponto, o Spartak fizesse três. O terceiro lugar é o pior lugar do grupo.

Há apenas uma hipótese, ténue, de apuramento, que implica ganhar por vários golos ao Celtic (o que é o mais fácil, apesar de tudo, porque o Celtic não joga mesmo nada, desde que a sorte os abandone), e depois esperar que os russos marquem primeiro, na última jornada, na Escócia, uma vez que o problema dos russos é psicológico. Quando marcam primeiro, é quase impossível ganhar-lhes. Quando sofrem um golo antes de marcar vão-se imediatamente abaixo.

É possível que o Spartak ganhe na Escócia, assim como é possível ao Benfica ir empatar a Camp Nou se o Barcelona estiver apurado.

Sim, é possível o Benfica não acabar em terceiro lugar do grupo. As possibilidades são de aproximadamente… 2 por cento.

terça-feira, 23 de outubro de 2012

Grande futuro


Equipa gira, a do Benfica.

Uma equipa que sabe jogar conforme o jogo e o adversário;

 que tanto é capaz de controlar a bola como de arriscar mais com segurança defensiva;

que sabe o valor de marcar um golo na Rússia, na Liga dos Campeões, contra uma equipa encostada à parede, quando não se jogou (espectacularmente) muito bem até essa altura;

que percebe o valor de não sofrer golos, nessa mesma situação, nem nos primeiros dez minutos nem nos últimos cinco minutos de cada parte;

que joga tão bem na relva natural como sintética;

que aprende depressa;

que põe os jogadores a fazerem aquilo que sabem, e não aquilo que não sabem;

eficaz em frente às duas balizas;

com fio de jogo a atacar e jogo colectivo a defender.

Vê-se ali muito futuro.

Percebe-se que é um treinador novo, que ainda não teve tempo para trabalhar os fundamentos do jogo e de pôr a equipa a funcionar tão bem, em termos colectivos, como a vocação natural dos jogadores para o trabalho de equipa tornará possível.

Vê-se que há jogadores que ainda não tiveram tempo para apreender a filosofia e os métodos do técnico, que ainda parecem cansados, mentalmente, dos métodos do treinador anterior, mas a tendência, como em todas as equipas construídas de raíz, é para melhorar com o passar dos meses.

Também se vê que o treinador é um treinador com ideias frescas e muito avançadas. Há ali jogadas, como os lançamentos laterais para a área, que se tornarão altamente produtivas daqui a umas semanas, porque as outras equipas não estão preparadas para elas.

De qualquer forma, naquilo que se consegue trabalhar mais nos treinos – a capacidade de concentração e de trabalho colectivo – vê-se que, durante a pré-época e a semana, se trabalhou a sério e com grande profissionalismo.

E, além de tudo isto, o grande bónus: não é apenas uma equipa que impõe respeito – é uma equipa barata.

Deposito grandes esperanças nesta equipa.

Só vejo uma coisa má: o plantel tem excesso de qualidade, em quantidade, para as competições que está a disputar.

sábado, 20 de outubro de 2012

A cave


Tenho de pedir desculpas aos habitués, se é que algum ainda resiste, mas, definitivamente, ando a lutar para subir de divisão e a bola ficou de lado. Ainda por cima sem campeonato, menos bola tenho visto. Não posso prometer nada a não ser que, quando tiver mais vida para isso, voltarei a aparecer mais vezes.

Do pouco que tenho ligado aos futebóis, ficou-me na retina a apresentação de contas da SAD do Porto, feita numa cave das Antas perante uma plateia que, além da camarilha toda e de três ou quatro cameramen no fundo da sala, não tinha mais ninguém – para não haver o risco de qualquer incauto associado, apanhado de surpresa, exclamar em voz alta: «35 milhões?! Foda-se, carago, que merda é esta!?»

O défice de 35 milhões de euros no ano desportivo que passou é perfeitamente colossal, não só pelo montante como pelo que significa em termos de deve-e-haver regular do Porto.

Recapitulando: o Porto, já com a época a decorrer, faz a melhor venda na história do clube (o Falcão – e não esqueçamos o Guarín... ou serão milhões da treta, como os do Micael?), vai à Liga dos Campeões (porque foi, se bem se lembram, e se tivesse passado à fase seguinte não teria feito mais do que 3 ou 4 milhões além daquilo que fez) e ganha (é mais não perde, mas enfim…) o campeonato.

Resultado: 35 milhões de euros de prejuízo.

O que nos dizem (com dificuldade…) os media? Que os juros subiram e que o dinheiro do Hulk não entrou nas contas.

É pior a emenda que o soneto, desde que quem ouve tenha dois dedos de tola. O que isso quer dizer é que, praticamente no limite de exploração de recursos próprios, já com receitas extraordinárias incluídas (a venda de jogadores), o Porto perde 25/30 milhões de euros por ano para conseguir competir pelo campeonato nacional com o Benfica.

E porque é que se pode falar nestes termos? Por duas razões fundamentais:

1 - Porque, tal o fiasco na criação de receitas regulares, as receitas extraordinárias tiveram de passar a ser ordinárias. Ou seja, o Porto, sem vender pelo menos quatro-quintos-de-Falcão por ano, dá 20 milhões de prejuízo;

2 – Porque, no próprio dia da apresentação de contas, se ficou a saber que o Porto vai pedir novo empréstimo obrigacionista, para pagar 18 milhões de outra dívida obrigacionista que vence em Dezembro – sendo que a dívida vai ser passada para o longo prazo. Ou seja, o Porto já entrou, definitivamente, na espiral financeira que não lhe vai permitir parar o endividamento sem perder grande parte da sua capacidade competitiva.

O que se está a passar no Porto, é preciso dizê-lo, é um cataclismo.

Neste espaço já referi muitas vezes (mais do que as que devia, é verdade) que estamos a assistir à queda de um mito. Poucos me terão levado a sério, nessas alturas, pensando que é o clubismo a falar, e apenas mais alguns me levarão a sério agora, porque ainda não viram, como São Tomé, o que está para a acontecer – mas afirmo: o que se está a preparar no Porto é uma tempestade de tal forma perfeita que, quem viver daqui a vinte anos, dificilmente acreditará que o futebol português alguma vez tenha sido o que é hoje.

A recuperação qualitativa e o redimensionamento do Benfica; o fim do regime de Pinto da Costa, que abrirá um problema político de longo prazo no interior do Porto assim que surgir a primeira derrota; o empobrecimento generalizado do país durante os próximos 10/15 anos, levando a uma perda de competitividade na Liga dos Campeões, que é fundamental para as finanças do clube. Isto vai conjugar-se.

Os adeptos do Porto, que não percebem mais de coisa alguma que quaisquer outros, e que são tão facilmente sugestionáveis com vitórias como quaisquer outros, ainda estão, e continuarão a estar durante mais alguns anos, em estado de negação, alimentados pela ilusão (a mesma que durante muitos anos enganou os benfiquistas) de que a supremacia sobre o Benfica é um estado natural das coisas, que se prolongará ad eternum apenas porque sim, porque é assim o universo. Essa ilusão, que é comum a todos os grandes impérios antes de caírem, também faz parte da equação.

Quanto mais o seu clube se enterrar em dívidas para continuar a competir com a aposta financeira do Benfica, mais se tentarão convencer de que estão no mesmo campeonato.

Ninguém, do Porto, lhes explicará um factor essencial para compreender o verdadeiro cenário em que esta luta decorre: o de que, para o Benfica, ter 400 milhões de passivo é muito menos problemático do que para o Porto ter 300 milhões de passivo. É como o Governo português querer fazer crer aos portugueses que Portugal está na mesma situação de Espanha. Não está. A natureza do problema é a mesma, mas o grau do problema não o é.

Pelo meio em que está inserido (sobretudo-Lisboa contra sobretudo-Porto), pela natureza mais abrangente do clube, pela maior dimensão popular que continua e continuará a ter (porque o Benfica já parou de decrescer e a tendência agora será para voltar a crescer em teros de adeptos, à medida que vá voltando a ganhar), por tudo o que é evidente em termos de imagem (que se reflecte em dinheiro), por ter um potencial de captura de receitas igualmente em crescendo (afinal, o Benfica não ganha, desportivamente, em termos relevantes e continuados, há 20 anos!) contra um Porto que já não tem mais onde inventar dinheiro a sério, os dois clubes não estão, manifestamente, no mesmo pântano. O do Benfica dá pela cintura. O do Porto dá pelo pescoço.

Para o Benfica, regressar ao domínio do futebol português depende de conseguir manter a pressão. Continuar a não pagar 18 milhões por Danilos, para depois poder pedir 25 milhões por Javis Garcia. Continuar a obrigar o Porto a fazer crescer a sua dívida. Não facilitar na vertente desportiva – não pensar que, sem trabalho, o sucesso aparece por si próprio, nem deixar de investir na qualidade dentro de campo. Manter a pressão, de forma continuada e tão forte quanto possível. Inventar fundos, inventar televisões, apostar em tudo o que implique aproveitar a massa adepta – esse é o ponto estratégico: sempre que o Benfica conseguir aumentar as receitas no que tem a mais (os adeptos) obriga o Porto a endividar-se, porque não tem alternativa.

Se isto acontecer, o futebol português muda. E começa a mudar no dia em que o Porto não venda o Hulk, para ganhar o campeonato, em que perca 50 milhões de euros, e em que… não ganhe o campeonato.

Aí, a casa vem abaixo.

 

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Vi um bocado do Freamunde-Benfica e a ideia com que fiquei do André Gomes é a mesma que já tinha tido antes disso, ao vê-lo na equipa B: faz-me lembrar o Zidane a jogar à bola, porque pensa antes dos outros e executa bem, mas não sei, em termos de vontade de ser um grande jogador e campeão, se será suficientemente agressivo para triunfar, quer no Benfica quer no futebol profissional.