terça-feira, 7 de fevereiro de 2012

«Veremos...»

A cena passa-se no terraço do salão em que decorria uma festa celebrando a derrota da União Soviética no Afeganistão. O congressista americano Charlie Wilson tinha sido determinante nesse desfecho ao conseguir reunir fundos para armar os afegãos contra os invasores. Para isso contara com a ajuda fundamental de Gust Avrakotos, analista da CIA e filho de um emigrante grego.

O diálogo é entre Avrakotos e Wilson, que se encontram a sós no terraço, com a festa a decorrer no interior.



GUST – Olha, conheces a história do Mestre Zen e do rapazinho de 14 anos?

(Esta fôra uma pergunta que Gust fizera ao congressista quando se conheceram, e à qual Charlie Wilson não dera, na altura, qualquer importância.)

CHARLIE WILSON – É uma coisa do tipo… Nitza… uma feiticeira grega de Aqualipa, Pensilvânia…?

GUST – É isso. Há um rapazinho que no dia do seu 14.º aniversário recebe um cavalo e toda a gente diz: «Que maravilha, o menino recebeu um cavalo!» O Mestre Zen diz: «Veremos.»

Dois anos depois o rapazinho cai do cavalo, parte uma perna e toda a gente diz: «Que coisa terrível!» O Mestre Zen diz: «Veremos.»

Então deflagra uma guerra e todos os jovens partem para lutar, excepto o rapazinho, que tem a perna inutilizada e não pode ir. Toda a gente diz: «Que maravilha!»…

CHARLIE - E o Mestre Zen diz: «Veremos»…

- Parece que entendeste.

- Gus, eu não sou estúpido.

- Não, não és estúpido, és só um congressista.

- Isto começa agora. Começas com as escolas, as estradas e os tractores…

- Gus, é uma festa.

- … reconstituis os rebanhos, crias os empregos, dás esperança…

- Eu estou a tentar, estou a tentar…

- Então tenta com mais força!

- Estou a lutar dólar a dólar!

- Certo, certo…

- Eu levei-te de 5 milhões a um bilião. Eu levei um Congresso democrata entrincheirado a seguir um presidente republicano.

- Pois isso não chega porque eu tenho um analista especializado em fundamentalismo islâmico a dizer-me que todos os fanáticos estão a dirigir-se para Kandahar como se fosse um banho turco.

- Meu Deus, Gus, tu conseguirias deprimir uma noiva no dia do seu casamento…

- Ei!...

(Gus tira o copo da mão de Charlie Wilson e deita o whisky para um vaso)

… Ouve o que eu te estou a dizer.

                (Charlie Wilson olha longamente Gus e parece capturar a delicadeza da situação.

Acaba por abraçá-lo, com uma expressão de gratidão.)

- Fizeste um trabalho incrível, para filho de um vendedor de refrigerantes.

- Veremos...



Anos depois, Charlie Wilson resumiria a intervenção americana na guerra entre a União Soviética e o Afeganistão

- Estas coisas aconteceram, e foram gloriosas. E depois fodemos tudo no fim do jogo.

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012

El salvador de la naçom

Mesmo contra uma equipa de fundo da tabela do campeonato, só foi preciso um jogo para, como nas anedotas do português, do francês e do inglês, ver a diferença entre um médio de corpo inteiro (Lucho), um mini-médio de corpo inteiro (o Moutinho)  e um belga a jogar à bola (Defour).

O golo do Lucho foi só um brinde. O trabalho esteve todo na batuta. O homem pegou naquilo e mandou tocar. Joga muito à bola. Quando quero ver um jogo como deve de ser tiro o som à televisão, para separar o trigo do joio – ou seja, a eficácia do bruá. Ao contrário de outros jogadores, que sem a histeria do público se banalizam na televisão, sem som o Lucho ainda joga melhor.

Para os portistas, depois da noite de domingo, só parece haver uma palavra adequada: «Eureka!»



Mas uma das forças do Porto nas últimas décadas foi não ter salvadores da pátria. Parecendo o oposto, os salvadores da pátria são um sinal de fragilidade. O Benfica teve muitos salvadores da pátria nos últimos 30 anos. Todos esses jogadores salvaram alguns jogos – algumas vezes o primeiro e geralmente os que interessavam pouco – mas nunca salvaram uma equipa. A força do Porto, pelo contrário, nunca foi o indivíduo e sempre foi o colectivo.

A lógica do salvador da pátria é a seguinte: «A coisa não funciona. Mas vamos buscar este tipo e é ele que vai pôr a coisa a funcionar.» Ora, isto é um engodo extremamente perigoso, sobretudo quando se fala nestes termos dentro de uma cultura cujos alicerces do sucesso estão assentes numa engenharia diametralmente oposta, que diz que «ninguém é mais importante que a equipa». Não se pode dizer que alguém está acima da equipa neste Porto, mas podemos, claramente, dizer que neste Porto há dois jogadores mais iguais que os outros: Hulk e Lucho. Com Hulk, até agora, penso que é legítimo constatar que o que tem resultado tem sido uma degeneração das soluções colectivas.

Lucho, aparentemente, tem tudo para dar certo, e parece vir a ser uma jogada de mestre, capaz de alterar a conjugação de forças até no próprio campeonato, se o Benfica abrir o flanco. Mas, para ser sincero, olho para o golo do Lucho, para o impacto do Lucho, para o luxo do Lucho, para a quase impossibilidade, para os adeptos, de dar a volta ao Lucho enquanto homem-providencial, e dou por mim a pensar no que já pensei tantas e tantas vezes a propósito das grandes entradas dos homens-providenciais no Benfica: «O fogo-de-artifício lança-se no fim, não no princípio.» Só espero que os resultados, neste caso, sejam os mesmos que foram nessas alturas…



Segundo o João Rui Rodrigues, do Record, o Porto abdicou dos 3 milhões de euros que o Marselha ainda lhe devia para ficar com o Lucho.

Eu, se fosse do Porto, achava um bom negócio. 3 milhões pelo Lucho? Se o Manko vale 3 milhões, o Lucho, mesmo com 31 anos, vale pelo menos 5. Nada a dizer, na minha opinião. Vai ficar o Lucho mais tempo no Porto que o Manko.

Mas a questão que fica é a seguinte: se, na prática, o Porto pagou 3 milhões pelo Lucho, para quê a falácia do «custo zero» que inclusivamente foi enfatizado no comunicado?

Retomando o tema de há dois dias, a ideia que passa é que a maneira do Porto enfrentar os novos tempos do futebol globalizado, em que tudo se vem a saber, continua a ser com histórias da carochinha.

Se ainda fosse num mau negócio, agora neste, com um jogador adorado pelos portistas …

Revelador, no mínimo.

*

Mais uma palavrinha só para o golo do Hugo Viana de antes do meio-campo, quando o árbitro mostrava um amarelo a um adversário, 15 segundos depois dos 94 minutos de um jogo que já não decidia nada, quando já havia jogadores a dirigir-se para os balneários, incluindo o guarda-redes, que se dirigia para o centro do terreno e foi apanhado à traição: filhadaputice.

Nunca gostei deste tipo, e pelos vistos tinha razão.

domingo, 5 de fevereiro de 2012

Temporariamente 3

Um bom domingo de futebol, em que a Taça da Liga, como competição em si, foi completamente secundária.

Vamos fazer isto por ordem cronológica.



1 – Chlesea-Manchester United. Um hino ao futebol… inglês. Porque aquilo – e não falo apenas do 3 a 3, mas de um 3-3 a que se junta, por exemplo, a reacção aos dois penáltis mal marcados, o entusiasmo do público e tudo o resto – só é possível em Inglaterra.

Um desafio: quem não viu, que tente ver, e que, no fim, tenha a ousadia de dizer que o dinheiro estraga o futebol.

A propósito do que escrevi ontem, olho para o Chelsea do Villas-Boas e para o Porto do Villas-Boas, sendo o Villas-Boas o mesmo e tendo muitos mais recursos e pergunto-me: qual é a diferença entre este Villlas-Boas e o outro Villas-Boas? É que este tem a ciência e o dinheiro, e o outro tinha a ciência e a mística. Uma mística que, como portista e como português, ele podia utilizar (e ele utilizou-a com mestria durante toda a época) a seu favor e em Londres não pode, porque não sabem o que é.



2 – O Setúbal vai descer de divisão este ano, e em relação ao jogo está tudo dito. Vi-o para ver os miúdos brasileiros do Porto, o Lucho e o Manko, mas a primeira coisa em que reparei foi no número das camisolas. O Lucho é o 3. Fez-me pensar na 2.

O facto do João Garrafão Pinto ser o lateral-direito e o capitão do Porto foi uma feliz coincidência, muito bem aproveitada pelo clube para instituir o hábito do número 2 passar a simbolizar o porta-estandarte do espírito portista dentro de campo. O 2 passou a ser o ajudante-em-campo, mais que do próprio treinador (porque o treinador passava e o 2 ficava), da mística do clube.

Alguns dos últimos «2» da história do Porto: João Pinto, Jorge Costa, Bruno Alves.

O 2 do Porto, actualmente, é o Danilo.

Isto deveria ser suficiente, mas não resisto a elaborar: um miúdo brasileiro de 20 anos, que preferiu passar 6 meses no Brasil a vir para o Porto e que tem dois dias de casa. Porque é que ele é o 2? Bom, porque «veio para «jogar a lateral-direito»…

Porque é que o Porto foi recuperar o Lucho? Para tentar recuperar a mística. E estou capaz de apostar que, no início da próxima época, a camisola 2 vai ter um novo dono – e o 3 do Lucho (que não faz sentido nenhum, diga-se de passagem, a não ser pelo que vou dizer a seguir) é já a preparar o Danilo para essa realidade. Confrontem isto com o que eu escrevi ontem e tirem as vossas conclusões. A minha leitura das intenções do Porto é simples: agarremo-nos ao que já tivemos, para ver se ainda funciona. Ou: «Crise! Solução? Não sabemos bem! O que é que sabemos?! Sabemos isto. Então façam outra vez para ver se resulta!» A contratação de Lucho é só isto.

Quanto ao impacto do Lucho, em si, vou deixar para os próximos dias – até porque antes quero ver o jogo falado.

Do Manko, não vi mais que do Kléber. Mas a diferença do Manko para o Kléber não é dentro do campo, é fora dele. O Manko tem calo no cú. Quando o Kléber não marca, via para casa cheio de nervos por não ter marcado. O Manko, duvido que vá. O que lhe permitirá manter a compostura quando fizer falta à equipa – que não é contra o Setúbal, entenda-se.

Dos dois zucas vi que jogavam na defesa.

Do Iturbe, gostava de ver, mas não vi nada.

Também tive pena de não ver o Ricardo à baliza do Vitória. Teria sido, presumo, uma recepção «à Danny».



3 – Depois da estreia do Lucho e do Manko estava-se mesmo a ver o Yannick a jogar de início no Benfica, não estava? Com o JJ, não é? Certo, certo… Mas também não devia, acho bem.

Algumas notas, só.

A Floribela está prenha que nem uma égua. Posso dar o meu tirinho para o nome da menina? Cosme Damião.

Ainda bem que o Djaló não marcou aquele golo. Não gosto de jogadores que marcam na estreia.

O Nélson Oliveira não foi ao chão uma única vez. Há uma esperança. E não jogou mal, o miúdo, não jogou não senhor.

O Javi dá cabo da cabeça aos homens. É o jogador mais odiado da Liga. Só não lhe dá quem não pode. Gosto muito disso.

Para a expulsão macarrónica do Pouga, tenho duas teorias, uma maquiavélica, a outra ainda mais maquiavélica: primeira, os árbitros aproveitam estes jogos que não contam para nada para marcar pontos na sua contabilidade dos grandes; segunda, roubam nestes jogos da treta para depois, quando têm de roubar nos jogos a sério contra os grandes, poderem dizer que daquela vez até se enganaram a favor deles.

Em relação ao Soares Dias, será que eu ouvi o tipo da SIC dizer mesmo isto antes do jogo: o Soares Dias é gestor de Recursos Humanos na Associação de Futebol do Porto? O chefe do Soares Dias é o Lourenço Pinto? Ouvi mal, não ouvi?

O Gaitán anda a ouvir das boas. Quando merece e quando não merece. Tem de ser é homenzinho e deixar-se de paneleirices. JJ, diz aí ao homem para ser homenzinho. ´só profissionais da treta.

Em relação à equipa em si, prefiro não falar. Hoje é um dia de bom humor.

Como uma jogada aos 92 minutos se torna na jogada mais significativa de um jogo que acaba 3-0 é algo que só o futebol pode explicar. Mas o Nolito, ao não dar o golo ao Cardozo, provavelmente sem saber (duvido, sequer, que o Nolito soubesse do recorde), arranjou um problema. Pode dar para o mal e pode sair para o bom: ou o Cardozo e um ou outro lhe perdoam e fortalece-se o espírito de equipa ou não perdoam e vão dar-lhe nas orelhas e a coisa pode azedar. Até porque a fuçanguice do Nolito é coisa para dar merda. Se a coisa não for bem gerida lá dentro, azeda mesmo.

Eu, por mim, proibia no princípio da época que um jogador como o Cardozo ficasse com qualquer tipo de recorde no Benfica. Mas para o Cardozo não deve ser fácil de engolir…

E, no fim, fica um Benfica-Porto que não mata, mas mói, a ser jogado a 21 de Março – uma 4.ª feira, a seguir a um Benfica-Beira Mar e a um Nacional-Porto e antes de um Olhanense-Benfica e de um Paços de Ferreira-Porto. Gosto da maneira como isto se está a compôr…



4 – Superbowl. Ainda não foi, vai começar às 23 e 30. Não é o melhor jogo do ano de futebol americano. Esses são as meias-finais e finais de conferência, onde se acham os finalistas; no Superbowl há demasiado show-off. Mas mesmo assim, para quem realmente gosta de desporto, há ali muito para admirar e ainda mais para aprender. Como desafiei em relação ao Chelsea-M. United que me dissessem que o dinheiro estraga o futebol, desafio aqui: vejam o Superbowl e digam-me se a máxima profissionalização, inserida num espírito desportivo justo, não conduz à optimização do jogo.

O meu palpite para vencedores da noite: Patriots, Tom Brady e Madonna.

sábado, 4 de fevereiro de 2012

Jogar o football (III)

O Futebol Clube do Porto é o melhor clube europeu dos últimos 35 anos.  

Podia começar de muitas maneiras diferentes, mas achei melhor começar já por aqui, não só para aquecer o sangue ao pessoal neste dia mais frio do ano como para poder também falar em distanciamento analítico. O distanciamento analítico é o grande problema dos cientistas sociais. Sendo um observador inserido no sistema que observa, o cientista social tem de se distanciar do objecto que está a analisar, sob pena das conclusões serem adulteradas pelos seus preconceitos.

No caso português, sendo um terço dos adeptos do futebol portistas e os outros dois terços anti-portistas, é difícil conseguir o distanciamento analítico suficiente para concluir, sem preconceitos, que o Porto é o melhor clube europeu dos últimos 35 anos.

Os que poderiam desempatar – os que não são portugueses – sofrem do mal oposto: estão demasiado afastados para nos ver.
 

Mas o Porto é o melhor clube europeu dos últimos 35 anos.
 

Em 1977, o Porto, principal clube da segunda maior cidade do país mais pobre e isolado da Europa Ocidental, com dez milhões de habitantes, em grande parte iliterados, em que nem televisão quase havia, saído de uma revolução política, estava há 18 anos sem ganhar um campeonato e nos onze anteriores só por duas vezes tinha conseguido ser segundo. Tinha 5 títulos nacionais no seu palmarés.

Tirando partido de todas as (poucas) condições que tinha ao seu dispor, incluindo um sistema formatado no compadrio e no caciquismo secularmente português e típico do sul da Europa, que tratou de conquistar através da modernização e profissionalização da corrupção (não foi o clube que inventou a corrupção, apenas se tornou melhor a fazê-la do que os outros), o Porto evoluiu em todas as vertentes – científica, económica, política e cultural.

Em 2011 o Porto, esse mesmo clube dessa mesma cidade desse mesmo país que continua a ser o mais pobre e periférico da Europa Ocidental, tinha ganho, entre muitos outros troféus relevantes, vinte campeonatos e duas Taças dos Campeões Europeus, e ascendido ao lugar incontestável de líder do futebol português em todas as suas componentes contemporâneas, ou seja, que não dependam de factores históricos.

Se (e é um grande se, concordo) excluirmos da equação a questão ética – que, de facto, só interessa aos portugueses, e que só nós, verdadeiramente, conhecemos – nenhum outro clube europeu fez tanto nestes anos como o Porto.

Mostrem-me outro que, perante condições semelhantes, tenha feito tanto como o Porto (tenho a certeza de que vontade não vos vai faltar e eu, por acaso, até agradecia se conseguissem…) e eu admito que o Porto não é um clube único no contexto europeu de 1977 para cá.


Não é que os outros não tenham tido os seus momentos, mas falar do futebol português depois do 25 de Abril é falar do Porto – e que isso, em termos de regime político, seja interpretado como se quiser.
 

Porque é que não damos o valor suficiente a estas façanhas portistas? À parte da questão do «um terço/dois terços» que referi logo no início, e da questão da corrupção que ficou aqui pelo meio, por uma razão ainda mais espantosa: porque não nos parece nada de sensacional. Estamos habituados.

É que, para se tornar no melhor clube europeu dos últimos 35 anos, o Porto tomou o lugar de um dos três melhores clubes europeus dos 20 anos anteriores a isso. O Benfica.
 

Entre 1955 e 1977, o Benfica, clube das classes mais baixas de um país completamente isolado do resto da Europa, ainda mais pobre que agora, que andara a saltar de estádio em estádio até chegar, enfim, em 1954, à Luz, com um futebol sem qualquer tipo de expressão internacional à excepção de uma esporádica Taça Latina, tinha ganho 15 campeonatos em 22 e disputado cinco finais da Taça dos Campeões Europeus, ganhando duas. Se não tivesse havido um Real Madrid na década de 50, eu diria o mesmo que disse do Porto: mostrem-me quem fez mais e eu admito o erro de avaliação.
 

A impossibilidade de distanciarmos a nossa análise de um ambiente que nos envolve leva-nos a não compreender perfeitamente a dimensão dos dois maiores clubes portugueses e do próprio futebol português. Menosprezamo-los. Já aqui disse e repito-o: é um privilégio, para o Benfica (e para o Sporting) ter como objectivo superar o melhor clube europeu dos últimos 35 anos, porque, se o conseguir, ficará, automaticamente, muito perto de atingir a elite futebolística internacional – assim consigam superá-lo por se tornarem melhores do que ele e não apenas porque ele se auto-destruiu.
 

O que me interessa, realmente, é que tudo isto assenta em romantismo. Numa palavra, na mística. A mística é uma palavra que pretende definir um sentimento de elevação que se torna superior à rude matéria, uma propriedade espiritual, uma exaltação acima das ciências exactas que faz com que uma entidade seja maior do que ela própria. Isto foi o Benfica. Isto foi o Porto. E não há nada mais romântico e heróico do que isto.

O Benfica encontrou a sua mística no socialismo das classes baixas, em Lisboa e não só; o Porto encontrou a mística na sua ligação à terra, como bandeira de uma cidade com características muito próprias, mas nas conquistas de ambos há um distinto cheiro a portugalidade, a sebastianismo, ao pequeno país que vai por mares nunca dantes navegados, enfrentando Adamastores e tornando-se maior do que o seu destino, fazendo o seu caminho de fé, agradecendo a Fátima pelas graças impossíveis.

A palavra método tem origem grega, e significa caminho. O método de Benfica e Porto teve muitas semelhanças e a maior é a do apelo à mística.



A grande questão é esta: «Como é que um futebol de raízes místicas, de um país ultra-conservador, representado por três entidades que, encontrando soluções diferentes, apelam todas ao mesmo método romântico para atingir o sucesso, se vai adaptar à fria globalização do futebol, em que imperam outras místicas



2004 foi o primeiro ano do resto da vida do futebol português, o ano em que este se viu atingido pela modernidade, e não há, sequer, nenhuma dúvida sobre isso. No mesmo ano o Porto sagra-se campeão europeu, Mourinho revela-se ao mundo e Cristiano Ronaldo também, ao serviço de uma selecção que, a jogar em casa, em estádios de primeiro mundo, atinge a final do Campeonato da Europa – que acaba numa verdadeira tragédia grega, o melhor desfecho possível para um romance que dura 60 anos, ao estilo Doutor Jivago.

O Porto, mais uma vez, na vanguarda isolada do nosso futebol, protagonizou essa transição melhor do que ninguém. Em Maio sagrava-se campeão europeu fazendo um subito e ineperado regresso à mística, com um treinador de Setúbal, nado e criado no folclórico futebol português, filho de guarda-redes, e com uma equipa de jogadores made in Portugal, dos lateralíssimos Paulo Ferreira e Nuno Valente aos alusados Deco e Derlei, com os dois últimos representantes da geração-garrafão (como eu gosto de chamar aos anos do João Pinto…), Vítor Baía e o recuperado Jorge Costa; em Outubro passara à dimensão europeia, investindo como nunca antes tinha investido em promissores internacionais brasileiros como Diego e Luís Fabiano, à patrão, numa aposta clara de tentativa de aproveitamento do balanço financeiro dessa super-conquista para subir a um nível inalcançável pelos dois outros grandes portugueses. Em 2004, após a conquista do titulo europeu, o Porto, olhando para o lado e não vendo mais por onde crescer, tentou globalizar-se.

É desse movimento de expansão internacional, e dos lucros da fase pós-Mourinho, que resulta a possibilidade da sucessiva contratação de jogadores de classe extra, como Lucho González, Hulk, Falcão ou James Rodríguez entre vários outros, que têm permitido ao Porto, já sem a mesma mística mas com mais acesso ao dinheiro, manter a supremacia interna, com cinco campeonatos em sete anos.



Hoje, oito anos passados, olho para um Porto que fez mais de 300 milhões de euros só em vendas de jogadores; que fez, no Verão, a sua melhor venda de sempre; que está no ponto mais alto da sua história, e vejo-o sem dinheiro para pagar transferências banais, sem crédito sequer para fazer um empréstimo obrigacionista a três anos e a vender quinhões de jogadores três meses depois de chegarem e sem lucro. Economicamente, o Porto é um fracasso, não porque esteja muito pior do que os outros mas porque nenhum dos outros teve, sequer, o potencial aproximado de receitas que o Porto teve nos últimos dez anos. Se o Porto não consegue passar a fronteira nestas condições, como passará? (E não me digam que ganhar uma Liga Europa é passar a fronteira porque para isso basta olhar para o quadro das meias-finais.)

É este clube, optimizado e ainda assim praticamente (mais do que tecnicamente) falido, que chega ao fim da primeira década de globalização do futebol português, metido em sarilhos, enrolado em off-shores para contratar suplentes, empenhado em comissões para se conseguir agarrar ao bastião romântico de ir ganhando ao Benfica nos Álvaros Pereiras e nos Danilos do além-mar, custe o que custar. Estou bastante seguro de que não chega, até por uma razão muito importante: na guerra (e em Portugal o que há é uma competição permanente entre três nações) o factor decisivo nunca é o poder absoluto, mas o poder relativo. Os nossos recursos são importantes, porque sem recursos não se faz a guerra, mas aquilo que nos permite ganhá-la é a relação dos nossos com os recursos dos outros. Podemos ter pouco, mas se tivermos mais que os outros estaremos muito mais perto de ganhar a guerra. E, hoje, este Porto civilizacionalmente no topo não tem mais recursos que um Benfica que só ganhou três campeonatos em vinte anos.



Não é minha intenção aqui dizer quem de entre os três grandes se vai sair melhor na realidade do futebol global pós-Bosman. Ler o passado, mal ou bem, todos conseguem. Ver o futuro é mais complicado.

Há factores aleatórios, pontuais ou conjunturais que se misturam, do simples factor humano – nunca sabemos onde e quando vai surgir o próximo Pedroto, o próximo Mourinho, o próximo Eusébio, e eles vão surgir de certeza – ao macro-social – em que tipo de país se vai transformar Portugal nos próximos 20 anos, se mais periférico em termos europeus, se atlântico, se ibérico, se mais rico se mais pobre, e tudo isso influencia os clubes de futebol.

Olho para os três grandes, vejo o Benfica a fazer pontes aéreas entre Lisboa e Buenos Aires e a empreender joint-ventures com as canteras de Real Madrid e de Barcelona, vejo o Sporting a ser obrigado a falar, pela primeira vez, em investidores estrangeiros para conseguir, sequer, sobreviver (ainda vai ser o Futre a arranjar um dos chineses da moda, vão ver) e, além de confirmar que o nosso futebol, de facto, saiu do quintal, tudo me parece ainda extremamente artesanal, levado a cabo por artistas curiosos, pequenos grupos de amadores metidos em camisas-de-forças de hábitos retrógrados, tentando aplicar à lógica macro-económica contas de merceeiro de província, estruturas demasiado pequenas e demasiado frágeis para resistir à exposição à pressão internacional, demasiado dependentes de fulano ou cicrano, em que se continua a falar de um presidente como patrão, como cacique, cuja ausência determinaria a falência da própria estrutura. Pergunto: conseguiria o Benfica, ou o Porto, resistir a uma eleição presidencial em que fosse eleito outro presidente? Ou as famosas estruturas profissionais viriam por aí abaixo como um baralho de cartas?



Considerando que, como já disse, falar do futebol português pós-25 de Abril é falar do Porto, sou forçado a colocar o Porto no seu lugar: à frente do comboio.



Até ao último Verão, confesso, não calculei que a causa da decadência do Porto fosse económica. Talvez por propensão pessoal para valorizar as questões culturais, presumi que o Porto viesse a decair porque os dois factores óptimos de evolução que lhe permitiram tornar-se no melhor clube europeu dos últimos 35 anos – um contexto sócio-político propício coincidindo com as pessoas certas no poder (Pedroto e Pinto da Costa) e um desafio suficientemente grande para provocar o crescimento interno (o Benfica) – estariam esgotados. Quando o Benfica venceu o campeonato de 2010, no contexto em que o venceu, tornou-se difícil conceber que o grande objectivo histórico do Porto – pôr-se acima do Benfica em tudo – pudesse ir mais longe do que tinha ido até aí. O Porto parecia ter atingido o seu limite civilizacional.

A época de 2010/2011 aparece na contra-corrente. A reacção fortíssima do Porto resultou naquela que, tudo considerado, dificilmente não será vista como a melhor época de sempre do clube, e prova que o Porto continua a ser quem mais bem trabalha em Portugal.

Se eu tivesse de apostar, diria que a época passada foi uma espécie de canto do cisne do Porto – um último momento de esplendor, que não se repetirá, e após o qual a decadência será, ainda que lenta, inevitável. Mas isso é, de facto, subjectivo. Diria que é provável que seja, mas não inexorável.

Só nestes últimos meses é que dei por mim a considerar a hipótese real de o Porto vir a ser minado pela economia – mas, depois de a considerar, percebi que fazia sentido. Afinal, é sempre pela economia que começam as revoluções – até a Revolução Francesa se inicia por causa de um imposto… É pela barriga vazia, pela falta de recursos, pelo excesso de consumo, pelo endividamento, por tudo aquilo que o dinheiro ou a falta dele provoca, que chegam as crises e que os sistemas ruem. A primeira parte que falha é sempre a do dinheiro.



Ao olhar para o estado actual do Porto, enquanto último representante da mística à antiga portuguesa, e para o contexto, não consigo deixar de pensar que ele será o primeiro mártir da globalização do futebol em Portugal.

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2012

Jogar o football (II)

Em Maio do ano passado estive em Londres durante quatro dias. Num deles, meti-me num comboio e fui visitar Cambridge, que fica uns 80 quilómetros a Norte. Organizei o meu roteiro, a universidade, as pedras do costume, claro, mas um dos locais que me despertou, previamente, mais curiosidade foi Parker’s Piece. «O sítio onde se começou a passar a bola», estava escrito.



«O sítio onde se começou a passar a bola». Pode haver alguma coisa mais simples do que isto?

Aparentemente, sim.

Reza a tradição que foi em Cambridge, e mais exactamente em Parker’s Piece, que se deixou de jogar com as mãos e que se proibiram as placagens. As Regras de Cambridge terão sido decisivas na evolução do rugby para o football. Mas foi a invenção do passe, creditada aos Cambridge XI, que realmente ficou para a história da bola. Ao inventarem o passe, os alunos universitários que jogavam o football começaram a racionalizar e a sistematizar o jogo. Até aí, o football era uma correria, igual à que podemos ver quando assistimos a um grupo de miúdos de seis ou sete anos a jogar no recreio, com tudo a chutar a bola para a frente e todos a irem atrás dela aos trambolhões. Com o passe, passou-se (passe a redundância) a dividir o campo em áreas específicas, cada uma ocupada por um jogador. A vantagem tecnológica que daí adveio deve ter sido de tal forma humilhante para os adversários que ao fim de pouco tempo já toda a gente abdicava do inocente prazer de andar a correr atrás da bola para não passar a vergonha de ser goleado. Estava inaugurada a geo-estratégia no futebol. E ainda dizem que na escola não se aprende nada…



E lá fui eu para Parker’s Piece, coxo (porque na véspera tinha feito o disparate de andar pelo menos 20 quilómetros a pé em Londres, incluindo os 3 ou 4 para ir ver o estádio do Chelsea), à espera de encontrar esse lugar de iluminação, que me revelaria os segredos mais profundos do futebol, à espera de encontrar alguém a fazer aquilo que eu faria, mesmo coxo, se tivesse alguém com quem o fazer: jogar futebol, orgulhosamente, sobre a relva onde o futebol foi inventado.



O que é Parkers’s Piece? Um descampado numa cidade com 50 mil universitários. Um relvado com o tamanho de quatro ou cinco campos de futebol, boa parte do qual, na altura, estava fechado para reimplantação da relva, cheio de buracos, com papéis de chocolate e sacos de batatas fritas espalhados pelo chão e bastante lama, por causa dos concertos. Havia alguns casais na marmelada, tipos a atirar o disco voador aos cães e, lá bem ao fundo, uma criancinha  a dar uns pontapés numa bola com o pai.

Foi com um considerável desapontamento que percebi que, para os ingleses, aquilo não é solo sagrado. Para os ingleses, aquilo é apenas um relvado.



Mas depois entendi. «E porque não? Porque é que não devia ser assim tão simples?»

O que é o futebol? O futebol é um jogo de paixões, de milhões, de massas, de adoração, veneração. Digam-me vocês o que é o futebol, cada um saberá por si.

Mas eu digo-vos o que é o football. O football é uma coisa que se faz ao domingo.

O futebol é um jogo dos ingleses, e temos de compreender isso. É todo ele inglês. Nós só o jogamos. Adaptamo-lo às nossas realidades, adulteramo-lo, jogamos qualquer coisa parecida com aquilo, mas não é bem aquilo. Nós jogamos futebol. Os ingleses, como diziam no tempo dos nossos bisavós, jogam o football.



Tenho para mim que o que nos fascina no futebol são três coisas bastante elementares, à medida da nossa ignorância natural: a simplicidade, a dificuldade e o equilíbrio. Acrescentaria a estas três a simbologia da bola, o fascínio que as esferas sempre provocaram sobre o homem, mas aí já estaria a entrar num campo esotérico, alquímico, que não cabe aqui.



O futebol é estupidamente simples. As regras são simples, a ideia é simples, é tudo tão básico que se torna apreensível à primeira até para um miúdo africano de 6 anos. «Temos de enfiar a bola ali e não podemos usar as mãos». Está feito o football. Quanto mais complicamos, mais estragamos. O fim-de-semana passado na Liga portuguesa é o exemplo acabado de como se pode transformar o futebol num exercício de pura boçalidade. Temos dois candidatos a campeão a jogar com duas equipas que subiram de divisão. Num, a equipa que subiu de divisão obriga o candidato a aplicar-se ao máximo para dar a volta ao resultado, levando-o a festejar aquele triunfo como se tivesse conquistado um troféu. Noutro, a equipa que subiu provoca a primeira derrota do candidato em quase 60 jogos e fá-lo por 3-1. O que aconteceu nesses dois dias, em termos futebolísticos, foi simplesmente extraordinário. E o que é que nós passámos, todos, literalmente, os dias seguintes a discutir? O fora-de-jogo que não foi fora-de-jogo, o penálti que não foi penálti, o cartão que não foi cartão, a fruta para dormir, o café com leite, o calabote, a restauração da independência, a utilidade do dedo polegar na evolução da espécie, o raio que o parta. O fim-de-semana que passou foi óptimo tanto para Benfica como para Porto. Falou-se muito dos seus direitos e da sua importância. Mas o que eles ganharam foi roubado ao futebol.

O futebol também é extremamente difícil de jogar. Mais de noventa por cento do futebol é erro, e para se conseguir dominar um por cento que seja é preciso uma reunião de treino, aptidões físicas e e disponibilidade mental que faz com que o futebol seja, na verdade, o desporto com bola mais difícil de jogar no mundo. Não é coincidência que, apesar de estes dois factores parecerem contraditórios, ele seja também o mais popular. As pessoas gostam de ver a dificuldade. É por isso que se inventou o offside. Sem a lei do fora-de-jogo haveria simplicidade e haveria equilíbrio, continuaria a exigir perícia dominar a bola num campo aberto com oposição, mas seria muito menos difícil marcar golos. O campo abriria muito, haveria muito espaço, o jogo tornar-se-ia deslassado, a pressão menor, haveria muito mais golos, e tudo isto, que à primeira vista tornaria o jogo mais interessante, com mais «espectáculo», como se diz, na verdade só o tornaria muito menos interessante. Seria demasiado fácil. O que torna o futebol atractivo não é a técnica – o que o torna atractivo é a técnica debaixo de pressão.

Costumo ler as crónicas de um jornalista desportivo americano que era o típico yankee em relação ao futebol. Até há uns anos, era: «Deviam fazer isto, deviam fazer aquilo, deviam meter mais golos, deviam meter menos jogadores, descontos de tempo, vídeos, e acabar com o fora-de-jogo, e isto, e aquilo». E em algumas coisas tem razão. Mas agora apaixonou-se pela Premier League, e diz porquê: «Não há nenhum espectáculo desportivo do mundo com maior grau de competitividade e exigência, física, técnica e estratégica, do que o futebol europeu de alto nível.» Exigência é o sinónimo de dificuldade. O facto de toda a gente gostar de ver a influência da sorte e do azar em qualquer actividade humana é outro que joga a favor do futebol. É suposto o futebol ser extremamente difícil, e é suposto continuar a ser um jogo de azar.

Finalmente, o equilíbrio, que decorrer das duas condições anteriores. Um jogo de futebol em que não existe um equilíbrio de forças suficiente para manter a incerteza do resultado deixa de ser um jogo de futebol e torna-se numa pasta, num exercício burocrático. Já não é jogo, é agenda.



É na protecção destes três princípios fundamentais que reside a missão da Inglaterra.



Porque é que ainda hoje a FIFA aceita que um pequeno grupo de velhos britânicos, o International Board, decida quais são as regras do jogo, quando poderia perfeitamente dizer que não, que agora o futebol já não era inglês mas um bem do mundo? Porque a FIFA, no fundo, como todos nós, sabe que só os britânicos entendem a essência profunda deste jogo, e que só eles o podem proteger como ele deve ser protegido de maneira a não degenerar completamente.

Em todas, literalmente todas as decisões que o IB toma, há um princípio que, para o resto do mundo, é perfeitamente irracional: para o International Board não só no futebol há um lugar instituído para o erro como há espaço para o arrependimento. Quando falo em arrependimento falo em aprendizagem individual e íntima. Ao manterem as regras do jogo simples, ambíguas e muito latas, ao abrirem o critério, ao libertarem o jogo de excessos de leis, de racionalizações e de jurisprudências, ao proporcionarem espaço para a liberdade individual, o que os britânicos estão a fazer não é a serem negligentes ou descuidados – o que eles estão a fazer é a dar espaço ao futebol para que, através dele, o homem, o individuo (seja jogador, treinador, dirigente ou simples observador), possa, por vontade própria, se assim o quiser, ser o melhor de si próprio, em vez do pior, e sê-lo porque quer, não porque alguém, ou porque eles (o tão tipicamente nosso eles) o obriga ou porque assim está instituído.

É essa a verdadeira essência do futebol. Uma oportunidade.

É esse espaço para o melhor que há em cada homem, por escolha própria, é essa vertente profundamente educativa, como se o futebol, mais de cento e cinquenta anos depois, continuasse a ser um hobby de jovens estudantes universitários, que faz com que aqueles que já ganharam tudo no futebol, como José Mourinho ou Cristiano Ronaldo, queiram voltar à sua origem, como que para se repurificarem. Porque é essa pureza, religiosamente guardada pela Football Association dentro de um cofre ético, que não se pode comprar, e que, por isso, não pode ser corrompida.

No dia em que a International Board e a Football Association sucumbirem à voracidade degenerescente com que o terceiro mundo futebolístico olha para o futebol, então o futebol será, definitivamente, um desporto da rua, cairá completamente nas mãos das massas, será, talvez, mais popular do que nunca – até entre os yankees, que não percebem que um jogo que acabe 1-0 pode ser um jogo fabuloso – e proporcionará alegrias em série, dinheiro em catadupa, democracia, muita democracia, democracia total, mas também terá dado um passo decisivo na sua destruição. Porque quando o futebol falhar, ao primeiro rebate numa parede que se encontra sempre, em todas as coisas que fazemos, vamos querer recuar aonde recuamos sempre quando sentimos que fomos longe de mais, vamos querer encontrar um princípio de onde recomeçar, vamos onde vamos sempre (à Inglaterra) – e quando lá chegarmos perceberemos que o football já não existe.

Isto não é um discurso elitista, nem aristocrático. Eu sou um democrata – que remédio tenho eu, se ainda não se inventou uma forma política melhor que a democracia – e não tenho qualquer pretensão em resistir à força das massas. A massa é e será, à medida que a população mundial cresce e se informa, o mais importante elemento social e político à face da Terra. Mas é bom que se perceba que a democracia nunca existiu. E quando digo nunca é mesmo nunca.



Em tudo isto, há romantismo. Sem dúvida. Mas quem não é ao menos um pouco romântico não gosta verdadeiramente de futebol. Como quem não acredita em heróis não gosta de desporto.



O facto de a Inglaterra ser vista como a nação mais tradicionalista e conservadora da Europa leva-nos, frequentemente, a esquecer que foi em Inglaterra que se inventou o liberalismo – liberalismo que podemos definir, grosso modo, como a aplicação da liberdade natural à economia e à política.



A mesma federação que rejeitou a participação em competições internacionais de futebol até à década de 50 por considerar que os estrangeiros estavam a corromper o jogo que os ingleses tinha inventado (a FA, entenda-se) foi também a primeira a admitir o profissionalismo dos jogadores como consequência lógica da evolução do jogo de hobby a actividade económica de massas.

Os mais novos não podem saber disto, mas eu lembro-me perfeitamente de, já adolescente anos 80 e 90), ver jogos de futebol ingleses em que não havia cartões e não era permitida mais que uma substituição. O jogador advertido era chamado pelo árbitro, que anotava o seu nome no livrinho (daí a expressão booked) e, em caso de ser expulso, limitava-se a chamá-lo e a apontar em direcção às cabines, mandando-lhe que se retirasse. Já quanto os suplentes, havia jogos em que só se equipava um.

Pois a federação que levou tão longe estas tradições foi a mesma a abrir, já nos anos 90, o capital dos clubes a accionistas estrangeiros, dando a personalidades tão ambíguas como Elton John, Mohamed Al Fayed, Roman Abramovich, à nova remessa de americanos, no United e no Liverpool, ou até ao actual xeque Mansour do City, o mais rico de todos, a oportunidade de possuírem a maioria financeira nas suas principais instituições futebolísticas.

Os ingleses, que inventaram as subidas e as descidas de divisão de forma a que muitos clubes, e não apenas uma elite, pudessem competir e formassem um corpo democrático que fortalecesse, pela raiz popular, o futebol, foram os mesmos que inventaram os fundos financeiros fantasmas que Vale e Azevedo trouxe para Portugal e que hoje (fina ironia…) servem de Dona Branca ao Futebol Clube do Porto – e pelas ligações aos quais o clube vai ser investigado pela FIFA.

Mas também são os ingleses, note-se, quem está, também aí, na vanguarda, ao imporem as regras nas ligações a esses fundos de jogadores que serão, como se vai tornando claro, adoptadas pela própria FIFA.



Tomamos facilmente os ingleses por tolos. O facto de serem tradicionalistas e conservadores leva-nos a confundir boa-fé com credulidade, e espírito aberto com inocência. Parecem-nos fáceis de enganar. Acreditam em tudo. Vemos o que Wenger e Mourinho lá vão fazer, a diferença que há em termos de ciência, vemos o futebol continental a entrar por ali a dentro, e pensamos que eles são os atrasados e nós os adiantados, e é o contrário. Somos nós os tolos. Somos nós os assimilados, e não eles os colonizados.

Os ingleses pegaram no seu liberalismo económico e nos seus princípios profundamente democráticos e aplicaram-nos ao futebol, fazendo dele não política mas mantendo-o como jogo. O resultado é um permanente fortalecimento do futebol inglês. Um fortalecimento deles, os inteligentes, graças a nós, os espertos. Eles, os zeladores, e nós, os experimentadores.

A propósito desta natureza ambígua dos ingleses, do zelo conservador que, na verdade, se destina a proteger as mais liberais criações sociais da civilização ocidental, recomendo, para quem se interessar por estes temas, um ensaio de Michael Oakeshott, emérito pensador inglês do século XX. O texto chama-se «A Disposição Conservadora», em inglês «The Conservative Disposition», e é brilhante, vale a pena.



O facto dos ingleses terem aberto a sua economia futebolística ao estrangeiro é o mais revelador na história do futebol. A criação da Premier League e das regras financeiras colocadas ao dispor dos clubes ingleses equivale a ouvir os templários do football dizerem isto: «Já não faz sentido resistir. O nosso jogo tornou-se maior que a nossa terra. Já não é apenas uma coisa que fazemos ao domingo e que os outros copiaram. Isto já não é caseiro. Isto agora é económico. E se é económico e não é da nossa terra, é global. Não é daqui. É do mundo inteiro. Tudo bem, vamos a isso. Nós sabemos fazer isso. Afinal fomos nós que inventámos.»



A instituição da Premier League é a verdadeira chave de pedra da globalização económica do futebol.



As pessoas costumam dizer que o mal do futebol é o dinheiro. A ideia está lá, mas não é bem isso. Os ingleses já perceberam isso há mais de cem anos. O mal do futebol, a haver mal (que não há, realmente), não é o dinheiro, é a lógica económica, o que é diferente. A lógica económica é a mesma em Kinshasa, no Porto ou em Londres, havendo muito ou pouco dinheiro – havendo ou não dinheiro, porque não tem de haver dinheiro propriamente dito para haver economia (que se entende como a utilização de recursos esgotáveis para atingir determinados fins).

Não é só por se ser rico ou se ser pobre que um clube vai prosperar. É por saber ou não conviver com a lógica económica da globalização em que, queira ou não, vai estar inserido.



O romance acabou. E é por aqui que chegaremos, amanhã, finalmente, ao nosso quintal à beira-mar plantado.

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012

Jogar o football (I)

Na Rússia, o desporto mais popular entre os claquistas de futebol é o basebol. Entre eles vendem-se mais tacos de basebol que bolas de futebol. Mas também se vendem mais tacos de basebol que luvas de basebol. Cinco vezes mais, para ser exacto.

O desporto preferido dos claquistas russos não é o basebol, na verdade: é caçar imigrantes do Cáucaso. Dezenas de imigrantes das Repúblicas do Sul (Ossétia, Inguchétia, Chechénia…) foram assassinados nos pogroms dos extremistas ligados ao futebol russo durante a última década, mas quando três deles responderam à letra e mataram um claquista de um clube russo, ao funeral compareceu o próprio Vladimir Putin, para prometer que o Estado reforçaria as leis da imigração e o controlo sobre os imigrantes.

As claques russas, de índole ultra-nacionalista, algumas mesmo neo-nazis, são uma espécie de braço armado popular do regime de Putin, e têm os respectivos privilégios por parte do novo czar democrático.



No Egipto, ao que dizia hoje, na TSF, um professor universitário, é difícil, no interior de um estádio, distinguir entre um claquista e um talhante, tal a quantidade de facas que levam. Entre os principais grupos da revolução egípcia – e repare-se aqui que uma revolução se distingue, entre outros factores, precisamente porque não é um episódio mas um processo, que se prolonga no tempo depois da revolta armada propriamente dita, até haver um novo regime instituído e não apenas proclamado – estão as claques dos dois maiores clube do Cairo, o Zamalek e o Al Ahly. Combateram em conjunto na Praça Tahrir, há um ano, e são, hoje, defensores da revolução. É já consensual que os confrontos de ontem se inserem nesse contexto revolucionário.



A cada episódio como o que ocorreu ontem em Port Said repetem os editores dos nossos jornais, como virgens chocadas e inocentes, a ladainha do costume: «Isto é não é futebol!».



Errado.

Isto é futebol.



Na Bélgica as claques de futebol foram as primeiras, há uns anos, a tornar visíveis as fracturas entre valões e flamencos que está prestes a partir a federação política em duas partes.

Em França, o Marselha e os seus adeptos assumem a despesa do Sul contra o centralismo de Paris, e das etnias muçulmanas, que têm uma comunidade imensa na cidade, contra a política falhada de integração do Estado.

Em Itália, a luta interna entre as duas equipas romanas alimenta-se, tanto quanto da rivalidade desportiva, do extremismo fascista que orienta a Lázio contra os estrangeiros, os negros e os outros italianos, democráticos.

Em Portugal, a bandeira da descentralização contra Lisboa foi empunhada por Pedroto e Pinto da Costa para justificar uma unificação em redor do Futebol Clube do Porto, que, ganhando 20 dos 38 campeonatos disputados depois do 25 de Abril, pode ser considerado, justamente, como o verdadeiro clube do novo regime – aquele que melhor aproveitou as condições políticas (desagregação da autoridade do Estado, do sistema policial e judicial, descentralização económica e política para a autarquias, entre outras) para potenciar o êxito desportivo.

No Estado Novo, o Benfica tinha sido o maior reduto do republicanismo democrático, antes de, como já como vencedor da Taça Latina e campeão europeu, ser absorvido pela propaganda salazarista, que se apoderou do sucesso do Benfica na Europa para proveito da sua política imperialista. Os encarnados – nome permitido pela censura para que não se escrevesse vermelhos (republicanos e comunistas), que era o que, de facto, a maioria dos benfiquistas era – associavam-se em cooperativas para fazer o seu estádio e organizavam eleições democráticas para eleger os seus dirigentes. Era o clube das classes baixas lisboetas, real habitat da esquerda e extrema-esquerda portuguesas, e dentro dele coabitavam tanto socialistas, como sindicalistas, como maçons. Luis Carlos de Faria Leal, por exemplo, oficial do exército e presidente do Sport Benfica, antes da fusão com o Sport Lisboa, mais tarde envolvido num golpe militar contra o Estado Novo, exilado na Bélgica e convidado, em 1954, a regressar pontualmente a Portugal para descerrar a lápide de inauguração do Estádio da Luz. É só um exemplo entre dezenas de encarnados que resistiram, até ao limite do possível, à assimilação da glória benfiquista pelo regime de Oliveira Salazar.

Em Espanha, o Barcelona é o definitivo bastião do nacionalismo catalão, como foi, no tempo de Franco, um bastião do republicanismo revolucionário, pagando caro por isso, inclusivamente com dirigentes assassinados.

Na Escócia a questão vai ainda mais fundo, desce um patamar e entra no campo religioso, com os dois clubes de Glasgow, Celtic e Rangers, a manterem acesa a fogueira das clivagens religiosas que estiveram na origem das grandes revoltas políticas na história das ilhas britânicas.



Isto não é futebol?

É claro que isto é futebol.

Eu estudo política e adoro futebol. Quando olho para o futebol vejo política em tudo, porque o futebol é política. O futebol não é senão política. Acho que é difícil encontrar-se um post, destes quase 150 que já escrevi, em que não haja política, precisamente por causa disso. E não há nada mais fácil de explicar.

Política é tudo o que envolve a constituição, a aquisição e a manutenção do poder. É fácil de identificar o momento em que o futebol se tornou, definitivamente, um factor político: foi em 1934, quando Mussolini, o inventor da política de massas que mudou o mundo no início do século XX, percebeu que as massas gostavam estupidamente de bola, e fez do Campeonato do Mundo um evento propagandístico. Daí para a frente, o futebol, como evento de massas, seria fenómeno de poder. Seria político.



O futebol é menos importante que a política, que é menos importante que a religião, a mais resistente forma de poder. É essa a ordem. E os três estão encadeados.



Quando se fala em «nação benfiquista» e em «nação portista», está-se, sem se saber, a dizer uma verdade mais funda do que se julga. Pensa-se em «nação» como uma unidade cultural, mas, sendo-o, não o é apenas. Ao falar-se em nações está-se, na verdade, a ir ao busílis da questão. Porque «nação», tal como ela tem vindo a ser definida pelos cientistas sociais, é um grupo étnico que se distingue dos outros pelas aspirações políticas à soberania. O que distingue uma etnia (que existe aos milhares) de uma nação (que existe apenas às dezenas) é que, enquanto uma etnia é um grupo de pessoas com características culturais distintivas, uma nação é uma etnia com pretensões políticas, ou seja, um grupo vasto de indivíduos que pretende sustentar na sua individualidade cultural o direito à auto-determinação e que coloca esse direito à soberania ao mesmo nível de qualquer outro direito político de qualquer outro grupo no mundo.

Se alguém pensa que Benfica, Porto ou Sporting não estão muito mais perto de serem considerados uma nação do que uma colectividade desportiva é porque vive no século XIX. E quem fala nestes três fala em qualquer grande clube do mundo.



O que as nossas virgens querem dizer com «isto não é futebol» quando vêem a política «imiscuir-se» no desporto, como eles dizem, não é isso. Porque, no fundo, eles sabem que o futebol é, todo ele, um fenómeno social e, consequentemente, político. O que eles querem dizer, na verdade, é: «Isto não é o football

Porque só há um país no mundo em que o futebol não é política. Não porque não tenha, como em todos os outros, política lá dentro, mas porque, nele, o futebol está acima da política, e não abaixo dela.



Esse país é a Inglaterra.





Por razões que se vão tornar perceptíveis nos próximos três dias (complexidade, dimensão, falta de tempo, sobretudo), vou ter de dividir este post em duas, ou três, partes, e acabo a primeira aqui.

É possível que uma parte de vós não se interesse muito por este tipo de questões, mas a mim apaixonam-me, e quando vejo política e futebol cruzarem-se tão violentamente como cruzaram ontem em Port Said, e as interpretações do que sucedeu ficarem tão pela rama, não consigo ligar patavina ao Yannick, ao Iturbe ou a uma falência técnica que é o segredo de polichinelo mais mal guardado na história do desporto nacional.

Mas também digo o seguinte: no fim deste três posts, começando em Port Said e passando por Cambridge, passando da política para a economia, vamos chegar aqui ao nosso cantinho, e falar da grande revolução futebolística que pode estar (e eu acredito que está) a acontecer debaixo dos nossos narizes sem que nos tenhamos ainda plenamente apercebido disso. E aí sim, julgo eu, poderemos falar de off-shores, de falências e de campeonatos com outro tipo de oportunidade. Porque está mesmo tudo ligado.



Penso que, no fim, não vão dar o tempo por mal empregue.

Os Floribelos podem esperar.

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012

Salada búlgara

Acabou o Janeiro louco. Se o Janeiro fosse um livro e tivesse um título seria algo como isto: «Janeiro – O Mês Em Que Tudo Acontece. E Em Que Também Há Um Bocadinho De Futebol». Se repararem bem, se fossemos fazer um resumo das coisas interessantes que aconteceram este mês estávamos aqui todo o dia.

Foi uma barrigada, como é sempre, e hoje, último dia do mês, quando toda a gente se começa a preparar para o início da segunda metade da época (incluindo os suplentes, que neste fim-de-semana vão já entrar em força na Taça da Liga), precisamos de uma coisinha leve. Uma saladinha.

*

Substituídos que estão os erros do Verão pelos futuros erros do Inverno, as centrais de propaganda clubísticas começam a fazer o seu trabalho e a transformar todos os negócios, incluindo os flops, em golpadas geniais.

«Bojinov pode render 2,3 milhões de euros», escrevem uns. Pois pode. Se os italianos o quiserem comprar. Ao contrário do Sporting, que o comprou mesmo, por 2,5 milhões, e não recebeu nada pelo empréstimo. Portanto, o Bojinov pode render 200 mil euros negativos. Por agora está só a render 2,5 milhões negativos.

«Leões poupam 400 mil euros com a saída de Bojinov», dizem outros. São novamente os salários a entrar nas contas quando dá jeito. Parece que o Bojinov ganha 80 mil euros por mês. Coisa pouca. Mas, lá está, se vamos meter os salários ao barulho, temos de considerar que, tendo ainda mais quatro épocas de contrato, para não fazer do Bojinov um buraco búlgaro de aproximadamente 4 milhões de euros o Sporting vai ter de encontrar mais cinco ou seis Lecces até 2016. Mas como o Sporting não tem problemas financeiros essa questão torna-se irrelevante. Se houvesse falcatruas lá dentro, como diz o Baltazar, é que era mau sinal…

Acho mesmo que o caso Bojinov justifica que se comece a usar a expressão «buraco búlgaro» como definição de «negócio de sonho que mete toda a gente a louvar a competência de um dirigente e que seis meses depois se transforma numa sportinguite», sendo que «sportinguite» poderia começar a ser usada como «processo de auto-mortificação em que todas as partes, numa sequência lógica, encadeiam precipitações até criarem um problema administrativamente insolúvel». O sinónimo de sportinguite, em inglês, seria clusterfuck.

É claro que, se juntarmos ao caso os salários do Ribas, que veio precisamente para o lugar do Bojinov, as contas têm de ser diferentes, mas pronto, não vamos já por aí. Vamos esperar primeiro que o Ribas se torne num erro de Inverno antes de o cortarmos para tirar a madeira para fazer a cruz onde possamos crucificar o Duque, o Freitas e o Domingos, lá mais para o Verão.

Em relação a isto, só mais duas coisas.

1 - Vamos partir do princípio que o Ribas é o jogador que treinava amarrado a uma corda, apenas por uma questão de lógica: num campo aberto onde é que se ata uma corda? Obviamente, à volta da árvore.

2 – Bastou o Domingos apanhar-se perto dos ares acolhedores de Leça da Palmeira, na reunião da ANTF, para começar a vazar que nem uma gasosa. De jogadores atados a jogadores a conta-gotas, incluindo a explicação para o fracasso da época do Sporting («não pude trabalhar como queria...chuiff»), aquilo foi uma autêntica sessão psicanalítica. «Afirmações de Domingos agitam Alvalade», titula o Record. A sério? Que estranho. Só porque o treinador sacudiu completamente a água do capote? Haveremos de voltar a este tema daqui a uns dias, de certeza, porque, até pelas palavras de Eduardo Barroso sobre a contratação do Yannick pelo Benfica («não digo mais nada porque não sou carpinteiro nem fadista»), não tenho a mínima dúvida de que estamos perante mais uma típica sportinguite – rever o significado, escrito atrás, por favor.



No Porto, a racional é a mesma: Belluschi foi vendido por 5 milhões no próximo Verão e Guarín foi vendido por 15 milhões na mesma altura. Claro que, quando chegar o Verão, vai-se perceber que o Verão não é em Janeiro (a não ser no hemisfério Sul, e, apesar de irmos bem encaminhados, ainda não chegámos lá) e que FMI não significa Fundo Monetário Italiano.

Uma pergunta: porque é que um clube não compra um jogador em Janeiro e prefere esperar por Junho, mesmo sabendo que o jogador é dinheiro empatado no clube teso em que está?

A resposta: porque quer gastar o mínimo de dinheiro possível, não tem a certeza sobre o jogador e só se a coisa correr muito bem é que o compra, até porque na altura hão-de aparecer outras alternativas e possivelmente mais baratas. Já para não falar na conjuntura económica.

É bom que se entenda uma coisa, seja Benfica, Porto ou Sporting: um jogador emprestado é um jogador desvalorizado, e a tendência em 90 por cento dos casos é que o jogador não se revalorize. Passa pela cabeça de alguém que um Manchester United sugira um negócio nestes moldes, por exemplo, por um Hulk, um Witsel, um Javi Garcia ou um… (ia a dizer o nome de um jogador do Sporting mas não me ocorre nenhum, peço desculpa)? Claro que não. A não ser em circunstâncias absolutamente anormais, de cinco ou seis lesões num sector, e é só para seis meses, não é a contar com compra nenhuma.

O empréstimo de um jogador é sempre a conclusão de um mau negócio, que começa, geralmente, ou na compra do jogador ou quando se deixa passar o momento da venda, como é o caso exemplar de Guarín. Para já, a conjugação de palavras que tem sido, historicamente, o augúrio do desastre: «Lesão mal curada atrasa Guarín». A Gazzetta dello Sport diz que leva um mês a ficar bom. Depois é só começar a treinar, ganhar ritmo de jogo na Serie A (o que não é difícil, porque é uma liga suave, onde se joga devagarinho...), ganhar um lugar no onze do Inter de Milão no momento mais crítico da época depois de passar três meses parado, esperar pelo fim da época e meter o cheque dos 13,5 milhões no correio. A coisa promete...

Para cúmulo, um jornal generalista afirma que «Belluschi e Guarín pagam Janko». Um grande negócio em qualquer parte do mundo: 0 milhões de Beluschi + 1,5 milhões de Guarín = 3 milhões de Manko.

Já em relação a Lucho, só uma ideia, bem proverbial: quando a esmola é muita o pobre desconfia.

Desvalorização de um jogador em 18 milhões de euros no espaço de um ano e meio, passagem de um salário de 380 mil euros por mês para… bom, não sabemos, mas devem ser para aí uns 10 mil, porque é por amor à camisola (agora já são três, contando com o Hulk e o Moutinho, que não ligam ao dinheiro), e um jogador prontinho a jogar?

Se for verdade, é o negócio do ano – mais do que o do Yannick no caso da coisa correr bem. Se o joelho der de si, se o TOC decidir que o Lucho tem de trabalhar muito nos treinos para ganhar o lugar ao Defour (e vá lá que já cá não está o Dois Dedos Micael...), se por acaso o Lucho estiver na curva descendente e for por causa disso que ninguém lhe pegou a pagar os tais 300 mil, se o regresso ao Porto for um sinal de acomodação mais que de paixão, então poderemos estar a assistir a mais uma sportinguite. É esperar para ver.

*

Ao fim de seis meses, o Jesus inscreve o Capdevilla para a Champions. Daqui a seis meses já deve ter emagrecido o suficiente para jogar. Sportinguite, do início ao fim, que vai ser, pelos vistos, lá para o Inverno do hemisfério Sul.

Já o Enzo não foi inscrito. Aqui, gosto de como vai acabar: o Enzo a jogar só para o campeonato, que é o que interessa, se o Benfica passar com o Zenit, e o Gaitán a jogar na Europa, que é o que lhe interessa mais e é onde ele mais rende.

O Benfica, entretanto, contrata um miúdo sueco de 19 anos para emprestar ao Leiria. A sportinguite não é só o Barkroth – a sportinguite vai ser toda a equipa B para o ano que vem. E a ver vamos se não se transforma num buraco búlgaro, quando se tiver de começar a emprestar os jogadores que já não tiverem lugar no plantel da equipa B...

O Nélson Oliveira não foi emprestado a ninguém, para poder continuar a treinar na Luz. Se as pessoas tivessem bem consciência de quantos Nélson Oliveiras – leia-se projectos falhados – é que o Benfica já teve nos últimos 30 anos vendiam-no já. E não culpo absolutamente nada o Jesus por não aproveitar o jogador. É o jogador que tem de demonstrar que é um profissional, e não um cavalinho de cortesia a quem basta apresentar o Cartão de Cidadão e comprovar a nacionalidade portuguesa, a altura e a idade para ter direito seja ao que for. Pelo contrário, o que o Nélson Oliveira mostra, de cada vez que entra em campo, é uma tendência irresistível para cair, em vez de lutar pelo seu lugar. Até os pinheiros morrem de pé, caraças!

Cada vez me convenço que a única forma do Oliveira algum dia vir a ser jogador de futebol é ir jogar dois ou três anos para Inglaterra, onde ouça as pessos a rir-se dele quando se atirar para a piscina e onde se estejam a borrifar para o que ele era enquanto júnior.

Para mim? Para mim era… emprestá-lo a um clube inglês qualquer com uma cláusula de compra de 10 milhões.