sexta-feira, 16 de março de 2012

Heavy Metalist

O sorteio da UEFA foi óptimo para o Benfica, sobretudo na parte em que saiu o Metalist ao Sporting. Se fosse pedido à la carte não teria saído tão bem. Ter o Sporting numa viagem à Ucrânia, saindo de lá na 5.ª feira à noite, com todas as probabilidades de ter de fazer um jogo pleno de esforço e concentração para passar e tendo todas as hipóteses para isso, para depois jogar em Alvalade na 2.ª feira seguinte, sobretudo quando o Benfica joga na 4.ª feira, num pulinho a Londres, é um bónus, na luta pelo título nacional, que nenhum benfiquista esperaria receber.

Se isso será decisivo no Sporting-Benfica. Muito dificilmente. Aliás, quando se fala nestes factores aleatórios deve-se ter sempre em conta que, tendo importância, não terão mais de 10 ou 15 por cento de importância relativa no jogo. Há outros factores que contam muito mais – desde logo da qualidade das equipas às próprias incidências do jogo. Contam muito mais que o eventual cansaço físico e psicológico. Mas esses 10/15 por cento que o cansaço conta nesta equação não são, dentro de uma luta tão equilibrada como a que estamos a assistir, minimamente desprezáveis. Ou seja, não deverá ser pelo cansaço do Sporting que o Benfica irá ganhar a Alvalade, mas pode ser.



Como já está mais que visto por quem vem regularmente ao site, a minha abordagem à Champions é tão pragmática quanto possível. Eu preferia que o Benfica já não estivesse na Liga dos Campeões. Entre ter mais 5 ou 10 por cento de hipóteses de ganhar o campeonato e passar uma eliminatória da Champions (mesmo com o dinheiro e o prestígio consequentes), esta época, sempre escolhi a primeira.

Eu teria preferido que o Benfica tivesse jogado com o Real Madrid nos oitavos-de-final e que a eliminatória tivesse ficado resolvida na 1.ª mão. Tivesse isso acontecido (sempre os ses…) e, provavelmente, hoje o Benfica estaria com o campeonato quase ganho. Como já se tornou evidente, o Benfica não tem, sequer, um plantel suficientemente apto sequer para competir a fundo no campeonato, muito menos tendo de enfrentar equipas com 200 milhões de euros de orçamento às quartas-feiras.



O voluntarismo irracional dos adeptos de futebol é um traço característico, e toca a todos. Toda a gente coloca a crença acima da razão. Senão também não valia a pena existir futebol, toda a gente jogava xadrez, onde não há cartas escondidas nem elementos aleatórios. É claro que só deve haver 5 pessoas no mundo que prefiram jogar xadrez a jogar futebol. Ou 4. Isto falando de pessoas sem handicaps físicos e emocionais graves, claro…

É, por isso, sempre enternecedor ver um benfiquista a admitir que as hipóteses de passagem da eliminatória são de 50/50.

Os factos racionais?

Nenhum jogador de campo do Benfica que tenha jogado frente ao Paços de Ferreira teria lugar, de caras, no onze do Chelsea, e só dois ou três é que teriam lugar na rotação – Luisão, Javi García, Witsel. Garay pode-se incluir neste lote. Os dois que teriam lugar no onze, de facto, já lá estão: David Luiz e Ramires. Este facto, apenas, é suficiente para aquilatar a diferença real de qualidade meramente futebolística entre as duas equipas.

Qualquer das cinco melhores equipas inglesas da actualidade, considerando o Tottenham como a quinta, é superior (e em alguns casos claramente superior) à melhor equipa portuguesa, que é o Porto, e, pela lógica, ainda melhor que a segunda, que é o Benfica. Tomar a eliminatória entre o City e o Sporting como exemplo é claramente errado. O City auto-eliminou, como fica evidente para quem queira ver com olhos de ver – nos 45 minutos em que decidiu que estava a jogar uma eliminatória da UEFA e não apenas a assinar um papel na alfândega o City ganhou 3-0, e chegou a ser constrangedor ver o Sporting a aproveitar cada paragem do jogo para fazer o mesmo papel que o Feirense vai fazer a Alvalade. É muito mais representativa a eliminatória entre o City e o Porto do que esta.



Em termos futebolísticos, Benfica e Chelsea continuam a estar, com ou sem Villas-Boas, com ou sem chicotadas, com ou sem crises, em universos conjecturais diferentes. E nada disto é segredo para ninguém. Diria mesmo que 90 por cento dos adeptos chegariam à mesma conclusão.

Repare-se que não estou a falar do facto de o Benfica vir a dar luta, mas de passar a eliminatória. Luta dá-se sempre, ter hipóteses reais de passagem é outra coisa.



Há três factores que jogam a favor do Benfica num cenário de eventual apuramento.

Jogar em casa a primeira mão é um deles. Receber uma equipa favorita em casa na primeira mão é bom porque estende a eliminatória. O Chelsea tem qualidade mas não tem personalidade – acho que nenhuma equipa inglesa actualmente a tem – para vir jogar à Luz ao ataque sabendo que tem um segundo jogo em casa. E, ao prescindir de entrar logo ao ataque, guardando-o mais para a segunda mão, dá espaço à equipa favorita para tentar equilibrar as forças, equilibrando a abordagem positiva ao jogo. Foi o que aconteceu com o Nápoles. Ao não assumir claramente a sua superioridade em Itália, o Chelsea abriu a porta a uma equipa inferior, e por pouco não foi mesmo à vida.

Outro é a facilidade histórica que o Benfica tem em enfrentar equipas inglesas. Mesmo com alguns resultados muito negativos pelo meio – lembro-me sobretudo dos jogos com o Liverpool, o grande carrasco benfiquista na década de 80 – não há, no conflito de estilos entre o futebol do Benfica e o inglês, uma clivagem tão grande como a que existe com o futebol inglês ou o italiano. Ao contrário do Porto, que tem um estilo muito mecânico e não bate bem com os ingleses, que vivem muito da correria e de um ritmo elevado, o estilo do Benfica, historicamente, tem aquilo a que os britânicos chamam flair, e que pode ser traduzido, grosso modo, como imprevisibilidade. Para o mau, dá em inconstância e elevada falibilidade; para o bom provoca situações incontroláveis pelos sistemas rígidos. Muitas equipas britânicas já sofreram na pele essa capacidade do Benfica em jogar out of the box, digamos assim.Isto não dá uma vantagem ao Benfica, mas equilibra mais as coisas.

Finalmente, penso poder dizer que o Chelsea se dá mal com equipas carismáticas. E isto quer a nível interno quer a nível externo. Não estou, note-se, a falar necessariamente de história. Não é a antiguidade do Benfica nem a sua dimensão histórica superior que colocarão problemas ao Chelsea. É a sua personalidade.

O forte do Benfica não é a ciência, é a mística. O carisma. O forte do Chelsea não é o carisma, é a ciência. O Chelsea, como clube internacional, é um clube emocionalmente amputado. Falta-lhe alma. É, no fundo, um clube pequeno num corpo grande – ao contrário de um City, de grande índole popular, de um Tottenham, de um Arsenal, mesmo de um Everton e alguns outros. O Chelsea é um clube tecnocrático. O Benfica é um clube democrático. Tal como o Nápoles. O Benfica, o Nápoles, o Valência, só para falar em alguns que esta época colocaram grandes dificuldades ao Chelsea apesar do claro desnível qualititativo, têm esse carisma que Abramovich não pode comprar. Não há, neles, nada de artificial. No Benfica, pelo contrário, o que há é uma lacuna de artificialidade, de técnica, de ciência que enquadre a alma. O Benfica, exactamente ao contrário do Chelsea, tem uma alma maior do que o seu corpo. Alguém que tente explicar a um benfiquista que o Benfica deveria abordar a eliminatória de forma cautelosa, pela lógica. Isso, no Benfica, não existe. Até eu, que sou um cabeça de ovo, sinto que, lá no fundo, se quisermos mesmo, e mesmo contra o que seria mais útil, ATÉ OS COMEMOS!!!

Só por isso, mesmo sabendo que ao Benfica não restarão mais de 25 por cento de hipóteses de chegar às meias-finais da Champions, será muito interessante assistir a esta eliminatória.



Quanto ao resto, fico satisfeito. Acho fraquinho andar na Champions e querer jogar com o ZENIT, com o APOEL, com o Marselha e ganhar a final a um Mónaco qualquer. Qual é a diferença entre estar na Champions e estar na Liga Europa se, depois, não se joga contra os realmente grandes? Já para não dizer que ser eliminado por um Chelsea é claramente diferente de ser eliminado por um Marselha ou por um APOEL.

quinta-feira, 15 de março de 2012

A Quadratura do Esférico (III)

O Factor Pingo Doce



Quando o tipo da Jerónimo Martins foi à TV explicar porque tinha mudado a sede para a Holanda (depois dos outros 29 PSI20’s terem feito o mesmo pela calada da noite e sem dar cavaco a ninguém) disse, basicamente, três coisas:

- Que não ia pagar menos impostos (o que é quase verdade);

- Que lá tinha mais crédito (o que é treta);

- E que não podia gerir um negócio sem saber se, daí por um ano, Portugal ainda ia estar no euro (o que é completamente razoável e, de resto, o único argumento válido).



Considerando que os clubes são, hoje, sem dúvida, entidades económicas, quer tenham ou não estatuto jurídico de SAD, a minha questão é apenas esta:

- como é que se pode pedir a qualquer gestor de clube em Portugal que faça um trabalho profissional, competente e de médio/longo prazo se, a qualquer momento, e de um ano para o outro (já para não dizer de Maio para Agosto), por causa de uma bola na trave no último jogo de campeonato, pode passar de uma receita potencial de 1 milhão de euros para uma receita máxima de 100 mil euros?



Dizem que os dirigentes do futebol são uns irresponsáveis, em grande parte é muita verdade, mas se fossem responsáveis sabem o que seria a I Liga portuguesa? 14 ou 15 clubes a jogarem com sub-21 portugueses, brasileiros e ganeses, porque um gestor realmente responsável conta com o pior cenário, e o pior cenário neste caso seria passar dois ou três anos na I Liga a ganhar dinheiro suficiente para, no caso de descerem de divisão, terem dinheiro no banco suficiente para sobreviverem mais 10 ou 15 anos sem deixar dívidas a jogadores, fornecedores e bancos.



Não sei se há algum negócio no mundo que sobreviva a uma lógica económica em que o risco de ter uma quebra de receitas de 500 ou 600 por cento de um ano para o outro seja um factor de cálculo permanente.

É, simplesmente, ridículo.



Impor um sistema de rotatividade permanente na I Liga é impor o aspecto desportivo ao aspecto económico, e em economias mais ricas isso não é forçosamente problemático, mas na economia portuguesa, e à escala do futebol em Portugal, com as especificidades do futebol português, é irracional e dramático.

Arrisco dizer que nem sequer é uma questão de escolha – é uma questão de sobrevivência.



Outra questão igualmente importante:

- que garantia pode um gestor de clube a um patrocinador ou a investidor se nem sequer pode garantir que, daí por um ano, ainda vai jogar com Benfica, Porto ou Sporting e ter jogos vistos na televisão?

Na verdade, o que é que um dirigente de um Feirense ou de um Setúbal tem para vender? Oito meses garantidos?

Quando se pensa nisto de um ponto de vista económico é uma verdadeira loucura.

Os únicos 4 clubes em Portugal actualmente com verdadeiro poder negocial são Benfica, Porto, Sporting e Braga. Porquê? Porque são os únicos que podem dizer aos seus parceiros económicos (e contar com isso nos orçamentos plurianuais) que não vão parar á egunda divisão. O Gumarães, que é o Guimarães, este ano esteve por um fio. Se não tivesse tido alguma sorte com a chicotada psicológica, da maneira que aquilo está, hoje seria um dos candidatos à descida.



Eu arrisco dizer que o futebol português tem vários problemas económicos estruturais, todos solúveis com o tempo, mas há um de entre esses problemas que torna o negócio, na prática, inviável. Esse problema basilar é o de haver descidas de divisão.



Pelo contrário, se um clube como o Setúbal pudesse garantir que, pelo menos durante dez anos, não viria a cair na II Divisão, todo o seu contexto económico seria potencialmente diferente. Claro que poderia continuar a ser vítima de maus gestores, mas saber-se-ia, então, que são de facto maus gestores, e não apenas bons gestores colocados perante um negócio impossível de conduzir.



O Factor Eucalipto



O Factor Eucalipto decorre da mesma lógica que o Factor Pingo Doce, mas não se aplica apenas à vertente económica.

Actualmente, os pequenos clubes em Portugal são recursos de consumo rápido. Basicamente, a sua utilidade real é a de fazer de figurante nos jogos que permitem aos grandes fazer receitas televisivas, de bilheteira e outras para depois poderem aparecer na Europa e digladiar-se entre si. Os clubes pequenos são descartáveis. São eucaliptos. Planta-se, bebem a aguinha toda em redor, deitam-se abaixo, faz-se pasta de papel, consome-se e vêm outros a seguir.

O problema disto é que, no fim, só há eucaliptos, tornam-se uma praga, Ora, Portugal não é um país de eucaliptos – é país de árvores de raízes profundas. Oliveiras, sobreiros, castanheiros… Árvores com personalidade. Com carisma. Com mística. E ainda bem.



Um clube de futebol precisa de tempo para deitar raízes, e o futebol português também. Como qualquer outro, tem de ter condições para criar tradições, rivalidades, mitologias. Isso não se consegue com objectos descartáveis, e só se consegue com tempo e com estabilidade. Com continuidade. Aqui, em Itália, em Inglaterra, na América ou na China.

Este será o factor menos objectivo dos quatro que apontei, mas não me parece que seja menos importante. Há clubes em Portugal que podem, com estabilidade económica e estabilidade desportiva, estabelecer uma ligação forte à população das suas terras. Clubes hoje caídos em desgraça, como o Chaves, o Farense, o Salgueiros e outros, têm um potencial de implantação cultural igual a um Marítimo, a um Setúbal, e estes, por seu lado, com os mesmos factores de estabilidade, poderiam ascender a um grau de importância maior, que, não sendo comparável ao dos grandes, seria suficiente para criar uma verdadeira classe média no futebol português, e dar-lhe uma base demográfica e territorial que o fortalecesse. Dar-lhe um corpo organicamente estável.

O que há hoje é, na prática, três reis, dois camelos e um deserto. (Sim, um dos reis vai a butes…)



Perante isto, há a questão óbvia: sendo assim, sem descidas, como é que deveria ser a I Liga portuguesa, e quem é que jogaria?

É a resposta que vou ensaiar no próximo post – ou no outro a seguir, uma vez que amanhã há dos jogos relativamente importantes cá para o pessoal…

quarta-feira, 14 de março de 2012

A Quadratura do esférico (II)

O factor Titanic



O naufrágio do Titanic pode ser lido de muitas e muito interessantes maneiras.

Que não há empresa grande demais para falhar, por exemplo. (E se pensou que o «too big to fail» tinha ficado pelo Titanic aí estão a Goldman-Sachs e a maior crise financeira de sempre a provarem o contrário…)

Ou que, se na morte somos todos iguais, mesmo num naufrágio no meio do Atlântico Norte há uns mais iguais que outros – os pobres, que eram a maioria a bordo, morreram praticamente todos e os que se safaram eram maioritariamente ricos.

Mas há uma lição especialmente útil para o nosso caso: se pusermos 3 mil pessoas num barco, em mar alto, e o barco começar a afundar, ricos e pobres transformam-se em meros seres humanos, mortais e egoístas, e o que se parecia com uma ordem social aceite por todos e regrada por comportamentos éticos consensuais rapidamente se transforma num salve-se quem puder. Instala-se o caos.



Para um clube de futebol português, descer da primeira para a segunda divisão assemelha-se perigosamente a um naufrágio de dimensões incontroláveis. Não é apenas uma questão desportiva – aliás, a questão desportiva é a menor. É uma questão de sobrevivência económica, e usar a palavra «sobrevivência» não fica fora de contexto. Quantos clubes considerados históricos e importantes no tecido futebolístico português já não se extinguiram ou passaram, na prática, à irrelevância, por descerem de divisão? Há muitos casos, fáceis de identificar, e a última ameaça (a maior de todas) é precisamente a do Belenenses, de facto o quarto maior clube português em termos históricos, que está em risco de cair para a II B e de desaparecer. Basta-lhe ter de vender o Estádio para pagar as dívidas e acaba em dez anos.

Todos os dirigentes dos clubes pequenos sabem desse potencial de extinção que enfrentam no caso de descida de divisão.



A importância económica de uma descida, já para não ir à vertente desportiva, é tal que torna o ambiente propício ao «salve-se quem puder». Num ambiente pútrido como é o do futebol português, esse «salve-se quem puder» pode assumir contornos escabrosos.

Para terem o direito de estar na I Liga – e, na maior parte das vezes, sem outro real objectivo que não esse, apenas o estar, sem ter sequer a ambição ou a possibilidade de jogar na Europa, o que também se pode revelar desastroso – os clubes que lutam para não descer (70 por cento da I Liga) e os que lutam para subir (50 por cento da II Liga) estão dispostos a tudo.

Prometem o que têm e o que não têm, não pagam salários para pagarem prémios de jogo ou para não pagarem de todo, endividam-se, vendem tudo o que podem e enveredam por todo o tipo de comportamento anti-ético, desde o mero anti-jogo, em campo, à pura e dura corrupção, fora dele.

Não tenho dúvida absolutamente nenhuma de que, se o fruto proibido do sistema de corrupção e tráfico de influências encabeçado pelo Porto e Boavista nos anos 90 e 2000 era o título nacional, a seiva que o mantinha viçoso era a luta pela permanência ou pela subida à I Divisão. Os pequenos clubes alimentaram esse sistema, e entranharam-se nele de tal forma que, a certo ponto, ninguém ganhava nada em sair e aceitava as suas regras como única forma de alcançar objectivos desportivos. No livro do Marinho Neves, por exemplo, fica bem explícita a peregrinação que os dirigentes dos pequenos clubes tinham de fazer ao clube nocturno do Reinaldo Teles para pedirem batatinhas ou para tratarem das suas negociatas.

A inexistência de descidas e subidas não implicaria, directamente, o fim da corrupção – em todos os jogos há quem prefira fazer batota, seja o que for que esteja em jogo – mas seria um forte factor de desmobilização, simplesmente porque a principal motivação para subverter ilicitamente as regras desapareceria.

Estou firmemente convencido de que poucas coisas contribuiriam mais para a quase erradicação da corrupção no futebol português do que o fim (ou a reforma) do sistema de subidas e descidas de divisão. E se formos a Espanha, por exemplo, para não seguirmos por aí fora até Itália, vemos que a envolvente é precisamente igual.

Aponto a importância sobredimensionada da permanência na I Liga para a vida de um clube português como o principal factor de corrupção, da crise económica instalada e da perversão do espírito de lealdade do jogo no futebol em Portugal. Mais do que a cultura desportiva ou a exiguidade do território, que são, admissivelmente, também favoráveis ao desenvolvimento de um espírito de clandestinidade e apadrinhamentos.



E quanto maior se torna o fosso de receitas entre I e II Liga maior é o potencial do desastre.

Só neste contexto, aliás, se percebe que os clubes pequenos utilizem, primeiro, as eleições da Liga, e depois a própria continuidade do campeonato, como factores de chantagem política.

Enquanto existir o «salve-se quem puder», em Portugal, vale tudo para manter a cabeça fora de água. Sendo que tudo é tudo o que já foi inventado e tudo o que a prodigiosa criatividade lusitana ainda for capaz de inventar.



O factor Carlos Castrado



Este está ligado ao factor Titanic.



Em cerca de 80 por cento dos jogos do campeonato os jogadores jogam para não perder. E isto é dramático, para a saúde do futebol português, não tanto por os jogadores jogarem para não perder mas mais por os jogadores NÃO QUEREREM jogar para não perder. Jogam porque são industriados para isso, por tudo e todos os que o envolvem, de dirigentes a treinadores, que sabem que o único objectivo real é precisamente não descer de divisão.

Nenhum jogador joga futebol para não perder. Todos os jogadores jogam futebol para ganhar. Isso é verdade quando começam a jogar à bola na rua e continua a ser verdade quando chegam a profissionais.

Um futebolista profissional é-o, muito mais que por tentar não ser pior que os outros, porque tem uma aptidão natural para ser melhor que os outros. Qualquer pessoa que conheça o futebol sabe que os que chegam lá acima são a elite. Qualquer jogador que esteja na primeira divisão, por mais suplente que seja era, na esmagadora maioria dos casos, a estrela ou uma das estrelas das suas equipas em jovem. Era o melhor, em Ipiritanguari ou nas Caxinas.

De repente, o campeão lá da terrinha chega à I Liga portuguesa e dizem-lhe: «O importante aqui é safarmo-nos, e para isso temos é de não perder, porque não podemos descer de divisão. Quanto a ganhar, vê-se depois.» Ora, isto é uma subversão total do espírito do jogo. É a mesma coisa que dizer ao Rambo: «OK, Rambo, tu estás habituado a matar russos com esferográficas, mas aqui vamos precisar que faças um buraco, que te escondas lá dentro e que não te mexas até os russos passarem todos.»

Ora, um tipo até pode ir à tropa como os outros, mas quando começam a injectar-lhe castradores químicos nas veias o que é que o impede de acabar estendido num quarto de hotel de Nova Iorque com os tomates enfiados na boca? Um futebol em que o principal objectivo da esmagadora maioria dos clubes é arranjar esquemas para fugir à derrota até pode parecer uma coisa natural, mas é uma aberração competitiva. É suposto o campeonato português ser oficialmente um campeonato de castrados? É suposto admirarmos isso, e seguirmos isso, e termos paixão por isso? É suposto isso interessar-nos? A propósito do quê?



A ideia de que o dramatismo cénico da fuga à descida de divisão é o que torna o campeonato interessante está, para mim, como já disse, completamente errada. Porque a ideia de que «sem ser para não descer os jogadores deixam de ter motivação para jogar» também está brutalmente errada.

Dentro de um campo de futebol, como em qualquer campo desportivo, um competidor joga sempre para ganhar. Não é o medo que o move – é o desejo. Sendo que o desejo de ser admirado, de ganhar muito dinheiro, de ter muita atenção, é sempre prioritário em relação à obrigação de jogar à defesa. Um jogador livre é um jogador são. E o que faz com que os clubes grandes sejam, muitas vezes, de facto, melhores que os outros, não é os seus jogadores serem melhores – é terem a oportunidade de jogarem para ganhar e de darem largas à sua ambição natural. É a abordagem ao jogo.



Recorro novamente ao exemplo americano. Independentemente da vertente economicista que essas ligas têm, o facto de não haver descidas de divisão não rouba, de facto, competitividade à competição. Há uma cultura de competição para ganhar que, depois, alimenta o sistema e cria, por seu lado, mais cultura de competição. Evidentemente que há equipas melhores e outras mais fracas, que nem todos os jogos são competitivos (até porque são 30 equipas e jogam, no caso da NBA, por exemplo, 80 jogos em 6 meses), mas a matriz é esmagadoramente mais competitiva, e não está directamente ligada à classificação mas ao jogo em si. Claro que quem tem mais hipóteses de ganhar compete mais arduamente, e que o inverso também se aplica, mas não existe a não-competição que se supõe que existiria por não haver nada a ganhar em termos classificativos.

Os americanos não são diferentes dos portugueses, nem dos suecos, nem dos malianos. Colocado dentro de um campo, com um adversário pela frente, um competidor quer ganhar, sobretudo se estiver convencido de que sabe como o fazer.

Não haver descidas de divisão não retiraria espírito competitivo aos jogadores, simplesmente inverteria a polaridade desse espírito competitivo. Deixaríamos de ter uma competição orientada para a negatividade para passrmos a ter uma competição orientada pela positiva.

E o simples facto de os adeptos perceberem que um jogo de futebol é muito mais um caso de vida que um caso de morte seria, só por si, potencialmente determinante na alteração do estado de espírito belicoso que envolve o futebol em Portugal.

É claro que continuaria a haver rivalidades doentias em Portugal, porque somos portugueses e estamos sempre zangados uns com os outros, mas a doença seria diferente. Não seria para não ser o pior – seria para ser melhor.



(continua)

terça-feira, 13 de março de 2012

A quadratura do esférico (I)

Teoricamente, a melhor maneira de organizar um campeonato é a inglesa. Que é a nossa. Um número tão grande quanto possível de equipas numa divisão superior, em que os mais fracos descem a uma segunda divisão e os mais fortes dessa segunda divisão têm uma oportunidade de virem a ser campeões, neste caso nacionais.

É essa a lógica. Não é «vamos mudar as equipas para ver o que dá». É «toda a gente tem de ter direito a desafiar o campeão e roubar-lhe o estandarte».

É o melhor sistema, em teoria, porque é o mais aberto, o mais justo, em que cada um usa as armas que consegue fabricar ou adquirir para chegar ao objectivo.

O ideal seria, mesmo, que não houvesse limitações. Em termos desportivos, porquê 16? Porquê 20? Porquê 50? Porque não 500? Quanto mais desafiantes enfrentarem o campeão maior é a sua legitimidade, mais glorioso é o seu título. Por isso é que a Taça de Inglaterra era, até há poucos anos, historicamente mais importante, para os ingleses, que o campeonato.

Mas, na prática, a teoria é outra. Depressa se viu que, em termos desportivos, económicos e logísticos, achar o campeão dessa forma, ao contrário de o legitimar, tirava-lhe credibilidade. Com tantas equipas, e com tanta disparidade nas armas, um campeão acabaria por ter a vida mais facilitada ao tentar competir com todos (ainda que indirectamente) do que ao competir só com os melhores. Hiperbolizando, um pouco como o que acontece hoje, em Portugal, entre a Taça e o Campeonato. É muito mais fácil ganhar a Taça que ganhar o Campeonato, apesar de o universo competitivo ser, teoricamente, muitíssimo maior.



Separaram-se, então, os melhores dos segundos melhores, com estes segundos melhores a terem de prestar provas, digamos assim, antes de poderem competir com os melhores. Mas a teoria, na sua essência, mantém-se. Na teoria, nada impede o meu Atlético de ser campeão nacional daqui a dois anos, sendo que há cinco estava na quarta divisão.

É por ser o melhor sistema que o sistema foi adoptado por todos, e não o contrário – ou seja, não é por ter sido adoptado por todos que se tornou o melhor sistema. E isto é importante. A tendência natural do homem para o mimetismo – para imitar o que vê os outros fazer quando vê que têm bons resultados com eles – não é justificativo da qualidade de uma prática. Trocando por miúdos: «E se o teu primo se atirar para dentro de um poço atrás de uma moeda tu vais atrás dele, Miguel?!»



O que é que, na prática, encrava a teoria? Basicamente a economia. E a assumpção de que o desporto tem tanto de desporto como de economia, e que as duas coisas já não são (se é que alguma vez foram) separáveis. Se se tomar um campeonato como uma questão meramente desportiva, o campeonato morre. E o futebol, tal como o conhecemos, morre.



Porque é que, em Inglaterra, na Alemanha, em França, e sobretudo nos países com mais população e com mais dispersão territorial da população e dos recursos, este sistema funciona quase perfeitamente, enquanto que nos países mais pobres, mais desiguais ou com menos gente, como Portugal, cria uma situação de crescente macrocefalia e desigualdade entre os clubes, ficando os ricos cada vez mais ricos e os pobres cada vez mais pobres? Basicamente, porque em Inglaterra e Alemanha, por exemplo, há 50 clubes capazes de meter entre 15 e 30 mil pessoas num estádio de futebol de 15 em 15 dias e em Portugal há 5, se contarmos com o Sporting.

Lá, é possível fazer a renovação da massa crítica e económica. Cá, é impossível. Aliás, mesmo lá, em que qualquer Rio Ave pode (podia…) andar até à ultima a discutir um título, o fenómeno da macrocefalia está com cada vez mais pujança, criando uma clique de emblemas mais poderosos que os outros que hegemonizam a conquista de títulos. Mas aí já é o próprio darwinismo social a ditar regras. O caminho natural do mais apto é ficar acima dos outros. A questão é que, lá, o pode fazer em relativo equilíbrio com o ecossistema, enquanto cá o faz à custa dele, queimando a terra por onde passou. Como os africanos primitivos.



É que, além da questão económica, há outra questão a ter em conta quando se pensa seriamente numa reformulação do quadro competitivo do futebol português.

Em Portugal, Espanha, Itália, prevalece a cultura do clube (e quando digo prevalece não é preto ou branco, é mais preto que branco, sendo que os dois existem), enquanto que, quanto mais se sobe no mapa, mais prevalece a cultura do jogo.

Recorrendo ao conceito de trissomia que já referi neste blog, cá, quando se toma uma decisão, pensa-se primeiro e sobremaneira no que é bom ou mau para clube e depois no que é bom ou mau para o jogo. Lá, sendo também esse o caso (primeiro os clubes, depois o jogo), pensa-se muito mais no interesse do jogo, da actividade em si, e não em quem conjecturalmente a pratica. É mais fácil a um holandês, mesmo com os seus grandes Ajax, Feyenoord, PSV, etc, tomar uma medida contra os clubes a favor do jogo do que a um espanhol.

E isto leva a que, em muitos casos, os clubes consumam o jogo e, mais do que praticá-lo, o depredem em seu benefício. O poder dos clubes aumenta, a saúde do jogo degrada-se. O caso português, novamente, é um bom exemplo.



Qualquer alteração à forma de competição deve ter em conta esse factor cultural, que é fortíssimo. Uma mudança que ponha em causa, de forma artificial e por decreto, os direitos adquiridos pelos principais clubes está sempre condenada ao fracasso. Ninguém aceitaria que Benfica, Porto ou Sporting passassem, de um momento para o outro, a ser iguais (na prática, e não na lei) ao Famalicão, ao Esposende ou ao Vimioso. Nem isso estaria certo, porque o que eles têm ganharam na competição, pagando-os com «sangue, suor e lágrimas» – e também com uma dívida financeira muito jeitosa, acrescente-se, que terá de ser paga.



Por outro lado, é indiscutível que o futebol português, dentro do nosso território, é demasiado pobre, e que os seus profissionais só têm as devidas condições para chegarem ao seu melhor quando saem daqui. Isso é um sinal óbvio que o ambiente competitivo entre fronteiras não é saudável. Há uma indiscutível pestilência permanente no ar. Habituamo-nos ao cheiro, como as pessoas da Idade Média se habituavam ao cheiro da merda atirada pelas janelas para as ruas («Água vai!»), mas todos preferiríamos, creio, não viver assim. E isso implica fazer alguma coisa para mudar, e não ficar sentado à espera que Nosso Senhor desça à Terra ou a rezar para que chova, como disse a outra idiota.

Nem todos são iguais, nem devem ser nivelados de forma artificial, mas tem de haver, pelo menos, mais possibilidades de se dispersar o poder, a ambição, as pequenas vitórias que provoquem novas paixões, e que se faça isso sem uma boavistada – tornando-se mais podre que os podres –, uma arcebispada – parasitando um organismo maior – ou uma sargentada – alargando campeonatos à la gardère, como quem desvaloriza a moeda para se safar quando está à rasca mas comprometendo todo o futuro.



Começando pelo princípio – e tudo isto é o princípio (enfatizo a palavra PRINCÍPIO…): criando uma liga semi-fechada.



Porquê «semi»? Porque não é fechada sempre e a qualquer candidato, nem é de permanência vitalícia.

E porquê «fechada»?

Por quatro factores principais:

1 - O factor Titanic

2 - O factor Carlos Castrado

3 - O factor Pingo Doce

4 - O factor eucalipto



Todos eles temas do próximo post, que será publicado assim que estiver escrito.

segunda-feira, 12 de março de 2012

Champions para toda a gente

Havia 5 equipas envolvidas na luta para não descer. Paços de Ferreira, Beira-Mar, Setúbal, Feirense e Leiria. Destas, o Benfica jogaria com Beira-Mar e Leiria em casa e Setúbal fora, na última jornada. O Porto com Paços, fora, e Beira-Mar, em casa. O Braga com Feirense e Paços, fora, e com o Beira-Mar, em casa.
Teoricamente, o Braga ganha com a decisão do alargamento. Depois o Benfica. Finalmente o Porto.

Por outro lado, considerando que o Porto vai à frente de um campeonato que muda as regras a meio, e que é como se outro campeonato começasse a partir de agora, acho difícil que o Porto – que não parte do zero, entenda-se, mas do «+1» – possa ter razões de queixa.



No entanto, acho precipitado, por um lado, que se considere que vamos assistir a um mini-campeonato dentro do campeonato nas próximas oito jornadas, e por outro que se considere que a vida dos três candidatos fique facilitada pela ausência de pressão sobre as equipas até agora em risco de descer.

Fazer isso é partir do princípio que qualquer equipa joga melhor sob pressão. Muuuito precipitado…

Podemos presumir que uma equipa defenda mais o ponto se precisar dele, mas, por outro lado, não sabemos até que ponto é que a liberdade ofensiva pode dificultar a vida aos seus adversários.

O Paços, por exemplo. Depois de ver o jogo de ontem, alguém tem dúvida de que os melhores jogadores do Paços estão no ataque? O Porto vai jogar da mesma forma que jogaria, pois precisa dos três pontos, mas terá um Paços que, por um lado, já não precisa do resultado, mas que, por outro, joga com um grande, debaixo dos holofotes. O mesmo que o Porto encontrará na Madeira, afinal, com o Nacional.

Pensemos nisto: qual é a principal motivação para qualquer jogador abaixo do quarto lugar do campeonato? Não descer de divisão? É claro que há a parte do brio pessoal, mas, na prática, o que é que qualquer jogador quer, além de receber ao fim do mês?

Um contrato.

E, até boa amostra em contrário, tal como os jogadores dos grandes conseguem bons contratos a mostrar-se na Europa, os jogadores dos pequenos conseguem bons contratos a mostrar-se contra os grandes. É a sua Champions.



Há algum facto demonstrável, científico, digamos assim, além das meras suposições, de que uma equipa seja mais perigosa para o adversário a jogar com pressão do que sem pressão? Qualquer equipa? Seria preciso fazer um levantamento de todos os resultados, por exemplo, dos últimos 20 anos, em jogos entre equipas pressionadas para não descer e candidatos ao título, mas, à partida, do que me lembro, acho que é uma suposição algo forçada. Uma ideia feita.



Essa certeza de que tem de haver uma pressão negativa para haver competitividade na metade de baixo da tabela – uma ideia que sustenta as teorias de que «tem de haver descidas para haver interesse» – é, quanto a mim, um mito. Entre jogadores profissionais o que conta é a carreira. Alguém duvida que, para o Melgarejo, seja muito melhor jogar com o Porto para mostrar o que vale do que para evitar que o Paços desça de divisão? Ou para qualquer jogador do Leiria, que está desejoso de se ver livre daquilo? Se o Paços descer, para o ano, os melhores jogadores estão todos a jogar numa primeira divisão qualquer, a portuguesa ou outra. O romantismo é bonito, mas o Michel, na prática, está-se borrifando para o Paços, o que ele quer é aproveitar os poucos anos que tem de carreira para chegar a um clube maior e ganhar dinheiro.



Eu sou contra as descidas de divisão. Na minha opinião, só trazem negatividade ao jogo. Mudam facilmente o foco da possibilidade de vitória, que é a essência do futebol, para a fuga dramática à derrota, resultando quer numa defesa excessiva do empate quer na castração do instinto natural de cada jogador, desde miúdo, que é o de jogar para ganhar, como animal competitivo e egocêntrico que é.



No desporto americano não há descidas de divisão, e desafio seja quem for a apontar à NFL, por exemplo, ou à NBA, algum défice de competitividade, sobretudo quando as equipas mais fracas e sem hipóteses de apuramento para o Play-off jogam contra outras que estão na luta. E outra coisa: lá, só há um campeão e um lugar de consolação (o de finalista, que é campeão de conferência). Ou seja, são dois lugares vitoriosos para 30 equipas. Mas a competitividade, mesmo pelas equipa medianas, que nenhumas hipóteses têm de serem campeãs, é brutal. Porque a cultura é de vitória, não de empate, e o foco é na vitória, não na não-derrota – aliás, lá não existe sequer a hipótese de empate, ou se ganha ou se perde.



O campeonato português não devia ter descidas de divisão – e se estão a perguntar-se «então e continuam a subir duas por ano até haver 100 equipas na I Liga?», a resposta é não. A Liga deveria ser fechada. E amanhã explico melhor qual seria a minha proposta.



Para já, em relação ao tema principal deste post, em coerência com o que acabei de dizer, não, não acho que alguém tire algum benefício das regras terem mudado a meio curso.

domingo, 11 de março de 2012

Mata surreal

O que teria uma equipa madura e completa feito hoje na Mata Real?

Teria aproveitado o momento do jogo em que o adversário lhe permitiu ganhá-lo, ou seja, os primeiros 25 minutos, em que, graças à capacidade de Saviola e Bruno César jogarem entre linhas, teve tempo e espaço para marcar não um mas vários golos. Porquê uma equipa madura? Porque só uma equipa madura consegue ver o jogo tal como ele está a decorrer, e não como ele deveria decorrer, e porque só uma equipa madura, vendo as condições em que este jogo estava a ser jogado, perceberia que, mais do que atacar em velocidade, teria sido eficiente jogar com um pouco mais de calma e resolver as coisas tecnicamente, acertando bem os passes, chegando ao remate em boas condições. Uma equipa madura, com cabecinha, teria tido não cinco ou seis oportunidades nesses 25 minutos mas uma ou duas, e numa delas teria feito o golo. É uma questão simples de cérebro ou falta dele.

Teria, no caso de isso não ter resultado, percebido que, após os primeiros 5 minutos da segunda parte, teria de gastar outros 5 minutos a recolocar o jogo nas condições que lhe permitissem a vitória. Fez exactamente o contrário. Entrou numa corrida a pé com o Paços de Ferreira, perdendo a vantagem técnica que teria SE soubesse adoptar uma estratégia que lhe permitisse colocar a contenda nesses termos.

Após o 2-1, com o jogo completamente aberto, teria procurado situações de futebol apoiado – pelo menos 3 jogadores num quadrado imaginário com 5 metros de lado, com bola no pé, de maneira a poder pressionar imediatamente a bola se a perdesse – e procurando o contacto para provocar a falta. A precisar de marcar, o mais importante para uma equipa é como tratar da bola. A precisar de defender, o mais importante é como tratar o espaço. Passa a ser um jogo territorial. Porque nem se marca golos sem bola nem se sofre golos de baliza a baliza. O Benfica continuou a jogar como se estivesse empatado, na correria.

Após a expulsão, acabou o jogo. Permitir o empate nessa situação, frente a uma equipa inevitavelmente cansada e desmoralizada, teria sido o cúmulo da estupidez. Caraças, quanto mais não fosse permitir um remate teria sido idiota. E o que é que o Benfica faz?
Faltas. Abriu ao Paços a única porta que poderia ter para marcar um golo, dando-lhe a vantagem territorial. Pobre.

Fintas em vez de passes, maus controlos de bola, más opções, jogadores que não aparecem para receber a bola quando são precisos, jogadores a ocupar os espaços de outros, incapacidade de manter uma linha de jogo coerente, sobretudo na primeira parte. Alguma coisa de novo em relação ao que se passava em Outubro? Só o resultado. Mas o resultado não é causa, é consequência. E analisar o jogo considerando o resultado é o erro que faz com que, mais tarde, o resultado também não venha.

A coisa acabou bem? Acabou perfeitamente. Há algum benfiquista que não esteja contente? Não. Podia ter acabado de maneira muito diferente? Sem dúvida. Pode sempre, claro, mesmo quando se faz tudo bem feito. Mas hoje podia MESMO. Bastava ter entrado aquela do Melgarejo, aquela do Michel, etc, etc, etc.

Se perguntarem ao Jesus, ou a qualquer benfiquista mais aliviado, como é o Benfica ganhou, hoje, um jogo que aos 60 minutos estava perdido, todos terão uma resposta para dar. Mas é mentira. Ninguém sabe. Hoje, houve pequeno milagre, não só pela forma como aconteceu como pelo momento em que aconteceu.


Notas finais:

- vendo Capdevilla a jogar, é pura fantasia ter Emerson a titular do Benfica. O que Capdevilla poderá, eventualmente, não ter em resistência física, compensa largamente na abordagem ao jogo. Não há aflição quando tem a bola nos pés, não compromete a equipa com opções idiotas, sabe o que fazer, sabe quando o pode fazer, e não parece ter a ilusão de Emerson em ser Roberto Carlos, algo que teria evitado muitos dissabores ao Benfica ao longo da época. Jesus vai voltar a pôr Emerson na próxima jornada. E voltará a fazer mal. Capdevilla, um defesa-esquerdo mediano, é, ainda assim, o melhor defesa-esquerdo do Benfica.

- Jardel, com bola, é um risco permanente. Como Emerson. O melhor defesa que já conheci foi o Zidane. Porquê? Porque dali ela só saía com bom destino.

- não comecem já a ter orgasmos como Melgarejo. Melgarejo tem jogado com frequência, está com a pedalada toda, tem uma equipa a jogar para ele, em contra-ataque, com espaço, e não tem absolutamente pressão nenhuma em cima. Este não é o Melgarejo do Benfica. O Melgarejo do Benfica teria uma oportunidade de três em três semanas para jogar, durante 20 ou 30 minutos. Não teria ritmo de jogo, pelo que tudo o que dependesse da sua velocidade (que é a base do seu jogo) ficaria muito afectado, e teria de ser pelos fundamentos que ele ganharia um lugar na equipa. Jogaria sempre com pouco espaço. E teria uma tonelada de pressão em cima, porque no Benfica ninguém lhe iria pagar para atirar bolas ao poste mas para marcar golos e ganhar jogos.

- o Nélson Oliveira continua a pensar que a forma de marcar golos é atirar-se para o chão. Ridículo. Multinha por cada mergulho, que aprende logo, porque ou ninguém lhe explica ou, se alguém explica, ele não entende.

- ver o Cardozo a pedir centros para a área, a jogar contra nove, a dois minutos do fim e a ganhar por 2-1, define a inteligência e a concentração de um jogador no objectivo colectivo. Qual é a palavra, mesmo? Ah, sim. Ridículo.


Última palavra: será… a estrelinha?

Bwin - o regresso

Já não sei bem em quanto é que vai a conta corrente mas sei que nas últimas duas semanas só acertei um resultado em quase 20 jogos. No fim desta jornada faço as contas. Para já, as apostas:



Rio Ave – Setúbal

Continuo a achar que o Setúbal e o Leiria vão descer. O jogo mais fácil do Setúbal foi o do Sporting. Contra o Rio Ave será bem mais complicado, e não me parece que passe.

O Rio Ave ganha e ganha por mais de um golo de diferença.

4 euros a 3.60.



Olhanense – Nacional

O Olhanense é, juntamente com o Feirense, a equipa com mais empates na I Liga. Está segura. O Nacional está, claramente, a subir, e também já está a jogar à vontade. Potencialmente, tem melhor equipa que o Olhanense. Nesta jornada ainda só houve um empate. Tudo junto, cheiram-me a X.

5 euros no empate a 3.00.



Beira-Mar – Gil Vicente

Duas equipas em quebra acentuada. É só um feeling, mas cheira-me que, hoje, o Beira-Mar chega lá. Incrivelmente, a equipa que menos joga na I Liga (o Beira-Mar) deve safar-se. E hoje dá um passo importante nesse sentido.

5 euros na vitória do Beira-Mar a 2.45.



Paços – Benfica

Acho que o Benfica ganha. Mas isso, só, é pouco. Vou fazer uma aposta mais maluca:

O Benfica ganha por 2-1.

Aposto 3 euros a 8.25.



Sporting – Guimarães

Estou com grande curiosidade para ver este jogo. O Sporting só tem a seu favor (além da qualidade técnica superior, claro), o factor-casa. E quem é que quer saber do Vitória quando na 5.ª feira, vai a Manchester com possibilidades de eliminar o City? Ninguém.

Sem mais comentários, vou arriscar: vitória do Vitória em Alvalade.

Aposto 4 euros a 5.00 (uma odd invulgarmente baixa para uma derrota do Sporting em casa, o que é premonitório de que os odd-makers também estão desconfiados)