domingo, 17 de junho de 2012

Porcos

Querem um fino exemplo de hipocrisia? A UEFA anda há anos a apregoar aos sete ventos que a política tem de ficar fora do futebol. Castiga jogadores, clubes, federações, adeptos que usem os jogos para tomar posições políticas, trata o futebol como se fosse um ambiente hermético da sociedade, «just business». E depois qual é o seu maior evento? Uma competição entre equipas nacionais, ou seja, formadas por critérios políticos.

Algumas definições, para percebermos melhor esta profunda ambiguidade:

- «etnia» é um grupo cultural definido e com características próprias e distintivas. (Já que estamos numa onda antropológica, não é o mesmo que raça, que é uma coisa que, no ser humano, nem sequer se possa dizer que existe, e que foi «inventada» pelos evolucionistas que dariam origem ao posterior movimento nazi, por exemplo);

- «nação» é uma etnia com a pretensão à autonomia política (e este é o ponto chave: uma etnia pode não ser uma nação. Os ciganos, por exemplo, são uma etnia que não pretende representar-se politicamente; os curdos, uma etnia que quer um Estado próprio, são uma nação);

- «nacionalismo» é uma ideologia que defende que todas as nações têm o direito a um Estado. Considerando que o estado está sempre em risco, por inúmeros factores, o nacionalismo tornou-se, hoje, mais numa defesa do Estado instituído que propriamente numa busca do Estado, mas o princípio é o mesmo que era na origem.

Estes são os conceitos.

O Estado-nação é uma invenção histórica europeia, a sua principal exportação para o resto do mundo – mais do que a democracia e os supositórios  Bayer – e praticamente todos os países europeus são Estados-nação, ou seja, partiram de um movimento de afirmação étnica e nacional para chegarem a país, a Estado, e alguns mesmo a Império, que não é mais que um Estado a tentar ampliar-se a todo o mundo.

Todas as equipas em competição na Ucrânia e na Polónia representam Estados-nação. Os critérios de selecção dos jogadores para o Europeu são, antes de mais, políticos. A simbologia que envolve os jogos (a bandeira, o hino…) é política.

Claro que, se aparecer um jogador a jogar com uma mensagem política na camisola interior depois de marcar um golo, é irradiado, porque jogador é jogador, e não tem nada a ver com a política, mesmo que esteja no meio da maior manifestação política do ano, que é exactamente o que qualquer Campeonato Europeu de Futebol é. Uma coisa é o circo, outra o palhaço.

Ao grupo que acabou ontem, e em que a Grécia e a República Checa passaram, ficou a faltar uma coisa, que era impossível à partida por causa do sistema de cabeças-de-série: a Alemanha.

Porque, dessa forma, teríamos, no mesmo grupo do primeiro Europeu jogado na antiga esfera de poder da antiga União Soviética:

- os dois países que determinaram o rumo da II Guerra Mundial, na sua origem e no seu fim (sim, quem ganhou a guerra foi a URSS, não os Estados Unidos, lamento desiludir a propaganda), que simbolizaram a divisão política do mundo depois dela (RFA/RDA…) e que representaram a oposição ao «Ocidente vencedor» (a Rússia, herdeira da URSS);

- um país que foi dividido e politicamente aniquilado pelo pacto Ribbentrop-Molotov, assinado pelos governos precisamente da Alemanha e URSS, em 1939, que viu a população que resistiu à expurga e às matanças perder, pura e simplesmente, todos os direitos de nacionalidade, que, depois da Guerra, foi absorvido pelos soviéticos, e de onde partiu, precisamente, a onda revolucionária que viria a destruir o regime soviético – a Polónia.

- e o país que começou toda esta história: a Grécia, o primeiro Estado-nação moderno a ser constituído no século XIX, em 1832, após a guerra nacionalista da independência contra os otomanos. Ou seja, quem começou toda esta história, mostrando o caminho, por exemplo, à Itália (1860 e anos seguintes) e… à Alemanha de Bismarck (1871), que apenas 40 anos depois já declarava guerra ao resto do mundo para defender o seu direito ao império.

Vocês espantam-se de ver polacos a perseguir russos depois dos jogos? Eu não. Não há nenhum polaco que não tenha tido pelo menos um avô perseguido ou morto por russos ou alemães. Experimentem fazer isso em Portugal, com alguns esqueletos escondidos em campos de concentração no Alentejo, para cúmulo, e vejam por quanto tempo duram os rancores.

Com o cenário histórico, a crise europeia e o desenfreamento das paixões que o futebol consegue provocar, este Europeu é um barril de pólvora à beira de explodir.

Hoje há eleições na Grécia. Tudo isto tem um sentido colossal por baixo da superfície. Há massas enormes que se movem enquanto estamos distraídos a ver aquilo que pensamos ser apenas um jogo de futebol na televisão.

Imaginem que somos gregos. Estamos rodeados por todos os lados. Querem sufocar-nos. Querem vergar-nos. Nós somos os que não pagam, os que não trabalham, os que não têm honra. Nós, que inventámos a política que eles hoje usam, somos a escumalha da Europa. Somos motivo de gozo e de humilhação. E vamos lá acima, ao centro do mundo, ao país que é o novo menino-bonito da Europa, somos roubados descaradamente no primeiro jogo (e mesmo assim só não ganhamos porque falhamos um penálti – grande Karagounis, caraças!), e passamos à segunda fase, contra tudo e contra todos, eliminando o país anfitrião e a Rússia.

Tudo isto, estamos a ser chantageados para continuar a pagar a crise e, no dia seguinte temos as eleições que vão definir o nosso futuro.

Marquem este dia na vossa agenda de recordações, porque pode ser histórico: alguém se admiraria que, depois de ter inventado a política, e depois de ter iniciado o nacionalismo, a Grécia começasse, nas urnas, também contra tudo e contra todos, o processo de desmantelamento desse Ocidente que ganhou a Guerra Fria e que tomou conta do mundo?

Por quem é que eu estou a sofrer neste Europeu? É fácil de responder, porque não tenho pudor nenhum de misturar política com futebol: pelos PIIGS – uma sigla fina que um inglês rico  inventou para chamar «porcos» aos países que não eram realmente europeus nem civilizados. Portugal (somos os primeiros…), Itália, Irlanda, Grécia e Espanha.

No Europeu estou a torcer pelos africanos, pelos pretos, pela canalha da Europa.

O meu cenário de sonho? Portugal e Grécia na final, os portugueses a ganharem por 1-0, com um golo de cabeça de um tipo qualquer (porque era justo, caraças...) e, no fim, todos os 24 jogadores no centro do campo, a mostrarem a Taça em conjunto, unidos, e a fazerem o mesmo gesto que o Lisboa fez no Porto quando ganhou o campeonato de basquetebol.

E como eu sei que é disto que queriam mesmo que eu falasse quando viram o título do post, aqui vai:

Aconteceu uma coisa maravilhosa este ano nas modalidades do Benfica.

Não foi só ir ganhar o quinto jogo do basquete às Antas (ou à Caixa, seja lá onde for essa merda, mas também gosto, porque ir a um banco e ganhar sabe sempre bem a dobrar) e ver o Lisboa a mostrar como lhes foi ao cú.

Não foi só ouvir o tipo do hóquei (que eu não conhecia mas de quem passei a gostar bastante) a dizer que «ganhámos aos porcos».

Foi muito mais do que isso. Foi ver como, nas modalidades do Benfica, há treinadores, dirigentes e jogadores suficientemente apaixonados para expressarem exactamente, sem tirar nem pôr, sem políticas nem hipocrisias, o que vai na cabeça dos adeptos.

Não pode haver melhor coisa para um clube que ter uma sintonia perfeita entre o sentir dos adeptos e o sentir dos dirigentes. Porque dessa forma percebemos que esta raiva que sentimos pelas humilhações e pelas injustiças de anos e anos está a passar para o lado de lá, e que quem tem o poder está mais próximo de usar esse poder de uma maneira que represente, realmente, o clube – porque o clube são as suas pessoas.

Quando o Pinto da Costa diz que quer continuar a fazer da Luz o seu salão de festas não está a falar pelos seus adeptos? E não está a ser ordinário e provocador? E não está, também, a ser «um grande presidente»?

Não há nada mais triste, como adepto, que sentirmo-nos enrabados pelos outros e, logo a seguir, encornados pelos nossos, como tantas vezes aconteceu em 30 anos. E vocês sabem do que eu estou a falar.

Não gostaram «das atitudes» do Lisboa? Não gostaram «das palavras» do Trindade? Aguentem-se. Aqui, comigo, já sabem que não há hipocrisias. É pão, pão, queijo, queijo. Sim, fomos lá mesmo enrabá-los. E sim, ganhámos aos porcos. Não aos adeptos, que esses são todos iguais de Norte a Sul, mas à corja de mafiosos que tomou conta daquele clube e o tornou numa associação criminosa. Porcos, mesmo. Todas as vitórias contra o Porto são, hoje, acima de tudo, e graças a eles próprios, vitórias contra as pessoas que representam toda uma forma de estar na sociedade que a torna imunda, e acima de todos a Pinto da Costa, o personificador supremo do regime político que nos rege desde o 25 de Abril, o novo ditador da demagogia.

No programa da Sport TV a purificar o Pedroto, o Pinto daa Costa disse uma coisa que temos de reter: «Só gostam de nós enquanto não incomodamos ninguém.» Lição retida, a não esquecer, e a repetir todos os dias pelos dirigentes do Benfica, todos os dias, quando vão à casa-de-banho antes de sair de casa.

Sentiram-se «envergonhados» pelo Lisboa? Não se sentem «representados», como benfiquistas, pelo Trindade? Paciência. E más notícias: as coisas ainda vão piorar muito antes de melhorarem. Vai ser feio, vai ser longo sujo e vai ser sujo. Estamos a nadar pela vida no meio de um pântano, atolados em merda até à boca. E vocês andam preocupados com perfumaria?

sexta-feira, 15 de junho de 2012

A Casa é bonita…

Vejo cinco minutos de telejornal e dou de caras com o grande momento anual de Pinto da Costa: o almoço na Assembleia da República.

Se se perguntar ao transeunte casual se acha aquilo minimamente relevante, provavelmente ele responderia que não, que provavelmente nem deveria aparecer no noticiário.

Mas aparece. E é relevante. Aliás, como disse, é o dia mais relevante do ano para o Pinto da Costa, para o Porto e para o sistema corrupto que envolve não só o futebol português como a nossa sociedade.

O simbolismo não é irrelevante. Símbolo quer dizer, literalmente, «o que está no lugar de algo que não está lá». Qualquer bom antropólogo poderá, em cinco minutos, esclarecer qualquer pessoa, da importância do símbolo na vida humana. Tudo o que é cultural e simbólico. O nosso conjunto de valores, tudo o que nos torna gente, é símbolo. O símbolo é a forma mais profunda de comunicação – é a forma de comunicarmos sem sequer percebermos que estamos a comunicar.

Como é que se estabelecem doutrinas? Com símbolos, suficientemente claros, perceptíveis e universais. As doutrinas impõem-se simbolicamente, tornam-se ideologias, adquirem os instrumentos do poder (os meios de comunicação, a opinião públicas, as instituições politicas) e, de repente, vemo-nos a defender inconscientemente, sem sequer pensar nisso, teorias subjectivas como se fossem verdades incontestáveis. Porquê? Porque fomos educados a pensar nelas como verdades incontestáveis. É assim que funciona o verdadeiro «sistema de opressão das massas». Pela educação, e pelo tempo, sendo que a educação é proporcionada sempre pela elite (que tem o se conjunto de valores) e o tempo joga a favor de quem tem os meios de sustentação da sociedade – a propriedade, se quisermos.

Porque é que partimos do princípio que uma sociedade democrática é uma sociedade mais justa, quando todos os dias nos aparecem à frente exemplos gritantes de injustiça até nas sociedades mais «democráticas» do mundo, e quando sabemos perfeitamente que nunca existiu um sistema realmente democrático na História?

Porque é que defendemos um sistema económico que nos tira poder económico?

Porque é que consideramos alguns grupos que defendem a sua identidade terroristas e outros heróis da liberdade?

Porque é que somos nacionalistas se as nações nunca serviram senão para dividir a espécie humana?

Fazemo-lo porque estamos formatados para isso.

E o que é que esta conversa marxista e gramsciana tem a ver com o Pinto da Costa? Tem tudo, porque o que se passou na Assembleia da República foi (mais) um momento de consagração do regime vigente.

A leitura restrita do evento? O presidente do Futebol Clube do Porto foi almoçar à AR a convite dos deputados portistas, como vai todos os anos.

A leitura lata, e simbólica? O homem que reverteu um «sistema injusto» a seu favor, o tribuno «do Norte» que lutou contra a pérfida capital do reino, o artista que conseguiu fugir à Justiça mesmo quando estava cercado de provas esmagadoras, é convidado pelos representantes do povo a entrar na própria «Casa da Democracia» e a sentar ao centro, no lugar de honra entre a facção de rebeldes que, dentro dessa casa, mostram que não têm problema nenhum em definir as suas prioridades: primeiro o clube, depois o país, e a ética logo se verá.

A seu lado, quem? A própria Assunção Esteves.

Um dia destes, antes do homem morrer (depois já não faz sentido, porque bater a mortos não é «à Benfica»), ainda hei-de ir ao fundo do baú, fazer um acervo de todas as imagens em que aparece Pinto da Costa em cerimónias, festanças e segredinhos com todos – TODOS! – os principais políticos de Portugal do pós-25 de Abril, devidamente legendadas, e a começar pelos Dragões de Ouro.

O título será «O Homem do Regime», e a última imagem será a de Pinto da Costa ao lado de Assunção Esteves, juíza do Supremo, presidente da Assembleia da República, magistrada de elite, uma espécie de manequim platinado topo de gama que esse mesmo regime, corrupto , marialva e injusto, põe na vitrine para mostrar como não é nem corrupto, nem marialva nem injusto, detentora do segundo cargo político da Nação logo a seguir ao Presidente da  República.

No fim do repasto, o discurso, claro. Não o do lado de dentro da sala, claro, mas o que realmente importa, o que é feito à porta, para os microfones e as câmaras.

«O número de estúpidos não diminuiu», afirma o grande homem. Ou seja, nós, os espertos, estamos cercados, mas continuamos a ganhar-lhes. Continuamos a ser melhores e a enganá-los.

Tem razão, é verdade, o número de estúpidos não diminuiu.

E é por essa razão que os espertos continuam a tomar conta do regime.

Mas há uma coisa que convém guardar, quer pelos espertos que estão de poleiro quer pelo pessoal mais novo, que corre o risco de olhar para estas coisas e de se enganar, por pensar que nasceu num país sem solução: é que são sempre os estúpidos que fazem as revoluções.

sábado, 9 de junho de 2012

Está tudo na tola

Perder por 1-0 com a Alemanha num ressalto não é trágico.

Perder com a Alemanha por 1-0 num ressalto por causa de se estar a defender muito em cima da área também não.

Perder com a Alemanha por 1-0 num ressalto por causa de se estar a defender muito em cima da área quando se joga com João Pereira, Miguel Veloso, Hélder Postiga, Varela, Nélson Oliveira, para não ir mais longe – e sem Deco, Ricardo Carvalho, Simão Sabrosa… – muito menos.

Perder com a Alemanha por 1-0 num ressalto por causa de se estar a defender muito em cima da área quando se joga com João Pereira, Miguel Veloso, Hélder Postiga, Varela, Nélson Oliveira, para não ir mais longe – e sem Deco, Ricardo Carvalho, Simão Sabrosa… – tendo duas bolas na trave, uma em cima da linha e outra de baliza aberta atirada à figura do guarda-redes, é, eu diria, mais do que digerível

O que é dramático é ter um país que entra a perder. Que não tem a vitória na cabeça. Não é dramático por não termos a vitória na cabeça: é dramático porque NÃO HÁ NENHUMA BOA RAZÃO para não termos a vitória na cabeça.

NÃO HÁ NENHUMA BOA RAZÃO para aceitar uma inferioridade QUE NÃO EXISTE a não ser na nossa cabeça!



O resultado? O resultado é o menos.

Entre os maus resultados foi o melhor. Para o apuramento, depois da vitória da Dinamarca, era fundamental não perder por mais de um golo, porque há grandes probabilidades de o apuramento vir a ser decidido pelo diferencial de golos.

Com uma vitória por 2 ou 3 a 0 a Alemanha ficava praticamente apurada.

As duas finais, na cabeça dos jogadores, dos adeptos, dos treinadores, continuam a ser as duas que eram: contra a Dinamarca e contra a Holanda. Com uma vitória frente à Dinamarca por mais de um golo Portugal fica quase apurado, sobretudo se a Alemanha ganhar à Holanda. Com duas vitórias, Portugal está apurado. Com estes resultados, só há um dado realmente relevante a retirar: a equipa que conseguir ganhar por 2 ou mais golos na segunda jornada fica com o apuramento na mão.

Só há um problema com estes dois resultados: a elevada probabilidade de a Dinamarca chegar à terceira jornada a jogar o apuramento frente à segunda equipa da Alemanha, no caso de esta chegar lá já apurada.

No entanto, não penso que isso vá acontecer.

O meu palpite é que as quatro equipas vão chegar à última jornada empatadas em pontos.

Na minha opinião, o apuramento de Portugal depende, em 80 por cento, de se conseguir marcar 3 golos à Dinamarca.



Não menosprezemos as hipóteses portuguesas: a vitória da Dinamarca abriu as contas, e a equipa sai do jogo com a Alemanha com os pontos que esperava ter (ou seja, está tudo dentro dos planos) e convencida de que tem reais possibilidades de ganhar a qualquer equipa no Europeu.



P.S. – Lembram-se, há uns tempos, a propósito daquela lesão do Hulk quando as coisas andavam difíceis para ele no Porto, de eu dizer que a pressão (física e, sobretudo, psíquica) tinha influência nas lesões dos atletas? Pois bem, a Naide Gomes rompeu o tendão de Aquiles na corrida de aproximação durante um salto em comprimento (uma coisa que ela já deve ter feito 5 mil vezes ao longo da sua vida) e não vai aos Jogos Olímpicos, daqui a um mês. E com ela já são dois, juntando o Nélson Évora. A maior parte deste tipo de lesões (as não- traumáticas) começam na cabeça.

terça-feira, 5 de junho de 2012

«E o burro sou eu?!»

Gosto muito do Manuel José, e o velho acertou na mouche. Cirúrgico, sem salamaleques, com a visão própria de quem:

- não precisa da mama da FPF e da Liga para nada;

- já viu tudo o que tinha a ver e já experimentou tudo o que tinha a experimentar no futebol;

- não sente necessidade de andar a lamber o cu a Ronaldos, nem a Espíritos Santos, nem a Pintos da Costa;

- está «fora», cá dentro.

Um dia, lá mais para a frente, eu explico porque é que, para mim, o único treinador português com capacidade para substituir o Jesus (à excepção do Mourinho, por razões óbvias), é o Manuel José.

*

O jogo com a Turquia – o outro nem percebi que havia, confesso – só vem confirmar uma ideia que já tenho há algum tempo: não se devia fazer este tipo de jogos de preparação. Pelas seguintes razões:

- não servem para preparar nada, porque, por um lado, os jogadores não «estão» lá (muito menos no fim de uma época sobrecarregada de pressão e à beira de mais 15 dias de super-pressão já com o depósito vazio), e por outro porque os segundos 45 minutos, com as substituições, são uma mera formalidade;

- não há nada a ganhar e há muito a perder. Como disse o Manuel José, o capital de confiança ganho com um apuramento muito difícil e meritório foi desperdiçado, à beira de um jogo com a segunda melhor selecção da Europa, para andar a fazer «dressages» com a  Macedónia e a Turquia (vender bilhetes, cachecóis, mostrar os meninos, etc, etc);

- ao contrário do que se diz, prejudica o espírito de selecção. A única forma de se adquirir esse espírito é fazer com que, cada vez que os jogadores joguem, «sintam» o jogo, a camisola e a pressão.

A selecção só devia fazer jogos de preparação com equipas do top-15 do Mundo. Porque:

- mesmo fazendo menos jogos, cada jogo seria muito mais útil, no sentido de nos confrontarmos com equipas a sério e nos prepararmos para as grandes competições, mais difícil e mais intenso;

- se perdêssemos, teríamos sempre algo de positivo para aprender, o que não acontece, manifestamente, quando s eleva 3-1 da Turquia em casa;

- se associaria a selecção a um nível de excelência.

Para andar a jogar com Macedónias já chegam os apuramentos. Fora isso, deveria ser apenas nos jogos a sério. Ou jogar com o Lichtenstein não serve como jogo-treino?

*

O Paulo Bento está a ser burro. Eu tenho legitimidade para dizer isto porque, a seguir ao Jesus, sou a pessoa que mais percebe de futebol (de longe) em Portugal.

O Bento, como o resto dos portugueses, ainda não percebeu a vantagem que tem em ter o Ronaldo na equipa. É normal. Como é raríssimo aparecer um jogador a assim a tendência é para pensar que é bom para a equipa e pouco mais. Errado. Quando uma equipa tem um Ronaldo, ou um Messi, a lógica normal de funcionamento de equipa deixa de existir.

Eu explico: os mais antigos devem lembrar-se do Mundial de 90, em que a Argentina foi à final com um guarda-redes a defender penáltis, o Maradona e o Cannigia. Como? Da mesma maneira que os Chicago Bulls, no basquetebol, ganhara o primeiro campeonato no ano em que o Mivhael Jordan passou de marcar 40 pontos por jogo em média para passar a marcar 30.

Em qualquer jogo colectivo de ataque e defesa alternada um jogador excepcional, como o Ronaldo, tem duas fases distintas em que é decisivo: a primeira, em que, graças ao seu talento, desequilibra os jogos individualmente; a segunda em que, depois dos adversários perceberem como o anular individualmente, o jogador passa a decidir os jogos colectivamente.

Para o Ronaldo, que é muito egocêntrico, não foi fácil fazer esta transição. A sua primeira fase acabou mais ou menos a meio do último ano em Manchester, e a segunda só chegou na segunda época em Madrid, já com Mourinho, entre esses dois momentos, Ronaldo andou à procura do seu lugar, a desperdiçar golos e a perder títulos. Na selecção, a segunda fase de Ronaldo ainda não chegou e duvido que vá chegar.

Ronaldo vai ser o melhor jogador presente no Europeu – de muito, muito longe, e só não o seria se o Messi jogasse – mas vai passar despercebido, precisamente porque o Paulo Bento não vai ter lata para fazer o que é preciso.

O que é que era preciso?

1 – Montar uma defesa e um meio-campo de ferro, sem panaleirices, para jogar em contra-ataque, à italiana;

2 – Deixar os três avançados, mas com três elementos rápidos, ratos a jogar à bola e o mais soltos e, ao mesmo tempo, livres, quanto possível;

3 – Ensinar o Ronaldo a passar a bola no momento certo.

O golo de Portugal contra a Turquia devia ser mostrado e repetido antes de todos os treinos, porque é a única (e grande) hipótese desta Selecção ter sucesso: Ronaldo com espaço, a aparecer em posição de remate e, no momento certo, a passar a bola ao Nani, que só teve de olhar e marcar. O Ronaldo é tão perigoso no um contra um que não é preciso mais do que isto e uma defesa de betão para ir longe neste Europeu ou no próximo Mundial.

Portugal teria boas possibilidades de ser campeão europeu se o Ronaldo chegasse ao fim do campeonato com um golo marcado e seis ou sete assistências.

Jogadores destes aparecem de 20 em 20 anos, e nos só o vamos perceber quando andarmos há 30 a falar «dos tempos do Ronaldo».

Um último argumento: o Maradona foi o melhor jogador e marcador da Argentina no Mundial de 1986, que a Argentina ganhou. Sabem quantos golos marcou dos 3 com que a Argentina bateu a Alemanha na final? Nenhum. Só deu a marcar. No jogo mais difícil e decisivo, o melhor jogador do mundo não marcou nenhum golo, e foi campeão.

Porque é que eu sei que o Paulo Bento não vai ter lata? Porque o ponta-de-lança esperto, rato e finalizador de que o Ronaldo e esta selecção precisavam para ganhar o Europeu está no Brasil, tem 75 anos, e chama-se Liedson.

Numa competição com 3 a 6 jogos num mês? Ai não que não era…

*

Ao pessoal que tem aparecido e ficado a seco, uma explicação: as aulas acabam para a semana e têm sido avaliações atrás umas das outras. A partir de terça/quarta-feira cá nos veremos mais vezes.

quinta-feira, 31 de maio de 2012

Jovens lobos ou caçadores velhos?

Está a decorrer neste momento o que eu diria que é o melhor clinic que já se realizou sobre os temas Idade vs. Juventude e Talento Individual vs. Trabalho Colectivo.

É um clinic aberto ao público e eu aconselhava toda a gente a ver, porque há ali muita coisa a aprender sobre o que é mais importante para ganhar, experiência ou vigor físico.

Dá todas as noites por volta da 1.30 da madrugada e o seu nome oficial é «Finais de Conferência da NBA».

Os intervenientes são os seguintes:

Oklahoma City Thunder – equipa muito jovem

Miami Heat – equipa jovem

San Antonio – equipa velha

Boston Celtics – equipa muito velha.

Oklahoma está a jogar com San Antonio e Miami com Boston.



Guia técnico para o clinic, para os interessados:



Oklahoma – O seu franchise player é Kevin Durant, de 21 anos, melhor marcador de pontos da liga, um prodígio que, se não tiver lesões graves que lhe cortem a carreira, a vai acabar, provavelmente, entre os três melhores marcadores na história da NBA. Marca pontos de todas as maneiras e feitios.

O outro jogador-chave no one-two-punch, como chamam os americanos, é o base Russell Westbrook, também de 21 anos, um dos jogadores mais rápidos da liga.

Os Thunder têm outros jogadores importantes, obviamente, mas este é o seu núcleo de sucesso ou insucesso. É o que estes dois rendem, em conjunto, que determina 80 por cento das hipóteses de sucesso da equipa.

Oklahoma eliminou Dallas, o campeão em título, por 4-0, e é considerada uma das equipas dominadoras da NBA nos próximos dez anos, por razões óbvias.

Neste momento, Oklahoma perde por 2-0 com San Antonio na final do Oeste. O terceiro jogo é hoje de madrugada.



Miami – Tem aquele que eu considero, tecnicamente, o melhor jogador na história do basquetebol, LeBron James, de 27 anos, que, apesar, de estar há 9 anos na Liga, ainda não conseguiu ganhar nenhum campeonato.

Porque é que o considero o melhor jogador de sempre em termos técnicos?

Porque, no conjunto capacidade técnica-capacidade física é uma aberração da natureza. LeBron James consegue jogar a base, a extremo ou a poste, devagar, depressa, consegue marcar de 3 pontos, marcar debaixo do cesto, defender um jogador de 2.10 ou outro de 1.80 (como aconteceu ontem com Rajon Rondo).

Vamos traduzir isto em termos futebolísticos – imaginem um jogador com a capacidade física do Ronaldo, a habilidade técnica de Messi, a inteligência do Pirlo, o sentido colectivo do Scholes e, se for preciso, a versatilidade defensiva do Sérgio Ramos. Se tivesse ficado pelos dois primeiros já era uma impossibilidade da natureza, não era? Exactamente.

Só há uma razão para este jogador ainda não ter sido considerado um dos dez melhores na história da NBA, para não ter ganho um título e para nem sequer ser colocado, por exemplo, ao nível de Michael Jordan, que lhe era tecnicamente inferior em todos os aspectos: porque, ao contrário de Jordan, lhe falta o instinto assassino. Para LeBron James é uma luta ter de matar um adversário, e por vezes até dá a ideia de que é uma luta não passar a bola aos companheiros de equipa em momentos importante do jogo, apesar de ser tão incomparavelmente melhor que eles. Ao contrário de Jordan, que exigia a bola para poder matar, James parece evitá-la para não ter de o fazer. É um tipo bonzinho. Tão bonzinho que, há dois anos, deixou a sua equipa para ir para os Heat, a equipa de Dwyane Wade, onde, durante uma época, ainda ouve a ilusão de que aquilo pudesse ser uma coisa bicéfala, quando, na verdade, teria de ser sempre James e mais quatro. James é tão bonzinho que ainda hoje diz que a equipa é a equipa do Wade. O Jordan nem nos seus piores pesadelos diria uma coisa destas.

Aos 30 anos, Wade, atenção, é um dos cinco melhores jogadores da Liga. Já ganhou um campeonato praticamente sozinho, há uns anos.

O one-two-punch dos Heat é o mais forte da NBA, e encontra-se no período de maturação ideal, a mistura perfeita entre experiência e saúde física. Os Heat são os crónicos favoritos ao título desde que James se transferiu para lá, e no ano passado perderam a final para Dallas.

Para terem o privilégio de ter estes dois jogadores, contudo, os Heat tiveram de enfraquecer o resto do plantel (as leis da NBA estão feitas nesse sentido), e o seu jogo colectivo ressente-se disso. O que James e Wade fazem determina 100 por cento do sucesso da equipa.



San Antonio – No caso de San Antonio é necessário falar de três jogadores-chave: Tim Duncan, um extremo-poste de 36 anos, que, de todos os jogadores em actividade, é o que tem maior sucesso individual e colectivo; o argentino Emanuel Ginobili, de 34 anos, extremo; e o base francês Tony Parker, de 30 anos, que foi casado com a Eva Langoria.

San Antonio é uma equipa na verdadeira acepção da palavra.O seu estilo de jogo é colectivo e sem invenções. É uma equipa que tem tudo no lugar, até a distribuição de qualidade nas posições base-extremo-poste (sendo o melhor o poste, o que, historicamente, é de grande importância na NBA), e que ganhou três ou quatro campeonatos nos últimos dez anos. Talvez a melhor forma de definir o que é San Antonio, como equipa seja a seguinte: Tim Duncan, o seu jogador-chave, tem a alcunha de Big Fundamental, o Grande Fundamento. Executa exemplarmente tudo o que é fundamental e elementar e poupa-se em tudo o que é supérfluo. A sua imagem de marca é o lançamento à tabela (que, quem jogou basquete, sabe que é o mais básico e eficaz de todos) e já não me lembro da última vez que o vi fazer um afundanço, apesar de quase lhe bastar levantar os braços para afundar.

Outra coisa importante, que gostava que recordassem: Manu Ginobili é o maior competidor que eu já vi sobre um campo de basquetebol. Até maior que Jordan. Manu Ginobili é a máquina perfeita de competir. Sabe sempre o que é preciso fazer para ganhar, fá-lo e, quando não ganha, é porque falhou a execução. Não tem um talento como o de Jordan. Se o tivesse teria sido o melhor basquetebolista de todos os tempos.

E é canhoto e argentino, o que, só por si, já é meio caminho andado para a divindade.

Os Spurs eram dados como uma equipa acabada, sem pernas para ganhar mais campeonatos,. Mas este ano aconteceu uma coisa extraordinária: metade da época não se disputou, por causa do lock-out. Ou seja, os quatro meses de competição que a equipa tem no depósito de combustível, este ano, representam quase a totalidade da época. Resultado: os Spurs vão em 19 vitórias consecutivas nesta altura da época, incluindo 9 no play-off, e chegam à fase decisiva em grande forma, ao contrário do que aconteceu nos últimos anos, em que, por esta altura, já andavam todos pendurados.



Boston – São a equipa mais aguerrida e lutadora na NBA. Pura e simplesmente não entregam os pontos, lutam sempre e, como conseguem juntar a esse espírito competitivo insuperável uma grande qualidade técnica, chegam a esta fase com hipóteses de ganhar. Ganharam o campeonato há três anos, derrotando uma equipa dos Lakers favorita, contra todas as expectativas. Mas fisicamente estão por um fio.

Os seus jogadores-chave são Kevin Garnett (36 anos), Ray Allen (36 anos), Paul Pierce (34 anos) e o miúdo Rajon Rondo (26 anos) a base, que é quem faz aquilo tudo mexer – a custo.

É preciso ver jogar Boston para perceber como uma equipa tão velha consegue competir tanto. Grande defesa, jogo a meio-campo esmerado, grande classe dos seus jogadores, conhecimento de como jogar em todos os momentos do jogo.

O próximo jogo Boston-Miami é, depois de amanhã, em Boston, o que é excelente, porque em casa esta equipa torna-se assassina.



A expectativa inicial era que Miami e San Antonio se encontrassem na final, e está a correr nesse sentido. Ambos ganham 2-0, neste momento, à melhor de sete.



A grande questão é a seguinte: vai LeBron James finalmente cumprir a sua promessa de destino glorioso e ganhar o primeiro título?

Na minha opinião, não. É a equipa que vai ganhar, e a equipa, neste playoff, é San Antonio. E é uma equipa que sabe, como equipa, como ser campeã. Penso que vai ganhar por pormenores, provavelmente a sete jogos na final, e provavelmente com Ginobili a tomar as decisões que anulam a vantagem técnica e física dos Heat.

Mas façam assim, se quiserem pensar nesta questão entre juventude e experiência fora do contexto do futebol, esta é uma oportunidade imperdível. Sair da caixa é uma maneira de colocar as coisas em perspectiva e de aprender.

O cenário está apresentado e os jogos dão de madrugada e repetem à tarde.

Vejam, e no fim falamos.

quinta-feira, 24 de maio de 2012

Tarzan Taborda

Permitam-me que invoque os dignificantes minutos em que a equipa de basquetebol do Benfica foi iluminada pelos isqueiros no pavilhão do Porto – felizmente que os portistas são pessoas mais civilizadas que os benfiquistas e não apagaram a luz, porque desta maneira pode ver-se a equipa do Benfica a festejar a conquista do título como deve ser (e a receber o troféu na cabine – para ter aqui um momento Tarzan Taborda.

A propósito do presidente do Porto a ralhar com a polícia por cumprir o seu dever, mostrando quem é a verdadeira autoridade neste regime democrático, eu afirmo que, se eu fosse presidente do Benfica, há muito (muuuito) tempo que esta paródia tinha acabado. E provavelmente tinha acabado tão mal que o Pinto da Costa, e eu próprio (como presidente do Benfica), já estaríamos exilados.

Quando se defronta uma força que não aceita nenhuma ordem que não a sua, só há duas estratégias possíveis: ou rendermo-nos e aliarmo-nos a ela, quando a nossa força é menor; ou enfrentá-la na mesma moeda e procedermos a uma escalada de violência sem contemplações a nada nem a ninguém, quando a nossa força é maior.

A força do Benfica é maior que a força do Porto. A única coisa que torna o Benfica mais fraco que o Porto são os escrúpulos em usar essa força, que não existem do lado do Porto.



Se eu fosse presidente do Benfica, há muito tempo que teria usado a força do Benfica para destruir o sistema e, com ele, Pinto da Costa.

Como? Indo directamente ao momento da verdade, passando por cima de todas as tibiezas, dos prolegómenos, dos entretantos. Há muito tempo que eu teria convidado o Sporting, o Guimarães e mais meia-dúzia de clubes de dimensão relevante em Portugal para criar uma nova organização de futebol em Portugal. Quando? Para não ir mais longe, assim que o advogado do Pinto da Costa, Lourenço Pinto, foi escolhido para nomear e classificar árbitros, em meados da década de 90. Teria sido o momento ideal, pelo puro desplante da situação.

Depois disso, tudo o que veio foi menor. O poder, a partir daí, já estava totalmente instituído. Aproveitando um momento de grande fragilidade directiva de Benfica e Sporting, Pinto da Costa instituiu, tacitamente, a hierarquia natural. A partir daí ficava implícito que ele poderia fazer o que quisesse, e esse statu quo ainda não se alterou.

Hoje, com o poder instituído e sedimentado, é mais difícil encontrar desculpas para virar a mesa. Se não se a virou na altura vai-se virar agora? Por isso, seria preciso criar um grand caso. Provocá-lo. Lembram-se do filme Braveheart, quando os companheiros do William Wallace (Mel Gibson) lhe perguntam, na altura das negociações, no campo de batalha, onde ele vai, e ele responde que vai «comprar uma guerra»? Era mais ou menos isso que era preciso fazer agora, para depois jogar forte, pôr os tomates em cima da mesa e usar todo o aparato e toda a força do Benfica num confronto directo e sem subterfúgios. Encontrar um pretexto para ir contra a lei, ir frontalmente contra a lei e, no fim. Ver quem ganhava. A força faz a lei. E a lei, convençamo-nos disso, não é boa nem é má: é feita pelo regime. O regime é do Porto, e o Porto faz  a lei, para não ter que lhe desobedecer e se poder legitimar. O objectivo de toda a força subversiva é atingir o poder e, quando lá chega, legitimar-se.

Querem um exemplo de um bom pretexto?

Esta história do Nacional e do Marítimo contra o Sporting.

O Sporting tem aqui uma oportunidade histórica para recuperar a sua força real no futebol português, e até aumentá-la. Como?

Fácil.

É deixar que o processo se abra e ignorá-lo do princípio ao fim. Ignorar as instâncias federativas, ignorar os procedimentos, ignorar a autoridade. Ignorar totalmente a autoridade. Nem sequer mencionar o caso – e quanto mais audível ele se tornasse melhor. Deixar toda a gente a falar. Colocar-se acima da lei. E, depois, esperar que o descessem de divisão.

Esperar para ver quem é que era o primeiro a pegar no telefone.

Reparem nisto: teoricamente, a França e a Alemanha são as duas potências do eixo europeu, e igualmente importantes. No palavreado, dizem que têm de trabalhar em conjunto.

Na prática, quando o Hollande ganha as eleições em França, quem é que apanha o avião e quem é fica à espera?

Vão ver às notícias, se não repararam.

Tudo é política. O poder está em todo o lado, e é de quem o queira (mais) agarrar.

domingo, 20 de maio de 2012

Dar o flanco

Hugo Vieira no Benfica.

É fácil dizer que é mal comprado, porque não tem nome e, no Benfica, para os adeptos, o nome é o mais importante – porque, quando não conhecemos mais nada do jogador e sabemos pouco de futebol, como é o caso de 95 por cento de nós, o nome é tudo o que temos para nos orientar.

É provável que dê em nada. Não sei se terá estofo para ganhar um lugar no Benfica.

Mas não é possível garantir, à partida, que venha a ser um fracasso. Noutros tempos, quando se comprava um terço dos jogadores que se compra hoje e quando se comprava a pensar num plantel de 20 jogadores, e não de 40, ir buscar um jogador sem escola era motivo de esperança. Lembro-me, por exemplo, do Paneira, que veio da III Divisão. Actualmente, quando a lógica é diferente – comprar por atacado e antecipação à espera que um em cada três pegue – é motivo de desconfiança.

Em termos puramente futebolísticos – se considerar o facto de contar como português e de ter saído a custo zero – há algumas coisas a favor dele: joga nos dois flancos; dizem que tem instinto para o jogo (o que é melhor que ter escola); parece-me suficientemente burro para não perceber bem a dimensão do desafio que tem pela frente, o que é bom, porque é a melhor maneira de não se borrar todo.

Probabilidades: 90 por cento de ser um flop; 10 por cento de ser a revelação do ano. Não há meio-termo. É o Benfica.

Por outro lado, a contratação de um português barato para suplente dá indicações sobre duas coisas que podemos esperar neste Verão: a saída de Saviola, que é menino para ganhar uns 300 mil por mês, e a contratação de um avançado de grande categoria com o dinheiro da diferença.

Devo dizer que vejo o Benfica a trabalhar bem – com um critério próprio, com autonomia, a pensar de dentro para fora e não de fora para dentro, e sem se preocupar em demasia (para já) com as capas dos jornais.

O caso Ola John está a ser a excepção. Está a fugir do controlo em termos mediáticos e, neste momento, a não-contratação do jogador (o que é sempre uma possibilidade dado o custo e a concorrência) já seria um fracasso, apesar de não haver nada que indique com certezas que a sua contratação fosse benéfica. Chama-se a isto dar o flanco. Se chegar lá um Manchester qualquer ou um Bayern o Benfica, que nunca teria hipótese sequer de concorrer com algum deles, fica a parecer perdedor, mesmo que nem sequer esteja no mesmo campeonato. Isto repete-se vezes demais, e por uma única razão: porque ainda não se impôs um exemplo suficientemente claro para todos os empresários perceberem que, se falarem, perdem o negócio. Tem de ser num caso como este, de perfil elevado, para ser suficientemente audível e compreensível para toda a gente. «Se abres a boca antes da hora, deixamos-te cair no segundo imediatamente a seguir.»

*

O Sporting perdeu a final da Taça pela mesma razão que vai perder o campeonato do ano que vem: porque não campeões de autocarro. Com doze meses de antecipação, prevejo a conclusão que o Jorge Baptista (um valor seguro  na chamada «análise daah…») vai tirar, na SIC, em relação à época do Sporting: «O Sporting não jogou mal, tem uma equipa arranjadinha, que luta muito, à imagem do seu treinador, mas não se pode ser campeão a perder tantos pontos em casa contra as equipas chamadas pequenas. O Sporting, à imagem de outros anos, voltou a demonstrar uma incapacidade flagrante para marcar golos em casa contra defesas muito fechadas, que é o pão nosso de cada dia no campeonato português.»