Há uma lacuna histórica que é recorrente – passe a redundância – e que fica muito mais visível quando a violência emocional das derrotas permite ligar o botão crítico. E tudo bem nisso, não há nenhum problema de aproveitar as derrotas para se achar os defeitos: se não se bate no ferro enquanto ele está quente, bem se pode bater mil vezes quando ele está frio que não vale a pena. A questão é saber onde bater, porque se se bate no sítio certo, melhora-se, se se bate no sítio errado, deforma-se e a coisa piora.
Esta lacuna é de ordem mental, cultural, pois atravessa não só as suas equipas como o próprio clube, e não pode ser treinada. Poder pode, mas o treino deste aspecto particular do jogo não tem bons resultados e acaba por virar-se contra os jogadores e, consequentemente, contra a própria equipa.
O que falta ao Benfica, historicamente, é agressividade natural.
Muitas vezes confunde-se este defeito com falta de ambição, com falta de espírito colectivo, com falta de treino, com muitas outras carências que, na verdade, não existem. Os futebolistas do Benfica têm a mesma capacidade de serem ambiciosos, colectivos, de trabalharem, a mesma inteligência média de qualquer outra equipa. Ou mais, se considerarmos o universo de todas as equipas com quem joga.
Agressividade não é isso. Para mim, agressividade natural tem um significado duplo e complementar: é a dificuldade de se subjugar ao papel de presa, e a consequente facilidade de tomar o papel de predador.
Há quem fale em mau-perder. Há quem fale em instinto assassino. Há quem fale em instinto de agressão. Em impiedade. Pode-se falar nesses termos, porque é disso que se trata.
Esta característica é a característica básica de um jogador de futebol, ou de qualquer outro atleta de alta competição, porque é a massa de que é feita a capacidade competitiva.
Um competidor nato tem uma elevada agressividade natural. Pode não ter mais nada, durante muito tempo, mas se tiver isso acaba por tornar-se útil num ambiente competitivo. Um jogador suficientemente agressivo apreende outras características que lhe permitem competir – tal como se aprende qualquer outro ofício, sendo, neste caso, o ofício ser-se um competidor. Para conseguir prevalecer, o competidor pode aprender, por exemplo, a tomar a iniciativa; ou a antecipar os acontecimentos; ou a usar os companheiros de equipa de forma a colmatar as suas insuficiências (a jogar em equipa, basicamente). Se tiver aptidões para isso, aprende a usar o físico, ou a usar bem a bola para atingir os seus propósitos – para um competidor, a bola não é um fim, é um utensílio para o sucesso, como as botas, o árbitro ou as linhas do campo.
No Benfica, este tipo de mentalidade não sai naturalmente. É uma questão cultural. Não posso falar do que se passou até aos anos 70, apesar de pensar que nem sempre foi assim – acho difícil o Benfica ter conseguido superiorizar-se ao Sporting, por exemplo, sem uma vantagem considerável neste aspecto, dada a vantagem do Sporting em termos financeiros e sociais durante as primeiras décadas. Mas, pelo menos desde que eu vejo futebol, o Benfica nunca se deu bem com o futebolista naturalmente agressivo – a não ser quando essa agressividade se juntava a um grande talento técnico, o que foi muito raro (lembro-me do Diamantino, por exemplo).
A questão é que o Benfica, tendo o suficiente para andar lá por cima, não conseguirá ser o claro dominador desta selva, nem conseguirá competir a alto nível no estrangeiro, enquanto não conseguir instilar mais agressividade na sua equipa de futebol.
Eventualmente, esse será um processo natural quando se perceber que, depois de muito andar (muito já se andou e muito se há de andar ainda), ainda falta qualquer coisa para se conseguir ser melhor do que o Porto, que baseou todo o seu sucesso na capacidade de agredir, e de ostensivamente tomar o papel de predador. Se se tiver as pessoas certas nos lugares certos – que é sempre o mais difícil – vai-se perceber que o que falta é precisamente essa agressividade natural. E depois começa outro processo, que é o de adquirir essa vantagem. Isso é algo que só se resolve no momento do recrutamento, quer dos jogadores feitos quer dos jogadores por fazer. Quando se diz que aquilo de que o Benfica precisava era de mais três ou quatro Javi García não se quer dizer que precisava de mais dois ou três destruidores de jogo: quer-se dizer que precisava de um Luisão com a cabeça de um Javi García, de um Aimar com a cabeça de um Javi García e de um Cardozo com a cabeça de um Javi García. Ou seja, jogadores de nível médio-alto com grande agressividade natural a constituir a espinh dorsal da equipa. Basta isso. Não é preciso ter uma equipa inteira de assassinos natos. E, nessa altura, já se podia dar ao luxo de ter jogadores como Witsel ou Gaitán, que, tendo uma qualidade superior, não têm estofo competitivo suficiente para suportarem uma equipa de futebol de exigência máxima, como é a do Benfica (ia a acrescentar Rodrigo, mas penso que o Rodrigo é bem capaz de ter essa agressividade natural em campo).
Quanto ao jogo em si, muito se há de falar dele esta semana, como tal, oportunidades não faltarão, mas há uma maneira bem simples de sintetizar a derrota do Benfica em Guimarães, sem mais delongas, considerando tudo o que já se disse: lógica.
Amanhã, quando o nível da azia baixar ligeiramente (tal como a euforia, a azia tolda o raciocínio), será mais fácil e mais útil dissecar este fracasso momentâneo.
Para já, fica a lição (para mim) verdadeiramente útil estruturalmente e a longo prazo: é preciso ser mais agressivo.
O resto é jogo.
(Actualização Kompensan às 10.22h
Entretanto, para a azia, aqui fica. Aproveitem.
(Actualização Kompensan às 10.22h
Entretanto, para a azia, aqui fica. Aproveitem.
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