Daqui a um
mês chegaremos ao ponto em que os benfiquistas discutem penáltis e frangos como
factos determinantes do sucesso ou do insucesso da época desportiva.
Daqui a dois
meses estaremos no ponto em que os benfiquistas discutirão o treinador como
factor de sucesso ou insucesso da época desportiva. Por alturas do Natal,
reeleito e com a época perdida, o Vieira, encostado à parede, vai chegar a
acordo com o Jesus para a rescisão amigável do contrato, contrata o Scolari e
inicia aquele que será o seu «último projecto» como presidente do Benfica.
Nessa
altura, o fracasso desportivo de Vieira, então já indisfarçável, será utilizado
para endeusar Pinto da Costa, e os adeptos do Benfica, indefesos, serão
confrontados com a costumeira «falta de liderança» como factor de sucesso ou de
insucesso da época desportiva.
E depois
começa tudo outra vez.
Se não for
nestes prazos, é noutros, se não for em Dezembro é em Maio, mas a lógica é a
mesma.
O que é que
está errado neste ciclo vicioso?
É a falta de
qualidade de alguns jogadores, treinadores ou dirigentes, ocultada pela
dimensão do clube? Não.
É uma
deficiência estrutural do clube? Não.
É a
«cultura»? Sim, mas não no sentido que se lhe quer dar. Nem se compra cultura
no mercado de Inverno, nem se acorda, um dia, com cultura de vitória, nem a
cultura é coisa que se tem quando se ganha e não se tem quando se perde.
O que está
errado, neste ciclo vicioso, é o momento em que se pensa em termos de «sucesso
ou insucesso da época desportiva».
O momento em
que se divide a existência de um clube como o Benfica em «épocas desportivas» é
o momento em que se inicia o fracasso, porque é pensar ao contrário. O momento
em que se começa a pensar o resultado como centro da razão que tudo move é o
momento da vulnerabilidade. Isto é assim no Benfica, no Sporting do Godinho ou
no Porto do Pinto da Costa, que ficará igualmente vulnerável no momento em que
perder (como o Godinho muito bem lembrou). Num sistema limpo, e com competição
à altura, a «cultura do dragão» já faria parte do museu do clube há 20 anos.
Não teria chegado, sequer, ao Mourinho.
O sucesso
não se divide em épocas, e dificilmente se mede, a longo prazo, em resultados.
Estranhamente, todos sabemos que, contra-intuitivamente, o sucesso se mede de
forma emocional, subjectiva e, ao mesmo tempo, colectiva.
Qual é a
melhor forma de explicar isto? Talvez assim: todos teríamos conseguido perceber
se, hoje, os jogadores do Benfica tivessem feito o seu melhor frente ao
Beira-Mar. Isto não significa jogar bem, acertar mais ou menos passes, tomar
mais opções certas, correr mais. Toda a gente que sabe ver futebol percebe que
há uma diferença entre cansaço e falta de entusiasmo, entre um mau passe feito
por falta de técnica e um mau passe feito por falta de concentração, entre uma
movimentação errada por desatenção momentânea e uma movimentação errada por
falta de trabalho diário.
O Benfica
ganhou, hoje? Ouso perguntar: o quê?
Admito que
sou deficiente. Tenho um handicap de realismo. Mas, como atrasado mental que
sou, também admito que teria saído mais satisfeito se tivesse visto o Benfica a
perder ou a empatar mostrando um estado de espírito «grande» do que ao vê-lo a
ganhar sem mostrar mais que mediocridade.
Não sei por
quanto tempo é que o Benfica resistiria a estes «lirismos» da chamadas «vitórias
morais», mas sei onde é que o outro caminho vai dar. Ao mesmo lugar de sempre.
A este sítio onde, precisamente agora, nos encontramos, órfãos de uma grandeza
que todas as semanas esperamos sentir ao olhar para o Benfica e nunca
encontramos, defraudados, sentindo-nos traídos pela nossa própria leadade.
Vai dar a
lado nenhum.
Dizem vocês:
«Para te pores com estas merdas, ao fim de uma semana sem dar sinal de vida,
mais valia teres ficado calado mais um mês!». Tudo bem. É legítimo.
Mas estou a
ouvir o Jesus a dizer que na primeira parte o Benfica «teve muita qualidade»,
que «o futebol é resultados», que «estamos em primeiro», estou a ver o pessoal
a acenar que sim com a tola e respondo: «Vocês são gajos porreiros, não fazem
por mal, amam o clube, defendem-no, defendem-se, mas, no fundo, no fundo, até
merecem chegar ao fim e não chegar a lado nenhum. Com campeonato ou sem
campeonato. Porque não devíamos ter direito àquilo que não desejamos. E, como
somos todos por um, o destino
colectivo é ditado por esta grande parte que prefere negar a grandeza.»
Tudo bem.
Sem ressentimentos. Sem esta dimensão humana, quase inconciliável, ser do
Benfica significaria o mesmo que ser do Avintes. Estou disposto a esperar mais
vinte anos. Ser do Benfica é acreditar.
Porque,
depois, olho para o Barcelona, e penso assim: «Caramba, aquilo que ali está só
existe porque, um dia, alguém acreditou que tinha direito à grandeza e ousou
fazer diferente.»