Se
perguntarem a 100 benfiquistas de hoje qual foi o melhor central que viram
jogar no Benfica, estes vão responder, quase todos, Ricardo Gomes, Mozer ou Humberto Coelho.
Para o meu pai, que tem quase 70 anos, não há dúvida nenhuma: «Germano» (depois
contava-me outra vez, com o mesmo espanto como se a estivesse a ver em câmara lenta pela centésima vez, a história da jogada em que o Germano salvou um golo em cima da
linha, numa eliminatória da Taça dos Campeões, de cabeça, para canto, por cima da
barra, depois de um chapéu ao guarda-redes, como se estivesse a cortar uma bola
num treino. E até faria o barulhinho: «Tic...»)
Eu, que não
vi jogar o Germano (mas acredito no meu pai), tenho outra resposta: Carlos
Gamarra, o Xerife. Chegou ao Benfica num Verão em que o clube já tinha salários em
atraso, jogou meio campeonato, não fez nenhuma falta, não viu nenhum cartão
amarelo, e no Inverno foi-se embora por uma pipa de massa.
E se tivesse
de dizer o segundo, também seria fácil: Aldair. Chegou miúdo, jogou uma época e
foi para o Roma, por um batelão de liras.
Poucos
diriam estes nomes, porque não fizeram história (o Aldair ainda foi campeão,
salvo erro), mas em termos de qualidade estavam acima de todos os outros. Tal
como o Witsel.
Ao contrário
de Javi, a saída de Witsel não me comove, nem me impressiona, minimamente.
Tal como
Hulk, no Porto, Witsel, no Benfica, não estava apenas acima da categoria da sua
equipa como acima do campeonato. É um jogador que não pertence a uma equipa medíocre,
com um treinador vulgar, num campeonato medíocre, como é o Benfica de Jesus em Portugal – aliás, Witsel estava tão
acima da equipa que resistiu, até, a um treinador que nunca teve mãozinhas
para lhe tirar mais que 60 por cento do seu potencial. Ver o Witsel a jogar pelo
Benfica era mais ou menos como quando vemos um adulto a jogar com miúdos: temos
a sensação de que, se ele quisesse, se se libertasse do pudor, começaria a correr,
atropelaria toda a gente e entraria com a bola pela baliza a dentro.
O que é que
se faz a um jogador assim? Obviamente, sai-se da frente – quer se esteja a
jogar com ele quer se lhe esteja a pagar o ordenado.
A mesma
coisa com Hulk. Não é uma questão de fazerem ou não fazerem falta – é uma
questão de pertencerem ou não pertencerem cá.
O «Benfica
real» não tem nada a ver com Witsels (enquanto o «Porto real» só consegue
aguentar um Hulk também desfasado, por três épocas, por um lado devido ao castigo de seis
meses, que atrasou a explosão uma época, quer porque, como equipa profissional
de futebol, se encontra ainda vários patamares acima do Benfica, e é-lhe mais
fácil, pela exposição internacional, aclimatar jogadores superiores).
Por aqui,
assunto resolvido: Witsel não «era» do Benfica, e construir uma equipa com a
ilusão de ter nela um Witsel não traria nada de positivo.
Segunda
questão: é bom negócio?
A resposta
também é simples: digo-vos daqui a dois anos.
Como sempre,
quando se está dependente do mercado, como é o caso dos clubes portugueses, a
chave do sucesso não é se se pode manter ou não um jogador (porque não pode), mas sim se se vai buscar alguém melhor do que quem saíu para o seu lugar.
No caso do
Witsel, a regra tem de ser distorcida. O Benfica tem 3 por cento de hipóteses
(talvez dois por cento...)de ir buscar alguém melhor que Witsel. Jogadores destes aparecem uma vez por
década. A questão, aqui, é onde e como o dinheiro vai ser gasto, nunca
esquecendo que o negócio real do Benfica é ganhar títulos, e não ter lucro financeiro.
Witsel
custou 8 milhões, salvo erro. Com 40 milhões de euros bem gastos, o Benfica,
mesmo cometendo alguma Robertada (que pode sempre acontecer, legitimamente), pode, comprando cinco-vezes-três-quartos-de-Witsel
(Javis, Garays, Salvios…), montar a base de uma equipa capaz de ser três ou
quatro vezes campeã nos próximos dez anos.
Com 40
milhões gastos em Airtons e Kardecs para o «projecto» pessoal de preenchimento
umbilical do Jesus, será um péssimo negócio.
À imagem do
que aconteceu, por exemplo, com a saída de Rui Costa para a Fiorentina, e que se
resume de uma forma simples: em 1994, depois de ser campeão, o Benfica vendeu Rui
Costa por uma fortuna (5 milhões de euros!) de forma a pagar salários e poder
reforçar a equipa. Depois de Rui Costa sair, os dirigentes lembraram-se de que
o que a equipa precisava era de um «dez», de um patrão (não era, claro, mas enfim...). Passaram dez anos e gastaram três vezes
esse valor, paulatinamente, a tentar encontrar o substituto de Rui Costa. Nunca
o acharam nem voltaram a ganhar um campeonato até 2005. Ou seja: a longo prazo, se Rui
Costa tivesse ficado no Benfica, como queria (queria ir para o Barcelona, para
a Fiorentina, não), o Benfica não só teria poupado uma fortuna como, muito
provavelmente, com o melhor jogador do campeonato, teria ganho, pelo menos,
dois ou três campeonatos (nessa equipa ainda havia João Pinto, Isaías, Paneira, Rui Águas,
e outros).
Por isso, em relação ao «negócio da China, daqui
a dois anos eu digo qualquer coisa.
(Mas que ando com medo, ando - sobretudo ao sentir os tiques de novo-riquismo que por ali andam, como o de ir buscar um internacional holandês por 8 milhões «para o ir adaptando» quando se tem um Gaitán fora dos convocados...)