domingo, 4 de março de 2012

Milagre ou ciência?

Antes de (re)começar, duas notas paralelas:
- o Benfica-Porto de sexta-feira foi um dos melhores clássicos de sempre. Se houvesse mais dez ou onze jogos assim por época o campeonato português teria público suficiente, quer nos estádios quer na televisão, para salvar financeiramente todos os seus clubes;

- ao ver mais um Roma-Lazio, confirmo: considerando tudo o que o envolve e o que as duas equipas uma vez após outra nos mostram, é o melhor dérbi que se joga na Europa.


O que eu tenho, afinal, aqui escrito desde Agosto, sintetizadamente, é que, tal como em tudo o que se faz na vida, há duas maneiras de se estar no futebol: ou à espera da sorte ou a fazer por ela. Ou a acreditar em milagres ou a acreditar na ciência.

Temos a tendência para pensar que o primeiro é um disparate e que só o segundo apresenta resultados, mas não é verdade. A ciência do homem é muito limitada e, ao longo dos tempos, houve sempre momentos em que rezar deu tão bons resultados como trabalhar. A sorte é o que não compreendemos, mas a sorte acontece, e acontece todos os dias. Acontece tantas vezes que dá um trabalho incrível tê-la, e às vezes, por mais que se trabalhe, continuamos a não falar a mesma linguagem que ela. Muitas vezes, como disse alguém, é melhor ter sorte que ser bom.

A questão, mais do que de resultados, é de atitude perante a realidade.



Toda a gente gosta de receber a graça de um milagre. Uma intervenção de forças que não controlamos e não conhecemos realmente faz-nos sentir especiais, como se alguém maior que nós nos tivesse escolhido como filho pródigo.

Mas, por se sentirem especiais, graças a alguns milagres pontuais (1994, 2005, 2010…), os benfiquistas, de certa forma, criaram um hábito. Viciaram-se na predestinação.
Não é que os benfiquistas não estejam dispostos a trabalhar tanto ou mais do que os outros para triunfar. Isso é uma falácia. Simplesmente, perante uma capacidade científica superior por parte do adversário, habituaram-se a esperar que a graça divina equilibrasse as coisas.
Como consequência disso, esqueceram-se do prazer de ganhar cientificamente.

Neste ponto da sua existência, os benfiquistas não estão realmente convencidos de prescindir da possibilidade desse prazer superior que vem sob a forma do milagre pela eventualidade de um prazer inferior que vem sob forma de trabalho científico. Ganhar por milagre sabe melhor do que ganhar por ciência. Há uma transcendência que o mero trabalho árduo não pode dar. Ou, pelo menos, a parte da ciência está tão esquecida que os benfiquistas acreditam que isso é verdade.

Esta é a grande questão no Benfica. Não é falta de saber, é falta de vontade. Quando os benfiquistas se convencerem de que está na hora de prescindir da droga do milagre, serão uma força imparável em Portugal.

Nesse momento, os benfiquistas tomarão as rédeas do seu destino, e o handicap natural que ainda existe para o Porto ficará eliminado.

O Porto não espera por milagres – trabalha para eles. De vez em quando, eles acontecem de forma artificial, e recompensam. O ano passado, por exemplo, foi um ano miraculoso. Mas um milagre baseado na ciência, não na sorte. Não sabe tão bem, é verdade. É um milagre inferior. Mas sabe muito bem. Suficientemente bem para fazer sentido.

O sucesso científico é muito menos glamoroso do que o que vem por milagre. Não há segredos. É um processo tão industrial como qualquer outro. É copiar 95 por cento do que é feito nas outras empresas de sucesso e tentar criar 5 por cento únicos e especiais, que façam uma diferença. Para ganhar, cientificamente, o Benfica tem de aprender e fazer o mesmo que  fazem o Porto, o Schalke 04, o Hapoel, o Lyon, o Valencia e qualquer outro clube que não seja particularmente tocado pela divindade. Para estar no jogo do sucesso científico, o Benfica tem, antes, de admitir ser igual aos outros, e entrar numa unidade de produção em série em que só o talento  a capacidade de trabalho diferenciam os clubes uns dos outros. Prescindir do romantismo. É difícil, para os benfiquistas, aceitar isso, porque o Benfica é uma ligação ao divino, um caso de fé.

Só depois de ser igual aos outros é que o Benfica poderá tentar ser melhor que os outros. Aí, nesse ponto, já será algo muito diferente da profissão de fé que, actualmente, entendemos por Benfica. Será uma coisa mais racional, mais ética, mais terrena. Será o que era antes de ter ascendido à transcendência dos anos 60 – antes de Eusébio, o messias. (Esquecem-se, muitas vezes, os benfiquistas, que Eusébio não teve nada a ver com a primeira Taça do Campeões e pouco a ver com a segunda, pois só tinha feito ainda uma época na Luz, tendo muito mais a ver com as três derrotas que se seguiram...)

Eu, por mim, confesso: adorei os milagres. Sobretudo o de 1994 e o de 2010. O 6-3 em Alavalade acontece uma vez em cem anos. Mas prescindo deles. Quero saber como se ganha, e ganhar com saber, não esperando apenas pela sorte ou pelo árbitro.

Neste sentido, há que dizer o seguinte: o Benfica não é a melhor equipa do campeonato, e, portanto, é melhor que não o ganhe, porque, como se viu por outros exemplos, ganhar sem ser o melhor não só não resulta em mais sucesso como o vem a impedir, porque impede a correcção de processos errados. É, portanto, melhor para um Benfica a sério que não ganhe enquanto não for o melhor. Enquanto não souber o suficiente. Quando o Benfica ganhar por ser o melhor continuará a ganhar.

É bom para o Benfica que o Porto seja campeão, desde que isso não signifique passar a trabalhar mal só por desespero de causa. O Benfica está a trabalhar bem – o que é sempre o mais difícil, começar – só tem que aprender a trabalhar melhor.

A derrota no campeonato deste ano será normal, dada a diferença no volume de trabalho acumulado pelas equipas ao longo dos anos. Pode ser benéfica. Desde que se melhore, em vez de se afundar por causa dela.



Falo, acima de tudo, em «benfiquistas». Porquê? Porque a estrutura-Benfica, as pessoas que lá estão dentro já enveredaram pelo caminho da ciência há uns anos, e estão aos poucos a desistir da fé em Deus. Ainda acreditam demasiado na sorte, ainda não trabalham muito bem, mas já decidiram que o método a seguir é o da ciência e não o da fé. Por que é que, neste momento, os «benfiquistas» contam mais que o «Benfica»? Porque o que falta ao Benfica, neste momento, só os benfiquistas é que lhe podem dar.

Há um desfasamento entre os corpos executivos do Benfica e a sua massa adepta, que continua, ainda, demasiado imbuída da fé em Deus e da irracionalidade. Foram demasiados anos, nas últimas duas décadas, a serem educados na irresponsabilidade, na leviandade, na impulsividade, para passarem rapidamente a acreditar que o sucesso tem que dar mais trabalho do que o que dá aos outros – porque isto é uma competição, não é auto-recreação. As elites internas do Benfica já o perceberam relativamente bem; o proletariado, ainda não. Por isso é que o discurso para os adeptos é diferente das acções práticas que, depois, são concretizadas. Não é para enganar ninguém – é porque o presidente sabe que se falar a verdade aos adeptos eles não estão dispostos a percebê-lo e podem fragilizar a posição dele, que não pode ficar fragilizada, sob pena do clube voltar a cair na anarqua.
E, como o proletariado ainda não percebeu isto, não consegue, ainda, cumprir a sua parte do acordo e moldar as elites – ou seja, exigir às elites que o representam (Direcção, treinadores, jogadores) que trabalhem melhor, que sejam mais científicas e confiem menos na sorte.

Em resumo, o Benfica está no caminho certo, mas falta-lhe, neste momento, a força dos adeptos, o impulso anímico, para avançar mais depressa e com mais força, porque os adeptos ainda não estão convencidos quer da necessidade de trabalhar melhor e acreditar menos quer do seu próprio papel neste processo.

Isto não é diferente do que se passava há dez anos. Já no tempo de Damásio ou Vale e Azevedo, por exemplo, a questão era cultural. Já nessa altura os adeptos, desorientados pela incapacidade das suas elites em definirem um rumo, entregavam-se a Deus e esperavam por um milagre. Já nessas alturas o Benfica, como clube, dependia dos seus adeptos. A diferença, agora, são duas diferenças, na verdade:

- por um lado, as elites do Benfica já não são fracas, e estão dispostas a seguir o caminho da competência e da ciência, e não do puro experimentalismo;

- por outro, passaram dez anos, tempo suficiente para se aprender, pela mera repetição de fracassos (muitos) e de sucessos (alguns), assim como pela observação do que os outros fazem, o que é preciso para se ganhar.

Ou seja, se há dez anos os adeptos do Benfica podiam, com justiça, sentir-se enganados e até abandonados pelas suas elites, hoje isso não se justifica. Hoje, os adeptos têm muito mais responsabilidade no futuro do Benfica. Não podem sacudir a água do capote, entregar o poder nas mãos de meia-dúzia, ver as coisas de forma primária e esperar que, por milagre, algo aconteça. Porque, aí, a culpa, mais do que nunca (literalmente), é deles.

Exemplos?

O Benfica continuará a gastar milhões e milhões de euros em lixo no Verão enquanto os adeptos não disserem que não estão dispostos a isso e que é preciso, mesmo ser mais competente a escolher.

O presidente do Benfica continuará a esconder-se atrás dos árbitros enquanto os adeptos do Benfica não o fizerem compreender que não estão mais dispostos a fazer o papel de Calimero.

O treinador do Benfica continuará a ser sobranceiro, irrealista e incompetente enquanto os adeptos não lhe demonstrarem que um treinador do Benfica tem de ser melhor que isso.

Os jogadores do Benfica continuarão a arrastar-se em campo ou a não dar 100 por cento, continuarão a seguir pelo caminho mais fácil, continuarão a menosprezar a importância de jogar com aquela camisola, enquanto os adeptos não lhes explicarem que não o podem fazer.

Isto não significa mudar de pessoas. Significa mudar de vida, e só depois, se for necessário, mudar de pessoas.

Mas significa, sempre, antes de mais nada, que os adeptos do Benfica tomem o destino do clube nas suas mãos. E que, ao mesmo tempo, percebam que se forem irresponsáveis, imaturos, irrealistas, pouco exigentes, crédulos, patetas, calões, assim será também o seu clube. E que será só por culpa deles. Como sempre foi. Para o bom e para o mau.

sábado, 3 de março de 2012

Manual de um luto

Sugestões para um fim-da-semana em que se perca o campeonato:



- Manter um afastamento saudável de todos os que amamos.

Toda a gente tem direito ao luto. Eles compreendem. A Sacerdotisa, por exemplo, assim que se levantou perguntou-me, muito docemente, se eu estava chateado. Eu acenei que sim com a cabeça. Ela percebeu que eu estava de luto, e disse-me: «Eu hoje trato dos miúdos. Não te preocupes. Amanhã trocamos.» Se alguém não tiver uma mulher assim, também sugiro que troque o mais rapidamente possível. Nem toda a gente percebe a diferença entre uma escolha e uma doença.



- Evitar a poluição.

Não frequentar antros de incompreensão e verrume, tais como jornais desportivos, cafés com misturas, blogues de futebol (à excepção deste, que vos reconforta), e, basicamente, tudo o que possa implicar o uso da palavra B…… . O mundo pode esperar um dia. Até os camelos têm de parar para beber água. No nosso caso é preciso muita água para dissolver todo este ácido gástrico que nos sobe até ao cérebro.



- Trabalhar.

Trabalhar muito. Arranjar qualquer coisa para fazer, qualquer coisa que puxe minimamente pela tola e que envolva um lado mecânico, de preferência, usar as mãos. Pode ser bater numa bruxa. Aliás…



- Queimar uma bruxa

Procurem uma que esteja perto de casa, num raio máximo de 300 quilómetros. Ouvi dizer que há uma em Fafe, por exemplo. Peguem na bruxa, cortem-lhe o cabelo, levem-na para o pelourinho da cidade… Melhor ainda: empalem-na, reguem com azeite e piri-piri e ponham a assar em brasas. Sirvam com batatinhas, de preferência à população benf….. .



- Deitar lixo fora.

Um pacote de chicletes, por exemplo. Façam de conta que tem cabeleira branca. Psicologicamente, resulta.



- Ver um jogo de futebol estrangeiro. De preferência inglês.

É como quando se vem de uma operação de remoção de um tumor nos intestinos: não podemos rejeitar a comida, senão nunca mais temos gosto em comer, mas ao princípio tem que ser com uma coisa saudável e ligeira.

Também pode ser um jogo do campeonato português, mas é OBRIGATÓRIO que seja sem som e sem assistir quer à antevisão quer à análise posterior. Só bola. Sem gordura.





O sacerdote está em acção. Amanhã, cá encontrarão um momento de racionalidade que apaziguará as vossas maleitas de forma pacífica e construtiva. Fiquem na paz possível, e não se esqueçam de cumprir pelo menos três dos tratamentos atrás prescritos. De preferência o da bruxa. Por exemplo:

1 - Deixar a família em casa;

2 – Queimar a bruxa;

3 – Deitar fora o maçarico.

É só um exemplo.

sexta-feira, 2 de março de 2012

A lição fundamental

Não quero saber do fora-de-jogo. Não quero mesmo. Mesmo.

Vou ser mais claro: metam o fora-de-jogo no cu. Mas mesmo todos. Quem acha que o Benfica perdeu por causa do fora-de-jogo que meta a opinião no cu. Podem meter o vosso comentário aqui em baixo, é serventia da casa, mas não se esqueçam de a meter, juntamente com o fora-de-jogo, no cu. Não se sintam insultados os que já falaram do fora-de-jogo, porque ainda não li comentários nenhuns ao jogo, e vocês sabem que não digo por mal. Mas metam mesmo o fora-de-jogo no cu.



Do que eu quero saber é disto: fundamentos.



FUNDAMENTOS.



Por exemplo?

Por exemplo a jogada em que o Gaitán tenta virar-se para a baliza, perde a bola, sem cobertura, o James arranca e o Porto corre 70 metros sem oposição para marcar o golo. O Gaitán pode ter três pés, mas sem alguém que lhe ensine o que NÃO SE PODE FAZER num jogo de futebol, será sempre um jogador de segunda.



Com 2-1 o Benfica tem o jogo ganho. É o Benfica que o perde. Porquê? Porque, numa situação em que tem o campeonato no bolso, a jogar em casa, contra uma equipa ajoelhada, não tem a capacidade, simples, de fazer o mais essencial do futebol de qualquer equipa grande, que é segurar a vantagem com bola num jogo equilibrado, com ritmo e jogando pelo seguro. Não a tem. Ao fim de dois anos e meio com Jesus, não a tem. E não a terá.

Como acontece quase sempre, num jogo concentram-se os problemas acumulados. Em qualquer actividade, a pressão detecta todas as fragilidades do material. Pequenas rupturas rasgam completamente e tornam-se grandes falhas, pelas quais uma estrutura acaba por ruir, e quanto maior a estrutura mais facilmente cai. E quais são essas pequenas frechas? A falta de fundamentos sólidos.

Hoje ficaram à vista as fragilidades de Jesus, que levou um banho táctico e só não perdeu o jogo antes do intervalo porque o Porto é uma equipa a jogar a 70 por cento do seu potencial e não soube acabar o serviço depois do 1-0. Bastou ao Porto fazer o que outras equipas já fizeram e meter uma linha de três jogadores subida a meio-campo para aniquilar o jogo do Benfica, que nunca teve meio-campo.

Soluções? Poucas, e más. Pontapé para a frente e fé no ressalto. Só a relativa mediocridade da equipa do Porto, repito, a impediu de acabar com o jogo na primeira parte.

E já não falo, sequer, do inacreditável bloqueio após a expulsão. Com Matic no banco põe Gaitán a defesa-esquerdo. Gaitán?! O jogador com menos instinto defensivo da equipa? O jogador mais irresponsável, que perde outra bola, perfeitamente controlada, que dá o livre do golo, quando não havia outra forma de pensar senão em guardá-la para, pelo menos, não perder o campeonato naqueles 5 minutos? A que propósito? Por ser canhoto?!!! Matic no meio-campo. Javi a central. Miguel Vitor a defesa-esquerdo. Quem é que não vê isto? Quem? Jesus.

Também já não vou à escolha da equipa. Não tenho conhecimentos tácticos para tanto. Mas que se lixe, vou mesmo: o Benfica começa a perder o meio-campo, e o jogo, na escolha do 11. Só isso.

Viu-se a fragilidade de Emerson. Meu Deus, e que fragilidade. Vejam-no, por exemplo, a defender no segundo golo do Porto.

Viu-se a inexistência de verdadeiras opções no meio-campo.

Viu-se a ausência de extremos reais e de uma corrente de jogo capaz de os municiarem solução de vantagem.



Mas viu-se, sobretudo, e repito, a falta de capacidade colectiva de compreender o jogo, de aplicar o que o jogo precisava a cada altura. Viu-se, resumidamente, sabem o quê? Falta de classe.

Classe.

A capacidade de fazer o que é preciso, quando é preciso. Ou pelo menos de o tentar.

É que nem sequer se viu um indício de que os jogadores, em campo, tivessem a consciência do que precisavam de fazer, quanto menos tentarem-no. Fizeram o jogo ao deus-dará, como fazem sempre, porque nunca houve, nestes dois anos e meio, para já não ir mais longe, um treinador que percebesse que, no meio do que é preciso fazer para se ir ganhando jogo a jogo, é preciso educar uma equipa para melhorar nos fundamentos.

Educar, aqui, é a palavra-chave. Não é martelar, é educar. Construir. Edificar. E para isso é preciso olhar pelo menos cinco centímetros à frente da semana que vem.



O Benfica não pode despedir Jorge Jesus. Não deve fazê-lo. Nem agora nem no fim da época. Mas deve arranjar maneira de uma equipa qualquer do estrangeiro lhe fazer uma proposta que ele não possa recusar, e tem de ter, senão já pelo menos nos próximos três meses, alguém potencialmente melhor do que ele para meter à frente da equipa.

Entre tudo o que é preciso fazer para recuperar os fundamentos do jogo – desde os critérios prioritários nas contratações à metodologia de preparação – a questão da equipa técnica não é a menos relevante. O Benfica tem de encontrar um treinador que consiga fazer a equipa evoluir. Tão simples como isto. Porque Jesus atingiu o seu limite de conhecimentos, e a equipa que ele montou não dá mais do que isto.

Quem aqui vem, sabe que não estou a ser um abutre. Façam-me essa justiça, se fizerem favor. Eu não sou dos que quer correr com o treinador ao primeiro fracasso. Mas neste caso não é um castigo a ninguém. É, apenas, um acto de gestão inevitável, e necessário, para a evolução da equipa. Não se pode fazer um clube refém de um homem que atingiu o seu limite técnico. Vocês sabem que eu dizia isto quando o Benfica estava à frente, quando andava toda a gente embriagada. Eu, embriagado andei, é a natureza do benfiquista, mas mesmo embriagado explanei, não uma, mas várias vezes, o que pensava em relação a Jesus.

Hoje, sinto-me autorizado a dizer que tinha razão. Que tenho razão. E convém recordar o que me dá razão antes que uma vitória frente ao Zenit apague a memória desta noite. Vão reler os textos que têm o link, e dar-me-ão razão. Está lá tudo.

É pegar nas coisas boas que o Jesus trouxe, arranjar maneira de as preservar no interior da estrutura quando ele sair, e procurar alguém que traga mais valor. Tão simples e tão pouco dramático como isto.



Mantenho o que disse: o Porto, ganhando quatro pontos na Luz, deu a volta ao campeonato, e tem 90 por cento de hipóteses reais de o ganhar. Ou seja, é quase impossível não o ganhar. Estranhamente, apesar de tudo, não consigo deixar de pensar que os 10 por cento do Benfica podem valer 100, mas admito que, neste momento, seja já mais uma profissão de fé que propriamente uma crença. No fundo o que eu quero dizer é que continuo a acreditar, mas por nenhuma razão racional, apenas porque acredito.

Sem dramas. Há uma época para acabar e o baile continua.

Agora, para quem não tiver decidido exorcizar-me, fica um aviso: aqui na Religião Nacional, hoje, dia 2 de Março de 2012, começa a época de 2012/13.

O Jesus, o Orelhas, esse pessoal todo, incluindo vocês, pode continuar na frequência 2011/12. Eu, que mando aqui, acabei de entrar na frequência 2012/13.

Fugir para a frente? Fugir à realidade?

Talvez sim.

Eu prefiro chamar-lhe espírito construtivo.

É nas derrotas que se revela a nossa capacidade de vir a vencer. Acredito nisso com todas as moléculas do meu corpo. É quando perco que mais vontade tenho de ganhar, e que maior motivação tenho para encontrar outras formas de ganhar. Não conheço a derrota. Sei que ela existe, já a senti a passar por mim, mas nunca a vi.

O dia da subversão

Às 22.15 de hoje o Benfica estará à frente do Porto.



A crónica está escrita. Será publicada ao longo do dia. Porque hoje é o dia da subversão.

(actualizado)

quinta-feira, 1 de março de 2012

O factor imprevisível

Por mais ou menos nervoso miudinho, por mais ou menos voltas que se queira dar, não há volta nenhuma: na minha opinião (a de hoje como a de Dezembro), quem chegar à frente ao fim do ciclo que acaba com o Benfica-Porto tem 90 por cento do campeonato ganho. Considerando que nestes dois meses as equipas deram, como diria um concorrente de um concurso televisivo, uma volta de 360 graus, e que se encontram exactamente no mesmo ponto em que se encontravam nessa altura, o jogo desta sexta-feira vale 90 por cento do título. Quem sair dele à frente será o campeão (com 90 por cento de certeza…). E, para que fique igualmente claro, um 1-1 dá vantagem ao Benfica (uma vantagem de um ponto), o 2-2 dá vantagem ao Porto (uma vantagem de alguns golos), o 3-3 dá uma vantagem de um ponto ao Porto.

Portanto, são 90 minutos para decidir um campeonato. Cá estaremos no fim para falar.



Falo em Dezembro porque, no dia 19 desse mês, apontei três factores mais importantes que o plantel para a decisão do campeonato: Máquina, Momento e Aleatoriedade.

Antes de amanhã, deixar aqui a minha antevisão do jogo propriamente dito, achei curioso recuperar estes três factores.



A Máquina



Há dois dados insofismáveis nestes dois meses:

1 - Nunca a máquina de propaganda do Porto esteve tão calada, mesmo depois do fim-de-semana horribilis (Feirense-Benfica e Gil-Porto);

2 – O Benfica continua sem assinar o contrato com a Olivedesportos.

No primeiro caso, tenho a sensação de que assim continuará até haver a certeza de que o campeonato está realmente em jogo, e que provavelmente só gastarão as balas a partir da semana que antecede o Sporting-Benfica e o Braga-Porto.

No segundo caso tenho a sensação que a decisão «no próximo mês» que o Vieira anda a prometer há seis meses só vai aparecer… a partir da jornada que tem o Sporting-Benfica e o Braga-Porto.

Ao nível do mercado e da gestão do plantel, o Porto (no curto prazo, em termos meramente desportivos, e sem ir ao plano económico, entenda-se) goleou. Contratou dois titulares – três, se se contabilizar Danilo – despachou vários suplentes (suplentes na cabeça de Vítor Pereira, entenda-se também, mas ainda assim suplentes), e os titulares que comprou elevaram claramente o nível da equipa, Lucho pela qualidade pura e o Manko pela utilidade específica.

O Benfica? Bom, vejamos:

- perdeu o seu potencial melhor extremo-direito (Enzo Pérez);

- perdeu Rúben Amorim, polivalente de grande utilidade, sobretudo nesta altura do campeonato, como se viu em Guimarães;

- contratou um suplente sem ritmo de jogo e com escassas hipóteses de ser um reforço útil esta época (Djaló) e um não-suplente (André Almeida) pelo que se depreende da utilização de Witsel a defesa-direito (o mesmo Witsel que, em Guimarães, só jogou meia-hora por apresentar sinais de cansaço)

- não conseguiu encontrar uma alternativa ao evidente ponto-fraco da sua defesa, o lateral-esquerdo, que é pura e simplesmente sofrível, por mais boa vontade e «e pluribus unum » que se tenha;

- tão importante como tudo isto, não conseguiu recuperar Saviola. Aliás, a não-utilização de Saviola em Coimbra corresponde, definitivamente, à sua certidão de óbito como jogador do Benfica.

O plantel do Benfica perdeu, claramente, valor, não compensado pela subida de outros jogadores. Nélson Oliveira só por muito boa vontade pode ser contabilizado como factor numa corrida pelo título.

A crise apanhou, claramente, o Benfica na pior altura – e ainda não apanhou o Porto porque a única alternativa do Porto era fazer o que fez: fugir para a frente. Veremos, quando se chegar lá à frente, quanto é que vai custar.



O Momento



Tal como eu tinha dito em Dezembro, para o Benfica, Janeiro foi a continuação de uma época já longa, e para o Porto o recomeço de uma época dentro da época.

E se é verdade que o momento curto é de quebra do Benfica, com uma derrota e um empate, não nos dizemos iludir pelas aparências o momento menos curto do Porto está muito longe de ser melhor. O renascimento portista, a nova época depois de quatro meses de experiências, testes e rotatividades, resultou em cinco pontos perdidos e uma eliminatória da Liga Europa concluída com uma goleada em Inglaterra.

O Benfica parece estar a descer e o Porto a subir, mas basta uma vitória do Benfica no jogo de amanhã para que imediatamente a análise do curto prazo passar para uma análise do menos curto prazo.

Para já mantenho o que escrevi há alguns dias: mesmo com dois maus resultados seguidos, o caminho do Benfica mantém uma normalidade para campeão que o do Porto não tem, e que só uma vitória do Porto na Luz aniquilaria. Perder em Barcelos não é o mesmo que perder em Guimarães ou empatar em Coimbra. Ainda não me dei ao trabalho de ver quantas vezes, nos últimos 20 anos, é que um campeão o foi mesmo perdendo e empatando com as duas equipas que subiram de divisão na época anterior, mas seria um exercício interessante (para quem tivesse tempo), porque no final de cada campeonato há um padrão de normalidade que, penso, se mantém historicamente.

E, neste ponto, tenho de fazer uma correcção ao que escrevi há uns dias, quando disse que o Porto, ao contrário do Benfica após o jogo com a Académica, ainda não tinha feito dois maus resultados consecutivos no campeonato. Não é verdade. Na 4. e 5.ª jornada o Porto empatou, sucessivamente, com Feirense e Benfica.

 
A Aleatoriedade



O Guimarães-Benfica é um caso clássico de conjugação de factores negativos sobre uma equipa: a eliminatória europeia, o campo, a forma do adversário, as lesões, a marcha do marcador, tudo apontava para um descalabro do Benfica.

Da mesma forma, em Barcelos, a ausência de Hulk e Fernando, a envolvente histórica do jogo (o Porto à beira de um recorde), a arbitragem, no mínimo, destemida, um adversário igualmente na melhor forma da época, conjugaram-se para a primeira derrota do Porto no campeonato em dois anos.

Se alguma coisa boa estes dois maus resultados trouxeram para o Benfica foi que, de certeza absoluta, ninguém sequer se lembra que na terça-feira há um jogo decisivo para a Liga dos Campeões, na Luz, com o Zenit. O estado de espírito com que o Benfica entra para este jogo com o Porto é de alerta máximo, o que poderia não ser o caso se chegasse com três ou quatro pontos de avanço. A ideia de uma almofada para usar antes de se jogar com o Zenit seria perigosamente aliciante para os jogadores do Benfica, e potencialmente mortífero, pois, em caso de derrota, deixaria o Porto a apenas um mau resultado de distância. Pelo contrário, se o Benfica ganhar ao Porto, o Porto passa a precisar que o Benfica faça dois maus resultados para lhe passar à frente.

O Benfica tem o privilégio de sentir que o jogo para a Liga dos Campeões é totalmente irrelevante. Se passar essa eliminatória, é duvidoso que possa voltar a ter esse privilégio, porque não passa a estar demasiado em jogo como não há outro jogo no campeonato tão transcendente como este, que se sobreponha a um apuramento para as meias-finais da Ligados Campeões.

Por outro lado, o Porto vai ter a vantagem de não haver mais desconcentrações europeias até ao final da época. Mas lá mais para a frente, não agora. E agora é que a porca torce o rabo. Dentro desta perspectiva de «aqui e agora», não deve ser menosprezado, no contexto da aleatoriedade que marca todas estas coisas, o facto de o Porto, potencialmente ter de jogar sem o seu melhor jogador neste momento, James Rodríguez – ou, pelo menos, de jogar cerca de 60 minutos sem ele. Os outros casos, pela proximidade, não parecem tão sérios – com as eventuais excepções de Moutinho, com uma viagem chata e 45 minutos nas pernas, e Maxi Pereira. Mas Maxi é um jogador a diesel, até vinha a correr do Uruguai se fosse preciso, sempre à mesma velocidade. Só quando parar é que é um problema. Até lá, continua a correr.

Noutro plano, é igualmente interessante conjugar o seguinte:

- o Benfica recupera, de uma semana para a outra, o seu jogador-chave (Javi García, pelo que fica evidente nos resultados alcançados quando eles não jogou), o líder da sua defesa (Luisão) e o seu atacante em melhor forma (Rodrigo), além de não perder o seu ponta-de-lança titular (Cardozo,e aqui  máquina funcionou muito bem, tal como no caso de Rodrigo).

- o Porto, além de perder o seu jogador em melhor forma, perde também o seu outro desequilibrador actual (Varela) e joga sem Danilo, com quem, claramente, contava para agora.

Neste aspecto, o tal momento a muito curto prazo parece pender para o lado do Benfica.

Seja para que lado for, parece-me que esta particularidade (os jogos da selecção dois dias antes do clássico) é uma daquelas que, daqui a alguns anos, ainda será falada como tendo sido um factor determinante no desfecho do clássico e do próprio campeonato, pela sua peculiaridade e imprevisibilidade. Numa corrida tão equilibrada, pode estar, realmente, apenas aqui a chave.

terça-feira, 28 de fevereiro de 2012

O Túnel do Amor

Ando estranhamente calmo. Talvez seja aquele bafo quente que antecede a trovoada. Mas sabemos que um Benfica-Porto se aproxima quando um bruxo de Fafe revela que uma feiticeira do Minho anda a trabalhar contra os jogadores do Benfica. Quando pensamos que já não há lugar para maravilhas destas, quando pensamos que o futebol está perdido, um Benfica-Porto devolve-nos a magia do Natal. Sim, afinal, agora e para sempre, há quem nos salve dos tecnocratas, das troikas de olhos azuis, dos Merkozis de alpaca, das ásáis, há quem nos meta um torresmo na mão e nos diga: «Toma. Come. O futebol é isto.» Olhamos, emocionados, e é o Gabriel Alves.
Quero o Gabriel Alves, o Rui Tovar e o José Nicolau de Melo a cobrir o Benfica-Porto, para tirar o som à televisão. Quero o Guarda Abel como guarda-costas do Pinto da Costa. Quero o Delano Vieira a enterrar sapos atrás de uma baliza e o Toni e o Jesualdo Ferreira a dar um carrinho de supermercado cheio de compras a um sem-abrigo. Quero o Eusébio sentado naquela cadeira da linha lateral, à saída da escadaria que vinha das cabines, no meu Estádio da Luz, e a bancada a aplaudir quando a bola ia ter com ele e ele a devolvia aos jogadores.

Quero ver o Octávio Machado a ser bombardeado por laranjas durante o aquecimento dos guarda-redes, e ele a rir, os 30 mil portistas no Terceiro Anel antigo, as bancadas a tremer com os pés a bater, e as bandeiras, os milhares de bandeiras, quando o pau ainda era permitido no futebol, antes de lhe tirarem a tesão – quero a minha primeira bandeira: «Benfica, Campeão Nacional 1983/84».

Quero ver outra vez o Chalana e pensar: «Vou ser como ele.»

Quero o meu jogo.

Quero ser outra vez pequenino.

segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012

A posição elevada

Quem é que tem a posição elevada?

A História da guerra – e a própria História do Homem, se se quiser passar a questão da «posição» de um ponto de vista do terreno para a ética, para a política, para a superioridade moral, para o simples conceito do que é justo ou não justo – resume-se a isto.

A posição elevada é, por si só, a base da guerra. Porque se gasta mais energia a subir que a descer. Ficaríamos todos (incluindo eu, que sou apenas um curioso) abismados com a importância que deter, originalmente, a posição elevada teve no curso da Humanidade.

Qualquer militar nos poderia dizer a importância que a posição elevada tem em qualquer contexto de combate. Há e houve sempre generais dispostos a sacrificar a própria sobrevivência dos seus exércitos para assegurar a «posição elevada» - porque sabem que, sem ela, a derrota é praticamente certa.

Também poderíamos passar da «posição elevada» em termos de tecnologia, passando-a para o contexto do armamento, da tecnologia (quem é que tem a «melhor tecnologia»?). Mas não é preciso. Para este caso, usando a «posição elevada» no sentido figurativo, tal como aqui ela será utilizada, podemos ficar pela ideia do outeiro, da colina, do alto da montanha em que o sitiado adquire, pelo mero posicionamento, a vantagem estratégica. A «posição elevada» não é, por si só, inexoravelmente decisiva. Pode ser derrotada. Mas, historicamente, não é, e, quando é, é à custa de baixas e recursos vastos.

Como é que se adquire a posição elevada? Há quem acorde mais cedo. Há quem conheça melhor o caminho. Há quem o estude. Há quem seja mais rápido a chegar lá. Há quem marche mais leve.

Há, grosso modo, uma regra: a forma de lá chegar nunca é muito complexa, conseguir executá-la é que custa.



Falando de futebol de um ponto de vista técnico e táctico, sem entrar em gestões de plantel ou noutras complexidades, a coisa é assim:

Uma boa equipa é a equipa que faz coisas complicadas devagar.

Uma grande equipa é a equipa que consegue fazer bem os fundamentos do jogo.

As melhores equipas são as que conseguem fazer bem e depressa os fundamentos do jogo.

É só isto.

Só.

E reparem que não falei, sequer, em equipas de futebol. É assim em todos – TODOS – os desportos, dos All Blacks, no râguebi, ao Barcelona, no futebol; dos New England Patriots, no futebol americano, à vela, seja lá quem for que esteja dentro do barco. E acrescento que também é assim – é sobretudo assim – nos desportos individuais. Nos Jogos Olímpicos do próximo Verão vejam quanto tempo um judoca perde e o esforço que emprega para conseguir fazer a melhor pega no quimono do oponente. Porquê? Porque na pega, no fundamento mais básico do judo, está metade da vitória. Perguntem a qualquer bom atleta individual o que é que ele mais treina e ele vos dirá: os fundamentos, sempre, mesmo depois de já saber tudo, sobretudo depois de já saber tudo.

Concedo que, por vezes, me torno um pouco repetitivo neste blog. Mas há coisas que eu não sei, há coisas que eu sei e há coisas que eu sei e que sei que são mais importantes que as outras.

Não sei ler um jogo tacticamente como, por exemplo, o Freitas Lobo (sei apenas o suficiente para perceber quando ele tem razão, que é a maior parte das vezes, e quando está a dizer futilidades). Mas sei que o fundamento da táctica é a superioridade numérica, o 2x1, no ataque e na defesa, e que, usando isso bem, até se pode jogar sem ponta-de-lança, como faz o Barcelona, que se continua a conseguir marcar sempre pelo menos dois golos por jogo.

Não consigo ver se um jogador é tecnicamente superior à mediania, como quem já jogou futebol consegue, facilmente, por exemplo. Mas sei que a verdadeira técnica está na capacidade de passar, receber e rematar a bola – os fundamentos do jogo colectivo. Porque só ainda vi três jogadores capazes de pegar na bola a meio-campo, fintar toda a gente e marcar golo sozinho: um está a treinar na Arábia e está todo lixado pelas drogas; o outro passou metade da carreira agarrado ao joelho e teve um enfarte antes da final do campeonato do Mundo; o terceiro era autista em miúdo, vai chegar a velho cheio de saúde, só é o melhor do Mundo porque joga na equipa que mais bem passa a bola na história do futebol e nunca vai ser campeão mundial.

Todos os outros jogadores dos últimos 30 anos são meros jogadores de equipa, uns melhores do que outros.

Quando vejo o Jesus, por exemplo, a arrotar postas de pescada técnico-tácticas, chamo-lhe nomes. De estúpido para baixo.

Aqui há uns anos, no tempo do Heynckes, estava a ver um aquecimento do Benfica antes de um jogo europeu e o exercício consistia em duas filas frente a frente e a passar a bola de primeira, a uma distância de dez metros. Juro-vos (porque nunca mais me esqueci) que não se fizeram mais de quatro passes seguidos. O adjunto que estava a orientar, ao perceber a vergonha que aquilo era, mandou mudar o exercício, para uma coisa aparentemente mais complexa, uma espécie de meinho, que também serviu para aquecer mas, acima de tudo, serviu para fingir que os jogadores só estavam a falhar passes porque aquilo era difícil e não sabiam mais. É para isso que a maior parte dos esquemas complicados serve – para disfarçar insuficiências, não para as colmatar. Quanto menos uma equipa tem de inventar para dar a volta ao que não sabe fazer, melhor essa equipa é. Depois de ver aquela patética demonstração de azelhice, pensei: «Caramba, estes tipos nunca tiveram hipótese.»



Desde o ano em que o Eriksson saiu do Benfica pela primeira vez, em 1984, o Benfica ganhou seis campeonatos. Eu lembro-me de todos. Em todos foi a equipa que fez o melhor campeonato. Em nenhum deles era a melhor equipa. Em todos, como clube, fez o melhor que sabia; e em todos, não percebeu muito bem como acabou por ganhar. Em todos foi mais a outra equipa que o perdeu que o Benfica que o ganhou.

Há duas formas dos benfiquistas olharem para esta realidade: ou com optimismo, pensando no actual campeonato; ou com pessimismo, pensando nos próximos dez.



Querem saber por que razão é que o Porto é constantemente melhor que o Benfica?

Também aqui há dois caminhos.

Neguem, continuem a procurar atalhos e a esconder-se atrás dos árbitros em vez de aceitar aquilo que é a verdade sobre a corrupção na história do Porto (um evento posterior à sua superiorização, seu cristalizador, e não provocador dela), e continuarão a alimentar fracassos. Porque não há atalhos para o sucesso – sendo que o sucesso aqui não é ganhar um campeonato de quatro em quatro anos, é perder um campeonato de quatro em quatro anos.

Compreendam que o Porto começou a ser melhor quando recuou aos fundamentos, em termos de filosofia de jogo, e estarão aptos a fazer do Benfica um dos melhores clubes do mundo em vez de uma montanha-russa – ou de um circo, como disse o primeiro treinador campeão europeu pelo Porto, que dois anos antes tinha descido o Belenenses à II Divisão.

(Para que fique clara a minha posição em relação às arbitragens e aos adeptos que partem e acabam todos os seus raciocínios no árbitro, ela é a seguinte:

- Procurar causas no árbitro pontualmente, e utilizá-lo, inclusivamente, para aliviar um pouco a pressão ou a frustração, é benéfico, não tem problema nenhum – é a natureza humana, se a culpa não é do árbitro, é do azar ou é de Deus. Normal. Enquanto o pau vai e vem folgam as costas.

- Fazer escola da teoria da arbitragem, procurar nela, em geral, a raiz de qualquer problema, e não a reduzir a um jogo ou outro, é cancerígeno. Mina o corpo de um clube a partir de dentro, da sua cultura de vitória e de triunfo, que acaba por enfraquecer. E os adeptos que não conseguem ir além do elemento da arbitragem para explicar insucessos são agentes cancerígenos. Podem não fazer por mal (o cancro também tem direito à existência, se quisermos chegar a tanto…), mas são. E acabam por destruir um organismo naturalmente nobre como é um grande clube como o Benfica.)



No Porto o primeiro impulso é sempre o passe, e sabemos que alguma coisa não está bem quando os jogadores começam à procura de soluções individuais. No Benfica, alegramo-nos quando vemos os jogadores fazerem uma triangulação bem feita. Não só porque é raro, sequer, tentarem-na, como também porque sabemos que aquilo sim, é que é futebol bem jogado, e não meter os cornos no chão e arrancar para a baliza, como tem sido escola na Luz, debaixo dos ulos do pagode.

No Porto, os jogadores que chegam começam pelos fundamentos, entram na equipa só quando os dominam e a própria equipa cresce à medida que, com o passar da época, os vai conseguindo executar mais depressa e com menos falhas. Também sabemos que a coisa está mal quando, como este ano, a equipa não melhora claramente com o passar dos treinos e dos jogos.

Há falhas? Claro que sim. Então o Porto não perde? Claro que perde, sobretudo quando apanha equipas com o mesmo domínio dos fundamentos e mais velocidade, ou quando algum factor aleatório (erros individuais crassos, de jogadores ou treinadores, por exemplo) o leva a isso. Mas a base está lá e o recuo nunca é profundo.

No Benfica os jogadores chegam, entram em campo e jogam. Dão o que têm (às vezes é muito), vê-se o que têm para dar à equipa e, se se tiver sorte com a química, com o momento, com a circunstância, pode ser que saia um título. Mas quando a circunstância desaparece as condições do sucesso também desaparecem. A mínima quebra de talento é letal. Porque faltam os fundamentos. Os fundamentos são a verdadeira maquinaria de uma equipa de futebol de sucesso, e fazer deles escola é o segredo para a durabilidade, senão do sucesso pelo menos para as condições dele.

Toda a gente gostava de ter um Ferrari, mas quem quer um carro a sério sabe que tem de escolher um Mercedes.



O caminho para ser melhor do que o Porto não é fazer diferente do Porto. É fazer o mesmo que o Porto, no que respeita à filosofia de se seguir os fundamentos do jogo, mas fazer mais e melhor no fundamentalização, indo mais fundo, sendo mais apto no que respeita à velocidade e à conjugação dos fundamentos – os que o Porto faz e os que não é capaz de fazer. Não há segredo. Não vale a pena ir pelos atalhos. Não se poupa tempo. Não se chega a lado nenhum. O que há é trabalho. Primeiro a entender o jogo – o que é bem feito e o que é mal feito. Depois a planear – tendo em vista o objectivo final, e não apenas alguns objectivos intermédios. Finalmente, a executar – com atenção ao pormenor.

Não é preciso suspender a actividade desportiva durante dois anos e meter toda a gente num mosteiro budista em meditação até atingir a iluminação. Pode-se começar pelas coisas simples e partir daí.

Fazer a bola correr em vez do jogador, por exemplo.

Centrar da linha de fundo para dar vantagem ao avançado e não ao defesa.

Centrar de primeira, já agora, pela mesma razão.

Cortar nas costas em vez de cortar pela frente.

Jogar a dois toques, para que ter a bola seja uma vantagem e não um peso.

Não ir à queima, ao corte da bola, na defesa, para que um erro individual não coloque a equipa em inferioridade numérica e não a comprometa.

Não fintar e jogar pelo seguro em transição atacante, para não criar vulnerabilidades defensivas.

Não marcar cantos curtos a não ser que haja a certeza de conseguir meter a bola na área.

Rematar de primeira, para não dar tempo ao guarda-redes para antecipar o remate.

Não fazer faltas desnecessárias.

Há 50 fundamentos por executar em cada jogo. 500. 5000. Saber quando e como executar cada um deles é trabalho para uma carreira, e a maior parte dos futebolistas nunca chega a aprender. Para quê perder tempo com artifícios que só servem para maquilhar a falta de trabalho real? (Para manter o emprego, talvez – confiando na eterna capacidade de negação da realidade por parte do adepto.)



Porque é que toda a gente sente, lá no fundo, que o Porto chega a este jogo com o Benfica na posição elevada, apesar de, na verdade não o estar? (Pois se o campeonato acabasse hoje o Benfica era campeão, não nos esqueçamos.)

Não é por estar ou não estar em primeiro, ou por ter mais ou menos três golos – essa é uma questão académica e (pelo menos até final do jogo, em que a relação definitiva do confronto directo pode ser estabelecida) fútil.

Também não é por ter recuperado 5 pontos em duas jornadas. Esse tipo de psicologias baratas também não se aplica (e aqui contra mim falo, porque muitas vezes lhes dou importância excessiva) neste tipo de clássicos. Vão ver os resultados do Benfica nas jornadas anteriores a ter ido ganhar por 6-3 a Alvalade ou de ter ido levar 5 às Antas e ficamos conservados em relação a esse aspecto.

É porque, no fundo, todos sabemos que, pela forma como trabalha (não mais, mas melhor), por dominar melhor os fundamentos, o Porto se encontra mais perto de chegar primeiro à posição elevada.