sábado, 15 de setembro de 2012

O dízimo


Nos seus tempos áureos, de República expansionista, as legiões romanas impunham um código de conduta em batalha que as diferenciava de todos os seus adversários. De um legionário romano esperava-se que entregasse a vida pelos seus camaradas sem hesitar. Como ninguém é um adepto natural de entregar a própria vida sem hesitações, havia acções motivadoras. Uma delas era a da dizimação.

Dizimar vem de dízimo, que significa um décimo, e a regra era simples. A unidade colectiva básica da legião romana era a decúria, um conjunto de dez legionários, que por sua vez formavam uma centúria, um conjunto de dez decúrias. Sempre que os comandantes das decúrias ou das centúrias – decurião ou centurião – consideravam que o comportamento das suas tropas tinha sido particularmente cobarde ou embaraçoso em batalha, mesmo em caso de vitória, alinhavam as decúrias, sorteavam um legionário e, ali mesmo, mandavam-no avançar e, diante de todos, cortavam-lhe a cabeça. No caso de uma centúria, executavam, sumária e arbitrariamente, dez soldados.

As decúrias eram, assim, dizimadas.

Este tipo de disciplina brutal permitiu que um exército originalmente de bandidos e saqueadores, em inferioridade numérica perante praticamente todos os seus inimigos, se transformasse no maior império do seu tempo.

Eu gostaria de dizer que a equipa do Benfica se encontra dizimada após o castigo imposto ao Luisão, mas não posso, porque a esta disciplina falta um elemento fundamental: a autodeterminação. Não foi o Benfica que decidiu dizimar-se. O Benfica preferia não se dizimar. Para o Benfica é mais importante ter o Luisão durante dois meses do que ter disciplina interna. O que é mau, na minha opinião, nem é isso: é 98 por cento dos benfiquistas – incluindo os que vêm aqui ao blog – concordarem com essa posição.

Eu gosto do Luisão, acho que o Luisão teve um mau momento na Alemanha, que não reflecte a sua postura em campo, e acho que o árbitro jamais se teria fingido de morto se o jogador a abalroá-lo fosse do Fortuna de Dusselford – o que me leva a acreditar nisto é o sistemático preconceito dos árbitros do Norte da Europa, especialmente alemães, em relação aos pretos da Europa (nós, os gregos, os turcos e afins).

Dito isto, o que teria ficado gravado no ADN do Benfica, a seguir ao incidente, teria sido uma suspensão imediata do Luisão, unilateral, por parte do Benfica, e um pedido de julgamento sumário ao jogador.

Culturalmente, é quase impossível a uma Direcção de um clube português tomar uma medida destas. Para o povo, teria sido inaceitável. Dir-se-ia que os jogadores tinham de jogar até contra a própria Direcção, que esta estava a dar tiros nos pés, que tinha entregue o ouro ao bandido, etc, etc. Em parte, tudo isto é verdade. O Benfica estaria a dizimar-se.  Mas a dizimação, quando é bem executada, pode transformar-se numa arma poderosa.

A disciplina – que eu considero como a capacidade autónoma de concentrar a energia nas acções necessárias ao sucesso – é o ponto fraco das equipas portuguesas (para não ir mais longe e dizer que é o ponto fraco da sociedade portuguesa).

Mesmo a melhor cultura futebolística portuguesa dos últimos 30 anos, a do Porto, é disciplinarmente fraca, ainda que relativamente forte em relação à dos outros. Quando eu vejo os jogadores do Porto a discutirem com os árbitros, a fazer faltas desnecessárias, quando vejo os treinadores a ar graxa ao cágado e a mistificar o que é vulgar, quando vejo a Direcção do Porto a ir contra o próprio jogo para não perder pontos, a dar a volta à lei para ganhar vantagem, não vejo o que os outros vêem. Não vejo demonstrações de força. Vejo um ponto fraco.

Mais: vejo o ponto fraco.

É por ali. É aquele o calcanhar de Aquiles.

E é-o não só porque é uma debilidade, mas porque é uma debilidade que não pode se corrigida. A cultura de vitória do Porto assenta num ponto básico: não dar o flanco. Fechar as alas e ir contra tudo e contra todos. Defender os seus até para lá do racional. Se o Luisão fosse do Porto, a Direcção do Porto faria tanto ou mais para evitar o castigo do que o que a do Benfica fez. (Aliás, pode-se mesmo dizer que o comportamento da Direcção do Benfica se baseou numa premissa: «Em Portugal, a equipa que ganha faz isto. Portanto, se queremos ganhar, também temos de fazer isto, porque deve ser o que se faz quando se quer ganhar.»)

Se a Direcção do Porto fosse contra essa cultura estaria a destrui-la, pela base. Não pode. Não sabe como. Quando se ganha, conserva-se o que se tem. Não se altera nada. Até porque, quando se altera, é quase inevitável perder-se.

O ponto fraco do Porto é e vai continuar a ser a disciplina. Tem muita, mas não tem obrigatoriamente a suficiente.

Quando Benfica ou Sporting conseguirem ser, realmente, diferentes (normalmente o que se passa quando se diz que tem de se ser diferente é que se quer fazer igual, mas com mais ou menos intensidade) no aspecto da disciplina, terão encontrado a brecha na armadura.

Mas não é, nem de perto nem de longe, fácil. É preciso ir contra tudo o que está instituído. Geralmente, os acessos de disciplina não duram mais que dois ou três jogos quentinhos. Ao terceiro já há vapor a sair pelas orelhas, asneiras a sair pela boca, árbitros insultados, adversários agredidos, faltas distribuídas a rodos. Para cultivar a disciplina é preciso muita força de vontade. Para a perder, basta um acesso de fraqueza. É como ser alcoólico ou toxicodependente. Podemos estar três anos sem tocar em álcool, mas se bebermos um copo o mais provável é não conseguirmos parar e, ao fim de uma ou duas semanas, já nem nos lembrarmos dos tempos em que estávamos sóbrios.

Quais são as probabilidades de uma Direcção de um clube português castigar o seu capitão e jogador fundamental unilateralmente para cultivar a disciplina? Realisticamente, quando é a própria Direcção a fomentar a mensagem de que os árbitros são corruptos e de que «nos roubaram o campeonato», nenhumas. É demasiado difícil. Seria preciso haver pessoas excepcionais à frente do clube (talvez seja uma boa oportunidade para irem ver a história do Félix, nos anos 60, aquele que muitos consideravam que viria a ser o melhor central português de todos os tempos).

Se eu fosse eleito presidente do Benfica, hoje, faria quatro coisas antes de todas as outras:

- como já disse antes, juntava toda a gente que trabalha com a equipa na sala de vídeo e passava o filme dos 5-0 nas Antas, em 2010;

- dizia apenas isto: «Vamos trabalhar» - porque o líder lidera pelo exemplo, e pelas acções, não pelas palavras, e o que o Benfica viesse a ser seria pelo que eu fizesse, não pelo que eu dissesse – deixaria de ser um clube de conversa e passaria a ser um clube de prática, sem desculpas;

- distribuía uma circular interna a dizer o seguinte: «Qualquer questão relativa a arbitragens que venha a ser levantada, em público ou em privado, tem de ser respondida da mesma forma, por jogadores,técnicos e todos os outros profissionais de futebol do Benfica: ‘Não falo de árbitros’. A sanção é uma multa de metade do ordenado.»

- rodeava-me de pessoas melhores do que eu, que me lembrassem do meu sentido e me mostrassem a minha fraqueza sempre que eu me sentisse compelido a ir contra o meu próprio código.

Em Portugal, as pessoas consideram que o segredo para vitória está nos árbitros. E têm razão. Mas enganam-se numa coisa. O segredo não está no controlo negativo dos árbitros. Está no controlo positivo. Não é mandar neles para tirar força aos outros – é usá-los, como elemento adverso, para ganhar força.

A equipa que primeiro descobrir isso e que consigam disciplinar-se (se e quando alguma o conseguir) será, provavelmente, a próxima força do futebol português.

quarta-feira, 5 de setembro de 2012

O Canal do Porto


Ontem à noite estava a fazer zapping e, sem querer, a televisão ficou no Porto Canal durante cinco minutos. Foi o suficiente para acontecerem três grandes momentos televisivos.

 

O primeiro foi eu ter percebido que o Porto anal tem, de longe, as mulheres mais giras e mais boas da televisão portuguesa. Assim, sem mais nem menos, apareceram três princesas que põem as matrafonas dos telejornais dos canais generalistas com as malas à porta de casa e um bilhete para o autocarro.

Sinto-me tentado a dizer que, se se tirasse o som, o Porto Canal seria o melhor canal da televisão portuguesa, mas não posso, porque aquele cantarzinho das meninas ainda as torna melhores.

Confirmo uma ideia que já tinha: no Porto estão as melhores mulheres de Portugal.

Vou voltar ao Porto Canal. Basta ignorar o que elas dizem.

(E se acham que este comentário não foi suficientemente sexista, acrescento que, na minha escala de importância, os Jogos Paralímpicos são uma espécie de desporto feminino, mas para pior: é uma forma de fazer as pessoas sentirem-se melhor, de uma maneira geral e, a menos que as mulheres usem mini-saia ou calções justos, não tem interesse nenhum.

Se houver aí alguma mulher, ao engano, pode enviar o comentário de repulsa e nojo utilizando o espaço legalmente reservado.)

 

O segundo foi quando apareceu a notícia de que o Pinto da Costa tinha sido operado, entre a notícia de que os professores podiam trocar de colocação com outros professores para ficarem mais perto de casa e a notícia do homem que matou a mulher em Ílhavo, ou na Cedofeita, ou lá onde foi.

Acho que, para um portista, nos últimos dias, só havia uma notícia pior do que «Hulk foi vendido»: «Pinto da Costa foi operado ao coração».

Note-se que só hoje é que se soube que foi ao coração, o que ainda dá mais relevo à intenção de fazer de conta que nada aconteceu, como se o velho tivesse ido tirar uma verruga das costas.

O que tornou aquele momento num grande momento televisivo foi perceber-se o pânico que gerou e o desespero em retirar importância à notícia – isto, note-se, quando, pelo que nos dizem, não há nenhuma razão para preocupação. Afinal, há pessoas que vivem com duplos e triplos by-passes durante mais de vinte anos.

O que foi bom não foi o velho estar a morrer – foi sentir o terror nas alminhas.

 

O terceiro grande momento televisivo não foi ontem à noite, não se passou no Porto Canal e nem sequer foi um momento televisivo, mas como fica aqui bem, porque é para cascar, vamos fazer de conta que sim.

Há uns dias, no Record, a propósito de uma peça sobre o Fernando ir para o Inter de Milão, pela vigésima-quinta vez (acho que foi sobre o Fernando, mas, se não, era um dos outros brasileiros), li que um dos empresários do jogador é o genro do Pinto da Costa.

Às vezes, até os jornalistas avençados do Porto sentem a urgência de dizer qualquer coisinha fora dos parâmetros estabelecidos – julgo que será para não se esquecerem que, um dia, muito antes de se tornarem mulas ao serviço da causa, sonharam ser jornalistas – e descaem-se.

Eu repito: um dos empresários do Fernando é o genro do Pinto da Costa.

Talvez isto não diga nada a muita gente que também tenha o genro ou um primo ou um afilhado a dar uma ajuda no negócio, mas a mim diz.

A direcção do Porto, uma associação criminosa com fins lucrativos – a direcção, não o Porto – perdeu completamente o pudor. A cosa tornou-se tão nostra que até o pai da mulher do padrinho recebe uma parte de um jogador para garantir a reforma. Na direcção do Porto, o termo «família» ganha uma dimensão completamente diferente.

É fácil de perceber porque é que o presidente do Zenit diz que só pagou 40 milhões pelo Hulk quando a transferência terá sido de 60 milhões. Por um lado, porque é um negócio da Rússia – o dinheiro não é do clube, nem é da Gazprom, nem é do Estado, não é de ninguém ao certo, nem é realmente dinheiro, mas sim qualquer coisa de valor indefinido que, antes de ser utilizada, tem de ser lavada várias vezes, passando por vários canais secundários. Ora, como eu já disse atrás, o Canal do Porto tem grandes potencialidades. Eu diria mesmo que, atendendo ao volume de 500 milhões de euros que por ele já passou em dez anos (ver Record), não há nenhum Canal no Mundo que se lhe compare – nem o canal do Panamá, nem o do Suez, nem o da Mancha (porque o do Porto é imaculado, segundo a Justiça portuguesa), nem tão pouco o de Gibraltar, mesmo com um dos maiores off-shores do mundo ali à beira. Perto dos «milhões da treta» do Hulk (ou do Falcão, ou do Cissoko), os «milhões da treta» do Roberto (que são mesmo da treta) parecem uma multa por estacionamento em segunda fila.

Para lavar guita, não há como o Canal do Porto – algo que os russos foram rápidos a descobrir no tempo do Maniche e do Nuno Espírito Santo, e que italianos, franceses, ingleses, romenos, gregos, argentinos, mexicanos ou brasileiros, nos dois sentidos, têm vindo a aprender com crescente interesse.

O problema do Canal do Porto é precisamente o seu volume. É tanta gente a comer, do Araújo da fruta («empresário» do Cissoko) ao pai da Fernanda, dos Guímaros dos quinhentinhos aos Azevedos dos pacotinhos, que, um dia, quando o caudal diminuir, quando a navegação mudar de rota, os adeptos portistas vão descobrir, para seu grande choque, que o clube, que antes ganhava tudo, já não ganha assim tanto, que está mais pobre do que antes (como Portugal depois do ouro do Brasil), que não se vendem camisolas suficientes, que a torneira do São Martinho de Penafiel também deixou de pingar, e que, entretanto, os Anteros, as Fernandas, os Reinaldos, têm todos fortuna no Luxemburgo e grandes mansões em João Pessoa.

Nesse dia, não há bypass que nos safe.

 

P.S. – Outra grande notícia: hoje começa a NFL. Entre jogos em directo, jogos gravados, trabalho e aulas, o tempo que me sobra para ver futebol português, até Fevereiro, é para aí de 90 minutos por semana. O que vai ser óptimo, dadas as minhas expectativas elevadíssimas para esta época. Quando eu voltar a ver futebol com atenção o Matic, o Carlos Martins, o Aimar, o André Almeida, o André Gomes, o Bruno César e o Enzo Pérez já terão salvo o Natal, já me terão demonstrado que, afinal, o Jesus é um génio, e que a abordagem da Direcção do Benfica ao mercado de Verão foi prudente, inteligente e, porque não dizê-lo, brilhante. Na minha opinião, sempre que há uma possibilidade, mesmo que ténue, de se chegar à última semana de um período de transferências que dura dois meses com a possibilidade de destruir a coluna vertebral de uma equipa para o resto da época, sem ter sequer o tempo ou a possibilidade de reconstruir uma ou duas vértebras, essa oportunidade tem de ser explorada e aproveitada até ao limite. O contrário seria estúpido. Porque o equilíbrio de uma equipa de futebol de alta competição é uma coisa demasiado delicada para ser tratada com bom-senso, planeamento e inteligência, obviamente.

segunda-feira, 3 de setembro de 2012

À Xerife


Se perguntarem a 100 benfiquistas de hoje qual foi o melhor central que viram jogar no Benfica, estes vão responder, quase todos, Ricardo Gomes, Mozer ou Humberto Coelho. Para o meu pai, que tem quase 70 anos, não há dúvida nenhuma: «Germano» (depois contava-me outra vez, com o mesmo espanto como se a estivesse a ver em câmara lenta pela centésima vez, a história da jogada em que o Germano salvou um golo em cima da linha, numa eliminatória da Taça dos Campeões, de cabeça, para canto, por cima da barra, depois de um chapéu ao guarda-redes, como se estivesse a cortar uma bola num treino. E até faria o barulhinho: «Tic...»)

Eu, que não vi jogar o Germano (mas acredito no meu pai), tenho outra resposta: Carlos Gamarra, o Xerife. Chegou ao Benfica num Verão em que o clube já tinha salários em atraso, jogou meio campeonato, não fez nenhuma falta, não viu nenhum cartão amarelo, e no Inverno foi-se embora por uma pipa de massa.

E se tivesse de dizer o segundo, também seria fácil: Aldair. Chegou miúdo, jogou uma época e foi para o Roma, por um batelão de liras.

Poucos diriam estes nomes, porque não fizeram história (o Aldair ainda foi campeão, salvo erro), mas em termos de qualidade estavam acima de todos os outros. Tal como o Witsel.

Ao contrário de Javi, a saída de Witsel não me comove, nem me impressiona, minimamente.

Tal como Hulk, no Porto, Witsel, no Benfica, não estava apenas acima da categoria da sua equipa como acima do campeonato. É um jogador que não pertence a uma equipa medíocre, com um treinador vulgar, num campeonato medíocre, como é o Benfica de Jesus em Portugal – aliás, Witsel estava tão acima da equipa que resistiu, até, a um treinador que nunca teve mãozinhas para lhe tirar mais que 60 por cento do seu potencial. Ver o Witsel a jogar pelo Benfica era mais ou menos como quando vemos um adulto a jogar com miúdos: temos a sensação de que, se ele quisesse, se se libertasse do pudor, começaria a correr, atropelaria toda a gente e entraria com a bola pela baliza a dentro.

O que é que se faz a um jogador assim? Obviamente, sai-se da frente – quer se esteja a jogar com ele quer se lhe esteja a pagar o ordenado.

A mesma coisa com Hulk. Não é uma questão de fazerem ou não fazerem falta – é uma questão de pertencerem ou não pertencerem cá.

O «Benfica real» não tem nada a ver com Witsels (enquanto o «Porto real» só consegue aguentar um Hulk também desfasado, por três épocas, por um lado devido ao castigo de seis meses, que atrasou a explosão uma época, quer porque, como equipa profissional de futebol, se encontra ainda vários patamares acima do Benfica, e é-lhe mais fácil, pela exposição internacional, aclimatar jogadores superiores).

Por aqui, assunto resolvido: Witsel não «era» do Benfica, e construir uma equipa com a ilusão de ter nela um Witsel não traria nada de positivo.

Segunda questão: é bom negócio?

A resposta também é simples: digo-vos daqui a dois anos.

Como sempre, quando se está dependente do mercado, como é o caso dos clubes portugueses, a chave do sucesso não é se se pode manter ou não um jogador (porque não pode), mas sim se se vai buscar alguém melhor do que quem saíu para o seu lugar.

No caso do Witsel, a regra tem de ser distorcida. O Benfica tem 3 por cento de hipóteses (talvez dois por cento...)de ir buscar alguém melhor que Witsel. Jogadores destes aparecem uma vez por década. A questão, aqui, é onde e como o dinheiro vai ser gasto, nunca esquecendo que o negócio real do Benfica é ganhar títulos, e não ter lucro financeiro.

Witsel custou 8 milhões, salvo erro. Com 40 milhões de euros bem gastos, o Benfica, mesmo cometendo alguma Robertada (que pode sempre acontecer, legitimamente), pode, comprando cinco-vezes-três-quartos-de-Witsel (Javis, Garays, Salvios…), montar a base de uma equipa capaz de ser três ou quatro vezes campeã nos próximos dez anos.

Com 40 milhões gastos em Airtons e Kardecs para o «projecto» pessoal de preenchimento umbilical do Jesus, será um péssimo negócio.

À imagem do que aconteceu, por exemplo, com a saída de Rui Costa para a Fiorentina, e que se resume de uma forma simples: em 1994, depois de ser campeão, o Benfica vendeu Rui Costa por uma fortuna (5 milhões de euros!) de forma a pagar salários e poder reforçar a equipa. Depois de Rui Costa sair, os dirigentes lembraram-se de que o que a equipa precisava era de um «dez», de um patrão (não era, claro, mas enfim...). Passaram dez anos e gastaram três vezes esse valor, paulatinamente, a tentar encontrar o substituto de Rui Costa. Nunca o acharam nem voltaram a ganhar um campeonato até 2005. Ou seja: a longo prazo, se Rui Costa tivesse ficado no Benfica, como queria (queria ir para o Barcelona, para a Fiorentina, não), o Benfica não só teria poupado uma fortuna como, muito provavelmente, com o melhor jogador do campeonato, teria ganho, pelo menos, dois ou três campeonatos (nessa equipa ainda havia João Pinto, Isaías, Paneira, Rui Águas, e outros).

Por isso, em relação ao «negócio da China, daqui a dois anos eu digo qualquer coisa.
 
(Mas que ando com medo, ando - sobretudo ao sentir os tiques de novo-riquismo que por ali andam, como o de ir buscar um internacional holandês por 8 milhões «para o ir adaptando» quando se tem um Gaitán fora dos convocados...)

«Há tipos com sorte»...


«No longo prazo, estaremos todos mortos», disse um economista. É verdade. Quer falemos num sentido literal quer o façamos num sentido figurativo. Tudo passa – nomeadamente as pessoas. Mas é igualmente verdadeiro que alguma coisa fica, sempre. No caso da bola, o que fica é os clubes.

No longo prazo, há quatro etapas consecutivas para se ter sucesso.

A primeira é dar muita importância ao que se faz, mesmo que seja um hóbi (geralmente é um hóbi), ao ponto de se querer trabalhar nele, por prazer.

A segunda é trabalhar sério – de preferência sempre.

A terceira é trabalhar bem – de preferência melhor que os outros.

A quarta é trabalhar muito – de preferência mais que os outros.

No fim disto, os que estão de fora, a ver, e não entendem bem a natureza do sucesso, dizem: «Há tipos com sorte.»

O jogo do Benfica frente ao Nacional é a negação do profissionalismo, desde a primeira etapa. Não seria frustrante se fosse um episódio, mas não é. É um estado permanente, com algumas pontuais e aparentes interrupções. Nos últimos 1000 jogos do Benfica há cerca de 950 como o de ontem. O que me leva a concluir que os restantes 50 não passaram de ilusões quase perfeitas, provavelmente resultantes da autossugestão e da negação.

É por isso que, dos últimos mil jogos, o Benfica tirou apenas dois ou três títulos esporádicos.

O resto – as fintas do Salvio, os golos do Cardozo, as mariquices do Aimar, as melgarices, os «ajustes tácticos» ao intervalo, a «liderança» – é conversa de quem usa crucifixos ao pescoço e de quem se põe de joelhos a rezar ao Caravaggio.

Qualquer cenário que envolva uma equipa casual, como a do Benfica, ganhar o campeonato a uma equipa como a do Porto, ou ganhar uma eliminatória da Champions a uma equipa como a do Manchester United, é, obviamente, um cenário esporádico, insustentável a longo prazo, e sustentável, no curto prazo, apenas por um investimento financeiro massivo e desproporcional em talento consumível.

 ...

A semana que passou consolidou a candidatura do Sporting ao título nacional.

Porto, Benfica e Braga apanharam grupos na Champions que os vão «obrigar» a jogar tudo nessa prova, tais as possibilidades reais de apuramento para os oitavos-de-final e de acumulação de capital.

Recebeu um grupo de adversários medíocres na Liga Europa, que não vai exigir mais que os suplentes para chegar ao apuramento, precisamente na fase mais difícil do calendário.

O jogo de Olhão demonstrou que o Porto tem um grupo de jogadores tão acima, individual e colectivamente, do restante campeonato que será virtualmente impossível não vir a sentir-se previamente vencedor em muitos outros jogos. Em Olhão correu bem. Em Barcelos correu mal. Vai haver mais Barcelos. É o Porto que vai perder este campeonato, claramente, e não os outros que o vão ganhar. Mas para o ano é o Porto que o ganha outra vez, mesmo sem o Hulk.

O jogo da Luz demonstrou que o Benfica é uma equipa em desaceleração.

O jogo de Paços de Ferreira mostrou porque é que o Braga vai acabar a primeira volta com dez pontos de atraso em relação ao primeiro.

O Sporting, o único dos três grandes com 5/6 novos titulares em relação à última época, e com os restantes, à excepção do guarda-redes, a fazerem a segunda época em Portugal, é também o único de entre eles que vai fazer um campeonato em crescendo, colectivamente, e a apanhar a fase decisiva da prova nas condições físicas, técnicas e anímicas mais próximas do ideal.

Também é o único, dos três, que tem um treinador que resiste a uma derrota em casa, com o Rio Ave, à 2.ª jornada, sem ser insultado pelos adeptos. A longo prazo, vai ser suficiente. É só dar tempo para os outros se irem matando.

sábado, 1 de setembro de 2012

Javi isto em qualquer lado


O futebol é 80 por cento de senso-comum e 20 por cento do resto. Nesses outros 20 por cento encontramos aquilo que «faz a diferença» - o conhecimento científico, a inventividade, os factores intangíveis,a psicologia, a sorte.

O que se tem passado com a crescente profissionalização do futebol é que os processos se têm tornado metódicos, e universais, ou seja, a parte científica tem sido mais estudada, o que leva a que mais equipas tenham acesso a mais conhecimento, e a que se equilibrem os valores. Chegamos, então, à célebre fórmula dos «95 por cento de transpiração e 5 por cento de inspiração» como chave para o sucesso. Os 20 por cento reduzem-se ainda mais e o futebol torna-se um jogo de pormenores. Quando damos por isso, nós, os leigos, estamos a discutir as nuances técnico-tácticas provocadas pela ausência do Fernando, do Hulk, do Luisão, do Aimar, como potencialmente decisivas no resultado, por exemplo, de um jogo em que uma equipa de 100 milhões de euros defronta outra de 6 milhões.

Como é que se justifica que isso aconteça? É fácil. Quando percebem que naqueles 20 por cento se encontram, potencialmente, 80 por cento do sucesso, os clubes apostam nesses 20 por cento 80 por cento dos seus recursos. Pareto explica.

Tudo isto acaba por fazer sentido. O que sai caro, sempre, é os detalhes, os pormenores, porque é neles que se faz a diferença quando a competição é exacerbada. Se sentes que precisas de um especialista, de alguém que faça qualquer coisa que mais ninguém faz, mais facilmente gastas 50 milhões nesses especialista que 50 milhões em 10 generalistas.

Tudo isto, contudo, só faz sentido se os outros 80 por cento estiverem no lugar, caso contrário está-se a construir a casa pelo telhado.

Aquilo a que assistimos no Benfica desde a saída de Fernando Martins da presidência, basicamente, foi a um esboroamento do edifício do senso-comum. O que aconteceu foi que, estando esse edifício solidamente construído, quem chegou pensou que bastava fazer o telhado para chegar à «equipa europeia», e meteu o dinheiro todo no telhado. O que se seguiu é facilmente explicável: aos poucos, os alicerces foram-se perdendo, as derrotas foram minando as fundações e o senso-comum, fugiu-se para cima com a casa a cair pela base, e quanto mais se perdia mais se apostava nos «20 por cento» onde se pensava (e se desejava) estar a explicação e o caminho para o sucesso. E assim, o clube (antes) mais bem gerido do futebol português construiu a maior dívida desse mesmo futebol, sem obter nem sequer o retorno mínimo exigível desse investimento.

A venda de Javi Garcia é um acto responsável de gestão. Pertence ao senso-comum. É discutível se é um acto de gestão de qualidade, dadas as opções. Considerando, por exemplo, que o Anzhi terá oferecido 35 milhões por Witsel, eu tê-lo-ia vendido imediatamente para manter Javi, mas duvido, sinceramente, que o Witsel, um miúdo do rock, cheio de cosmopolitismo, quisesse ir viver para a Rússia. A verdade é que, provavelmente, os escassos 20 milhões de euros recebidos pelo Javi sejam o único negócio razoável e possível para o Benfica neste Verão, e, como tal, que tenha de ser feito.

No entanto, há algo que me preocupa profundamente neste defeso do Benfica.

Recuemos ao ponto de partida. No final da época passada, os objectivos em relação a gestão do plantel seriam, por ordem de importância (e isto é subjectivo, claro, porque é a minha opinião, mas creio que há aqui suficiente senso-comum para ser tomado como válido):

- contratar um defesa-esquerdo de bom nível internacional;

- contratar um terceiro-central de nível aproximado ao de Luisão e Garay, eventualmente capaz de fazer mais que uma posição, mas não obrigatoriamente;

- contratar um bom extremo-direito, uma vez que o único extremo de grande nível no plantel é Gaitán;

- um médio-centro para jogar (na altura falei de um Özil mais «pequenino»), capaz de fazer o que o Aimar não faz (dar presença defensiva consistente) e de fazer uma parte daquilo que ele faz (pôr a equipa a jogar) mas sem perder tantas bolas.

Nas saídas, a ideia seria vender os que não faziam tanta falta (Gaitán e Cardozo) e manter os que são fundamentais (Garay, Javi Garcia, Witsel, os três únicos jogadores do Benfica de verdadeira dimensão mundial, como eu referi neste blogue e como o mercado veio a comprovar). Além disso, despachar o Saviola que era um a menos no futebol e três a mais nas contas.

Tanto quanto fosse possível passar ao lado do dinheiro, era isto.

No dia 31 de Agosto, o que é que temos?

- O Melgarejo e o Luisinho a defesa-esquerdo;

- O Jardel e o Miguel Vítor, a jogar na equipa B;

- O Salvio (que pode valer a pena, por 11 milhões, se as coisas correrem bem) mas também o Ola John, o Enzo Pérez, o Rodrigo, o Nolito, o Bruno César e o Gaitán;

- O Carlos Martins (com quem, diga-se, conjuntamente com o Ruben Amorim, o Benfica provavelmente não teria perdido com a Académica ou com o Vitória de Guimarães no ano passado);

- Com o Gaitán e com o Cardozo e sem o Javi Garcia.

Não há volta a dar em relação à saída do Javi. É tão mau como parece. Se eu tivesse de escolher um jogador para não vender dos 60 que o Benfica tem escolheria o Javi, por tudo aquilo que já se disse neste blog. Nesta equipa, o javi era a injecção de carácter, agressividade, espírito competitivo, presença física, altruísmo e colectivismo que, em conjunto, pura e simplesmente, mais ninguém tem. Javi não era apenas o «pilar táctico» do onze do Jesus: foi o pilar de um projecto que antecedeu até a chegada do próprio Jesus, e sobre o qual se construíu o relativo sucesso dos últimos três anos. Javi é o que corre pelos outros, o que bate pelos outros, o que aparece onde os outros não querem estar e o que põe o cotovelo onde ele tem de ser posto. Nenhum jogador do actual plantel do Benfica está disposto a atravessar-se tanto em nome da equipa como Javi. A saída de Javi, para mim, pessoalmente, representa uma espécie de consumação do divórcio que eu tinha vindo a sentir em relação a este Benfica, porque Javi era o único jogador à Benfica (à «meu» Benfica) que eu via nesta equipa.

Devo dizer que, podendo parecer contraditório, nunca gostei do papel de Javi no Benfica do Jesus. Não acredito em acções isoladas nem em homens providenciais. Nunca gostei da filosofia «dez artistas a inventar e um mártir para dar o corpo às balas», sobretudo quando o que dá o corpo às balas é melhor que os artistas. Mas é o sistema do Jesus, e nesse sistema o Javi tinha um papel incontornável. O Benfica não é uma equipa colectiva, simplesmente tem alguns jogadores a trabalhar para o colectivo, que mantêm aquilo colado, e o Javi era o principal.

Matic ataca melhor que Javi mas não tem metade do carácter nem defende tão bem. A saída de Javi, sem a substituição por um jogador de características idênticas (e em conjunto com o enorme investimento em jogadores «técnicos»), representa uma alteração substancial no modelo de jogo do Benfica e torna-o exclusivamente ofensivo e totalmente dependente do desempenho técnico – dependente de jogadores tão inconsistentes, note-se, como Salvio, Enzo Pérez, Ola John, Gaitán, Carlos Martins, Aimar, Bruno César, Nolito ou Cardozo, já para não falar do próprio Matic.

E representa, quanto a mim, o lançar da toalha em termos desportivos, em benefício da aparente prioridade para esta época: manter a cabeça fora de água em termos financeiros, passar pela tempestade, fazer força para que os outros naufraguem e chegar ao lado de lá em condições navegáveis.

Tudo bem. Faz sentido. Aceita-se. Mas, nesse caso, onde é que entra o Ola John por 8 milhões, e o Lima por 4 milhões, e o Cardozo não vendido por 14 milhões aos 29 anos?

A minha amargura em relação a este defeso é esta, que aqui ficou escrita.

Mas, voltando à parte da casa e do telhado, qual é o meu medo?

O meu medo, ao ver os sucessivos investimentos nos «20 por cento», por vezes indo manifestamente contra o que é do senso-comum, é que se esteja a perder novamente o norte. Sim, é evidente que não se pode gastar 25 milhões de euros em avançados quando se ganha 20 milhões a vender o único médio-defensivo que se tem em 23 jogadores e quando não se tem nem um defesa-esquerdo nem um central suplente em condições. É claro que isto não faz sentido.

O Jesus é um homem dos 20 por cento. É bom para chegar a um sítio onde os 80 por cento estão construídos e ele (que não vale 20 por cento, claro, mas vale 4 ou 5, o que geralmente chega) faz a diferença. Há 3 anos Benfica não tinha os 80 por cento em ordem – ao contrário do Porto, por exemplo, que é o típico clube dos 80 por cento – mas pode dizer-se que ia a caminho, à custa de muito levar nas orelhas. Com Vieira, passou a ganhar-se quando se podia ganhar, a comprar quem se podia comprar, a apostar no razoável como base do sucesso. A certo ponto, quando se sente segurança na estrutura, faz sentido que se invista mais nos outros 20 por cento. Aliás, não faz sentido se não for assim, porque se não se apostar não se ganha.

O meu medo é que o directório Vieira-Jesus entre numa espiral de desmando, de insensatez, que leve a que, mais do que perder uma ou duas épocas à conta de caprichos, de tentativas, de pura subjectividade, se esteja a perder uma década, ou duas, outra vez, para não se ganhar nada de substantivo. Mas o ponto em que Jesus entrou no Benfica ainda não era um ponto estável, e não podemos esquecer-nos disso. O Benfica não tinha – nem tem – alicerces sólidos. Falta-lhe cultura de trabalho, de equipa, falta-lhe solidez financeira, falta-lhe alternativas de gestão, e não se pode dar ao luxo (nem nada que se pareça) de entregar a sua gestão às ideias e aos truques de um tipo esperto mas básico, com garra mas sem visão, como é Jesus.

Ao apostar tanto em detalhes, em pormenores – e sobretudo ao apostar tanto num homem que não vale, nem de longe, tanto como ele (Jesus) pensa que vale – em prejuízo do que é básico, e ao fazer dessa aposta uma coisa sistemática e não apenas pontual, Vieira pode estar a destruir, em quatro anos, o trabalho de reerguimento do clube, que lhe levou 10. Pior do que destruir a parte boa do seu trabalho, pode estar a destruir mais 20 anos na história do clube – os que passaram e os que aí vêm.

De repente, as próximas eleições, que deveriam ser um mero acto burocrático, podem passar a ser relevantes.

terça-feira, 28 de agosto de 2012

O ano do lagarto


Porque é que o Sporting vai ser campeão?

 

1 – Porque a fruta está verde.

Até o Pinto da Costa percebe que ganhar sempre tem efeitos nocivos. A ilusão de um mercado concorrencial é muito mais útil para o negócio e para a perpetuação do monopólio de facto que existe do que a evidência desse monopólio. Dito por outras palavras, o Porto tem o monopólio do sistema, mas é-lhe mais útil, a longo prazo, manter a sugestão de que o que existe é um sistema de concorrência. A debilidade intelectual e a subserviência do corpo crítico que forma opinião na nossa comunicação social permitem a sustentação dessa estratégia. Na verdade, o argumento que prova, racionalmente, o domínio do sistema por parte do Porto é lógico, não tem nada de metafísico nem de voluntarista – resume-se a um silogismo básico: A – O sistema (arbitragens, financiamentos, legislação, disciplina, etc) é um factor decisivo na conquista de resultados desportivos, no futebol português, de acordo com todos os seus dirigentes (podem chamar-lhe a evidência Calabote, para tornar a coisa mais consensual…); B – o Porto ganhou 20 dos últimos 25 campeonatos e títulos em todas as épocas nos últimos 30 anos; C – o Porto controla o sistema.

Tudo o resto é ruído propositado, areia atirada para os olhinhos do maralhal, num processo tão básico que nos faz, realmente, pensar que as pessoas têm aquilo que merecem. Vivemos na Grunholândia, a terra em que os grunhos comem com talheres, escrevem em blogues na internet, misturam putas com frutas e não distinguem o crepúsculo do cabelo crespo do cú. Para os grunhos, é fácil explicar como é que um clube que tem os árbitros na mão ganha três campeonatos em 20 anos: é porque o padrinho diz. É claro que o Benfica corrompe os árbitros. Por isso é que todos os anos é campeão.

Assente este raciocínio lógico como ponto de partida, nem o Porto consegue ganhar sempre. O que acontece, normalmente, é uma de duas coisas:

- um tiro de bazuca na própria pata:

- uma redefinição inconsciente de prioridades, por norma baseada no excesso de confiança.

Na primeira categoria temos falhanços retumbantes, como foram os do regresso de Tomislav Ivic, o da escolha de Octávio Machado para treinador ou o ano do Gi-Vi-Zé (Del Neri, Fernandez, Couceiro). Nestes casos, é Pinto da Costa a tentar ser mais papista que ele próprio, a tentar elevar a «cultura» a religião e a falhar.

Na segunda categoria encontramos o caso do último título do Benfica, em que Pinto da Costa, evidentemente cheio de confiança na superioridade do seu esquema, pensou que poderia facilmente manter um técnico de segunda categoria (Jesualdo), vender dois jogadores de primeira (Lucho e Lisandro), apostar forte na Liga dos Campeões e, mesmo assim, ganhar o campeonato a um Sporting inofensivo e a um Luis Filipe Vieira em processo de auto-imolação. A prova de que a má época do Porto resultou muito das más escolhas do seu presidente e pouco ou nada do famigerado castigo do Hulk é que, de um ano para o outro, o Porto mudou tudo o que pôde, entre treinador e jogadores.

Como o sistema é forte, mesmo nestas épocas o clube geralmente arranja uma maneira de ganhar qualquer coisa e manter o pagode entretido, mas o que acontece, claramente, e invariavelmente, a meio destas temporadas, é uma reorientação de prioridades e uma redefinição de estratégias. O Porto começa a pensar na época seguinte e, aí sim, começam a acontecer coisas realmente invulgares no futebol português: o Boavista a ser campeão, o Braga a amarinhar e a apurar-se para a Liga dos Campeões, o Sporting a ser beneficiado pelas arbitragens (ou, pelo menos, não prejudicado) e a ganhar campeonatos, o Benfica a conseguir meter a cabeça de fora e vender bilhetes e camisolas, decisões disciplinares ambíguas, etc.

Na sua maior parte, são o que eu chamo de «acções preparatórias», ou «acções ‘estão a ver?’». O Porto abranda a pressão ou manipula o sistema de forma a poder argumentar que o sistema, afinal, é para todos, legitimando o regresso ao controle do mesmo, que invariavelmente, no ano seguinte, se segue, em força, de forma a que não subsistam dúvidas sobre quem manda. E o Porto, graças à «genialidade gestora» de Pinto da Costa, que «fez as opções certas na reconstrução da equipa», volta a ser campeão, de preferência com 15 pontos de avanço para poder ganhar algum nas competições europeias.

Este ano tem tudo para ser um desses anos «preparatórios».

Porque o Porto precisa desesperadamente de fazer dinheiro, e vai ter, simultaneamente, de vender dois dos seus melhores jogadores e apostar forte na Liga dos Campeões, após um ano desastroso. Essa opção vai começar a tornar-se clara não só esta semana, com o fecho do mercado, como a partir do momento em que comece a Champions.

Porque os próprios jogadores vão menosprezar o campeonato e apostar na Champions. Querem sair enquanto é tempo, ganharam dois campeonatos seguidos (o segundo sem fazerem muito por isso, entregado pelo Benfica), a coisa tornou-se fácil, confiam que o terceiro virá da mesma maneira, sem ser preciso trabalhar muito.

Porque o treinador é uma merda, não tem mãozinhas para aquilo, e já devia ter ido, mas o Pinto da Costa foi enganado pela conquista do campeonato e viu-se forçado a aceitá-lo por mais um ano, mesmo não o querendo (afinal, ele não despede treinadores…)

Porque (por estas razões e outras) no Porto o terceiro campeonato é sempre o mais difícil.

Mas, sobretudo, porque o Sporting está disposto a tudo, e vai vender-se ao sistema.

É fácil ignorar a delicadeza do momento do Sporting no meio da confusão, mas a verdade é que o Sporting está, provavelmente, no ponto mais delicado da sua existência.

O fim da «era Roquette», da suposta «gestão moderna», foi um lançar de toalha. Com o regresso de Duque e Freitas, às costas de um Godinho que não risca nada a não ser cheques pessoais para comprar jogadores (alguém tem dúvidas?), a aposta forte no mercado, o Sporting juntou-se à matilha, deixou de querer se diferente e está completamente a descoberto.

A primeira época correu incrivelmente mal. Era suposto ficarem em segundo, para jogarem a Champions e se financiarem, e acabaram em quarto. O Benfica lixou-os, basicamente, naquele jogo do 1-0, na Luz. Nesse mesmo jogo, Vieira, aparentemente, descaíu-se. «É para isto que queres controlar as arbitragens?», perguntou a Duque. Mas alguém duvida da matéria em cima da mesa nos almoços entre o Vieira e o Duque? Não era croquetes, com certeza.

Esse jogo, além da derrota temporária do «projecto» do Sporting e da jaula para os grunhos, deixou-nos o fim da putativa aliança entre Benfica e Sporting contra o Porto. Os Idiotas Cristóvãos ganharam, e os dois clubes de Lisboa vão ficar separados – a guerrilha no mercado de Verão comprova-o claramente, e é um prelúdio para outras guerras bem mais acirradas que por aí vêm.

Tudo isto faz com que o Sporting esteja no ponto para ser cooptado por Pinto da Costa, cuja estratégia magna nos 30 anos de presidência foi sempre manter-se aliado a um dos clubes de Lisboa e, sobretudo, mantê-los de costas voltadas, manipulação para a qual tanto os Damásios como os Roquettes sempre se mostraram amplamente disponíveis, porque, com mais ou menos dinheiro, eram líderes fracos e estúpidos.

Mais ou menos por altura do Benfica-Porto, a agulha vai começar a virar. O Sporting ainda vai andar na luta, vai ter superado, com dificuldades iniciais naturais, uma primeira volta muito difícil, sem ter de se preocupar muito com a Liga Europa (basta ganhar os dois jogos em casa para se ser apurado, afinal, e é bom para dar moral aos suplentes), e o Porto, apurado para os oitavos-de-final da Champions, vai começar a perder o comboio a nível interno.

Lá para Março as coisas vão estar mais claras, e por essa altura o Sporting já não vai ter razões de queixa da arbitragem. É bem possível, até, que comecemos a ver Duque e Pinto da Costa juntos em ocasiões informais, em reuniões antes das assembleias gerais da Liga, e o Vieira a barafustar contra o sistema e a nova aliança tácita.

No fim, o Sporting terá ganho o campeonato de que desesperadamente precisa para não morrer, o Porto acaba em segundo, ao sprint, garantindo a Champions para o ano seguinte, e o Benfica, se não se põe a pau, ainda acaba em quarto, para que fique bem marcada a vitória do sistema sobre os insurrectos – sobretudo se os insurrectos insistirem em não vender os seus 15 jogos em casa ao polvo. Não ao Paul mas ao de São Martinho de Penafiel.

E tudo estará bem.

 

É claro que o sistema, por si só, não chega, mas como a prosa já vai longa os outros dois factores a favor do Sporting ficam para depois, com a gentileza dos fregueses.

segunda-feira, 27 de agosto de 2012

O clube dos 100 milhões


Tal como a equipa de futebol do Benfica, só vim de férias à segunda jornada do campeonato.

Aparentemente, o Benfica está a ser levado ao colo, porque no primeiro jogo o Beto atirou-se para o chão sem ninguém lhe tocar e o terceiro golo foi invalidado, e porque em Setúbal o Amoreirinha (que nome tão mimoso para um menino tão dócil…) foi bem expulso. Para o atrasado mental do José Mota uma entrada frontal a pés juntos que só não parte uma perna ao adversário é comparável a um toque num pé (doloroso, certamente, porque é dado na parte macia do pé) numa jogada banal. Natural. Só há um adversário a quem a majestosa besta que é o José Mota raramente tira o mérito quando lhe ganha, e nem é preciso dizer o nome.

De qualquer forma, o Amoreirinha esteve quase a resolver o problema do defesa-esquerdo do Benfica. Por pouco não dava homicídio qualificado. O grande drama desta equipa do Setúbal nem sequer é não jogar nada: é nem jogar nem saber bater.

Aos 3-0 mudei para o filme de polícias e ladrões do Hollywood. Tinha menos violência e nunca achei grande piada em bater a mortos.

Este jogo fez-me lembrar aquele, há dois anos, em que o Benfica foi dar 5 ou 6 ao Marítimo. Acabou antes de começar, e não significou nada. São três pontos, num campo chato, e para mim é sempre agradável massacrar o Vitória desde que lá perdemos por 5-2 no tempo do Yekini e do Chiquinho Conde, mas no fim não servem para nada se não se ganhar por 1-0 ao Sporting ou ao Porto. Já toda a gente sabe o que esta equipa do Benfica consegue fazer nos jogos em que tudo corre bem, mas é nos outros, em que as coisas correm mal ou são mais difíceis, e em que é preciso obrigar a sorte, que se vêem as grandes equipas.

Espero que o Porto não venda o Hulk até sexta-feira. Se ficar com o Hulk, o Porto vai perder em toda a linha, financeira e desportivamente. Se o vender perde só o campeonato. Se não o vender não só vai perder este como se arrisca a não ter dinheiro para ganhar o próximo. Aos poucos vão-se materializando as lacunas da «engenharia financeira» que o Porto tem vindo a fazer para conseguir competir com um Benfica economicamente muito mais forte – porque essa é que é a questão. É o Benfica que está a forçar o Porto a arriscar mais do que pode financeiramente. 15 por cento de Álvaro Pereira, comprado para roubar o Benfica, não eram do Porto. 20 por cento de Moutinho, comprado para recuperar o título, são do Sporting. 15 por cento de Hulk (cujos restantes 85 por cento já custaram ao Porto 28 milhões de euros) não são do Porto. As aquisições de Manko e Lucho, feitas sob pressão para ganhar o título do ano passado, são a fundo perdido. Dar quase 20 milhões de euros por um lateral-direito para o Benfica não o ter, metade disso por um lateral-esquerdo para o Benfica não o ter, é uma loucura que o Porto, apesar dos seus adeptos ainda não quererem saber, não pode comportar.

O Porto tem um orçamento de 100 milhões de euros para o seu futebol profissional. É o maior orçamento de todos os tempos no futebol português, e significa, tão-só, um salto decisivo para uma plataforma europeia de que o Porto, para continuar a crescer, não pode recuar, mas que o clube, em sim, sobre-dependente de dois factores conjunturais, não conseguirá suportar a longo prazo. São eles:

- o mercado;

- e o carisma.

Quando o mercado falhar ao Porto (e vai falhar, mais ano menos ano, provavelmente quando os resultados também falharem) e quando o carisma presidencial morrer (porque vai morrer), esta «época dos 100 milhões» vai ser lida, historicamente, como aquilo que é: um sinal, na altura não reconhecido, de que a bolha estava a encher já no ponto de não retorno, em que não há maneira de continuar sem ser continuando a encher, mesmo sabendo que as expectativas estavam completamente desfasadas da realidade.
Esclareçam-me: se o Porto não for apurado para a Champions do ano que vem, como é que o futebol vai suportar uma descida de 100 para, por exemplo, 70 milhões de euros de orçamento, sem perde capacidade competitiva - se o Porto for obrigado a trocar Hulks por Quaresmas ou Luchos por Defours?

Há duas fases distintas no crescimento da bolha do Porto. A primeira é a dos pobrezinhos, que é muito bonita mas é muito fácil, uma vez que quando se começa do nada tudo o que vem é pato. Durou dos anos 70 até ao primeiro ano do Mourinho. Até esse momento, o Porto era um clube de trazer por casa, dos Pedrotos, Octávios e Oliveiras, um clube com trinta metros a menos, que fazia gala de comprar baratinho e ser pobrezinho e mesmo assim mandar cá dentro.

Com a equipa que o Mourinho construiu abriu-se a torneira. De repente, com a Champions, o dinheiro começou a entrar em volumes colossais, o Benfica foi atrás, aumentando a dívida, e o Porto deu a volta que podia. Deixou de ser um clube porco, sujo e mau para ter design. Começou o branqueamento da imagem, veio o azulinho bonito, o Estádio do arquitecto, os Fabianos e os Diegos, começou-se a gastar dinheiro a sério. O Porto passou a querer ser um clube do Mundo, maior que o seu país, maior que a sua cidade. (Como o Benfica o foi nas décadas de 60 e 70)

De repente, o Porto, que só ganha o campeonato de 2011/12 por inépcia do Benfica, gasta cerca de 60 milhões de euros em quatro jogadores (Hulk, Danilo, Sandro e Jackson) e 100 milhões de euros numa época. Pagos com quê? Com o apuramento para a Champions, basicamente, sem o qual nem teria dinheiro para pagar ordenados nem teria montra para vender jogadores e equilibrar as contas.

A bolha do Porto vai rebentar, e eu vou estar cá para ver. Serão tempos felizes. Quando penso nisso até tiro algum prazer em ver o Porto a fazer mais do mesmo, quase todos os anos, como se estivesse a subir, e não já a descer. Lembro-me da década de 90 do Benfica, depois de Jorge de Brito ter tentado fazer a «equipa para a Europa» e destruído a estrutura económica do Benfica para os vinte anos seguintes, basicamente retirando-lhe as hipóteses de ser realmente competitivo perante um adversário conjunturalmente mais forte, como foi desde o Porto «penta» até hoje.
 
Tenho poucas dúvidas que já estamos a assistir à inversão da ordem dos factores.