Estamos a cerca de 15 dias daquela altura do ano que os benfiquistas e sportinguistas só se lembram que existe na semana anterior: a altura em que a festa do campeonato entra pelas casas dos portugueses. Houve alturas em que as televisões tratavam esse acontecimento como o fenómeno regional que é, mas, entretanto, quer pelo trabalho de sapa propagandístico do Porto quer pelo crescente paradigma do politicamente correcto a que a comunicação social tem aderido, a coisa tem sido tratada como um evento mais ou menos nacional.
O que quer dizer que está a chegar a altura do ano em que os benfiquistas, sobretudo, começam a ter a tendência para fazer disparates. Como é um povo muito dado às coisas básicas, não lhe dói assim tanto perder até ver, com os próprios olhos, o que perdeu. Também tem a ver com a falta de familiaridade com as vitórias. Só damos realmente falta do que estamos habituados a ter.
A mini-espera que fizeram à equipa, completamente idiota, é um indício. Com o benfiquista nem sequer se trata de tentar não ver só a árvore para conseguir ver a floresta: o benfiquista é tão apaixonado que sente que leva com a árvore no focinho. Qual floresta…
Talvez seja o momento ideal, então, para deixar uma breve mensagem aos benfiquistas, contra a poluição: não se deixem impressionar, nem se deixem enganar.
Não se deixem impressionar porque não é a festa nem o foguetório que interessa. O Porto ganhou um campeonato, é verdade, mas ganhou um campeonato não só que devia ter ganho, dada a época passada, como que foi o Benfica a perder. Em termos de expectativas o Benfica não só fez uma boa época como fez uma época superior ao Porto. O Porto esteve abaixo das expectativas, o Benfica esteve acima das expectativas. É claro que as expectativas eram bem diferentes, mas já aprendi que, no longo prazo, mais importante do que o que fazemos é o que fazemos em relação ao que se espera de nós. (É a mesma lógica que leva a que se diga que os bancos portugueses estão a atravessar uma fase difícil quando continuam a ter lucros de centenas de milhões de euros. Quando se espera ganhar 100 e se ganha 50, na verdade está-se a perder 50, porque a contas não são feitas para acabar aqui e agora mas para se fazerem num processo contínuo)
Digamos apenas assim, para tornar as coisas mais claras: se Porto e Benfica tiverem, na próxima época, o mesmo comportamento perante as expectativas iniciais que tiveram este ano, o Benfica é campeão de caras.
Esta é a verdade racional.
Em relação ao foguetório, vai ser o do costume. O que acaba por fazer mais mossa, na prática, e o dos Ruis Santos cá do relambório. Vamos ouvir falar em «hegemonia», em «sucesso», em «fracasso», em «hegemonia», nos «que trabalham e nos que trabalham mal e não aprendem», vamos ouvir muitas parvoíces.
O que é preciso é compreender o seguinte: se a época do Benfica (ou do Sporting, ou do Porto) não for um fracasso, e não apenas um falhanço, se não for extremamente importante, os Ruis Santos cá do relambório, que vivem (e bem) à conta disso, não são minimamente importantes.
Que tipo de vida teria esta gente se uma derrota perfeitamente normal do Benfica (que é o que é, afinal) fosse encarada como uma coisa perfeitamente normal? Uma vida perfeitamente banal.
É preciso não ignorar que esta gente é a gente que faz a análise a partir do resultado final. Em teoria, deveriam ser capazes de compreender o jogo de uma forma continuada, integrada, de saber separar o desempenho do resultado (que nem sempre são convergentes), mas não são. Os Ruis Santos cá do relambório são o tipo de gente que tem uma crónica escrita aos 89 minutos de jogo e, se a bola bate na cabeça de um tipo e entrar na baliza, mudam mais de metade e, sobretudo, o teor da crónica. O que eles dizem vale tão pouco quando se ganha como quando se perde: mesmo muito pouco.
Para os benfiquistas é altura de fecharem os olhinhos, abrirem a boca, engolirem o sapo, fazerem de conta que é lagosta e dizerem: «Muito obrigado.» (Desde que não se esqueçam que estão a engolir um sapo, senão não vão a lado nenhum.)
O que se vai dizer e o que se vai fazer não muda em absolutamente nada nem a verdade dos factos nem o que é preciso fazer para melhorar. É nesta altura que o Benfica, nos últimos 30 anos, tem perdido a maior parte dos campeonatos – não os da festa mas os do ano seguinte.
Que não se deixem enganar porque os verdadeiros objectivos do Benfica, para o próximo ano, não vão ser «tentar ganhar tudo», nem «melhorar», nem «continuar o projecto», nem sequer «ser campeão».
O único objectivo real do Benfica para a próxima temporada é ficar a frente do Porto no campeonato.
Isto faz pele de galinha à maior parte dos benfiquistas. É um sapo ainda mais difícil de engolir que o outro. Cheira, parece e sabe a sportinguização. Não só a submissão como a conformação. Dá a ideia de que o Benfica é inferior ao Porto, e daí a passar à ideia de que se está a pensar à pequeno é um pulinho.
Os dirigentes do Benfica não têm a coragem (nem a inteligência, na minha opinião) para dizer isto. Têm medo de ficar para a história do clube como medíocres, como uns cocós, digamos assim.
É um erro. Porque é uma ilusão, e sai cara.
Já aqui escrevi isto há uns meses, salvo erro mesmo antes do jogo nas Antas.
O Benfica devia assumir, oficialmente mesmo, o statu quo. O quem é quem. A clarificação e o pragmatismo beneficiariam em muito o Benfica. Na verdade, mudariam todo o contexto.
É só por esta posição inferior em relação ao Porto nunca ter assumida, contra toda a lógica, que o Porto continua a tirar proveito da estratégia de superação, chamemos-lhe assim. Também lhe podemos chamar de estratégia de vitimização, mas eu prefiro chamar-lhe de síndrome de David e Golias.
O síndrome de David e Golias funciona bem em Portugal porque, culturalmente, não tivemos outra opção, historicamente, senão acomodarmo-nos a ela. Portugal nunca pode deixar de ser um David, e mesmo quando foi Império continuou a ser David. A lógica do «vamos lutar conta tudo e contra todos e acabaremos por vencer» que continuamos a ouvir, todas as semanas, como um mantra, é a nossa zona de conforto nacional, e isso explica-se pelas condições históricas. A grande treta psicológica do futebol português baseia-se nisso, no país dos pobrezinhos, nos «sem-abrigo que vão tentar fazer vida de rico por um dia», como relambeu o presidente do Gil, num assomo de sincretismo, há uns dias.
Nestes 30 anos o Pinto da Costa teve o cuidado de manter sempre o Porto na posição de David. É a única razão para ser idolatrado como estratega. Os analistas não sabem mais. Vêem um tipo a meter-se na posição de desgraçadinho e clamam: «Génio! Está a jogar com a psicologia invertida. Vai ser contra tudo e contra todos.» Não é génio nenhum, é apenas um zarolho em terra de cegos. Cá no burgo, a psicologia invertida tornou-se na idiossincrasia, na psicologia normal.
É claro que, sendo terra de cegos, a psicologia da treta funciona, e esse é que é o ponto mais prático.
Ao não assumir a sua inferioridade m relação ao Porto, por orgulho (o que não deixa de ser reconfortante, note-se), mas também por falta de inteligência táctica, o Benfica continua a permitir que o Porto mantenha a posição de David, mesmo perante a realidade bizarra do David, em Portugal, ser a equipa que ganha tudo. É por causa desse erro táctico, e dessa inversão da lógica, que andamos à volta com isto dos árbitros, por exemplo. É só por o Benfica não assumir o seu estatuto secundário, na prática, no futebol português, que não se faz a pergunta mais básica, estúpida e elementar em relação às arbitragens e que é a seguinte: «Se os árbitros são tão importantes para os resultados como vocês dizem, e tão corruptíveis, o facto de vocês ganharem 20 campeonatos em 30 não quer dizer, inevitavelmente, que os corruptores e os beneficiados são vocês?»
Numa lógica de corrupção institucionalizada o sucesso continuado do Porto é a única prova necessária do crime, e isso é evidente para qualquer totó com um dedo de cérebro, desde que se disponha a usar esse dedo de cérebro – o que não acontece quando se prefere rejeitar a lógica e as evidências.
Ao negar a realidade o Benfica está a permitir a perpetuação da condição básica do sucesso do Porto. Está a permitir-lhe colocar-se na situação de David, que não tem nada a perder e só pode ganhar, quando, como é óbvio, o único clube com alguma coisa a perder, o único clube que ganha, o verdadeiro Golias, é o Porto.
O grande truque de ilusionismo de Pinto da Costa, em 30 anos, é ter conseguido pôr toda a gente a acreditar que o Porto é o David quando é o Golias. Aí sim, tem sido mestre.
Quando a premissa básica do sucesso do Porto for invertida – quando o síndrome de David e Golias lhe for retirado – e quando essa ideia passar para a opinião pública, através de um trabalho inteligente de comunicação, a dinâmica de vitória do Porto esboroa-se em três tempos.
Mas, para isso, tem mesmo de se ser inteligente. E isso passa por dizer: «O Porto é o melhor, e o nosso objectivo é ser melhor que eles, só isso.»
Apenas com isso a pressão sobre os jogadores, a «estrutura» e os próprios adeptos do Porto aumentaria brutalmente. É algo com que eles não estão preparados para lidar de forma sistemática e continuada. É essa a mecânica do desafio e a resposta. Um dia a força do desafio torna-se maior que a resistência da resposta, o sitiado cede, e começa a sua decadência.
Mas para isso tem de haver o desafio. Não vai lá com cobardias, nem com paneleirices. Não chega fingir que não se quer e ir pela calada, escondendo a mão. Os reis não se matam às escondidas, senão não chegam a morrer. É preciso ter honra, audácia e grandeza. É preciso ir para o meio da rua e gritar lá para cima, de maneira a que toda a gente ouça: «O que tu tens é meu!»