segunda-feira, 9 de abril de 2012

Duas formas da banalidade

O Benfica devia ter entrado com a táctica que usa na Luz contra as equipas pequenas. O Sporting jogou como se estivesse a jogar na Luz, mas com a vantagem de estar em casa. Se o Benfica tivesse entrado a perceber que ia defrontar um autocarro teria ganho vantagem.

Já o Sporting, ganhou o jogo mas não ganhou mais nada, pelo contrário. O que o Sporting tinha a ganhar hoje não era o jogo, nem os três pontos: era o mesmo que o Benfica tem a ganhar quando joga com o Porto – uma atitude de predador. E fez exactamente o contrário. O Sporting ganha um jogo mas, não chegando ao extremo de dizer que perdeu uma equipa (porque seria um claro exagero), perdeu uma grande oportunidade de lançar a próxima época com um sentimento de superioridade sobre o Benfica. Algo que lhe vai ser muito necessário, pois o seu objectivo será, novamente, ficar à frente do Benfica.

A forma como cada jogada perfeitamente banal era aplaudida pelo banco do Sporting, como fosse o banco do Rio Ave a ganhar ao Benfica na Luz, chegou a ser constrangedora. A festa imensa no final do jogo também, sobretudo no olhar embevecido do Sá Pinto, como que a dizer: «Ganhei ao Benfica. Hoje posso dizer que cumpri o meu destino como treinador do Sporting.» Fazer de um Sporting-Benfica, no quinto lugar do campeonato, o jogo da época, é de facto revelador, e só augura novos cataclismos vermelhos no caminho do Sporting nos próximos anos. Claro que o que vão dizer na imprensa não é isto, é que este jogo foi só mais um, porque, no fundo, têm noção da mediocridade. Só não estão dispostos a prescindir dela.

Quanto à sua importância na conta corrente dos dérbis, até nem é mau que o Sporting tenha ganho. Equilibra os números para quando for preciso jogar os jogos a sério. O da primeira volta, por exemplo, foi bem mais importante do que este. O Sporting começou a morrer nesse dia. Hoje, o Benfica só acabou de morrer, a ferida já estava a sangrar há muitas semanas.


A porrada que o Javi deu no Volkswagen aos 25 minutos deveria ter sido dada aos 5. Anjinhos.



Acho que já percebi porque é que o Maxi Pereira começou a fazer aquela finta marada de metar para dentro sempre que tem a bola: esqueceu-se de como se centra. Escusava era de ter voltado a começar neste jogo.



Segundo os critérios do Soares Dias houve três penáltis na primeira parte, um deles a favor do Benfica no primeiro minuto. Em nenhum dos três o jogador caíu por causa do contacto. A razão por que marcou só um é um mistério de Fafe. Aliás, faltas iguais àquela houve dezenas durante o jogo, e ele só marcou metade. Ter calhado uma delas ser um penálti é, obviamente, pura coincidência.



Mas agora a sério…



O Benfica entrou mal preparado e completamente desconcentrado para um jogo em que teria de mostrar fibra de campeão. Não sabia como jogar, não soube executar, mostrou novamente todo o seu défice colectivo e mostrou que não tem estaleca suficiente para chegar e ganhar quando é preciso – faltou-lhe classe. Deu a ideia de ter entrado convencido de que já não havia nada a ganhar depois da vitória do Porto em Braga.

É um ponto final conclusivo que, tal como no jogo com o Porto, na Luz, pode ser encarado de duas maneiras pelos adeptos: ou fazem de conta que perderam por causa do árbitro, e voltam a perder para o ano e para outros anos a seguir; ou assumem que perderam porque não têm equipa suficiente para ganhar um campeonato de forma categórica.

Tenho a sensação de que sei o que o Jesus e o Vieira vão dizer, mas a opinião pública só pode ser manipulada se se deixar manipular.

O Benfica passou por situações muito distintas neste campeonato: sendo a equipa mais mediática (e não, atenção, a mais eficiente), fez figura de campeão durante metade da época, não por ser a melhor equipa mas porque a melhor equipa estava a perder o campeonato por si própria; quando teve oportunidade para mostrar que tinha estofo para ser campeã não a aproveitou e foi ela a perder o campeonato.



Neste momento, em que tudo vai parecer mau (porque o animal-homem é mesmo assim) convém dizer duas coisas muito breves:

- se o Benfica acabar em segundo lugar terá feito uma época acima das expectativas (realistas) iniciais, e em termos de qualidade competitiva, no cômputo geral (e na minha opinião), fez a melhor das três épocas do Jesus. Melhor que a primeira, onde só foi campeão porque a concorrência era menor, e muito melhor que a segunda;

- o que levou o Benfica a sucessivos fracassos nos últimos 30 anos não foi ter perdido campeonatos: foi, por um lado, não ter compreendido as razões das derrotas, e, por outro, não ter construído sobre elas, atirando-se a mudar o que estava mal e o que estava bem, sem método nem critério.



O ponto da situação do Benfica, não só a partir de agora mas desde a derrota em casa com o Porto, é o seguinte: se acabar o campeonato no segundo lugar está em óptima situação para começar o próximo como principal favorito (real, não teórico) à conquista do título. No fundo, o melhor que realisticamente se poderia esperar depois de uma época avassaladora por parte do Porto. Tudo depende do trabalho que se fizer no Verão – e o que o Porto possa fazer na resposta nem sequer é assim tão importante, porque a iniciativa está do lado do Benfica. Basta começar a dar ao pedal com força, acreditar e não facilitar – incluindo, obviamente, com os Soares Dias deste país.

Se ter ficado em segundo neste campeonato será, a longo prazo, melhor do que o ter ganho, veremos. É algo que só se pode dizer ao fim de muito tempo. No fim de dez anos há sempre campeonatos que se ganham e campeonatos que se perdem. O que fica, e o que faz a diferença nesse grande plano, é como eles são ganhos.

Volto a dizer o que já disse aqui várias vezes: ganhar sem o mérito suficiente é uma tentação perigosa, pela qual o Benfica pagou bastante caro ao longo dos últimos anos.



P. S. 1 – O Benfica não conseguiu fazer um único remate à baliza na sequência de um canto ou de um livre, e não chutou de longe. Como é que queriam marcar golos ao Rui Patrício?

P.S. 2 – Quando vejo o Jesus a gesticular para os jogadores, aos berros, a descobrir, naquele preciso momento do jogo, a chave para a vitória numa simples troca de posicionamento de dois jogadores ou no adiantamento dos médios em dois metros, fico sempre com uma angústia cá dentro de mim, em forma de dúvida: o que seria desta equipa do Benfica se em vez de passar a semana a treinar tácticas treinasse futebol?

Bombardeiem

Após dois dias de desintoxicação futebolística, abro os jornais na Internet e começo-me a rir.

*

A BOLA faz uma capa com o Dia D – ou seja invocando o desembarque dos Aliados na Normandia. Só que mete o Jesus e o Sá Pinto com o capacete dos Aliados. Ora, pela lógica, uma das partes devia ter um capacete diferente, mais exactamente um capacete nazi. Ou é suposto serem os dois do mesmo exército? Claro que o problema nesta grande ideia seria pôr o Sá Pinto (o invadido, logicamente) com um capacete nazi.

Há coisas que funcionam tão bem antes de serem postas em práticas. Mas estes pormenores que teimam em dar cabo delas…

Além de só a imagem dos dois manuéis com um capacete empinado a troucho-mocho, só por si, já ser bizarra (para não dizer mais), esta capa define o jornal A Bola:

- Falta de originalidade gritante

Já deve ser para aí a quinquagésima quinta vez que se faz uma capa de um jogo de futebol aludindo ao Dia D;

- Falta de sentido de oportunidade estapafúrdio.

Ao que parece o fim-de-semana foi pródigo em suásticas verdes e em advertências vermelhas aos pais de família que fossem ao jogo;

- Falta de personalidade.

A política da Bola é a de estar bem com gregos e troianos, sempre, dar uma no cravo e outra na ferradura, ausência de posicionamento definido, ausência de carácter, numa palavra. A Bola é um jornal dirigido por maus políticos, que estão sempre comprometidos com tudo e todos e que não se comprometem com nada até ao fim. O único que ainda vai tendo alguma coragem de se definir de um lado, com acções, é o José Manuel Delgado. Esse não engana nem quer enganar ninguém. Os outros batem e escondem a mão.

Prefiro a postura da Marca, ou do Sport: são claramente tendenciosos mas não o escondem.

Talvez possamos acrescentar aqui alguma falta de inteligência…

*

O Sporting vai levar toda a gente para estágio. É uma espécie de terapia de grupo.

Já estou em dúvida sobre se o Sá Pinto é treinador de futebol ou um líder espiritual tibetano.

Desde que entrou que todas as semanas temos uma nova sessão de tratamento psicológico, de apaziguamento, de carinho, ele é o «os jogadores estiveram insuperáveis», ele é o «ele dava uma perna por mim», ele é a coisa mais linda e simbiótica de que há memória na longa história do futebol.

Confesso que não tenho paciência nenhum para estas carochices. Nem no Sporting nem em nenhum clube, e muito menos no Benfica.

Quando ouço falar-se da «psicologia» de uma equipa ou de um jogador de futebol como se fosse o sétimo segredo do Universo até se me arrepanham as varizes. De repente um jogador marca um golo, sente a inspiração divina a descer sobre si e vai tratar, sozinho, de dois ou três adversários ao mesmo tempo. E quando um treinador entra e começa a falar do «trabalho psicológico profundo» que é preciso fazer. Meu Deus, que drama.

É um chorrilho de paneleirices. É a escola dos Pedrotos que não se vai embora.

Estas tretas são a verdadeira fraqueza do futebol português. Um jogador é tratado como tudo – um artista, um campeão, um ídolo, uma flor de estufa, um caso clínico – menos aquilo que tem de ser: um profissional de corpo inteiro.

Sucumbe-se à mariquice tão prontamente que os próprios jogadores de culturas mais combativas e de responsabilização individual (os holandeses ou os suecos, por exemplo), ao fim de alguns meses, já se amaricaram. Pudera: é só paparoquices por todos os lados.

Enquanto o futebol português continuar a tratar os seus profissionais como ursos panda, que têm de viver em condições ambientais perfeitas para poderem desempenhar, não vai a lado nenhum. Até o Porto, que tem a mentalidade mais profissional, está tão embrenhado na nacional-saloice que, assim que apanha uma equipa inglesa ou alemã como deve de ser, parece uma equipa de juniores, de meninos a jogar à bola com adultos.

O caso do Sá Pinto tem sido gritante. Estas paneleirices todas sabem bem agora, basicamente porque quando ele entrou o Sporting já dava a temporada por perdida (logo, só podia subir) e teve a sorte de apanhar um Manchester City em fase de implosão. Além dessa eliminatória (salva no último minuto pelo Rui Patrício) o Sporting passou outra com o Kharkiv em que o Patrício foi outra vez o melhor em campo nos dois jogos, desceu para o quinto lugar no campeonato e não joga um caroço. Mas toda a gente anda satisfeita com o Sá porque o Sá tem conseguido reunir os jogadores em seu redor, com muito carinho e compreensão. É tudo tão lindo. É tudo tão à Sporting…

E hoje ganham ao Benfica e fazem a época, em perfeita comunhão de sentimentos, com a Juve Leo a chorar para o Sá.

E se esperarmos pelo início da época a sério para saber se o amor, por si só, chega?

Ou muito me engano ou o último campeonato que o Sá acaba à frente do Sporting é o que está agora a chegar ao fim…

*

Vejo, no Record, o Rui Patrício a passar de uma cotação de 5 para 17 milhões de euros e o Matías Fernandez a passar de 4,5 para 12 e não consigo mesmo parar de rir.

Em relação a isto, só uma coisa a dizer, a propósito do jogo de hoje, aos jogadores do Benfica: -- Não tem nada que saber: podem sofrer um golo, não se enervem, não se preocupem muito com o Matías Fernandez, porque esse só toca na bola quando o Elias não joga, preocupem-se com o Elias e com o Izmailov, os outros são todos cavalinhos de cortesia; entrem com o pé por cima e ao joelho, que daí para a frente os jogadores do Sporting cortam-se a todas, pois começam a fazer contas de cabeça à Liga Europa; aproveitem um canto e vão rematando de longe até o Rui Patrício ser, surpreendentemente, apanhado em falso. Se fizerem isso pelo menos dois golos marcam. E se insistirem até fazem mais.

domingo, 8 de abril de 2012

Dois por cento?

Em termos de probabilidades de o Porto não ser campeão este ano – e, consequentemente, de ser o Benfica – há uma maneira relativamente fácil de fazer uma ideia aproximada. Experimentem fazer uma aposta múltipla de seis jogos em que se conjuguem os seguintes resultados: cinco vitórias do Benfica nas próximas cinco jornadas e um empate do Porto na Madeira, com o Marítimo.

Não há apostas a tão longo prazo, mas utilizem odds equivalentes nas apostas disponíveis, considerando o que são as odds normais nos jogos do Benfica e do Porto. Há de dar qualquer coisa como 2.10 + 1.30 + 1.45 + 1.05 + 1.45 (Benfica) + 3.00 (Porto) para 1. Eu acabei de fazer uma simulação para seis odds destas em conjunto e por cada euro que apostasse nessa loucura receberia 44.56 de volta.

44 para um. Eis as probabilidades matemáticas do Benfica ser campeão. Imaginem que tentavam chutar uma bola ao poste da entrada da área e precisavam de 44 tentativas para acertar. É isso.

Traduzindo para percentagens, 2 para 1 indica 50 por cento de probabilidades. 44 para 1 significa 22 vezes menos.

Cerca de 2 por cento de hipóteses matemáticas de ser campeão.

São quase as mesmas probabilidades de se pegar num baralho de cartas e sair o ás de ouros na primeira carta.



É claro que para um benfiquista estas probabilidades são irrealistas. Porque o futebol não é matemático, porque às vezes a bola vai ao poste, porque é o Benfica. É verdade, o futebol não é matemático. O próprio Benfica, antes do jogo em Coimbra, recebia 60 por cento de probabilidades de ser campeão. E mesmo agora, se alguém apostar no Benfica para ser campeão, as probabilidades são de cerca de 4 para 1, ou seja, 25 por cento. Doze vezes mais do que os 2 por cento. E, no entanto, a conjugação de resultados necessária para o Benfica ser campeão dá esses 2 por cento.

Cada um pode escolher qual é a percentagem mais provável.

«Basta ganharmos ao Sporting, não empatar mais nenhum jogo e esperar que o Porto deslize na Madeira ou em casa com o Sporting», dirão muitos. «Dois por cento? Disparate.»

Pois eu cá acho que as duas são verdadeiras: sim, «basta» ganhar ao Sporting e et cetera, e sim, são só dois por cento.

Se depois do jogo da Luz eram 10 por cento, para mim, agora são 2. Mas, como estamos no campo do futebol quântico, 2 por cento chegam, porque é como se fossem 100.



Não procurem neste post uma conclusão, porque não há. Nem procurem muita lógica, porque também não é disso que se trata. É apenas um tributo à inacreditável aleatoriedade do futebol.

Se quisermos traduzir estas incongruências numa frase poderemos dizer que as probabilidades do Benfica ganhar o campeonato são de 2 por cento, e que as suas possibilidades… são boas.



Há duas coisas que se pode dizer:

- o cenário de um momento histórico, em Alvalade, desvaneceu-se. Faltava este pormenor do Porto não ganhar em Braga para estar montado. Era o último. Lá está, faltou um bocadinho assim. Se o Benfica ganhar e, depois, vier a ganhar o campeonato, será notável, mas já não terá o aspecto transcendente que teria no caso de passar para a frente e praticamente garantir o título com uma vitória em Alvalade;

- se o Benfica ganhar este campeonato será uma das conquistas internas mais extraordinárias da sua história, e penso que se pode com segurança dizer que a mais extraordinária dos últimos 25/30 anos. Só o título de 1994 poderia aproximar-se, mas mesmo nesse penso que, no cômputo geral, as circunstâncias ao longo da época foram bastante menos adversas.



O que fica do jogo de hoje, de facto, e para mim o mais importante, é que o Benfica praticamente garantiu o segundo lugar e um início de época normal em 2012/13. Como disse depois do jogo da Luz, naquele dia começava, para mim, a próxima época, e quanto mais vejo mais me convenço de que o momento decisivo do próximo campeonato serão as três semanas que vão anteceder a Hipertaça Cândido de Oliveira.

Nessas três semanas duas coisas vão acontecer:

- O Jesus (muito provavelmente, mas se não for ele será outro) terá o único espaço do calendário suficientemente liberto para fazer dos reforços do Benfica reforços de facto, e não apenas mais jogadores. Numa equipa em construção, em que dois jogadores deverão sair e em que é fundamental ir acrescentando um bocado todos os anos, só isso pode valer ao Benfica se quiser subir o nível do seu jogo – porque, em relação ao resto (aperfeiçoamento ao longo da época, aquisição de fundamentos tácticos, e outros), como já se viu em três anos, o que há em Agosto é o que haverá em maio do ano seguinte, que o JJ é animal de hábitos;

- simultaneamente, o Porto (provavelmente sem o TOC, mas esperemos que com ele) vai ter de reaprender a jogar sem Hulk e regressar a um tempo de hipervalorização do colectivo. Será um corte profundo com o passado recente de sobredependência de um jogador e uma tentativa de voltar a umas certas origens éticas de colectivismo de que o regresso de Lucho já foi um sinal importante.

Da relação de forças que resultar destes dois movimentos simultâneos em confronto sairá o próximo campeão.

O campeonato, em termos de Porto/Benfica, será tão renhido como este. Nessas três semanas alguém vai ganhar vantagem.



Sem Copa América, sem Campeonato do Mundo, sem nenhum titular a competir no Verão (que eu veja, pelo menos), sem ter de jogar eliminatórias europeias de elevada exigência imediata, sem ter de disputar Supertaças às quais nunca ligou e que sempre lhe trouxeram mais prejuízos que benefícios, sem precisar de fazer rupturas num plantel que está estabilizado, que ganha experiência e que está contratualmente seguro, com a perspectiva de crescimento de alguns jovens jogadores com potencial de alcançarem a titularidade e que já se encontram no plantel, o Benfica encara, potencialmente, a melhor pré-época desde que Jesus chegou ao Benfica, e consequentemente a melhor época das últimas quatro em termos de qualidade da equipa, desde que o trabalho no Verão seja bem feito.

sábado, 7 de abril de 2012

Braga-Porto ao vivo e em directo

Urbi et Orbi: estão abertas as hostilidades. É só abrir os comentários e seguir!
Prognóstico cá da casa: 2-2.

sexta-feira, 6 de abril de 2012

A tripa

Este sábado há esbórnia na Catedral Oficial dos Blogues Com Menos de 300 visitantes por dia (COBCOM): comentários, relambório e esventramento em directo do Braga-Porto. Vamos dissecar, chafurdar, esmiuçar e de preferência não lamentar tudo – tirando algumas coisas que nos passem ao lado… - o que aconteça no jogo entre o grande clube do Porto e o seu apêndice minhoto. Das bolas de naftalina atiradas para dentro do campo ao speaker afónico por uma noite.

Com este trailer espero, pelo menos, 301 visitantes, para subir à categoria de Capelinha Oficial dos Blogues Com Menos de 5000 visitantes por dia (COBCOM).

Entretanto, há meia-dúzia de coisas que não me saem da cabeça. Ou seja, três.



1 – Lista dos três jogadores que mais falta fazem ao Porto, de acordo com os resultados no campeonato, por ordem de importância: (1) Fernando; (2) Hulk; (3) Lucho González.

Os cibercomentadores que têm passado o dia a valorizar a importância da ausência do Fernando no jogo de Braga têm toda a razão. Devo advertir que não faço a mínima ideia do que os cibercomentadores têm passado o dia a fazer, porque tenho coisas melhores para fazer com o meu tempo, mas se não passaram o dia a falar do Fernando deviam ter passado.

O mais bizarro é que, provavelmente, os portistas mais… (bom, em frente), se tivessem ficado sem o Hulk, andavam desvairados de desespero, e não ligariam muito ao Fernando, mas eu, se fosse portista e tivesse de escolher, trocava o Hulk pelo Fernando num instantinho. Não é que o Polvo (que epíteto tão adequado, céus!) seja nem um terço do jogador que o outro é, mas é o que já aqui disse muitas vezes: não é a qualidade do jogador, é a função. Não quer dizer que o Hulk não fizesse falta (aliás, está em segundo na lista oficial emitida por mim próprio aqui em cima), mas um golo marca-se de muitas maneiras, agora fazer o que o Fernando faz, no Porto, só ele é que faz.



2 – Este fim-de-semana é à campeão. Não há muitas equipas verdadeiramente campeãs no desporto. Campeãs a sério. Nenhuma destas que ganhará o campeonato deste ano o é. Um Benfica à campeão jamais teria perdido aquele jogo em Guimarães. Um Porto à campeão nunca teria empatado aquele jogo em Paços de Ferreira. Um Braga à campeão teria ganho o jogo da Luz. Mas, mesmo assim, este fim-de-semana, é a melhor oportunidade que aparecerá este ano para qualquer uma delas se aproximar desse nível.

Uma equipa campeã, na minha definição, é uma equipa que não aceita a derrota, sob nenhuma circunstância, incluindo a das famosas arbitragens eu tanto enche a barriga do Zé Povo. Uma equipa campeã consegue até colocar-se acima desse jogo – joga um jogo diferente. É muito raro. Quando acontece, assistimos à consagração do desporto. É uma coisa importante. Podemos passar anos e anos à espera que aconteça. Não é coisa que se coadune com calimerices do género «e tal, e estava fora-de-jogo, e o gajo não quis marcar», ou «e não deu o vermelho», e choraminguices dessa categoria, tipo «eles falam, falam, falam mas eu não os vejo a fazer nada…». É coisa para se chegar ao fim e dizer: «Tu ganhas-me é o c….!»

É uma coisa com outra classe, portanto.



3 – Quanto mais se aproxima o jogo mais se me vai crescendo, cá dentro da tripa, uma sensação de que os jovens adeptos do Benfica – esse pessoal com menos de 21 anos, que só começou a conseguir perceber o que era isto da bola há coisa de 13/14 anos – podem estar à beira de assistir, na próxima segunda-feira, ao primeiro momento realmente à Benfica das suas vidas, e a um dos dez maiores momentos na história do clube.

A coisa está-se a compor de uma maneira que, tal como está neste momento, só acontece de dez em dez anos ou mais. Aparecer o cenário é sempre a parte mais difícil, pela grande conjugação de factores que implica. E o cenário está quase, quase, montado.

Eu já disse que ando a ver se desenguiço este campeonato desde que lixei o jogo com o Porto?

quarta-feira, 4 de abril de 2012

Técnico Oficial de Contas

A notícia do TOC merece um comentário, porque é uma jogada estratégica notável.

Primeiro ponto: o Pinto da Costa tem toda a razão. Bom, não toda. Engana-se quando diz que a notícia é plantada para semear a desestabilização na equipa. Não é só na equipa: é no próprio clube.

É evidente que obedece a propósitos desestabilizadores, é evidente que há uma disposição, da Bola, de servir um interesse externo, e é evidente que o interesse externo que a Bola está a servir é o Benfica. Ninguém pode ter a mínima dúvida disso, e esta certeza deixa-me muitíssimo satisfeito, porque a qualidade do trabalho deveria ser altamente gratificante para qualquer benfiquista



O mais brilhante deste plano é o facto de se limitar a aproveitar a energia negativa que já existe no movimento para o virar contra o perpetrador. É uma espécie de aikido político-futebolístico.

Qual é o nervo desta notícia?

Não é o TOC.

É o erro grave de Pinto da Costa ao escolhê-lo no princípio da época.

A parte mais óbvia do plano, que ajuda ao seu brilhantismo, é, aí sim, o timing, que demonstra audácia, ambição e paciência para esperar e tomar a iniciativa certa no momento certo. Ou seja, classe.



Descontruamos.

O Pinto da Costa está agarrado ao TOC. Já toda a gente percebeu que o TOC é barrete, que conseguiu, numa época, escavacar o trabalho de dois anos e passar o Porto de um nível em que estava claramente acima do Benfica para outro em que já não se percebe bem a diferença, em campo, entre quem tem, de facto a melhor equipa. (Eu acho que o Porto continua a ter a melhor equipa, e que uma vitória no campeonato seria justa, pelo mero valor, mas já não assim tanto, e muito menos nada que se possa assemelhar com o que aconteceu no ano passado. Mas esta é outra conversa.)

O facto é que o Pinto da Costa pegou no barrete, enfiou-o e está agarrado a ele. Todos os pressupostos que a Bola apresentou para o despedimento do TOC estão correctos. É um líder débil, um técnico sofrível, uma personalidade disruptora da harmonia de um clube que prima pelos ámens ao Papa. Vítor Pereira tira mais do que o que dá ao clube, e tira-lhe, sobretudo, enquanto estiver sentado na cadeira de sonho, a possibilidade de um treinador a sério lá se sentar. O único bom acto de gestão de Pinto da Costa seria demiti-lo no dia imediatamente a seguir ao final oficial da época.

O que Pinto da Costa está (estava, antes da notícia) a tentar fazer, era o seguinte:

- manter o assunto debaixo dos lençóis, bem escondido, mantendo também a estabilidade da equipa e do clube nestas ultimas semanas de campeonato, evitando colocar sob cada jogo a pressão acrescida de, além do jogo e do campeonato em si, se estar a discutir o futuro de um homem de quem ninguém gosta no Porto;

- levar o próprio Vítor Pereira (que já sabe do seu destino, não o duvido) a renunciar ao cargo, quer ganhe quer perca o título. Se perder, será mais fácil dizer que coloca o seu lugar à disposição porque não conseguiu atingir os objectivos e não quer pesar na decisão do presidente em planificar uma nova época de sucessos. O presidente aceitará a demissão no próprio dia, elogiando o grande profissionalismo e portismo do técnico e culpando os jornais pela decisão do mesmo. Tudo tanga, obviamente, porque a coisa está mais do que combinada. Se ganhar será mais difícil. Terá de dizer que se demite porque sente que não reúne o consenso entre os adeptos e não que ser um elemento para dividir os portistas, deixando maior margem de manobra ao presidente que aceitará a demissão no próprio dia, elogiando o grande profissionalismo e portismo do técnico e culpando os jornais pela decisão do mesmo.

Este é o plano.

Depois da publicação da notícia, o que se passa é que o ónus da decisão, que Pinto da Costa estava a tentar deixar para Vitor Pereira, passa a estar sobre as suas costas. E, se despedir Vitor Pereira, Pinto da Costa terá de fazer uma ginástica muito maior para não dar o braço a torcer e admitir que errou. Terá de ser ele a justificar porque razão não mantém o técnico para uma segunda época, como faz com todos.

Na prática, a decisão de despedir o TOC será sempre a mais correcta, mas deixa de ser à borla. Pinto da Costa vai pagar, com parte do seu prestígio, o erro que cometeu – algo que se estava a tentar evitar, porque a imagem do chefe infalível é um dos pilares do sistema de crenças portista.



Não é a conta desta desfeita que o Benfica irá ganhar este campeonato, entenda-se. Tratando-se de um bom plano, não é propriamente o Projecto Manhattan. Mas poderá ser bastante influente no próximo.

Se Pinto da Costa confirmar a notícia, com actos, no fim da época, dá parte de fraco, mesmo sendo um líder competente na decisão. Isso, e o facto de Vítor Pereira (o verdadeiro responsável pelo sucesso do ano passado, recorde-se, segundo Pinto da Costa) sair ao fim de apenas um ano, implica que o próximo técnico não estará tão seguro como é costume no Porto, nomeadamente quando chegar a altura das derrotas. Isso, por si só, criará desestabilização. Pode mesmo acontecer que a próxima escolha seja tão infeliz como foi esta, e aí sim, já sem a almofada deste ano (os excelentes resultados anteriores), com a credibilidade de Pinto da Costa afectada e com as prováveis alterações de fundo no plantel (Hulk não fica, até porque seria pior se ficasse do que se saisse), o Porto pode ter um problema grave.

Esta notícia é, assim, em potência, uma excelente semente de figueira plantada no meio do Olival.

Se Pinto da Costa optar por manter a credibilidade total, e não despedir o TOC, ninguém tem dúvidas de que o Porto que iniciará e disputará a próxima época vai ser mais fraco, em todos os aspectos, que o deste ano – e que já só ganhará o título mesmo à justa.

Ninguém, no Porto, está preparado para dar o mínimo mérito ao TOC em caso de triunfo. O que vier será artificial, plantado na opinião pública pelos paineleiros Serrões ou Aguiares, a mando do chefe, mas sem terreno para medrar. O povo portista não se deixa enganar com essas larachas. Vítor Pereira começaria o campeonato de tal forma fragilizado que um mero ciclo de maus resultados nos dois primeiros meses, como o que teve este ano, seriam praticamente definitivos para as hipóteses de sucesso da equipa no final da temporada. Alguém de bom senso sequer imagina que Vítor Pereira possa vir a ser o treinador do Porto em 2012/13? Claro que não. É o treinador mais frágil das últimas décadas, e o Benfica que vai ter pela frente será o mais forte do mesmo período. Seria a receita para o desastre escrita desde o início.

E isto leva-me a crer que a verdadeira intenção do Benfica nem sequer é usar esta fragilidade estrutural do Porto para ganhar o campeonato deste ano – isso seria só um bónus. A intenção real é tentar forçar Pinto da Costa a aguentar a mão, a aparecer nos treinos (como é da praxe quando a coisa dá raia), a bradar por «desestabilização» e malfeitorias, e a fazê-lo de tal forma convictamente que a única decisão coerente no final da época seja manter o TOC como treinador. Esse é que é o objectivo.

Não creio que vá acontecer, acho mesmo que o TOC vai demitir-se seja quais forem os resultados nos próximos cinco jogos, mas, com a notícia da Bola, deixámos de estar num cenário de vitória ou derrota para Pinto da Costa e para o Benfica. Mantendo ou despedindo o TOC, Pinto da Costa já perdeu – a questão é se vai perder mais ou perder menos (e isto devido a um erro próprio, daí o brilhantismo táctico da notícia). Pela mesma lógica, o Benfica já ganhou – pode é ganhar mais ou ganhar menos. (Alturas houve em que o Pinto da Costa fazia exactamente o mesmo ao Benfica, pondo-o a jogar contra os seus próprios erros de maneira cruel. Chama-se a isto virar o feitiço contra o feiticeiro, com toda a propriedade).

Jackpot, para o Benfica, obviamente, seria ganhar este campeonato e ver Pinto da Costa a manter o TOC, por pura teimosia. Não é impossível, mas quase.

Para limpar o rasto e não ser acusada de parcialidade – pelo menos total –, a Bola ainda se dá ao desplante de noticiar, hoje, uma não-notícia, ou seja, uma notícia que já toda a gente sabe: que o Jesus pode não ficar se não ganhar o campeonato. Que é o mesmo que não dizer nada. O típico engenho político.
O Pinto da Costa tenta levantar a lebre do Benfica estar a falar com outros treinadores, mas até aí se vê a sua posição de fraqueza: isso não choca nenhum benfiquista, porque todos os benfiquistas estão mais que preparados para que Jesus saia, quer ganhe quer não ganhe o campeonato.São três anos. Qual é o choque. O último treinador a ficar quatro anos seguidos no Benfica deve ter sido para aí o Cosme Damião... Nem os jogadores tão pouco seriam apanhados propriamente de surpresa. Para mais, tudo isto acontece numa semana em que o Benfica ganha ao Braga, joga em Londres e vai a Alvalade, o que atira para segundo plano tudo o que possa dizer respeito ao Jesus. Há demasiado futebol para se dar atenção a folclores. Algo que não acontece com o Porto, que tem uma semana inteira de páginas de jornal para encher com assuntos secundários.
Depois do jogo em Alvalade, há dois cenários possíveis para a discussão sobre o Jesus (que vai aparecer): ou o Benfica não perde o campeonato em Alvalade e fica à beira do título (o Porto vai à Madeira e recebe o Sporting) com quatro jogos relativamente fáceis para jogar; ou o Benfica perde o campeonato em Alvalade, o que praticamente sentencia o futuro de Jesus como técnico, e torna irrelevante qualquer tentativa de desestabilização, por meramente inócua.
De facto, tudo isto é simplesmente brilhante. Não se vê um ponto fraco. Eu, pelo menos, não vejo.

segunda-feira, 2 de abril de 2012

Futebol quântico

Há um segredo por revelar e que joga a favor do Benfica nestes últimos 30 dias de competição. É possível que eu possa estar a dar azar ao falar disto, mas, considerando que já lixei o campeonato ao Benfica ao dizer que não íamos perder com o Porto em casa, espero que isto permite reverter o feitiço (porque só se eu conseguir reverter o feitiço é que temos a mínima hipótese de ainda ganhar isto, obviamente).

O segredo é este: entrámos no plano do irracional.

Basta olhar para os sinais. Começando por Olhão, para não irmos mais longe. Saviola falha um golo feito no último remate do jogo e o Benfica fica com o campeonato pendurado por um cabelo. Dois dias depois, em Paços de Ferreira, o Porto desperdiça cerca de 10 golos em frente ao guarda-redes e, a 8 minutos do fim, com o título no bolso, sofre um golo de canto com o jogador do Paços a marcar de cabeça no centro da área, sem um único jogador do Porto saltar. Juro pela saúde dos meus filhos que, desde que vejo futebol, nunca vi o Porto sofrer um golo destes numa situação destas. Nunca. Jamais. Em tempo algum. Ponto final, parágrafo. Eu, se fosse do Porto, depois daquele jogo, teria sentido o mesmo que um japonês ao ver chegar a tsunami.

Mas calma. Não é tudo.

No sábado, o Porto vê os seus dois rivais chegarem aos 78 minutos com o resultado que lhe interessava. O Benfica ficaria fora do campeonato. E o Benfica estava morto. O Elderson faz um penálti de apanhados. Com o Cardozo no banco e três tipos à volta da bola sem saber o que lhe fazer até ao próprio Cardozo mandar, do banco, que fosse o Witsel a marcar (leiam no Jogo, está muito bem sacada a notícia). Golo. Três minutos depois o Braga empata outra vez. Tudo perfeito, outra vez. E, de repente, na última jogada, o Gaitán e o Chuta-Chuta sacam um coelho da cartola. Duas vezes, no espaço de uma semana, o Porto vê fugir, por minutos (por segundos!), em jogadas insólitas, um campeonato que já esteve a perder por 5 pontos e a liderar por 3. Quero aqui remeter para o vídeo já indicado, mas avançando 30 segundos, por favor – quando já chegou a segunda vaga e a água subiu mais cinco metros...

Mas calma, não é tudo.

No meio disto há o Chelsea. Do David Luiz, do Ramires e do Villas-Boas. Um Chelsea de segunda categoria que, salvando-se até de um dos penáltis mais escandalosos que alguma vez não se marcaram nuns quartos-de-final da Champions, ganha por 1-0.

Para o Benfica, obviamente, perder não bastava – também tinha de ficar sem o seu terceiro central no segundo jogo do título da época, para juntar à ausência do defesa-esquerdo titular.

Leram aquele comentário que eu fiz sobre o Jesus ter a sorte de passar a ter mais dois jogadores de futebol na equipa para o jogo com o Braga em vez de duas tentativas de defesa? Era um exagero propositado, obviamente, mas não escrevi aquilo por acaso. É que, no ponto em que estamos, isto já não tem nada a ver com jogadores.

É preciso ter assistido à vitória do Benfica no campeonato dos 6-3 em Alvalade para perceber que, a partir de certo ponto, os jogadores, os treinadores, os dirigentes, os adeptos e os árbitros já não têm nada a ver com isto.

Entra-se no campo do futebol quântico. Porque é que a bola vai para ali quando teria exactamente as mesmas probabilidades de ir para o lado contrário? Ninguém sabe. Podia, exactamente da mesma maneira, não ir. Mas vai. Podia ser o Hulk a chutá-la ou o júnior que lá vai treinar às segundas-feiras. Não interessa. A puta da bola vai porque quer ir.

Ora, quando entramos no plano do transcendente em que actualmente nos situamos, entramos no campo de colheita do Benfica. Quando as coisas começam a acontecer ao contrário do projecto, ao contrário da razão, ao contrário da lógica, ao contrário do método e dos princípios básicos do trabalho a longo prazo, quando se entra no plano do insondável, o Benfica pode não ficar em vantagem em relação a qualquer clube do mundo, incluindo o Porto, mas em desvantagem não fica de certeza.

Estamos no campo da mística. E no que toca ao Benfica, pode não valer nada no resto, mas no campo do sobrenatural dá cartas seja a quem for.



Eis o ponto da situação: na quarta-feira o Benfica joga em Londres e tem de ganhar ao Chelsea do Abramovich para ser apurado para a meias-finais da Champions. Vai jogar com um central agarrado ao joelho e outro adaptado, e nada disso terá importância absolutamente nenhuma. Para o Jesus vai ser um bicho de sete cabeças, porque aquilo na cabeça dele não joga, mas o treinador que o Benfica precisava de ter em Londres não era o Jesus – era o Toni. O Toni nunca foi nem metade do treinador que o Jesus é, mas conseguiu ser campeão no Benfica, mais do que uma vez, por uma razão extraordinariamente simples: porque tinha sensibilidade para entender a natureza mística do Benfica. Como o Mário Wilson, por exemplo. Com o Toni ou o Mário Wilson, em Londres, os jogadores do Benfica teriam a surpresa das suas vidas. Estariam à espera de ver um treinador sorumbático, acabrunhado, derrotado antes do jogo começar, e de repente ia-lhes aparecer um Toni vermelhusco, sem ter nada de relevante tacticamente ou estrategicamente para dizer, mas de que iria transparecer uma ideia absurda: «Temos de ganhar em Londres, ao Chelsea, sem centrais, quatro dias depois de jogar com o Braga e quatro dias antes de ir a Alvalade, onde temos de ganhar para seros campeões? Fantástico. Temo-los mesmo onde os queríamos.»

A sério: ninguém tem noção de como o Benfica está perto de eliminar o Chelsea. A começar pelos jogadores.

O que vai acontecer é o seguinte: o jesus vai entrar com a equipa tão arranjadinha quanto possível, e com o Cardozo, o Witsel, o Aimar, a tropa toda, e com o Javi a central, claro. Porque é o que faz sentido, em termos futebolísticos. O Benfica vai ser eliminado e, no final, toda a gente vai chegar à conclusão que não foi por causa de quem jogou que o Benfica perdeu, e que nem sequer foi por causa de ter perdido na Luz: foi por não ter acreditado que podia ganhar e não ter sido convicto nas oportunidades que teve.

Teoricamente, o Benfica perdeu a sua oportunidade na Luz. Foi superior, podia ter ganho e perdeu, em casa, contra uma equipa, em princípio, superior e mais experiente em todos os aspectos. Hipóteses de apuramento? 5 por cento. Na prática, vai ser este pressuposto que vai eliminar o Benfica. Porque… o que é que o Benfica tem a perder? Precisamente.

Se eu fosse o Toni, em Stamford Bridge, conhecendo o Benfica, faria isto: primeiro dizia-lhes «temo-los mesmo onde os queríamos». Depois, já no avião, antes de levantar voo, dizia-lhes: «Amanhã jogam Artur, Maxi, Javi, Emerson e Capdevilla; Witsel, Aimar e Gaitán; Saviola, Nélson e Rodrigo. E o Chuta-Chuta e o Nolito entram na segunda parte para acabar o serviço. É para correr até cair para o lado ou até marcarmos o quarto golo, o que quer que aconteça primeiro.» Para que eles não tivessem dúvida do tipo de missão que teriam em Londres. E colocaria o Chelsea perante o último tipo de problemas que está preparado para encontrar: uma equipa kamikaze. Perante o estado de fragilidade psíquica em que o Chelsea se encontra (nem à Champions provavelmente vai para o ano, atenção), o jogo seria lançado numa base absolutamente errática. Perfeito para os malucos do Benfica, péssimo para a equipa na posição superior.

Ia ser um festival.

O Benfica ou passava ou fazia um escarcéu que até à China chegava. Daqui a dez anos ainda se ia falar deste jogo. 3-2, 4-3, 5-2, 2-5, não sei, mas que ia ficar para a história ia.



E depois disto, claro, o que verdadeiramente interessa. «Temos de ir ganhar ao Sporting, a Alvalade, sem centrais, a quatro jornadas do fim, frente a um Sporting que tem a hipótese de nos roubar o título? Perfeito. Temo-los mesmo onde os queríamos.»

(passem para o minuto 8.30 do vídeo…)