Ontem à
noite estava a fazer zapping e, sem querer, a televisão ficou no Porto Canal
durante cinco minutos. Foi o suficiente para acontecerem três grandes momentos
televisivos.
O primeiro
foi eu ter percebido que o Porto anal tem, de longe, as mulheres mais giras e
mais boas da televisão portuguesa. Assim, sem mais nem menos, apareceram três
princesas que põem as matrafonas dos telejornais dos canais generalistas com as
malas à porta de casa e um bilhete para o autocarro.
Sinto-me
tentado a dizer que, se se tirasse o som, o Porto Canal seria o melhor canal da
televisão portuguesa, mas não posso, porque aquele cantarzinho das meninas
ainda as torna melhores.
Confirmo uma
ideia que já tinha: no Porto estão as melhores mulheres de Portugal.
Vou voltar
ao Porto Canal. Basta ignorar o que elas dizem.
(E se acham
que este comentário não foi suficientemente sexista, acrescento que, na minha
escala de importância, os Jogos Paralímpicos são uma espécie de desporto
feminino, mas para pior: é uma forma de fazer as pessoas sentirem-se melhor, de
uma maneira geral e, a menos que as mulheres usem mini-saia ou calções justos,
não tem interesse nenhum.
Se houver aí
alguma mulher, ao engano, pode enviar o comentário de repulsa e nojo utilizando
o espaço legalmente reservado.)
O segundo
foi quando apareceu a notícia de que o Pinto da Costa tinha sido operado, entre
a notícia de que os professores podiam trocar de colocação com outros
professores para ficarem mais perto de casa e a notícia do homem que matou a
mulher em Ílhavo, ou na Cedofeita, ou lá onde foi.
Acho que,
para um portista, nos últimos dias, só havia uma notícia pior do que «Hulk foi
vendido»: «Pinto da Costa foi operado ao coração».
Note-se que
só hoje é que se soube que foi ao coração, o que ainda dá mais relevo à
intenção de fazer de conta que nada aconteceu, como se o velho tivesse ido
tirar uma verruga das costas.
O que tornou
aquele momento num grande momento televisivo foi perceber-se o pânico que gerou
e o desespero em retirar importância à notícia – isto, note-se, quando, pelo
que nos dizem, não há nenhuma razão para preocupação. Afinal, há pessoas que
vivem com duplos e triplos by-passes durante mais de vinte anos.
O que foi
bom não foi o velho estar a morrer – foi sentir o terror nas alminhas.
O terceiro grande
momento televisivo não foi ontem à noite, não se passou no Porto Canal e nem
sequer foi um momento televisivo, mas como fica aqui bem, porque é para cascar,
vamos fazer de conta que sim.
Há uns dias,
no Record, a propósito de uma peça sobre o Fernando ir para o Inter de Milão,
pela vigésima-quinta vez (acho que foi sobre o Fernando, mas, se não, era um
dos outros brasileiros), li que um dos empresários do jogador é o genro do
Pinto da Costa.
Às vezes,
até os jornalistas avençados do Porto sentem a urgência de dizer qualquer
coisinha fora dos parâmetros estabelecidos – julgo que será para não se
esquecerem que, um dia, muito antes de se tornarem mulas ao serviço da causa, sonharam
ser jornalistas – e descaem-se.
Eu repito:
um dos empresários do Fernando é o genro do Pinto da Costa.
Talvez isto
não diga nada a muita gente que também tenha o genro ou um primo ou um afilhado
a dar uma ajuda no negócio, mas a mim diz.
A direcção
do Porto, uma associação criminosa com fins lucrativos – a direcção, não o
Porto – perdeu completamente o pudor. A cosa
tornou-se tão nostra que até o pai da
mulher do padrinho recebe uma parte de um jogador para garantir a reforma. Na
direcção do Porto, o termo «família» ganha uma dimensão completamente
diferente.
É fácil de
perceber porque é que o presidente do Zenit diz que só pagou 40 milhões pelo
Hulk quando a transferência terá sido de 60 milhões. Por um lado, porque é um
negócio da Rússia – o dinheiro não é do clube, nem é da Gazprom, nem é do
Estado, não é de ninguém ao certo, nem é realmente dinheiro, mas sim qualquer
coisa de valor indefinido que, antes de ser utilizada, tem de ser lavada várias
vezes, passando por vários canais secundários. Ora, como eu já disse atrás, o Canal
do Porto tem grandes potencialidades. Eu diria mesmo que, atendendo ao volume
de 500 milhões de euros que por ele já passou em dez anos (ver Record), não há
nenhum Canal no Mundo que se lhe compare – nem o canal do Panamá, nem o do
Suez, nem o da Mancha (porque o do Porto é imaculado, segundo a Justiça
portuguesa), nem tão pouco o de Gibraltar, mesmo com um dos maiores off-shores
do mundo ali à beira. Perto dos «milhões da treta» do Hulk (ou do Falcão, ou do
Cissoko), os «milhões da treta» do Roberto (que são mesmo da treta) parecem uma
multa por estacionamento em segunda fila.
Para lavar guita,
não há como o Canal do Porto – algo que os russos foram rápidos a descobrir no
tempo do Maniche e do Nuno Espírito Santo, e que italianos, franceses,
ingleses, romenos, gregos, argentinos, mexicanos ou brasileiros, nos dois
sentidos, têm vindo a aprender com crescente interesse.
O problema
do Canal do Porto é precisamente o seu volume. É tanta gente a comer, do Araújo
da fruta («empresário» do Cissoko) ao pai da Fernanda, dos Guímaros dos
quinhentinhos aos Azevedos dos pacotinhos, que, um dia, quando o caudal
diminuir, quando a navegação mudar de rota, os adeptos portistas vão descobrir,
para seu grande choque, que o clube, que antes ganhava tudo, já não ganha assim
tanto, que está mais pobre do que antes (como Portugal depois do ouro do
Brasil), que não se vendem camisolas suficientes, que a torneira do São
Martinho de Penafiel também deixou de pingar, e que, entretanto, os Anteros, as
Fernandas, os Reinaldos, têm todos fortuna no Luxemburgo e grandes mansões em
João Pessoa.
Nesse dia,
não há bypass que nos safe.
P.S. – Outra
grande notícia: hoje começa a NFL. Entre jogos em directo, jogos gravados,
trabalho e aulas, o tempo que me sobra para ver futebol português, até Fevereiro,
é para aí de 90 minutos por semana. O que vai ser óptimo, dadas as minhas
expectativas elevadíssimas para esta época. Quando eu voltar a ver futebol com
atenção o Matic, o Carlos Martins, o Aimar, o André Almeida, o André Gomes, o
Bruno César e o Enzo Pérez já terão salvo o Natal, já me terão demonstrado que,
afinal, o Jesus é um génio, e que a abordagem da Direcção do Benfica ao mercado
de Verão foi prudente, inteligente e, porque não dizê-lo, brilhante. Na minha
opinião, sempre que há uma possibilidade, mesmo que ténue, de se chegar à
última semana de um período de transferências que dura dois meses com a
possibilidade de destruir a coluna vertebral de uma equipa para o resto da época,
sem ter sequer o tempo ou a possibilidade de reconstruir uma ou duas vértebras,
essa oportunidade tem de ser explorada e aproveitada até ao limite. O contrário
seria estúpido. Porque o equilíbrio de uma equipa de futebol de alta competição
é uma coisa demasiado delicada para ser tratada com bom-senso, planeamento e inteligência,
obviamente.