O futebol é
80 por cento de senso-comum e 20 por cento do resto. Nesses outros 20 por cento
encontramos aquilo que «faz a diferença» - o conhecimento científico, a
inventividade, os factores intangíveis,a psicologia, a sorte.
O que se tem
passado com a crescente profissionalização do futebol é que os processos se têm
tornado metódicos, e universais, ou seja, a parte científica tem sido mais estudada, o que leva a que mais equipas
tenham acesso a mais conhecimento, e a que se equilibrem os valores. Chegamos,
então, à célebre fórmula dos «95 por cento de transpiração e 5 por cento de
inspiração» como chave para o sucesso. Os 20 por cento reduzem-se ainda mais e
o futebol torna-se um jogo de pormenores. Quando damos por isso, nós, os
leigos, estamos a discutir as nuances técnico-tácticas provocadas pela ausência
do Fernando, do Hulk, do Luisão, do Aimar, como potencialmente decisivas no
resultado, por exemplo, de um jogo em que uma equipa de 100 milhões de euros
defronta outra de 6 milhões.
Como é que
se justifica que isso aconteça? É fácil. Quando percebem que naqueles 20 por
cento se encontram, potencialmente, 80 por cento do sucesso, os clubes apostam
nesses 20 por cento 80 por cento dos seus recursos. Pareto explica.
Tudo isto
acaba por fazer sentido. O que sai caro, sempre, é os detalhes, os pormenores,
porque é neles que se faz a diferença quando a competição é exacerbada. Se sentes
que precisas de um especialista, de alguém que faça qualquer coisa que mais
ninguém faz, mais facilmente gastas 50 milhões nesses especialista que 50
milhões em 10 generalistas.
Tudo isto,
contudo, só faz sentido se os outros 80 por cento estiverem no lugar, caso
contrário está-se a construir a casa pelo telhado.
Aquilo a que
assistimos no Benfica desde a saída de Fernando Martins da presidência,
basicamente, foi a um esboroamento do edifício do senso-comum. O que aconteceu
foi que, estando esse edifício solidamente construído, quem chegou pensou que
bastava fazer o telhado para chegar à «equipa europeia», e meteu o dinheiro todo
no telhado. O que se seguiu é facilmente explicável: aos poucos, os alicerces
foram-se perdendo, as derrotas foram minando as fundações e o senso-comum,
fugiu-se para cima com a casa a cair pela base, e quanto mais se perdia mais se
apostava nos «20 por cento» onde se pensava (e se desejava) estar a explicação
e o caminho para o sucesso. E assim, o clube (antes) mais bem gerido do futebol
português construiu a maior dívida desse mesmo futebol, sem obter nem sequer o
retorno mínimo exigível desse investimento.
A venda de Javi
Garcia é um acto responsável de gestão. Pertence ao senso-comum. É discutível
se é um acto de gestão de qualidade, dadas as opções. Considerando, por
exemplo, que o Anzhi terá oferecido 35 milhões por Witsel, eu tê-lo-ia vendido
imediatamente para manter Javi, mas duvido, sinceramente, que o Witsel, um
miúdo do rock, cheio de cosmopolitismo, quisesse ir viver para a Rússia. A
verdade é que, provavelmente, os escassos 20 milhões de euros recebidos pelo
Javi sejam o único negócio razoável e possível para o Benfica neste Verão, e,
como tal, que tenha de ser feito.
No entanto,
há algo que me preocupa profundamente neste defeso do Benfica.
Recuemos ao
ponto de partida. No final da época passada, os objectivos em relação a gestão
do plantel seriam, por ordem de importância (e isto é subjectivo, claro, porque
é a minha opinião, mas creio que há aqui suficiente senso-comum para ser tomado
como válido):
- contratar
um defesa-esquerdo de bom nível internacional;
- contratar
um terceiro-central de nível aproximado ao de Luisão e Garay, eventualmente capaz
de fazer mais que uma posição, mas não obrigatoriamente;
- contratar
um bom extremo-direito, uma vez que o único extremo de grande nível no plantel
é Gaitán;
- um
médio-centro para jogar (na altura falei de um Özil mais «pequenino»), capaz de
fazer o que o Aimar não faz (dar presença defensiva consistente) e de fazer uma
parte daquilo que ele faz (pôr a equipa a jogar) mas sem perder tantas bolas.
Nas saídas,
a ideia seria vender os que não faziam tanta falta (Gaitán e Cardozo) e manter
os que são fundamentais (Garay, Javi Garcia, Witsel, os três únicos jogadores
do Benfica de verdadeira dimensão mundial, como eu referi neste blogue e como o
mercado veio a comprovar). Além disso, despachar o Saviola que era um a menos
no futebol e três a mais nas contas.
Tanto quanto
fosse possível passar ao lado do dinheiro, era isto.
No dia 31 de
Agosto, o que é que temos?
- O
Melgarejo e o Luisinho a defesa-esquerdo;
- O Jardel e
o Miguel Vítor, a jogar na equipa B;
- O Salvio
(que pode valer a pena, por 11 milhões, se as coisas correrem bem) mas também o
Ola John, o Enzo Pérez, o Rodrigo, o Nolito, o Bruno César e o Gaitán;
- O Carlos
Martins (com quem, diga-se, conjuntamente com o Ruben Amorim, o Benfica provavelmente
não teria perdido com a Académica ou com o Vitória de Guimarães no ano
passado);
- Com o Gaitán
e com o Cardozo e sem o Javi Garcia.
Não há volta
a dar em relação à saída do Javi. É tão mau como parece. Se eu tivesse de
escolher um jogador para não vender dos 60 que o Benfica tem escolheria o Javi,
por tudo aquilo que já se disse neste blog. Nesta equipa, o javi era a injecção
de carácter, agressividade, espírito competitivo, presença física, altruísmo e
colectivismo que, em conjunto, pura e simplesmente, mais ninguém tem. Javi não
era apenas o «pilar táctico» do onze do Jesus: foi o pilar de um projecto que
antecedeu até a chegada do próprio Jesus, e sobre o qual se construíu o
relativo sucesso dos últimos três anos. Javi é o que corre pelos outros, o que
bate pelos outros, o que aparece onde os outros não querem estar e o que põe o cotovelo
onde ele tem de ser posto. Nenhum jogador do actual plantel do Benfica está
disposto a atravessar-se tanto em nome da equipa como Javi. A saída de Javi, para
mim, pessoalmente, representa uma espécie de consumação do divórcio que eu
tinha vindo a sentir em relação a este Benfica, porque Javi era o único jogador
à Benfica (à «meu» Benfica) que eu via nesta equipa.
Devo dizer
que, podendo parecer contraditório, nunca gostei do papel de Javi no Benfica do
Jesus. Não acredito em acções isoladas nem em homens providenciais. Nunca
gostei da filosofia «dez artistas a inventar e um mártir para dar o corpo às
balas», sobretudo quando o que dá o corpo às balas é melhor que os artistas.
Mas é o sistema do Jesus, e nesse sistema o Javi tinha um papel incontornável.
O Benfica não é uma equipa colectiva, simplesmente tem alguns jogadores a
trabalhar para o colectivo, que mantêm aquilo colado, e o Javi era o principal.
Matic ataca
melhor que Javi mas não tem metade do carácter nem defende tão bem. A saída de
Javi, sem a substituição por um jogador de características idênticas (e em
conjunto com o enorme investimento em jogadores «técnicos»), representa uma
alteração substancial no modelo de jogo do Benfica e torna-o exclusivamente ofensivo e totalmente
dependente do desempenho técnico – dependente de jogadores tão inconsistentes,
note-se, como Salvio, Enzo Pérez, Ola John, Gaitán, Carlos Martins, Aimar,
Bruno César, Nolito ou Cardozo, já para não falar do próprio Matic.
E representa,
quanto a mim, o lançar da toalha em termos desportivos, em benefício da aparente
prioridade para esta época: manter a cabeça fora de água em termos financeiros,
passar pela tempestade, fazer força para que os outros naufraguem e chegar ao
lado de lá em condições navegáveis.
Tudo bem. Faz
sentido. Aceita-se. Mas, nesse caso, onde é que entra o Ola John por 8 milhões,
e o Lima por 4 milhões, e o Cardozo não vendido por 14 milhões aos 29 anos?
A minha
amargura em relação a este defeso é esta, que aqui ficou escrita.
Mas,
voltando à parte da casa e do telhado, qual é o meu medo?
O meu medo,
ao ver os sucessivos investimentos nos «20 por cento», por vezes indo
manifestamente contra o que é do senso-comum, é que se esteja a perder
novamente o norte. Sim, é evidente que não se pode gastar 25 milhões de euros
em avançados quando se ganha 20 milhões a vender o único médio-defensivo que se
tem em 23 jogadores e quando não se tem nem um defesa-esquerdo nem um central
suplente em condições. É claro que isto não faz sentido.
O Jesus é um
homem dos 20 por cento. É bom para chegar a um sítio onde os 80 por cento estão
construídos e ele (que não vale 20 por cento, claro, mas vale 4 ou 5, o que
geralmente chega) faz a diferença. Há 3 anos Benfica não tinha os 80 por cento
em ordem – ao contrário do Porto, por exemplo, que é o típico clube dos 80 por
cento – mas pode dizer-se que ia a caminho, à custa de muito levar nas orelhas.
Com Vieira, passou a ganhar-se quando se podia ganhar, a comprar quem se podia
comprar, a apostar no razoável como base do sucesso. A certo ponto, quando se
sente segurança na estrutura, faz sentido que se invista mais nos outros 20 por
cento. Aliás, não faz sentido se não for assim, porque se não se apostar não se
ganha.
O meu medo é
que o directório Vieira-Jesus entre numa espiral de desmando, de insensatez,
que leve a que, mais do que perder uma ou duas épocas à conta de caprichos, de
tentativas, de pura subjectividade, se esteja a perder uma década, ou duas,
outra vez, para não se ganhar nada de substantivo. Mas o ponto em que Jesus
entrou no Benfica ainda não era um ponto estável, e não podemos esquecer-nos
disso. O Benfica não tinha – nem tem – alicerces sólidos. Falta-lhe cultura de trabalho,
de equipa, falta-lhe solidez financeira, falta-lhe alternativas de gestão, e
não se pode dar ao luxo (nem nada que se pareça) de entregar a sua gestão às
ideias e aos truques de um tipo esperto mas básico, com garra mas sem visão,
como é Jesus.
Ao apostar tanto
em detalhes, em pormenores – e sobretudo ao apostar tanto num homem que não
vale, nem de longe, tanto como ele (Jesus) pensa que vale – em prejuízo do que
é básico, e ao fazer dessa aposta uma coisa sistemática e não apenas pontual, Vieira
pode estar a destruir, em quatro anos, o trabalho de reerguimento do clube, que
lhe levou 10. Pior do que destruir a parte boa do seu trabalho, pode estar a destruir
mais 20 anos na história do clube – os que passaram e os que aí vêm.
De repente,
as próximas eleições, que deveriam ser um mero acto burocrático, podem passar a
ser relevantes.