Algumas definições, para percebermos melhor esta profunda ambiguidade:
- «etnia» é um grupo cultural definido e com características próprias e distintivas. (Já que estamos numa onda antropológica, não é o mesmo que raça, que é uma coisa que, no ser humano, nem sequer se possa dizer que existe, e que foi «inventada» pelos evolucionistas que dariam origem ao posterior movimento nazi, por exemplo);
- «nação» é uma etnia com a pretensão à autonomia política (e este é o ponto chave: uma etnia pode não ser uma nação. Os ciganos, por exemplo, são uma etnia que não pretende representar-se politicamente; os curdos, uma etnia que quer um Estado próprio, são uma nação);
- «nacionalismo» é uma ideologia que defende que todas as nações têm o direito a um Estado. Considerando que o estado está sempre em risco, por inúmeros factores, o nacionalismo tornou-se, hoje, mais numa defesa do Estado instituído que propriamente numa busca do Estado, mas o princípio é o mesmo que era na origem.
Estes são os conceitos.
O Estado-nação é uma invenção histórica europeia, a sua principal exportação para o resto do mundo – mais do que a democracia e os supositórios Bayer – e praticamente todos os países europeus são Estados-nação, ou seja, partiram de um movimento de afirmação étnica e nacional para chegarem a país, a Estado, e alguns mesmo a Império, que não é mais que um Estado a tentar ampliar-se a todo o mundo.
Todas as equipas em competição na Ucrânia e na Polónia representam Estados-nação. Os critérios de selecção dos jogadores para o Europeu são, antes de mais, políticos. A simbologia que envolve os jogos (a bandeira, o hino…) é política.
Claro que, se aparecer um jogador a jogar com uma mensagem política na camisola interior depois de marcar um golo, é irradiado, porque jogador é jogador, e não tem nada a ver com a política, mesmo que esteja no meio da maior manifestação política do ano, que é exactamente o que qualquer Campeonato Europeu de Futebol é. Uma coisa é o circo, outra o palhaço.
Ao grupo que acabou ontem, e em que a Grécia e a República Checa passaram, ficou a faltar uma coisa, que era impossível à partida por causa do sistema de cabeças-de-série: a Alemanha.
Porque, dessa forma, teríamos, no mesmo grupo do primeiro Europeu jogado na antiga esfera de poder da antiga União Soviética:
- os dois países que determinaram o rumo da II Guerra Mundial, na sua origem e no seu fim (sim, quem ganhou a guerra foi a URSS, não os Estados Unidos, lamento desiludir a propaganda), que simbolizaram a divisão política do mundo depois dela (RFA/RDA…) e que representaram a oposição ao «Ocidente vencedor» (a Rússia, herdeira da URSS);
- um país que foi dividido e politicamente aniquilado pelo pacto Ribbentrop-Molotov, assinado pelos governos precisamente da Alemanha e URSS, em 1939, que viu a população que resistiu à expurga e às matanças perder, pura e simplesmente, todos os direitos de nacionalidade, que, depois da Guerra, foi absorvido pelos soviéticos, e de onde partiu, precisamente, a onda revolucionária que viria a destruir o regime soviético – a Polónia.
- e o país que começou toda esta história: a Grécia, o primeiro Estado-nação moderno a ser constituído no século XIX, em 1832, após a guerra nacionalista da independência contra os otomanos. Ou seja, quem começou toda esta história, mostrando o caminho, por exemplo, à Itália (1860 e anos seguintes) e… à Alemanha de Bismarck (1871), que apenas 40 anos depois já declarava guerra ao resto do mundo para defender o seu direito ao império.
Vocês espantam-se de ver polacos a perseguir russos depois dos jogos? Eu não. Não há nenhum polaco que não tenha tido pelo menos um avô perseguido ou morto por russos ou alemães. Experimentem fazer isso em Portugal, com alguns esqueletos escondidos em campos de concentração no Alentejo, para cúmulo, e vejam por quanto tempo duram os rancores.
Com o cenário histórico, a crise europeia e o desenfreamento das paixões que o futebol consegue provocar, este Europeu é um barril de pólvora à beira de explodir.
Hoje há eleições na Grécia. Tudo isto tem um sentido colossal por baixo da superfície. Há massas enormes que se movem enquanto estamos distraídos a ver aquilo que pensamos ser apenas um jogo de futebol na televisão.
Imaginem que somos gregos. Estamos rodeados por todos os lados. Querem sufocar-nos. Querem vergar-nos. Nós somos os que não pagam, os que não trabalham, os que não têm honra. Nós, que inventámos a política que eles hoje usam, somos a escumalha da Europa. Somos motivo de gozo e de humilhação. E vamos lá acima, ao centro do mundo, ao país que é o novo menino-bonito da Europa, somos roubados descaradamente no primeiro jogo (e mesmo assim só não ganhamos porque falhamos um penálti – grande Karagounis, caraças!), e passamos à segunda fase, contra tudo e contra todos, eliminando o país anfitrião e a Rússia.
Tudo isto, estamos a ser chantageados para continuar a pagar a crise e, no dia seguinte temos as eleições que vão definir o nosso futuro.
Marquem este dia na vossa agenda de recordações, porque pode ser histórico: alguém se admiraria que, depois de ter inventado a política, e depois de ter iniciado o nacionalismo, a Grécia começasse, nas urnas, também contra tudo e contra todos, o processo de desmantelamento desse Ocidente que ganhou a Guerra Fria e que tomou conta do mundo?
Por quem é que eu estou a sofrer neste Europeu? É fácil de responder, porque não tenho pudor nenhum de misturar política com futebol: pelos PIIGS – uma sigla fina que um inglês rico inventou para chamar «porcos» aos países que não eram realmente europeus nem civilizados. Portugal (somos os primeiros…), Itália, Irlanda, Grécia e Espanha.
No Europeu estou a torcer pelos africanos, pelos pretos, pela canalha da Europa.
O meu cenário de sonho? Portugal e Grécia na final, os portugueses a ganharem por 1-0, com um golo de cabeça de um tipo qualquer (porque era justo, caraças...) e, no fim, todos os 24 jogadores no centro do campo, a mostrarem a Taça em conjunto, unidos, e a fazerem o mesmo gesto que o Lisboa fez no Porto quando ganhou o campeonato de basquetebol.
E como eu sei que é disto que queriam mesmo que eu falasse quando viram o título do post, aqui vai:
Aconteceu uma coisa maravilhosa este ano nas modalidades do Benfica.
Não foi só ir ganhar o quinto jogo do basquete às Antas (ou à Caixa, seja lá onde for essa merda, mas também gosto, porque ir a um banco e ganhar sabe sempre bem a dobrar) e ver o Lisboa a mostrar como lhes foi ao cú.
Não foi só ouvir o tipo do hóquei (que eu não conhecia mas de quem passei a gostar bastante) a dizer que «ganhámos aos porcos».
Foi muito mais do que isso. Foi ver como, nas modalidades do Benfica, há treinadores, dirigentes e jogadores suficientemente apaixonados para expressarem exactamente, sem tirar nem pôr, sem políticas nem hipocrisias, o que vai na cabeça dos adeptos.
Não pode haver melhor coisa para um clube que ter uma sintonia perfeita entre o sentir dos adeptos e o sentir dos dirigentes. Porque dessa forma percebemos que esta raiva que sentimos pelas humilhações e pelas injustiças de anos e anos está a passar para o lado de lá, e que quem tem o poder está mais próximo de usar esse poder de uma maneira que represente, realmente, o clube – porque o clube são as suas pessoas.
Quando o Pinto da Costa diz que quer continuar a fazer da Luz o seu salão de festas não está a falar pelos seus adeptos? E não está a ser ordinário e provocador? E não está, também, a ser «um grande presidente»?
Não há nada mais triste, como adepto, que sentirmo-nos enrabados pelos outros e, logo a seguir, encornados pelos nossos, como tantas vezes aconteceu em 30 anos. E vocês sabem do que eu estou a falar.
Não gostaram «das atitudes» do Lisboa? Não gostaram «das palavras» do Trindade? Aguentem-se. Aqui, comigo, já sabem que não há hipocrisias. É pão, pão, queijo, queijo. Sim, fomos lá mesmo enrabá-los. E sim, ganhámos aos porcos. Não aos adeptos, que esses são todos iguais de Norte a Sul, mas à corja de mafiosos que tomou conta daquele clube e o tornou numa associação criminosa. Porcos, mesmo. Todas as vitórias contra o Porto são, hoje, acima de tudo, e graças a eles próprios, vitórias contra as pessoas que representam toda uma forma de estar na sociedade que a torna imunda, e acima de todos a Pinto da Costa, o personificador supremo do regime político que nos rege desde o 25 de Abril, o novo ditador da demagogia.
No programa da Sport TV a purificar o Pedroto, o Pinto daa Costa disse uma coisa que temos de reter: «Só gostam de nós enquanto não incomodamos ninguém.» Lição retida, a não esquecer, e a repetir todos os dias pelos dirigentes do Benfica, todos os dias, quando vão à casa-de-banho antes de sair de casa.
Sentiram-se «envergonhados» pelo Lisboa? Não se sentem «representados», como benfiquistas, pelo Trindade? Paciência. E más notícias: as coisas ainda vão piorar muito antes de melhorarem. Vai ser feio, vai ser longo sujo e vai ser sujo. Estamos a nadar pela vida no meio de um pântano, atolados em merda até à boca. E vocês andam preocupados com perfumaria?