terça-feira, 6 de março de 2012

Otebis'

(Já experimentaram isto? Deviam experimentar. É educativo. Ainda estou a treinar, mas já dá para ver resultados.)


Nunca mais na vida temos uma oportunidade destas de passar aos quartos-de-final da Champions. Estes gajos não jogavam nada. Fomos derrotados pelo factor casa. Fomos para lá só para defender e lixámo-nos.
 

Fomos derrotados por uma equipa com quatro jogadores: o central brasileiro careca, que cortou tudo e saía logo a jogar; o gajo espanhol do cabelo à maricas, no meio-campo, que é rijo e está em todas; aquele meio-black com o cabelo em pé, que é o melhor jogador deles e joga no campo todo; e o defesa-direito careca que marcou o golo. Os outros todos juntos não fazem um.

Toda a gente naquela equipa está convencido que consegue entrar com a bola pela baliza a dentro, incluindo o guarda-redes. (Porra, aquela perdida… era só meter uma colherada por cima dele. Tínhamos feito aí o apuramento. Nunca mais nos agarravam, e ainda ganhávamos o jogo.)


Ó pá, expliquem-me lá uma coisa, como é que numa jogada a dois ou três minutos do intervalo o defesa-direito deles (o defesa-direito!!!) aparece sozinho na nossa pequena-área a fazer uma recarga. Uma recarga!!!!! É o golo mais estúpido na história do futebol. Caraças, na história do desporto. Eles tinham 6 jogadores contra 5 nossos na nossa grande-área. Desafio alguém a mostrar-me outra ocasião em que isto já tenha acontecido. Não consegue.

É o tipo de golos que só acontece quando uma equipa joga em casa. Aquele à-vontade todo, e jogar fora, não existe. 6 contra 5. Surreal.
 

O Spaletti falhou. Esteve bem ao não meter o Bruno, para não acelerar os gajos, mas não devíamos ter jogado tão atrás. Tive sempre a sensação de que nos bastava meter um golo para passar. Nunca na vida aqueles tipos nos conseguiriam meter duas batatas se tivéssemos tratado melhor a bola. Não jogam nada. Só faziam perigo quando conseguiam chegar às imediações da nossa área, e era porque faziam tudo ao contrário. Como é que se defende uma equipa assim? Parecem os turcos a jogar à bola, é cada um por si, mas depois começam a correr e a fintar, a bola começa a ressaltar e de repente vai parar a um gajo deles. Em jogo jogado, não fazem perigo nenhum. O Shirakov mexeu mais na bola que o ponta-de-lança deles.

Claro, quando quisemos mudar o chip, com o decorrer do jogo, não conseguimos. Ainda não temos estaleca internacional para isso.

Nunca devíamos ter entrado no jogo da correria. Eles jogam ao sprint, e estão habituados. Se apanham uma equipa inteligente a jogar são comidos. Mas lá está, falta-nos estaleca. O que é mais frustrante é sentir que eles têm tanta como nós a passaram porque tiveram a sorte da marcha do marcador.

E não sabem defender. Assim que conseguíamos fazer dois ou três passes seguidos passávamos da linha defensiva deles a meio-campo. Se tivéssemos ido para lá mentalizados em fazer um golo em vez de só defender tínhamos passado. Eu disse logo que aquele nosso terceiro golo cá nos podia sair caro. É um resultado enganador. Tudo bem, ganhámos a primeira mão, mas vamos lá a pensar no 0-0 e quando sofremos um golo fazemos o quê? E é suposto irmos duas vezes a Portugal e não sofrer nenhum golo? Quais são as probabilidades?

Os gajos apanham uma equipa italiana e levam 5, mas isso, a nós serve-nos do quê?

Eu sabia que devia ter ficado a ver o Arsenal. Deve ter sido um jogão. Até o estádio era igual…

Azia do caraças. Pelo menos ficamos a pensar só no campeonato… Até pode ser que seja bom. Mas se tivéssemos sido apurados, com a equipa fresca na próxima eliminatória enquanto os gajos já andam a jogar há seis meses, e a duas mãos, só não teríamos tido hipótese contra o Barcelona ou o Real.
F…., já não escrevo mais nada. Até à próxima.

segunda-feira, 5 de março de 2012

Leões e raposas

«Só há uma coisa que vos posso prometer: sangue, suor e lágrimas»

Winston Churchill



«O que é que podemos fazer?», pergunta o Fehér29 num comentário.

Antes de mais nada, isto que estamos a fazer.

Estive o dia todo fora e, quando cheguei, fiquei radiante, confesso, com a quantidade de comentários e com a dedicação ao clube que transpira em todos eles. Podem-me dizer que não é nada de especial, mas eu acho que é. Porquê? Porque a inspiração que leva um pai de família a devotar o seu tempo ao Benfica num blogue é o mesmo que o leva a comprar títulos da Operação Coração e é o mesmo que o leva a ir ajudar a carregar tijolos para o Estádio da Luz, quando é preciso. Há quem tenha vergonha do povo benfiquista dar tanto de si, sem pensar no que os outros pensam, ao clube. Eu não tenho. Comprei um título da Operação Coração, não tenho vergonha nenhuma e compraria outra vez, se achasse que era necessário. Não ando em manifestações de rua contra os árbitros, porque acho que não faz sentido nenhum, mas jamais recriminarei quem ande. Isso é energia pura.

No Benfica há lugar para todos, até para os mais radicais, como o nosso Manuel (Manuel, cada vez gosto mais da tua convicção pretoriana. És de boa cepa. Só acho que separar o mundo entre os arianos e os outros, sem aceitar que há, de facto, todo um mundo de hipóteses pelo meio, que podem ser exploradas, não só é perigoso como é inútil. Todos os radicalismos acabam da mesma maneira. Todos. Não digo que o meio termo seja a solução, até porque não gosto do meio termo, mas também aí não há que ser radical: não ser radical não significa ficar pelo marasmo da mediania. Força, sempre. Radicalismo… só até certo ponto, antes de se tornar destrutivo).



«O que é que podemos fazer?», é a questão.

Esta é uma questão política (claro…). De poder.

No fundo, quer dizer: «O que é que eu posso fazer?»

Como eu sei que vocês gostam, vou usar alguns ensinamentos de mestres da política.

Disse Platão, na República: «A arte de fazer política é a arte de conduzir carneiros sem chifres e com duas patas.»

Disse Tomás de Aquino: «O poder do rei é dado por Deus, mas se esse poder não for usado com justiça o povo não tem apenas o direito à revolta: tem o dever de se revoltar.»

Disse Maquiavel: «Em política, há um tempo para ser leão e um tempo para ser raposa.»



Um dos grandes momentos políticos do século XX foi o das eleições inglesas imediatamente a seguir à II Guerra Mundial. Winston Churchill, do Partido Conservador, então primeiro-ministro, concorreu à reeleição. E o que aconteceu foi extraordinário. O homem que tinha levado a Inglaterra à mais importante vitória de todos os tempos, salvando o país da invasão nazi, foi derrotado nas urnas. O povo inglês, numa impressionante demonstração de autonomia e consciência política, decidiu que estava na altura de passar de uma política de leões – de força e obstinação, de sangue, suor e lágrimas – para uma política de raposas, de audácia, inteligência. O povo inglês entendeu a mudança dos tempos e a necessidade de mudar de vida e elegeu um Trabalhista para primeiro-ministro, ditando o fim da carreira política de um dos maiores estadistas da sua história, no seu momento mais glorioso.

Como é possível que isto tenha acontecido? Aconteceu, antes de mais (e sem discutir se a decisão foi a certa ou não), porque o povo inglês sempre manteve viva a sua tradição democrática, o seu juízo crítico, a sua capacidade de pensar pela própria cabeça, a sua individualidade, o seu poder de decisão.



O que é que nós podemos fazer?

Antes de mais, não sermos carneiros. Manter o espírito crítico mas, sobretudo, sermos inteligentes. Tentar separar o trigo do joio, procurar na diversidade de opiniões – que existe, demos graças por isso – o que faz mais sentido, o que é o melhor. A democracia é muito bonita, e muito útil para manter a paz, mas (e aqui vou buscar Aristóteles, outro mestre imortal) mal exercida facilmente degenera para a demagogia, que é o pior dos sistemas.

Nestas coisas nada acontece de um momento para o outro. Ninguém vai estalar os dedos, ou fazer uma invasão do Estádio da Luz, e de repente o Benfica joga mais que o Barcelona. Não é assim que as coisas se passam (felizmente, senão não tinha graça nenhuma). Mas se se mantiver a atitude certa, há momentos em que o poder gerado a partir da formação da opinião pública, passo a passo, cabeça a cabeça, chega, de facto, ao poder instituído, e o molda. No mundo real, digamos assim, as ideias demoram entre 20 a 30 anos a chegar ao poder. O ecologismo, por exemplo. Aqueles que, nos anos 60, eram estudantes universitários, nos anos 80 e 90 chegaram às instituições – ao Governo, às assembleias representativas, aos cargos públicos. O ecologismo chegou ao poder. É sempre assim. Demora tempo, mas chega-se lá. E enquanto isso há novas ideologias a formarem-se debaixo da superfície. Discutir, gerar ideias, gerar consensos, não é chover no molhado: é o processo político em acção. E, ao contrário das revoluções, a ideologia macia tem a tendência para se manter se for virtuosa, enquanto o que nasce de movimentos contra-natura tende a apodrecer prematuramente.

Quem é que nos diz que, aqui a três, quatro, cinco anos, as pessoas que hoje andam na Net a ler teorias malucas não terão a oportunidade de, lá dentro, colocar em prática uma ou outra mais exequível?

Quem sabe que oportunidades, que movimentos cívicos, que movimentos sociais espontâneos, mais ou menos bem pensados, vão aparecer, e se algum entre eles, pela sua qualidade, não terá a capacidade de se impor como gerador de poder e de intervir na tomada de decisão?

Nessa altura, se quem for chamado a intervir estiver imbuído das ideias certas, o Benfica ficará mais forte, estará mais perto do que todos desejamos.

Nada impede, aliás, que os benfiquistas se organizem para intervir. Já o fizeram muitas vezes na sua história, e foi isso que fez o Benfica ser maior que os outros.

Todos os gestos contam. Se eu tivesse dinheiro e vontade para comprar uma camisola, neste momento, comprava uma do Javi Garcia. Porquê? Porque acho que é um jogador à Benfica, pela qualidade e pelo temperamento. É só um exemplo – até porque nunca fui de comprar camisolas, nem sou de idolatrar jogadores. Ou então, pelas mesmas razões, compraria uma do Emerson.

Outra coisa que eu não faço: não vou para a Net queixar-me dos árbitros aos portistas ou aos sportinguistas. Claro que não vou. Porquê? Porque é disso que eles gostam. Por mais razões de queixa que possa haver, há uma coisa de que eu tenho a certeza: qualquer portista tem muito mais medo de um benfiquista que tenta encontrar as razões da derrota na sua equipa que nos árbitros. Se conhecerem algum portista em que confiem (isto agora soou mal…) perguntem-lhe quem é que ele mais teme: um tipo pragmático ou um calimero? É por isso que eu digo que não me importo nada de haver corrupção, desde que se saiba as regras do jogo. Só chora quem perde. Do presidente do Benfica espero apenas que seja melhor a jogar que os outros. A conversa toda que houve neste blog nos últimos dias, sobre os árbitros e os esquemas, é interessantíssima, mas quando eu disse que o Benfica devia preocupar-se em dominar o sistema antes de acabar com ele levantaram-se logo vozes a dizer que «temos de ser melhores que eles». Tudo bem, são opiniões, agora não venham é dizer-me que eu não dou a importância que devia às arbitragens, porque é difícil ser mais pragmático nisto do que eu. Os árbitros são corruptos? Perguntem o preço e comprem-nos, digo eu. Se não forem corruptos, calem-se e aguentem-se à bomboca. Agora, calimeros, comigo não dá. Não tenho feitio nem paciência para andar a choramingar pelas esquinas da Internet e a queixar-me da vida para tudo ficar na mesma. O que o Vieira veio dizer do Proença é uma paneleirice, ponto final. Mais valia estar calado. Mais valia mesmo, porque éoque não nos fortalece enfraquece-nos, e aquilo foi uma resposta fraca e pouco convicta. Para encher os ouvidos do pagode. Nem ele acreditava no que estava a dizer.



Sim, os adeptos devem questionar Jesus. Os adeptos devem questionar tudo. O que não devem é ser parvos. E, pelo que li aqui, ninguém está a ser parvo. Não é irracional nem desleal considerar que Jesus, provavelmente, já deu o que tinha a dar. Ou é suposto morrer no banco? De insubstituíveis está o cemitério cheio e até o mausoléu do Lenine já conheceu melhores dias.

Mudar por mudar? Não. Péssima ideia. Mudar para melhor? Sempre. Em qualquer situação. Seja quem for. Tem é de se ter uma convicção bem fundada de que é pelo melhor. Trocar Jesus por Domingos? Não, obrigado. Por Villas-Boas? Porque não pensar nisso, se for o melhor? (E digo já ao Manuel, antes de ele ter um congestionamento cardíaco, que pensar nisso é diferente de querer isso. Eu, por exemplo, pensei bem nisso, nas vantagens e desvantagens, e não quero. E olha que não é por falta de capacidade técnica.) Por Paulo Bento? Vai aparecer este cenário, não tenham dúvidas disso.

Vai chegar uma altura em que falaremos melhor disto, e até é possível que cheguemos à conclusão que entre deixar o Jesus acabar o contrato ou trocar de treinador seria mais favorável a primeira. Agora, fazer do Jesus um intocável, se o compararmos com outros treinadores que até estiveram menos tempo no clube do que ele, só porque é um tipo que está lá temporariamente empregado? Isso seria uma desonra dos valores benfiquistas. Se há uma coisa de que o Jesus não se pode queixar da parte da Direcção ou dos adeptos do Benfica é de deslealdade. E tenho a certeza de que, mesmo saindo no Verão, nunca o fará.



Em relação ao Vieira, o mesmo se aplica. Penso que, aqui, a questão da política dos leões e da política das raposas também se aplica. Vai caber aos adeptos do Benfica decidirem se o tempo é para leões ou para raposas, e quando é que deixa de ser de uma para ser de outra.

Penso que seria um erro o Vieira sair do Benfica já nas próximas eleições. Não me parece que o Benfica esteja, ainda, suficientemente robusto para aguentar a rotatividade democrática e, de facto, a dimensão do Benfica leva a que o clube se torne muito acessível a muita gente desaconselhável. Mas se aparecessem um ou dois candidatos bons, não-populistas, que levassem a debate ideias correctas e úteis, que despertassem o sentido crítico dos benfiquistas  sem eleitoralismos, e se com isso o Vieira viesse a ganhar com 55/60 por cento dos votos, penso que seria a melhor coisa que podia acontecer ao Benfica desde que Fernando Martins saiu da presidência. O mais importante para o Benfica, neste momento em que económica e desportivamente está a ganhar muita força, seria voltar a despertar a sua tradição democrática e dialéctica, porque essa é que é a sua força original.

Vieira ganharia um lugar (ainda mais) cimeiro na história do Benfica se, mesmo sem voltar a ganhar um campeonato nos próximos dois anos, fizesse o seguinte: acabasse de recuperar estruturalmente o clube, acolhesse duas ou três individualidades fortes e credíveis com ideias diversas em relação ao futuro do clube; apresentasse a demissão e desse espaço de decisão aos adeptos, sem o perigo de demagogias.

Se fizesse isto, Vieira, mais que um presidente, tornar-se-ia num estadista, o maior na história do clube.

Mas não esperem que isso aconteça. A primeira tendência do poder é apoderar-se do vazio e perpetuar-se. A segunda é ser deposto por um poder maior.

domingo, 4 de março de 2012

Milagre ou ciência?

Antes de (re)começar, duas notas paralelas:
- o Benfica-Porto de sexta-feira foi um dos melhores clássicos de sempre. Se houvesse mais dez ou onze jogos assim por época o campeonato português teria público suficiente, quer nos estádios quer na televisão, para salvar financeiramente todos os seus clubes;

- ao ver mais um Roma-Lazio, confirmo: considerando tudo o que o envolve e o que as duas equipas uma vez após outra nos mostram, é o melhor dérbi que se joga na Europa.


O que eu tenho, afinal, aqui escrito desde Agosto, sintetizadamente, é que, tal como em tudo o que se faz na vida, há duas maneiras de se estar no futebol: ou à espera da sorte ou a fazer por ela. Ou a acreditar em milagres ou a acreditar na ciência.

Temos a tendência para pensar que o primeiro é um disparate e que só o segundo apresenta resultados, mas não é verdade. A ciência do homem é muito limitada e, ao longo dos tempos, houve sempre momentos em que rezar deu tão bons resultados como trabalhar. A sorte é o que não compreendemos, mas a sorte acontece, e acontece todos os dias. Acontece tantas vezes que dá um trabalho incrível tê-la, e às vezes, por mais que se trabalhe, continuamos a não falar a mesma linguagem que ela. Muitas vezes, como disse alguém, é melhor ter sorte que ser bom.

A questão, mais do que de resultados, é de atitude perante a realidade.



Toda a gente gosta de receber a graça de um milagre. Uma intervenção de forças que não controlamos e não conhecemos realmente faz-nos sentir especiais, como se alguém maior que nós nos tivesse escolhido como filho pródigo.

Mas, por se sentirem especiais, graças a alguns milagres pontuais (1994, 2005, 2010…), os benfiquistas, de certa forma, criaram um hábito. Viciaram-se na predestinação.
Não é que os benfiquistas não estejam dispostos a trabalhar tanto ou mais do que os outros para triunfar. Isso é uma falácia. Simplesmente, perante uma capacidade científica superior por parte do adversário, habituaram-se a esperar que a graça divina equilibrasse as coisas.
Como consequência disso, esqueceram-se do prazer de ganhar cientificamente.

Neste ponto da sua existência, os benfiquistas não estão realmente convencidos de prescindir da possibilidade desse prazer superior que vem sob a forma do milagre pela eventualidade de um prazer inferior que vem sob forma de trabalho científico. Ganhar por milagre sabe melhor do que ganhar por ciência. Há uma transcendência que o mero trabalho árduo não pode dar. Ou, pelo menos, a parte da ciência está tão esquecida que os benfiquistas acreditam que isso é verdade.

Esta é a grande questão no Benfica. Não é falta de saber, é falta de vontade. Quando os benfiquistas se convencerem de que está na hora de prescindir da droga do milagre, serão uma força imparável em Portugal.

Nesse momento, os benfiquistas tomarão as rédeas do seu destino, e o handicap natural que ainda existe para o Porto ficará eliminado.

O Porto não espera por milagres – trabalha para eles. De vez em quando, eles acontecem de forma artificial, e recompensam. O ano passado, por exemplo, foi um ano miraculoso. Mas um milagre baseado na ciência, não na sorte. Não sabe tão bem, é verdade. É um milagre inferior. Mas sabe muito bem. Suficientemente bem para fazer sentido.

O sucesso científico é muito menos glamoroso do que o que vem por milagre. Não há segredos. É um processo tão industrial como qualquer outro. É copiar 95 por cento do que é feito nas outras empresas de sucesso e tentar criar 5 por cento únicos e especiais, que façam uma diferença. Para ganhar, cientificamente, o Benfica tem de aprender e fazer o mesmo que  fazem o Porto, o Schalke 04, o Hapoel, o Lyon, o Valencia e qualquer outro clube que não seja particularmente tocado pela divindade. Para estar no jogo do sucesso científico, o Benfica tem, antes, de admitir ser igual aos outros, e entrar numa unidade de produção em série em que só o talento  a capacidade de trabalho diferenciam os clubes uns dos outros. Prescindir do romantismo. É difícil, para os benfiquistas, aceitar isso, porque o Benfica é uma ligação ao divino, um caso de fé.

Só depois de ser igual aos outros é que o Benfica poderá tentar ser melhor que os outros. Aí, nesse ponto, já será algo muito diferente da profissão de fé que, actualmente, entendemos por Benfica. Será uma coisa mais racional, mais ética, mais terrena. Será o que era antes de ter ascendido à transcendência dos anos 60 – antes de Eusébio, o messias. (Esquecem-se, muitas vezes, os benfiquistas, que Eusébio não teve nada a ver com a primeira Taça do Campeões e pouco a ver com a segunda, pois só tinha feito ainda uma época na Luz, tendo muito mais a ver com as três derrotas que se seguiram...)

Eu, por mim, confesso: adorei os milagres. Sobretudo o de 1994 e o de 2010. O 6-3 em Alavalade acontece uma vez em cem anos. Mas prescindo deles. Quero saber como se ganha, e ganhar com saber, não esperando apenas pela sorte ou pelo árbitro.

Neste sentido, há que dizer o seguinte: o Benfica não é a melhor equipa do campeonato, e, portanto, é melhor que não o ganhe, porque, como se viu por outros exemplos, ganhar sem ser o melhor não só não resulta em mais sucesso como o vem a impedir, porque impede a correcção de processos errados. É, portanto, melhor para um Benfica a sério que não ganhe enquanto não for o melhor. Enquanto não souber o suficiente. Quando o Benfica ganhar por ser o melhor continuará a ganhar.

É bom para o Benfica que o Porto seja campeão, desde que isso não signifique passar a trabalhar mal só por desespero de causa. O Benfica está a trabalhar bem – o que é sempre o mais difícil, começar – só tem que aprender a trabalhar melhor.

A derrota no campeonato deste ano será normal, dada a diferença no volume de trabalho acumulado pelas equipas ao longo dos anos. Pode ser benéfica. Desde que se melhore, em vez de se afundar por causa dela.



Falo, acima de tudo, em «benfiquistas». Porquê? Porque a estrutura-Benfica, as pessoas que lá estão dentro já enveredaram pelo caminho da ciência há uns anos, e estão aos poucos a desistir da fé em Deus. Ainda acreditam demasiado na sorte, ainda não trabalham muito bem, mas já decidiram que o método a seguir é o da ciência e não o da fé. Por que é que, neste momento, os «benfiquistas» contam mais que o «Benfica»? Porque o que falta ao Benfica, neste momento, só os benfiquistas é que lhe podem dar.

Há um desfasamento entre os corpos executivos do Benfica e a sua massa adepta, que continua, ainda, demasiado imbuída da fé em Deus e da irracionalidade. Foram demasiados anos, nas últimas duas décadas, a serem educados na irresponsabilidade, na leviandade, na impulsividade, para passarem rapidamente a acreditar que o sucesso tem que dar mais trabalho do que o que dá aos outros – porque isto é uma competição, não é auto-recreação. As elites internas do Benfica já o perceberam relativamente bem; o proletariado, ainda não. Por isso é que o discurso para os adeptos é diferente das acções práticas que, depois, são concretizadas. Não é para enganar ninguém – é porque o presidente sabe que se falar a verdade aos adeptos eles não estão dispostos a percebê-lo e podem fragilizar a posição dele, que não pode ficar fragilizada, sob pena do clube voltar a cair na anarqua.
E, como o proletariado ainda não percebeu isto, não consegue, ainda, cumprir a sua parte do acordo e moldar as elites – ou seja, exigir às elites que o representam (Direcção, treinadores, jogadores) que trabalhem melhor, que sejam mais científicas e confiem menos na sorte.

Em resumo, o Benfica está no caminho certo, mas falta-lhe, neste momento, a força dos adeptos, o impulso anímico, para avançar mais depressa e com mais força, porque os adeptos ainda não estão convencidos quer da necessidade de trabalhar melhor e acreditar menos quer do seu próprio papel neste processo.

Isto não é diferente do que se passava há dez anos. Já no tempo de Damásio ou Vale e Azevedo, por exemplo, a questão era cultural. Já nessa altura os adeptos, desorientados pela incapacidade das suas elites em definirem um rumo, entregavam-se a Deus e esperavam por um milagre. Já nessas alturas o Benfica, como clube, dependia dos seus adeptos. A diferença, agora, são duas diferenças, na verdade:

- por um lado, as elites do Benfica já não são fracas, e estão dispostas a seguir o caminho da competência e da ciência, e não do puro experimentalismo;

- por outro, passaram dez anos, tempo suficiente para se aprender, pela mera repetição de fracassos (muitos) e de sucessos (alguns), assim como pela observação do que os outros fazem, o que é preciso para se ganhar.

Ou seja, se há dez anos os adeptos do Benfica podiam, com justiça, sentir-se enganados e até abandonados pelas suas elites, hoje isso não se justifica. Hoje, os adeptos têm muito mais responsabilidade no futuro do Benfica. Não podem sacudir a água do capote, entregar o poder nas mãos de meia-dúzia, ver as coisas de forma primária e esperar que, por milagre, algo aconteça. Porque, aí, a culpa, mais do que nunca (literalmente), é deles.

Exemplos?

O Benfica continuará a gastar milhões e milhões de euros em lixo no Verão enquanto os adeptos não disserem que não estão dispostos a isso e que é preciso, mesmo ser mais competente a escolher.

O presidente do Benfica continuará a esconder-se atrás dos árbitros enquanto os adeptos do Benfica não o fizerem compreender que não estão mais dispostos a fazer o papel de Calimero.

O treinador do Benfica continuará a ser sobranceiro, irrealista e incompetente enquanto os adeptos não lhe demonstrarem que um treinador do Benfica tem de ser melhor que isso.

Os jogadores do Benfica continuarão a arrastar-se em campo ou a não dar 100 por cento, continuarão a seguir pelo caminho mais fácil, continuarão a menosprezar a importância de jogar com aquela camisola, enquanto os adeptos não lhes explicarem que não o podem fazer.

Isto não significa mudar de pessoas. Significa mudar de vida, e só depois, se for necessário, mudar de pessoas.

Mas significa, sempre, antes de mais nada, que os adeptos do Benfica tomem o destino do clube nas suas mãos. E que, ao mesmo tempo, percebam que se forem irresponsáveis, imaturos, irrealistas, pouco exigentes, crédulos, patetas, calões, assim será também o seu clube. E que será só por culpa deles. Como sempre foi. Para o bom e para o mau.

sábado, 3 de março de 2012

Manual de um luto

Sugestões para um fim-da-semana em que se perca o campeonato:



- Manter um afastamento saudável de todos os que amamos.

Toda a gente tem direito ao luto. Eles compreendem. A Sacerdotisa, por exemplo, assim que se levantou perguntou-me, muito docemente, se eu estava chateado. Eu acenei que sim com a cabeça. Ela percebeu que eu estava de luto, e disse-me: «Eu hoje trato dos miúdos. Não te preocupes. Amanhã trocamos.» Se alguém não tiver uma mulher assim, também sugiro que troque o mais rapidamente possível. Nem toda a gente percebe a diferença entre uma escolha e uma doença.



- Evitar a poluição.

Não frequentar antros de incompreensão e verrume, tais como jornais desportivos, cafés com misturas, blogues de futebol (à excepção deste, que vos reconforta), e, basicamente, tudo o que possa implicar o uso da palavra B…… . O mundo pode esperar um dia. Até os camelos têm de parar para beber água. No nosso caso é preciso muita água para dissolver todo este ácido gástrico que nos sobe até ao cérebro.



- Trabalhar.

Trabalhar muito. Arranjar qualquer coisa para fazer, qualquer coisa que puxe minimamente pela tola e que envolva um lado mecânico, de preferência, usar as mãos. Pode ser bater numa bruxa. Aliás…



- Queimar uma bruxa

Procurem uma que esteja perto de casa, num raio máximo de 300 quilómetros. Ouvi dizer que há uma em Fafe, por exemplo. Peguem na bruxa, cortem-lhe o cabelo, levem-na para o pelourinho da cidade… Melhor ainda: empalem-na, reguem com azeite e piri-piri e ponham a assar em brasas. Sirvam com batatinhas, de preferência à população benf….. .



- Deitar lixo fora.

Um pacote de chicletes, por exemplo. Façam de conta que tem cabeleira branca. Psicologicamente, resulta.



- Ver um jogo de futebol estrangeiro. De preferência inglês.

É como quando se vem de uma operação de remoção de um tumor nos intestinos: não podemos rejeitar a comida, senão nunca mais temos gosto em comer, mas ao princípio tem que ser com uma coisa saudável e ligeira.

Também pode ser um jogo do campeonato português, mas é OBRIGATÓRIO que seja sem som e sem assistir quer à antevisão quer à análise posterior. Só bola. Sem gordura.





O sacerdote está em acção. Amanhã, cá encontrarão um momento de racionalidade que apaziguará as vossas maleitas de forma pacífica e construtiva. Fiquem na paz possível, e não se esqueçam de cumprir pelo menos três dos tratamentos atrás prescritos. De preferência o da bruxa. Por exemplo:

1 - Deixar a família em casa;

2 – Queimar a bruxa;

3 – Deitar fora o maçarico.

É só um exemplo.

sexta-feira, 2 de março de 2012

A lição fundamental

Não quero saber do fora-de-jogo. Não quero mesmo. Mesmo.

Vou ser mais claro: metam o fora-de-jogo no cu. Mas mesmo todos. Quem acha que o Benfica perdeu por causa do fora-de-jogo que meta a opinião no cu. Podem meter o vosso comentário aqui em baixo, é serventia da casa, mas não se esqueçam de a meter, juntamente com o fora-de-jogo, no cu. Não se sintam insultados os que já falaram do fora-de-jogo, porque ainda não li comentários nenhuns ao jogo, e vocês sabem que não digo por mal. Mas metam mesmo o fora-de-jogo no cu.



Do que eu quero saber é disto: fundamentos.



FUNDAMENTOS.



Por exemplo?

Por exemplo a jogada em que o Gaitán tenta virar-se para a baliza, perde a bola, sem cobertura, o James arranca e o Porto corre 70 metros sem oposição para marcar o golo. O Gaitán pode ter três pés, mas sem alguém que lhe ensine o que NÃO SE PODE FAZER num jogo de futebol, será sempre um jogador de segunda.



Com 2-1 o Benfica tem o jogo ganho. É o Benfica que o perde. Porquê? Porque, numa situação em que tem o campeonato no bolso, a jogar em casa, contra uma equipa ajoelhada, não tem a capacidade, simples, de fazer o mais essencial do futebol de qualquer equipa grande, que é segurar a vantagem com bola num jogo equilibrado, com ritmo e jogando pelo seguro. Não a tem. Ao fim de dois anos e meio com Jesus, não a tem. E não a terá.

Como acontece quase sempre, num jogo concentram-se os problemas acumulados. Em qualquer actividade, a pressão detecta todas as fragilidades do material. Pequenas rupturas rasgam completamente e tornam-se grandes falhas, pelas quais uma estrutura acaba por ruir, e quanto maior a estrutura mais facilmente cai. E quais são essas pequenas frechas? A falta de fundamentos sólidos.

Hoje ficaram à vista as fragilidades de Jesus, que levou um banho táctico e só não perdeu o jogo antes do intervalo porque o Porto é uma equipa a jogar a 70 por cento do seu potencial e não soube acabar o serviço depois do 1-0. Bastou ao Porto fazer o que outras equipas já fizeram e meter uma linha de três jogadores subida a meio-campo para aniquilar o jogo do Benfica, que nunca teve meio-campo.

Soluções? Poucas, e más. Pontapé para a frente e fé no ressalto. Só a relativa mediocridade da equipa do Porto, repito, a impediu de acabar com o jogo na primeira parte.

E já não falo, sequer, do inacreditável bloqueio após a expulsão. Com Matic no banco põe Gaitán a defesa-esquerdo. Gaitán?! O jogador com menos instinto defensivo da equipa? O jogador mais irresponsável, que perde outra bola, perfeitamente controlada, que dá o livre do golo, quando não havia outra forma de pensar senão em guardá-la para, pelo menos, não perder o campeonato naqueles 5 minutos? A que propósito? Por ser canhoto?!!! Matic no meio-campo. Javi a central. Miguel Vitor a defesa-esquerdo. Quem é que não vê isto? Quem? Jesus.

Também já não vou à escolha da equipa. Não tenho conhecimentos tácticos para tanto. Mas que se lixe, vou mesmo: o Benfica começa a perder o meio-campo, e o jogo, na escolha do 11. Só isso.

Viu-se a fragilidade de Emerson. Meu Deus, e que fragilidade. Vejam-no, por exemplo, a defender no segundo golo do Porto.

Viu-se a inexistência de verdadeiras opções no meio-campo.

Viu-se a ausência de extremos reais e de uma corrente de jogo capaz de os municiarem solução de vantagem.



Mas viu-se, sobretudo, e repito, a falta de capacidade colectiva de compreender o jogo, de aplicar o que o jogo precisava a cada altura. Viu-se, resumidamente, sabem o quê? Falta de classe.

Classe.

A capacidade de fazer o que é preciso, quando é preciso. Ou pelo menos de o tentar.

É que nem sequer se viu um indício de que os jogadores, em campo, tivessem a consciência do que precisavam de fazer, quanto menos tentarem-no. Fizeram o jogo ao deus-dará, como fazem sempre, porque nunca houve, nestes dois anos e meio, para já não ir mais longe, um treinador que percebesse que, no meio do que é preciso fazer para se ir ganhando jogo a jogo, é preciso educar uma equipa para melhorar nos fundamentos.

Educar, aqui, é a palavra-chave. Não é martelar, é educar. Construir. Edificar. E para isso é preciso olhar pelo menos cinco centímetros à frente da semana que vem.



O Benfica não pode despedir Jorge Jesus. Não deve fazê-lo. Nem agora nem no fim da época. Mas deve arranjar maneira de uma equipa qualquer do estrangeiro lhe fazer uma proposta que ele não possa recusar, e tem de ter, senão já pelo menos nos próximos três meses, alguém potencialmente melhor do que ele para meter à frente da equipa.

Entre tudo o que é preciso fazer para recuperar os fundamentos do jogo – desde os critérios prioritários nas contratações à metodologia de preparação – a questão da equipa técnica não é a menos relevante. O Benfica tem de encontrar um treinador que consiga fazer a equipa evoluir. Tão simples como isto. Porque Jesus atingiu o seu limite de conhecimentos, e a equipa que ele montou não dá mais do que isto.

Quem aqui vem, sabe que não estou a ser um abutre. Façam-me essa justiça, se fizerem favor. Eu não sou dos que quer correr com o treinador ao primeiro fracasso. Mas neste caso não é um castigo a ninguém. É, apenas, um acto de gestão inevitável, e necessário, para a evolução da equipa. Não se pode fazer um clube refém de um homem que atingiu o seu limite técnico. Vocês sabem que eu dizia isto quando o Benfica estava à frente, quando andava toda a gente embriagada. Eu, embriagado andei, é a natureza do benfiquista, mas mesmo embriagado explanei, não uma, mas várias vezes, o que pensava em relação a Jesus.

Hoje, sinto-me autorizado a dizer que tinha razão. Que tenho razão. E convém recordar o que me dá razão antes que uma vitória frente ao Zenit apague a memória desta noite. Vão reler os textos que têm o link, e dar-me-ão razão. Está lá tudo.

É pegar nas coisas boas que o Jesus trouxe, arranjar maneira de as preservar no interior da estrutura quando ele sair, e procurar alguém que traga mais valor. Tão simples e tão pouco dramático como isto.



Mantenho o que disse: o Porto, ganhando quatro pontos na Luz, deu a volta ao campeonato, e tem 90 por cento de hipóteses reais de o ganhar. Ou seja, é quase impossível não o ganhar. Estranhamente, apesar de tudo, não consigo deixar de pensar que os 10 por cento do Benfica podem valer 100, mas admito que, neste momento, seja já mais uma profissão de fé que propriamente uma crença. No fundo o que eu quero dizer é que continuo a acreditar, mas por nenhuma razão racional, apenas porque acredito.

Sem dramas. Há uma época para acabar e o baile continua.

Agora, para quem não tiver decidido exorcizar-me, fica um aviso: aqui na Religião Nacional, hoje, dia 2 de Março de 2012, começa a época de 2012/13.

O Jesus, o Orelhas, esse pessoal todo, incluindo vocês, pode continuar na frequência 2011/12. Eu, que mando aqui, acabei de entrar na frequência 2012/13.

Fugir para a frente? Fugir à realidade?

Talvez sim.

Eu prefiro chamar-lhe espírito construtivo.

É nas derrotas que se revela a nossa capacidade de vir a vencer. Acredito nisso com todas as moléculas do meu corpo. É quando perco que mais vontade tenho de ganhar, e que maior motivação tenho para encontrar outras formas de ganhar. Não conheço a derrota. Sei que ela existe, já a senti a passar por mim, mas nunca a vi.

O dia da subversão

Às 22.15 de hoje o Benfica estará à frente do Porto.



A crónica está escrita. Será publicada ao longo do dia. Porque hoje é o dia da subversão.

(actualizado)

quinta-feira, 1 de março de 2012

O factor imprevisível

Por mais ou menos nervoso miudinho, por mais ou menos voltas que se queira dar, não há volta nenhuma: na minha opinião (a de hoje como a de Dezembro), quem chegar à frente ao fim do ciclo que acaba com o Benfica-Porto tem 90 por cento do campeonato ganho. Considerando que nestes dois meses as equipas deram, como diria um concorrente de um concurso televisivo, uma volta de 360 graus, e que se encontram exactamente no mesmo ponto em que se encontravam nessa altura, o jogo desta sexta-feira vale 90 por cento do título. Quem sair dele à frente será o campeão (com 90 por cento de certeza…). E, para que fique igualmente claro, um 1-1 dá vantagem ao Benfica (uma vantagem de um ponto), o 2-2 dá vantagem ao Porto (uma vantagem de alguns golos), o 3-3 dá uma vantagem de um ponto ao Porto.

Portanto, são 90 minutos para decidir um campeonato. Cá estaremos no fim para falar.



Falo em Dezembro porque, no dia 19 desse mês, apontei três factores mais importantes que o plantel para a decisão do campeonato: Máquina, Momento e Aleatoriedade.

Antes de amanhã, deixar aqui a minha antevisão do jogo propriamente dito, achei curioso recuperar estes três factores.



A Máquina



Há dois dados insofismáveis nestes dois meses:

1 - Nunca a máquina de propaganda do Porto esteve tão calada, mesmo depois do fim-de-semana horribilis (Feirense-Benfica e Gil-Porto);

2 – O Benfica continua sem assinar o contrato com a Olivedesportos.

No primeiro caso, tenho a sensação de que assim continuará até haver a certeza de que o campeonato está realmente em jogo, e que provavelmente só gastarão as balas a partir da semana que antecede o Sporting-Benfica e o Braga-Porto.

No segundo caso tenho a sensação que a decisão «no próximo mês» que o Vieira anda a prometer há seis meses só vai aparecer… a partir da jornada que tem o Sporting-Benfica e o Braga-Porto.

Ao nível do mercado e da gestão do plantel, o Porto (no curto prazo, em termos meramente desportivos, e sem ir ao plano económico, entenda-se) goleou. Contratou dois titulares – três, se se contabilizar Danilo – despachou vários suplentes (suplentes na cabeça de Vítor Pereira, entenda-se também, mas ainda assim suplentes), e os titulares que comprou elevaram claramente o nível da equipa, Lucho pela qualidade pura e o Manko pela utilidade específica.

O Benfica? Bom, vejamos:

- perdeu o seu potencial melhor extremo-direito (Enzo Pérez);

- perdeu Rúben Amorim, polivalente de grande utilidade, sobretudo nesta altura do campeonato, como se viu em Guimarães;

- contratou um suplente sem ritmo de jogo e com escassas hipóteses de ser um reforço útil esta época (Djaló) e um não-suplente (André Almeida) pelo que se depreende da utilização de Witsel a defesa-direito (o mesmo Witsel que, em Guimarães, só jogou meia-hora por apresentar sinais de cansaço)

- não conseguiu encontrar uma alternativa ao evidente ponto-fraco da sua defesa, o lateral-esquerdo, que é pura e simplesmente sofrível, por mais boa vontade e «e pluribus unum » que se tenha;

- tão importante como tudo isto, não conseguiu recuperar Saviola. Aliás, a não-utilização de Saviola em Coimbra corresponde, definitivamente, à sua certidão de óbito como jogador do Benfica.

O plantel do Benfica perdeu, claramente, valor, não compensado pela subida de outros jogadores. Nélson Oliveira só por muito boa vontade pode ser contabilizado como factor numa corrida pelo título.

A crise apanhou, claramente, o Benfica na pior altura – e ainda não apanhou o Porto porque a única alternativa do Porto era fazer o que fez: fugir para a frente. Veremos, quando se chegar lá à frente, quanto é que vai custar.



O Momento



Tal como eu tinha dito em Dezembro, para o Benfica, Janeiro foi a continuação de uma época já longa, e para o Porto o recomeço de uma época dentro da época.

E se é verdade que o momento curto é de quebra do Benfica, com uma derrota e um empate, não nos dizemos iludir pelas aparências o momento menos curto do Porto está muito longe de ser melhor. O renascimento portista, a nova época depois de quatro meses de experiências, testes e rotatividades, resultou em cinco pontos perdidos e uma eliminatória da Liga Europa concluída com uma goleada em Inglaterra.

O Benfica parece estar a descer e o Porto a subir, mas basta uma vitória do Benfica no jogo de amanhã para que imediatamente a análise do curto prazo passar para uma análise do menos curto prazo.

Para já mantenho o que escrevi há alguns dias: mesmo com dois maus resultados seguidos, o caminho do Benfica mantém uma normalidade para campeão que o do Porto não tem, e que só uma vitória do Porto na Luz aniquilaria. Perder em Barcelos não é o mesmo que perder em Guimarães ou empatar em Coimbra. Ainda não me dei ao trabalho de ver quantas vezes, nos últimos 20 anos, é que um campeão o foi mesmo perdendo e empatando com as duas equipas que subiram de divisão na época anterior, mas seria um exercício interessante (para quem tivesse tempo), porque no final de cada campeonato há um padrão de normalidade que, penso, se mantém historicamente.

E, neste ponto, tenho de fazer uma correcção ao que escrevi há uns dias, quando disse que o Porto, ao contrário do Benfica após o jogo com a Académica, ainda não tinha feito dois maus resultados consecutivos no campeonato. Não é verdade. Na 4. e 5.ª jornada o Porto empatou, sucessivamente, com Feirense e Benfica.

 
A Aleatoriedade



O Guimarães-Benfica é um caso clássico de conjugação de factores negativos sobre uma equipa: a eliminatória europeia, o campo, a forma do adversário, as lesões, a marcha do marcador, tudo apontava para um descalabro do Benfica.

Da mesma forma, em Barcelos, a ausência de Hulk e Fernando, a envolvente histórica do jogo (o Porto à beira de um recorde), a arbitragem, no mínimo, destemida, um adversário igualmente na melhor forma da época, conjugaram-se para a primeira derrota do Porto no campeonato em dois anos.

Se alguma coisa boa estes dois maus resultados trouxeram para o Benfica foi que, de certeza absoluta, ninguém sequer se lembra que na terça-feira há um jogo decisivo para a Liga dos Campeões, na Luz, com o Zenit. O estado de espírito com que o Benfica entra para este jogo com o Porto é de alerta máximo, o que poderia não ser o caso se chegasse com três ou quatro pontos de avanço. A ideia de uma almofada para usar antes de se jogar com o Zenit seria perigosamente aliciante para os jogadores do Benfica, e potencialmente mortífero, pois, em caso de derrota, deixaria o Porto a apenas um mau resultado de distância. Pelo contrário, se o Benfica ganhar ao Porto, o Porto passa a precisar que o Benfica faça dois maus resultados para lhe passar à frente.

O Benfica tem o privilégio de sentir que o jogo para a Liga dos Campeões é totalmente irrelevante. Se passar essa eliminatória, é duvidoso que possa voltar a ter esse privilégio, porque não passa a estar demasiado em jogo como não há outro jogo no campeonato tão transcendente como este, que se sobreponha a um apuramento para as meias-finais da Ligados Campeões.

Por outro lado, o Porto vai ter a vantagem de não haver mais desconcentrações europeias até ao final da época. Mas lá mais para a frente, não agora. E agora é que a porca torce o rabo. Dentro desta perspectiva de «aqui e agora», não deve ser menosprezado, no contexto da aleatoriedade que marca todas estas coisas, o facto de o Porto, potencialmente ter de jogar sem o seu melhor jogador neste momento, James Rodríguez – ou, pelo menos, de jogar cerca de 60 minutos sem ele. Os outros casos, pela proximidade, não parecem tão sérios – com as eventuais excepções de Moutinho, com uma viagem chata e 45 minutos nas pernas, e Maxi Pereira. Mas Maxi é um jogador a diesel, até vinha a correr do Uruguai se fosse preciso, sempre à mesma velocidade. Só quando parar é que é um problema. Até lá, continua a correr.

Noutro plano, é igualmente interessante conjugar o seguinte:

- o Benfica recupera, de uma semana para a outra, o seu jogador-chave (Javi García, pelo que fica evidente nos resultados alcançados quando eles não jogou), o líder da sua defesa (Luisão) e o seu atacante em melhor forma (Rodrigo), além de não perder o seu ponta-de-lança titular (Cardozo,e aqui  máquina funcionou muito bem, tal como no caso de Rodrigo).

- o Porto, além de perder o seu jogador em melhor forma, perde também o seu outro desequilibrador actual (Varela) e joga sem Danilo, com quem, claramente, contava para agora.

Neste aspecto, o tal momento a muito curto prazo parece pender para o lado do Benfica.

Seja para que lado for, parece-me que esta particularidade (os jogos da selecção dois dias antes do clássico) é uma daquelas que, daqui a alguns anos, ainda será falada como tendo sido um factor determinante no desfecho do clássico e do próprio campeonato, pela sua peculiaridade e imprevisibilidade. Numa corrida tão equilibrada, pode estar, realmente, apenas aqui a chave.