sábado, 14 de abril de 2012

2012/13 alternativo

E se o presidente do Benfica pensasse assim:



- Jesus está esgotado. Já não vai conseguir acrescentar nada e, como tem um estilo de grande desgaste para os plantéis, o mais provável era voltar a gerir mal a equipa. Para quê, então, investir numa equipa liderada por alguém que a vai acabar por consumir, mais do que aproveitá-la, que continua a pensar que o elemento fundamental dessa equipa é ele próprio e que age de acordo com esse convencimento?

Jesus poderá ter um efeito nocivo para uma equipa potencialmente melhor, em todos os aspectos, do que a deste ano. Em vez de potenciar o rendimento dos jogadores, será um anti-corpo, pois toda a gente está em condições de evoluir menos ele – o elemento fundamental, recorde-se. Jesus pode mesmo fazer diminuir uma equipa que está numa etapa de crescimento, se não conseguir acompanhá-la – algo que, dada a sua aparente dificuldade em aprender ou em mudar de métodos, é o mais provável.

O problema do Benfica não é os jogadores, é o estilo. Com estes ou com outros jogadores, melhores, ou mesmo com estes jogadores, melhores, e outros, a equipa voltará a falhar porque o tipo de jogo (unidimensional) que o treinador criou e continua a alimentar é um tipo de jogo inapto para criar soluções, quer ofensivas quer defensivas, nos momentos das decisões. Torna-se irrelevante, neste caso, se os jogadores são melhores ou não, porque o uso que se lhes dá continuará a ser desapropriado. É como passar de uma espingarda para uma metralhadora num combate contra um tanque, quando o que é preciso é um único míssil anti-tanque – uma arma especializada, para a qual o treinador não tem maõzinhas.



- Gastar dinheiro, neste clima de desconfiança, e perante a actual conjectura, seria uma loucura. Vale mais prolongar as negociações televisivas, fazer um ano de transição económica, à espera de um mercado melhor, investir menos na equipa, guardar munições para outras batalhas, até porque é impossível que os adversários também se reforcem como gostariam, pelas mesmas razões. Se o Benfica arrisca e perde pode comprometer as suas finanças durante anos.



- O concorrente (o Porto) encontra-se numa fase de transição, de que a contratação de um novo treinador será o passo mais importante. O que faz com que esta seja a altura certa para jogar na antecipação, aproveitar a vantagem enquanto ela existe, e avançar para a contratação de um novo técnico, o melhor que esteja disponível. O mercado de treinadores com qualidade suficiente para treinar Benfica e Porto é limitado, e assegurar o melhor disponível é não só uma vantagem estratégica como um golpe nos planos do adversário. O segredo para se ser o melhor é ter os melhores, e os melhores treinadores são poucos. O Porto, neste momento, está agarrado a um pepino, mas rapidamente deixa de estar, a não ser que o benfica jogue na antecipação.



- A espinha dorsal da equipa já mostrou que chega para ficar em segundo mas não tem qualidade suficiente para ser melhor que a do Porto. Nesse caso, esta é a altura para, juntamente com a troca de treinador, deixar sair Aimar, vender Javi Garcia e Cardozo (e Gaitán, claro), manter Luisão e Maxi, remodelar o estilo de jogo – algo que não pode ser feito enquanto Aimar e Cardozo estiverem no plantel, por exemplo – e aproveitar a evolução dos outros jogadores, que terão tudo a ganhar se passarem a jogar num registo diferente, mais colectivo, mais inteligente, menos impetuoso, mais competitivo, e tentar subir de bitola, arriscando mais em vez de jogar na continuidade.
Com férias completas, com um estágio de pré-época inteiro para trabalhar, sem um inicio de época com pré-eliminatórias decisivas na Champions, que não deixam espaço para trabalhar a equipa mas quase apenas para preparar os jogos, com o adversário em reestruturação, perdendo Hulk, Álvaro Pereira, Rolando e mais que venham, esta é a altura certa para apostar na evolução, e não apenas de esperar que ela acabe por aparecer. O futebol é acção, não é expectativa, e tem de se provocar a mudança. Sem iniciativa, nada acontece.

O plebeu

Um breve interlúdio verde antes da próxima especulação benfiquista para 2012/13.



Algumas coisas que vão ficando claras.

Como escrevi aqui, duas facções dentro do Sporting: os políticos, liderados por Luís Duque; e os fundamentalistas, de quem o Guarda Pretoriano Cristóvão era o representante na Direcção.

Duque tentando criar condições para uma aliança com o Benfica, Cristóvão tentando conquistar o poder por dentro.

Cristóvão é (era) o homem do trabalho sujo, desde o início, no Sporting. A sua função não era só pintar girassóis nos corredores: era entrar nos meandros do futebol (que devia conhecer muito bem porque, como ex-PJ, tinha maneiras de conhecer) e voltar a meter o Sporting no jogo. Não há, nem no Sporting nem em clube algum à excepção do Porto, assim tanta gente disponível para chafurdar na lama. É por isso, aliás, que Pinto da Costa chego a Papa: por falta de vergonha. Nem toda a gente tem a capacidade de se rebaixar eticamente ao ponto de viver confortavelmente no meio da escumalha.

Essa era base da influência de Cristóvão junto do presidente – um coninhas, como já toda a gente percebeu – e era a partir daí que Cristóvão (um plebeu, note-se)esperava alcançar o poder dentro do Sporting e tornar-se o Pinto da Costa do clube (um sonho comum a tantos e tantos benfiquistas e sportinguistas). O controlo do submundo, libertando os viscondes sportinguistas desse ónus, dar-lhe-ia um poder funcional e a postura anti-benfiquista, que tinha vindo a trabalhar com afinco, dar-lhe-ia o poder demagógico para subir no barómetro do poder e, na altura certa, disputar a presidência do clube.

Confirma-se que, no Sporting, todos sentem ter direito ao poder, e que essa é a grande vulnerabilidade interna do clube.



A saída de Cristóvão – não se pode dizer irreversível porque, em política, os cadáveres só dormem – abre a porta à facção duquista e à respectiva estratégia.

Enfraquece brutalmente a posição estratégica do Sporting, não só por garantir que o clube não é inocente mas também pela imagem de amadorismo que passa.

O presidente, principalmente, sai muitíssimo enfraquecido, e Duque, que trocou Domingos por Sá Pinto, que vai ganhar a Taça, que chega às meias-finais da Liga Europa e que acaba o ano a tirar o campeonato ao Benfica (a mais importante das três façanhas para os sportinguistas), está em alta, quando ainda há poucas semanas parecia preso por arames.

quinta-feira, 12 de abril de 2012

2012/13 racional

Em relação ao chefe da Guarda Pretoriana Lacoste, e ficando ansiosamente à espera de mais desenvolvimentos para poder continuar a rir-me a bandeira despregadas, quero só, para já, remeter para o conceito de sportinguite já aqui enunciado anteriormente, e acrescentar que, em caso de sportinguite aguda, a «processo de auto-mortificação em que todas as partes, numa sequência lógica, encadeiam precipitações até criarem um problema administrativamente insolúvel», se deve juntar «e em que, no processo, os envolvidos conseguem dobrar-se e trincar os próprios tomates em público.»



Em frente.

Hoje e amanhã, um exercício de contraditório.



Racionalmente, a época de 2012/13 do Benfica é linear. Por isso é melhor estabelecermos já essa linearidade porque , daqui até Agosto, haverá múltiplas distorções que tornarão esta recta racional, se tudo correr bem, numa elipse, e se tudo correr mal num U, mandando tudo lá para trás outra vez – sendo este tudo três anos de crescimento gradual.



Esta é, então, a lógica a que, teoricamente, obedecerá a planificação da próxima época benfiquista:



1º segmento

Desportivamente, é a temporada de conclusão de um projecto. O treinador está no último ano de contrato e acumulou a experiência necessária para estar mais bem colocado do que nos três anos anteriores para atingir os objectivos desportivos.

A equipa tem subido gradualmente de capacidade – a única anomalia foi ter sido campeã no primeiro ano, tendo subido de terceiro (ou quarto?) para primeiro, saltando um degrau, algo que foi normalizado no ano seguinte e neste que agora acaba, com uma subida da capacidade competitiva reflectida na distância pontual para o primeiro.

Há um núcleo de jogadores que cumpriu todo o ciclo como coluna vertebral da equipa (Luisão, Maxi, Javi, Aimar, Cardozo) e que atinge, sem excepção um momento de maturidade competitiva ou definitiva ou muito perto do limite possível enquanto jogadores do campeonato português. Neste momento, os principais jogadores do Benfica já viveram o suficiente para saberem praticamente tudo o que há para saber no que respeita ao que é preciso para serem campeões.

O último ano do treinador coincidiria com o último ano, também, de alguns destes jogadores, que representam o modelo futebolístico que implantou desde o primeiro dia. É fácil, e mesmo natural, ver Javi, Aimar e Cardozo, por exemplo, a encerrarem este ciclo e a sairem no fim da próxima época.

Não faria sentido romper, neste momento pré-conclusivo, com a continuidade, a começar pela cabeça: o treinador é a pedra basilar do plano quadrianual (já dizia Estaline…), como tal deve ficar.



2.º segmento

A equipa que este ano ficou à beira do título – não é, de todo, desajustado dizer que ficou a um resultado do título – foi uma equipa com 9 jogadores novos no clube: Artur, Garay, Emerson, Matic, Witsel, Nolito, Bruno César, Rodrigo e Nélson Oliveira, a que se pode juntar um décimo, Yannick, com alguma boa vontade.

Destes 9 jogadores, há 8 com margem de progressão evidente se se juntar a maturidade de um ano de competição alta ao seu próprio processo individual de crescimento. Incluo Artur porque um guarda-redes só o é mesmo a partir dos 30 anos e não incluo Emerson, porque não tem potencial para mais do que o que já dá. Destes 8, há 4 que representarão, provavelmente, uma subida de qualidade do onze inicial (Artur, Garay, Witsel e Rodrigo), dois que, potencialmente, podem explodir (Matic e Nélson Oliveira) e dois que acrescentarão profundidade, de facto, ao plantel, ainda que não tenham, potencialmente, a categoria para jogar, de caras, no onze inicial de um Benfica de alto nível (Nolito e Bruno César).

A margem de progressão do plantel como está é grande, e há poucos pontos fracos. Em termos de onze inicial, o Benfica pode dar-se ao luxo de adquirir apenas um defesa-esquerdo e um extremo, além dos substitutos para o(s) jogador(es) que sair(em). Se tivesse apostar apostaria em Gaitán – uma aposta tão segura que já nem é aposta – o que não será muito prejudicial para a equipa e Javi García – o que será, na minha opinião, um erro, mas provavelmente um erro inevitável, porque será o jogador com mais mercado. Mais facilmente venderia Rodrigo, Nélson Oliveira ou Cardozo para poder ficar com Javi mais um ano, mas enfim, não se tem o que se quer, tem-se o que se pode.

O Benfica tem quatro aquisições por fazer. Se acertar em três é suficiente para melhorar a equipa. Quanto ao banco, precisa de mais um jogador. Um Rúben Amorim qualquer. Chega.

Em termos de construção de plantel, está numa situação privilegiada.

(Acrescento que não conto com Enzo Pérez porque vi um jogo do Estudiantes há uns dias e, se vier, vai ser um a menos. Sim, bastou-me um jogo. Sou mesmo um génio… Espero enganar-me.)

Há dois jogadores de saída que abrirão não só lugar no plantel como espaço salarial (Saviola e Capdevilla), o que nos leva ao terceiro segmento.



3.º segmento

É o primeiro ano com novo contrato televisivo, ou sem ele. Não se acredita que o Benfica possa prescindir de receitas televisivas no meio da pior crise económica do século, mesmo que venha a não assinar com a Sport TV (num aparte, como é que o presidente do Benfica tem condições reais de assinar contrato com a Olivedesportos, ponta-de-lança financeira do sistema, neste momento? Vejo as coisas complicadíssimas nesse aspecto.). Ainda assim, é difícil ao Benfica não aumentar as suas actuais receitas anuais com direitos televisivos mesmo que venha a negociar jogo a jogo com os operadores nacionais durante um ano ou dois. Pode não ganhar tanto como com uma venda em pacote a longo prazo, mas ganha mais do que o que ganha actualmente de certeza.

Isso deverá significar a possibilidade de investir na equipa, ainda que não se possa saber muito bem quanto é que custa o dinheiro ao Benfica, neste momento. Podemos supor que custa muito caro, dada a falta de investimento em Janeiro, quando as condições para chegar ao título eram as mais propícias e quando, com mais um titular, muito possivelmente, se teria ganho o campeonato.

Esse refreamento em Janeiro dá toda a ideia de ter sido estratégico, para se esperar pelo Verão e reforçar a equipa com maiores garantias de sucesso e com mais dinheiro para gastar. Veremos, no Verão, se se confirma, ou se o investimento está mesmo impossível.

Por outro lado, na concorrência, houve uma aposta forte em Janeiro, quer na não-saída de jogadores quer na entrada de elementos sem-retorno financeiro garantido (Lucho e Manko), já depois de ter havido um investimento brutal no Verão de 2011.

Ao que tudo indica, o Porto empenhou-se (literalmente) para renovar o título este ano e «para o próximo, logo se vê». É um sinal, não diria de desespero, mas de ansiedade, de fuga para a frente. As fugas para a frente não acabam bem. O que nos leva ao quarto segmento.



4.º segmento

A concorrência estará mais fraca, pelo menos durante uma parte da temporada. O Porto tem duas épocas para pagar – a que acaba e a que aí vem – e recursos limitados para a pagar. Na melhor das hipóteses saem Hulk, Álvaro Pereira e Rolando. Na pior, juntam-se-lhe Moutinho, James ou Fernando, se Guarín não for comprado pelo Inter (o que ninguém pode dar como certo). Os outros, se saírem, não dão dinheiro a sério porque não têm mercado.

A capacidade de competir do Porto não vai diminuir, a ética de trabalho é forte, e provavelmente até veremos o Porto a jogar mais colectivamente do que este ano, mas a qualidade imediata, sim, decairá. O Porto vai ter de encontrar três titulares, pelo menos para manter um nível aproximado (o que não é garantido que chegue se o Benfica realmente subir) ou quatro para melhorar a equipa. Mesmo que já os tenha (Mangala, Sandro, Danilo, serão titulares) o nível, pelo menos durante os primeiros meses, não será o mesmo, e a compulsão para ir buscar mais jogadores será inevitável. Ainda que encontre boas opções (o que é crível, porque o Porto trabalha bem no mercado) o processo de adaptação à equipa é sempre mais moroso. Até o Hulk levou algumas semanas a entrar na equipa. Além disso, o Porto não compra jogadores experientes (Lucho e Manko foram uma clara excepção), por razões económicas e porque, se não vêm já formatados para o estilo de jogo da equipa, são mais difíceis de educar.

Não se está a contabilizar o novo treinador (ou o actual, o que seria pior) e a necessidade imperial de apostar forte na Liga dos Campeões para repor receitas.

Quer queira quer não, o Porto, que adiou o final de ciclo para este ano apesar de, pela lógica económica, ele dever ter acontecido no Verão passado, terá um ano de transição, seja qual for o treinador, apenas porque uma parte importante da espinha dorsal da equipa será nova. Será um ano de clara passagem de testemunho, em que jogadores como James, Moutinho ou Danilo serão chamados a assumir a liderança da equipa em termos de rendimento.

O Sporting estará numa fase, ainda, de concorrência apenas parcial. Em termos de resposta à pressão, o Sporting falhou claramente este ano, e seria preciso um milagre igualmente parcial para subir dois degraus num único ano perante duas equipas já rotinadas na competição pelo título. Se o Benfica esteve a um resultado do título, o Sporting esteve a uma volta inteira. Vai chatear, mas não vai ganhar. Ou, pelo menos, não seria racional contar com isso, e este é um exercício de racionalidade.



Racionalmente, perante este cenário, só haveria uma coisa a fazer pelo Benfica: manter a direcção firme, não mudar nada de substancial, meter uma abaixo e carregar no pedal.



Aliás, é tudo tão certinho que até dá para desconfiar.



Amanhã veremos a 2012/13 intuitiva.

quarta-feira, 11 de abril de 2012

O que faz falta

Hoje vi o jogo do ano da Alemanha, Dortmund-Bayern, e a propósito disso houve lá algumas coisas que têm a ver com outras coisas, cá nossas, e algumas bem actuais, de que vale a pena falar. Antes de mais, não me lembro de ver uma falta. Não quer dizer que não tenha havido, mas se houve dez em cada parte é muito. Num jogo com alemães, polacos, russos, japoneses, brasileiros, argentinos, africanos, marcianos e orangotangos.

Porque é que isto é um sinónimo de profissionalismo?

Porque, ao nível de que estamos a falar (os dois primeiros classificados do campeonato alemão) uma equipa que não faz faltas é uma equipa que a) sabe defender, quer em termos posicionais, quer em termos de capacidade de antecipação, quer em termos de perceber que uma falta é apenas um alívio passageiro pois resulta, logo a seguir ou mais tarde, num esforço acrescido para o físico e para a concentração, e que b) tem estofo físico e capacidade de concentração no jogo suficientes para aguentar um ritmo elevado e constante com poucas paragens.

O factor (a) releva boa preparação táctica colectiva, que só se alcança com bom trabalho. O factor (b) só se alcança com bons métodos de treino e com dedicação dos jogadores a esse treino.

Como não percebo nada de futebol, sirvo-me destes princípios que sei que são seguros para fazer as minhas leituras do jogo, e uma das maneiras que tenho para tentar perceber se uma equipa é mesmo boa ou se só parece é a facilidade e a regularidade com que faz faltas ou como as usa como instrumento estratégico durante um jogo.

Depois de um jogo quase sem faltas, jogado sempre a abrir e com as duas equipas a atacar constantemente, nos últimos 15 minutos houve um golo, um penálti falhado, duas ou três bolas aos postes, falhanços de baliza aberta e contra-ataques no minuto 90. Houve um hino ao futebol, que acabou 1-0, entre duas equipas que, independentemente dos jogadores que venham a ter na próxima época, se encontrarão originalmente em vantagem sobre 80 por cento das equipas da Champions pelo simples facto de possuírem sobre elas uma vantagem táctica e física de base.



Segundo ponto:

Depois do golo, o treinador do Dortmund  - um tipo de boné, barba por fazer, cara de chavalo, a mastigar pastilha elástica de boca aberta, uma espécie de adepto no banco – virou-se para os adeptos e, cheio de expressividade, fez um enorme gesto circular, no peito, em redor do emblema, que me pareceu significar «campeões», mas que também poderia querer dizer «coração». Para o caso, é pouco relevante. Interessa a espontaneidade do gesto. O jogo estava a decorrer, o Dortmund poderia perfeitamente não o ganhar (aliás, esteve muito perto) mas o treinador, mesmo assim, nem pensou nisso e limitou-se a exprimir-se livremente, sem complexos. É apenas um caso de livre pensamento num futebol em que as personalidades não são castradas mas aceites e, por vezes, mesmo acarinhadas – numa sociedade que o nosso preconceito idiota toma por sinistra e opressora, note-se.

Em Portugal, se fizesse aquilo (e se o fizesse e depois perdesse, então, nem se fala) o homem ficaria marcado como idiota, como mau profissional, como um estroina indigno de treinar uma equipa de futebol. É claro que, na prática, estamos a falar do treinador campeão da Alemanha, que não pode ser um mau profissional porque qualquer treinador que ponha uma equipa a jogar daquela maneira tem de ser bom.

Em Portugal, em relação aos treinadores, temos o complexo do caudilho. Um treinador, para ser respeitado, para ser considerado bom, tem de ser intolerante, tacanho, inflexível, absoluto e, obviamente, intransigente. É coisa que deve vir do tempo do Szabo e quejandos, dos anos 30 e 40, passando pelos Guttman, Otto Glória e Pedroto que, mais tarde, fez a escola à portuguesa.

Ouvimos o Jesus a dizer «nunca expliquei uma opção a um jogador» ou o Paulo Bento a dizer «não tenho que falar com ninguém» e ficamos convencidíssimos que temos ali um grande líder, que não mostra os dentes aos jogadores.

Ouvimos treinadores estrangeiros a dizer que as suas equipas têm poucas hipóteses de ganhar um jogo, ou um campeonato, a não dizer banalidades, e ficamos em estado apoplético, siderados por não serem imediatamente repreendidos pelos seus patrões.

Tretas.

Com a liberdade cresce a responsabilidade. Parece um chavão mas é verdade.

Incrivelmente, para nós, vemos, muitas vezes, equipas inferiores em todos os sentidos do jogo baterem-se de igual para igual com as nossas (sobretudo as do Norte da Europa), quando a única dimensão em que os seus jogadores são superiores é na que fica fora do campo: na dimensão cívica, no que são como cidadãos.

A responsabilidade individual que lhes é exigida fora do campo é transposta para dentro do campo e, graças a ela, assumem o seu lugar na equipa e fazem o papel que lhes é exigido.

Quando passamos para a realidade americana esse sentimento é exacerbado. Assistimos ao cúmulo da liberdade e ao cúmulo da responsabilização. Mesmo os atletas excêntricos são os que, muitas vezes, são os primeiros a assumir a responsabilidade em campo. Corra bem ou corra mal. A questão é a da liberdade.

As equipas portuguesas não são equipas piores que a generalidade das equipas europeias, mas são equipas menores, e são-no por causa do défice cívico.

O grande salto que o jogador português dá quando vai para o estrangeiro não é o de «passar a correr mais», como se costume dizer: é o de ficar sozinho com o seu próprio destino num ambiente que não condescenderá com as suas carências afectivas. Deixar de ser apenas um jogador da bola para passar a ser um cidadão.

O treinador caudilho é um dos últimos mitos do futebol português a terem de cair para podermos dar o salto. Para isso acontecer tem de se dar uma conjugação de quatro factores: aparecer o necessário treinador desempoeirado; coincidir o treinador desempoeirado com um dirigente suficientemente forte para resistir à tacanhez da crítica e dos adeptos; aparecerem os resultados; ser num dos três grandes. Quando tudo isto acontecer ao mesmo tempo, é possível.

A equipa que for a primeira a conseguir fazer isto terá vantagem sobre as outras.



Para acabar, o Cristiano Ronaldo ganhou, hoje, o campeonato espanhol a não ser que os outros o percam nas próximas semanas.

O Real, que está numa quebra física profunda, esteve à beira do desastre. Beneficiou de dois factores: o Atlético de Madrid é como o Benfica, corre muito e joga pouco; o Ronaldo é a definição de um jogador de classe mundial, capaz de fazer num jogo decisivo o que faz num treino.

Mas depois de ver a condição física actual de Bayern e Real estou inclinado a dar o favoritismo na meia-final da Champions aos alemães.

segunda-feira, 9 de abril de 2012

Duas formas da banalidade

O Benfica devia ter entrado com a táctica que usa na Luz contra as equipas pequenas. O Sporting jogou como se estivesse a jogar na Luz, mas com a vantagem de estar em casa. Se o Benfica tivesse entrado a perceber que ia defrontar um autocarro teria ganho vantagem.

Já o Sporting, ganhou o jogo mas não ganhou mais nada, pelo contrário. O que o Sporting tinha a ganhar hoje não era o jogo, nem os três pontos: era o mesmo que o Benfica tem a ganhar quando joga com o Porto – uma atitude de predador. E fez exactamente o contrário. O Sporting ganha um jogo mas, não chegando ao extremo de dizer que perdeu uma equipa (porque seria um claro exagero), perdeu uma grande oportunidade de lançar a próxima época com um sentimento de superioridade sobre o Benfica. Algo que lhe vai ser muito necessário, pois o seu objectivo será, novamente, ficar à frente do Benfica.

A forma como cada jogada perfeitamente banal era aplaudida pelo banco do Sporting, como fosse o banco do Rio Ave a ganhar ao Benfica na Luz, chegou a ser constrangedora. A festa imensa no final do jogo também, sobretudo no olhar embevecido do Sá Pinto, como que a dizer: «Ganhei ao Benfica. Hoje posso dizer que cumpri o meu destino como treinador do Sporting.» Fazer de um Sporting-Benfica, no quinto lugar do campeonato, o jogo da época, é de facto revelador, e só augura novos cataclismos vermelhos no caminho do Sporting nos próximos anos. Claro que o que vão dizer na imprensa não é isto, é que este jogo foi só mais um, porque, no fundo, têm noção da mediocridade. Só não estão dispostos a prescindir dela.

Quanto à sua importância na conta corrente dos dérbis, até nem é mau que o Sporting tenha ganho. Equilibra os números para quando for preciso jogar os jogos a sério. O da primeira volta, por exemplo, foi bem mais importante do que este. O Sporting começou a morrer nesse dia. Hoje, o Benfica só acabou de morrer, a ferida já estava a sangrar há muitas semanas.


A porrada que o Javi deu no Volkswagen aos 25 minutos deveria ter sido dada aos 5. Anjinhos.



Acho que já percebi porque é que o Maxi Pereira começou a fazer aquela finta marada de metar para dentro sempre que tem a bola: esqueceu-se de como se centra. Escusava era de ter voltado a começar neste jogo.



Segundo os critérios do Soares Dias houve três penáltis na primeira parte, um deles a favor do Benfica no primeiro minuto. Em nenhum dos três o jogador caíu por causa do contacto. A razão por que marcou só um é um mistério de Fafe. Aliás, faltas iguais àquela houve dezenas durante o jogo, e ele só marcou metade. Ter calhado uma delas ser um penálti é, obviamente, pura coincidência.



Mas agora a sério…



O Benfica entrou mal preparado e completamente desconcentrado para um jogo em que teria de mostrar fibra de campeão. Não sabia como jogar, não soube executar, mostrou novamente todo o seu défice colectivo e mostrou que não tem estaleca suficiente para chegar e ganhar quando é preciso – faltou-lhe classe. Deu a ideia de ter entrado convencido de que já não havia nada a ganhar depois da vitória do Porto em Braga.

É um ponto final conclusivo que, tal como no jogo com o Porto, na Luz, pode ser encarado de duas maneiras pelos adeptos: ou fazem de conta que perderam por causa do árbitro, e voltam a perder para o ano e para outros anos a seguir; ou assumem que perderam porque não têm equipa suficiente para ganhar um campeonato de forma categórica.

Tenho a sensação de que sei o que o Jesus e o Vieira vão dizer, mas a opinião pública só pode ser manipulada se se deixar manipular.

O Benfica passou por situações muito distintas neste campeonato: sendo a equipa mais mediática (e não, atenção, a mais eficiente), fez figura de campeão durante metade da época, não por ser a melhor equipa mas porque a melhor equipa estava a perder o campeonato por si própria; quando teve oportunidade para mostrar que tinha estofo para ser campeã não a aproveitou e foi ela a perder o campeonato.



Neste momento, em que tudo vai parecer mau (porque o animal-homem é mesmo assim) convém dizer duas coisas muito breves:

- se o Benfica acabar em segundo lugar terá feito uma época acima das expectativas (realistas) iniciais, e em termos de qualidade competitiva, no cômputo geral (e na minha opinião), fez a melhor das três épocas do Jesus. Melhor que a primeira, onde só foi campeão porque a concorrência era menor, e muito melhor que a segunda;

- o que levou o Benfica a sucessivos fracassos nos últimos 30 anos não foi ter perdido campeonatos: foi, por um lado, não ter compreendido as razões das derrotas, e, por outro, não ter construído sobre elas, atirando-se a mudar o que estava mal e o que estava bem, sem método nem critério.



O ponto da situação do Benfica, não só a partir de agora mas desde a derrota em casa com o Porto, é o seguinte: se acabar o campeonato no segundo lugar está em óptima situação para começar o próximo como principal favorito (real, não teórico) à conquista do título. No fundo, o melhor que realisticamente se poderia esperar depois de uma época avassaladora por parte do Porto. Tudo depende do trabalho que se fizer no Verão – e o que o Porto possa fazer na resposta nem sequer é assim tão importante, porque a iniciativa está do lado do Benfica. Basta começar a dar ao pedal com força, acreditar e não facilitar – incluindo, obviamente, com os Soares Dias deste país.

Se ter ficado em segundo neste campeonato será, a longo prazo, melhor do que o ter ganho, veremos. É algo que só se pode dizer ao fim de muito tempo. No fim de dez anos há sempre campeonatos que se ganham e campeonatos que se perdem. O que fica, e o que faz a diferença nesse grande plano, é como eles são ganhos.

Volto a dizer o que já disse aqui várias vezes: ganhar sem o mérito suficiente é uma tentação perigosa, pela qual o Benfica pagou bastante caro ao longo dos últimos anos.



P. S. 1 – O Benfica não conseguiu fazer um único remate à baliza na sequência de um canto ou de um livre, e não chutou de longe. Como é que queriam marcar golos ao Rui Patrício?

P.S. 2 – Quando vejo o Jesus a gesticular para os jogadores, aos berros, a descobrir, naquele preciso momento do jogo, a chave para a vitória numa simples troca de posicionamento de dois jogadores ou no adiantamento dos médios em dois metros, fico sempre com uma angústia cá dentro de mim, em forma de dúvida: o que seria desta equipa do Benfica se em vez de passar a semana a treinar tácticas treinasse futebol?

Bombardeiem

Após dois dias de desintoxicação futebolística, abro os jornais na Internet e começo-me a rir.

*

A BOLA faz uma capa com o Dia D – ou seja invocando o desembarque dos Aliados na Normandia. Só que mete o Jesus e o Sá Pinto com o capacete dos Aliados. Ora, pela lógica, uma das partes devia ter um capacete diferente, mais exactamente um capacete nazi. Ou é suposto serem os dois do mesmo exército? Claro que o problema nesta grande ideia seria pôr o Sá Pinto (o invadido, logicamente) com um capacete nazi.

Há coisas que funcionam tão bem antes de serem postas em práticas. Mas estes pormenores que teimam em dar cabo delas…

Além de só a imagem dos dois manuéis com um capacete empinado a troucho-mocho, só por si, já ser bizarra (para não dizer mais), esta capa define o jornal A Bola:

- Falta de originalidade gritante

Já deve ser para aí a quinquagésima quinta vez que se faz uma capa de um jogo de futebol aludindo ao Dia D;

- Falta de sentido de oportunidade estapafúrdio.

Ao que parece o fim-de-semana foi pródigo em suásticas verdes e em advertências vermelhas aos pais de família que fossem ao jogo;

- Falta de personalidade.

A política da Bola é a de estar bem com gregos e troianos, sempre, dar uma no cravo e outra na ferradura, ausência de posicionamento definido, ausência de carácter, numa palavra. A Bola é um jornal dirigido por maus políticos, que estão sempre comprometidos com tudo e todos e que não se comprometem com nada até ao fim. O único que ainda vai tendo alguma coragem de se definir de um lado, com acções, é o José Manuel Delgado. Esse não engana nem quer enganar ninguém. Os outros batem e escondem a mão.

Prefiro a postura da Marca, ou do Sport: são claramente tendenciosos mas não o escondem.

Talvez possamos acrescentar aqui alguma falta de inteligência…

*

O Sporting vai levar toda a gente para estágio. É uma espécie de terapia de grupo.

Já estou em dúvida sobre se o Sá Pinto é treinador de futebol ou um líder espiritual tibetano.

Desde que entrou que todas as semanas temos uma nova sessão de tratamento psicológico, de apaziguamento, de carinho, ele é o «os jogadores estiveram insuperáveis», ele é o «ele dava uma perna por mim», ele é a coisa mais linda e simbiótica de que há memória na longa história do futebol.

Confesso que não tenho paciência nenhum para estas carochices. Nem no Sporting nem em nenhum clube, e muito menos no Benfica.

Quando ouço falar-se da «psicologia» de uma equipa ou de um jogador de futebol como se fosse o sétimo segredo do Universo até se me arrepanham as varizes. De repente um jogador marca um golo, sente a inspiração divina a descer sobre si e vai tratar, sozinho, de dois ou três adversários ao mesmo tempo. E quando um treinador entra e começa a falar do «trabalho psicológico profundo» que é preciso fazer. Meu Deus, que drama.

É um chorrilho de paneleirices. É a escola dos Pedrotos que não se vai embora.

Estas tretas são a verdadeira fraqueza do futebol português. Um jogador é tratado como tudo – um artista, um campeão, um ídolo, uma flor de estufa, um caso clínico – menos aquilo que tem de ser: um profissional de corpo inteiro.

Sucumbe-se à mariquice tão prontamente que os próprios jogadores de culturas mais combativas e de responsabilização individual (os holandeses ou os suecos, por exemplo), ao fim de alguns meses, já se amaricaram. Pudera: é só paparoquices por todos os lados.

Enquanto o futebol português continuar a tratar os seus profissionais como ursos panda, que têm de viver em condições ambientais perfeitas para poderem desempenhar, não vai a lado nenhum. Até o Porto, que tem a mentalidade mais profissional, está tão embrenhado na nacional-saloice que, assim que apanha uma equipa inglesa ou alemã como deve de ser, parece uma equipa de juniores, de meninos a jogar à bola com adultos.

O caso do Sá Pinto tem sido gritante. Estas paneleirices todas sabem bem agora, basicamente porque quando ele entrou o Sporting já dava a temporada por perdida (logo, só podia subir) e teve a sorte de apanhar um Manchester City em fase de implosão. Além dessa eliminatória (salva no último minuto pelo Rui Patrício) o Sporting passou outra com o Kharkiv em que o Patrício foi outra vez o melhor em campo nos dois jogos, desceu para o quinto lugar no campeonato e não joga um caroço. Mas toda a gente anda satisfeita com o Sá porque o Sá tem conseguido reunir os jogadores em seu redor, com muito carinho e compreensão. É tudo tão lindo. É tudo tão à Sporting…

E hoje ganham ao Benfica e fazem a época, em perfeita comunhão de sentimentos, com a Juve Leo a chorar para o Sá.

E se esperarmos pelo início da época a sério para saber se o amor, por si só, chega?

Ou muito me engano ou o último campeonato que o Sá acaba à frente do Sporting é o que está agora a chegar ao fim…

*

Vejo, no Record, o Rui Patrício a passar de uma cotação de 5 para 17 milhões de euros e o Matías Fernandez a passar de 4,5 para 12 e não consigo mesmo parar de rir.

Em relação a isto, só uma coisa a dizer, a propósito do jogo de hoje, aos jogadores do Benfica: -- Não tem nada que saber: podem sofrer um golo, não se enervem, não se preocupem muito com o Matías Fernandez, porque esse só toca na bola quando o Elias não joga, preocupem-se com o Elias e com o Izmailov, os outros são todos cavalinhos de cortesia; entrem com o pé por cima e ao joelho, que daí para a frente os jogadores do Sporting cortam-se a todas, pois começam a fazer contas de cabeça à Liga Europa; aproveitem um canto e vão rematando de longe até o Rui Patrício ser, surpreendentemente, apanhado em falso. Se fizerem isso pelo menos dois golos marcam. E se insistirem até fazem mais.

domingo, 8 de abril de 2012

Dois por cento?

Em termos de probabilidades de o Porto não ser campeão este ano – e, consequentemente, de ser o Benfica – há uma maneira relativamente fácil de fazer uma ideia aproximada. Experimentem fazer uma aposta múltipla de seis jogos em que se conjuguem os seguintes resultados: cinco vitórias do Benfica nas próximas cinco jornadas e um empate do Porto na Madeira, com o Marítimo.

Não há apostas a tão longo prazo, mas utilizem odds equivalentes nas apostas disponíveis, considerando o que são as odds normais nos jogos do Benfica e do Porto. Há de dar qualquer coisa como 2.10 + 1.30 + 1.45 + 1.05 + 1.45 (Benfica) + 3.00 (Porto) para 1. Eu acabei de fazer uma simulação para seis odds destas em conjunto e por cada euro que apostasse nessa loucura receberia 44.56 de volta.

44 para um. Eis as probabilidades matemáticas do Benfica ser campeão. Imaginem que tentavam chutar uma bola ao poste da entrada da área e precisavam de 44 tentativas para acertar. É isso.

Traduzindo para percentagens, 2 para 1 indica 50 por cento de probabilidades. 44 para 1 significa 22 vezes menos.

Cerca de 2 por cento de hipóteses matemáticas de ser campeão.

São quase as mesmas probabilidades de se pegar num baralho de cartas e sair o ás de ouros na primeira carta.



É claro que para um benfiquista estas probabilidades são irrealistas. Porque o futebol não é matemático, porque às vezes a bola vai ao poste, porque é o Benfica. É verdade, o futebol não é matemático. O próprio Benfica, antes do jogo em Coimbra, recebia 60 por cento de probabilidades de ser campeão. E mesmo agora, se alguém apostar no Benfica para ser campeão, as probabilidades são de cerca de 4 para 1, ou seja, 25 por cento. Doze vezes mais do que os 2 por cento. E, no entanto, a conjugação de resultados necessária para o Benfica ser campeão dá esses 2 por cento.

Cada um pode escolher qual é a percentagem mais provável.

«Basta ganharmos ao Sporting, não empatar mais nenhum jogo e esperar que o Porto deslize na Madeira ou em casa com o Sporting», dirão muitos. «Dois por cento? Disparate.»

Pois eu cá acho que as duas são verdadeiras: sim, «basta» ganhar ao Sporting e et cetera, e sim, são só dois por cento.

Se depois do jogo da Luz eram 10 por cento, para mim, agora são 2. Mas, como estamos no campo do futebol quântico, 2 por cento chegam, porque é como se fossem 100.



Não procurem neste post uma conclusão, porque não há. Nem procurem muita lógica, porque também não é disso que se trata. É apenas um tributo à inacreditável aleatoriedade do futebol.

Se quisermos traduzir estas incongruências numa frase poderemos dizer que as probabilidades do Benfica ganhar o campeonato são de 2 por cento, e que as suas possibilidades… são boas.



Há duas coisas que se pode dizer:

- o cenário de um momento histórico, em Alvalade, desvaneceu-se. Faltava este pormenor do Porto não ganhar em Braga para estar montado. Era o último. Lá está, faltou um bocadinho assim. Se o Benfica ganhar e, depois, vier a ganhar o campeonato, será notável, mas já não terá o aspecto transcendente que teria no caso de passar para a frente e praticamente garantir o título com uma vitória em Alvalade;

- se o Benfica ganhar este campeonato será uma das conquistas internas mais extraordinárias da sua história, e penso que se pode com segurança dizer que a mais extraordinária dos últimos 25/30 anos. Só o título de 1994 poderia aproximar-se, mas mesmo nesse penso que, no cômputo geral, as circunstâncias ao longo da época foram bastante menos adversas.



O que fica do jogo de hoje, de facto, e para mim o mais importante, é que o Benfica praticamente garantiu o segundo lugar e um início de época normal em 2012/13. Como disse depois do jogo da Luz, naquele dia começava, para mim, a próxima época, e quanto mais vejo mais me convenço de que o momento decisivo do próximo campeonato serão as três semanas que vão anteceder a Hipertaça Cândido de Oliveira.

Nessas três semanas duas coisas vão acontecer:

- O Jesus (muito provavelmente, mas se não for ele será outro) terá o único espaço do calendário suficientemente liberto para fazer dos reforços do Benfica reforços de facto, e não apenas mais jogadores. Numa equipa em construção, em que dois jogadores deverão sair e em que é fundamental ir acrescentando um bocado todos os anos, só isso pode valer ao Benfica se quiser subir o nível do seu jogo – porque, em relação ao resto (aperfeiçoamento ao longo da época, aquisição de fundamentos tácticos, e outros), como já se viu em três anos, o que há em Agosto é o que haverá em maio do ano seguinte, que o JJ é animal de hábitos;

- simultaneamente, o Porto (provavelmente sem o TOC, mas esperemos que com ele) vai ter de reaprender a jogar sem Hulk e regressar a um tempo de hipervalorização do colectivo. Será um corte profundo com o passado recente de sobredependência de um jogador e uma tentativa de voltar a umas certas origens éticas de colectivismo de que o regresso de Lucho já foi um sinal importante.

Da relação de forças que resultar destes dois movimentos simultâneos em confronto sairá o próximo campeão.

O campeonato, em termos de Porto/Benfica, será tão renhido como este. Nessas três semanas alguém vai ganhar vantagem.



Sem Copa América, sem Campeonato do Mundo, sem nenhum titular a competir no Verão (que eu veja, pelo menos), sem ter de jogar eliminatórias europeias de elevada exigência imediata, sem ter de disputar Supertaças às quais nunca ligou e que sempre lhe trouxeram mais prejuízos que benefícios, sem precisar de fazer rupturas num plantel que está estabilizado, que ganha experiência e que está contratualmente seguro, com a perspectiva de crescimento de alguns jovens jogadores com potencial de alcançarem a titularidade e que já se encontram no plantel, o Benfica encara, potencialmente, a melhor pré-época desde que Jesus chegou ao Benfica, e consequentemente a melhor época das últimas quatro em termos de qualidade da equipa, desde que o trabalho no Verão seja bem feito.