quinta-feira, 5 de julho de 2012

A última tentação de Jesus

Primeira constatação: clara diferença de dificuldade da primeira para a segunda volta, quer para o Benfica quer para o Porto.

Na primeira volta, o Benfica recebe Porto, Braga, Nacional, Marítimo, Guimarães, enquanto o Porto recebe Sporting, Guimarães, Marítimo, Nacional e Académica.

Quer Benfica quer Porto irão perder pontos em jogos normais e em jogos anormais, como em todos os anos – a questão não é essa. A questão é que será, claramente, mais acessível quer a Benfica quer a Porto acumular pontos na primeira volta do que na segunda. O que torna ainda mais relevante aquele que é, como se vem percebendo ano após ano, um factor decisivo para o campeonato: a Liga dos Campeões.

Sabemos, à partida, que Benfica e Porto jogarão pelo menos seis jogos na LC. O último desses seis joga-se a 4/5 de Dezembro, 4 dias antes da 11.ª jornada do campeonato, em que há um Sporting-Benfica. Ou seja, há seis jogos de Champions entre 11 jogos de Liga.

Isto leva-me a crer que quem chegar ao fim da primeira volta à frente do campeonato será, muito provavelmente, o campeão, porque o segundo classificado terá sido aquele que perdeu mais pontos em jogos em que não os podia perder, de grau de dificuldade menor, além dos que são normais em qualquer campeonato.

Nesse sentido, acho que será também muito provável que cheguemos ao Benfica-Porto de 13 de Janeiro a defender que quem sair do campo, nesse jogo, à frente, será campeão nacional.

Parece-me que se está a partir demasiado cedo do princípio que o Porto-Benfica da penúltima jornada será o jogo decisivo. Se eu tivesse de escolher, já, aquele que me parece que será o mais importante na decisão do título, escolhia o Benfica-Porto. Não me admirará absolutamente nada que o Porto-Benfica venha a ser um daqueles clássicos de encher chouriços para «salvar a honra» (para qualquer um dos dois, é indiferente), já com o campeão matematicamente encontrado. E acho perigoso, para o Porto, saber que tem um jogo «para recuperar três pontos» a duas jornadas do fim. Já vi muitos campeonatos em que o Benfica chegava ao jogo com o Porto, em casa, a contar com esses três pontos havia semanas, confiante de que tinha vantagem por ter esse confronto directo, e em que, no fim do jogo, dava empate ou derrota, precisamente porque a equipa em vantagem pontual ganhava ascendente táctico e anímico em capo, saindo do jogo com a liderança reforçada. Contar com o ovo no cú da galinha, em futebol, é um expediente frequentemente traiçoeiro.



Repito, portanto: a Champions, este ano, será ainda mais decisiva do que é costume. E arrisco uma previsão, apenas aparentemente contrassensual: a equipa que fizer menos pontos na fase de grupos da Champions vai ganhar o campeonato. O ano passado foi assim, nos outros não sei (nem agora me apetece ir ver…), mas neste vai ser assim outra vez.

Veremos se, para Jesus, a tentação não será demasiado forte.

Senão vejamos:

- Descanso na Liga / LC1 / Académica-Benfica

- Paços-Benfica / LC2 / Benfica-Beira-Mar

- Descanso na Liga / LC3 / Gil-Benfica

- Benfica-Guimarães / LC4 / Rio Ave-Benfica

- Descanso na Liga / LC 5 / Benfica-Olhanense

- Descanso na Liga / LC 6 / Sporting-Benfica

Agora digam-me lá se não imaginam o Jesus, atrevido como é, a pensar assim: «Porra, isto dá para arriscar. Se eu apostar forte nos primeiros cinco jogos da Champions chego ao sexto já com o apuramento no bolso e posso fazer descansar a equipa para o Sporting. Caraças, em seis jogos tenho quatro sem nenhum jogo para o campeonato antes, e não há nenhum nesta lista que a minha equipa não consiga ganhar mesmo sem dois ou três titulares. Depois tenho o jogo em Braga e com o Porto, sem Champions à volta, para decidir o campeonato, e daí para a frente tudo pode acontecer, ainda por cima se ficar em primeiro no grupo. Man, se eu não arriscar agora nunca mais arrisco.» (chiclet, chiclet, chiclet…)

Vá, digam lá: imaginam ou não o Jesus (e 90 por cento da população benfiquista) a fazer estas contas de cabeça?

Já agora, para ser justo, vale a pena fazer o mesmo exercício para o TOC (o Verão passa, mas a alcunha fica):

- Descanso na Liga / LC1 / Porto-Beira-Mar

- Rio Ave-Porto/ LC2 / Porto-Sporting

- Descanso na Liga / LC3 / Estoril-Porto

- Porto-Marítimo / LC4 / Porto-Académica

- Descanso na Liga / LC 5 / Braga-Porto

- Descanso na Liga / LC 6 / Porto-Moreirense

Está ou não está a pedir uma valente aposta na Champions, sobretudo em ano de «recuperação do prestígio europeu»?

(Aliás, se eu não soubesse que o futebol português é transparente como a água diria que tantas jornadas de descanso antes dos jogos do dinheiro na Europa foram feitas à medida dos clubes que jogam na Europa…)



Para acabar esta análise preliminar sobre o sorteio, algumas constatações:

- Não se vê nenhum daqueles ciclos potencialmente assassinos de três jogos, em momentos decisivos da época, em que uma equipa joga tudo (um Zenit fora-Académica fora-Zenit em casa-Guimarães fora-Porto, já no Inverno, por exemplo…). Ainda que seja preciso esperar pelo desfecho da fase de grupos da Champions para saber ao certo se ele aparecerá nos oitavos-de final, que podem ser jogados, à partida, em várias datas, conforme a posição no grupo;

- Receber o Braga, na primeira jornada, é altamente vantajoso para o Benfica. Ao contrário de outros anos, o clube que disputa o acesso à Champions começa essa competição já depois do início do campeonato, ou seja, não usufrui da vantagem de ritmo competitivo que permitiu, por exemplo, ao Benfica do ano passado, começar à frente e fazer um excelente início de campeonato. O Braga começa a jogar a Champions já no play-off imediatamente antes da fase de grupos. E o primeiro desses jogos do play-off é precisamente três dias depois de ir jogar à Luz.

Ou seja, o Benfica começa o campeonato em casa, num jogo que requer concentração imediata e que não admitirá dúvidas nem adormecimentos, cheio de energia, perante um Braga que, ciclicamente, vê metade da sua equipa alterada a poucas semanas do início da prova, e que terá o seu jogo mais importante do ano apenas três dias depois. Penso que o Benfica tem aqui uma grade oportunidade de matar dois borregos só com um penálti: o do Jesus não ganhar o primeiro jogo do campeonato e o de ganhar imediata vantagem no confronto directo sobre o Braga e ir a Braga a poder jogar sem handicaps, algo que nos últimos três anos não pôde acontecer porque o Braga-Benfica foi sempre na primeira volta



-o Sporting, que também anda na luta, tem uma primeira volta para não perder o campeonato (dificílima, com jogos fora com Guimarães, Marítimo, Porto e Nacional), e com a fase de grupos da Liga Europa sempre a jeito para fazer descansar a equipa, dado o previsível baixo valor dos adversários, e uma segunda volta para o tentar ganhar.

À partida, parece-me claro que o que o Sporting vai valer no campeonato ficará decidido no final do Porto-Sporting, da sexta jornada: ou o Sporting não perde nas Antas, sobrevive a um início complicadíssimo, e depois tem cinco jogos para confirmar uma candidatura; ou acaba esse jogo na mesma situação que terminou o jogo da Luz, no ano passado, com uma derrota acumulada a outros pontos provavelmente perdidos, e apenas virtualmente candidato.

terça-feira, 3 de julho de 2012

A verdade anda por aí

Esta é a época do ano em que todas as ilusões são possíveis – e atenção que digo ilusões no seu sentido real, de algo que pensamos que é possível mas não é, não no sentido espanhol de «desejo» que os energúmenos dos nossos jornalistas desportivos introduziram no vocabulário português às três pancadas, tal como «cantera» ou «remontada» (se querem utilizar os termos espanhóis, sejam rigorosos: cantera é «canteiro», ou «viveiro» onde se plantam as sementes; remontada é… bom, deve ser alguma moça que foi montada duas vezes…).

Nesta altura, como ainda não vimos ninguém a jogar realmente à bola, as coisas são todas como gostaríamos que fossem. Geralmente, este estado de graça imaculada dura até ao primeiro jogo com os amadores do Brandesnshwicken, da 4.ª Divisão suiça. Nessa altura, e depois de andarmos duas semanas a apanhar com as «estrelas do dia» nos jornais diários, e de ficarmos a saber que eles nasceram em determinado dia, que já jogam futebol há uns anos e que têm pé direito e pé esquerdo, a realidade começa a atingir-nos como uma rajada de metralhadora. Descobrimos, com um espanto desiludido, que o Emerson, de grande jogador só tem o nome, que o Ola John não é (incrivelmente) um Ruud Gullit, que o Melgarejo, afinal, ainda não estava bem, bem pronto para competir com jogadores de nível europeu, apesar de marcar uns golos no Paços de Ferreira, que continuamos a não saber marcar cantos, que continuamos a não fazer pressão sobre a bola como deve de ser, que os avançados continuam a falar linguagens diferentes uns dos outros, e todas essas pequenas coisas que teimam em lembrar-nos que uma equipa de futebol é um acto contínuo, e não um projecto anual que abre em Julho e fecha em Maio.

Rapidamente (no espaço de duas/três semanas) nos damos conta que, pensando bem, 95 por cento daquilo que temos e somos é aquilo que já tínhamos e éramos em Julho do ano passado. Compreendemos que a construção de uma equipa de futebol é um processo moroso e complexo, em que se trabalha muito para se conseguir avançar muito pouco todos os anos.

Nesta altura fala-se de tudo, diz-se tudo e vende-se toda a banha da cobra que há em stock. Mas o que se diz é o menos importante que existe no futebol. O futebol é o que se faz. O Luisão pode dizer 20 vezes que «vamos ser humildes»: se não forem humildes, isso vê-se, e paga-se, na prática.

Esta é a época da cassete, e o Benfica, acima de todos, tem pago por não saber distinguir o que é a cassete – aquilo que se aprende a dizer para os adeptos nos deixarem em paz e a imprensa não poder implicar connosco e estragar-nos o arranjinho (algo muito útil aos jogadores num clube onde há muita pressão e onde se ganha muito dinheiro) – e o que é o trabalho, que é o que dá resultados desportivos. Julho é a época dos jornais ganharem dinheiro, Maio é a época das equipas ganharem títulos. Os jornais estão em vantagem, porque em Julho quase ninguém se lembra (ou sabe) do que vai ou pode acontecer em Maio. Mas os campeões são os que sabem que é em Julho e Agosto que se decide muito do que vai acontecer em Maio.

Quem anda mais ou menos metido no meio do desporto sabe que a fase mais importante da época é a pré-epoca. Até nos juvenis do basquetebol isso é verdade. Se não se corre no Verão, a meio da época as pernas vão-se embora. Queremos puxar por elas mas os outros parece que têm uma velocidade a mais. No futebol actual isso é ainda mais válido, porque, depois de cinco semanas em que se pode trabalhar como se quer (e como se sabe), entra-se num ritmo de dois jogos por semana em que o treino consiste, basicamente, em descansar dos jogos e das viagens e ir preparando alguns esquemas de bola parada. Quando o calendário volta a abrir, lá para Fevereiro (algumas semanas antes no caso do Porto, o ano passado…), já os jogadores estão cansados demais para aprenderem coisas novas, já nada se faz de raiz, os vícios próprios que resultam da competição e no interior da equipa já estão instalados.

É nessa altura, em Janeiro/Fevereiro, com o Inverno, que o Julho vem ao de cima. As equipas bem preparadas fisicamente recuperam energia. As equipa com um espírito de grupo sólido unem-se perante o desafio iminente, que nessa altura se coloca, dos jogos que decidem tudo. Nessa altura surgem as soluções que só um bom Julho torna possíveis. As pequenas diferenças que fazem o sucesso nessa altura resultam de grandes sacrifícios físicos feitos meses antes. São questões de pormenor, que, quando submetidas à alta pressão da competição, acabam por irrelevar tudo o resto, agigantar-se e tornar-se nas únicas visíveis.

Num dos últimos posts da última época escrevi que os quinze dias mais importantes da época do Benfica, este ano, seriam os primeiros. Reafirmo.

Começam, não na segunda-feira passada, em que apenas se pode ver que os carros estão bem servidos de automóveis (que me dizes a isto, Manuel José?), mas na próxima quinta, quando for sorteado o calendário de jogos do campeonato.

O calendário é, actualmente, no contexto bicéfalo (mais apêndice verde) do futebol português, um factor, senão determinante, muitíssimo importante. Nas últimas três épocas o calendário teve uma influência clara no desfecho do campeonato – em 2009/10, o facto de o Benfica receber o Porto na Luz, numa altura em que as dinâmicas das equipas eram de tal forma diferentes que eliminaram a distância qualitativa entre ambas, possibilitou a um Benfica inferior vencer o jogo (do título, acrescente-se); em 2010/11, exactamente o inverso, resultando no 5-0 das Antas; em 2011/12, com o Benfica a ter cinco dos oito jogos mais importantes da sua época concentrados no espaço de três semanas, em Janeiro, ampliando o efeito do desgaste, dando ao Porto a vantagem suficiente, em termos de gestão física e anímica, para ser campeão, num ano em que o normal seria não o ter sido.

Depois do sorteio vêm os estágios, nos quais as três equipas de topo se depararão, acima de tudo, com os três seguintes cenários:

- em termos de gestão do plantel, os problemas do Porto pouco ou nada diminuíram em relação ao último defeso. A única coisa que mudou foi que, ao contrário de 2011, a equipa que regressa ao trabalho está muito longe da ilusão de ser perfeita. As expectativas são mais baixas, mas, parece-me a abordagem será, também, enviesada. Não me parece que os jogadores do Porto percebam realmente como estiveram perto do fracasso na última época, e de como foi o Benfica a perder o campeonato, e não eles, realmente, a ganhá-lo. Numa equipa que pensa que ganha «porque sim», pode ser uma ilusão fatal. Eu diria que, como aqueles avisos na beira da estrada a dizer «perigo de derrocada», o Olival deveria ter um letreiro ao lado do relvado a dizer «cuidado, perigo de relaxamento» - e mesmo assim não sei se seria suficiente.

Por outro lado, os jogadores que queriam ou podiam sair no ano passado continuam quase todos lá, a começar pelo Hulk, que representa um risco efectivo de duplicação do factor-Falcão, quer porque é mais importante para a equipa quer porque pode dar mais dinheiro numa altura em que há ainda menos dinheiro para gastar. Sem o dinheiro das vendas, o tal de Jackson não vem. Há Hulk, James, Moutinho, Rolando, Álvaro Pereira, Fernando, todos, à excepção de James, em idade e situação desportiva de fazerem «o contrato».

- no Benfica, tudo na mesma, como a lesma, e o perigo real é esse. No papel, está tudo bem: uma equipa a crescer e que já tem um ano junta, jogadores jovens, poucos reforços «de facto», supostamente ambição, supostamente qualidade suficiente para, com um pouco mais de sorte no calendário e nas derrotas (sim, ter sorte nas derrotas é muito importante – se não tivesse tido sorte nas derrotas o Porto não ganharia nada no ano passado), chegar lá. Mas o problema do Benfica, actualmente, é de metodologia. Jesus. Um bom treinador, mas possivelmente um treinador desgastado, quer na imagem perante os adeptos e jogadores quer, e sobretudo, nos métodos. O estímulo é um factor preponderante numa boa pré-época. Vejo muito difícil o Jesus conseguir, ao quarto ano como treinador perante jogadores que são praticamente os mesmos, fugir da rotina, do rame-rame, da preguiça mental que é característica de todos os seres humanos (o hábito faz o monge…), arrancar deles algo que ainda não se conheça. E, se não o fizer, o Benfica começará a época sem dinâmica.

Já aqui disse o ano passado, e volto a dizê-lo, para mal dos meus pecados (sinceramente, porque estou a sofrer por antecipação): não tomo como adquirido, nem nada que se pareça, que o Jesus chegue ao Natal como treinador do Benfica. E espero bem estar enganado. Pode ser que nos calhe um grupo lixado na Champions, que não nos apuremos, e que tenhamos sorte em dois ou três jogos do campeonato… Pode ser que o Porto, desta vez, ganhe aos anartósis…

- a primeira época real do Sá Pinto começa agora. Pegar numa bicicleta caída à beira da estrada, meter-lhe a corrente no carreto e pedalar em terreno plano, desculpem lá, mas não custa nada. Quando as expectativas são baixas, tudo o que se ganha é lucro. Mas a única expectativa do Sporting a partir de Novembro do ano passado era ganhar a Taça de Portugal. O próprio Sá Pinto inchou-se todo nas vésperas do jogo. E deu no que deu.

Ter o discurso do «grande humildade, grandes campeões» quando não se tem nada a perder e não se pode ser campeão é porreiro, mas desta vez os «grandes campeões» têm, de facto, de demonstrar se estão ao nível de um clube que só pode existir para ser campeão ou se são apenas gajos porreiros, como têm mostrado ser até agora.

O Sá Pinto vai perceber rapidamente o que é ser mesmo treinador do Sporting, e os jogadores vão perceber, também rapidamente, que já não chega dizer bem do Sá Pinto para os adeptos gostarem muito deles e aturarem os seus fracassos.

Para o Sporting, esta temporada já não há almofadas. E não sei se os jogadores, à partida, estarão cientes do que é preciso para se ser campeão, e se trabalharão para isso.

Para o Sá Pinto, o desafio desta pré-época é claro: pegar num grupo de jogadores sem títulos, de nível médio europeu, muito jovens, e fazer deles uma equipa a lutar (mesmo) pelo título.

quinta-feira, 28 de junho de 2012

Deus dará

«Sabes qual é a sensação que eu tenho quando isto acontece?», perguntava-me a minha mulher ontem, no regresso a casa. «A de que isto acaba sempre da mesma maneira.»

Ao que eu lhe respondi: «A sensação que eu tenho é que começa sempre da mesma maneira.» Ao Deus-dará.

Estando ambos frustrados, nenhum dos nós estava verdadeiramente revoltado, nem insatisfeito. O que esta equipa fez nos últimos 15 dias foi muito bom, e fomos até ao limite. Perder com a melhor selecção do Mundo por um penálti é melhor do que qualquer outra equipa tenha feito nos últimos quatro anos, incluindo a Alemanha, o Brasil, a Itália e muitas outras do top-15 (e devemos lembrar-nos que lhes ganhámos 4-0 na Luz – e se era amigável para eles também era amigável para nós…).

O Ronaldo podia ter sido o primeiro a marcar? Sim, podia. E também podia ter sido o primeiro a falhar. Prefiro salientar como um defesa, Sérgio Ramos, supera o trauma de perder uma Liga dos Campeões por falhar um penálti marcando outro em que mostrou mais classe que qualquer outro jogador.

Esta equipa espanhola é a primeira na história do futebol a defender em três tempos: o primeiro, com bola – que é o que faz quando a circula a meio-campo sem progressão -; o segundo imediatamente após a perder – o que só é possível porque os seus dois melhores jogadores, Xavi e Iniesta, têm uma cultura tão defensiva quanto ofensiva, permitindo à equipa trocar imediatamente o chip assim que perde a bola, logo no meio-campo do adversário, sem sentir o impulso de ter de descer no terreno para defender –; e o terceiro (o mais fraco, mas mesmo assim eficaz) no seu meio-campo, só possível graças a dois jogadores de classe mundial, Piqué e Sérgio Ramos.

Ao acrescentar o tempo defensivo com bola aos dois tempos tradicionais, a Espanha (a Catalunha, melhor seria dizer), inovou, e recolheu os frutos dessa inovação: tornou-se a equipa que melhor defende no Mundo, e ganhou os troféus. Novamente, o mantra: os ataques ganham jogos, as defesas ganham títulos.

Não é impossível que uma equipa feita em cima do joelho ganhe um Europeu, ou um Mundial, a outra feita em cima de anos e anos de trabalho cuidadoso, como é a espanhola, mas, além de não ser justo – não, Ronaldo, não foi uma injustiça, o que se passou ontem, infelizmente, é justo, e quanto mais depressa compreendermos isso mais depressa passaremos de competir a ganhar –, não é provável.

Porque, afinal, que equipa portuguesa é esta? Se quisermos ser justos, só podemos responder de uma maneira: é a equipa do Paulo Bento. Foi ele que pegou nela, como escolha secundária, num momento em que Queirós, Laurentino Dias e Gilberto Madaíl (é bom meter nomes nestas coisas, porque o «sistema» não é uma entidade meramente abstracta), a tinham usado para jogar os seus jogos de vaidade e poder, num momento em que ela estava prestes a ser entregue, num saco de plástico, a Mourinho, para ver se ele a safava à segunda-feira, no dia de folga no Real Madrid. Foi Paulo Bento o primeiro, e o único, a acreditar nela, a ser português, a saber que era possível, enquanto os dirigentes se escondiam, preparados para dizer: «Nós tentámos…» quando a coisa desse para o torto. Foi ele quem, à sua maneira, a defendeu, quando ninguém queria saber dela, enquanto os Bosingwas deste país ainda não tinham percebido que a corrente tinha mudado. Foi ele quem deu o exemplo ao chamar Veloso, ao chamar Carlos Martins, ao recuperar, durante meses, um Ronaldo que toda a gente já dava como perdido para a selecção. Até há 15 dias, reconheçamo-lo todos, mais ou menos apegados à selecção, mais ou menos crentes, esta equipa era a equipa do Paulo Bento.

Mas hoje, quando todos a sentimos nossa, o que é dramático é que continua a ser a equipa do Paulo Bento. Porque é que é dramático? Porque, quando o Paulo Bento for à vida dele, volta tudo ao princípio. E o que encontraremos nesse princípio será o que encontramos em todos os princípios: nada. E o que poderemos vir a ter será o que sempre tivemos: o que Deus der.

Temos a equipa do Paulo Bento contra tudo e contra todos, como antes tivemos a equipa do Queirós contra tudo e contra todos, como antes tivemos a equipa do Scolari contra tudo e contra todos, e assim sucessivamente. Ao Deus-dará.

Há um facto perfeitamente incontestável sobre a verdadeira razão para os sucessos e os insucessos da Selecção Portuguesa: a sua afirmação como equipa de nível internacional coincide perfeitamente com a liberalização do mercado de futebolistas, na sequência da lei-Bosman. Assim que os melhores futebolistas portugueses – que não são melhores que os futebolistas portugueses até aos anos 90 – saíram de Portugal para jogar futebol, a Selecção portuguesa ganhou nível mundial.

Ou seja: o futebol português interno é um factor castrador da Selecção, e não potenciador. Ao contrário do que acontece com todos os nossos competidores europeus.

Apenas isto é suficiente para identificar o verdadeiro problema do nosso futebol: as elites decisoras. E este não é um problema apenas futebolístico: é um problema nacional. Portugal é, hoje, um país de potencial elevadíssimo e castrado pelos seus líderes, fracos e incompetentes. É um problema de regime, e aí o futebol pode novamente ajudar-nos, porque é no futebol que encontramos o primeiro representante do regime político português dos últimos 40 anos: Jorge Nuno Pinto da Costa, um cacique corrupto e inimputável que representa, paradigmaticamente, o princípio instituído do sacrifício de todos para o proveito de alguns, ante a complacência de um Estado-marioneta de Direito.

Tenho, da Selecção Portuguesa, uma visão pouco fundamentalista. Representa Portugal, sim, mas representa sobretudo o futebol português. Não me choca, por isso, que tenha dois ou três brasileiros a jogar nela – se metade dos jogadores do campeonato português são brasileiros, como é que uma selecção com dois ou três brasileiros não representa a realidade do futebol português?

No entanto, abrindo a lente, posso dizer que a Selecção Portuguesa de futebol é não só o principal elemento identitário da nação portuguesa, actualmente, como o seu melhor produto cultural e sócio-económico da era moderna. Num país destinado ao soft power, à projecção cultural dos seus valores como factor diferenciador e criador de poder no mundo, dada a impossibilidade de termos verdadeiro hard power, não temos nenhuma arma, quer de coesão interna quer de força externa, como a Selecção Nacional de futebol.

Se é ridículo ou não, não sei. Se é triste ou não, também não sei. Que é verdade, é.

A Selecção não é só o melhor que temos: é a única coisa a que, todos, nos podemos agarrar.

Talvez sim, talvez seja triste. Talvez não. Talvez seja apenas um princípio.

Mas é o mais importante.

E, por isso, depois destes dois anos, o Paulo Bento passou a ser dos meus. Quer esteja na selecção, no Benfica ou no Porto, como inevitavelmente acabará por estar. Porque é com gente assim, como os seus defeitos e as suas virtudes, mas com esta alma, que os meus filhos têm de crescer.

Não vou esperar a Selecção ao aeroporto. Não posso.

Não sei se a Selecção se apresentará ao público. Duvido. Eles querem férias e os dirigentes não sabem o que querem.

Mas, no próximo jogo da Selecção, seja em Lisboa, em Braga, no Algarve ou no Porto, eu vou estar lá, e levo a família.

quarta-feira, 27 de junho de 2012

Dez que não fazem um

Há alguns momentos, muito poucos, em que tudo se alinha para a intemporalidade. Para mim, o único desses momentos, de facto, foi o Sporting-Benfica do 3-6.

O estado de espírito, o adversário, a sorte, a confiança, essa insignificância de termos na equipa um dos melhores futebolistas portugueses de todos os tempos (eventualmente o melhor)…

O que me deixa mais ansioso no Portugal-Espanha de hoje é a minha confiança de que, daqui a dez anos, estaremos a contar como vivemos e o que sentimos neste dia épico.

A certeza da vitória deixa-me nervoso. Tanto que prefiro não mexer. Não dizer nada. Fazer de conta que não sei, que não tenho a certeza, que hoje vamos eliminar a Espanha à frente de todo o Mundo.

Como tal, só tenho uma safa: falar do Benfica. E do Porto, claro.



O tal de Caballero, de um momento para o outro, passou de ser uma jovem esperança desconhecida do Paraguai a futura estrela. Bastou assinar pelo Porto. O Caballero até pode vir a ser uma futura estrela, mas se para ter uma futura estrela tenho de contratar 15 miúdos de 17 anos a cheirar a leite para irem jogar no Rio Ave, prefiro não trazer nenhum e reforçar a equipa AGORA com um titular.

Continuo a ir contra a corrente em relação a essa história do «futuro». No futebol não há «futuro». No futebol há o agora, e é o agora que faz o futuro. Não alinho em Caballeros, nem em Iturbes, nem em Melgarejos, nem em Urretas, nem em Moras, e escusado será dizer que muito dificilmente alinho em equipas B, pelo menos dentro do enquadramento em que elas são normalmente utilizadas em Portugal – que é o contrário do que acontece em Espanha, dai se explicando que em Espanha elas dêem Nolitos e cá não dêem em nada.

Qualquer jogador que não seja para dar minutos a sério – e não nos jogos contra o Pinhalnovense – agora é um mau investimento, tanto a curto como a longo prazo, e é mais prejudicial que benéfico.

É evidente que há excepções. Em todas as regras as há. Mas dêem-me um exemplo – um bom exemplo, um exemplo claro – de um jogador estrangeiro contratado com 19 anos ou menos, que tenha sido emprestado, e que tenha vindo a revelar-se, depois, como uma mais-valia clara quer em termos futebolísticos quer em termos financeiros.

Anda-se a comprar Caballeros e Urretas para quê? Para ter Yannicks? Sim, porque o que se espera com estes negócios de grande visão é achar o Maradona que ninguém viu, gastar 40 mil e ganhar 40 milhões, mas o que se tem é Iturbes, uns atrás dos outros, a tirar lascas de madeira do rabinho.

Uma contratação como a de Ola John, David Luiz, Di Maria, James Rodriguez, até poderei ir ao tal Jesé Rodríguez, que nunca vi jogar mas que parece ter escola, justifica-se apenas porque se combina oportunidade de negócio e oportunidade desportiva. São jogadores que têm qualidade para, mesmo com 19/20 anos, senão serem titulares pelo menos jogarem 50 por cento dos minutos da época com qualidade. Se qualquer um destes dois elementos não existir, é pura e simplesmente 99 por cento de hipóteses de perder dinheiro e espaço para alguém mais útil à equipa.

A prospecção dos clubes portugueses funciona bem a descobrir talentos – e parece que a do Benfica já funciona melhor que a do Porto – mas trabalha mal a contratá-los - e aqui o Porto parece funcionar melhor. Ainda depende em demasia da quantidade para encontrar qualidade. Tem de falhar muito para acertar de vez em quando. E nisto, como em tudo, é a eficácia que distingue os melhores.

O segredo tem de estar em conseguir determinar, previamente, qual é o jogador que pode ser o próximo David Luiz para não ter de comprar cinco até achar um que se aproxime.

Por outro lado, o plantel do Benfica, para não ir mais longe, já tem os jovens de que precisa e que pode suportar.

O grande investimento feito em qualquer equipa do nível do Benfica, Porto ou Sporting tem de ser feito nos resultados imediatos, e não nas vendas. O caso do Sporting é exemplar. Por não ter resultados desportivos, nos últimos 20 anos, o Sporting deixou de ganhar dezenas de milhão de euros em transferências – quer porque, não tendo resultados, tem menos receitas fixas, e logo mais urgência em vender; quer porque os jogadores não se valorizam o suficiente; quer porque não se estabelece o vínculo suficiente entre o jogador e o clube que permita ao clube gerir a venda com espaço de manobra.

O caso de João Moutinho é paradigmático. Ao vender Moutinho ao Porto da maneira que vendeu o Sporting perdeu dinheiro, estatuto (indiscutivelmente, colocou-se um patamar abaixo de Porto e Benfica) e prestígio entre os próprios jogadores. E o dinheirito que recebeu foi para continuar a alimentar uma máquina de perder.

Se Moutinho tivesse sido campeão e ido a uns quartos-de-final da Champions, por exemplo, jamais teria sido vendido por três quartos do seu preço de mercado e ao principal adversário na luta pelo título.

Se o Benfica for campeão e voltar a estar nos quartos-de-final da Champions, provavelmente Rodrigo será vendido não por 20 milhões, daqui a um ano, mas por 30 milhões. E jamais Witsel seria vendido por esses 30 milhões (como vai ser, e isto já eu dizia antes de acabar o campeonato, quando ainda nem se falava nisso – só já quatro jogadores com mercado aberto, nesta equipa do Benfica, para as equipas que pagam a sério: Witsel, Gaitán, Javi Garcia e Garay, por esta ordem, o resto é a preço de saldo ou a perder dinheiro) se o Benfica não tivesse eliminado o Zenit de São Petersburgo.

Entre gastar 8 milhões a comprar 10 Melgarejos, ou 10 Caballeros, ou 10 Urretas e gastar 8 milhões a comprar um Witsel, ou um Ola-John (vamos ver, vamos ver…) ou 5 a comprar um Rodrigo ou um Garay, ou até um Jesé Rodriguez, o que é que eu prefiro?

Qual é a dúvida?

sexta-feira, 22 de junho de 2012

O valor acima

Moutinho está a fazer em 15 dias a época que não fez no Porto.

Coentrão beneficia de uma época de evolução e sem desgaste excessivo com o melhor treinador do Mundo, que, depois de Jesus, acabou de lhe tirar tudo o que ele tem para dar, assim como de um ambiente amigável – Coentrão é o típico jogador que precisa de carinho, mais que de exigências, para chegar ao seu melhor nível.

Meireles chega ao Europeu como jogador pleno, completamente maduro após ganhar o título europeu pelo Chelsea eliminando duas equipas superiores.

Pepe é um dos cinco melhores defesas do mundo, e, se juntarmos à especificidade o potencial generalista – o que pode render como central e como trinco – não hesito em considera-lo o melhor. Neste último aspecto, talvez só coloque perto do seu nível o espanhol Sérgio Ramos.

Uma questão incontornável: como, em 2004, Scolari beneficiou do trabalho de sapa feito por Mourinho no Porto – Costinha, Maniche… - este ano Paulo Bento beneficia do trabalho de sapa feito por Mourinho no Real Madrid. Pepe e Coentrão estão a um nível que a Selecção até resiste a um defesa-direito e a um guarda-redes de terceira linha europeia.

Ronaldo mostra que é um caso perfeitamente à parte no futebol mundial. Ninguém – repito, ninguém – conseguiria chegar ao décimo-primeiro (!) mês de uma época em que levou o Real Madrid às costas até ao triunfo sobre a melhor equipa do Mundo, num campeonato de 38 jornadas, e fazer dois jogos, em quatro dias, como os que Ronaldo fez na Polónia. Ninguém. Aos 70 minutos do jogo contra  República Checa, depois de dez minutos em que os jogadores andaram a correr para todos os lados, sobre um relvado mole e super-desgastante, num contra-ataque português Ronaldo acorre a um lançamento em profundidade com um sprint de mais de 40 metros. Perde-o, mas a imagem que é mostrada dele é de estar completamente à vontade fisicamente, respirando bem, costas direitinhas, como se fosse o décimo minuto de jogo.

Não sei se votaremos a ver um jogador tão distante dos outros como Ronaldo.

Pelé estava 30 anos adiantado ao relação aos jogadores do seu tempo tecnicamente – tal como Maradona, que fez em 86 o que Messi agora recria em 2012.

Cruyff estava 30 anos adiantado em relação aos outros jogadores tacticamente – e, hoje, a maior cultura futebolística do Mundo (a de Barcelona) é a que ele legou.

Ronaldo está 30 anos adiantado em relação aos outros jogadores fisicamente. E isto numa era em que um futebolista já é, acima de tudo, um atleta, e em que um jogador tecnicamente sofrível pode jogar nas melhores equipas do Mundo desde que tenha estofo mental e físico para isso. Ronaldo é a definitiva máquina de futebol, e será o protótipo que os futuros formadores tentarão criar. Será precisa uma geração para que comecem a aparecer equipa com dois ou três Ronaldos, que vão fazer o Ronaldo parecer normal.

Até agora acertei em todos os jogos da Selecção neste Europeu: derrota curta com a Alemanha; vitória frente à Dinamarca e vitória frente a uma Holanda que tinha «desastre nuclear» escrito nas camisolas desde que chegou à Ucrânia e os seus jogadores começaram a dizer que não tinham de se dar bem para ganharem. Quando se vê jogadores a baixarem os calções a outros e a mandar SMS’s durante o aquecimento do jogo com Portugal não há grande margem de dúvida sobre aquilo de que uns querem e os outros não querem saber. Contra a República Checa até previ o resultado: 1-0.

Neste momento, penso que Portugal vai jogar a final deste Europeu frente à Alemanha. Penso que a França vai enganar a Espanha e, sem ser melhor equipa, vai ganhar e jogar as meias-finais connosco. Chegará aí como favorita, por ter ganho à Espanha, mas perderá, pelas seguintes razões:

- porque terá um jogo mais difícil de encaixar, como equipa em construção que é, contra um adversário a quem tem de marcar do que contra uma Espanha que terá toda a carga do jogo em cima de si;

- porque Portugal jogará muito mais concentrado do que a Espanha;

- porque esta equipa portuguesa estará no seu ambiente mais favorável – contra tudo e contra todos, a poder jogar em contra-ataque, contra um adversário que se encontrará a competir um nível acima da sua capacidade, tal como Portugal, mas de quem, ao contrário de Portugal, se exigirá aquilo que ainda não está preparado para dar.

A final é o limite para esta equipa inventada por Paulo Bento.

A final será jogada e perdida com a Alemanha. As limitações portuguesas podem ser disfarçadas em contextos favoráveis, como têm sido os que encontrou até agora e que provavelmente encontrará na meia-final, mas serão fatais na final.

A Alemanha é uma equipa estruturada, feita para competir neste tipo de competições e para ganhar. Desta selecção alemã provavelmente só três ou quatro jogadores é que teriam, individualmente, lugar na Selecção portuguesa, mas, colectivamente, só Ronaldo jogaria pela Alemanha. A Alemanha não constrói equpas para competir: constrói equipa para ganhar. Por isso, ou falha rotundamente ou ganha (e, se não ganha, anda lá perto). A diferença entre uma selecção alemã banal e uma selecção alemã campeã do Mundo ou da Europa é meia-dúzia de mecanismos colectivos que uma não consegue fazer e a outra consegue.

Este Portugal é o contrário: uma manta de retalhos que Bento coseu, com maestria, desde que substituiu Queirós (que bela merda de homem que ali está, diga-se de passagem. O Manuel José é que tem razão: o Queirós não vale um cagalhão do Paulo Bento). Vai chegar à praia, mas nem este colectivo efémero poderá resistir, num jogo de exigência máxima e fora de todos os antecedentes históricos, a lacunas incontornáveis como a fragilidade defensiva na lateral-direita, a falta de poder físico do meio-campo, a inexistência do outro jogador fundamental de Portugal (Nani) ou de um ponta-de-lança que seja, sequer, de segunda linha europeia. Não é possível que uma equipa como a portuguesa possa ganhar um Campeonato da Europa – a não ser que joguemos a final com a Grécia, claro (que é o meu sonho molhado, com a tal cena dos 24 Lisboas no centro do campo, como já referi há dias…).

Portugal tem uma equipa sem rotina, sem maturidade e sem eficácia. Contra a Dinamarca temos o jogo ganho e perdemo-lo antes de o ir buscar outra vez ao fundo do poço. Contra a Holanda, que tem a defesa mais banal do Europeu, perdemos 10 golos para fazer 2 e ainda ganhar – algo que só pode acontecer contra a Holanda. Contra a República Checa perdemos 45 minutos e quase fomos a penáltis e prolongamento por não termos jogadores em campo suficientemente maduros, como equipa, e inteligentes para perceber que bastava subir 10 metros para banalizar e subjugar facilmente um adversário mais fraco que a Dinamarca e claramente a jogar num grau de dificuldade acima das suas possibilidades.

Chegará, eventualmente, para ir à final, com sorte. Não para ser campeão europeu.

A Grécia que ganhou em 2004, por exemplo, não tendo senão estratégia defensiva, era uma equipa coriácea, experiente, batida, que sabia ler perfeitamente todos os momentos do jogo. Esta equipa portuguesa, não.

Dito tudo isto, e garantindo já que sofrerei até ao fim, tenho de dizer que estes jogadores ganharam um lugar na «minha» equipa, e que só sinto gratidão. Não por estarem a ganhar (claro que é por estarem a ganhar, mas a questão não é só essa) mas por terem devolvido a Selecção ao país real, depois dos Queirozes e dos Merdagiles a terem conspurcado e deitado fora uma ligação de quatro anos como nunca antes tinha havido e que devolveu a auto-estima ao país.

Sinto-me grato a Paulo Bento, a Ronaldo, a Moutinho, ao Pepe, ao Bruno Alves, e estou felicíssimo por poder dizer que me estou borrifando para as benfiquites. É para isto que a Selecção existe: para mostrar que há um valor acima, e que há mais a unir-nos que a separar-nos. Sinto-me feliz por poder dizer que sinto que a Selecção Nacional é sagrada, e que sinto que ela está acima do Benfica. Não me sentiria feliz se não fosse verdade, mas é. Vejo os meus filhos pintados de verde e vermelho e sinto-o.

Sinto-me feliz por poder dizer que, em minha casa, ninguém fala mal do Ricardo, porque me deu o melhor momento da minha vida desportiva; nem do Scolari, que é mais português que milhões deles, incluindo a valente merda que é o Pinto da Costa, um homem a quem odeio, também, por durante 30 anos ter colocado a Selecção do meu país ao serviço da valente merda da sua máfia, graças a biltres como os Merdagis; nem do Deco, que, no Portugal-Inglaterra que eu vi ao vivo com a minha mulher e o meu pai, no meio de dezenas de ingleses, na terceira fila a contar do fim do Terceiro Anel do Estádio da Luz, fez, em 120 minutos, a médio-ofensivo, médio-defensivo e defesa-direito, o jogo mais grandioso a que já assisti de um jogador com a camisola portuguesa vestida, incluindo Figos, Ronaldos ou Ruis Costas.

E quero um palanque com os jogadores todos lá em cima, no meio de Lisboa, quando voltarem, para poder ir dizer «obrigado».

domingo, 17 de junho de 2012

Porcos

Querem um fino exemplo de hipocrisia? A UEFA anda há anos a apregoar aos sete ventos que a política tem de ficar fora do futebol. Castiga jogadores, clubes, federações, adeptos que usem os jogos para tomar posições políticas, trata o futebol como se fosse um ambiente hermético da sociedade, «just business». E depois qual é o seu maior evento? Uma competição entre equipas nacionais, ou seja, formadas por critérios políticos.

Algumas definições, para percebermos melhor esta profunda ambiguidade:

- «etnia» é um grupo cultural definido e com características próprias e distintivas. (Já que estamos numa onda antropológica, não é o mesmo que raça, que é uma coisa que, no ser humano, nem sequer se possa dizer que existe, e que foi «inventada» pelos evolucionistas que dariam origem ao posterior movimento nazi, por exemplo);

- «nação» é uma etnia com a pretensão à autonomia política (e este é o ponto chave: uma etnia pode não ser uma nação. Os ciganos, por exemplo, são uma etnia que não pretende representar-se politicamente; os curdos, uma etnia que quer um Estado próprio, são uma nação);

- «nacionalismo» é uma ideologia que defende que todas as nações têm o direito a um Estado. Considerando que o estado está sempre em risco, por inúmeros factores, o nacionalismo tornou-se, hoje, mais numa defesa do Estado instituído que propriamente numa busca do Estado, mas o princípio é o mesmo que era na origem.

Estes são os conceitos.

O Estado-nação é uma invenção histórica europeia, a sua principal exportação para o resto do mundo – mais do que a democracia e os supositórios  Bayer – e praticamente todos os países europeus são Estados-nação, ou seja, partiram de um movimento de afirmação étnica e nacional para chegarem a país, a Estado, e alguns mesmo a Império, que não é mais que um Estado a tentar ampliar-se a todo o mundo.

Todas as equipas em competição na Ucrânia e na Polónia representam Estados-nação. Os critérios de selecção dos jogadores para o Europeu são, antes de mais, políticos. A simbologia que envolve os jogos (a bandeira, o hino…) é política.

Claro que, se aparecer um jogador a jogar com uma mensagem política na camisola interior depois de marcar um golo, é irradiado, porque jogador é jogador, e não tem nada a ver com a política, mesmo que esteja no meio da maior manifestação política do ano, que é exactamente o que qualquer Campeonato Europeu de Futebol é. Uma coisa é o circo, outra o palhaço.

Ao grupo que acabou ontem, e em que a Grécia e a República Checa passaram, ficou a faltar uma coisa, que era impossível à partida por causa do sistema de cabeças-de-série: a Alemanha.

Porque, dessa forma, teríamos, no mesmo grupo do primeiro Europeu jogado na antiga esfera de poder da antiga União Soviética:

- os dois países que determinaram o rumo da II Guerra Mundial, na sua origem e no seu fim (sim, quem ganhou a guerra foi a URSS, não os Estados Unidos, lamento desiludir a propaganda), que simbolizaram a divisão política do mundo depois dela (RFA/RDA…) e que representaram a oposição ao «Ocidente vencedor» (a Rússia, herdeira da URSS);

- um país que foi dividido e politicamente aniquilado pelo pacto Ribbentrop-Molotov, assinado pelos governos precisamente da Alemanha e URSS, em 1939, que viu a população que resistiu à expurga e às matanças perder, pura e simplesmente, todos os direitos de nacionalidade, que, depois da Guerra, foi absorvido pelos soviéticos, e de onde partiu, precisamente, a onda revolucionária que viria a destruir o regime soviético – a Polónia.

- e o país que começou toda esta história: a Grécia, o primeiro Estado-nação moderno a ser constituído no século XIX, em 1832, após a guerra nacionalista da independência contra os otomanos. Ou seja, quem começou toda esta história, mostrando o caminho, por exemplo, à Itália (1860 e anos seguintes) e… à Alemanha de Bismarck (1871), que apenas 40 anos depois já declarava guerra ao resto do mundo para defender o seu direito ao império.

Vocês espantam-se de ver polacos a perseguir russos depois dos jogos? Eu não. Não há nenhum polaco que não tenha tido pelo menos um avô perseguido ou morto por russos ou alemães. Experimentem fazer isso em Portugal, com alguns esqueletos escondidos em campos de concentração no Alentejo, para cúmulo, e vejam por quanto tempo duram os rancores.

Com o cenário histórico, a crise europeia e o desenfreamento das paixões que o futebol consegue provocar, este Europeu é um barril de pólvora à beira de explodir.

Hoje há eleições na Grécia. Tudo isto tem um sentido colossal por baixo da superfície. Há massas enormes que se movem enquanto estamos distraídos a ver aquilo que pensamos ser apenas um jogo de futebol na televisão.

Imaginem que somos gregos. Estamos rodeados por todos os lados. Querem sufocar-nos. Querem vergar-nos. Nós somos os que não pagam, os que não trabalham, os que não têm honra. Nós, que inventámos a política que eles hoje usam, somos a escumalha da Europa. Somos motivo de gozo e de humilhação. E vamos lá acima, ao centro do mundo, ao país que é o novo menino-bonito da Europa, somos roubados descaradamente no primeiro jogo (e mesmo assim só não ganhamos porque falhamos um penálti – grande Karagounis, caraças!), e passamos à segunda fase, contra tudo e contra todos, eliminando o país anfitrião e a Rússia.

Tudo isto, estamos a ser chantageados para continuar a pagar a crise e, no dia seguinte temos as eleições que vão definir o nosso futuro.

Marquem este dia na vossa agenda de recordações, porque pode ser histórico: alguém se admiraria que, depois de ter inventado a política, e depois de ter iniciado o nacionalismo, a Grécia começasse, nas urnas, também contra tudo e contra todos, o processo de desmantelamento desse Ocidente que ganhou a Guerra Fria e que tomou conta do mundo?

Por quem é que eu estou a sofrer neste Europeu? É fácil de responder, porque não tenho pudor nenhum de misturar política com futebol: pelos PIIGS – uma sigla fina que um inglês rico  inventou para chamar «porcos» aos países que não eram realmente europeus nem civilizados. Portugal (somos os primeiros…), Itália, Irlanda, Grécia e Espanha.

No Europeu estou a torcer pelos africanos, pelos pretos, pela canalha da Europa.

O meu cenário de sonho? Portugal e Grécia na final, os portugueses a ganharem por 1-0, com um golo de cabeça de um tipo qualquer (porque era justo, caraças...) e, no fim, todos os 24 jogadores no centro do campo, a mostrarem a Taça em conjunto, unidos, e a fazerem o mesmo gesto que o Lisboa fez no Porto quando ganhou o campeonato de basquetebol.

E como eu sei que é disto que queriam mesmo que eu falasse quando viram o título do post, aqui vai:

Aconteceu uma coisa maravilhosa este ano nas modalidades do Benfica.

Não foi só ir ganhar o quinto jogo do basquete às Antas (ou à Caixa, seja lá onde for essa merda, mas também gosto, porque ir a um banco e ganhar sabe sempre bem a dobrar) e ver o Lisboa a mostrar como lhes foi ao cú.

Não foi só ouvir o tipo do hóquei (que eu não conhecia mas de quem passei a gostar bastante) a dizer que «ganhámos aos porcos».

Foi muito mais do que isso. Foi ver como, nas modalidades do Benfica, há treinadores, dirigentes e jogadores suficientemente apaixonados para expressarem exactamente, sem tirar nem pôr, sem políticas nem hipocrisias, o que vai na cabeça dos adeptos.

Não pode haver melhor coisa para um clube que ter uma sintonia perfeita entre o sentir dos adeptos e o sentir dos dirigentes. Porque dessa forma percebemos que esta raiva que sentimos pelas humilhações e pelas injustiças de anos e anos está a passar para o lado de lá, e que quem tem o poder está mais próximo de usar esse poder de uma maneira que represente, realmente, o clube – porque o clube são as suas pessoas.

Quando o Pinto da Costa diz que quer continuar a fazer da Luz o seu salão de festas não está a falar pelos seus adeptos? E não está a ser ordinário e provocador? E não está, também, a ser «um grande presidente»?

Não há nada mais triste, como adepto, que sentirmo-nos enrabados pelos outros e, logo a seguir, encornados pelos nossos, como tantas vezes aconteceu em 30 anos. E vocês sabem do que eu estou a falar.

Não gostaram «das atitudes» do Lisboa? Não gostaram «das palavras» do Trindade? Aguentem-se. Aqui, comigo, já sabem que não há hipocrisias. É pão, pão, queijo, queijo. Sim, fomos lá mesmo enrabá-los. E sim, ganhámos aos porcos. Não aos adeptos, que esses são todos iguais de Norte a Sul, mas à corja de mafiosos que tomou conta daquele clube e o tornou numa associação criminosa. Porcos, mesmo. Todas as vitórias contra o Porto são, hoje, acima de tudo, e graças a eles próprios, vitórias contra as pessoas que representam toda uma forma de estar na sociedade que a torna imunda, e acima de todos a Pinto da Costa, o personificador supremo do regime político que nos rege desde o 25 de Abril, o novo ditador da demagogia.

No programa da Sport TV a purificar o Pedroto, o Pinto daa Costa disse uma coisa que temos de reter: «Só gostam de nós enquanto não incomodamos ninguém.» Lição retida, a não esquecer, e a repetir todos os dias pelos dirigentes do Benfica, todos os dias, quando vão à casa-de-banho antes de sair de casa.

Sentiram-se «envergonhados» pelo Lisboa? Não se sentem «representados», como benfiquistas, pelo Trindade? Paciência. E más notícias: as coisas ainda vão piorar muito antes de melhorarem. Vai ser feio, vai ser longo sujo e vai ser sujo. Estamos a nadar pela vida no meio de um pântano, atolados em merda até à boca. E vocês andam preocupados com perfumaria?

sexta-feira, 15 de junho de 2012

A Casa é bonita…

Vejo cinco minutos de telejornal e dou de caras com o grande momento anual de Pinto da Costa: o almoço na Assembleia da República.

Se se perguntar ao transeunte casual se acha aquilo minimamente relevante, provavelmente ele responderia que não, que provavelmente nem deveria aparecer no noticiário.

Mas aparece. E é relevante. Aliás, como disse, é o dia mais relevante do ano para o Pinto da Costa, para o Porto e para o sistema corrupto que envolve não só o futebol português como a nossa sociedade.

O simbolismo não é irrelevante. Símbolo quer dizer, literalmente, «o que está no lugar de algo que não está lá». Qualquer bom antropólogo poderá, em cinco minutos, esclarecer qualquer pessoa, da importância do símbolo na vida humana. Tudo o que é cultural e simbólico. O nosso conjunto de valores, tudo o que nos torna gente, é símbolo. O símbolo é a forma mais profunda de comunicação – é a forma de comunicarmos sem sequer percebermos que estamos a comunicar.

Como é que se estabelecem doutrinas? Com símbolos, suficientemente claros, perceptíveis e universais. As doutrinas impõem-se simbolicamente, tornam-se ideologias, adquirem os instrumentos do poder (os meios de comunicação, a opinião públicas, as instituições politicas) e, de repente, vemo-nos a defender inconscientemente, sem sequer pensar nisso, teorias subjectivas como se fossem verdades incontestáveis. Porquê? Porque fomos educados a pensar nelas como verdades incontestáveis. É assim que funciona o verdadeiro «sistema de opressão das massas». Pela educação, e pelo tempo, sendo que a educação é proporcionada sempre pela elite (que tem o se conjunto de valores) e o tempo joga a favor de quem tem os meios de sustentação da sociedade – a propriedade, se quisermos.

Porque é que partimos do princípio que uma sociedade democrática é uma sociedade mais justa, quando todos os dias nos aparecem à frente exemplos gritantes de injustiça até nas sociedades mais «democráticas» do mundo, e quando sabemos perfeitamente que nunca existiu um sistema realmente democrático na História?

Porque é que defendemos um sistema económico que nos tira poder económico?

Porque é que consideramos alguns grupos que defendem a sua identidade terroristas e outros heróis da liberdade?

Porque é que somos nacionalistas se as nações nunca serviram senão para dividir a espécie humana?

Fazemo-lo porque estamos formatados para isso.

E o que é que esta conversa marxista e gramsciana tem a ver com o Pinto da Costa? Tem tudo, porque o que se passou na Assembleia da República foi (mais) um momento de consagração do regime vigente.

A leitura restrita do evento? O presidente do Futebol Clube do Porto foi almoçar à AR a convite dos deputados portistas, como vai todos os anos.

A leitura lata, e simbólica? O homem que reverteu um «sistema injusto» a seu favor, o tribuno «do Norte» que lutou contra a pérfida capital do reino, o artista que conseguiu fugir à Justiça mesmo quando estava cercado de provas esmagadoras, é convidado pelos representantes do povo a entrar na própria «Casa da Democracia» e a sentar ao centro, no lugar de honra entre a facção de rebeldes que, dentro dessa casa, mostram que não têm problema nenhum em definir as suas prioridades: primeiro o clube, depois o país, e a ética logo se verá.

A seu lado, quem? A própria Assunção Esteves.

Um dia destes, antes do homem morrer (depois já não faz sentido, porque bater a mortos não é «à Benfica»), ainda hei-de ir ao fundo do baú, fazer um acervo de todas as imagens em que aparece Pinto da Costa em cerimónias, festanças e segredinhos com todos – TODOS! – os principais políticos de Portugal do pós-25 de Abril, devidamente legendadas, e a começar pelos Dragões de Ouro.

O título será «O Homem do Regime», e a última imagem será a de Pinto da Costa ao lado de Assunção Esteves, juíza do Supremo, presidente da Assembleia da República, magistrada de elite, uma espécie de manequim platinado topo de gama que esse mesmo regime, corrupto , marialva e injusto, põe na vitrine para mostrar como não é nem corrupto, nem marialva nem injusto, detentora do segundo cargo político da Nação logo a seguir ao Presidente da  República.

No fim do repasto, o discurso, claro. Não o do lado de dentro da sala, claro, mas o que realmente importa, o que é feito à porta, para os microfones e as câmaras.

«O número de estúpidos não diminuiu», afirma o grande homem. Ou seja, nós, os espertos, estamos cercados, mas continuamos a ganhar-lhes. Continuamos a ser melhores e a enganá-los.

Tem razão, é verdade, o número de estúpidos não diminuiu.

E é por essa razão que os espertos continuam a tomar conta do regime.

Mas há uma coisa que convém guardar, quer pelos espertos que estão de poleiro quer pelo pessoal mais novo, que corre o risco de olhar para estas coisas e de se enganar, por pensar que nasceu num país sem solução: é que são sempre os estúpidos que fazem as revoluções.