quinta-feira, 3 de maio de 2012

O que vai correr mal

Tal como eu tinha dito após o jogo com o Sporting, Jesus já não é treinador do Benfica – e parece-me já não o é desde a derrota com o Porto na Luz. Sendo um homem do futebol há 40 anos, e treinador há quase tantos, Jesus percebeu que o seu tempo no Benfica estava acabado a partir desse momento e começou a preparar a sua saída, provavelmente de comum acordo com Vieira, ou pelo menos cada um sabendo o que ou outro também sabia embora sem o colocarem em pratos limpos. Não interessa. Já não é, e até sair é uma questão de tempo. Já toda a gente percebeu.
É, portanto, a altura certa para se falar de treinadores.

Antes de falar de nomes começo por dizer tudo o que vai correr mal, porque é mesmo assim independentemente de quem vai ser.

Antes de mais, o novo treinador vai receber mais importância do que a que deveria ter. Um treinador, no Benfica, nunca é um empregado, é sempre um salvador. Vai ser o homem «que vai resolver os problemas da equipa» e vai ser mais importante do que os jogadores, como se fosse um mestre da manipulação e, graças às suas capacidades mágicas, os jogadores só funcionassem de acordo com o seu mais pequeno gesto – como se não fossem os jogadores, de facto, quem ganha ou perde campeonatos, muitas vezes mesmo até apesar do treinador, como se viu este ano no Porto.

Só por causa disso, por se partir da premissa errada, há 90 por cento de hipóteses do treinador sair, no fim do contrato ou a meio, como uma aposta falhada, mesmo que ganhe um campeonato. Aliás, vai-lhe acontecer o mesmo que ao Jesus. Ou ganha o campeonato no primeiro ano, perde no segundo e sai, ou perde no primeiro, ganha no segundo ano, perde no terceiro e sai. Mesmo que os resultados, no cômputo geral, venham a ser aceitáveis, ou até bons (como foram os do Jesus, na minha opinião), a premissa de que vai chegar um messias que, de repente, põe uma equipa em construção e de nível médio europeu a ganhar a toda a gente e a jogar um futebol perfeito, estranhamente, resulta sempre pelo menos numa desilusão. Vá-se lá compreender o futebol.

Em segundo lugar, o próprio treinador vai contribuir para acentuar a dificuldade do seu trabalho ao trazer consigo não os melhores profissionais para trabalharem como adjuntos no Benfica mas os melhores tipos para trabalharem com ele.  O que significa que a equipa de futebolistas profissionais do Benfica, que custa para aí uns 4 milhões de euros por mês, vai ter um técnico de nível 2, digamos assim (de 1 a 10), e mais três ou quatro técnicos de nível 7 ou 8, que vão ter o privilégio de fazer o contrato das suas vidas porque tiveram a sorte de jogar com o treinador principal quando eram juniores, porque tiraram um curso de treinador na FPF ou porque «já nos entendemos por sinais de fumo». Uma coisa extremamente profissionale, obviamente, nada estranha para ninguém. Eu posso garantir que, se fosse presidente do Benfica, procurava ter não só o melhor treinador como os melhores adjuntos do mundo, e partia do princípio que as probabilidades de essas três ou quatro pessoas terem, por um acaso do destino, coincidido na mesma equipa técnica, seriam de 1 em 550 milhões. Quando contratasse o treinador dizia-lhe: «Eu não contrato treinadores por atacado. Se quiseres levar os teus amigos levas, eu dou-te mais algum, paga-los do teu bolso e põe-los a treinar no parque.» Se os jogadores não são contratados por serem amigos uns dos outros porque é que os treinadores hão de ser?

Em terceiro lugar, o presidente vai perguntar ao treinador se jogador x ou jogador y lhe agrada. E, como sempre, vai dar merda. Não só o treinador vai custar 10 vezes mais pelos jogadores que dispensa do que aquilo que custa pelo que vai ganhar como vai meter lá jogadores «para o seu sistema» e que mais tarde vão custar mais do que ele. Por cada treinador que se muda, nesta lógica porreirista, gastam-se uns 20 milhões de euros. O «sistema» do Jesus, em três anos, deve ter custado uns 50 milhões de euros ao Benfica (para não dizer mesmo que custou 120 milhões). Quem achar que isto é pura e simplesmente estúpido por favor ponha a mão no ar. Obrigado. Pois bem, vai voltar a acontecer.

Porque, como se dá demasiada importância ao treinador, parte-se do princípio que ele tem direito a trazer a sua «táctica». Ora, ao contratar um treinador o Benfica não pode estar a comprar «tácticas».

O sistema de jogo já existe, 90 por cento dos jogadores já lá estão e agora é tarde para dizer: «Ah, mas se calhar podia fazer-se assim.» Errado. Não é assim que funciona. Nesse aspecto a abordagem tem de ser conservadora. Mudar, só com elevadas probabilidades de sucesso, e sempre muito pouco de cada vez. O treinador que vem não deve mudar nada, deve melhorar o que já existe, dentro do sistema que está criado. Porque se não souber fazer isso não é treinador de futebol, é treinador do «losango», ou do «4x4x2», ou do «tridente», ou seja lá o que for. Se o tipo que vier quiser passar do estilo a que a equipa se habituou ao estilo do Barcelona em quatro semanas ao fim de seis meses está despedido e deixa a equipa no quarto lugar. Aí entra a responsabilidade de quem o escolhe. Tem de se escolher um treinador para a equipa, não uma equipa para o treinador. Os jogadores, a cultura implantada e a implantar no clube, o que vai ficar, aquilo de que se deve cuidar no longo prazo, são muito mais importantes para a equipa do que o treinador, se ele está ou não bem disposto, se ele gosta ou não de jogar com um, dois ou três avançados.

O treinador é um profissional que vem melhorar algumas coisas, não todas, e que depois se vai embora, tendo ajudado o clube a subir ais alguns degraus. Esta é a lógica correcta. E fazer isto, só por si, num barco da dimensão do Benfica, já é bem difícil. No Benfica, não fazer merda já é uma virtude, porque a pressão aperta de todos ao lados.

Finalmente, o que vai correr mal (e isto não se vai ver cá fora mas vai acontecer) é que a maior parte do que o Jesus trouxe para o Benfica vai-se embora com ele. Ao tornarem o seu trabalho hermético a quem não faça parte da equipa técnica os treinadores estão não só a proteger-se como a prejudicar os clubes. Quantas vezes é que o Jesus se reuniu com técnicos permanentes do clube e, simplesmente, ensinou? O Benfica tem um gabinete técnico de apoio aos seus profissionais temporários que faça essa transmissão de conhecimentos e que apoie a equipa técnica em trânsito? O Jesus escreveu relatórios sobre jogos, jogadores ou outras situações que fiquem para o novo treinador? (Sim, eu sei que qualquer frase começada com «O Jesus escreveu» é complicada…) Quem, dentro do Benfica, reteve pelo menos uma parte do vasto conhecimento futebolístico do Jesus de maneira a que isso possa ser aproveitado no futuro, e que se possa construir em cima dele? E como?

Quando um técnico altamente especializado é contratado por uma empresa o trabalho que ele faz lá dentro pertence à empresa. É informação, e informação é poder.

Posso arriscar, sem medo de me cair um raio em cima da cabeça, que o Jesus, como bom cigano que é, só vai deixar dentro de uma gaveta o papel da Telepizza. Porque é essa a mentalidade dos futeboleiros. E, como tal, começa-se tudo do princípio. Mas não é só o Jesus: o que vier a seguir vai fazer da mesma forma.

É verdade, nada disto tem a ver com o Cardozo, e com os extremos, e com o Emerson, mas é uma parte do que importa mais, porque é o que permite o sucesso. Faz parte dos 90 por cento de transpiração.

Isto é o que vai de certeza correr mal desde o princípio, porque corre sempre.

No próximo post, então, vamos ao que é preciso no novo treinador.

terça-feira, 1 de maio de 2012

Carta aberta ao Benfica

Meu amigo,
 

Desanuvia.

Acalma-te.

É o primeiro passo.

Sim, eu sei, Chegámos aquela altura do ano. Eu percebo.

Eu próprio, ontem, estava a ouvir rádio e, de seguida, apareceram o suposto juiz Rangel a falar em «desastre», em «investimento brutal» e nessas parvoíces, e logo a seguir, o António Figueiredo, um tipo umbilicalmente ligado à nossa vergonha, a pedir responsabilidades e a lançar o habitual chorrilho de asneiras a que eu, felizmente, não ligo o suficiente para decorar. Se eu os tivesse ali à minha frente tinha havido asneira da grossa, tinha espatifado pelo menos o juiz, porque se o outro não passa de um analfabeto o juiz teria obrigação de, pelo menos, saber afastar-se da maralha e pensar decentemente antes de ditar juízo. Se eu fico em brasa, imagino como tu te deves sentir ao ver vir ao de cima esta escumalha, esta gente de caca que em tudo vê uma oportunidade de intriga e que em ti vê apenas mais uma besta de carga, que lhes serve para serem mais importantes do que os outros chimpanzés de que estão rodeados – chimpanzés ricos, bem vestidos, bem comidos, bem bebidos, mas apenas chimpanzés.

Mas tens de aceitar que isto é o preço do sucesso. Quanto maior é o animal mais e maiores são os seus parasitas. Este ano vamos ser mordidos ainda mais do que é costume, porque há eleições, porque perdemos o campeonato, porque vai haver dinheiro fresco para gastar, porque o homem já te pôs outra vez a andar de pé. Quando estavas de joelhos só caricaturas é que te queriam, mas agora não, agora já lhes serves outra vez.



Segundo passo: endireita-te.

Esta é a melhor altura para crescer. Se tivesses ganho andava toda a gente no Marquês a perder tempo. Assim, tens tempo, tens vontade e oportunidade para continuar a melhorar o que ainda não está bom. Neste segundo lugar há mais bom que mau. Os distraídos não percebem isto, mas tu e eu sabemos que é verdade. Temos muito por onde crescer, e este é o momento.

Não te podes deixar levar no engodo dos que medem a qualidade da luta pela qualidade do resultado, como o idiota Rangel. Ambos sabemos que não se gasta dinheiro para se ser campeão – que se gasta dinheiro para se ter uma oportunidade justa de se ser campeão. E tu tiveste-a. E estiveste muito bem. Lutaste bem, lutaste mais do que os outros, durante mais tempo e estiveste muito mais perto do limite das tuas forças do que os outros. Caramba, porque não dizer-to: fizeste uma grande época. Eu não esperava tanto de ti, e eu espero sempre muito de ti. Perdemos o campeonato? Irrelevante. Lutámos ombro a ombro por ele, e agrada-me que tenhamos sido nós a perdê-lo e não os outros a ganhá-lo. Por mim seria sempre assim, e enquanto for assim a ordem das coisas está como eu quero. Se podemos perder um campeonato sozinho iremos começar a ganhá-lo assim que nos tornarmos mais fortes. Muito pior era quando não tínhamos sequer força para correr ao lado deles, mesmo quando ganhávamos o campeonato por eles tropeçarem ou se enganarem no caminho.

Vais ter de encontrar os teus líderes. No teu presidente e não só.

Ao presidente tens de o levar a fazer várias coisas importantes. Não o deixes cair na tentação de voltar a vender a alma ao demónio. Afasta-o do São Martinho de Penafiel. Se ele aceitar o dinheiro dele vai sair-nos muito caro. Por mim, prefiro suportar o aperto durante um ou dois anos para garantir a liberdade. Só somos grandes quando somos livres, de outra forma nunca nos permitirão.

Leva-o a acreditar que é preciso ser audaz neste momento, confiar em nós próprios, acreditar na tua força e não a confundir com os que tens empregados temporariamente. Sabes que eu acredito que devemos dar o passo em frente, tomar a iniciativa, ousar fazer para ousar vencer. Estamos à frente dos outros. Temos o momento do nosso lado. A história faz-se destas decisões. Ser grande resulta destes momentos, e começamos a estar acima da vulgaridade quando agimos acima da normalidade.

Não te peço muito mais em relação a ele. Acho que não seria justo. Mas dá-lhe a inspiração de liderar, de ser caçador em vez de caça, de agir em vez de reagir. Eu sei que pode parecer pouco, mas é tudo. Nós, os que estamos cá fora, só precisamos disso, de liderança.

E, entre nós, acha também os teus líderes. Põe-nos no caminho quem nos oriente. Quem consiga abrir a caixa e iluminar as almas. Acredita que a pior coisa que carrego dos nossos piores anos não são os resultados, mas a pobreza de espírito de tanta e tanta da nossa gente, que esses fracassos revelaram. Continuo a acreditar na tua capacidade de trazer ao de cima não só o pior mas também o melhor da tua gente.

Eu também te uso, como bem sabes. Mas uso-te para sonhar, e o que sonho para ti nem tu, nunca conseguiste ser. O que eu quero para ti é que sejas mais do que és, não que te axandres à mediocridade dos teus parasitas. Por isso, perdoa-me por também te usar, pois acredita que, se todos te olhassem como eu, serias o que nunca foste.



Terceiro passo: caminha direito e a direito.

Pensa pela tua cabeça. Assume os teus riscos. Paga o teu preço e recebe a tua recompensa. Não te deixes enevoar pelos outros. No próximo mês muita gente vai tentar ajoelhar-te outra vez. Uns fá-lo-ão de forma boçal, mas outros serão inteligentes, pois conseguirão pôr a tua gente em desavença. Somos pessoas de coração ao pé da boca, sentimos antes de pensar, estas coisas são mesmo assim. Quanto mais depressa te puseres de pé melhor. Não podes ficar mais tempo a pensar no que perdeste, tens de usar o que perdeste para pensar no que tens a ganhar. Se te mostrares forte, orgulhoso – não estúpido, nem vão, mas forte, orgulhoso, consciente e autónomo – eles irão recear-te em vez de te atacar. O ser humano não compreende a fraqueza nem aceita a submissão. Somos animais ferozes e ignorante. Agimos por medo. Mostra-te direito. Não te rebaixes. Segue o teu caminho. Se o fizeres, os que te atacam terão de te seguir. Porque tu és o maior, e por onde tu fores, os outros também irão.



Amen.



Assinado: o teu amigo de sempre.

domingo, 29 de abril de 2012

Carta aberta a Jorge Jesus

Caro Jorge,



O teu comboio está na estação e o teu tempo acabou.

Eu sei que estás indeciso, mas confia em mim: as coisas não vão correr como pensas.

Como és um optimista, e como és um vencedor, convenceste-te de que, como só não ganhaste o campeonato este ano por teres tido de jogar a Liga dos Campeões desde a pré-época, e como isso não vai acontecer para o ano, e como o Porto vai ficar sem o Hulk, é praticamente impossível não seres outra vez campeão com o Benfica na próxima época.

Isso até pode parecer tudo certo, e não te posso repreender por pensares assim, mas não é isso que vai acontecer.

O que vai acontecer é o seguinte: a equipa que pensas que vais ter para a próxima época não é a que vais encontrar em Julho. Não vais perder só o Gaitán. Da maneira que as coisas estão, ficas sem o Gaitán, o Cardozo e o Witsel. Mas isso nem é o pior. Para isso até já estás tu preparado, e até tens soluções à vista. Os jogadores não vão ser um problema, e aí acho que tens razão.

O problema é que vais perder os jogadores.

Quando chegares para a pré-época vais perceber que a tua ligação aos jogadores já não vai funcionar. Vai correr mal, porque eles não vão querer correr por ti. Vão estar cansados dos mesmos exercícios, das mesmas caras, das mesmas palavras, dos mesmos métodos, da mesma lenga-lenga e sobretudo vão estar cansados de já não terem nada de novo para aprender contigo. Não os podemos levar a mal. Tu sabes bem que, no futebol, o metabolismo é acelerado. Vivem-se quatro anos no espaço de dez meses. Como tu dizes, e bem, o futebol é o momento, e não há amanhã. Pois tu, no Benfica, já chegaste ao depois de amanhã.

No fundo, tu sabes que é assim.

Se fosses dirigente, não terias dúvidas em injectar sangue novo, por mais competente que fosse o teu treinador. E, como treinador, sabes perfeitamente que as coisas vão ser muito mais complicadas do que o teu optimismo te quer fazer crer.

Tu, que sabes muito de bola, sabes que o que iria acontecer se ficasses seria isto: começarias a época sem crédito, porque nem tu nem o presidente já conseguem iludir ninguém – nem os teus colegas treinadores, que já te toparam, e às tuas tácticas; aos primeiros maus resultados, os adeptos, que já estão fartos de ti, iriam contestar-te; irias perder os jogadores porque também eles já não acreditam que tu os podes guiar ao sucesso – o título já foi há muito tempo; para piorar tudo isto, lá no fundo, sabes que o Porto não vai propriamente entregar o campeonato – vai meter dois ou três jogadores novos, perde umas semanitas a integrá-los e a partir de Janeiro está outra vez fino, ao contrário da tua equipa, que, como todas as tuas equipas, no Inverno começa a pedalar para trás. E ainda te arriscas a ver o Sporting passar-te por cima da cabeça. Pensa no que aconteceu ao Paulo Bento e ao Jesualdo.

Vá lá, Jorge, admite, em Portugal três anos num clube é uma carreira, e tu já não vais para miúdo.

Tu sabes que deves aceder ao que o Vieira te pediu e aceitar o convite do Villarreal, ou do Sevilha, ou seja lá o que for. Levas um milhãozito, para não ficares a perder, é justo, vais à tua vida e prestas o teu último serviço ao Benfica, que é abrir o espaço para contratar o Paulo Bento antes de começar o Europeu.

Dito isto, quero dizer-te que fico bem contigo. Foste importante. Trouxeste uma mentalidade vencedora para a equipa e, mesmo não concordando com muitas coisas que fizeste, concordei com a maior parte. O que quer dizer que fizeste muito. Ajudaste a recolocar o Benfica num nível médio-alto depois de muitos anos na mediocridade real.

Só há uma coisa que tenho dificuldade em engolir: nunca abriste o peito na luta contra o Porto. Tiveste sempre a tua carreira à frente do clube. Não te posso recriminar, porque, no fundo, achas que ainda vais ser campeão europeu pelo Porto, mas fico ressentido com isso. Nunca te entregaste completamente ao Benfica. Sim, eu sei, a culpa é minha, mas mesmo assim não te perdoo isso, porque acho que, se fosse menos egoísta, tinhas tido mais sucesso.

Mas também tenho de te dizer, porque a honestidade me obriga, que já não tens mãos para este barco. Contigo já não vamos a mais lado nenhum, e nós, no Benfica, não nos damos bem com segundos lugares e com quartos-de-final.

O teu comboio vai partir, Jorge. Está na hora. Não o percas.

Um abraço.

Assinado: o gajo chato do blogue.

quinta-feira, 26 de abril de 2012

Dois pesos e duas medidas


Estou completamente de acordo com o Mourinho e com os comentários feitos aqui a propósito do jogo de ontem. Aliás, estou convencido de que se o clássico espanhol não tivesse sido no sábado a final seria mesmo Barcelona-Real Madrid, não diria que facilmente, sobretudo no caso do Real, mas naturalmente.

Mas são estas coisas que tornam o calendário um factor tão importante em cada época, e é por isto que é tão raro haver equipas – mesmo estas duas, que estão, na minha opinião, entre as dez melhores que já vi jogar (o Barcelona diria mesmo que a melhor) – a conseguirem ganhar campeonato e competição europeia no mesmo ano.

Geralmente, nas poucas vezes em que isso acontece, tem de haver quase que um domínio esmagador a nível interno para poder descansar a cabeça (mais do que as pernas) no campeonato. A mim não me espantou nada que o caso do Jacinto Paixão se desse num Porto-Beira-Mar, porque o que estava ali em causa realmente era o jogo a seguir, para a Liga dos Campeões. Era preciso levantar o pé naquele jogo para manter a cabeça fresca para o jogo de quarta-feira.

(A propósito disto, quando vi o Mourinho a escrever que «Pinto da Costa era o Porto» e que era o melhor presidente do mundo, não resisti a pensar como teria sido giro um jornalista catalão perguntar-lhe qualquer coisa deste género: «Então um presidente que corrompe árbitros em Portugal é o melhor do mundo e aqui você passa a vida a insinuar que o Barcelona só ganha porque tem os árbitros na mão? Mas nós somos o quê, para si? Sacos de merda?» Teria sido bonito. E fino, conhecendo o Mourinho…)

Voltando à vaca fria, o desfecho destas meias-finais da Liga dos Campeões só valoriza a época desportiva do Benfica, a única equipa em Portugal que conseguiu manter, durante praticamente toda a época (e tendo a sua época mais um mês que a época dos outros, note-se) a competição em aberto nas duas frentes.

É bom que todos tenhamos a cabeça fria para raciocinar desta forma, porque, gostando-se ou não do homem, estando-se ou não mais que fartos dele, é justo.

Hoje, à beira do correr do pano, e a propósito disto, recordo-me do que pensei quando saíu o calendário da época que está a acabar.

Gostei de ver o Benfica a jogar com o Porto, percebi que havia dois ou três ciclos complicados – um deles aquele que liquidou a equipa, no combo Guimarães-Coimbra-Porto+Liga dos Campeões (o que me levou, secretamente ou não tanto, a torcer pela eliminação na fase de grupos, sobretudo quando o Benfica ficou à cabeça do campeonato) –, de uma forma geral era um bom calendário, mas com dois problemas.

Um, menos importante, o de ir jogar a Alvalade a seis jornadas do fim. Menos importante porque o Benfica só perde em Alvalade porque perdeu a liderança na Luz, para o Porto. Com hipóteses reais de ser campeão o Benfica não perderia em Alvalade.

Outro, mais importante, o da ordem de jogos com o Porto.

Estou convicto de que se o Benfica tivesse recebido o Porto naquele primeiro terço do campeonato teria tido grandes hipóteses de vencer o jogo e o campeonato. O jogo das Antas tornou-se decisivo para o Benfica no sentido de não poder perder, e, não perdendo, manteve-se vivo no campeonato, mas ganhar ao Porto significaria ganhar o título, e a conjuntura ideal para jogar com o Porto teria sido recebendo-o e numa fase inicial da época, quando o Benfica estava com um ritmo superior (o que lhe permitiu empatar lá, por exemplo) e o Porto  numa previsível depressão pós-parto.

Foi o que eu pensei na altura e hoje não tenho razões para corrigir.

Por fim…

Uma equipa passa duas pré-eliminatórias da Liga dos Campeões, elimina o campeão inglês, elimina o campeão russo, é eliminado por um finalista da Liga dos Campeões nos quartos-de-final dessa competição, ganha a Taça da Liga eliminando o campeão nacional num confronto directo, é eliminada pelo quinto classificado do campeonato para a Taça de Portugal a jogar fora, acaba em segundo no campeonato e apura-se directamente para a fase de grupos da Liga dos Campeões, e tem uma espera de adeptos no estádio a chamar-lhe nomes.

Outra equipa acaba no quarto lugar do campeonato, e eliminada da Taça da Liga pelo Gil Vicente, joga a final da Taça de Portugal ao 16.º classificado do campeonato depois de ganhar as meias-finais, a duas mãos, ao oitavo classificado, elimina o segundo classificado do campeonato inglês, o terceiro classificado do campeonato ucraniano, é eliminada nas meias-finais da Liga Europa pelo sétimo classificado campeonato espanhol, e tem uma multidão á espera no aeroporto para agradecer.

Expliquem-me lá, por favor, como se eu fosse uma criança de seis anos, essa história de que «o futebol são os resultados».

Tretas.

O futebol são as expectativas.

quarta-feira, 25 de abril de 2012

Pedretas

Ver uma equipa alemã de alto nível a jogar futebol, para mim, é quase uma ideologia.

Só encontro uma palavra suficientemente significativa e definidora: carácter.

Escrevo isto enquanto vejo o Real Madrid-Bayern, está 2-1 e não sei como vai acabar, mas é indiferente. Um dia, o Mourinho já não vai estar no Real, vai estar outro pior que ele, nem o Ronaldo, o Real vai ser qualquer coisa de titubeante, e nesse dia o Bayern, qualquer que seja o seu treinador e quaisquer que sejam os seus jogadores, continuará a ser, senão melhor, uma equipa superior em mentalidade, compostura, disciplina. Em carácter. Com alemães, ganeses, argentinos, peruanos ou brasileiros.

O Bayern sofre o primeiro golo a abrir num penálti inventado pelo Santiago Bernabéu e mantém-se firme. Sofre o segundo num repelão e aguenta-se. Continua na mesma. Não treme. Marca, evidentemente, como estava já claro que conseguiria marcar, e enquanto festeja, já metade dos jogadores faz questão de recordar à outra metade que ainda falta ganhar o jogo. A jogar fora, com a melhor equipa da Europa do momento, o Bayern toma conta do jogo. O Real, por estratégia ou não, faz figura de equipa menor. Provavelmente vai ganhar, porque tem melhores jogadores, funciona melhor como equipa e tem o factor casa (é, portanto, tecnicamente muito superior), mas esta equipa do Bayern faz jus à melhor tradição alemã e é uma garantia de que, como disse Lineker, o futebol continuará a ser um jogo simples, de onze contra onze, em que os alemães ganham no fim.

Porque é praticamente invulnerável aos estados de alma.



Não são os estados de alma que ganham os títulos. É raríssimo isso acontecer. A velha máxima de que o segredo para o sucesso é 90 por cento de transpiração e 10 por cento de inspiração é completamente certa, e os estados de alma só imperam quando, por uma grande coincidência, entram em competição duas ou mais equipas que transpiram igualmente muito.

Quando começo a ouvir falar em motivação, em superação, em benfiquismos, sportinguismos ou portismos, começo logo a pedalar para trás.

São tretas. Costumo dizer que são Pedretas.

Lembro-me sempre de uma história que me contou um amigo jornalista da velha guarda sobre o Joaquim Meirim, quando estava no Belenenses, e andava com essas patranhas da mentalização na cabeça, nos anos 70. Um dia o Belenenses estava em estágio num hotel e o Meirim meteu na cabeça que ia meter um jogador que não sabia nadar a nadar. Era um defesa brasileiro, de que não me lembro o nome. Levou o rapaz para a beira da piscina e começou a mentalizá-lo. E «está tudo na tua cabeça», e «tu és capaz», e «tu és o melhor nadador do mundo», e não sei que mais, e o jogador, a certo ponto, tanto se convenceu de que se quisesse sabia nadar que se atirou à piscina. Tiveram de ir tirá-lo à água para não morrer afogado.

É verdade que toda a gente pode começar a nadar bem de um momento para o outro, mas não é na primeira vez que se atira à água.



Desconfio sempre das equipas que melhoram com as chicotadas psicológicas. É porque são fracas da cabeça e, quando se acabar o estado de alma, não têm carácter lá dentro. As equipas verdadeiramente fortes melhoram contra as dificuldades, não quando as dificuldades são mitigadas. As verdadeiras equipas crescem perante as dificuldades.

Eu, como dirigente, até poderia recorrer à chicotada psicológica, mas se ela resultasse preocupar-me-ia, realmente, em trocar de jogadores o mais rápido possível.



Ouço e leio notícias sobre o Só Pinto, ouço-o a falar, vejo-o a orientar a equipa, e só vejo ali um caso psicológico.

Aparentemente, a equipa do Sporting, seis anos depois, continua a precisar (desesperadamente) apenas de… tranquilidade.

Os cirurgiões embevecem-se, os engenheiros coninhas encostam-se, as velhas glórias revêem-se, os pretorianos enchem o peito e cantam o hino, os jogadores voltam a sentir-se relevantes, e tudo está lindo e perfeito. Vão ganhar a Taça à Académica, talvez cheguem à final da Liga Europa, e depois vão de férias. E quando vierem de férias vão encontrar quem realmente têm: um psicólogo amador, só que então já sem ninguém para tratar. E se o psicolólogo não tiver mais tácticas para usar nos jogos a sério a não ser a do autocarro vão ganhar exactamente os mesmos campeonatos que ganharam com o último: zero. E o novo psicólogo, que até é capaz de ficar em segundo uma ou duas vezes, como o outro, sai pela mesma porta por onde entrou.



Dizem que o grande segredo do Mourinho é ser um grande psicólogo, que é conseguir entrar na cabeça dos jogadores. Não é, porque não é segredo nenhum. Toda a gente sabe. Só é segredo para quem só está preparado para compreender até aí.

O verdadeiro segredo do Mourinho é fazer as pessoas acreditar que os mind games são o seu trunfo. É levar os outro a pensar que é mágico, que tem um toque de Midas. Os jornalistas idolatram-no e os outros técnicos tentam imitá-lo. O segredo dele é enganar as pessoas com a verdade, quando diz que ganha mais porque trabalha mais. O verdadeiro segredo do Mourinho é que o factor menos importante do seu sucesso são os estados de alma. Ele ganha porque trabalha melhor que os outros.

Se o Mourinho dependesse de estados de alma hoje estava a treinar o Besiktas.

sábado, 21 de abril de 2012

Menos é mais

Tenho aqui uma buchazita para meter a propósito do Sporting, e do Sé Pinto, e dos treinadores, mas ainda não está acabada, e os jogos do Benfica são sempre um motivo para nos pormos a pensar sobre (lá está…) o Benfica, mesmo quando já metemos a chave à porta para acabar uma época e começamos a pensar na outra, como é o meu caso nas últimas semanas.



Algumas ideias soltas, mas que acho que são interessantes, a propósito do onze do Benfica.

Matic no lugar de García, por exemplo. Acho que estamos perante um caso típico de protecção de um jogador, que um bom treinador tem de saber fazer. Javi está claramente numa péssima forma. Em Alvalade fez, provavelmente, o pior jogo desde que está no Benfica, e quando isso acontece num jogo daqueles, com um animal competitivo como é Javí, é porque fisicamente o jogador está de rastos.

Mas duvido que Jesus tivesse feito isto em Dezembro ou em Janeiro. A filosofia do Jesus – e é por isso que os jogadores acabam por ficar tão queimados – é que a forma de eles superarem a fossa física é continuando a correr. Não é o único, nem é necessariamente errado. Há muitos treinadores, em muitas modalidades, que têm a mesma postura, e alguns com grande sucesso. É uma forma de trabalhar.

A questão é que, se se tem essa forma de trabalhar, a filosofia dos grandes plantéis não faz sentido. Se se quer apostar num núcleo curto (13 jogadores de campo + substitutos), que é o que o Jesus faz, na prática, tem de se gastar dinheiro a melhorar esse núcleo, e não a reforçar o fim do banco.

Eu não tenho nada contra o Jesus apostar numa equipa curta – para dizer a verdade, até me parece a melhor filosofia, embora sempre numa perspectiva de uma época/um título, que é a realista, e não na de «queremos ganhar tudo ou ir o mais longe possível», que é óptima para não se ganhar nada – mas se assim é os 13 jogadores nucleares têm de ter estofo físico e mental para aguentar as covas físicas num nível médio-alto, não podem ir ao fundo. Não é com Cardozos nem com Aimares que se lá vai. Tem de haver uma estrutura física e mental sólida.

E esses jogadores são mais caros. Porque são melhores. Como tal, na lógica do Jesus, o dinheiro gasto em contratações e salários de jogadores de terceira linha do plantel deveria ser gasto em menos jogadores e melhores  jogadores.

O onze inicial do Benfica na cabeça do Jesus, no início deste ano, deveria ser o seguinte: Artur, Maxi, Luisão, Garay, Emerson (porque não veio o defesa-esquerdo que ele queria, note-se), Javi, Witsel, Aimar, Enzo Pérez, Gaitán e Cardozo. Só aqui temos três ou quatro jogadores capazes de fazerem mais de um lugar (Javi, Witsel, Gaitán, Maxi…).

Este núcleo deveria ser complementado (novamente, no início da época), por Rúben Amorim, Matic, Saviola e Rodrigo, todos eles polivalentes e, portanto, capazes de fazer mais do que um lugar no caso de entrarem, que é exactamente o que se espera numa equipa de 14.

Além destes, o Benfica teve Nolito, Bruno César, Nélson Oliveira, Capdevilla, Jardel, Miguel Vítor, mais tarde Yannick, André Almeida, e acho que ainda me estou a esquecer de alguém. O caso específico de Enzo Pérez abriu o lugar para um mas todos os outros são jogadores com um custo muito acima da sua utilidade real.

(que não pode acontecer quando se trata de um jogador nuclear, pois coloca em causa o trabalho de uma época – e antes de me dizerem que «os jogadores são como os melões» eu digo já que dessa não como, porque vi um jogo completo do senhor Enzo e o que ali está é uma prima dona, pelo que das duas uma: ou não se contratam prima donas ou, se se contratam, tem de estar preparado para as tratar como prima donas a partir do momento em põe em pé em Lisboa)

Falemos só dos que vieram a custo zero (que não é zero nenhum, claro): Nolito, Capdevilla e Emerson, todos juntos, valem um jogador (que até pode ser também a custo zero) três vezes melhor que qualquer um deles, que entra directamente para o onze inicial e fortalece o núcleo de 14 que vai, de facto, decidir a época.

Quando começamos a ver nomes a surgir nos jornais para a próxima época é importante pensarmos nisto, porque toda a gente gosta de ver jogadores novos, e de preferência um todas as semanas, para matar o aborrecimento, mas no que 80 por cento desses jogadores se tornam depois é em parasitas.

O Benfica, já contando com os dois que vão sair, precisa de quatro titulares para a próxima época, e nem mais um. Os outros sete são para treinar e para jogar com o Freamunde, e para isso qualquer David Simão chega. Com um bocadinho de sorte até há um deles que dá jogador a sério e toda a gente parece mais inteligente. Todos os que não vierem nesta política, com o Jesus a treinador, são mais um desperdício de recursos e um erro de gestão.

Estou só a avisar com antecedência para, daqui a uns meses, poder falar com autoridade.



No processo de auto-crítica que tenho feito nos últimos tempos em relação à minha análise e às minhas previsões, já encontrei algumas em que atirei completamente ao lado, mas houve uma que se confirmou plenamente, mesmo que eu, bem à benfiquista, tenha tentado negar e olhar para o lado, mesmo contra todas as minhas convicções, e até à última hora: em Dezembro disse que o Benfica não seria campeão com Nélson Oliveiras, possíveis jogadores ainda de fraldas, a fazerem figura de Saviolas, que com a idade deles já estava entre os cinco melhores do mundo, e que para ter hipóteses o Jesus teria de recuperar o Saviola para a segunda metade da época. É um caso de classe pura. Se havia jogadores que mereciam grande investimento técnico, no Benfica. Mas no Benfica os jogadores são baratos.

 Tinha toda a razão.

Agora é tarde.



Ao ver o Nolito marcar dois golos de primeira, como marcou vários esta época, e a passar bola de cabeça levantada, a dar golos e a abrir jogo, fico com a certeza de que é um jogador de toque e de posição, na melhor escola do Barcelona, e não um jogador de drible e progressão com bola. Apesar de ter a tendência para se agarrar muito à bola, e de gostar demasiado de a ter nos pés, Nolito, que dá a imagem do individualista acabado, tem, de facto, um jogador de equipa dentro de si. E não é o único. Rodrigo também, por exemplo. A mais-valia destes jogadores está em tocarem bem e poucas vezes na bola, e não muitas. A produção de Rodrigo, por exemplo, caíu muito a partir do momento em que deixou de jogar a 9 para começar a transportar a bola.

Gaitán seria muito melhor se tivesse menos bola e usasse melhor a bola. Aimar também. Witsel, que fisicamente é um portento e é o único jogador do meio-campo do Benfica capaz de chegar ao campo todo, ainda mais. Bruno César também.

Na ânsia de criar um estilo de ataque imprevisível, Jesus alimentou um estilo imprevisível, sim, mas individualista e desgarrado.

E já não o vai mudar.

Nem deve, nesta altura do campeonato. Neste ponto, com mais uma época de projecto, é viver pela espada ou morrer pela espada. Mudar de arma já não serviria para nada.

quarta-feira, 18 de abril de 2012

O síndrome de David e Golias

Estamos a cerca de 15 dias daquela altura do ano que os benfiquistas e sportinguistas só se lembram que existe na semana anterior: a altura em que a festa do campeonato entra pelas casas dos portugueses. Houve alturas em que as televisões tratavam esse acontecimento como o fenómeno regional que é, mas, entretanto, quer pelo trabalho de sapa propagandístico do Porto quer pelo crescente paradigma do politicamente correcto a que a comunicação social tem aderido, a coisa tem sido tratada como um evento  mais ou menos nacional.

O que quer dizer que está a chegar a altura do ano em que os benfiquistas, sobretudo, começam a ter a tendência para fazer disparates. Como é um povo muito dado às coisas básicas, não lhe dói assim tanto perder até ver, com os próprios olhos, o que perdeu. Também tem a ver com a falta de familiaridade com as vitórias. Só damos realmente falta do que estamos habituados a ter.

A mini-espera que fizeram à equipa, completamente idiota, é um indício. Com o benfiquista nem sequer se trata de tentar não ver só a árvore para conseguir ver a floresta: o benfiquista é tão apaixonado que sente que leva com a árvore no focinho. Qual floresta…

Talvez seja o momento ideal, então, para deixar uma breve mensagem aos benfiquistas, contra a poluição: não se deixem impressionar, nem se deixem enganar.

Não se deixem impressionar porque não é a festa nem o foguetório que interessa. O Porto ganhou um campeonato, é verdade, mas ganhou um campeonato não só que devia ter ganho, dada a época passada, como que foi o Benfica a perder. Em termos de expectativas o Benfica não só fez uma boa época como fez uma época superior ao Porto. O Porto esteve abaixo das expectativas, o Benfica esteve acima das expectativas. É claro que as expectativas eram bem diferentes, mas já aprendi que, no longo prazo, mais importante do que o que fazemos é o que fazemos em relação ao que se espera de nós. (É a mesma lógica que leva a que se diga que os bancos portugueses estão a atravessar uma fase difícil quando continuam a ter lucros de centenas de milhões de euros. Quando se espera ganhar 100 e se ganha 50, na verdade está-se a perder 50, porque a contas não são feitas para acabar aqui e agora mas para se fazerem num processo contínuo)

Digamos apenas assim, para tornar as coisas mais claras: se Porto e Benfica tiverem, na próxima época, o mesmo comportamento perante as expectativas iniciais que tiveram este ano, o Benfica é campeão de caras.

Esta é a verdade racional.

Em relação ao foguetório, vai ser o do costume. O que acaba por fazer mais mossa, na prática, e o dos Ruis Santos cá do relambório. Vamos ouvir falar em «hegemonia», em «sucesso», em «fracasso», em «hegemonia», nos «que trabalham e nos que trabalham mal e não aprendem», vamos ouvir muitas parvoíces.

O que é preciso é compreender o seguinte: se a época do Benfica (ou do Sporting, ou do Porto) não for um fracasso, e não apenas um falhanço, se não for extremamente importante, os Ruis Santos cá do relambório, que vivem (e bem) à conta disso, não são minimamente importantes.

Que tipo de vida teria esta gente se uma derrota perfeitamente normal do Benfica (que é o que é, afinal) fosse encarada como uma coisa perfeitamente normal? Uma vida perfeitamente banal.

É preciso não ignorar que esta gente é a gente que faz a análise a partir do resultado final. Em teoria, deveriam ser capazes de compreender o jogo de uma forma continuada, integrada, de saber separar o desempenho do resultado (que nem sempre são convergentes), mas não são. Os Ruis Santos cá do relambório são o tipo de gente que tem uma crónica escrita aos 89 minutos de jogo e, se a bola bate na cabeça de um tipo e entrar na baliza, mudam mais de metade e, sobretudo, o teor da crónica. O que eles dizem vale tão pouco quando se ganha como quando se perde: mesmo muito pouco.

Para os benfiquistas é altura de fecharem os olhinhos, abrirem a boca, engolirem o sapo, fazerem de conta que é lagosta e dizerem: «Muito obrigado.» (Desde que não se esqueçam que estão a engolir um sapo, senão não vão a lado nenhum.)

 O que se vai dizer e o que se vai fazer não muda em absolutamente nada nem a verdade dos factos nem o que é preciso fazer para melhorar. É nesta altura que o Benfica, nos últimos 30 anos, tem perdido a maior parte dos campeonatos – não os da festa mas os do ano seguinte.



Que não se deixem enganar porque os verdadeiros objectivos do Benfica, para o próximo ano, não vão ser «tentar ganhar tudo», nem «melhorar», nem «continuar o projecto», nem sequer «ser campeão».

O único objectivo real do Benfica para a próxima temporada é ficar a frente do Porto no campeonato.

Isto faz pele de galinha à maior parte dos benfiquistas. É um sapo ainda mais difícil de engolir que o outro. Cheira, parece e sabe a sportinguização. Não só a submissão como a conformação. Dá a ideia de que o Benfica é inferior ao Porto, e daí a passar à ideia de que se está a pensar à pequeno é um pulinho.

Os dirigentes do Benfica não têm a coragem (nem a inteligência, na minha opinião) para dizer isto. Têm medo de ficar para a história do clube como medíocres, como uns cocós, digamos assim.

É um erro. Porque é uma ilusão, e sai cara.

Já aqui escrevi isto há uns meses, salvo erro mesmo antes do jogo nas Antas.

O Benfica devia assumir, oficialmente mesmo, o statu quo. O quem é quem. A clarificação e o pragmatismo beneficiariam em muito o Benfica. Na verdade, mudariam todo o contexto.

É só por esta posição inferior em relação ao Porto nunca ter assumida, contra toda a lógica, que o Porto continua a tirar proveito da estratégia de superação, chamemos-lhe assim. Também lhe podemos chamar de estratégia de vitimização, mas eu prefiro chamar-lhe de síndrome de David e Golias.

O síndrome de David e Golias funciona bem em Portugal porque, culturalmente, não tivemos outra opção, historicamente, senão acomodarmo-nos a ela. Portugal nunca pode deixar de ser um David, e mesmo quando foi Império continuou a ser David. A lógica do «vamos lutar conta tudo e contra todos e acabaremos por vencer» que continuamos a ouvir, todas as semanas, como um mantra, é a nossa zona de conforto nacional, e isso explica-se pelas condições históricas. A grande treta psicológica do futebol português baseia-se nisso, no país dos pobrezinhos, nos «sem-abrigo que vão tentar fazer vida de rico por um dia», como relambeu o presidente do Gil, num assomo de sincretismo, há uns dias.

Nestes 30 anos o Pinto da Costa teve o cuidado de manter sempre o Porto na posição de David. É a única razão para ser idolatrado como estratega. Os analistas não sabem mais. Vêem um tipo a meter-se na posição de desgraçadinho e clamam: «Génio! Está a jogar com a psicologia invertida. Vai ser contra tudo e contra todos.» Não é génio nenhum, é apenas um zarolho em terra de cegos. Cá no burgo, a psicologia invertida tornou-se na idiossincrasia, na psicologia normal.

É claro que, sendo terra de cegos, a psicologia da treta funciona, e esse é que é o ponto mais prático.

Ao não assumir a sua inferioridade m relação ao Porto, por orgulho (o que não deixa de ser reconfortante, note-se), mas também por falta de inteligência táctica, o Benfica continua a permitir que o Porto mantenha a posição de David, mesmo perante a realidade bizarra do David, em Portugal, ser a equipa que ganha tudo. É por causa desse erro táctico, e dessa inversão da lógica, que andamos à volta com isto dos árbitros, por exemplo. É só por o Benfica não assumir o seu estatuto secundário, na prática, no futebol português, que não se faz a pergunta mais básica, estúpida e elementar em relação às arbitragens e que é a seguinte: «Se os árbitros são tão importantes para os resultados como vocês dizem, e tão corruptíveis, o facto de vocês ganharem 20 campeonatos em 30 não quer dizer, inevitavelmente, que os corruptores e os beneficiados são vocês?»

Numa lógica de corrupção institucionalizada o sucesso continuado do Porto é a única prova necessária do crime, e isso é evidente para qualquer totó com um dedo de cérebro, desde que se disponha a usar esse dedo de cérebro – o que não acontece quando se prefere rejeitar a lógica e as evidências.

Ao negar a realidade o Benfica está a permitir a perpetuação da condição básica do sucesso do Porto. Está a permitir-lhe colocar-se na situação de David, que não tem nada a perder e só pode ganhar, quando, como é óbvio, o único clube com alguma coisa a perder, o único clube que ganha, o verdadeiro Golias, é o Porto.

O grande truque de ilusionismo de Pinto da Costa, em 30 anos, é ter conseguido pôr toda a gente a acreditar que o Porto é o David quando é o Golias. Aí sim, tem sido mestre.

Quando a premissa básica do sucesso do Porto for invertida – quando o síndrome de David e Golias lhe for retirado – e quando essa ideia passar para a opinião pública, através de um trabalho inteligente de comunicação, a dinâmica de vitória do Porto esboroa-se em três tempos.

Mas, para isso, tem mesmo de se ser inteligente. E isso passa por dizer: «O Porto é o melhor, e o nosso objectivo é ser melhor que eles, só isso.»

Apenas com isso a pressão sobre os jogadores, a «estrutura» e os próprios adeptos do Porto aumentaria brutalmente. É algo com que eles não estão preparados para lidar de forma sistemática e continuada. É essa a mecânica do desafio e a resposta. Um dia a força do desafio torna-se maior que a resistência da resposta, o sitiado cede, e começa a sua decadência.

Mas para isso tem de haver o desafio. Não vai lá com cobardias, nem com paneleirices. Não chega fingir que não se quer e ir pela calada, escondendo a mão. Os reis não se matam às escondidas, senão não chegam a morrer. É preciso ter honra, audácia e grandeza. É preciso ir para o meio da rua e gritar lá para cima, de maneira a que toda a gente ouça: «O que tu tens é meu!»