quinta-feira, 16 de fevereiro de 2012

Os Outros

Más notícias para o Porto antes do jogo começar: Mancini não secundarizou a Liga Europa. Pior do que isso: não só percebeu que esta eliminatória é uma final antecipada como quis resolvê-la logo na primeira mão. Vai daí, mete o onze mais forte. Isso foi, por si só, o factor mais determinante para o desfecho do jogo.

O cariz do jogo foi, afinal, aquele que eu esperava, com o Porto permitir a superioridade territorial do City para aproveitar o espaço – e aproveitou-o mesmo, fazendo uma primeira parte muito boa.

Só a qualidade colectiva e a experiência internacional do Porto lhe permitiram equilibrar um jogo perante uma equipa tecnicamente muito superior e com um ritmo que não está ao alcance de nenhuma equipa portuguesa. Um City sem Silva e Touré, por exemplo, poderia estar mais vulnerável. Um City completo é outra história – e Silva é a verdadeira estrela desta equipa.

A sorte do jogo e a imaturidade de Balotelli frente a baliza permitiram ao Porto aguentar o 1-0, mas os primeiros 20 minutos da segunda parte acabaram por mostrar que não há milagres. Nesse período faltou ao Porto, simplesmente, qualidade. Quatro meses de degradação técnica e táctica por parte do seu treinador de segunda categoria resultaram, afinal, no que se viu no Porto quando o City manteve o pedal a fundo e foi atrás da eliminatória: uma equipa afundada, sem soluções, sem verdadeiros automatismos na saída da pressão alta (algo a que, em Portugal, nunca está sujeito).

Este é o Porto de Jesualdo. O Porto pré-Villas-Boas. Um Porto a quem falta a sexta velocidade europeia. O City meteu uma abaixo e o Porto passou a ver jogar.

A época europeia do Porto acaba daqui a uma semana, e a grande questão é quanto vai passar a valer este Porto a jogar só para o campeonato. Pode ser que se aborreçam, que percam o ritmo, enfim, que estranhem… O Hulk, pela quantidade de vezes que, em desespero, tentou inventar passes de calcanhar para ainda conseguir dar nas vistas, vai estranhar de certeza.

A verdade é que as três próximas jornadas passam a ter uma importância ainda maior depois disto.



O Legia-Sporting foi uma espécie de Zenit-Benfica dos pequeninos. Liga Europa em vez de Liga dos Campeões, Polónia em vez de Rússia, a diferença dos clubes, claro, os factores campo e frio – falou-se pouco destes dois por causa da Novela do Choramingo mas o Sporting enfrentou condições tão adversas como o Benfica, neste aspecto – e até o Sá Pinto, quando for crescido, vai ter aquela bela melena pintada de grisalho, como o Grande J. Aura de salvador, já tem.

O que escrevi ontem em relação aos empates com golos, mantenho. Mas o 2-2, sobretudo contra uma equipa claramente inferior como é o Legia, continua a ser um resultado que quase mete o Sporting na próxima eliminatória. Apesar de tudo, dá muito mais margem de manobra do que o 1-1. O Sporting pode sofrer um golo sem entrar em pânico. Apesar de estarmos a falar do Sporting e de termos de dar o desconto para a tragédia, note-se…

Como o Legia demonstrou, continua a ser facílimo marcar um golo ao Sporting de bola parada: basta centrar a bola para onde não está o Capitão América e esperar que a lei da gravidade faça o resto, sendo que neste caso a bola é inevitavelmente atraída para a baliza.

A chicotada psicológica não funcionou, o que, parecendo que não, é positivo. Geralmente os jogadores que respondem a chicotadas psicológicas são jogadores psicologicamente frágeis. Um jogador estrutural e profissionalmente sólido não deve estar dependente de ter um treinador novo para jogar melhor. O Sporting do Domingos teria feito o mesmo resultado e o mesmo jogo na Polónia que o Sporting do Sá Pinto.

O verdadeiro impacto do novo treinador vê-se muito mais no longo prazo, e não é no pontapé na bola, que nisso os jogadores são iguais ao que eram antes. É na capacidade de aguentar a contrariedade, de suportar a pressão, de procurar o colectivo como solução, de jogar mais depressa, de fazer e sofrer pressão, nos pormenores que, todos juntos, fazem as pequenas diferenças que em competição cavam os grandes fossos entre as equipas. E que dão, centímetro a centímetro, muito trabalho até se conseguir fazer sem pensar. O jogo menos importante de um novo treinador é o primeiro.

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012

A câmara criogénica

Quando faltavam 7 minutos para acabar o jogo e estava 2-1, já convencido de que ia acabar assim, pois ambas as equipas estavam satisfeitas, pensei: «Excelente resultado.»

Quando o Benfica fez o 2-2, saltei, claro – pois emocionalmente o único resultado realmente bom para um benfiquista é uma vitória, sempre e em qualquer situação, é para isso que estamos treinados como adeptos… – mas quando me sentei torci o nariz.

Quando o Zenit fez o 3-2, depois de engolir o travo amargo, pensei: «Excelente resultado.» Como é evidente, pois se o 2-1 era excelente, o 3-2 é ainda melhor.



Posso dizer-vos exactamente o dia em que comecei a desconfiar dos empates fora, com golos, nas competições europeias: foi no dia em que o Benfica foi eliminar o Arsenal, a Highbury, por 3-1, depois de empatar a 1 em casa (jogo na Luz antiga a que assisti ao vivo).

E também vos posso dizer quando é que confirmei a sensação que tive nesse dia: quando, em 1994, o Benfica foi empatar 4-4 a Leverkussen depois de ter empatado a 1 em casa.



Quando a primeira mão é fora de casa, prefiro perder 2-1 a empatar 1-1, e prefiro perder 3-2 a empatar 2-2. E explico porquê.

O mais importante para uma equipa numa eliminatória europeia é entrar em cada jogo a saber ao que vai, e não há nada mais contra-natura para uma equipa do que entrar num jogo em casa a defender um resultado. Quando se está a falar de equipas de primeiro nível isso não é problemático, porque essas equipas (os Barcelona, Real Madrid, Manchester United, Milan, etc) só o são porque, historicamente, conseguiram esbater o factor casa/fora e jogam praticamente sempre da mesma maneira. Mas em equipas como o Benfica ou o Zenit, para quem o factor casa é quase sempre decisivo nas competições europeias, a ordem natural das coisas, que manda atacar em casa e defender fora, impõe-se. Ir contra isso mexe-lhes com o ADN.

Para o Benfica, entrar para a segunda mão sem saber se (e sobretudo como) deveria defender ou atacar, e onde é que começava e acabava um bom resultado, poderia ser mortífero – ainda me lembro de uma eliminatória em que o Benfica foi ganhar ao PAOK, à Grécia, por 2-1, e na segunda mão, cá (o treinador do Benfica era o Heynckes e jogava o Sabry no PAOK), teve de ir a prolongamento para os eliminar.

Uma eliminatória não é dois jogos, é um, e estamos no intervalo. Uma equipa que entra para a segunda parte sem ideias claras, contra outra que sabe perfeitamente e que vai mentalizada para o que tem de fazer (e qualidade para o fazer, esclareça-se) fica imediatamente numa situação de inferioridade, a começar pela iniciativa, que é um factor preponderante numa eliminatória tão equilibrada como esta



O 3-2 resolve uma série de problemas ao Benfica e ao Jesus.

Os jogadores sabem, com duas semanas de antecedência, que têm de jogar para ganhar na Luz. Ou seja, aquilo a que estão habituados e treinados para fazer. E sabem que sofrer um golo não é determinante, o que é igualmente importante, porque o Zenit vai marcar na Luz - tal como o Gil Vicente,o Feirense, o Guimarães, a Académica, o Nacional, todos menos o Sporting... - e convém, nessa altura, não entrar em parafuso.

O Jesus sabe com quem é que tem de jogar, porque também sabe que Zenit vai ter na Luz: o mesmo Zenit do Dragão, a defender muito e a jogar para o empate.



Por tudo isto, reafirmo: não é perfeito, porque perfeito seria ganhar 3-0 e poder meter os suplentes todos a jogar na 2.ª mão, mas é um resultado excelente.

Algum benfiquista lúcido, nas condições em que o jogo é jogado, rejeitaria uma derrota por 3-2 antes da partida? Claro que não.

Já sei que alguns de vocês vão dizer que sim, mas tudo bem, temos todos a mesma doença, só a vivemos de maneira diferente.

Se sabe a pouco ou sabe a muito é irrelevante: ficar à distância de uma vitória por 1-0 ou 2-1, na Luz, com o Zenit, para passar aos quartos-de-final da Liga dos Campeões é praticamente tudo o que, realisticamente, o Benfica poderia desejar. Nem a passagem teria a mesma graça se bastasse um empate. Com empates em casa em jogos decisivos não há realmente grandes noites europeias.



Quanto ao jogo em si, assisti a uma exibição espantosa do Benfica. Não sou, ao contrário do que se possa pensar, um utópico. Sei o que espero do meu Benfica, mas sei também, perfeitamente, que não é razoável esperá-lo já, nem tão cedo. Mas hoje fiquei espantado. E afogado. Durante a segunda parte olhei para o relógio a pensar que ia a meio e ainda só tinham passado 7 minutos.

O adversário, o cenário, o campo e o contexto foram de uma exigência brutal, e a equipa respondeu perfeitamente à altura. Ouso dizer (penso estar a repetir-me em relação ao que já referi na fase de grupos, mas ainda assim digo-o) que, com este jogo em São Petersburgo, a equipa do Benfica mostrou que está mentalmente preparada para jogar na Europa. Falta-lhe qualidade, evidentemente, não é com a maior parte destes jogadores que se pode chegar muito longe contra adversários melhores, mas o enquadramento mental está lá. Se o mantiver e se rechear o corpo da equipa com mais talento, o Benfica terá subido, definitivamente, para um patamar europeu onde já não se encontrava há décadas.



O Benfica fez tudo bem. Defendeu como devia, atacou como devia, jogou o jogo como se impunha que jogasse. Alcançou o primeiro objectivo aos 20 minutos, marcando o seu golo, e o segundo objectivo depois do 2-1 do adversário, segurando o jogo e não deixando fugir a eliminatória quando teria sido relativamente fácil abrir uma desvantagem de mais um ou dois golos, a vinte minutos do fim.

Não vale a pena dramatizar os golos do Zenit. Tal como eu tinha dito, aqueles são os golos de uma equipa habituada a atacar em casa. Há muito trabalho para chegar até lá e para ter a bola jogável em situação criativa, mas, depois, a parte inventiva sai naturalmente – como a do Benfica vai sair na 2.ª mão. Aquele segundo golo o Zenit marca-o ao Benfica, ao Lokomotiv de Moscovo, ao Rio Ave lá do sítio ou ao Barcelona. É uma jogada que o Zenit só faz em casa – porque aí está habituado a jogar no meio-campo adversário, porque os seus jogadores se conhecem e passam a maior parte do tempo a atacar, porque é um esticão que sai do ritmo normal do jogo, etc, etc. O terceiro a mesma coisa.

Foi o factor casa (e não o frio, note-se, como eu também tinha dito há uns tempos) que derrotou o Benfica, não a equipa do Zenit pelo seu valor superior.



Grande jogo do Maxi, um jogador a diesel feito para este tipo de terrenos em que não tem de apanhar com mudanças de velocidade. Falhou no terceiro golo? E então? Submetidos àquele tipo de esforço durante 90 minutos, todos os jogadores falham.

Espantoso jogo defensivo de Aimar. Não se preocupem muito com a ausência no segundo jogo. Não vai ser por aí. Muito pior seria ter ficado sem Garay, Luisão ou Artur. E assim sabemos que joga os 90 minutos com o Porto.

Meio-campo, de resto, em grande nível, incluindo Matic, cuja capacidade de passar a bola depressa e à distância desmontou, à nascença, várias situações de pressão do Zenit a meio-campo.

O Emerson, mais uma vez, foi o elo mais fraco. No segundo golo, não fecha o meio. No terceiro, perde a bola na saída para o ataque. Poder-se-ia dizer que era azar, como foi a do Maxi, se não tivesse acontecido umas 6 ou 7 vezes. Acabou por compensar com um dos seus pontos mais fortes: a resistência física, que lhe permitiu aparecer em velocidade na área contrária fazer o centro para o segundo golo do Benfica aos 85 minutos de jogo. O Emerson vai acabar a época como o segundo ou terceiro jogador de campo mais utilizado pelo Jesus, e isso é uma coisa duplamente notável. É fraquinho? É. Mas só nos pés, porque no pulmão vale por um corredor.

«Cardozo para os livres e para encostar se ela aparecer em frente à baliza»… Ah, espera, isto foi o que escrevi na antevisão, quando se soube o 11…

Gostei de ver o Nolito com pressa para recomeçar o jogo a poucos minutos do fim. É mentalidade de clube grande. Vê-se que lhe está no sangue. É mais importante do que parece. É um jogador à Benfica. Poderíamos dizer o mesmo do Gaitán, por exemplo, mesmo sendo bem melhor jogador?



Uma palavra para o Rodrigo: não vai ser o único a ficar encostado ou pendurado pelo rabinho no jogo com o Vitória. Às vezes até parece que já vi o jogo antes, digam lá se não é?



O que eu mais desejava neste momento? Que, depois da câmara frigorífica que foi o Estádio Petrovski houvesse uma câmara criogénica dentro do avião, no regresso, para onde os jogadores entrassem, que lhes permitisse apagar, quer dos músculos quer do sistema nervoso tudo o que aconteceu nos últimos dois dias.

Como se nada tivesse acontecido e a única coisa que existisse fosse o jogo de segunda-feira contra o Vitória de Guimarães, que é muito mais importante e vai ser muito mais desprezado que este da Rússia na época do Benfica.

Bah…



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terça-feira, 14 de fevereiro de 2012

Tremei!

Começa amanhã o resto da época e não quero saber do Sá Pinto para nada, a verdade é esta. Não me apetece falar de politicas, apetece-me falar de bola, porque agora é que a bola chegou a sério. Deixo o Sá Pinto para a semana, depois das duas vitórias nos dois primeiros jogos meterem os sportinguistas de barriga para o ar.

Para já, só duas notas:

- O Coração de Leão tomar posse no Dia dos Namorados é engraçado, e veremos se não é premonitório;

- Sem querer, encostado à parede, o Sporting é bem capaz de ter acertado, por aquilo que vou observando e racicinando. Dentro dos limites daquilo que, para o Sporting, é acertar, claro. Repare-se que nestes dois dias já se falou não sei quantas vezes do «sucesso» do Paulo Bento, quando o sucesso do Paulo Bento foi ter ganho duas Taças e ter ficado três vezes em segundo no campeonato. Porto e Benfica adorariam que Sá Pinto ficasse 20 anos no Sporting com este tipo de sucesso. Eram mais 20 campeonatos para distribuir entre os dois.



Falando do que interessa…



Estou com grande curiosidade em ver a equipa que o Jesus vai escolher para o jogo de amanhã. Eu, no momento de definir prioridades, não teria dúvidas em resguardar jogadores para o jogo de Guimarães. Por duas razões.

Em primeiro lugar, porque jogar naquelas condições vai dar disparate. É demasiado exigente para o físico para não virem de lá, pelo menos, dois jogadores tocados, e isto num momento em que Javi Garcia já não vai jogar.

Em segundo lugar, porque estou plenamente convencido que o segundo jogo é que vai decidir a eliminatória.

O sucesso do Benfica nesta eliminatória passa por defender muito bem na Rússia, marcar um golo e deixar a passagem em aberto para o segundo jogo, que virá no final do ciclo decisivo para o campeonato, com a equipa (se tudo correr bem) com o título encaminhado e sem ter mais nada na cabeça, a jogar em casa. Na Luz, o Benfica pode fazer o resultado de que precisa, desde que não o comprometa na Rússia.

A eliminatória é equilibradíssima, e penso que poderá ter ficado decidida com a lesão de Danny, que seria o jogador fundamental do Zenit na 2.ª mão.

A ausência de Javi Garcia não deve ser menosprezada. Ter Matic não é o mesmo que ter Javi, em nada, mas sobretudo em cultura defensiva. A lesão de Javi, aliás, vem na pior altura, e é problemática. De facto, juntamente com Luisão e Artur, Javi é, na minha opinião, um dos três jogadores que não têm substituto à altura na equipa, quer pela qualidade quer pelas funções específicas que desempenham. A saída de qualquer outro jogador não obriga a nada mais que uma mudança de pessoal. A saída de Luisão e Javi obriga a mudar estratégias, porque a sua substituição requer sempre um jogador e meio – ou seja, dois jogadores. Neste caso. Witsel vai ter de fazer de uma parte de Javi, e ofensivamente o meio-campo vai ressentir-se.

Não devemos também menosprezar o facto de este ser um dos jogos mais importantes na carreira do Jesus. Neste momento, o Jesus é um treinador já a alargar horizontes, e a Liga dos Campeões é o espaço para ele se mostrar. Já aconteceu este ano e vai voltar a acontecer. Aliás, o contrário é que seria estranho, e penso que os próprios jogadores, que sonham com a Champions, não ficariam agradados se sentissem que o treinador punha em causa a prestação da equipa nessa competição para proteger jogadores. Os jogadores não querem ser protegidos na Champions, querem é jogá-la, porque campeonato há todas as semanas. Mesmo que dissessem o contrário (e não dizem, note-se).

Curiosamente, acho que o estado do relvado e a lesão do Javi Garcia, apesar de dificultarem a vida à equipa, podem facilitar as decisões de Jesus. O terreno pesado pode levá-lo a apostar em jogadores mais físicos. Não me admiraria que Gaitán e Aimar não jogassem de início e que Jesus os guardasse para a passagem da hora de jogo, tentando optimizar o único factor que tem a seu favor: a falta de pedalada do Zenit, faz o seu primeiro jogo a sério depois das férias.

Não me surpreenderia mesmo nada ver o Benfica a entrar com Artur; Maxi, Luisão, Jardel e Emerson; Witsel, Garay e Matic; Bruno César, Cardozo e Saviola, com Aimar, Gaitán e Rodrigo a entrarem na segunda parte, apesar de ser mais provável que Jardel não jogue e que um destes três (provavelmente Gaitán) ou Nolito comecem o jogo.

Sei que o Jesus vai tentar surpreender o Spaletti (ou, segundo a gíria benfiquista, inventar) só não sei onde.



A grande questão para o Benfica vai ser conseguir marcar. É verdade que, normalmente, o Benfica marca, mas esta é uma situação extraordinária. Além de tudo o resto, convém não esquecer que o Zenit é uma das equipas que mais aproveita o factor casa na Europa, seja porque razões for, com bom ou mau tempo. Há uma própria cultura que se cria, e isso, nos jogos europeus, conta muito.

Penso, friamente, que arrancar uma vitória em São Petersburgo não está ao alcance do actual Benfica, que um empate é possível mas improvável, e que provavelmente o Zenit vai acabar por conseguir desequilibrar numa jogada fortuita, por mero à-vontade de jogar em casa.

Também penso que, no cômputo geral, o Benfica é ligeiramente superior ao Zenit (sobretudo sem Danny) e jogo nisso para decidir a eliminatória.

Em conclusão, considerando tudo isto, e sobretudo por causa das lesões, que vão ser mais influentes que o frio, prevejo, mais ou menos, o seguinte: vitória do Zenit, na Rússia, por 2-1, e vitória do Benfica, na Luz, por 3-1, eventualmente no prolongamento. É assim tão equilibrada esta eliminatória.



Já que estamos em dia de amores e almas gémeas, falo também do Porto.

Continuo a dizer que o Porto vai passar a eliminatória. Os factores que identifiquei na altura do sorteio mantêm-se intactos. Confirma-se que o City caiu de produção, como era previsível que caísse, e o facto do primeiro jogo ser jogado nas Antas favorece o Porto, porque joga em casa sentindo que tem tudo em aberto.

Não é problemático para o Porto não ter o Manko. Duvido que o Manko jogasse este jogo mesmo se pudesse. O Porto vai beneficiar de um autêntico privilégio para qualquer equipa de topo: poder jogar em contra-ataque em casa, algo que praticamente nunca acontece e que desta vez vai acontecer. Nesta estratégia, é melhor para o Porto ter três avançados rápidos do que dois, sobretudo com o Hulk no meio. Com uma equipa pequena, é contra-produtivo; com uma equipa grande é o ideal. Ter espaço para correr e jogar, com avançados tecnicamente muito superiores aos defesas adversários, em casa, com a motivação no topo, no que pode ser a última oportunidade para mostrar a toda a gente que continua a ser uma equipa de Champions, contra uma equipa suficientemente boa para exigir o máximo mas muito longe de se encontrar fora de alcance (pelo contrário) – eis o cenário ideal com que o Porto se vai deparar na 5.ª feira. Hulk e James, a jogarem para o contrato, vão detonar a defesa inglesa.

Também há o factor Lucho, que traz experiência e confiança. Lucho tem a tarimba europeia toda. Aliás, o Porto tem uma equipa mais experiente, em termos europeus, que o City, e isso vai ser importante na abordagem ao jogo. O Porto vai saber como abordar a eliminatória, e não só o jogo. O City, duvido. Aliás, é só por não ter experiência europeia  que o City está na Liga Europa e não na Champions, porque qualidade não lhe falta.

Duvido muitíssimo que os factores de motivação do City lhe permitem arrancar sequer um empate nas Antas, e consigo ver perfeitamente o Porto a empatar em Manchester, se tiver de o conseguir para passar a eliminatória. O Porto tem tarimba suficiente para isso.



O que prevejo nesta eliminatória: vitória do Porto nas Antas, com 2 ou mais golos marcados, e o resultado necessário para passar, na 2.ª mão, em Inglaterra, mesmo que seja uma derrota.



Sendo assim, para meter o dinheiro falso onde tenho o paleio, aqui fica uma ronda europeia da Liga Bwin, já com o Sporting, cuja antevisão deixo para amanhã (e ainda bem que não apostei no Braga…):



Zenit-Benfica

6 euros na vitória do Zenit, a 2.55. (Bem gostava eu de meter os 6 euros no empate, a 3.20. O coração manda, mas a razão não deixa)



Porto-Manchester City

8 euros na vitória do Porto, a 2.75



Legia-Sporting

9 euros no empate do Sporting, a 3.20 (uma odd óptima, digo de passagem. A vitória do Sporting está a 2.15. Irrealista, atrevo-me a dizer.)

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012

O último chuif

Talvez a saída do Choramingos merecesse aqui uma análise extraordinária, mas a verdade é que não me inspira nada de particularmente especial. Provavelmente porque não vi, logo de início, nenhuma razão para o orgasmo colectivo que rodeou a entrada dele no Sporting.

A única coisa que realmente destacou o Domingos dos outros treinadores portugueses, nos últimos anos, foi o timing. Falando em bom português, a oportunidade. Quer nos clubes por onde passou quer na sua entrada no Sporting. Aliás, olho para o que escrevi nessa altura e não vejo onde me possa ter enganado. Não mudaria uma vírgula.

Mas vamos começar por aqui, pela oportunidade.



O projecto do costume

A diferença do Domingos para qualquer tentativa de clone mourinhesco que tenha entrado no Sporting desde José Peseiro é que o Domingos entra no momento mais importante da história recente do Sporting, após eleições em que, na prática, os sócios sufragaram (ou tentaram sufragar) o enterro da tecnocracia roquetista e passar a praticar uma política de investimento à Benfica, desistindo dos barretes a custo zero para passar a apostar em valores caros para obter resultados. Esta inflexão na política de despesas do clube teve três faces: Luis Duque, Carlos Freitas e Domingos, o homem de que o próprio Duque fez depender o seu regresso como condição essencial para o sucesso.

A saída de Domingos fragiliza imenso o projecto do Sporting (e quero ressalvar aqui o facto de, ao referir-me a projecto, estar a ser completamente sarcástico) acima de tudo porque, ao fragilizar todas as partes envolvidas, fragmenta o poder.

Despedir Domingos ao fim de oito meses da revolução – esta sim, uma revolução – não é o mesmo que despedir Carvalhal, Couceiro ou Paulo Sérgio, porque nenhum deles representava realmente um projecto, antes uma tentativa. Nem ter o real Luís Duque a ver cair o seu treinador é o mesmo que ter o curioso Costinha a ver cair a sua invenção. Foi uma aposta muito elevada, num momento demasiado importante, para ser equiparada a alguns disparates anteriores, que não passaram mesmo disso. Isto não foi um disparate – foi um rotundo falhanço.

E não é só o momento em que entra que distingue o Domingos. É também o momento em que sai, um dia depois do presidente do clube dizer que «isso não faria sentido» e dois dias depois da Juve Leo ter ido esperar a equipa ao aeroporto com insultos quatro dias após o apuramento para a final da Taça.



Juve Leo ao poder

A entrega da cadeira de treinador a Sá Pinto representa a subida definitiva da Juve Leo a um patamar de influência sobre a decisão que lhe permite superar a pequena margem que lhe faltou para eleger Bruno Carvalho à presidência no último Verão.

Só alguém extremamente inocente é que não vê na política comunicacional da Direcção do Sporting nos últimos meses uma tentativa de trazer a claque oficial do clube para o seu lado. O afastamento institucional em relação ao Benfica, liderado pelo vice-presidente ex-PJ Cristóvão, ao arrepio do próprio interesse estratégico do clube, é um exemplo evidente. Neste período, foi sempre o clube a virar à direita e a aproximar-se do extremo onde se encontra a claque. Da parte desta nunca se vislumbrou qualquer aproximação. A escolha de Sá Pinto – um tipo esperto, que soube, desde cedo, aproveitar a força da claque a seu favor – é o momento em que a Direcção do Sporting atravessa a linha de não-retorno. E é um momento desastroso para o futuro próximo do Sporting.

Neste momento, especificamente, numa altura em que entrou num processo de inversão estratégica histórica, o Sporting precisava de ter tido um líder. Um estadista. Alguém que dissesse, pelo seu gesto: «O poder está aqui. E não vai a lado nenhum.» Alguém que dissesse basta. Aconteceu exactamente o contrário. A Direcção não aguentou a pressão e rendeu-se. Ao render-se, permitiu o desmantelamento da estrutura de poder sem a qual não pode haver coerência na tomada de decisão. O que o Sporting ganhará em tranquilidade nas próximas semanas será rapidamente consumido pela degradação institucional que aqui tem origem.

O pior disto tudo é que mesmo que Sá Pinto não tenha sido escolhido para apaziguar a Juve Leo, parece, e isso é suficiente para passar o poder à claque. O poder no Sporting já caiu na rua, e, entre alguns êxitos (que hão-de aparecer) e muitos mais insucessos, por lá vai andar nos próximos anos até aparecer alguém suficientemente audacioso, ambicioso e oportunista para o agarrar, o concentrar (como Vieira e Pinto da Costa) e o exercer durante muitos e muitos anos. Se calhar até alguém que apareça de dentro da Juve Leo…



«O perfil», take 357

Assim que o Ricardo Sá Pinto for apresentado como novo homem de facto providencial do Sporting, com a Juve Leo a transformar a sala de imprensa num comício ateniense, há uma palavra que inevitavelmente vai saltar da boca do presidente do Sporting: «Perfil».

O perfil é a pedra filosofal do Sporting nos últimos 20 anos, pelo menos. Quando o Sporting encontrar o homem com o perfil, vai ser imparável. O perfil é o Projecto Manhattan do Sporting. O Duque já tinha dado com o perfil, quando quis contratar o Mourinho «e o meu país não deixou» (leia-se, a Juve Leo...). É, aliás, ainda hoje, o seu grande capital de crédito. O Duque sabe qual é o perfil - ou sabia, pensou-se até agora, e por isso é que o Domingos se torna um problema tão grande...

Há um conjunto de treinadores que me preocuparia ver entrar no Sporting e todos eles têm várias características em comum, que em conjunto constituem aquilo que normalmente se chama de perfil. Escusado será dizer que nenhum deles é o Ricardo Sá Pinto, como não era nem o Domingos, nem o Paulo Sérgio, nem o Carvalhal, nem o Couceiro, nem o Paulo Bento, nem qualquer outro jovem talento que lá tenha estado desde que o Inácio saiu.

Todos esses treinadores que me preocuparia ver no Sporting têm bem mais de 50 anos, todos já passaram por todo o tipo de experiência no futebol português menos uma (serem campeões nacionais como treinadores) e todos têm uma personalidade relativamente carismática, construída pelo tempo e pela sua própria personalidade.

Quando digo todos, digo três. Três manuéis. Por esta ordem, Manuel José, Manuel Cajuda e Manuel Fernandes.

Louco? Quem, eu?

Amanhã, quando eu entrar dentro do ADN do Sá Pinto, falamos melhor sobre isso…



Só para acabar, quero reafirmar o seguinte, para que conste: quem despediu o Domingos não foi o Godinho Lopes, nem o Duque, nem próprio Domingos – foi o Benfica.

(E se não acreditam tirem as vossas conclusões de agora mesmo eu estar a ouvir na SIC Noticias o Ribeiro Cristovão, sportinguista dos sete costados e representante do mais tradicional sportinguismo, a fazer comparações entre o Benfica e o Sporting, sem ninguém lhe fazer qualquer pergunta nesse sentido, num dia em que a única notícia benfiquista foi a equipa ter apanhado um avião para a Rússia. Ao contrário isto não aconteceria.)

domingo, 12 de fevereiro de 2012

Uns na montanha, outros no deserto

Porto – IRPR, 0.181

É claro que, nas condições actuais, um benfiquista dificilmente poderia desejar mais que ver o Porto empatar em casa com o último classificado, mas não estou completamente seguro que não tenha sido melhor para o Benfica o Porto ter acabado por ganhar – sobretudo como ganhou.

O mais importante para o Benfica, neste momento, é encarar os próximos três jogos como os três jogos realmente decisivos – que são – do campeonato. Entrar para o primeiro desses jogos, em Guimarães, com uma súbita almofada de 7 pontos de avanço, depois de um jogo complicadíssimo para a Champions, seria um convite a um sentimento de comodidade que o Benfica não pode, de todo, deixar assentar.

Mesmo 7 pontos, perante este ciclo, são perfeitamente enganadores, porque em qualquer um dos próximos 3 jogos o Benfica pode perder.

Coloquemos o cenário do Benfica entrar com 7 pontos de avanço em Guimarães. Facilita e empata o jogo. 5 pontos. A confiança abala, os jogadores deixam de se sentir protegidos pelos deuses, experimentam a derrota, a Académica saca um bom jogo e, com alguma sorte, ganha. 2 pontos. O Benfica treme como varas verdes. Qualquer equipa tremeria, sentindo-se vulnerável precisamente na aproximação do jogo do título. Na Luz, um Porto tranquilo e confiante, mais experiente e ciente de que pode ganhar ali, como já ganhou, vence. É o fim do campeonato para o Benfica, ponto final.

Não era com o Leiria a empatar nas Antas que o Benfica asseguraria fosse o que fosse: é com pelo menos 4 pontos entre Guimarães e Coimbra e sem perder com o Porto. O Leiria serviu só para irritar. E fez perfeitamente o seu papel. Que o Porto tenha feito um resultado melhor que o Benfica, e roubasse algum do protagonismo excessivo que o jogo com o Nacional lhe estava a dar, foi só um bónus. Para continuar a dar a ideia do «taco a taco» que, neste momento, coloca uma pressão útil a quem vai com 5 pontos de avanço. Esta goleada faz lembrar aquela do 5-0 com o Nacional, na jornada 8, em que o Porto não jogou nada mas começou toda a gente a dizer que  «agora é que é». Nos 4 jogos seguintes, o Porto ganhou mais um, perdeu com o APOEL, perdeu com a Académica e empatou com o Olhanense.

Vai ser mais importante para o campeonato o Manchester City do que o Leiria, e nem sequer joga cá.


Sporting – IRPR, 0.000

Não esperava que o Sporting ganhasse, mas perder 2-0 com o Marítimo…

Seria perfeitamente expectável que não recuperasse do jogo de quarta-feira a ponto de estar preparado de enfrentar o Marítimo nos Barreiros. Não só houve grande concentração para o jogo com o Nacional, e grande exigência no jogo, como o próprio ambiente da Choupana puxa muito pelo físico, por causa da altitude.

Ficar na Madeira não era bem uma opção, pois era a única opção, mas seria sempre mau, porque a Madeira (como os Açores) é um sítio esquisito para se estar, tem um clima diferente do Continente, e não só. Quem já lá esteve sabe que aquela terra não é bem terra para quem não está habituado. Respira-se de maneira diferente

Em condições normais, o Sporting dificilmente ganharia nos Barreiros. Nestas condições, quase impossível. E com o Domingos a explicar, através da escolha da equipa, que ficava satisfeito com o empate e que lhe interessa muito mais o jogo da próxima 5.ª feira, o que é que podia acontecer?
 

A Juve Leo já decidiu quem é o elo mais fraco, pelo que se viu no aeroporto. Quem é que vai salvar o Domingos? O calendário, outra vez.

Se o campeonato fosse a Volta a Portugal em bicicleta o Sporting estaria agora a reentrar no Alentejo. Não é capaz de ganhar a nenhum dos outros quatro primeiros do campeonato, mas o próximo com quem vai jogar é o Benfica, daqui a oito jornadas.

Mas desta vez não vai cá haver 35 vitórias consecutivas, por duas razões: porque neste momento as equipas pequenas já sabem quantos pontos é que têm de fazer e têm menos jornadas para os fazer; e porque o Sporting tem aí a sua verdadeira competição da época, não a Taça de Portugal (para a qual não se vai «virar», como disse o Jesus em autêntico estado de borrifanço para eles, porque é só um jogo e o último da época) mas a Liga Europa, onde vai defrontar Légia e Porto ou Manchester City para chegar aos quartos-de-final. É nisso que os jogadores se vão concentrar e isso vai custar mais pontos ao Sporting.

E se não dou já por encerrado o capítulo Champions do Sporting é porque o Braga também pode chegar lá e porque ainda tem de ir jogar à Luz e a Alvalade, eventualmente deixando aí 6 pontos (embora não seja linear). O que será um facto é que o Braga-Porto será um jogo decisivo, e isso é muito bom para o Benfica, porque na última época foi um não-factor e agora é um dos poucos jogos, até ao fim do campeonato, em que o Porto pode realmente deixar pontos, desde que o Braga jogue a sério.

Para já, tenho algumas dúvidas de que o Sporting passe pelos próximos três jogos (Paços e Rio Ave em casa e Setúbal fora) com nove pontos.

No fim desta história, o que é que é que mais trágico no Sporting? Não é passar três meses à espera de um piquenique no Jamor. É aquela estranha sensação de que o mais provável é nesse dia estar a chover…



Liga Bwin – actualização

Não é que o Rio Ave ganhou mesmo em Olhão? Além disso, ainda não houve um empate nesta jornada. Altamente improvável, estatisticamente, que ela acabe assim. Posto isto, uma vez que só não pus o Rio Ave a ganhar porque pensei que o Gil ia ganhar à Académica, e achava duas vitórias fora dos pequenos demasiado para uma jornada só, vou utilizar a minha prerrogativa sacerdotal para alterar a aposta no Académica-Gil.

Passa a 10 euros, no empate, a 3.00.

Para ver se ainda ganho qualquer coisita de jeito esta semana…

Até agora, esta semana, 8.15 euros positivos.

E que tal os 4 golos no jogo do Porto? Grande fezada, hã?

Futebol entrançado

Fui à bola com a sacerdotisa. Da última vez que a tinha levado ao Benfica tínhamos perdido 3-0 com a Académica. Da primeira tínhamos empatado a 2 com o Beira-Mar. A minha mulher dá azar ao Benfica. Quando levo a mulher à bola e o Benfica ganha 4-1 não há razões para se esta preocupado. Vai tudo correr bem.

No regresso ela disse-me para não vir para aqui estragar a noite aos benfiquistas com as minhas exigências. «A equipa até deu bons toques na bola (sic) e marcou bons golos», disse-me ela.

Por deferência à esposa, e também porque, quando vinha para casa, ouvi o Jesus no rádio a dizer que o Benfica tinha feito uma das melhores exibições da época, vou dedicar esta crónica a alguns fait-divérs mais levezinhos.



Por exemplo, sabemos que um jogador é o elo mais fraco de uma equipa quando uma equipa amputada dos seus dois ou três melhores jogadores, com uma meia-final da Taça de Portugal perdida dois dias antes e uma viagem da Madeira para Portugal pelo meio, depois de tentar explorar, durante 15 minutos, o facto de a outra equipa ter um médio-ofensivo a jogar a defesa-direito, rapidamente percebe que obterá melhores resultados se canalizar todo o seu jogo ofensivo para o outro lado, onde está o defesa-esquerdo titular, porque aí é que pode estar o tesouro.



Durante 45 minutos pensei que o Witsel tivesse rapado o cabelo. Só quando mudaram de campo é que vi que tinha trancinhas. Foi nesse momento que me apercebi da plena potencialidade do cabelo do Witsel. O Witsel devia ter um penteado para cada posição. Quando joga a médio-centro, usar a afro. A defesa-direito, as trancinhas. A 10, pôr o cabelo todo liso, para trás, à maestro. Quando jogar a extremo-esquerdo fazer risco ao lado. Esta é uma ideia demasiado espectacular para se perder num blog clandestino. Alguém com poder que pegue nisto e faça história. «Camaleão Witsel».



A equipa do Benfica tem três partes. A parte de trás, que é relativamente boa; a parte do meio, que precisa de muito espaço para funcionar; e a parte da frente, que é uma coisa do caraças. O grande desafio desta equipa do Benfica é conseguir chegar à linha imaginária que atravessa o campo de um lado ao outro cerca de 15 metros à frente da grande-área adversária. Se o Benfica chega aos últimos 35 metros do campo, passa a ser um problema de classe mundial que os outros têm para resolver. É um futebol entrançado, que dá poucas hipóteses à defesa. Com melhores jogadores a executar, este estilo de ataque é mortífero. É muito parecido com o da equipa que ganhou o campeonato em 1994, com o João Pinto, o Rui Costa, o Isaías, o Águas, o Paneira… Mas essa defendia muito pior.

Agora só falta conseguir chegar a esses 35 metros sem ser em jogadas de transição. Não é impossível. Se não se estragar o que já está feito, se se for prudente com o que se tem, profissional, audacioso e ambicioso com o que ainda não se tem, e se se acertar muito mais do que o que se errar, daqui a 5 ou 6 anos é possível.



Antes do Cardozo marcar o penálti disse à minha mulher: «O Cardozo vai tentar marcar em jeito e falha.» (Porque o Cardozo, juntamente com as anémonas e os corais, é um dos invertebrados marinhos mais previsíveis do oceano). Ela encolheu os ombros, porque enquanto vocês só apanham comigo aos poucochinhos ela apanha comigo todos os dias. Aquele encolher de ombros era uma forma de dizer: «Cala-te, chato.» Depois, o Cardozo tentou marcar em jeito, falhou o penálti e ela ficou a olhar em frente, sem abrir a boca, e a tentar não se desmanchar a rir para não irritar os benfiquistas em redor.

Devo dizer que, hoje, o Cardozo me mostrou, de facto, que está a fazer a melhor época dele no Benfica. Está um jogador muito mais leve, mais colectivo e ligeiramente mais criativo do que da última vez que o vi. Este Cardozo vale mesmo pontos – e olhem que, em quatro anos, este é o maior elogio que já lhe fiz.



O Rodrigo é um competidor nato. Com aquela capacidade física, cultura táctica e facilidade técnica, aos 20 anos de idade, confesso que, ao vivo (e ao vivo percebe-se perfeitamente tudo isto, sobretudo o seu poder físico, que o coloca claramente acima dos defesas), vi poucos. Posso estar a exagerar, mas, se há uns dias disse que ele e o Witsel, daqui a poucos anos, estariam nas melhores equipas da Europa, hoje digo que o Rodrigo, aos 27 anos, se não houver lesões e se não quiser dar um passo maior do que a perna – ou seja, se não quiser subir depressa demais para ganhar dinheiro e com isso ficar encostado metade do tempo numa equipa acima das suas capacidades – vai estar entre os cinco melhores avançados da Europa. E, na próxima época, será já o jogador mais importante na equipa do Benfica.



Já em casa, ouvi o Grande J dizer na conferência de imprensa que o Benfica tinha «um estádio a três dimensões» e, depois disto, só se pode ir para a cama com um sorriso nos lábios.

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012

A Sagrada Família

«Somos como uma família»
Joan Capdevilla

«Michael, a única coisa que interessa é a família»
Vito Corleone
 

O futebol não é só um desporto de massas e de gigantismo. Também é um desporto de subtilezas.

Ouvimos um suplente trintão, campeão do Mundo em título, rico, a falar em família e ficamos derretidos. Não sabemos bem se é verdade ou se é propaganda, mas pensamos que é maravilhoso. Temos ali um conjunto de irmãos a lutar por um objectivo comum. Será que há alguém que não fique embevecido com uma ternura destas? «Espírito de equipa!», pensamos, de peito cheio.

Pois.

Mas…

A família é uma coisa muito básica, na verdade. E quando digo básica é mesmo porque está na base disto tudo. É primitivo. Qualquer antropólogo dirá que a família (ou o parentesco, como eles a definem tecnicamente) é a unidade colectiva primordial e a ligação social fundamental do ser humano enquanto animal gregário.

Se formos mais longe, a um tempo em que não se fazia sequer uma ideia do que viria a ser um antropólogo, a história da Bíblia é a história de uma família. Da mesma forma, o primeiro crime bíblico é um crime familiar – um irmão, Caim, que mata o outro, Abel. Como toda a narrativa bíblica, o fratricídio entre Abel e Caim é uma metáfora. Neste caso é uma metáfora com dois níveis.

Num primeiro nível, tenta retratar o conflito que existiu, na Mesopotâmia, entre os pastores (aqui representados por Caim), que precisavam de terras para o seu gado, e agricultores (os Abéis), a quem as roubavam – dedicando-se os pastores nómadas, depois de iniciada a vida no crime, tanto ao roubo como à pastorícia…

Num segundo nível, é a sabedoria dos antigos a avisar-nos: «Não te fies no teu irmão. Se necessário for é o primeiro a cobiçar o que é teu e a matar-te para o poder ter.»

Se olharmos para a Bíblia como deve de ser, e sem ligar aos disparates religiosos propriamente ditos, é um livro fascinante e muito educativo.

Se avançarmos alguns milhares de anos, até ao início da política, vemos que a família era magnanimemente desprezada com coisa fundamental, mas menor.

Platão era adepto do modelo de Esparta, em que os rapazes eram separados da família biológica aos seis anos e passavam a ser treinados para a guerra, vivendo em conjunto até aos 30, fazendo tudo de acordo com as necessidades de depuração da casta guerreira, desde a alimentação até à procriação com mulheres seleccionadas.

(O que vocês queriam, depois de ver o «300», era isto, não era, seus malandros? Um conjunto de guerreiros capaz de morrer no campo de batalha, treinados até ao limite, pela sua nação. Pois é, é inspirador, mas, apesar de eles dormirem todos debaixo do mesmo tecto, isso já não é bem uma família, pois não?)

Aristóteles dizia que o lar era o reino do déspota – sendo déspota a palavra grega para chefe incontestado. Era uma coisa boa, não entendam mal, déspota não tinha a conotação negativa que tem hoje, mas também era uma coisa menor. Para Aristóteles, o homem económico, o oykonomosoykos, significa casa – acabava na porta. Daí em diante é que se cumpria o verdadeiro desígnio do ser humano enquanto animal político, enquant zoon politikon, sujeito à lei da sociedade e à política, em que o homem já não era o rei entre os seus mas um igual aos outros.

Não cabe dentro de duas balizas a quantidade de livros que já se escreveram sobre o papel da família na sociedade e na política, mas eu vou directamente para o contrato social, para chamar a atenção para um ponto determinante: o que distingue o laço familiar do laço social é precisamente a ausência de contrato.

No parentesco não há contrato. Nasce-se numa família, não se escolhe a família em que se está. Ora, se há uma coisa que define o futebol, actualmente, é o contrato. Se não tem contrato é porque não é futebol – é INATEL.



Quando se fala em família no futebol é um apelo ao romantismo. À mística. Àquela força vital que, supostamente, está cá dentro e move montanhas. Uma berdadeira comoçom colectiba.

Eu, se calhar, ainda sou novinho, mas a primeira vez que ouvi falar em família no futebol tinha pronúncia do Douro Litoral.

Como se comprovaria com o decorrer dos anos, aquela família tinha muito mais de famiglia, na melhor tradição siciliana, com um padrinho a fazer de pater famílias e tudo, do que de família à antiga portuguesa.

No Europa Mediterrânica a família continua a ser uma instituição incontornável. E a coisa vai parecendo dar sinais de dar resultado.

Pensemos na Sagrada Família. Não é a do Gaudí, a outra – a do Puyol, do Xavi, do Cesc, do Leo, que cresceu toda em La Masía, fraternalmente, como os espartanos mas em bonzinhos. Porque é que nos inspira como inspira? Tanto como pela forma como joga, pelo que torna possível jogarem como jogam: o facto de se conhecerem tão, de estarem tão familiarizados uns com os outros que é como se fossem um só cérebro, uma só vontade, um só organismo. Lindo.

O que é que fez o Real Madrid? Contratou os melhores mercenários que o dinheiro pode comprar, com o condottieri máximo à cabeça, Giuseppe Mourinho, il speciale. Ainda está por se saber se o mestre lusitano descobrirá a parte incompleta do monumento catalão.



No Norte da Europa, onde não se liga patavina a isso da família – é meter os marmanjos na rua assim que for possível e deixá-los andar – o futebol traduz essa cultura. A coisa é mais técnica e menos passional. É mais profissional que emocional. Um contrato (porque se entende a vontade individual autónoma de forma mais pragmática e mais nobre) vale mais que o sentimento.

Não quer dizer que um latino não possa ser mais profissional que um germânico, mas as matrizes originais são diferentes.



Aqui, chegamos à sensibilidade pessoal. O que é que é melhor: família ou contrato?



Eu, por mim, assumo que um dos meus sonhos é ver o Benfica ganhar a Liga dos Campeões e, no fim, ouvir um jogador a dizer: «Fizemos o nosso trabalho e jogámos bem. Não é uma das equipas co elhor ambiente em que já joguei, não se pode dizer que seja um ambiente familiar, aliás, há aqui dois ou três tipos com quem eu nunca sequer falei, mas é do interesse de todos que as coisas funcionem e é para isso que trabalhamos. O ambiente no seio da equipa é estritamente profissional»



Irmãos? Irmãos é giro. Mas, se querem mesmo saber, no que toca a batalhas, eu prefiro mercenários, sobretudo se tiver dinheiro para lhes pagar. «Nunca chames um amador para fazer um trabalho profissional.»

Sou o único a achar mais praticável ter um conjunto de 23 jogadores unidos por um interesse material comum do que estar dependente da sorte de haver uma química perfeita entre 23 indivíduos egocêntricos para conseguirmos ter uma equipa de futebol a funcionar? Sem querer armar-me em Passos Coelho, isso cheira a pieguice. Ou uma Choraminguice.



Eu amo a minha família, mas a família é uma coisa caseira. Os clãs não saem da sua terra. Não é pela familiaridade que se cresce – é quando se sai de casa.



Amigos, amigos, negócios à parte. Porque, quando assim é, basta trocar de mercenários. É tudo mais fácil. Escusamos de meter ao barulho os Tribunais de Menores, o litígio de cônjuges, os psicólogos para curar as disfuncionalidades  e aquelas coisas escabrosas que todas as famílias, directa ou indirectamente, tão bem conhecem, sob o risco de não conseguirmos ter uma equipa de futebol capaz de jogar à bola…