terça-feira, 21 de fevereiro de 2012

Autópsia de uma derrota

Primeiro ponto: Witsel.

Não acredito que Jesus se tenha deixado levar pela treta do «temos 15 jogadores com o mesmo valor» que costuma atirar aos pacóvios, nem sequer concebo que ele pense assim. Seria demasiado básico, até para ele. O Benfica tem três ou quatro jogadores que fazem a diferença, e Witsel é um deles. É para jogar jogos como o de Guimarães que Witsel está no Benfica. Não é, de certeza, para ganhar ao Setúbal em casa. Para isso chega o David Simão.

Não sou dos que querem que o treinador faça sempre as escolhas óbvias. Por alguma razão o treinador é o treinador, e treinador que se preze tenta criar soluções em vez de aceitar fatalidades. Aceito que o Jesus se tenha convencido que, para aquele jogo, havia uma estratégia apropriada para vencer o Vitória, e que tenha escolhido a equipa de acordo com isso, mas afirmo já, sem a conhecer, que essa estratégia era uma porcaria, porque qualquer estratégia que envolva jogar sem o melhor jogador é um erro. É pura invenção, pura auto-sugestão.

Prefiro pensar – e até acredito muito mais nisso – que Witsel tenha acusado o desgaste pela acumulação de jogos. É um jogador que corre muito, tem estado sempre em actividade, possivelmente não teria mais de meio jogo de alto nível para dar e Jesus preferiu guardar esse meio jogo para o fim em vez de para o princípio. Tudo o que não seja isto é apenas o Jesus a querer ficar na fotografia. É a natureza do animal.

Mas também digo que, quando eu dizia que o Javi era insubstituível, era porque, sem o Javi, não havia a mínima hipótese de poupar alguém a meio-campo no jogo com o Zenit. O Benfica tem quatro médios centrais (Javi, Matic, Aimar e Witsel) para jogarem três. Falta um médio-centro no Benfica se, como faz Jesus, Bruno César adquire a rotina colectiva de jogar nas alas. Lesionando-se um acaba-se a possibilidade de rotatividade eficaz no meio-campo. Se Witsel ou Aimar se lesionarem o problema é o mesmo. É essa a falta que faz um polivalente como Ruben Amorim. Não é o Ruben Amorim que vai decidir um jogo sozinho, mas os minutos de Ruben Amorim na Rússia teriam sido preciosos e talvez tivessem valido pontos em Guimarães.



Segundo ponto: quem pensou que o Benfica ia chegar ao fim do campeonato sem perder sofre de uma doença comum entre os benfiquistas: irrealismo. Para que fiquemos entendidos, o que aconteceu ao Porto no ano passado acontece, literalmente, uma vez a cada 35 anos, seja com um campeonato de 12, 16, 18 ou 38 equipas.



Este jogo era um desastre anunciado para a equipa do Benfica. A única coisa que podia levar a pensar que o Benfica venceria em Guimarães era a (nossa) boa vontade.

Enumeremos apenas alguns factores:

- adversário e campo;

- ausência de Javi García;

- jogo altamente desgastante da Champions, na Rússia, na 4.ª feira;

- série de vitórias consecutivas, ausência de derrotas no campeonato e resultados muito acima da normalidade, contra as probabilidades naturais mesmo nos melhores percursos das equipas campeãs (a aproximação do final do campeonato só aumenta a força da gravidade),

a que se juntaram, já na partida:

- o péssimo relvado, favorecendo quem tinha de destruir;

- a diferença na eficácia nas situações de golo;

- o momento do golo do Vitória, já com meia-hora de jogo gasta, colocando-se numa situação de vantagem que era a última coisa de que uma equipa animicamente desgastada precisava.

Na prática, considerando que tinha acabado o período em que ainda poderia ter maior frescura física a perder por 1-0, e dado tudo isto, o Benfica vinha para a segunda parte com cerca de 5 por cento de hipóteses reais de ganhar o jogo. Um empate era, nesse momento, já um óptimo resultado.



Não havia um único argumento lógico que levasse a pensar que o Benfica não perderia pontos em Guimarães e, no fundo, este era o jogo que todos os benfiquistas estavam dispostos a dar de barato. Só por se aceitar, a priori, que o mais natural era perder pontos aqui, aliás, é que os efeitos da derrota, pelo que tenho visto, estão a ser tão bem assimilados. Se nos distanciarmos analiticamente, mesmo considerando que uma derrota é sempre indigesta, num cenário de conquista do título pelo Benfica a derrota de Guimarães é perfeitamente enquadrável – ao contrário, por exemplo, da derrota do Porto em Barcelos, quer pelos números, quer pelo adversário. Não é a mesma coisa ir perder por 3-1, a Barcelos, com o Gil Vicente, num jogo banal e ir perder a Guimarães, por 1-0, quatro dias depois de jogar na Rússia. Continua a haver, no percurso de um Benfica (eventualmente) campeão, um traço de normalidade que o percurso de um Porto (eventualmente) campeão já não tem. O Benfica empata em Barcelos, nas Antas e em Braga e perde em Guimarães. Nenhum destes resultados é extraordinário. O Porto empata com o Feirense em Aveiro, com o Benfica em casa, com o Olhanense fora e com o Sporting fora e perde com o Gil em Barcelos. Qualquer semelhança é pura ficção. Há dois possíveis eventos que podem, a curto prazo, roubar ao Benfica esta característica de normalidade que ainda o torna, neste momento, no principal favorito ao título:

- uma não-vitória em Coimbra, que faria o Benfica passar de «ter um mau jogo» a ter «uma quebra de forma», algo que o Porto ainda não teve, pois, sofrendo vários acidentes pontuais, ainda não teve dois maus resultados consecutivos;

- uma derrota na Luz, com o Porto, pois um campeão não perde em casa com o seu concorrente directo (a não ser que se trate do Barcelona, claro…).

Qualquer um destes dois eventos alteraria a lógica de um Benfica campeão. Ou seja, o que aconteceu em Guimarães não foi mais que a utilização da almofada de que tanto se falou, e que os benfiquistas, no fundo (incluindo a equipa e o Jesus, pelo que disse antes do jogo) já tinham debaixo do enregelado e dorido traseiro quando o jogo começou.



Tudo correu mal ao Benfica – como tudo correu mal ao Porto em Barcelos. Ressaltos, um passe com um palmo a mais ou um palmo a menos, cruzamentos ligeiramente atrasados ou adiantados, remates que batem no rabo dos defesas e voltam para trás em vez de traírem os guarda-redes, enfim, as pequenas coisas que correm bem nos dias bons e que correm mal nos dias em que têm de correr mal.

Não há nada de escandaloso nesta derrota do Benfica em Guimarães – uma equipa em boa forma, a jogar em casa e com a sorte do jogo do seu lado.

O que o Benfica não conseguiu executar em Guimarães é o que geralmente não consegue executar. Quem viu neste jogo lacunas súbitas da equipa do Benfica, lamento, mas não sabe realmente ver futebol, porque o vê ou a partir do resultado final ou a partir da camisola. E aqui incluo não só o adepto comum, como os Rui Santos ou qualquer paineleiro de verde, vermelho ou azul.

Depois do jogo e de saber o resultado, o Vítor Paneira, por exemplo, conseguiu ver coisas do arco-da-velha: o Benfica a não pressionar alto tão bem como é costume, a não conseguir trocar a bola tão bem como é costume, o Vitória a fazer o melhor jogo da época, etc, etc, etc. Treta. Treta de alto a baixo.

O Benfica não conseguiu fazer pressão alta assim como geralmente não consegue – tenta mas não consegue a não ser de vez em quando. na maior parte das vezes a equipa adversária, se conseguir meter o segundo passe, encontra o spaço para sair a jogar pelo meio. Geralmente, é suficiente para o Benfica ganhar, porque as outras equipas são fracas. Contra uma boa equipa, como o Zenit, ou num dia em que as coisas não corram tão bem, como ontem, não chega. As auto-estradas que se abriram para os contra-ataques do Vitória foram as mesmas que se abrirão, em Coimbra, para os contra-ataques da Académica, e na Luz, com o Zenit, e uma delas, eventualmente, até resultará em golo – ao contrário das do Vitória, que só marcou num ressalto de um livre.

As transposições defesa-ataque do Benfica em ataque organizado, com o Vitória a defender com onze atrás da bola e a meter pressão nas linhas de passe dos centrais para os médios, correram tão bem ou tão mal como correm sempre que uma equipa consegue fazer o que o Vitória fez. Várias equipas, na Luz, perante a mesma situação de inferioridade técnica, e adoptando a mesma estratégia defensiva, já conseguiram fazer o mesmo, mas não tiveram a sorte do jogo suficiente para evitar o golo ou conseguir uma vantagem, como o Vitória teve ontem, numa situação suficientemente proveitosa.

O Benfica jogou, com o Vitória, em termos técnico-tácticos (volta Gabriel Alves, que estás perdoado...), tão bem ou tão mal como na maior parte dos outros jogos desta época. Obviamente que a disponibilidade física e mental não terá sido a mesma de quando não se faz uma viagem de ida e volta à Rússia com um jogo sobre cimento a 15 graus negativos, mas o Aimar não fez nada que não tivesse feito contra o Setúbal ou contra o Sporting, nem o Emerson fez pior que na Rússia (pelo contrário), nem o Cardozo (com a diferença óbvia de ser diferente ter cinco ocasiões num jogo e marcar uma e ter duas e não marcar nenhuma, mas isso já eu disse há muito tempo que é a questão real do Cardozo «que não perdoa»...)

Ao contrário do que se disse, o Guimarães não fez nenhum jogo fantástico, pelo contrário. Teve um jogo a seu favor, permitindo-lhe fazer o que faz melhor: meter muitos atrás e pôr os da frente a correr muito. Não teve mérito por aí além a impedir o Benfica de ter a bola, de chegar à área ou de se aproximar da baliza. Os números do jogo traduzem essa realidade. O Benfica teve a posse de bola suficiente, o domínio do meio-campo suficiente e as oportunidades suficientes. Foi o Benfica quem falhou a concretizar a vitória, não o Guimarães que acertou.

Talvez haja uma maneira de desmistificar a derrota de ontem: há alguém que possa dizer que, em Braga, onde alcançou um empate normal a 1 golo, o Benfica tenha jogado pior do que em Guimarães? É que nem pensar. Mesmo. Nem pensar. Digo mais: o Benfica jogou melhor ontem, em termos de processos, que em Braga. Só que em Braga estava mais fresco.

E quem fala no Braga fala nas Antas, em Vila da Feira e na esmagadora maioria dos campos em que já jogou este ano.



Muitas vezes esta época o Benfica já passou por entre os pingos da chuva (volto a utilizar esta expressão porque os jogos como o de ontem exemplificam bem o que quero dizer) graças à sua capacidade de marcar golos. Ontem, ao fim de 37 jogos seguidos a marcar pelo menos um golo, o Benfica expôs-se à sua própria vulnerabilidade. E choveu.

Já defendi aqui que os ataques ganham jogos e que as defesas ganham campeonatos. Reafirmo essa máxima, mas não sejamos fundamentalistas: perder por 1-0 em Guimarães não é um bom exemplo. Sofrer quatro ou cinco golos entre este jogo e os dois que se seguem, sim, seria – porque, provavelmente, isso equivaleria mesmo à perda do campeonato.

E se defendermos que manter o Vitória a zero e sacar pelo menos o pontinho do empate seria um passo importante em conquistar o título também teríamos, pelo outro lado, de presumir que uma equipa com um ataque anémico não teria conseguido marcar dois golos nas Antas, ou pelo menos um golo em todos os outros jogos do campeonato, com os vários pontos que essa facildade concretizadora já valeu.

A máxima aplicar-se-á se, marcando o ataque golos nos próximos jogos, a defesa não conseguir cumprir os serviços mínimos. A defesa (ainda) não falhou. Se falhar, por melhor que seja o ataque, o Benfica perderá o campeonato.

O que falhou foi o ataque. E isso, para este Benfica, é o menos problemático, pois acontece uma ou duas vezes por ano.



Não há, em nada disto, a tentativa de minimizar a derrota, mas de a relativizar sim. Mais do que o Guimarães, foi a situação que venceu o Benfica, ontem à noite. Uma situação para a qual o Benfica não estava estruturalmente preparado – e todos, benfiquistas ou não, facilmente concordarão neste ponto.

Se adeptos, técnicos e jogadores se convencerem de que perderam ontem porque fizeram mal o que noutras ocasiões fizeram bem, estarão enganados e a perder uma excelente oportunidade para evoluir. Se perceberem que fizeram o mesmo que fizeram noutras ocasiões, e que é isso que não é suficiente, que é preciso melhorar nas rotinas, na abordagem ao jogo e na preparação mental, então estarão certos e poderão tornar-se melhores.

Conclusões da autópsia: o defunto não está morto.

segunda-feira, 20 de fevereiro de 2012

Presa ou predador?

Há uma lacuna histórica que é recorrente – passe a redundância – e que fica muito mais visível quando a violência emocional das derrotas permite ligar o botão crítico. E tudo bem nisso, não há nenhum problema de aproveitar as derrotas para se achar os defeitos: se não se bate no ferro enquanto ele está quente, bem se pode bater mil vezes quando ele está frio que não vale a pena. A questão é saber onde bater, porque se se bate no sítio certo, melhora-se, se se bate no sítio errado, deforma-se e a coisa piora.

Esta lacuna é de ordem mental, cultural, pois atravessa não só as suas equipas como o próprio clube, e não pode ser treinada. Poder pode, mas o treino deste aspecto particular do jogo não tem bons resultados e acaba por virar-se contra os jogadores e, consequentemente, contra a própria equipa.

O que falta ao Benfica, historicamente, é agressividade natural.

Muitas vezes confunde-se este defeito com falta de ambição, com falta de espírito colectivo, com falta de treino, com muitas outras carências que, na verdade, não existem. Os futebolistas do Benfica têm a mesma capacidade de serem ambiciosos, colectivos, de trabalharem, a mesma inteligência média de qualquer outra equipa. Ou mais, se considerarmos o universo de todas as equipas com quem joga.

Agressividade não é isso. Para mim, agressividade natural tem um significado duplo e complementar: é a dificuldade de se subjugar ao papel de presa, e a consequente facilidade de tomar o papel de predador.

Há quem fale em mau-perder. Há quem fale em instinto assassino. Há quem fale em instinto de agressão. Em impiedade. Pode-se falar nesses termos, porque é disso que se trata.

Esta característica é a característica básica de um jogador de futebol, ou de qualquer outro atleta de alta competição, porque é a massa de que é feita a capacidade competitiva.

Um competidor nato tem uma elevada agressividade natural. Pode não ter mais nada, durante muito tempo, mas se tiver isso acaba por tornar-se útil num ambiente competitivo. Um jogador suficientemente agressivo apreende outras características que lhe permitem competir – tal como se aprende qualquer outro ofício, sendo, neste caso, o ofício ser-se um competidor. Para conseguir prevalecer, o competidor pode aprender, por exemplo, a tomar a iniciativa; ou a antecipar os acontecimentos; ou a usar os companheiros de equipa de forma a colmatar as suas insuficiências (a jogar em equipa, basicamente). Se tiver aptidões para isso, aprende a usar o físico, ou a usar bem a bola para atingir os seus propósitos – para um competidor, a bola não é um fim, é um utensílio para o sucesso, como as botas, o árbitro ou as linhas do campo.

No Benfica, este tipo de mentalidade não sai naturalmente. É uma questão cultural. Não posso falar do que se passou até aos anos 70, apesar de pensar que nem sempre foi assim – acho difícil o Benfica ter conseguido superiorizar-se ao Sporting, por exemplo, sem uma vantagem considerável neste aspecto, dada a vantagem do Sporting em termos financeiros e sociais durante as primeiras décadas. Mas, pelo menos desde que eu vejo futebol, o Benfica nunca se deu bem com o futebolista naturalmente agressivo – a não ser quando essa agressividade se juntava a um grande talento técnico, o que foi muito raro (lembro-me do Diamantino, por exemplo).

A questão é que o Benfica, tendo o suficiente para andar lá por cima, não conseguirá ser o claro dominador desta selva, nem conseguirá competir a alto nível no estrangeiro, enquanto não conseguir instilar mais agressividade na sua equipa de futebol.

Eventualmente, esse será um processo natural quando se perceber que, depois de muito andar (muito já se andou e muito se há de andar ainda), ainda falta qualquer coisa para se conseguir ser melhor do que o Porto, que baseou todo o seu sucesso na capacidade de agredir, e de ostensivamente tomar o papel de predador. Se se tiver as pessoas certas nos lugares certos – que é sempre o mais difícil – vai-se perceber que o que falta é precisamente essa agressividade natural. E depois começa outro processo, que é o de adquirir essa vantagem. Isso é algo que só se resolve no momento do recrutamento, quer dos jogadores feitos quer dos jogadores por fazer. Quando se diz que aquilo de que o Benfica precisava era de mais três ou quatro Javi García não se quer dizer que precisava de mais dois ou três destruidores de jogo: quer-se dizer que precisava de um Luisão com a cabeça de um Javi García, de um Aimar com a cabeça de um Javi García e de um Cardozo com a cabeça de um Javi García. Ou seja, jogadores de nível médio-alto com grande agressividade natural a constituir a espinh dorsal da equipa. Basta isso. Não é preciso ter uma equipa inteira de assassinos natos. E, nessa altura, já se podia dar ao luxo de ter jogadores como Witsel ou Gaitán, que, tendo uma qualidade superior, não têm estofo competitivo suficiente para suportarem uma equipa de futebol de exigência máxima, como é a do Benfica (ia a acrescentar Rodrigo, mas penso que o Rodrigo é bem capaz de ter essa agressividade natural em campo).



Quanto ao jogo em si, muito se há de falar dele esta semana, como tal, oportunidades não faltarão, mas há uma maneira bem simples de sintetizar a derrota do Benfica em Guimarães, sem mais delongas, considerando tudo o que já se disse: lógica.

Amanhã, quando o nível da azia baixar ligeiramente (tal como a euforia, a azia tolda o raciocínio), será mais fácil e mais útil dissecar este fracasso momentâneo.

Para já, fica a lição (para mim) verdadeiramente útil estruturalmente e a longo prazo: é preciso ser mais agressivo.

O resto é jogo.

(Actualização Kompensan às 10.22h

Entretanto, para a azia, aqui fica. Aproveitem.

)

domingo, 19 de fevereiro de 2012

O Benfica do Minho

Há aqui alguém que deixe de me falar se eu disser que não vi um único minuto do jogo do Porto e que do Sporting só vi dois ou três bochechos (só o suficiente para ver que o Sporting continua a não jogar nada?

Não estava com paciência para jogos da treta.

Mas posso partilhar convosco a Primeira Lei do Crescimento Territorial do Estado, proposta pelo alemão (claro…) Friedrich Ratzel, um dos precursores da geopolítica: «O primeiro impulso para o desenvolvimento territorial de um Estado vem do exterior, de uma civilização mais adiantada.»

E a Segunda também, já agora: «O espaço de um Estado aumenta a expansão da sua cultura por ir assim difundindo o seu poder»

São sete, ao todo, e a sua publicação data de 1897.

Vale a pena saber disto, para se perceber que, ao falar-se de crescimento civilizacional do Porto ou de um Norte benfiquista, não se está realmente a revelar a fórmula da Coca-Cola.



Como já devem ter percebido, só cá vim picar o ponto. O único jogo capaz de me fazer sentar a ver futebol hoje seria para aí um Liverpool-Everton, um Bilbao-Real Sociedad, um Roma-Lazio ou um Bétis-Sevilha. Assim uma valente picardia, mas daquelas picardias a sério.

Já que estamos a falar de geopolítica e de picardias e do Minho, não sei se também têm esta ideia, mas a reprodução da guerra Porto-Benfica entre Braga e Guimarães tem muito mais em comum do que apenas o empréstimo de jogadores.

Mesmo quando tinha jogadores emprestados pelo Porto, o Guimarães já era uma espécie de Benfica do Minho. O apoio popular real ao clube é muito mais forte em Guimarães do que em Braga. A paixão exacerbada, que facilmente resvala para a pura irracionalidade. Não se consegue conceber com facilidade acontecer em Braga o que acontece com os adeptos em Guimarães, porque passa a sensação de que em Braga tudo aquilo é muito profissional, muito sistemático, muito bem pensado, mas, no fundo, muito artificial. A sensação que tenho, pelo menos, é que no dia em que acontecer ao Braga, por algum razão, em termos de resultados, o que tem acontecido ao Vitória, os adeptos saem de fininho, vão buscar outra vez os seus cachecóis do Benfica e fazem de conta que não tiveram nada a ver com aquilo. «Eu? Eu não sei nada, só cá vim ver a bola.» E o AXA fica para parque de estacionamento da Bragaparques.

O Braga não parece capaz de seduzir, realmente. Falta-lhe a ligação. Há um cheiro a podre que não se consegue disfarçar no meio de tudo aquilo. Eu chamo-lhe o cheiro da negatividade. O Vitória, pelo contrário, resiste, e parece ter essa ligação visceral à gente da terra de que é feita a massa do verdadeiro clubismo. É, entre as suas paixões assolapadas, os seus falhanços e os seus êxitos, um clube positivo – apesar do vulto omnipresente do sinistro Pimenta Machado.

É fácil, hoje, pensar que o aliado certo para se ter no Minho é o Braga. Pois eu continuaria a escolher o Vitória. Porque acho mais provável que, daqui a dez ou quinze anos, quando mudarem as pessoas e os cenários, ele continue a ser mais clube que o Braga.



*



Quando se chega a um score de 0-7 só há uma coisa a fazer: tentar a perfeição.

Mas com estilo.

Sobra-me um jogo. O saldo desta jornada é de 35 milhões de rupias apostadas e 35 milhões de rupias perdidas. Só há uma aposta simultaneamente valiosa e útil que me permita ou recuperar os 35 milhões ou, em alternativa, fazer o pleno: a vitória do Vitória a 6.25.

Portanto, aqui vai:

7 milhões de rupias na vitória do Guimarães a 6.25.

E quando o Benfica ganhar, amanhã, espero que os benfiquistas se lembrem que o enguiço invertido que resolveu o jogo foi feito aqui, e que o Jesus, o Cardozo e os patudos não foram mais que meros actores secundários neste grande enredo alquímico do qual vocês são espectadores (ou espetadores, com o novo acordo ortográfico) privilegiados.

sábado, 18 de fevereiro de 2012

«Quem quer passar além do Bojador...»

É quase humanamente impossível, para qualquer pessoa que siga o futebol em Portugal, olhar para o calendário do campeonato e não fazer do ciclo Guimarães- Académica-Porto um único jogo para o Benfica.

Não é só a invulgaridade de se jogar dois jogos seguidos fora de casa; é também a coincidência de esses dois jogos serem contra equipas tradicionalmente difíceis e de antecederem o jogo do título, resultando estes três jogos num ciclo decisivo para um eventual desbaste da vantagem de 5 pontos que o Benfica detém sobre o Porto.

Não são só os benfiquistas que olham para este Gui-Aca-Por como um único jogo tripartido – os portistas também. Foi a olhar para estas três jornadas, enfiadas no meio de uma eliminatória russa da Champions, que o Porto também jogou as suas fichas em Janeiro. O Porto sente, e sabe, que se não chegar ao dia 3 de Março a pelo menos dois pontos do Benfica as suas chances de renovar o título caem para 5 a 10 por cento – neste momento andarão nos 35 por cento.

Ou seja, em 12 dias o campeonato pode ficar praticamente decidido.



Vitória e a Académica são equipas completamente diferentes, e, sendo ambas muito difíceis, para lhes ganhar é preciso fazer coisas também diferentes, sendo que o Benfica faz melhor uma que outra.

O Vitória é uma equipa de velocidade, de explosão, com um plantel construído nesse sentido desde o início de época. A Académica, sendo também uma equipa de transição (tirando os três grandes todas as equipas de Portugal são equipas de transição) é uma equipa mais construtiva, que joga mais devagar e mais no processo simples e bem feito do que no risco criativo. É por isso que a Académica tem dificuldades em ganhar em casa – porque, fazendo as coisas bem feitas, as faz mais devagar e de forma mais previsível, o que, dando-lhe muita bola, se traduz em pouco espaço por onde chegar à baliza. Ora, esse é um problema que a Académica não vai ter frente ao Benfica, porque o Benfica ataca sempre e dá sempre espaço – mesmo quando não ataca, porque não é grande coisa a defender.

A Académica vai poder dar-se ao luxo de jogar em casa como gosta: em contra-ataque.

O jogo de Guimarães vai ser um tiroteio, o de Coimbra um jogo de xadrez.

Ora, na minha opinião a equipa do Benfica está muito mais preparada para tiroteios do que para jogos de xadrez – foi por ter permitido que o jogo das Antas deixasse de ser um jogo de xadrez e passasse a um tiroteio que, por exemplo, o Porto empatou a 2 com o Benfica. Num jogo de transições, nas quais o Benfica é fortíssimo, como diz o Jesus e muito bem, tem mais hipóteses de sair por cima do que contra uma equipa mais fechada atrás a jogar em casa.

Na defesa, o Guimarães vai dar mais espaço ao Benfica que a Académica. No ataque, apesar de provavelmente vir a criar mais perigo, também lhe vai dar a bola mais vezes e mais depressa. Este Guimarães a jogar em casa, pelo seu estilo de jogo, é um adversário mais acessível ao Benfica, na minha opinião, do que a Académica a jogar em casa.



É claro que esta perspectiva enferma do preconceito básico que já referi no início: apesar de sermos compelidos a olhar para estes dois jogos pré-Porto como um só, não há nada que os torne dependentes um do outro. Ou seja, nada impede de considerar que o Benfica pode perder pontos nos dois jogos. Só mesmo a boa vontade dos benfiquistas.



Pelo coração, todos os benfiquistas anseiam por uma vitória em Guimarães. Pela razão, haverá poucos que não admitam que o empate é o resultado mais lógico para este jogo. Senão vejamos: o Benfica vai a casa de uma equipa tradicionalmente muito difícil e na melhor fase da época, quatro dias depois de ter feito um jogo exigentíssimo em termos físicos e emocionais, com duas longas viagens à Rússia pelo meio, sem o seu especialista defensivo do meio-campo e sem o seu avançado desequilibrador, ambos lesionados, esperando-o aí uma partida feita de transições rápidas e sucessivas.

Penso que, razoavelmente, nestas circunstâncias, e com 5 pontos de avanço sobre o segundo classificado, seria difícil considerar um empate em Guimarães um mau resultado, e que poucas pessoas conseguiriam recriminar Jorge Jesus se, a 10 ou 15 minutos do fim, e estando empatado, ele fizesse uma substituição para segurar o resultado em vez de para arriscar a vitória. Apesar de eu achar que, se esta situação ocorrer, o Jesus tenta mesmo ganhar o jogo, porque é a sua (boa) maneira de ser.



Pessoalmente (e assumo-o desde o início da época) considero que, na conquista do título pelo Benfica, haverá mais de destino que de capacidade. É uma subversão lógica, é um pouco justificar os factos pelos factos em si, em vez de pela razão, mas, lá está, eu aceito essa acusação. É verdade: tenho baseado a maior parte das minhas análises partindo da convicção que o Benfica será campeão, e não baseando a convicção de que o Benfica será campeão numa análise racional. Para ser ainda mais correcto, tenho baseado as minhas análises na convicção de que, por uma questão de lei da dinâmica competitiva (que não existe, note-se bem), o Porto não será campeão – e, uma vez que só sobra outro candidato, que por isso o título irá para o Benfica.

A minha resposta para a pergunta: «Mas porque é que achas que o Benfica vai ser campeão?» é, no fundo, apenas essa: «Porque não acredito que o Porto o venha a ser, e não resta mais ninguém.»

«Mas então não achas que o Benfica seja melhor que o Porto?»

«Não. Acho que vai fazer um campeonato melhor que o Porto e que por isso vai ser campeão.»



Posto isto, e considerando o que atrás ficou dito sobre Vitória e Académica, o que é que eu vejo a acontecer neste ciclo de três jogos?

Vejo o Benfica a fazer 5 pontos.

Não me parece que o Benfica vá perder nenhum destes três – aliás, acho que o Benfica só vai perder pela primeira vez depois de ter o campeonato encaminhado, e provavelmente em boa parte por ter de jogar os quartos-de-final da Liga dos Campeões.

Vejo o Benfica a passar o Cabo Bojador em Guimarães, com uma vitória, com muita sorte à mistura. Vejo-o a empatar em Coimbra, com muito sofrimento, e a chegar ao Cabo das Tormentas com pelo menos 3 pontos de vantagem, o que lhe permitirá encarar um empate (até 2-2, por causa do factor desempate) como um resultado positivo.

Vejo Porto e Benfica a empatarem na Luz, dando sequência ao campeonato mais equilibrado entre os dois primeiros das últimas décadas. Não vejo este Porto a ser capaz de ir ganhar à Luz, nem vejo o Benfica com capacidade de ser melhor que o Porto num único jogo com tanto em jogo.

Penso que o Benfica sairá deste ciclo com 3 a 5 pontos de vantagem sobre o Porto (dependendo de o Porto vencer ou não, hoje, em Setúbal), e com uma convicção importante: a de que uma eventual derrota no jogo com o Sporting, em Alvalade, não dará a liderança do campeonato ao Porto. Penso que essa vantagem no confronto directo mesmo em caso de derrota com o Sporting será a almofada anímica que permitirá, por um lado, ao Benfica gerir a pressão da recta final do campeonato e que colocará o Porto sob uma pressão que o fará, entretanto, perder mais pontos, mesmo estando só concentrado no campeonato.

Também acho que o Porto vai eliminar o Benfica à Luz, na Taça da Liga, mas isso são contas de outro rosário.

sexta-feira, 17 de fevereiro de 2012

«Burkina? Faço!»

O leitor Danilu Kerdi Zerkarma, que nos segue na Malásia, enviou um sentido e-mail a agradecer os palpites da Liga Bwin profana que decorre aqui na Religião Nacional. Diz-nos que, com os 500 ringgits que já arrecadou graças às gratuitas e desinteressadas sugestões do RN já conseguiu comprar uma árvore da borracha só para ele. Pede-nos que continuemos porque o seu próximo objectivo é comprar um conjunto de 3 pneus para o riquixó.



Caro Danilu, se me estás a ouvir, compreendo perfeitamente a tua ansiedade. Afinal, o saldo actual da Liga Bwin é nada menos que o seguinte:



19 apostas, 10 acertadas, 9 falhadas.

Saldo inicial: 100 milhões de ringgits.

Saldo actual: 205,55 milhões de ringgits.



Não me sinto muito inspirado, mas os verdadeiros profissionais são assim – jogam até em cima do cimento e com defesas-centrais híbridos de brasileiro e poveiro a perseguirem-nos pelo campo aos golpes de kung-fu.



Rio Ave – Marítimo

Danilu, lembras-te da última vez que um Rio Ave-Marítimo não acabou empatado? Pois, eles também não. O Marítimo não ganha de certeza. Tenho a sensação que o Rio Ave acaba nos oito primeiros este ano, e sei que vai ser por causa dos resultados em casa, não sei é se devo ir tão longe ao ponto de ignorar a capacidade do Marítimo em jogar bem fora de casa. Tenho um feeling de que o Marítimo vai acabar por cair, mas não sei se será já.

Ponderosas dúvidas se abatem sobre mim…

Queres saber? Vou por outro lado, não sei se o Rio Ave ganha, mas marca pelo menos 2 golos.

5 milhões de ringgits a 2,85.



Gil Vicente – Braga

Granda joga, hã, Danilu?

E agora, o que é que fazemos? Fazemos a loucura de meter a equipa mais quente do campeonato a ganhar a 3 dos 4 primeiros no espaço de um mês, com uma odd de 4,33 que faz crescer água na boca? Sabendo que o Braga jogou a meio da semana? Ou partimos do princípio que este jogo ganhou muito maior importância para o Braga depois da derrota com o Besiktas e pomo-los a fazer um resultado melhor em Barcelos do que o Porto?

Nem tanto ao mar nem tanto à terra, como se diz aí na Malásia, não é? Também me parece. O Gil vai passar a época sem perder em casa com nenhum dos 5 primeiros, não vai? Também me parece. É sempre ingrato jogar no empate, porque é um escape para a indecisão e não se baseia realmente num raciocínio preciso, mas cheira-me tanto a empate que não consigo resistir. Ou é isso ou foi um dos putos que deitou uma bombinha de mau cheiro aqui ao pé.

6 milhões de ringgits no empate a 3,25.



Nacional – Académica

Danilu, já reparaste que a Académica é mais perigosa fora de casa que em casa? Já reparaste porque és um tipo atento e tens jeitos para as contas. Mas a Académica está em baixo, pá. Aquilo não é falta de qualidade, é baixa de forma. E as baixas de forma são lixadas, porque a cabeça pensa mas o corpo não chega lá.

O Nacional vai ganhar, porque precisa mesmo, mas eu não aposto em odds abaixo de 2.00. Não me agrada o retorno. E a vitória do Nacional está a 1.90.

Vamos fazer assim, o Nacional ganha, mas só por um golo. Uma aposta bem ousada.

4 milhões de ringgits a 3.50.



Feirense – Olhanense

Sem espinhas. Mesmo considerando que o Sérgio Conceição ganhou a Taça da Bélgica e ficou em segundo no campeonato como adjunto. Sim, eu sei: é um mundo bizarro e difícil de compreender.

Vitória do Feirense.

6 milhões de ringgits a 2.35.



Leiria – Beira-Mar

Como tens acompanhado a Liga Bwin aqui no RN já sabes que quem vai descer de divisão este ano vai ser o Leiria e o Setúbal. E sabes porquê? Por causa de jogos como este. O Leiria vai pagar o preço de ser uma casa de p….iiii frente a uma equipa certinha. E queres saber mais? Não me admirava que o Cajuda saísse do Leiria no fim deste jogo e viesse o Paulo Duarte, que foi despedido do Burkina Faso.

(Achaste piada a isso, não foi? Eu também. Só há uma coisa pior que ser despedido do Burkina Faso: ser contratado pelo Burkina Faso. Ou, melhor ainda: dizer Burkina Faso. Imagina o Paulo Duarte a falar com o sogro a pedir emprego: «Ó Bartolomeu, mas o que é queres que eu faça? Burkina?! Eu faço, pá!» Também ouvi dizer que Burkina é o nome de uma posição do karmasutra. Confirmas? Especialidade das meninas da luz vermelha. «Burkina? Faço…»)

Em que é que isto tem a ver com a nossa aposta?

Em nada, obviamente.

Beira-Mar também tem mais pontos fora do que em casa.

Danilu, vamos jogar forte nesta zebra?

Vitória do Beira-Mar.

4 milhões de ringgits a 3.30.



Setúbal – Porto

Só te digo isto, Danilu: toda a gente está a fazer contas ao Benfica a perder pontos para o Porto nesta jornada, mas no sábado o Porto empata. E mesmo que não empate que se lixe, eu aposto à mesma.

No sábado falamos melhor.

4 milhões de ringgits a 4.75.



Sporting – Paços de Ferreira

O Paços vai apertar o Sporting, mas não vai resistir à sorte de principiante do Sá Pinto. Ou, por outras palavras, ao estado de graça. No Sporting, os estados de graça têm muito poder. O mesmo poder que os estados de desgraça.

Mas o Paços marca um golito.

5 milhões de ringgits a 2.55.



Guimarães – Benfica

Aquele empatezinho a 3.75 dá que pensar, não dá?

É pá, dá mesmo que pensar…

Danilu, estou indeciso. Preciso de pensar melhor. Falamos no domingo, depois do jogo do Porto, OK?

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2012

Os Outros

Más notícias para o Porto antes do jogo começar: Mancini não secundarizou a Liga Europa. Pior do que isso: não só percebeu que esta eliminatória é uma final antecipada como quis resolvê-la logo na primeira mão. Vai daí, mete o onze mais forte. Isso foi, por si só, o factor mais determinante para o desfecho do jogo.

O cariz do jogo foi, afinal, aquele que eu esperava, com o Porto permitir a superioridade territorial do City para aproveitar o espaço – e aproveitou-o mesmo, fazendo uma primeira parte muito boa.

Só a qualidade colectiva e a experiência internacional do Porto lhe permitiram equilibrar um jogo perante uma equipa tecnicamente muito superior e com um ritmo que não está ao alcance de nenhuma equipa portuguesa. Um City sem Silva e Touré, por exemplo, poderia estar mais vulnerável. Um City completo é outra história – e Silva é a verdadeira estrela desta equipa.

A sorte do jogo e a imaturidade de Balotelli frente a baliza permitiram ao Porto aguentar o 1-0, mas os primeiros 20 minutos da segunda parte acabaram por mostrar que não há milagres. Nesse período faltou ao Porto, simplesmente, qualidade. Quatro meses de degradação técnica e táctica por parte do seu treinador de segunda categoria resultaram, afinal, no que se viu no Porto quando o City manteve o pedal a fundo e foi atrás da eliminatória: uma equipa afundada, sem soluções, sem verdadeiros automatismos na saída da pressão alta (algo a que, em Portugal, nunca está sujeito).

Este é o Porto de Jesualdo. O Porto pré-Villas-Boas. Um Porto a quem falta a sexta velocidade europeia. O City meteu uma abaixo e o Porto passou a ver jogar.

A época europeia do Porto acaba daqui a uma semana, e a grande questão é quanto vai passar a valer este Porto a jogar só para o campeonato. Pode ser que se aborreçam, que percam o ritmo, enfim, que estranhem… O Hulk, pela quantidade de vezes que, em desespero, tentou inventar passes de calcanhar para ainda conseguir dar nas vistas, vai estranhar de certeza.

A verdade é que as três próximas jornadas passam a ter uma importância ainda maior depois disto.



O Legia-Sporting foi uma espécie de Zenit-Benfica dos pequeninos. Liga Europa em vez de Liga dos Campeões, Polónia em vez de Rússia, a diferença dos clubes, claro, os factores campo e frio – falou-se pouco destes dois por causa da Novela do Choramingo mas o Sporting enfrentou condições tão adversas como o Benfica, neste aspecto – e até o Sá Pinto, quando for crescido, vai ter aquela bela melena pintada de grisalho, como o Grande J. Aura de salvador, já tem.

O que escrevi ontem em relação aos empates com golos, mantenho. Mas o 2-2, sobretudo contra uma equipa claramente inferior como é o Legia, continua a ser um resultado que quase mete o Sporting na próxima eliminatória. Apesar de tudo, dá muito mais margem de manobra do que o 1-1. O Sporting pode sofrer um golo sem entrar em pânico. Apesar de estarmos a falar do Sporting e de termos de dar o desconto para a tragédia, note-se…

Como o Legia demonstrou, continua a ser facílimo marcar um golo ao Sporting de bola parada: basta centrar a bola para onde não está o Capitão América e esperar que a lei da gravidade faça o resto, sendo que neste caso a bola é inevitavelmente atraída para a baliza.

A chicotada psicológica não funcionou, o que, parecendo que não, é positivo. Geralmente os jogadores que respondem a chicotadas psicológicas são jogadores psicologicamente frágeis. Um jogador estrutural e profissionalmente sólido não deve estar dependente de ter um treinador novo para jogar melhor. O Sporting do Domingos teria feito o mesmo resultado e o mesmo jogo na Polónia que o Sporting do Sá Pinto.

O verdadeiro impacto do novo treinador vê-se muito mais no longo prazo, e não é no pontapé na bola, que nisso os jogadores são iguais ao que eram antes. É na capacidade de aguentar a contrariedade, de suportar a pressão, de procurar o colectivo como solução, de jogar mais depressa, de fazer e sofrer pressão, nos pormenores que, todos juntos, fazem as pequenas diferenças que em competição cavam os grandes fossos entre as equipas. E que dão, centímetro a centímetro, muito trabalho até se conseguir fazer sem pensar. O jogo menos importante de um novo treinador é o primeiro.

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012

A câmara criogénica

Quando faltavam 7 minutos para acabar o jogo e estava 2-1, já convencido de que ia acabar assim, pois ambas as equipas estavam satisfeitas, pensei: «Excelente resultado.»

Quando o Benfica fez o 2-2, saltei, claro – pois emocionalmente o único resultado realmente bom para um benfiquista é uma vitória, sempre e em qualquer situação, é para isso que estamos treinados como adeptos… – mas quando me sentei torci o nariz.

Quando o Zenit fez o 3-2, depois de engolir o travo amargo, pensei: «Excelente resultado.» Como é evidente, pois se o 2-1 era excelente, o 3-2 é ainda melhor.



Posso dizer-vos exactamente o dia em que comecei a desconfiar dos empates fora, com golos, nas competições europeias: foi no dia em que o Benfica foi eliminar o Arsenal, a Highbury, por 3-1, depois de empatar a 1 em casa (jogo na Luz antiga a que assisti ao vivo).

E também vos posso dizer quando é que confirmei a sensação que tive nesse dia: quando, em 1994, o Benfica foi empatar 4-4 a Leverkussen depois de ter empatado a 1 em casa.



Quando a primeira mão é fora de casa, prefiro perder 2-1 a empatar 1-1, e prefiro perder 3-2 a empatar 2-2. E explico porquê.

O mais importante para uma equipa numa eliminatória europeia é entrar em cada jogo a saber ao que vai, e não há nada mais contra-natura para uma equipa do que entrar num jogo em casa a defender um resultado. Quando se está a falar de equipas de primeiro nível isso não é problemático, porque essas equipas (os Barcelona, Real Madrid, Manchester United, Milan, etc) só o são porque, historicamente, conseguiram esbater o factor casa/fora e jogam praticamente sempre da mesma maneira. Mas em equipas como o Benfica ou o Zenit, para quem o factor casa é quase sempre decisivo nas competições europeias, a ordem natural das coisas, que manda atacar em casa e defender fora, impõe-se. Ir contra isso mexe-lhes com o ADN.

Para o Benfica, entrar para a segunda mão sem saber se (e sobretudo como) deveria defender ou atacar, e onde é que começava e acabava um bom resultado, poderia ser mortífero – ainda me lembro de uma eliminatória em que o Benfica foi ganhar ao PAOK, à Grécia, por 2-1, e na segunda mão, cá (o treinador do Benfica era o Heynckes e jogava o Sabry no PAOK), teve de ir a prolongamento para os eliminar.

Uma eliminatória não é dois jogos, é um, e estamos no intervalo. Uma equipa que entra para a segunda parte sem ideias claras, contra outra que sabe perfeitamente e que vai mentalizada para o que tem de fazer (e qualidade para o fazer, esclareça-se) fica imediatamente numa situação de inferioridade, a começar pela iniciativa, que é um factor preponderante numa eliminatória tão equilibrada como esta



O 3-2 resolve uma série de problemas ao Benfica e ao Jesus.

Os jogadores sabem, com duas semanas de antecedência, que têm de jogar para ganhar na Luz. Ou seja, aquilo a que estão habituados e treinados para fazer. E sabem que sofrer um golo não é determinante, o que é igualmente importante, porque o Zenit vai marcar na Luz - tal como o Gil Vicente,o Feirense, o Guimarães, a Académica, o Nacional, todos menos o Sporting... - e convém, nessa altura, não entrar em parafuso.

O Jesus sabe com quem é que tem de jogar, porque também sabe que Zenit vai ter na Luz: o mesmo Zenit do Dragão, a defender muito e a jogar para o empate.



Por tudo isto, reafirmo: não é perfeito, porque perfeito seria ganhar 3-0 e poder meter os suplentes todos a jogar na 2.ª mão, mas é um resultado excelente.

Algum benfiquista lúcido, nas condições em que o jogo é jogado, rejeitaria uma derrota por 3-2 antes da partida? Claro que não.

Já sei que alguns de vocês vão dizer que sim, mas tudo bem, temos todos a mesma doença, só a vivemos de maneira diferente.

Se sabe a pouco ou sabe a muito é irrelevante: ficar à distância de uma vitória por 1-0 ou 2-1, na Luz, com o Zenit, para passar aos quartos-de-final da Liga dos Campeões é praticamente tudo o que, realisticamente, o Benfica poderia desejar. Nem a passagem teria a mesma graça se bastasse um empate. Com empates em casa em jogos decisivos não há realmente grandes noites europeias.



Quanto ao jogo em si, assisti a uma exibição espantosa do Benfica. Não sou, ao contrário do que se possa pensar, um utópico. Sei o que espero do meu Benfica, mas sei também, perfeitamente, que não é razoável esperá-lo já, nem tão cedo. Mas hoje fiquei espantado. E afogado. Durante a segunda parte olhei para o relógio a pensar que ia a meio e ainda só tinham passado 7 minutos.

O adversário, o cenário, o campo e o contexto foram de uma exigência brutal, e a equipa respondeu perfeitamente à altura. Ouso dizer (penso estar a repetir-me em relação ao que já referi na fase de grupos, mas ainda assim digo-o) que, com este jogo em São Petersburgo, a equipa do Benfica mostrou que está mentalmente preparada para jogar na Europa. Falta-lhe qualidade, evidentemente, não é com a maior parte destes jogadores que se pode chegar muito longe contra adversários melhores, mas o enquadramento mental está lá. Se o mantiver e se rechear o corpo da equipa com mais talento, o Benfica terá subido, definitivamente, para um patamar europeu onde já não se encontrava há décadas.



O Benfica fez tudo bem. Defendeu como devia, atacou como devia, jogou o jogo como se impunha que jogasse. Alcançou o primeiro objectivo aos 20 minutos, marcando o seu golo, e o segundo objectivo depois do 2-1 do adversário, segurando o jogo e não deixando fugir a eliminatória quando teria sido relativamente fácil abrir uma desvantagem de mais um ou dois golos, a vinte minutos do fim.

Não vale a pena dramatizar os golos do Zenit. Tal como eu tinha dito, aqueles são os golos de uma equipa habituada a atacar em casa. Há muito trabalho para chegar até lá e para ter a bola jogável em situação criativa, mas, depois, a parte inventiva sai naturalmente – como a do Benfica vai sair na 2.ª mão. Aquele segundo golo o Zenit marca-o ao Benfica, ao Lokomotiv de Moscovo, ao Rio Ave lá do sítio ou ao Barcelona. É uma jogada que o Zenit só faz em casa – porque aí está habituado a jogar no meio-campo adversário, porque os seus jogadores se conhecem e passam a maior parte do tempo a atacar, porque é um esticão que sai do ritmo normal do jogo, etc, etc. O terceiro a mesma coisa.

Foi o factor casa (e não o frio, note-se, como eu também tinha dito há uns tempos) que derrotou o Benfica, não a equipa do Zenit pelo seu valor superior.



Grande jogo do Maxi, um jogador a diesel feito para este tipo de terrenos em que não tem de apanhar com mudanças de velocidade. Falhou no terceiro golo? E então? Submetidos àquele tipo de esforço durante 90 minutos, todos os jogadores falham.

Espantoso jogo defensivo de Aimar. Não se preocupem muito com a ausência no segundo jogo. Não vai ser por aí. Muito pior seria ter ficado sem Garay, Luisão ou Artur. E assim sabemos que joga os 90 minutos com o Porto.

Meio-campo, de resto, em grande nível, incluindo Matic, cuja capacidade de passar a bola depressa e à distância desmontou, à nascença, várias situações de pressão do Zenit a meio-campo.

O Emerson, mais uma vez, foi o elo mais fraco. No segundo golo, não fecha o meio. No terceiro, perde a bola na saída para o ataque. Poder-se-ia dizer que era azar, como foi a do Maxi, se não tivesse acontecido umas 6 ou 7 vezes. Acabou por compensar com um dos seus pontos mais fortes: a resistência física, que lhe permitiu aparecer em velocidade na área contrária fazer o centro para o segundo golo do Benfica aos 85 minutos de jogo. O Emerson vai acabar a época como o segundo ou terceiro jogador de campo mais utilizado pelo Jesus, e isso é uma coisa duplamente notável. É fraquinho? É. Mas só nos pés, porque no pulmão vale por um corredor.

«Cardozo para os livres e para encostar se ela aparecer em frente à baliza»… Ah, espera, isto foi o que escrevi na antevisão, quando se soube o 11…

Gostei de ver o Nolito com pressa para recomeçar o jogo a poucos minutos do fim. É mentalidade de clube grande. Vê-se que lhe está no sangue. É mais importante do que parece. É um jogador à Benfica. Poderíamos dizer o mesmo do Gaitán, por exemplo, mesmo sendo bem melhor jogador?



Uma palavra para o Rodrigo: não vai ser o único a ficar encostado ou pendurado pelo rabinho no jogo com o Vitória. Às vezes até parece que já vi o jogo antes, digam lá se não é?



O que eu mais desejava neste momento? Que, depois da câmara frigorífica que foi o Estádio Petrovski houvesse uma câmara criogénica dentro do avião, no regresso, para onde os jogadores entrassem, que lhes permitisse apagar, quer dos músculos quer do sistema nervoso tudo o que aconteceu nos últimos dois dias.

Como se nada tivesse acontecido e a única coisa que existisse fosse o jogo de segunda-feira contra o Vitória de Guimarães, que é muito mais importante e vai ser muito mais desprezado que este da Rússia na época do Benfica.

Bah…



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