Antes de (re)começar, duas notas paralelas:
- o Benfica-Porto de sexta-feira foi um dos melhores clássicos de sempre. Se houvesse mais dez ou onze jogos assim por época o campeonato português teria público suficiente, quer nos estádios quer na televisão, para salvar financeiramente todos os seus clubes;
- ao ver mais um Roma-Lazio, confirmo: considerando tudo o que o envolve e o que as duas equipas uma vez após outra nos mostram, é o melhor dérbi que se joga na Europa.
O que eu tenho, afinal, aqui escrito desde Agosto, sintetizadamente, é que, tal como em tudo o que se faz na vida, há duas maneiras de se estar no futebol: ou à espera da sorte ou a fazer por ela. Ou a acreditar em milagres ou a acreditar na ciência.
Temos a tendência para pensar que o primeiro é um disparate e que só o segundo apresenta resultados, mas não é verdade. A ciência do homem é muito limitada e, ao longo dos tempos, houve sempre momentos em que rezar deu tão bons resultados como trabalhar. A sorte é o que não compreendemos, mas a sorte acontece, e acontece todos os dias. Acontece tantas vezes que dá um trabalho incrível tê-la, e às vezes, por mais que se trabalhe, continuamos a não falar a mesma linguagem que ela. Muitas vezes, como disse alguém, é melhor ter sorte que ser bom.
A questão, mais do que de resultados, é de atitude perante a realidade.
Toda a gente gosta de receber a graça de um milagre. Uma intervenção de forças que não controlamos e não conhecemos realmente faz-nos sentir especiais, como se alguém maior que nós nos tivesse escolhido como filho pródigo.
Mas, por se sentirem especiais, graças a alguns milagres pontuais (1994, 2005, 2010…), os benfiquistas, de certa forma, criaram um hábito. Viciaram-se na predestinação.
Não é que os benfiquistas não estejam dispostos a trabalhar tanto ou mais do que os outros para triunfar. Isso é uma falácia. Simplesmente, perante uma capacidade científica superior por parte do adversário, habituaram-se a esperar que a graça divina equilibrasse as coisas. Como consequência disso, esqueceram-se do prazer de ganhar cientificamente.
Neste ponto da sua existência, os benfiquistas não estão realmente convencidos de prescindir da possibilidade desse prazer superior que vem sob a forma do milagre pela eventualidade de um prazer inferior que vem sob forma de trabalho científico. Ganhar por milagre sabe melhor do que ganhar por ciência. Há uma transcendência que o mero trabalho árduo não pode dar. Ou, pelo menos, a parte da ciência está tão esquecida que os benfiquistas acreditam que isso é verdade.
Esta é a grande questão no Benfica. Não é falta de saber, é falta de vontade. Quando os benfiquistas se convencerem de que está na hora de prescindir da droga do milagre, serão uma força imparável em Portugal.
Nesse momento, os benfiquistas tomarão as rédeas do seu destino, e o handicap natural que ainda existe para o Porto ficará eliminado.
O Porto não espera por milagres – trabalha para eles. De vez em quando, eles acontecem de forma artificial, e recompensam. O ano passado, por exemplo, foi um ano miraculoso. Mas um milagre baseado na ciência, não na sorte. Não sabe tão bem, é verdade. É um milagre inferior. Mas sabe muito bem. Suficientemente bem para fazer sentido.
O sucesso científico é muito menos glamoroso do que o que vem por milagre. Não há segredos. É um processo tão industrial como qualquer outro. É copiar 95 por cento do que é feito nas outras empresas de sucesso e tentar criar 5 por cento únicos e especiais, que façam uma diferença. Para ganhar, cientificamente, o Benfica tem de aprender e fazer o mesmo que fazem o Porto, o Schalke 04, o Hapoel, o Lyon, o Valencia e qualquer outro clube que não seja particularmente tocado pela divindade. Para estar no jogo do sucesso científico, o Benfica tem, antes, de admitir ser igual aos outros, e entrar numa unidade de produção em série em que só o talento a capacidade de trabalho diferenciam os clubes uns dos outros. Prescindir do romantismo. É difícil, para os benfiquistas, aceitar isso, porque o Benfica é uma ligação ao divino, um caso de fé.
Só depois de ser igual aos outros é que o Benfica poderá tentar ser melhor que os outros. Aí, nesse ponto, já será algo muito diferente da profissão de fé que, actualmente, entendemos por Benfica. Será uma coisa mais racional, mais ética, mais terrena. Será o que era antes de ter ascendido à transcendência dos anos 60 – antes de Eusébio, o messias. (Esquecem-se, muitas vezes, os benfiquistas, que Eusébio não teve nada a ver com a primeira Taça do Campeões e pouco a ver com a segunda, pois só tinha feito ainda uma época na Luz, tendo muito mais a ver com as três derrotas que se seguiram...)
Eu, por mim, confesso: adorei os milagres. Sobretudo o de 1994 e o de 2010. O 6-3 em Alavalade acontece uma vez em cem anos. Mas prescindo deles. Quero saber como se ganha, e ganhar com saber, não esperando apenas pela sorte ou pelo árbitro.
Neste sentido, há que dizer o seguinte: o Benfica não é a melhor equipa do campeonato, e, portanto, é melhor que não o ganhe, porque, como se viu por outros exemplos, ganhar sem ser o melhor não só não resulta em mais sucesso como o vem a impedir, porque impede a correcção de processos errados. É, portanto, melhor para um Benfica a sério que não ganhe enquanto não for o melhor. Enquanto não souber o suficiente. Quando o Benfica ganhar por ser o melhor continuará a ganhar.
É bom para o Benfica que o Porto seja campeão, desde que isso não signifique passar a trabalhar mal só por desespero de causa. O Benfica está a trabalhar bem – o que é sempre o mais difícil, começar – só tem que aprender a trabalhar melhor.
A derrota no campeonato deste ano será normal, dada a diferença no volume de trabalho acumulado pelas equipas ao longo dos anos. Pode ser benéfica. Desde que se melhore, em vez de se afundar por causa dela.
Falo, acima de tudo, em «benfiquistas». Porquê? Porque a estrutura-Benfica, as pessoas que lá estão dentro já enveredaram pelo caminho da ciência há uns anos, e estão aos poucos a desistir da fé em Deus. Ainda acreditam demasiado na sorte, ainda não trabalham muito bem, mas já decidiram que o método a seguir é o da ciência e não o da fé. Por que é que, neste momento, os «benfiquistas» contam mais que o «Benfica»? Porque o que falta ao Benfica, neste momento, só os benfiquistas é que lhe podem dar.
Há um desfasamento entre os corpos executivos do Benfica e a sua massa adepta, que continua, ainda, demasiado imbuída da fé em Deus e da irracionalidade. Foram demasiados anos, nas últimas duas décadas, a serem educados na irresponsabilidade, na leviandade, na impulsividade, para passarem rapidamente a acreditar que o sucesso tem que dar mais trabalho do que o que dá aos outros – porque isto é uma competição, não é auto-recreação. As elites internas do Benfica já o perceberam relativamente bem; o proletariado, ainda não. Por isso é que o discurso para os adeptos é diferente das acções práticas que, depois, são concretizadas. Não é para enganar ninguém – é porque o presidente sabe que se falar a verdade aos adeptos eles não estão dispostos a percebê-lo e podem fragilizar a posição dele, que não pode ficar fragilizada, sob pena do clube voltar a cair na anarqua.
E, como o proletariado ainda não percebeu isto, não consegue, ainda, cumprir a sua parte do acordo e moldar as elites – ou seja, exigir às elites que o representam (Direcção, treinadores, jogadores) que trabalhem melhor, que sejam mais científicas e confiem menos na sorte.
Em resumo, o Benfica está no caminho certo, mas falta-lhe, neste momento, a força dos adeptos, o impulso anímico, para avançar mais depressa e com mais força, porque os adeptos ainda não estão convencidos quer da necessidade de trabalhar melhor e acreditar menos quer do seu próprio papel neste processo.
Isto não é diferente do que se passava há dez anos. Já no tempo de Damásio ou Vale e Azevedo, por exemplo, a questão era cultural. Já nessa altura os adeptos, desorientados pela incapacidade das suas elites em definirem um rumo, entregavam-se a Deus e esperavam por um milagre. Já nessas alturas o Benfica, como clube, dependia dos seus adeptos. A diferença, agora, são duas diferenças, na verdade:
- por um lado, as elites do Benfica já não são fracas, e estão dispostas a seguir o caminho da competência e da ciência, e não do puro experimentalismo;
- por outro, passaram dez anos, tempo suficiente para se aprender, pela mera repetição de fracassos (muitos) e de sucessos (alguns), assim como pela observação do que os outros fazem, o que é preciso para se ganhar.
Ou seja, se há dez anos os adeptos do Benfica podiam, com justiça, sentir-se enganados e até abandonados pelas suas elites, hoje isso não se justifica. Hoje, os adeptos têm muito mais responsabilidade no futuro do Benfica. Não podem sacudir a água do capote, entregar o poder nas mãos de meia-dúzia, ver as coisas de forma primária e esperar que, por milagre, algo aconteça. Porque, aí, a culpa, mais do que nunca (literalmente), é deles.
Exemplos?
O Benfica continuará a gastar milhões e milhões de euros em lixo no Verão enquanto os adeptos não disserem que não estão dispostos a isso e que é preciso, mesmo ser mais competente a escolher.
O presidente do Benfica continuará a esconder-se atrás dos árbitros enquanto os adeptos do Benfica não o fizerem compreender que não estão mais dispostos a fazer o papel de Calimero.
O treinador do Benfica continuará a ser sobranceiro, irrealista e incompetente enquanto os adeptos não lhe demonstrarem que um treinador do Benfica tem de ser melhor que isso.
Os jogadores do Benfica continuarão a arrastar-se em campo ou a não dar 100 por cento, continuarão a seguir pelo caminho mais fácil, continuarão a menosprezar a importância de jogar com aquela camisola, enquanto os adeptos não lhes explicarem que não o podem fazer.
Isto não significa mudar de pessoas. Significa mudar de vida, e só depois, se for necessário, mudar de pessoas.
Mas significa, sempre, antes de mais nada, que os adeptos do Benfica tomem o destino do clube nas suas mãos. E que, ao mesmo tempo, percebam que se forem irresponsáveis, imaturos, irrealistas, pouco exigentes, crédulos, patetas, calões, assim será também o seu clube. E que será só por culpa deles. Como sempre foi. Para o bom e para o mau.