É, portanto, a altura certa para se falar de treinadores.
Antes de falar de nomes começo por dizer tudo o que vai correr mal, porque é mesmo assim independentemente de quem vai ser.
Antes de mais, o novo treinador vai receber mais importância do que a que deveria ter. Um treinador, no Benfica, nunca é um empregado, é sempre um salvador. Vai ser o homem «que vai resolver os problemas da equipa» e vai ser mais importante do que os jogadores, como se fosse um mestre da manipulação e, graças às suas capacidades mágicas, os jogadores só funcionassem de acordo com o seu mais pequeno gesto – como se não fossem os jogadores, de facto, quem ganha ou perde campeonatos, muitas vezes mesmo até apesar do treinador, como se viu este ano no Porto.
Só por causa disso, por se partir da premissa errada, há 90 por cento de hipóteses do treinador sair, no fim do contrato ou a meio, como uma aposta falhada, mesmo que ganhe um campeonato. Aliás, vai-lhe acontecer o mesmo que ao Jesus. Ou ganha o campeonato no primeiro ano, perde no segundo e sai, ou perde no primeiro, ganha no segundo ano, perde no terceiro e sai. Mesmo que os resultados, no cômputo geral, venham a ser aceitáveis, ou até bons (como foram os do Jesus, na minha opinião), a premissa de que vai chegar um messias que, de repente, põe uma equipa em construção e de nível médio europeu a ganhar a toda a gente e a jogar um futebol perfeito, estranhamente, resulta sempre pelo menos numa desilusão. Vá-se lá compreender o futebol.
Em segundo lugar, o próprio treinador vai contribuir para acentuar a dificuldade do seu trabalho ao trazer consigo não os melhores profissionais para trabalharem como adjuntos no Benfica mas os melhores tipos para trabalharem com ele. O que significa que a equipa de futebolistas profissionais do Benfica, que custa para aí uns 4 milhões de euros por mês, vai ter um técnico de nível 2, digamos assim (de 1 a 10), e mais três ou quatro técnicos de nível 7 ou 8, que vão ter o privilégio de fazer o contrato das suas vidas porque tiveram a sorte de jogar com o treinador principal quando eram juniores, porque tiraram um curso de treinador na FPF ou porque «já nos entendemos por sinais de fumo». Uma coisa extremamente profissionale, obviamente, nada estranha para ninguém. Eu posso garantir que, se fosse presidente do Benfica, procurava ter não só o melhor treinador como os melhores adjuntos do mundo, e partia do princípio que as probabilidades de essas três ou quatro pessoas terem, por um acaso do destino, coincidido na mesma equipa técnica, seriam de 1 em 550 milhões. Quando contratasse o treinador dizia-lhe: «Eu não contrato treinadores por atacado. Se quiseres levar os teus amigos levas, eu dou-te mais algum, paga-los do teu bolso e põe-los a treinar no parque.» Se os jogadores não são contratados por serem amigos uns dos outros porque é que os treinadores hão de ser?
Em terceiro lugar, o presidente vai perguntar ao treinador se jogador x ou jogador y lhe agrada. E, como sempre, vai dar merda. Não só o treinador vai custar 10 vezes mais pelos jogadores que dispensa do que aquilo que custa pelo que vai ganhar como vai meter lá jogadores «para o seu sistema» e que mais tarde vão custar mais do que ele. Por cada treinador que se muda, nesta lógica porreirista, gastam-se uns 20 milhões de euros. O «sistema» do Jesus, em três anos, deve ter custado uns 50 milhões de euros ao Benfica (para não dizer mesmo que custou 120 milhões). Quem achar que isto é pura e simplesmente estúpido por favor ponha a mão no ar. Obrigado. Pois bem, vai voltar a acontecer.
Porque, como se dá demasiada importância ao treinador, parte-se do princípio que ele tem direito a trazer a sua «táctica». Ora, ao contratar um treinador o Benfica não pode estar a comprar «tácticas».
O sistema de jogo já existe, 90 por cento dos jogadores já lá estão e agora é tarde para dizer: «Ah, mas se calhar podia fazer-se assim.» Errado. Não é assim que funciona. Nesse aspecto a abordagem tem de ser conservadora. Mudar, só com elevadas probabilidades de sucesso, e sempre muito pouco de cada vez. O treinador que vem não deve mudar nada, deve melhorar o que já existe, dentro do sistema que está criado. Porque se não souber fazer isso não é treinador de futebol, é treinador do «losango», ou do «4x4x2», ou do «tridente», ou seja lá o que for. Se o tipo que vier quiser passar do estilo a que a equipa se habituou ao estilo do Barcelona em quatro semanas ao fim de seis meses está despedido e deixa a equipa no quarto lugar. Aí entra a responsabilidade de quem o escolhe. Tem de se escolher um treinador para a equipa, não uma equipa para o treinador. Os jogadores, a cultura implantada e a implantar no clube, o que vai ficar, aquilo de que se deve cuidar no longo prazo, são muito mais importantes para a equipa do que o treinador, se ele está ou não bem disposto, se ele gosta ou não de jogar com um, dois ou três avançados.
O treinador é um profissional que vem melhorar algumas coisas, não todas, e que depois se vai embora, tendo ajudado o clube a subir ais alguns degraus. Esta é a lógica correcta. E fazer isto, só por si, num barco da dimensão do Benfica, já é bem difícil. No Benfica, não fazer merda já é uma virtude, porque a pressão aperta de todos ao lados.
Finalmente, o que vai correr mal (e isto não se vai ver cá fora mas vai acontecer) é que a maior parte do que o Jesus trouxe para o Benfica vai-se embora com ele. Ao tornarem o seu trabalho hermético a quem não faça parte da equipa técnica os treinadores estão não só a proteger-se como a prejudicar os clubes. Quantas vezes é que o Jesus se reuniu com técnicos permanentes do clube e, simplesmente, ensinou? O Benfica tem um gabinete técnico de apoio aos seus profissionais temporários que faça essa transmissão de conhecimentos e que apoie a equipa técnica em trânsito? O Jesus escreveu relatórios sobre jogos, jogadores ou outras situações que fiquem para o novo treinador? (Sim, eu sei que qualquer frase começada com «O Jesus escreveu» é complicada…) Quem, dentro do Benfica, reteve pelo menos uma parte do vasto conhecimento futebolístico do Jesus de maneira a que isso possa ser aproveitado no futuro, e que se possa construir em cima dele? E como?
Quando um técnico altamente especializado é contratado por uma empresa o trabalho que ele faz lá dentro pertence à empresa. É informação, e informação é poder.
Posso arriscar, sem medo de me cair um raio em cima da cabeça, que o Jesus, como bom cigano que é, só vai deixar dentro de uma gaveta o papel da Telepizza. Porque é essa a mentalidade dos futeboleiros. E, como tal, começa-se tudo do princípio. Mas não é só o Jesus: o que vier a seguir vai fazer da mesma forma.
É verdade, nada disto tem a ver com o Cardozo, e com os extremos, e com o Emerson, mas é uma parte do que importa mais, porque é o que permite o sucesso. Faz parte dos 90 por cento de transpiração.
Isto é o que vai de certeza correr mal desde o princípio, porque corre sempre.
No próximo post, então, vamos ao que é preciso no novo treinador.