A notícia do TOC merece um comentário, porque é uma jogada estratégica notável.
Primeiro ponto: o Pinto da Costa tem toda a razão. Bom, não toda. Engana-se quando diz que a notícia é plantada para semear a desestabilização na equipa. Não é só na equipa: é no próprio clube.
É evidente que obedece a propósitos desestabilizadores, é evidente que há uma disposição, da Bola, de servir um interesse externo, e é evidente que o interesse externo que a Bola está a servir é o Benfica. Ninguém pode ter a mínima dúvida disso, e esta certeza deixa-me muitíssimo satisfeito, porque a qualidade do trabalho deveria ser altamente gratificante para qualquer benfiquista
O mais brilhante deste plano é o facto de se limitar a aproveitar a energia negativa que já existe no movimento para o virar contra o perpetrador. É uma espécie de aikido político-futebolístico.
Qual é o nervo desta notícia?
Não é o TOC.
É o erro grave de Pinto da Costa ao escolhê-lo no princípio da época.
A parte mais óbvia do plano, que ajuda ao seu brilhantismo, é, aí sim, o timing, que demonstra audácia, ambição e paciência para esperar e tomar a iniciativa certa no momento certo. Ou seja, classe.
Descontruamos.
O Pinto da Costa está agarrado ao TOC. Já toda a gente percebeu que o TOC é barrete, que conseguiu, numa época, escavacar o trabalho de dois anos e passar o Porto de um nível em que estava claramente acima do Benfica para outro em que já não se percebe bem a diferença, em campo, entre quem tem, de facto a melhor equipa. (Eu acho que o Porto continua a ter a melhor equipa, e que uma vitória no campeonato seria justa, pelo mero valor, mas já não assim tanto, e muito menos nada que se possa assemelhar com o que aconteceu no ano passado. Mas esta é outra conversa.)
O facto é que o Pinto da Costa pegou no barrete, enfiou-o e está agarrado a ele. Todos os pressupostos que a Bola apresentou para o despedimento do TOC estão correctos. É um líder débil, um técnico sofrível, uma personalidade disruptora da harmonia de um clube que prima pelos ámens ao Papa. Vítor Pereira tira mais do que o que dá ao clube, e tira-lhe, sobretudo, enquanto estiver sentado na cadeira de sonho, a possibilidade de um treinador a sério lá se sentar. O único bom acto de gestão de Pinto da Costa seria demiti-lo no dia imediatamente a seguir ao final oficial da época.
O que Pinto da Costa está (estava, antes da notícia) a tentar fazer, era o seguinte:
- manter o assunto debaixo dos lençóis, bem escondido, mantendo também a estabilidade da equipa e do clube nestas ultimas semanas de campeonato, evitando colocar sob cada jogo a pressão acrescida de, além do jogo e do campeonato em si, se estar a discutir o futuro de um homem de quem ninguém gosta no Porto;
- levar o próprio Vítor Pereira (que já sabe do seu destino, não o duvido) a renunciar ao cargo, quer ganhe quer perca o título. Se perder, será mais fácil dizer que coloca o seu lugar à disposição porque não conseguiu atingir os objectivos e não quer pesar na decisão do presidente em planificar uma nova época de sucessos. O presidente aceitará a demissão no próprio dia, elogiando o grande profissionalismo e portismo do técnico e culpando os jornais pela decisão do mesmo. Tudo tanga, obviamente, porque a coisa está mais do que combinada. Se ganhar será mais difícil. Terá de dizer que se demite porque sente que não reúne o consenso entre os adeptos e não que ser um elemento para dividir os portistas, deixando maior margem de manobra ao presidente que aceitará a demissão no próprio dia, elogiando o grande profissionalismo e portismo do técnico e culpando os jornais pela decisão do mesmo.
Este é o plano.
Depois da publicação da notícia, o que se passa é que o ónus da decisão, que Pinto da Costa estava a tentar deixar para Vitor Pereira, passa a estar sobre as suas costas. E, se despedir Vitor Pereira, Pinto da Costa terá de fazer uma ginástica muito maior para não dar o braço a torcer e admitir que errou. Terá de ser ele a justificar porque razão não mantém o técnico para uma segunda época, como faz com todos.
Na prática, a decisão de despedir o TOC será sempre a mais correcta, mas deixa de ser à borla. Pinto da Costa vai pagar, com parte do seu prestígio, o erro que cometeu – algo que se estava a tentar evitar, porque a imagem do chefe infalível é um dos pilares do sistema de crenças portista.
Não é a conta desta desfeita que o Benfica irá ganhar este campeonato, entenda-se. Tratando-se de um bom plano, não é propriamente o Projecto Manhattan. Mas poderá ser bastante influente no próximo.
Se Pinto da Costa confirmar a notícia, com actos, no fim da época, dá parte de fraco, mesmo sendo um líder competente na decisão. Isso, e o facto de Vítor Pereira (o verdadeiro responsável pelo sucesso do ano passado, recorde-se, segundo Pinto da Costa) sair ao fim de apenas um ano, implica que o próximo técnico não estará tão seguro como é costume no Porto, nomeadamente quando chegar a altura das derrotas. Isso, por si só, criará desestabilização. Pode mesmo acontecer que a próxima escolha seja tão infeliz como foi esta, e aí sim, já sem a almofada deste ano (os excelentes resultados anteriores), com a credibilidade de Pinto da Costa afectada e com as prováveis alterações de fundo no plantel (Hulk não fica, até porque seria pior se ficasse do que se saisse), o Porto pode ter um problema grave.
Esta notícia é, assim, em potência, uma excelente semente de figueira plantada no meio do Olival.
Se Pinto da Costa optar por manter a credibilidade total, e não despedir o TOC, ninguém tem dúvidas de que o Porto que iniciará e disputará a próxima época vai ser mais fraco, em todos os aspectos, que o deste ano – e que já só ganhará o título mesmo à justa.
Ninguém, no Porto, está preparado para dar o mínimo mérito ao TOC em caso de triunfo. O que vier será artificial, plantado na opinião pública pelos paineleiros Serrões ou Aguiares, a mando do chefe, mas sem terreno para medrar. O povo portista não se deixa enganar com essas larachas. Vítor Pereira começaria o campeonato de tal forma fragilizado que um mero ciclo de maus resultados nos dois primeiros meses, como o que teve este ano, seriam praticamente definitivos para as hipóteses de sucesso da equipa no final da temporada. Alguém de bom senso sequer imagina que Vítor Pereira possa vir a ser o treinador do Porto em 2012/13? Claro que não. É o treinador mais frágil das últimas décadas, e o Benfica que vai ter pela frente será o mais forte do mesmo período. Seria a receita para o desastre escrita desde o início.
E isto leva-me a crer que a verdadeira intenção do Benfica nem sequer é usar esta fragilidade estrutural do Porto para ganhar o campeonato deste ano – isso seria só um bónus. A intenção real é tentar forçar Pinto da Costa a aguentar a mão, a aparecer nos treinos (como é da praxe quando a coisa dá raia), a bradar por «desestabilização» e malfeitorias, e a fazê-lo de tal forma convictamente que a única decisão coerente no final da época seja manter o TOC como treinador. Esse é que é o objectivo.
Não creio que vá acontecer, acho mesmo que o TOC vai demitir-se seja quais forem os resultados nos próximos cinco jogos, mas, com a notícia da Bola, deixámos de estar num cenário de vitória ou derrota para Pinto da Costa e para o Benfica. Mantendo ou despedindo o TOC, Pinto da Costa já perdeu – a questão é se vai perder mais ou perder menos (e isto devido a um erro próprio, daí o brilhantismo táctico da notícia). Pela mesma lógica, o Benfica já ganhou – pode é ganhar mais ou ganhar menos. (Alturas houve em que o Pinto da Costa fazia exactamente o mesmo ao Benfica, pondo-o a jogar contra os seus próprios erros de maneira cruel. Chama-se a isto virar o feitiço contra o feiticeiro, com toda a propriedade).
Jackpot, para o Benfica, obviamente, seria ganhar este campeonato e ver Pinto da Costa a manter o TOC, por pura teimosia. Não é impossível, mas quase.
Para limpar o rasto e não ser acusada de parcialidade – pelo menos total –, a Bola ainda se dá ao desplante de noticiar, hoje, uma não-notícia, ou seja, uma notícia que já toda a gente sabe: que o Jesus pode não ficar se não ganhar o campeonato. Que é o mesmo que não dizer nada. O típico engenho político.
O Pinto da Costa tenta levantar a lebre do Benfica estar a falar com outros treinadores, mas até aí se vê a sua posição de fraqueza: isso não choca nenhum benfiquista, porque todos os benfiquistas estão mais que preparados para que Jesus saia, quer ganhe quer não ganhe o campeonato.São três anos. Qual é o choque. O último treinador a ficar quatro anos seguidos no Benfica deve ter sido para aí o Cosme Damião... Nem os jogadores tão pouco seriam apanhados propriamente de surpresa. Para mais, tudo isto acontece numa semana em que o Benfica ganha ao Braga, joga em Londres e vai a Alvalade, o que atira para segundo plano tudo o que possa dizer respeito ao Jesus. Há demasiado futebol para se dar atenção a folclores. Algo que não acontece com o Porto, que tem uma semana inteira de páginas de jornal para encher com assuntos secundários.
Depois do jogo em Alvalade, há dois cenários possíveis para a discussão sobre o Jesus (que vai aparecer): ou o Benfica não perde o campeonato em Alvalade e fica à beira do título (o Porto vai à Madeira e recebe o Sporting) com quatro jogos relativamente fáceis para jogar; ou o Benfica perde o campeonato em Alvalade, o que praticamente sentencia o futuro de Jesus como técnico, e torna irrelevante qualquer tentativa de desestabilização, por meramente inócua.
De facto, tudo isto é simplesmente brilhante. Não se vê um ponto fraco. Eu, pelo menos, não vejo.