As equipas B são um espectáculo. São «o elo perdido» na evolução do futebol português. Agora sim, os três grandes portugueses vão fazer fortunas e serão imparáveis. Vão ser fornadas e fornadas, umas atrás das outras, de jovens talentos a alimentar as respectivas equipas principais.
E porque é que isto vai acontecer?
Fácil: porque ainda não deram um único pontapé na bola.
Ainda não chegaram à parte da realidade.
Só preciso de uma questão para argumentar a favor da futilidade a que as equipas B estão, na minha opinião, condenadas: alguma vez faltou aos três grandes clubes portugueses espaço para colocarem qualquer jogador que quisessem em qualquer equipa da I ou II Divisão nacionais?
Claro que não.
«Ah, mas agora os jogadores vão poder aprender o que é o Benfica, e a cultura do Benfica, como disse o Norton de Matos, e vão ter boas condições de treino, e bons médicos, e o Jesus vai poder vê-los a treinar, e vão ser todos uma grande família, e vão ter a mesma forma de jogar, e tal…»
Então façam isto: peguem num jovem jogador de 20 ou 21 anos que esteja habituado a jogar todos os domingos, na I divisão paraguaia, ou mexicana, ou sueca, ou até no Barcelona B, ponham-no a suplente do Benfica B na II Divisão portuguesa durante um mesinho, e vão ver onde ele vos manda enfiar a cultura do Benfica antes de se começar a fazer birra para se meter no avião de volta para casa.
Isto porque, incrivelmente (e contra todos os prognósticos que de poderia fazer ao ver os plantéis de vinte e tal jogadores das equipas B), nessas equipas B, e na II Divisão portuguesa, também só jogam onze de cada vez.
Um objectivo realista para as equipas B seria fornecer um jogador titular para a equipa principal de três em três anos, quer através da subida directa quer através da venda de jogadores que permitam, depois, juntar o dinheiro e comprar um. Se qualquer equipa B conseguisse criar um valor futebolístico de 12/15 milhões de euros num jogador de 3 em 3 anos seria um projecto de sucesso. Mas, nos clubes grandes portugueses, duvido que mesmo isso seja suficiente para que as equipas B possam sobreviver. E até serem rentáveis.
Vamos fazer um exercício de «boas intenções vs. vida real» para as equipas B.
Boa intenção nº 1: «As equipas B vão servir para os juniores fazerem a transição para seniores, para se adaptarem e terem tempo para que a sua qualidade como profissional seja semelhante à que tinham em júnior.»
Vida real:
a) Qualquer jogador que queira ser um um bom jogador de uma equipa como a do Benfica, por exemplo, tem de ter qualidade suficiente para ser titular de uma equipa que não o Benfica aos 19/20 anos. Senão é, é porque não a tem, e provavelmente nunca a terá. Não estamos a falar aqui de jogadores medianos, mas de futebolistas de excelência. Se a equipa B do Benfica não conseguir formar melhor que um Rúben Amorim ou um César Peixoto de 3 em 3 anos não haverá ninguém a querer mantê-las. De 3 em 3 anos, o Benfica B tem de criar um Javi Garcia.
b) Nenhum jogador faz transição absolutamente nenhuma se não jogar com regularidade. Até pode treinar 5 vezes por dia. Se não jogar, não evolui, e acaba a jogar no Penafiel. Se todos os anos subirem 4 ou 5 «juniores promissores» à equipa B, ao fim de quatro anos esta terá entre 12 e 17 ex-juniores que «precisam de jogar para crescer. Para 11 lugares. E já não estamos a falar dos jogadores contratados, que, pela amostra, deverão ser a maioria. Não é mesmo nada difícil imaginar uma realidade em que os dirigentes do Benfica passam metade do Verão a tentar encontrar um tapete para debaixo do qual possam varrer os excedentários da equipa B, além dos da equipa A, pois não? E, e a propósito disto…
c) Quanto tempo é que vai demorar até a equipa B se tornar o aterro sanitário da equipa A? O sítio onde despejar os excedentários e os indisciplinados, tenham 20 ou 30 anos? Provavelmente menos de um mês, digo eu… Isso vai fazer maravilhas pela saúde anímica da equipa.
d) Ainda está por provar que a selva não seja o melhor sítio para os mais aptos conseguirem crescer. É verdade que há excepções (Figo, Paulo Sousa …) de jogadores que pegam de estaca nos clubes de origem, mas a esmagadora dos grandes talentos do futebol português, desde Rui Costa, por exemplo, resultam de uma mistura de talento, querer e profissionalismo que apenas a exposição aos ambientes competitivos ferozes e a condições adversas nos pardieiros deste país conseguem criar. Praticamente todos os melhores jogadores portugueses tiveram de ver o seu talento colocado à prova e triunfar, por eles mesmos. O que eu quero dizer é que, na prática, ainda está por provar que as equipas B não venham aburguesar jogadores já de si habituados a terem muito mais, nas camadas jovens dos três grandes, do que os outros futebolistas.
Boa intenção nº 2: «As equipa B são o local ideal para os jogadores estrageiros fazerem a adaptação a um novo país e a perceberem a grandeza [do Benfica].»
Vida real: aqui, em boa parte é verdade, mas tudo o que se disse em relação às dificuldades em jogarem farão com que, provavelmente, a meio da época, esses tais jovens estrangeiros estejam ou a regressarem ao seu país para poderem jogar ou a serem emprestados ao Atlético ou ao Portimonense pela mesma razão.
Isto torna-se ainda mais problemático quando se tratar de jogadores que venham de ser titulares nas suas equipas de origem. Serão jogadores que estão entre os melhores do seu país e que, de repente, se vêem afastados de casa e provavelmente no banco.
Ainda assim, parece-me que, de todas as boas intenções que rodeiam as equipas B, esta seja a que tem mais hipóteses de vingar, pois junta à possibilidade de adaptação esse factor de desafio pessoal/resposta a que uma aventura no estrangeiro expõe um jovem jogador uruguaio, ou espanhol, por exemplo.
No entanto, a questão de fundo mantém-se: que qualidade real esperar de um jogador destes? Que tipo de jogador será este que sairá daqui? Se for um jogador com qualidade para ser titular indiscutível na equipa B, mesmo com 19 anos, podemos estar a falar de um Rodrigo. Se for apenas mais um entre onze, será o quê? Um Schaffer? Um Felipe Bastos?
Boa intenção nº3 (e ficamo-nos por estas): «Os jogadores da equipa B podem reforçar a equipa A quando houver problemas específicos de lesões ou castigos»
Vida real: A sério? Podem mesmo? Eis o número de vezes que isso vai acontecer durante esta época, por exemplo, no Benfica: zero.
Uma equipa como a do Benfica tem sempre 25/26 jogadores, apesar de todos os anos se ouvir a conversa de que «Jesus não quer mais que 21 jogadores no plantel». Desses 25/26 jogadores, 14 jogam muito, 5 jogam pouco e os outros não jogam nunca. O plantel é feito para que cada posição tenha duas alternativas, uma mais forte, a outra para safar. É, portanto, suposto que um miúdo da equipa B, a jogar na II Divisão, se equipa e vá jogar por um candidato ao título no domingo?
Alguém está a ver o Jesus-que-joga-com-o-Witsel-a-defesa-direito ou com-o-Jardel-a-defesa-esquerdo ou que-nunca-põe-o-Luis-Martins-a-jogar, de repente, a transformar-se no Pai Natal e a confiar um lugar no onze a um miúdo «que ainda não percebe bem a forma de jogar com a equipa porque não treina com a gente» à frente dos outros 9 jogadores que fazem parte do plantel, incluindo dos 6 ou 7 que nunca jogam?
Continuem a sonhar com o Footbal Manager…
As equipas B podem ter futuro em clubes da dimensão de um Marítimo, de um Braga, de um Guimarães. Porquê? Porque:
a) São clubes com boas equipas na formação
b) São clubes em que o nível de exigência é menor, logo, o fosso entre o que se espera de um jogador B e o que se espera de um jogador A é também muito menor, tornando mais viável a passagem dos B para os A.
c) São clubes com pouco dinheiro para gastar em hipóteses malucas ou em caprichos. Jamais um Braga gastará 500 ou 600 mil euros numa jovem promessa para rodar na equipa B, como o Porto ou o Benfica. Com isso, as futuras perdas financeiras serão muito menores, o que tornará a equipa B muito mais leve e fácil de suportar.
d) São clubes que cada vez mais dependerão completamente da capacidade de prospecção e potenciação de jovens talentos. Para um Benfica ou um Porto, encontrar um miúdo com 19 anos e fazê-lo crescer é um extra, e não é sequer prioritário desde que se seja campeão – para o Marítimo, ou para o Guimarães, é vital para a sobrevivência do próprio clube.
O único objectivo real das equipas B de Benfica, Porto e Sporting, pelo contrário, é o de, através de um subterfúgio estrutural, tentar resolver um problema iminentemente técnico – tentar, através da quantidade, resolver um problema qualitativo. Basicamente, as equipas B servem para que os clubes, ao alargarem o seu campo de recrutamento para o dobro ou o triplo, consigam esconder o facto de não conseguirem ser competentes na escolha de reforços para a equipa principal.
Benfica, Porto e Sporting são pouco eficazes a comprar reforços, e, como tal, fazem o que toda a gente faz quando não é capaz de comprar em qualidade: compram em quantidade e jogam com a lei das probabilidades – entre tantas contratações é inevitável que apareça um ou outro David Luiz (mesmo que metade do que se ganhou com a venda do David Luiz seja para pagar os barretes que se eniaram com todos os David Luiz que nunca o chegaram a ser).
Deixo aqui a minha previsão para as equipas B, no espaço de quatro a cinco anos (no máximo): por essa altura, as equipas B ter-se-ão tornado numa duplicação da estrutura original, com os mesmos problemas desta, entre os quais será o excesso de jogadores.
O que equivale a dizer que daqui a cinco anos os clubs terão o dobro dos problemas que têm hoje para remendar todos os buracos em que se metem quando começam a comprar jogadores às carradas para encontrarem um que valha a pena.
As equipas B serão mais um buraco onde enterrar dinheiro, e acontecer-lhes-á o mesmo que todos os buracos: a certo ponto, o único problema, e a única coisa em que os clubes vão pensar, é em como tapá-lo de maneira a que nunca mais volte a abrir.
Benfica, Porto e Sporting contratam seis jogadores para encontrarem um à altura do clube, e pagam, hoje, o custo desse sistema. Grande parte dos seus passivos está enterrado em más escolhas de jogadores inúteis. É metade vício, metade inaptidão. As equipas B só vão duplicar esse problema de raiz.
Daqui a uns anos, as equipas B serão como o lado B dos antigos LP de vinil: têm as músicas especulativas, alternativas, aquelas que podem dar ou não dar mas que, já que estão gravadas, se põem lá e fazem parte do disco, mas ninguém quer saber delas.
Como é que a equipa B poderia ser realmente uma mais-valia, poupar despesas e tornar-se útil? Se o plantel principal, por exemplo, fosse formado por apenas 17 jogadores e os restantes pertencessem à equipa B, por exemplo.
Mas por hoje fico-me por aqui sobre as equipas B, com a certeza de que vão aparecer alguns comentários que me permitirão, na resposta, completar as razões para o meu total cepticismo em relação às equipas B tal como estão (novamente) a ser construídas.