segunda-feira, 19 de março de 2012

Batalha moral

A tendência para minimizar a importância do Benfica-Porto das meias-finais da Taça da Liga é natural. É um jogo que toda a gente preferia que não houvesse, e todos estão com medo de o perder. A entrevista de Pinto da Costa à Rádio Renascença, cuidadosamente agendada, é uma clara mentalização dos adeptos do Porto em caso de derrota. Estrategicamente, como é óbvio, é muito bem jogado por Pinto da Costa, cujas palavras têm um peso institucional suficiente para amparar qualquer mau resultado que venha a aparecer na Luz. Em caso de vitória, parece que veio gozar com o Benfica com antecipação. No caso de derrota (e atenção que o facto de não haver empates é muito importante neste contexto), ela já estará minimizada e justificada à partida («jogaram com os suplentes»). Jesus fez exactamente o mesmo, mas o gesto, bem explícito e pensado, de Pinto da Costa, tem maior significado. Porque torna claras duas verdades que se tentam manter escondidas:

- para os adeptos do Porto, não é indiferente perder com o Benfica, nem tão pouco é pouco importante. É mais importante que para os benfiquistas, e em boa parte é por isso que continuam a ganhar mais vezes;

- este jogo é muito mais importante do que parece, e não apenas por ser mais um potencial desequilibrador numa época superequilibrada entre Benfica e Porto. E, aqui, é mais importante para o Benfica do que para o Porto.



Em relação ao primeiro ponto, os benfiquistas não têm muita noção disso, porque têm uma perspectiva mais ambígua da dialéctica Porto-Benfica, mas os portistas, sobretudo os do Norte, que convivem menos com benfiquistas, ainda não conseguiram libertar-se do complexo de inferioridade em relação ao Benfica. Apesar de já muito pouco, racionalmente, o explicar, o Benfica continua a ser o motor do Porto, que continua a sentir-se mais pequeno e, também, inferior. Quando se vê o Porto a bater no peito é, na verdade, uma demonstração de inferioridade, mais que de superioridade. O Porto não se consegue libertar do Benfica, é e muito provável que venha a ser esse complexo que o venha a consumir, porque, se ainda não se livrou dele, também já não vai ser agora que se vai livrar. (E isto tem algo de inevitável, porque no dia em que o Porto deixar de bater no peito vai fazer o quê? Qual é a opção? O Porto está agarrado ao seu motor, para o actual bom e para o futuro mau.)

O jogo da Taça da Liga de há dois anos, em que o Benfica ganhou por 3-0, se bem se lembram, é um bom exemplo desta toxicodependência. O jogo era para a Taça da Liga, que teoricamente pouco vale, correu muito mal ao Porto, mas nada disso importou, pois os adeptos e os críticos do Norte, claramente, ampliaram em muito o valor real dessa derrota. Uma derrota normal foi transformada num sinal de alarme – e foi também devido a ela que o Porto empenhou a casa para se fortalecer na época seguinte.

E isto leva-nos ao segundo ponto.



O facto de toda a gente estar a fazer contenção de danos não tem a ver com as sequelas físicas que mais um jogo poderia deixar nos jogadores mas sim com as sequelas psicológicas que um mau resultado pode deixar numa altura em que um único resultado imprevisto pode decidir o campeonato.

Até agora, ninguém consegue dizer convictamente que uma equipa é melhor que a outra ou merece mais ganhar o campeonato que a outra. Estamos numa fase de batalha moral, em que as duas partes – recorrendo muito, como é costume, aos álibis das arbitragens – tentam ganhar a superioridade moral e convencer toda a gente disso. Porque, se toda a gente se convencer de que uma equipa merece mais que a outra, a tendência é para as coisas irem, consciente ou inconscientemente, de encontro a isso. Os jogadores empenham de maneira diferente, os árbitros têm outro à vontade para decidir a favor do mais merecedor, etc. A superioridade moral é um factor decisivo na maior parte das guerras. Se duvidam, convençam-se de que o Porto anda desde 1978 a recolher os frutos de ter conseguido convencer toda a gente – graças a Pedroto – de que o Benfica não era um campeão justo. Os «roubos de igreja», de que Pedroto falou na década de 70, têm justificado todo o edifício desportivo e paradesportivo (falando eufemísticamente…) do Porto até hoje.



Além de tudo isto, há a principal razão para eu achar que é um erro, sobretudo para o Benfica, menosprezar este e qualquer jogo com o Porto.

Eu lembro-me da Supertaça em Coimbra em que o Benfica esteve a ganhar por 3-1 nos penáltis e perdeu por 4-3 ou 5-4. Lembro-me de ver o Pinto da Costa a chorar, de joelhos, agarrado ao terço e a agradecer à Virgem.

Lembro-me de ver o Porto ganhar 5-0 na Luz, no tempo do Oliveira. Não sei já para que foi, mas lembro-me bem desse jogo, e sei que não foi para o campeonato. Mas contou, e contou muito.

Estes foram jogos que marcaram uma época e uma superioridade. Não são apenas sintomas – são marcos geodésicos. São bandeiras cravadas num eterno jogo territorial. E é disso que se trata, realmente, quando Benfica e Porto jogam. Não é uma competição que está em causa, é um território. Seja qual for a competição.

O Porto percebe isso melhor, e por isso ganha mais. O Benfica não percebe isso tão bem. E é por isso que o Benfica, mais que o Porto, não se pode dar ao luxo de virar a cara a uma batalha.

A verdadeira missão do Benfica, neste momento da sua existência, não é ganhar campeonatos, não é compor currículos nem não é fazer contas. A verdadeira missão do Benfica, nesta altura, é pura e simples: ser melhor que o Porto. O resto vem por acréscimo, mas não é o mais importante. O mais importante, o fundamental, é ser melhor que o Porto. E isso significa fazer de cada jogo com o Porto uma oportunidade de entrar e ficar por cima.

No tipo de batalha que estes dois colossos estão a jogar, não há intervalos, não há tréguas, e quem pensar que as há não está, de facto, a refugiar-se na neutralidade – está, na verdade, a oferecer a posição cimeira, a superioridade moral, a posição elevada.

Um Benfica-Porto, neste momento da história, não tem nada a ver com as competições que se disputam.

O Porto, que percebeu isso há muito tempo, passou a ganhar competições.

O Benfica, que resiste em aceitar isso, continua a procurar ganhá-las.

Esta terça-feira há mais uma batalha. E quem pensar que vai para uma negociação arrisca-se a perder muitíssimo mais do que o que julga. Com mais ou menos suplentes em campo.



PS1 – Vocês continuam convencidos de que o Paixão faz isto por dinheiro? É pela atenção, pá. No dia em que ele apitar um jogo e o nome dele não aparecer os jornais o homem suicida-se.



PS2 – É natural que o ritmo de posts venha a descer para um de 2 em 2 dias. A coisa está a apertar deste lado. Mas vou continuar a escrever todos os dias, nem que seja para comentar os comentários.

PS3 – Não me esqueci da Charrua…



PS4 – Não me esqueci da fórmula secreta para o melhor campeonato português do Mundo. Vem esta semana, comprometo-me.



PS Vita – «just kidding….»

sábado, 17 de março de 2012

Liga Bwin - O jogo do galo

Só amanhã é que há post, depois do jogo do Sporting, uma vez que ando aqui às voltas com uma situação, mas vou completar a minha ronda da Liga Bwin, just for the kicks.



Feirense-Braga

Quando uma equipa ganha 11 jogos consecutivos para o campeonato encontra-se numa situação probabilística tão invulgarmente favorável que o mais provável, estatisticamente, é que não consiga prolongar essa série.

Não baseio a minha aposta em nenhum outro critério que não o da lei da gravidade: quanto mais alto se sobe maior é a força que nos empurra para baixo. Não sei quando é que Braga vai deixar de ganhar, mas até lá eu aposto sempre nisso. No caso deste jogo, em que a odd é de 2.50 numa não-vitória do Braga, acho irresistível.

Como tal, 9 euros na vitória do Feirense ou empate, a 2.50.



Académica-Paços de Ferreira

Não sei bem o que é mais extraordinário:

- o Braga não perder pontos há 11 jogos;

- a Académica não ganhar há 16 jogos;

- a Académica ter feito quatro jogos com os grandes nestes 16 e só ter perdido 1;

- a Académica, com isto tudo, ainda estar 6 pontos acima da linha de água.

Nos últimos 3 jogos que fez em casa com equipas que lutam para não descer a Académica empatou com o Leiria e perdeu com o Gil Vicente e com o Beira-Mar!

Tudo isto é estranhíssimo. Das duas, uma: ou se vê aqui um padrão ou se vê uma anormalidade.

Com os recentes bons resultados da Académica e o mau desempenho crónico do Paços fora de casa, pressinto uma inversão da tendência para a Briosa.

7 euros na vitória da Académica a 2.30.



Setúbal-Marítimo

Até este momento o Marítimo ainda não perdeu com nenhum dos actuais cinco últimos classificados do campeonato, e não me parece nada que vá ficar por aqui, até porque continuo a não confiar minimamente neste Vitória. Mesmo com a recente candidatura do Beira-Mar à decapitação, continuo a apontar Setúbal e Leiria como as equipas favoritas à descida, pois são as mais mal estruturadas de base. Beira-Mar, Feirense e Paços têm, na minha opinião, uma estrutura mais sólida (frágil, mas mais sólida). A questão que se me coloca aqui é se dá empate ou vitória do Marítimo.

Aposto 4 euros na vitória do Marítimo, a 2.20.



Guimarães-Olhanense

No jogo com o Sporting fiquei com a sensação clara de que o Vitória, sozinho no deserto classificativo, sem ninguém à vista acima ou abaixo, com três meses de salário em atraso, pura e simplesmente deixou de competir. Ora, há uma coisa que temos aprendido com o Guimarães: naquele clube, quando o barco adorna, adorna a sério. O Olhanense não é grande espiga, mas é certinho.

Aposto 4 euros na vitória do Olhanense, a 5.00.



Gil Vicente-Sporting

Esta semana a fava dos grandes vai sair ao Sporting. Porque os outros dois já jogaram a ganharam, porque vai estar na ressaca de Manchester, porque não vai jogar o Izmailov, porque o Gil é lixado em casa e porque, se não ganhar, o Sporting vai parar ao quinto lugar. Tudo boas razões para esperar, pelo menos, um empate em Barcelos.

6 euros no empate, a 3.25.





P.S. – Enquanto escrevia isto penso que acabei de assistir, em directo, ao que pode ter sido a morte de um jogador em campo, no Tottenham-Bolton. Não sei ainda, mas deu a ideia de ser ou isso ou quase tão mau.

O público passou o tempo em que ele estava a ser assistido a gritar o nome dele. Arrepiante.

O árbitro, em acordo com os jogadores das duas equipas, parou o jogo. Digno e notável.

Nestes dez minutos voltei a sentir a angústia daqueles momentos em Guimarães, e voltaram-me as lágrimas aos olhos. Há coisas que ficam para trás mas nunca desaparecem.

sexta-feira, 16 de março de 2012

O menino é um cavalo

No dia em que o Porto ganhar o campeonato, se o ganhar, muita gente vai lembrar-se do jogo da Luz, mas em termos de importância o de hoje, com o Nacional não lhe fica muito atrás.
Hoje, o Helton parecia o Neo, de Matrix, a esquivar-se às balas. Sem Hulk e Fernando – pelo que se vê, afinal, os seus dois jogadores realmente cruciais – o Porto esteve tão à mercê do Nacional como o Rocky contra o Ivan Drago, antes de, por milagre, dar a volta por cima.

Chega a ser ridículo como Porto e Benfica dependem tão claramente dos seus trincos, mas isto realça a importância dos especialistas, algo que tenho referido já em vários posts. Mais importante do que ter um conjunto de muito bons generalistas, uma equipa moderna depende da qualidade dos seus especialistas, e, por melhor plantel que tenha, se ficar privado deles, a sua época fica comprometida.

É verdade que o caudal de lágrimas vertidas pelos sportinguistas, se devidamente recolhido em recipientes apropriados, teria sido suficiente para colmatar a ausência de chuva nos campos do nosso país, mas eles têm razão quando dizem que ter ficado sem Rinaudo, Volkswagen, Izmailov e Rodríguez durante tanto tempo lhes lixou a época. O Benfica não teria chegado a este ponto a lutar pelo campeonato se lhe tivesse acontecido o mesmo com Garay, Javi Garcia, Aimar e Cardozo. Mais do que qualidade, são funções que se perdem, e se fosse a mesma coisa ter Javi Garcia e Matic ou ter Fernando e Defour nem sequer faria sentido tê-los no plantel de todo.

Dizer que a gravidade da lesão de Fernando é um dos factores potencialmente decisivos neste campeonato pode parecer surreal, mas é verdade.
Tenho vontade de dizer que esta época do Porto parece uma música dos ABBA.



O Benfica não entrou a dormir, o que é um mudança assinalável relativamente à maior parte dos jogos em casa frente a equipas pequenas esta época. Por outro lado, entrou com o Witsel a lateral-direito que é uma coisa de que eu não gosto nada, e com o Emerson a lateral-esquerdo, que é uma coisa de que ainda gosto menos, mas com a qual, decididamente, já me habituei a viver.

O centro das atenções, claro, foi o «menino». O menino é um cavalo, obviamente. Também é um bocado burro, mas isso não é obrigatoriamente mau (ia a dizer que isso lhe é favorável no relacionamento com Jesus porque os coloca sensivelmente ao mesmo nível de comunicação, mas isso seria mau…) até porque tem muito instinto. O Nélson Oliveira – temos de arranjar uma alcunha para este tipo, durante o tempo em que ele cá está, porque dá muito trabalho a escrever – dá ao Benfica um poder físico, no ataque, que não é normal.

Este ano já não vai servir de muito, até porque ele ainda é muito novo e precisa de mais uma pré-época a trabalhar a sério para explodir, mas o Benfica pode estar a preparar um caso muito sério para as defesas portuguesas na próxima temporada com um ataque formado por dois avançados muito fortes fisicamente, quer em força quer em velocidade: Rodrigo e Nélson Oliveira.

Não sei se é por estar já cansado das emoções desta época, se é por ter tido uma brutal desilusão na derrota com o Porto, mas dou comigo a pensar muito na próxima temporada – afinal, a temporada em que, de facto, se deveria esperar que o Benfica fosse capaz de se aproximar realmente do Porto e ganhar o campeonato.

O que o Jesus disse é verdade: o Benfica subiu bastante da época anterior para esta. Não é com ele que vai dar nenhum salto qualitativo fulminante, mas ainda está para se ver se isso será um factor…

O mercado de Verão vai ser muitíssimo importante. Se o Benfica trabalhar realmente bem entre Junho e Agosto poderá ganhar aí o campeonato.

Voltando à vaca fria, não sei se repararam naquele salto que o Artur deu a meio da segunda parte? Foi porque tinha conseguido acabar um Sudoku de nível «muito difícil».



Não rejeitemos, à partida, a necessidade de ganhar vantagem sobre o Braga no goal-average. Empatar 1-1 na Luz não está, de todo, fora do seu alcance, e os golos marcados agora podem livrar o Benfica de começar a época um mês antes dos outros.

Se eu tivesse mantido a minha aposta do costume nos jogos do Benfica em casa tinha sido trigo limpo farinha amparo. Quis armar-me em criativo… pumba!



Aceita-se a agradece-se alcunhas para o Nélson Oliveira. Arranjamos cinco ou seis e fazemos uma votação. O puto tem cara de pássaro. Alguém sabe o nome daquela ave do mar que se atira lá de cima a pique mergulha para apanhar o peixe debaixo de água?
Por outro lado, como é um cavalo que gosta de mergulhar e como este blog é um autêntico poço de erudição, também lhe poderia chamar Hipocampo. (eheh, googlem...)

Heavy Metalist

O sorteio da UEFA foi óptimo para o Benfica, sobretudo na parte em que saiu o Metalist ao Sporting. Se fosse pedido à la carte não teria saído tão bem. Ter o Sporting numa viagem à Ucrânia, saindo de lá na 5.ª feira à noite, com todas as probabilidades de ter de fazer um jogo pleno de esforço e concentração para passar e tendo todas as hipóteses para isso, para depois jogar em Alvalade na 2.ª feira seguinte, sobretudo quando o Benfica joga na 4.ª feira, num pulinho a Londres, é um bónus, na luta pelo título nacional, que nenhum benfiquista esperaria receber.

Se isso será decisivo no Sporting-Benfica. Muito dificilmente. Aliás, quando se fala nestes factores aleatórios deve-se ter sempre em conta que, tendo importância, não terão mais de 10 ou 15 por cento de importância relativa no jogo. Há outros factores que contam muito mais – desde logo da qualidade das equipas às próprias incidências do jogo. Contam muito mais que o eventual cansaço físico e psicológico. Mas esses 10/15 por cento que o cansaço conta nesta equação não são, dentro de uma luta tão equilibrada como a que estamos a assistir, minimamente desprezáveis. Ou seja, não deverá ser pelo cansaço do Sporting que o Benfica irá ganhar a Alvalade, mas pode ser.



Como já está mais que visto por quem vem regularmente ao site, a minha abordagem à Champions é tão pragmática quanto possível. Eu preferia que o Benfica já não estivesse na Liga dos Campeões. Entre ter mais 5 ou 10 por cento de hipóteses de ganhar o campeonato e passar uma eliminatória da Champions (mesmo com o dinheiro e o prestígio consequentes), esta época, sempre escolhi a primeira.

Eu teria preferido que o Benfica tivesse jogado com o Real Madrid nos oitavos-de-final e que a eliminatória tivesse ficado resolvida na 1.ª mão. Tivesse isso acontecido (sempre os ses…) e, provavelmente, hoje o Benfica estaria com o campeonato quase ganho. Como já se tornou evidente, o Benfica não tem, sequer, um plantel suficientemente apto sequer para competir a fundo no campeonato, muito menos tendo de enfrentar equipas com 200 milhões de euros de orçamento às quartas-feiras.



O voluntarismo irracional dos adeptos de futebol é um traço característico, e toca a todos. Toda a gente coloca a crença acima da razão. Senão também não valia a pena existir futebol, toda a gente jogava xadrez, onde não há cartas escondidas nem elementos aleatórios. É claro que só deve haver 5 pessoas no mundo que prefiram jogar xadrez a jogar futebol. Ou 4. Isto falando de pessoas sem handicaps físicos e emocionais graves, claro…

É, por isso, sempre enternecedor ver um benfiquista a admitir que as hipóteses de passagem da eliminatória são de 50/50.

Os factos racionais?

Nenhum jogador de campo do Benfica que tenha jogado frente ao Paços de Ferreira teria lugar, de caras, no onze do Chelsea, e só dois ou três é que teriam lugar na rotação – Luisão, Javi García, Witsel. Garay pode-se incluir neste lote. Os dois que teriam lugar no onze, de facto, já lá estão: David Luiz e Ramires. Este facto, apenas, é suficiente para aquilatar a diferença real de qualidade meramente futebolística entre as duas equipas.

Qualquer das cinco melhores equipas inglesas da actualidade, considerando o Tottenham como a quinta, é superior (e em alguns casos claramente superior) à melhor equipa portuguesa, que é o Porto, e, pela lógica, ainda melhor que a segunda, que é o Benfica. Tomar a eliminatória entre o City e o Sporting como exemplo é claramente errado. O City auto-eliminou, como fica evidente para quem queira ver com olhos de ver – nos 45 minutos em que decidiu que estava a jogar uma eliminatória da UEFA e não apenas a assinar um papel na alfândega o City ganhou 3-0, e chegou a ser constrangedor ver o Sporting a aproveitar cada paragem do jogo para fazer o mesmo papel que o Feirense vai fazer a Alvalade. É muito mais representativa a eliminatória entre o City e o Porto do que esta.



Em termos futebolísticos, Benfica e Chelsea continuam a estar, com ou sem Villas-Boas, com ou sem chicotadas, com ou sem crises, em universos conjecturais diferentes. E nada disto é segredo para ninguém. Diria mesmo que 90 por cento dos adeptos chegariam à mesma conclusão.

Repare-se que não estou a falar do facto de o Benfica vir a dar luta, mas de passar a eliminatória. Luta dá-se sempre, ter hipóteses reais de passagem é outra coisa.



Há três factores que jogam a favor do Benfica num cenário de eventual apuramento.

Jogar em casa a primeira mão é um deles. Receber uma equipa favorita em casa na primeira mão é bom porque estende a eliminatória. O Chelsea tem qualidade mas não tem personalidade – acho que nenhuma equipa inglesa actualmente a tem – para vir jogar à Luz ao ataque sabendo que tem um segundo jogo em casa. E, ao prescindir de entrar logo ao ataque, guardando-o mais para a segunda mão, dá espaço à equipa favorita para tentar equilibrar as forças, equilibrando a abordagem positiva ao jogo. Foi o que aconteceu com o Nápoles. Ao não assumir claramente a sua superioridade em Itália, o Chelsea abriu a porta a uma equipa inferior, e por pouco não foi mesmo à vida.

Outro é a facilidade histórica que o Benfica tem em enfrentar equipas inglesas. Mesmo com alguns resultados muito negativos pelo meio – lembro-me sobretudo dos jogos com o Liverpool, o grande carrasco benfiquista na década de 80 – não há, no conflito de estilos entre o futebol do Benfica e o inglês, uma clivagem tão grande como a que existe com o futebol inglês ou o italiano. Ao contrário do Porto, que tem um estilo muito mecânico e não bate bem com os ingleses, que vivem muito da correria e de um ritmo elevado, o estilo do Benfica, historicamente, tem aquilo a que os britânicos chamam flair, e que pode ser traduzido, grosso modo, como imprevisibilidade. Para o mau, dá em inconstância e elevada falibilidade; para o bom provoca situações incontroláveis pelos sistemas rígidos. Muitas equipas britânicas já sofreram na pele essa capacidade do Benfica em jogar out of the box, digamos assim.Isto não dá uma vantagem ao Benfica, mas equilibra mais as coisas.

Finalmente, penso poder dizer que o Chelsea se dá mal com equipas carismáticas. E isto quer a nível interno quer a nível externo. Não estou, note-se, a falar necessariamente de história. Não é a antiguidade do Benfica nem a sua dimensão histórica superior que colocarão problemas ao Chelsea. É a sua personalidade.

O forte do Benfica não é a ciência, é a mística. O carisma. O forte do Chelsea não é o carisma, é a ciência. O Chelsea, como clube internacional, é um clube emocionalmente amputado. Falta-lhe alma. É, no fundo, um clube pequeno num corpo grande – ao contrário de um City, de grande índole popular, de um Tottenham, de um Arsenal, mesmo de um Everton e alguns outros. O Chelsea é um clube tecnocrático. O Benfica é um clube democrático. Tal como o Nápoles. O Benfica, o Nápoles, o Valência, só para falar em alguns que esta época colocaram grandes dificuldades ao Chelsea apesar do claro desnível qualititativo, têm esse carisma que Abramovich não pode comprar. Não há, neles, nada de artificial. No Benfica, pelo contrário, o que há é uma lacuna de artificialidade, de técnica, de ciência que enquadre a alma. O Benfica, exactamente ao contrário do Chelsea, tem uma alma maior do que o seu corpo. Alguém que tente explicar a um benfiquista que o Benfica deveria abordar a eliminatória de forma cautelosa, pela lógica. Isso, no Benfica, não existe. Até eu, que sou um cabeça de ovo, sinto que, lá no fundo, se quisermos mesmo, e mesmo contra o que seria mais útil, ATÉ OS COMEMOS!!!

Só por isso, mesmo sabendo que ao Benfica não restarão mais de 25 por cento de hipóteses de chegar às meias-finais da Champions, será muito interessante assistir a esta eliminatória.



Quanto ao resto, fico satisfeito. Acho fraquinho andar na Champions e querer jogar com o ZENIT, com o APOEL, com o Marselha e ganhar a final a um Mónaco qualquer. Qual é a diferença entre estar na Champions e estar na Liga Europa se, depois, não se joga contra os realmente grandes? Já para não dizer que ser eliminado por um Chelsea é claramente diferente de ser eliminado por um Marselha ou por um APOEL.

quinta-feira, 15 de março de 2012

A Quadratura do Esférico (III)

O Factor Pingo Doce



Quando o tipo da Jerónimo Martins foi à TV explicar porque tinha mudado a sede para a Holanda (depois dos outros 29 PSI20’s terem feito o mesmo pela calada da noite e sem dar cavaco a ninguém) disse, basicamente, três coisas:

- Que não ia pagar menos impostos (o que é quase verdade);

- Que lá tinha mais crédito (o que é treta);

- E que não podia gerir um negócio sem saber se, daí por um ano, Portugal ainda ia estar no euro (o que é completamente razoável e, de resto, o único argumento válido).



Considerando que os clubes são, hoje, sem dúvida, entidades económicas, quer tenham ou não estatuto jurídico de SAD, a minha questão é apenas esta:

- como é que se pode pedir a qualquer gestor de clube em Portugal que faça um trabalho profissional, competente e de médio/longo prazo se, a qualquer momento, e de um ano para o outro (já para não dizer de Maio para Agosto), por causa de uma bola na trave no último jogo de campeonato, pode passar de uma receita potencial de 1 milhão de euros para uma receita máxima de 100 mil euros?



Dizem que os dirigentes do futebol são uns irresponsáveis, em grande parte é muita verdade, mas se fossem responsáveis sabem o que seria a I Liga portuguesa? 14 ou 15 clubes a jogarem com sub-21 portugueses, brasileiros e ganeses, porque um gestor realmente responsável conta com o pior cenário, e o pior cenário neste caso seria passar dois ou três anos na I Liga a ganhar dinheiro suficiente para, no caso de descerem de divisão, terem dinheiro no banco suficiente para sobreviverem mais 10 ou 15 anos sem deixar dívidas a jogadores, fornecedores e bancos.



Não sei se há algum negócio no mundo que sobreviva a uma lógica económica em que o risco de ter uma quebra de receitas de 500 ou 600 por cento de um ano para o outro seja um factor de cálculo permanente.

É, simplesmente, ridículo.



Impor um sistema de rotatividade permanente na I Liga é impor o aspecto desportivo ao aspecto económico, e em economias mais ricas isso não é forçosamente problemático, mas na economia portuguesa, e à escala do futebol em Portugal, com as especificidades do futebol português, é irracional e dramático.

Arrisco dizer que nem sequer é uma questão de escolha – é uma questão de sobrevivência.



Outra questão igualmente importante:

- que garantia pode um gestor de clube a um patrocinador ou a investidor se nem sequer pode garantir que, daí por um ano, ainda vai jogar com Benfica, Porto ou Sporting e ter jogos vistos na televisão?

Na verdade, o que é que um dirigente de um Feirense ou de um Setúbal tem para vender? Oito meses garantidos?

Quando se pensa nisto de um ponto de vista económico é uma verdadeira loucura.

Os únicos 4 clubes em Portugal actualmente com verdadeiro poder negocial são Benfica, Porto, Sporting e Braga. Porquê? Porque são os únicos que podem dizer aos seus parceiros económicos (e contar com isso nos orçamentos plurianuais) que não vão parar á egunda divisão. O Gumarães, que é o Guimarães, este ano esteve por um fio. Se não tivesse tido alguma sorte com a chicotada psicológica, da maneira que aquilo está, hoje seria um dos candidatos à descida.



Eu arrisco dizer que o futebol português tem vários problemas económicos estruturais, todos solúveis com o tempo, mas há um de entre esses problemas que torna o negócio, na prática, inviável. Esse problema basilar é o de haver descidas de divisão.



Pelo contrário, se um clube como o Setúbal pudesse garantir que, pelo menos durante dez anos, não viria a cair na II Divisão, todo o seu contexto económico seria potencialmente diferente. Claro que poderia continuar a ser vítima de maus gestores, mas saber-se-ia, então, que são de facto maus gestores, e não apenas bons gestores colocados perante um negócio impossível de conduzir.



O Factor Eucalipto



O Factor Eucalipto decorre da mesma lógica que o Factor Pingo Doce, mas não se aplica apenas à vertente económica.

Actualmente, os pequenos clubes em Portugal são recursos de consumo rápido. Basicamente, a sua utilidade real é a de fazer de figurante nos jogos que permitem aos grandes fazer receitas televisivas, de bilheteira e outras para depois poderem aparecer na Europa e digladiar-se entre si. Os clubes pequenos são descartáveis. São eucaliptos. Planta-se, bebem a aguinha toda em redor, deitam-se abaixo, faz-se pasta de papel, consome-se e vêm outros a seguir.

O problema disto é que, no fim, só há eucaliptos, tornam-se uma praga, Ora, Portugal não é um país de eucaliptos – é país de árvores de raízes profundas. Oliveiras, sobreiros, castanheiros… Árvores com personalidade. Com carisma. Com mística. E ainda bem.



Um clube de futebol precisa de tempo para deitar raízes, e o futebol português também. Como qualquer outro, tem de ter condições para criar tradições, rivalidades, mitologias. Isso não se consegue com objectos descartáveis, e só se consegue com tempo e com estabilidade. Com continuidade. Aqui, em Itália, em Inglaterra, na América ou na China.

Este será o factor menos objectivo dos quatro que apontei, mas não me parece que seja menos importante. Há clubes em Portugal que podem, com estabilidade económica e estabilidade desportiva, estabelecer uma ligação forte à população das suas terras. Clubes hoje caídos em desgraça, como o Chaves, o Farense, o Salgueiros e outros, têm um potencial de implantação cultural igual a um Marítimo, a um Setúbal, e estes, por seu lado, com os mesmos factores de estabilidade, poderiam ascender a um grau de importância maior, que, não sendo comparável ao dos grandes, seria suficiente para criar uma verdadeira classe média no futebol português, e dar-lhe uma base demográfica e territorial que o fortalecesse. Dar-lhe um corpo organicamente estável.

O que há hoje é, na prática, três reis, dois camelos e um deserto. (Sim, um dos reis vai a butes…)



Perante isto, há a questão óbvia: sendo assim, sem descidas, como é que deveria ser a I Liga portuguesa, e quem é que jogaria?

É a resposta que vou ensaiar no próximo post – ou no outro a seguir, uma vez que amanhã há dos jogos relativamente importantes cá para o pessoal…

quarta-feira, 14 de março de 2012

A Quadratura do esférico (II)

O factor Titanic



O naufrágio do Titanic pode ser lido de muitas e muito interessantes maneiras.

Que não há empresa grande demais para falhar, por exemplo. (E se pensou que o «too big to fail» tinha ficado pelo Titanic aí estão a Goldman-Sachs e a maior crise financeira de sempre a provarem o contrário…)

Ou que, se na morte somos todos iguais, mesmo num naufrágio no meio do Atlântico Norte há uns mais iguais que outros – os pobres, que eram a maioria a bordo, morreram praticamente todos e os que se safaram eram maioritariamente ricos.

Mas há uma lição especialmente útil para o nosso caso: se pusermos 3 mil pessoas num barco, em mar alto, e o barco começar a afundar, ricos e pobres transformam-se em meros seres humanos, mortais e egoístas, e o que se parecia com uma ordem social aceite por todos e regrada por comportamentos éticos consensuais rapidamente se transforma num salve-se quem puder. Instala-se o caos.



Para um clube de futebol português, descer da primeira para a segunda divisão assemelha-se perigosamente a um naufrágio de dimensões incontroláveis. Não é apenas uma questão desportiva – aliás, a questão desportiva é a menor. É uma questão de sobrevivência económica, e usar a palavra «sobrevivência» não fica fora de contexto. Quantos clubes considerados históricos e importantes no tecido futebolístico português já não se extinguiram ou passaram, na prática, à irrelevância, por descerem de divisão? Há muitos casos, fáceis de identificar, e a última ameaça (a maior de todas) é precisamente a do Belenenses, de facto o quarto maior clube português em termos históricos, que está em risco de cair para a II B e de desaparecer. Basta-lhe ter de vender o Estádio para pagar as dívidas e acaba em dez anos.

Todos os dirigentes dos clubes pequenos sabem desse potencial de extinção que enfrentam no caso de descida de divisão.



A importância económica de uma descida, já para não ir à vertente desportiva, é tal que torna o ambiente propício ao «salve-se quem puder». Num ambiente pútrido como é o do futebol português, esse «salve-se quem puder» pode assumir contornos escabrosos.

Para terem o direito de estar na I Liga – e, na maior parte das vezes, sem outro real objectivo que não esse, apenas o estar, sem ter sequer a ambição ou a possibilidade de jogar na Europa, o que também se pode revelar desastroso – os clubes que lutam para não descer (70 por cento da I Liga) e os que lutam para subir (50 por cento da II Liga) estão dispostos a tudo.

Prometem o que têm e o que não têm, não pagam salários para pagarem prémios de jogo ou para não pagarem de todo, endividam-se, vendem tudo o que podem e enveredam por todo o tipo de comportamento anti-ético, desde o mero anti-jogo, em campo, à pura e dura corrupção, fora dele.

Não tenho dúvida absolutamente nenhuma de que, se o fruto proibido do sistema de corrupção e tráfico de influências encabeçado pelo Porto e Boavista nos anos 90 e 2000 era o título nacional, a seiva que o mantinha viçoso era a luta pela permanência ou pela subida à I Divisão. Os pequenos clubes alimentaram esse sistema, e entranharam-se nele de tal forma que, a certo ponto, ninguém ganhava nada em sair e aceitava as suas regras como única forma de alcançar objectivos desportivos. No livro do Marinho Neves, por exemplo, fica bem explícita a peregrinação que os dirigentes dos pequenos clubes tinham de fazer ao clube nocturno do Reinaldo Teles para pedirem batatinhas ou para tratarem das suas negociatas.

A inexistência de descidas e subidas não implicaria, directamente, o fim da corrupção – em todos os jogos há quem prefira fazer batota, seja o que for que esteja em jogo – mas seria um forte factor de desmobilização, simplesmente porque a principal motivação para subverter ilicitamente as regras desapareceria.

Estou firmemente convencido de que poucas coisas contribuiriam mais para a quase erradicação da corrupção no futebol português do que o fim (ou a reforma) do sistema de subidas e descidas de divisão. E se formos a Espanha, por exemplo, para não seguirmos por aí fora até Itália, vemos que a envolvente é precisamente igual.

Aponto a importância sobredimensionada da permanência na I Liga para a vida de um clube português como o principal factor de corrupção, da crise económica instalada e da perversão do espírito de lealdade do jogo no futebol em Portugal. Mais do que a cultura desportiva ou a exiguidade do território, que são, admissivelmente, também favoráveis ao desenvolvimento de um espírito de clandestinidade e apadrinhamentos.



E quanto maior se torna o fosso de receitas entre I e II Liga maior é o potencial do desastre.

Só neste contexto, aliás, se percebe que os clubes pequenos utilizem, primeiro, as eleições da Liga, e depois a própria continuidade do campeonato, como factores de chantagem política.

Enquanto existir o «salve-se quem puder», em Portugal, vale tudo para manter a cabeça fora de água. Sendo que tudo é tudo o que já foi inventado e tudo o que a prodigiosa criatividade lusitana ainda for capaz de inventar.



O factor Carlos Castrado



Este está ligado ao factor Titanic.



Em cerca de 80 por cento dos jogos do campeonato os jogadores jogam para não perder. E isto é dramático, para a saúde do futebol português, não tanto por os jogadores jogarem para não perder mas mais por os jogadores NÃO QUEREREM jogar para não perder. Jogam porque são industriados para isso, por tudo e todos os que o envolvem, de dirigentes a treinadores, que sabem que o único objectivo real é precisamente não descer de divisão.

Nenhum jogador joga futebol para não perder. Todos os jogadores jogam futebol para ganhar. Isso é verdade quando começam a jogar à bola na rua e continua a ser verdade quando chegam a profissionais.

Um futebolista profissional é-o, muito mais que por tentar não ser pior que os outros, porque tem uma aptidão natural para ser melhor que os outros. Qualquer pessoa que conheça o futebol sabe que os que chegam lá acima são a elite. Qualquer jogador que esteja na primeira divisão, por mais suplente que seja era, na esmagadora maioria dos casos, a estrela ou uma das estrelas das suas equipas em jovem. Era o melhor, em Ipiritanguari ou nas Caxinas.

De repente, o campeão lá da terrinha chega à I Liga portuguesa e dizem-lhe: «O importante aqui é safarmo-nos, e para isso temos é de não perder, porque não podemos descer de divisão. Quanto a ganhar, vê-se depois.» Ora, isto é uma subversão total do espírito do jogo. É a mesma coisa que dizer ao Rambo: «OK, Rambo, tu estás habituado a matar russos com esferográficas, mas aqui vamos precisar que faças um buraco, que te escondas lá dentro e que não te mexas até os russos passarem todos.»

Ora, um tipo até pode ir à tropa como os outros, mas quando começam a injectar-lhe castradores químicos nas veias o que é que o impede de acabar estendido num quarto de hotel de Nova Iorque com os tomates enfiados na boca? Um futebol em que o principal objectivo da esmagadora maioria dos clubes é arranjar esquemas para fugir à derrota até pode parecer uma coisa natural, mas é uma aberração competitiva. É suposto o campeonato português ser oficialmente um campeonato de castrados? É suposto admirarmos isso, e seguirmos isso, e termos paixão por isso? É suposto isso interessar-nos? A propósito do quê?



A ideia de que o dramatismo cénico da fuga à descida de divisão é o que torna o campeonato interessante está, para mim, como já disse, completamente errada. Porque a ideia de que «sem ser para não descer os jogadores deixam de ter motivação para jogar» também está brutalmente errada.

Dentro de um campo de futebol, como em qualquer campo desportivo, um competidor joga sempre para ganhar. Não é o medo que o move – é o desejo. Sendo que o desejo de ser admirado, de ganhar muito dinheiro, de ter muita atenção, é sempre prioritário em relação à obrigação de jogar à defesa. Um jogador livre é um jogador são. E o que faz com que os clubes grandes sejam, muitas vezes, de facto, melhores que os outros, não é os seus jogadores serem melhores – é terem a oportunidade de jogarem para ganhar e de darem largas à sua ambição natural. É a abordagem ao jogo.



Recorro novamente ao exemplo americano. Independentemente da vertente economicista que essas ligas têm, o facto de não haver descidas de divisão não rouba, de facto, competitividade à competição. Há uma cultura de competição para ganhar que, depois, alimenta o sistema e cria, por seu lado, mais cultura de competição. Evidentemente que há equipas melhores e outras mais fracas, que nem todos os jogos são competitivos (até porque são 30 equipas e jogam, no caso da NBA, por exemplo, 80 jogos em 6 meses), mas a matriz é esmagadoramente mais competitiva, e não está directamente ligada à classificação mas ao jogo em si. Claro que quem tem mais hipóteses de ganhar compete mais arduamente, e que o inverso também se aplica, mas não existe a não-competição que se supõe que existiria por não haver nada a ganhar em termos classificativos.

Os americanos não são diferentes dos portugueses, nem dos suecos, nem dos malianos. Colocado dentro de um campo, com um adversário pela frente, um competidor quer ganhar, sobretudo se estiver convencido de que sabe como o fazer.

Não haver descidas de divisão não retiraria espírito competitivo aos jogadores, simplesmente inverteria a polaridade desse espírito competitivo. Deixaríamos de ter uma competição orientada para a negatividade para passrmos a ter uma competição orientada pela positiva.

E o simples facto de os adeptos perceberem que um jogo de futebol é muito mais um caso de vida que um caso de morte seria, só por si, potencialmente determinante na alteração do estado de espírito belicoso que envolve o futebol em Portugal.

É claro que continuaria a haver rivalidades doentias em Portugal, porque somos portugueses e estamos sempre zangados uns com os outros, mas a doença seria diferente. Não seria para não ser o pior – seria para ser melhor.



(continua)

terça-feira, 13 de março de 2012

A quadratura do esférico (I)

Teoricamente, a melhor maneira de organizar um campeonato é a inglesa. Que é a nossa. Um número tão grande quanto possível de equipas numa divisão superior, em que os mais fracos descem a uma segunda divisão e os mais fortes dessa segunda divisão têm uma oportunidade de virem a ser campeões, neste caso nacionais.

É essa a lógica. Não é «vamos mudar as equipas para ver o que dá». É «toda a gente tem de ter direito a desafiar o campeão e roubar-lhe o estandarte».

É o melhor sistema, em teoria, porque é o mais aberto, o mais justo, em que cada um usa as armas que consegue fabricar ou adquirir para chegar ao objectivo.

O ideal seria, mesmo, que não houvesse limitações. Em termos desportivos, porquê 16? Porquê 20? Porquê 50? Porque não 500? Quanto mais desafiantes enfrentarem o campeão maior é a sua legitimidade, mais glorioso é o seu título. Por isso é que a Taça de Inglaterra era, até há poucos anos, historicamente mais importante, para os ingleses, que o campeonato.

Mas, na prática, a teoria é outra. Depressa se viu que, em termos desportivos, económicos e logísticos, achar o campeão dessa forma, ao contrário de o legitimar, tirava-lhe credibilidade. Com tantas equipas, e com tanta disparidade nas armas, um campeão acabaria por ter a vida mais facilitada ao tentar competir com todos (ainda que indirectamente) do que ao competir só com os melhores. Hiperbolizando, um pouco como o que acontece hoje, em Portugal, entre a Taça e o Campeonato. É muito mais fácil ganhar a Taça que ganhar o Campeonato, apesar de o universo competitivo ser, teoricamente, muitíssimo maior.



Separaram-se, então, os melhores dos segundos melhores, com estes segundos melhores a terem de prestar provas, digamos assim, antes de poderem competir com os melhores. Mas a teoria, na sua essência, mantém-se. Na teoria, nada impede o meu Atlético de ser campeão nacional daqui a dois anos, sendo que há cinco estava na quarta divisão.

É por ser o melhor sistema que o sistema foi adoptado por todos, e não o contrário – ou seja, não é por ter sido adoptado por todos que se tornou o melhor sistema. E isto é importante. A tendência natural do homem para o mimetismo – para imitar o que vê os outros fazer quando vê que têm bons resultados com eles – não é justificativo da qualidade de uma prática. Trocando por miúdos: «E se o teu primo se atirar para dentro de um poço atrás de uma moeda tu vais atrás dele, Miguel?!»



O que é que, na prática, encrava a teoria? Basicamente a economia. E a assumpção de que o desporto tem tanto de desporto como de economia, e que as duas coisas já não são (se é que alguma vez foram) separáveis. Se se tomar um campeonato como uma questão meramente desportiva, o campeonato morre. E o futebol, tal como o conhecemos, morre.



Porque é que, em Inglaterra, na Alemanha, em França, e sobretudo nos países com mais população e com mais dispersão territorial da população e dos recursos, este sistema funciona quase perfeitamente, enquanto que nos países mais pobres, mais desiguais ou com menos gente, como Portugal, cria uma situação de crescente macrocefalia e desigualdade entre os clubes, ficando os ricos cada vez mais ricos e os pobres cada vez mais pobres? Basicamente, porque em Inglaterra e Alemanha, por exemplo, há 50 clubes capazes de meter entre 15 e 30 mil pessoas num estádio de futebol de 15 em 15 dias e em Portugal há 5, se contarmos com o Sporting.

Lá, é possível fazer a renovação da massa crítica e económica. Cá, é impossível. Aliás, mesmo lá, em que qualquer Rio Ave pode (podia…) andar até à ultima a discutir um título, o fenómeno da macrocefalia está com cada vez mais pujança, criando uma clique de emblemas mais poderosos que os outros que hegemonizam a conquista de títulos. Mas aí já é o próprio darwinismo social a ditar regras. O caminho natural do mais apto é ficar acima dos outros. A questão é que, lá, o pode fazer em relativo equilíbrio com o ecossistema, enquanto cá o faz à custa dele, queimando a terra por onde passou. Como os africanos primitivos.



É que, além da questão económica, há outra questão a ter em conta quando se pensa seriamente numa reformulação do quadro competitivo do futebol português.

Em Portugal, Espanha, Itália, prevalece a cultura do clube (e quando digo prevalece não é preto ou branco, é mais preto que branco, sendo que os dois existem), enquanto que, quanto mais se sobe no mapa, mais prevalece a cultura do jogo.

Recorrendo ao conceito de trissomia que já referi neste blog, cá, quando se toma uma decisão, pensa-se primeiro e sobremaneira no que é bom ou mau para clube e depois no que é bom ou mau para o jogo. Lá, sendo também esse o caso (primeiro os clubes, depois o jogo), pensa-se muito mais no interesse do jogo, da actividade em si, e não em quem conjecturalmente a pratica. É mais fácil a um holandês, mesmo com os seus grandes Ajax, Feyenoord, PSV, etc, tomar uma medida contra os clubes a favor do jogo do que a um espanhol.

E isto leva a que, em muitos casos, os clubes consumam o jogo e, mais do que praticá-lo, o depredem em seu benefício. O poder dos clubes aumenta, a saúde do jogo degrada-se. O caso português, novamente, é um bom exemplo.



Qualquer alteração à forma de competição deve ter em conta esse factor cultural, que é fortíssimo. Uma mudança que ponha em causa, de forma artificial e por decreto, os direitos adquiridos pelos principais clubes está sempre condenada ao fracasso. Ninguém aceitaria que Benfica, Porto ou Sporting passassem, de um momento para o outro, a ser iguais (na prática, e não na lei) ao Famalicão, ao Esposende ou ao Vimioso. Nem isso estaria certo, porque o que eles têm ganharam na competição, pagando-os com «sangue, suor e lágrimas» – e também com uma dívida financeira muito jeitosa, acrescente-se, que terá de ser paga.



Por outro lado, é indiscutível que o futebol português, dentro do nosso território, é demasiado pobre, e que os seus profissionais só têm as devidas condições para chegarem ao seu melhor quando saem daqui. Isso é um sinal óbvio que o ambiente competitivo entre fronteiras não é saudável. Há uma indiscutível pestilência permanente no ar. Habituamo-nos ao cheiro, como as pessoas da Idade Média se habituavam ao cheiro da merda atirada pelas janelas para as ruas («Água vai!»), mas todos preferiríamos, creio, não viver assim. E isso implica fazer alguma coisa para mudar, e não ficar sentado à espera que Nosso Senhor desça à Terra ou a rezar para que chova, como disse a outra idiota.

Nem todos são iguais, nem devem ser nivelados de forma artificial, mas tem de haver, pelo menos, mais possibilidades de se dispersar o poder, a ambição, as pequenas vitórias que provoquem novas paixões, e que se faça isso sem uma boavistada – tornando-se mais podre que os podres –, uma arcebispada – parasitando um organismo maior – ou uma sargentada – alargando campeonatos à la gardère, como quem desvaloriza a moeda para se safar quando está à rasca mas comprometendo todo o futuro.



Começando pelo princípio – e tudo isto é o princípio (enfatizo a palavra PRINCÍPIO…): criando uma liga semi-fechada.



Porquê «semi»? Porque não é fechada sempre e a qualquer candidato, nem é de permanência vitalícia.

E porquê «fechada»?

Por quatro factores principais:

1 - O factor Titanic

2 - O factor Carlos Castrado

3 - O factor Pingo Doce

4 - O factor eucalipto



Todos eles temas do próximo post, que será publicado assim que estiver escrito.