I
O campeão
este ano é o Sporting.
Podia ter
começado este segundo ano d.C da Religião Nacional a falar sobre os chineses a
jogar ténis de mesa nos Jogos Olímpicos mas, como os que me conhecem já sabem,
eu gosto de ser politicamente correcto, não gosto de levantar ondas e faço o
possível para que as pessoas não se sintam incomodadas, por isso achei melhor
fazer a minha rentrée algarvia de uma forma serena e responsável.
Estou aqui
sentado a escrever na mesma sala em que comecei este blog faz este Agosto um
ano, com significativo menos entusiasmo do que estava há um ano, convencido de
que o Benfica ia ser campeão, e podia entrar naquela conversa de «o Porto tem
quarenta por cento, e o Benfica 35 por cento, e o Sporting 25 por cento», mas
não entro. Isso é conversa de quem é empregado da Sport TV e não se quer não se
pode comprometer. No ano passado disse: «O Porto teoricamente, tem 70 por cento
de hipótese, mas o campeão será o Benfica.»
Este ano, pela mesma lógica, digo: «O Sporting, que à partida terá 20
por cento de probabilidades, será o campeão.» Prefiro falhar a ficar pelas
meias tintas.
Da mesma
forma, e pela mesma lógica, não preciso de reassumir que falhei – o que é bom
para os benfiquistas, eu incluído. Quero muito enganar-me este ano.
No entanto,
devo lembrar aos mais tolerantes o seguinte: praticamente todas as premissas
que enumerei, há um ano, para sustentar a minha tese de que o Benfica seria
campeão, concretizaram-se. Basta ir ler. O que falhou na minha análise? Muito
pouco, mas o suficiente. Falhou a minha expectativa do que seria a influência
de Vítor Pereira na descida do Porto, e a minha expectativa do que seria o
comportamento de Jorge Jesus na gestão do plantel.
No primeiro
caso, o TOC saíu muito pior do que a encomenda, e graças a ele, em grande
parte, o Porto fez a pior campanha europeia dos últimos vinte anos, o que se
revelaria fundamental na conquista do campeonato, precisamente porque o Benfica
fez uma das suas melhores campanhas europeias dos últimos vinte anos.
No segundo
caso, nunca esperei que Jesus fosse estúpido e ambicioso ao ponto de pôr o
contrato à frente de toda a lógica, e de consumir num projecto europeu sem o
mínimo fundamento (a não ser mesmo o de se mostrar aos clubes europeus como
treinador de primeiro nível) as condições reunidas para conquistar um dos
campeonatos mais importantes na história do clube. Neste caso, devo dizer que,
quanto mais penso, mais me convenço que
se o Jesus fosse benfiquista, e soubesse o que significa, para um
benfiquista, ganhar um campeonato ao Porto, jamais o Benfica teria perdido o
título. Com um Toni, por mais fraco que fosse, o Benfica teria sido campeão o
ano passado. Depois passava mais cinco anos sem tocar na chincha, mas aquele
ganhava.
Pode haver
um buraco no meu raciocínio, espero que haja, mas vejo o Sporting campeão por três
ordens de razão: a fruta que está verde (1), o precipício (2) e o factor
Football Manager (3). De todos falarei num destes próximos dias.
Por agora
fica o vaticínio – só para não virem depois dizer me encolhi.
II
Benfica e
Porto não deixarão de ser campeões pelo que vier a acontecer nos últimos 13
dias do mês de Agosto.
Há quem veja
neste campeonato o campeonato do bluff, com as últimas cartas que estão na mão
a decidir, no pormenor, a vitória no campeonato. Não concordo. O Porto não será
campeão por ficar com o Hulk (aliás, o Porto, nesta fase, não tem absolutamente
nada a ganhar e tem tudo a perder em ficar com o Hulk, na minha opinião, que
também será fundamentada nos próximos dias), e o Benfica não será campeão mesmo
se contratar, até ao fecho da janela de transferências, o defesa-esquerdo, o
defesa-central e o defesa-direito de que necessita.
O
campeonato, este ano, será uma questão de dinâmica, de oportunidade e de
calendário.
III
A
imprensa chegou à conclusão que o
primeiro jogo do campeonato é o menos importante para o Benfica, pois o clube
não o ganha há nove ou dez anos e, nesse período, já lhe aconteceu de tudo,
desde ser campeão a acabar a quase descer de divisão.
Mais uma vez
discordo.
Este ano, o
primeiro jogo do Benfica será um dos dois mais importantes quando se fizerem as
análises no final do campeonato, por duas razões:
- porque, ao
contrário dos últimos três anos, a «equipa do Jesus» está sem oxigénio, e se
for com a cabeça abaixo de água já não vem mais ao de cimo;
- porque o
apuramento do Benfica para a Liga dos Campeões de 2013/14 será, em muito,
decidido pelos resultados dos jogos em casa frente a Braga e a Porto. Este ano
há uma hipótese real de o Braga ficar em segundo ou terceiro, outra vez, e,
mais importante, há uma hipótese real do Porto voltar a ficar em terceiro no
campeonato, provavelmente em luta ombro a ombro com o Benfica (e mesmo com um
orçamento de 100 milhões, que devia ser afixado na cabine do balneário do
Benfica e em todas as redacções dos jornais de Portugal, para que não haja
dúvidas sobre quem é o candidato, quem tem a maior obrigação de ganhar e quem
tem mais a perder)
Pelas minhas
contas, desde a época de 2003/04, no ano em que o Benfica foi empatar 3-3 às
Antas, semanas depois do Paulo Sousa e do Pacheco terem ido para o Sporting,
que o primeiro jogo do campeonato não é tão determinante na época do Benfica.
IV
Dito isto, e
antes de saber o resultado do jogo com o Braga, adianto três cenários realistas
para a época do Benfica, todos positivos, mas em diferentes graus – e isto
partindo do princípio que ainda não entrámos no território da Lei de Murphy,
segundo a qual «quando alguma coisa pode correr mal vai correr mal» (o que,
depois de assistir à rábula do alemão adormecido, não é, de todo, seguro).
Cenário «Se o Mundo fosse um Lugar
Perfeito…»:
O Benfica
ganha ao Braga, começa o campeonato a abrir e não perde em Alvalade. Calha no
grupo da morte da Liga dos Campeões – qualquer coisa como Bayern de Munique,
Manchester City e Udinese, que eu nem sei se é possível, mas vocês percebem a
ideia; e qualquer coisa suficientemente peremptória para nem os lunatismos do
Jesus poderem resistir, que à terceira jornada da Campions deixem o Benfica com
zero pontos e sem hipótese, sequer, de ir à Liga Europa.
Ao mesmo
tempo, o Porto apura-se para as eliminatórias (sob risco de não poderem fazer o
cabaz de frutas para distribuir pelos afilhados no Natal deste ano) e joga com
o Avenir Beggen no Luxemburgo nos oitavos-de-final (qual é o espanto, o APOEL
também não se apurou o ano passado?). Pelo caminho, deixa espalhados alguns
pontinhos na primeira metade do calendário, que é a mais fácil, suficientes
para que as prioridades , antes do Benfica-Porto, estejam definidas na seguinte
razão: 80 por cento para a Champions-20 por cento para o campeonato.
O Benfica
ganha ao Porto na Luz, afasta-o da luta pelo título e fica a disputar apenas as
competições internas de Janeiro a Maio. Ganha o campeonato e a Taça de
Portugal, na final com o Porto, que nas meias-finais eliminou o Sporting.
E ganha a
Taça da Liga, claro.
O Sporting
acaba em segundo e o Porto em terceiro.
O Jesus
recebe um convite irrecusável do Panathinaikos, a ganhar o dobro (esta é a
parte mais difícil, dado o montante em causa…), agradece ao Benfica e decide
que está na altura de tentar uma aventura num país em que falem português tão
mal como ele e onde compreendem um treinador com dois H’s bem grandes.
Aqui, o
Benfica ganha em toda a linha.
Cenário «Tudo Está Bem Quando Acaba Bem»
O Benfica
começa mal o campeonato e, na Champions fica tremido num grupo acessível.
Depois de uma derrota em casa frente ao Guimarães, à oitava jornada, em
Novembro, com mais um campeonato perdido e em pleno ambiente eleitoral, Luis
Filipe Vieira percebe que a única maneira de conseguir vender mais um projecto
e perpetuar-se no poder é despedindo Jesus.
Norton de
Matos passa a treinador interino enquanto Vieira vai ao Brasil, de onde traz o
sargento Scolari, que se estreia em Alvalade, frente ao Sporting, com uma
vitória do Caravaggio. No fim do jogo, jogadores como Luisão ou Javi García vem
dizer para os jornais que passar de Jesus para Scolari foi como passar de andar
dentro de um pântano com bolas de ferro acorrentadas aos pés a andar sobre a
água, como que por milagre. O Benfica entusiasma-se e, beneficiando do «efeito
Camacho», mas para melhor, e beneficiando das boas campanhas europeias de Porto
e Sporting, vai-se alimentando dos banhos de multidão que o povo benfiquista
lhes dá de semana a semana, seguindo o profeta bigodudo do Brasil.
Quando o
Benfica vai às Antas, na penúltima jornada, até já há bandeiras do clube
penduradas nos postigos das portagens à passagem do autocarro.
O Benfica
ganha o campeonato – e perde os próximos dois, porque depois é a vez do Scolari
começar a fazer a equipa dele, e aí a coisa começa outra vez a complicar,
porque já preciso pensar.
E ganha a
Taça da Liga, claro.
Cenário «Tudo Está Bem Desde Que Acabe»
O Benfica
entrega os pontos com um começo à Roberto, com o Melgarejo a estender a
passadeira a todos os clientes que lhe apareçam pela frente. Antes do Natal, o
Jesus é despedido, e a nação benfiquista assiste, emocionado, ao resgate da sua
equipa, sequestrada durante três anos.
Aqui podem
juntar alguns brindes extra, para adocicar a coisa (fica em segundo, à frente
do Porto; ganha a Taça com o Chalana no banco; o Vieira decide que se vai
embora e aparece, vindo de um nevoieiro, o melhor presidente da história do
Benfica…), mas, basicamente, é só isto.
Ah, e ganha
a Taça da Liga, claro.